Vagas para profissionais da informação

Perguntei pro Moreno esses dias se eu podia escrever por aqui posts sobre vagas de biblio. Por hora, o BSF nunca teve uma linha editorial pra isso, mas eu acho importante que exista. A intenção não é tanto fazer a divulgação de toda e qualquer vaga de biblio, pois para isso já existem blogs especializados como o Biblioteconomia – Vagas para SP e o Biblio Vagas. Também costumam utilizar o site do OFAJ para verificar vagas e os sites do CRBs.

A intenção é divulgar vagas que são de biblio e também de vagas “que não parecem” de biblio, como aquela vaga de tagger do Netflix que divulguei aqui mais cedo esse ano.

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Semana passada abriu vaga para bibliotecário no SESC de São Paulo e as inscrições são até amanhã, 28/07. Em 2013 eu participei do processo seletivo que consiste em 5 fases e fui até a última fase, mas não rolou para mim. Durante o processo seletivo conheci pessoas incríveis e foi aí que percebi que elas tinham muito mais jeito pra vaga. Nem sempre se trata apenas de uma questão de competência, mas muitas vezes de perfil profissional mesmo – as meninas que conheci já tinham tido experiências nas Fábricas de Cultura daqui de São Paulo e certamente estavam mais aptas do que eu. Tanto que no meio do processo me peguei torcendo para minhas concorrentes, que acabaram passando. Indico essa vaga para quem tem a intenção de trabalhar com ação cultural e com bibliotecas infantis, pois o projeto de biblioteca itinerante do BiblioSesc tem este foco.

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Outra vaga que apareceu hoje no twitter pra mim foi a de Analista de Contas para a Bookwire Brasil. Achei essa vaga interessante para a nossa área pois trata-se de uma startup alemã especializada na distribuição de e-books. Acredito que um profissional da informação tenha as competências necessárias para trabalhar no mercado editorial, principalmente se for focado em gestão e um pouco também em tecnologia de informação. No link tem a descrição para a vaga e entre as habilidades é exigido inglês fluente. Para o bibliotecário ou bibliotecária que quer trabalhar com tecnologia e e-books ou já possui algum tipo de especialização nisso, é uma boa oportunidade para destaque. A vaga é para São Paulo, capital.

Conhece algum outro site que divulga vagas para a área?

Deixe dicas também nos comentários. :D

Briquet de Lemos em sua felicidade clandestina

Que amante de livros não sonhou em ter sua própria livraria? Muitos com certeza, poucos, porém levaram a cabo projeto que no Brasil pode ser visto como um investimento arriscado. Essas linhas tratam sobre o que vi e um pouco do que ouvi do obstinado Bibliotecário Briquet de Lemos, que não apenas criou uma editora, como também sua própria livraria.

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As imagens aqui contidas datam de abril de 2015 e foram realizadas objetivando proporcionar uma visão do ambiente de trabalho criado por Briquet, que entre outras coisas, tem sido exemplo de empreendedorismo no âmbito de publicações voltadas para o segmento bibliotecário e áreas afins.

O objetivo desse texto é bem mais a apresentação do espaço, por isso oportunamente tomo emprestado à apresentação criada por Moreno Barros (para o Bibliocamp Rio 2015), que definiu em poucas palavras o homem Briquet de Lemos por trás de tantas atividades:

Antônio Agenor Briquet de Lemos tem umas das carreiras mais bonitas e completas da biblioteconomia brasileira. O homem certo, no lugar certo, já fez de tudo nessa vida: bibliotecário, professor, diretor, presidente, fundador, editor, livreiro, pai de rockeiro.

Sobre Briquet povoam muitas curiosidades tendo em vista sua larga experiência em tantos campos, contudo sigamos sobre a sua Livraria, que nasceu em paralelo com a editora, e conforme ele mesmo destaca “foi à editora que nasceu primeiro em 1993 e, somente no ano seguinte deu-se início a formação do estoque da livraria que foi crescendo aos poucos”.

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A livraria foi organizada em um espaço próprio. Ambiente físico que envolve duas lojas no Setor de Rádio e Televisão Sul, de Brasília. A Briquet de Lemos  Livraria de Arte tem o foco de atuação (como o próprio nome aponta) voltada para o segmento especializado.

Nas estantes, se destacam títulos que tratam sobre Fotografia, Dança, Música, Cinema, Literatura, Design e outros. O espaço reúne também (de forma muito restrita) parte da produção da editora que atua com temática especializada em Biblioteconomia, Arquivologia e Ciência da Informação.

A fachada da Livrara pode até ser considerada discreta. Um desavisado pode passar em frente e não perceber que se trata de uma livraria de arte, contudo os tons de  verde, branco e vermelho que emolduram a vidraça e os adesivos coloridos são os elementos chamativos que se integram a iluminação interna e juntos dão um toque de graça ao letreiro que identifica a Briquet de Lemos Livraria de Arte, na parte superior.

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Engana-se quem acredita que a livraria não dispõe de títulos efervescentes do mercado livreiro. Apesar de foco no segmento das artes, estavam em evidências quando lá estive alguns títulos populares, como por exemplo A menina que roubava livros do escritor australiano Markus Zusak, que já conquistou milhões de leitores em várias partes do mundo.

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Outro título que estava também em destaque era o livro Diário da Turma (1976-1986): História do Rock de Brasília, de Paulo Marchetti. É que Briquet tem um pé na história do cenário musical brasileiro por meio de seus filhos Flávio Lemos e Fê Lemos, da Banda Capital Inicial.

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O espaço físico da livraria não é grande, contudo foi muito bem aproveitado, seja no planejamento das estantes, expositores e objetos que compõe a decoração. Há um toque meio desordenado que particularmente gosto muito.

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O ambiente comercial da livraria é agradável, contudo o destaque arquitetônico fica por conta da adoção de um mezanino que trouxe muito charme ao ambiente. Espaço restrito, é no andar de cima que Briquet passa algumas de suas tardes, escrevendo, traduzindo, lendo, recebendo amigos.

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No mezanino também estão contidos parte do estoque da livraria. As estantes seguem o mesmo padrão do andar térreo e o espaço é bem iluminado. O guarda corpo em estrutura metálica oferece uma boa visão da movimentação no andar de baixo.  Sobre o mezanino, Briquet aproveitou para dizer que já ocorreu de algumas pessoas pediram para conhecer um pouco mais o espaço visando fazer um modelo semelhante.

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Ainda no mezanino, não pude deixar de observar o toque de intimidade e carinho contidos em um quadro de aviso em estrutura de madeira e cortiça. I love vovô, em desenho de coração, bem como a capa do livro Levadas e Quebradas de seu filho Fê Lemos, o baterista do Capital Inicial, publicação que conta as aventuras e suas andanças pelos Brasis de 2006 a 2011. A Briquet de Lemos é muito família!

Passei pouco mais de uma hora conversando com Briquet que olhou para uma bolsa em tecido com a estampa da Biblioteca Pública de Estocolmo, na qual usava àquele dia, então, em dado momento comentou que talvez já estivesse chegando a hora de pensar em uma nova aposentadoria e assim ter mais tempo para viajar e quem sabe até, visitar bibliotecas…e foi assim que ele contou que talvez o tempo da Briquet de Lemos Livraria de Arte poderia estar com os dias contados.

Do ponto de vista dos negócios, de forma reflexiva Briquet destacou que o mercado livreiro está em transformação. Houve muitas quedas na procura das livrarias físicas e os antigos consumidores vem abandonando o segmento convencional, ou seja, o hábito de ir à livraria, olhar, manusear e escolher um livro para comprar. A concorrência é grande por conta das facilidades oferecidas pela Internet.

Passados três meses da visita que fiz ao Briquet de Lemos e a sua Livraria, resolvi expressar minhas considerações sobre o momento, contudo antes de escrever essas linhas enviei um e-mail visando saber se havia alguma alteração sobre o futuro da livraria, ao qual Briquet destacou:

Sim, continuamos planejando o encerramento de nossas atividades. Afinal, ninguém é eterno. Ainda não definimos a forma como se dará esse encerramento. O que posso dizer é que está decidido que não faremos mais a edição de livros em papel. O último será o meu, que está na fase final de revisão do índice e feitura da capa. Vai se chamar: De bibliotecas e biblioteconomias: percursos.

Seja como for, a Briquet de Lemos (livraria ou editora) ainda estão em funcionamento e quando já não mais estiverem certamente permanecerão no imaginário de muitos bibliotecários que ainda tomarão em suas mãos, publicações vinculadas ao seu nome. E o bom é saber que Briquet nos regalará com algo mais, ou seja, nos próximos meses teremos a oportunidade de obter aquilo que ele fez por muitos (a edição de livros), sendo que este último, de seu próprio livro que virá recheado de memórias.

Foi um grande prazer visitar a Briquet de Lemos Livraria de Arte, bem como poder conversar com o seu idealizador. Na imagem abaixo meu sorriso expressa a gratidão por esse momento Geralmente quando escrevo textos em meu blog Caçadores de Bibliotecas utilizo imagens minhas como forma de comprovar a estada nos lugares, em outros veículos como a Revista Biblioo, por exemplo, evito fazê-lo, contudo dessa vez posto uma foto junto a Briquet por pura tietagem, afinal não é todo dia que estou  ao lado de um profissional por quem tenho tanta admiração.

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O título dessas linhas faz referência ao conto Felicidade Clandestina de Clarice Lispector, que lido tantos anos atrás, produziu em mim reflexões sobre o quanto deveria ser bom ter um pai dono de livraria. Meu pai era músico, impressões como essas eu não tive, talvez possam ser respondidas por dois de seus filhos que são músicos?

……….

A Briquet Lemos Livros está localizada no Setor de Rádio e Televisão Sul, Quadra 701, bloco O, Loja 7 – Edifício Multiempresarial, Brasília, Distrito Federal. É possível adquirir os livros da livraria e da editora online: www.briquetdelemos.com.br

Bibliotecas brasileiras, de George Ermakoff

Estava eu mais uma vez falando sobre arquitetura de bibliotecas quando eis que aparece nas livrarias o belíssimo livro Bibliotecas brasileiras, organizado por George Ermakoff.

Para o grande público, um compêndio bilíngue com o histórico das principais bibliotecas do país, acompanhado de excelentes fotos. Para os bibliotecários, um mais do mesmo de informações enciclopédicas, a tradicional cronologia que vai dos jesuítas, Biblioteca Real/Nacional, passando pela Biblioteca Pública da Bahia, Mario de Andrade, até a BPE Rio [basicamente uma versão ilustrada e atualizada do Biblioteconomia brasileira no contexto mundial, do ENF].

É livro pra se ter na estante de casa, e sugiro que quem for comprar, compre logo, porque as tiragens são pequenas. A edição é de luxo, como os livros típicos de arte, então o valor de varejo é caro, está R$130 nas livrarias Cultura e Travessa. No site do MinC tem todos os dados referentes ao projeto solicitante para a confecção do livro. O financiamento foi de R$488 mil e cerca de 20% da tiragem é destinado à bibliotecas, então quem tiver na lista, faça questão de receber o seu.

Ermakoff é um dos maiores colecionadores de fotos do Rio Antigo e vêm publicando nos últimos anos excelentes crônicas fotográficas, a maioria delas provavelmente financiada por editais públicos (acho tudo muito estranho, mas não quero tratar disso agora).

No livro das Bibliotecas brasileiras tem fotos de um dos meus fotógrafos preferidos, Cristiano Mascaro:

Finalmente uma obra rica visualmente pra rivalizar com as dezenas de livros fotográficos publicados sobre bibliotecas ao redor do mundo e apresentar aos desavisados a beleza das bibliotecas brasileiras.

[quem curte livros fotográficos de bibliotecas, eu indico os lindões abaixo]

Todos os assuntos descritos nos Artigos de Revistas da área de CI e disponíveis em OAI-PMH

Assuntos

A computação permite que a gente consiga fazer coisas que antes demorariam muito tempo, em alguns minutos. Com isso, consegui levantar todos os assuntos das revistas de CI que tem OAI, em 2015-06-10, seguindo os seguintes passos:

– Harvesting do OAI utilizando o CATMANDU com output em JSON (Utilizei como base a lista “Revistas Brasileiras em Ciência da Informação” do Laboratório de Tecnológias Intelectuais – LTi” por dica do Prof. Ronaldo Araújo da UFAL.

– Inclusão dos registros (em um total de 15354) na base MONGODB.

– Extração das colunas URL e Assuntos em JSON.

– Tratamento desses dados no OpenRefine.

– Criação de visualização teste usando o Tableau Public.

Vocês podem acessar as visualizações aqui (Está dando problema no Chrome, só estou conseguindo acessar pelo Firefox)

Assuntos – 2015-06-10

Utilizem a vontade, mas será bacana se citarem a fonte.

Qual a diferença entre um curador do conhecimento e um bibliotecário?

Dia 2/06 aconteceu na Livraria Cultura – Companhia das Letras uma seção do Encontros Criativos, promovido pela jornalista Mariana Castro com os sócios fundadores da Inesplorato, Débora Emm e Roberto Meirelles. Eu e Ana Marysa fomos lá pra conferir um pouco mais sobre o empreendedorismo deles e entender como funciona a empresa e seu processo de curadoria de conhecimento.

Resolvemos escrever este post juntas falando um pouco sobre o que ouvimos e entendemos, deixando nossos comentários, que praticamente coincidiram, [entre chaves e em rosa].

Buscando na internet é possível achar várias entrevistas e referências do trabalho da Inesplorato, mas a nossa intenção foi selecionar o que consideramos insights para a área. Fiquei sabendo da empresa através da Ana – que já participou de um dos meet.ups deles – e achei o trabalho que eles fazem bastante próximo do que fazemos mas com alguns diferenciais.

A empresa

Débora, que é formada em Ciências Sociais e Publicidade e Propaganda, disse que a intenção dela ao criar a Inesplorato era fazer com que essas duas áreas entrassem em diálogo de certo modo: o mundo teórico e o mundo prático, mercadológico. Para ela o conhecimento pode ser considerado uma ferramenta com a qual as pessoas devem se relacionar de uma maneira profunda, de acordo com contexto e o significado de cada um.

Para ela é uma vitória o fato de clientes pessoa jurídica compreenderem o processo da Inesplorato e ao longo do tempo se engajarem com ele.

A empresa é de pequeno porte e, diferente da maioria dos negócios, não existe uma hierarquia pré-estabelecida no organograma. Na empresa, todos são colaboradores. Uma vez que os profissionais tem diferentes habilidades e backgrounds, suas funções não são estáticas, mas variam de acordo com os projetos recebidos, onde cada profissional se relaciona de forma diferente. Isso deve impactar muito na pluralidade, diversidade e singularidade de cada projeto desenvolvido por lá.

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As tão conhecidas caixas de conhecimento da Inesplorato.

Débora entendeu a partir de sua experiência com a empresa que um processo de curadoria é artesanal e não escalável e que apesar de a Inesplorato ser uma startup, não há intenção de aceleração no crescimento da empresa. Ou seja, o crescimento deverá ser natural e não imposto por uma injeção de dinheiro de investidores. A intenção é manter a qualidade do serviço e, por isso, a quantidade de projetos e pessoas atendidas são limitadas.

[Aliás, quem trabalha na área do conhecimento deve se atentar a isso. O processo de curadoria e o próprio processo de adquirir conhecimento exige tempo e reflexão, para que se obtenha um resultado com qualidade.]

As caixas

A empresa é conhecida pelas caixas de conhecimento que produzem, tanto para pessoas físicas quanto jurídicas. A confecção da caixa dura em torno de 45 dias, onde 3 curadores trabalham em um processo de curadoria direcionada (não necessariamente temática, mas às vezes multi-temática). Sempre é feito um diagnóstico, uma entrevista que tem o intuito não só de solucionar uma possível dúvida da pessoa, mas também para ver o contexto como um todo, o background ou a cultura da empresa a qual eles estão atendendo.

Nesta conversa pessoal, o curador pergunta para a pessoa sobre sua história de vida, suas paixões, seus heróis e o que ela espera do futuro. A partir do diagnóstico verificado sobre a necessidade de conhecimento da pessoa, os itens que compõem a caixa não são escolhidos de modo aleatório, mas todos se comunicam e fazem um sentido único, personalizado para o destinatário.

A caixa oferece um conteúdo que pode ser relevante para a pessoa, mas o que conta é toda a experiência: essa caixa é confeccionada e entregue da forma mais atraente e inspiradora possível, com anotações, tudo para fazer com que a pessoa se interesse pelo conteúdo. São entregues diversos materiais como livros, filmes, artigos, músicas, indicações palestras e às vezes até mesmo contatos de pessoas para se conhecer e tomar um café.

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Networking conta como uma parte de construção de repertório e conhecimento.

O diferencial da Inesplorato está na necessidade que eles sentem que as pessoas se envolvam com o que é produzido.

“De nada adianta você ter tido o trabalho de selecionar todo um material, ter envolvido todo um processo para a pessoa levar pra casa e simplesmente não ler, não absorver o que foi feito. Então nós tentamos fazer com que o processo seja o mais atraente e inspirador possível, pra conseguirmos este engajamento. Nós sempre pensamos em como criar uma maneira incrível de conseguir relacionar a pessoa com o conhecimento, como que eu te envolvo de uma forma diferente, como eu te apresento algo de modo diferente e como eu conecto todas as coisas que foram selecionadas de uma forma super engajadora e super inspiradora.”

Débora também diz que algumas pessoas lidam com a caixa de forma pesada, pois às vezes são convidadas a se desconectarem de algo que estavam fazendo no piloto automático e iniciarem um processo de coisas novas para serem exploradas e descobertas. E o desconforto com o convite a pensar fora da própria caixa nem sempre é algo fácil de ser empreendido por qualquer pessoa.

Roberto diz que a intenção das caixas é promover um processo de transformação “levando a cabeça das pessoas pro céu, mas mantendo os pés no chão” e ele vê a necessidade de que o trabalho mostre seu valor com a pessoa aplicando aquele conteúdo na vida pessoal, obtendo impactos práticos. São sugeridas missões para a pessoa realizar com o material recebido e é a partir disto que a empresa recebe seu feedback.

Outros Serviços

Além das caixas feitas para pessoas físicas, Débora falou um pouco sobre empresas que utilizam o serviço da Inesplorato como a Globo, Avon, Ambev e Whirpool Latin America. Os temas são os mais variados possíveis e vai desde amor e causa feminina até utilização de elétrodomésticos pelo mercado brasileiro. A empresa também oferece serviços de coaching e tem estudos contínuos que alimentam sua base de informação com curadorias temáticas, como foi citado o caso do Culturas Brasileiras.

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Inpirar. Criar. Repetir. Aprendizagem e construção de repertório como processos contínuos…

Mas acreditamos que foi necessária uma boa dose de persistência para conquistar o mercado, que é sempre difícil:

“O mercado vê o conhecimento como luxo e não como base. O processo de aprender é doloroso e nem sempre tranquilo. Às vezes pode ser difícil se permitir provocar a pensar de uma forma diferente, às vezes é mesmo mais fácil permanecer na zona de conforto. Acredito que isso mude a partir do relacionamento que cultivamos com o cliente, que quando começa a ser desenvolvido, começa a criar conteúdos próprios e trazer novas propostas. Isso tudo é muito gostoso de perceber e acompanhar”. – Débora Emm

A empresa também está está em processo de beta testing com o Mappa, que vai ser um modo de fazer com que a caixa se torne acessível a todos, também em ambiente digital. Segundo a Débora, esta foi uma forma de racionalizar o processo analógico, lidando também com o mesmo problema que outras empresas que trabalham com informação enfrentam diariamente: o seu excesso. A ideia do Mappa é que as pessoas possam mapear seus conhecimentos para identificarem o que sabem que sabem, o que não sabem que sabem e o que não sabem de fato.

A intenção é fazer com que as pessoas possam ganhar consciência das informações que consomem e os conhecimentos que adquirem e enxergar o que está sendo adicionado ao seu repertório pessoal, a partir de uma busca manipulável e customizada, num universo finito de conteúdo.

[Fiquei com uma questão depois de pensar sobre tudo o que ouvi e não consegui perguntar na hora: em relação aos clientes pessoa jurídica, o que diferencia o trabalho de curadoria da Inesplorato de um trabalho, por exemplo, de gestão do conhecimento, pesquisa de mercado e/ou inteligência competitiva?]

4 Perfil Profissional

Em dado momento, Mariana perguntou sobre o perfil profissional das pessoas que trabalham na Inesplorato, pois ao que tudo indicava, eles teriam talvez “criado uma nova profissão”. [Talvez não. Mas definitivamente eles souberam vender melhor ou ao menos de forma diferenciada o ‘produto’ conhecimento.]

Débora citou três habilidades essenciais para uma pessoa que tem a intenção de trabalhar com curadoria do conhecimento: 

  1. Capacidade de Empatia: é necessário que seja uma pessoa sensível, que consiga se colocar no lugar do outro e pensar pela perspectiva do outro (tanto para pessoas, quanto empresas) e que tenha capacidade analítica, entendendo qual é o nó a ser desatado;
  2. Abertura a multiplicidade de assuntos: a pessoa deve ser pouco afeita a especializações, ou melhor dizendo, um especialista em generalidades.
  3. Postura não preconceituosa: alguém que mantenha a guarda baixa, que seja pouco preconceituoso e tenha coração aberto de interesse para ouvir. Nem sempre o que será pesquisado é divertido.

De acordo com o entendimento dos sócios, não há uma profissão que é definida para ser um curador. A equipe é multidisciplinar e afeita a generalidades e Débora disse se interessar por pessoas que desistiram de faculdades, pois elas detém um pouco de conhecimento sobre cada área. Sobre a pegada que a pessoa precisaria ter, para Roberto é necessário ser gente fina pois “de nada adianta a pessoa ter o maior repertório do mundo se ela não está disposta a colaborar e entender a cultura da empresa”.

Durante a seção de perguntas, Ana mencionou que identifica a profissão de bibliotecário com a do curador e perguntou à Débora e ao Roberto se eles acreditavam que havia afinidade. Roberto falou que eles recebem vários currículos de bibliotecários e a Débora falou que existe sintonia entre o trabalho do bibliotecário e do curador, mas mais no processo inicial de pesquisa. Já para a área do mundo dos negócios e análise de mercado, este processo estaria mais distanciado e entendido como a parte que “o bibliotecário não entra”.

[Entendo que esta é uma visão dela, mas não posso deixar de reconhecer que existem sim vários bibliotecários que trabalham com e se especializam nas áreas de gestão do conhecimento e inteligência competitiva em negócios, trabalhando diretamente com e para o mercado. Não são todos. Não são muitos. Pero que los hay, los hay.]

Lições Aprendidas

Acho que o mais interessante desse encontro foi poder ouvir todas essas coisas, entender o que a Inesplorato faz de diferente e ver o que podemos incorporar ao nosso fazer diário. Ana citou algumas coisas que achou importante aprendermos e algumas características que o profissional da informação precisa refinar para ser um curador do conhecimento:

  • Empatia;
  • Pensar em produtos que “encham os olhos”;
  • Refletir sobre o que está sendo oferecido; [o curador tem o papel de dar uma “mastigada” no conteúdo?]
  • Propôr outras formas de pensar;
  • Capacidade de analisar o mercado/cenário atual;
  • Engajar e inspirar;

Para ela fica a questão: “hoje, o que te faria buscar um profissional da informação?”

Para mim, as palavras-chave foram duas, que inclusive podem responder a pergunta da Ana: relacionamento e engajamento.

Costumo dizer que biblioteconomia é o curso de humanas menos de humanas que conheço. Vindo de um background com jornalismo e biblioteconomia, entendo que essas duas áreas que trabalham diretamente com informação em seu fazer tem duas pretensões em comum: a de imparcialidade e objetividade. Esses dois profissionais tem perfil de pesquisadores, mas estão sempre focados em atingir um objetivo que sempre me pareceu um tanto quanto árido, em pesquisa.

A princípio entendo que esta não é a intenção de um pesquisador que é curador de informação ou de conhecimento (dois termos que também são bem distintos em nossa área e discutidos e delineados ad nauseam).

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Strychnos toxifera, planta de onde se extrai o curare. Ilustração do livro Plantas Medicinais de Köhler, de 1887.

Basicamente, acredito que a diferença entre curadores e bibliotecários seja a seguinte:

Bibliotecários entendem o termo curadoria a partir de sua origem do latim, curare, que significa cuidar, zelar, tratar.

Curadores do Conhecimento – independente de profissão que tenham – compreendem o termo a partir de sua origem no tupi-guarani, onde curare significa um veneno de ação paralisante, com efeito letárgico. Ou seja, o efeito deve ser o de catarse.

A informação organizada é importante e tem seu propósito, muitas vezes. Mas a motivação para a curadoria é diferente no sentido de desburocratizar e desacelerar esse processo de consumo de informação, que poderia não ser tão mecânico e prático mas prazeiroso, intenso.

Há diferença entre ter a certeza de receber um conjunto de informações exatas, corretas e assépticas e arriscar-se a receber informações que contenham beleza, verdade e significado pra você? Algo para pensarmos a respeito e talvez nos inspirarmos…

A livraria do dia dos namorados

Há meses eu passava em frente de uma livraria no bairro das Perdizes (zona oeste da cidade de São Paulo) e queria entrar nela. Lembro-me também de ter lido algo sobre ela nos últimos dias em um artigo sobre livrarias independentes de São Paulo.

Pois bem, no início da noite de sexta-dia do dia 12/06/2015, dia dos namorados, decidi caminhar do morro onde fica Perdizes até os baixos da Barra Funda onde fica o terminal rodoferroviário de mesmo nome.

E no meio do caminho havia a Livraria Zaccara. E é óbvio que não titubeei. Me aproximei primeiro do vidro onde haviam livros excelentes expostos bem à vista de quem passa (1!!!). Em seguida, subi as escadas e me deparei com um espaço clássico de livraria ou biblioteca repleto de estantes, expositores e mesas cheios de livros, quadrinhos, CDs e alguns DVDs.

Fui logo para uma mesa onde haviam vários lançamentos literários. E logo veio a primeira surpresa: os livros estavam dispostos nos famosos montinhos onde normalmente estão 10 ou 20 exemplares do mesmo títulos, mas na Zaccara não. Em vários casos, abaixo de um título do Amós Oz ou do Philip Roth haviam outros títulos do mesmo autor (como acontece normalmente nas estantes das bibliotecas). E para meu prazer, haviam ali vários livros com mulheres na capa (já postei em outro blog várias capas assim que selecionei quando trabalhava na Biblioteca Mário de Andrade).

Depois de alguns momentos, a esposa do dono da livraria se aproximou e perguntou se eu queria algo em especial e começamos a falar sobre alguns autores ali expostos e sobre o Clube de Leitura (ele acontece mensalmente, sempre na segunda segunda-feira do mês).

Após a chegada de outro cliente ela se afastou. O papo inicial já foi bem gostoso. Mas um segundo momento de papear estava por vir.

Após cerca de 20 minutos xeretando o térreo do lugar, e ter selecionado mentalmente uns 20 livros, mas ter levado ao caixa apenas dois (“O muro”, HQ de Fraipont & Bailly e “Submissão” do Michel Houellebecq), encontrei com o Lúcio Zaccara (o dono do negócio) no balcão. Com um suspiro, deixei os livros no balcão, e ele perguntou:
– vi que olhou o “Primeiras vezes” da Sibylline (um HQ adulto bem safadinho!), gostou? Aproveite e veja este daqui…. é um Milo Manara, conheci esses dias.

– sim, achei muito legal ele. É bem forte, não é? Respondi e continuei: e já conheço o Manara….. sabe, quando tinha uns 18 anos sem querer achei o “Perfume do invisível” dele escondido em um arquivo de aço do diretor da empresa onde eu trabalhava. Achei ele muito sacana e anos depois li várias outras obras dele. É um clássico do HQ erótico.

– pois bem, deixa eu te mostrar outra coisa que você vai gostar. O Lúcio foi até a área de quadrinhos e me trouxe outros três HQs da coleção Safadas: Verão, Natal e Encontros (ainda há também Lingeries) e disse-me indo em direção a duas poltronas que ficam num canto do lugar: vamos conversar um pouco.

Ele me falou que o Odilon Moraes (um dos melhores ilustradores brasileiros, recomendo a leitura de “Ismália” que ele ilustrou!) havia indicado a tal coleção. Ele me falou que haviam algumas ilustrações do último livro dele no primeiro andar.

Eu disse que havia conhecido o Odilon quando ele ia até a Biblioteca Monteiro Lobato (BML) pegar livros emprestados.

Falamos sobre a necessidade de diversidade musical e literária e das impressões sobre o tema naquele bairro e nas periferias da cidade.

Fomos interrompidos por uma cliente que estava procurando algo para presentear o filho e lá foi o Lúcio conversar com ela e juntos (3!!!!) selecionaram dois CDs e um livro. Enquanto isso, eu folheei as HQs cheias de sexo e erotismo elevados à vigésima potência e com algumas histórias, muito, muito engraçadas. Ainda li o último número da Granta Brasil com o tema “Infiel”.

Quando ele retornou, fomos até o primeiro andar ver as ilustrações. Lá também haviam algumas ilustrações da Laurabeatriz (que na minha época de BML fez muito sucesso com seus livros de animais brasileiros escritos em parceria com o Lalau).

Em seguida nos sentamos e ele falou dos eventos que acontecem na Livraria, do aluguel (R$300,00 por 4 horas e 2!!!!) para grupos do espaço com aquele imenso e aconchegante sofá onde estávamos naquele momento, que também tem outras poltronas, cadeiras e um conjunto de TV, Caixas de som e Receiver de dar inveja. Perguntei se poderia passar um filme baseado em um livro e discuti-lo e ele disse que alguns grupos já fizeram tal coisa. Também pensei em fazer um encontro de bibliotecários e amigos leitores no lugar (que tem uma cozinha onde são feitos bolos, café e onde há também vinhos!) e ele disse que era só falar com ele etcétera e tal.

Ao descer, com mil idéias na cabeça, ainda papeamos com outra cliente, que por acaso também levou “Submissão” para casa. A esposa (puxa, me esqueci de pegar o nome dela, sorry!) do Lúcio se juntou a nós e falamos sobre o desejo deles de não fazer um Clube do Livro com livros fáceis de ler, não porque eles se acham, mas porque acreditam que histórias complexas ou desafiantes também trazem prazer e estimulam novas ideias e críticas. e finalmente paguei os livros e recebi dois marcadores de páginas iguais. Como sou folgado, pedi para trocar um e disse que era porque colecionava-os. Ganhei de presente uns 20, inclusive um muito fofucho da Peppa Pig!

O atendimento personalizado fez a diferença e pelo país afora há muitas outras livrarias e bibliotecas pequenas como a Zaccara que para sair da crise e para enfrentar os velhos problemas (falta de clientes ou usuários, falta de acervo básico e atualizado, falta de informatização, falta de pessoal e muitas outras faltas) poderiam seguir um caminho semelhante, o caminho da comunicação e empatia.

Foram duas horas dentro da livraria e no dia dos namorados, sai apaixonado pela livraria.

Vocês devem ter visto os número seguidos de exclamações, foi meu jeito de anotar alguns pontos que comento abaixo. O que acham?

1- Exposição de acervo tem que estar na entrada das bibliotecas. A arquitetura, ou o design, das bibliotecas que ainda não são assim, deve mudar radicalmente, exceto em caso de edifícios tombados, mas mesmo assim, outras soluções devem ser tomadas.

2- Se houvessem mais salas aconchegantes nas bibliotecas, elas poderiam ser cedidas gratuitamente (ou não dependendo do status financeiro do grupo a fim de angariar recursos extras?) para grupos interessados.

3- Sinto que a entrevista de referência anda tão fora de moda, pelo menos sinto isso e posso estar errado. E a entrevista de referência do Lúcio foi incrível! Quando o leitor está na biblioteca temos que dar mais atenção a ele para que se sinta atendido e volte querendo mais. Foco nas pessoas é fundamental!

E só para constar, seguem as capas dos livros citados:

Ismália – ilustrado pelo Odilon Moraes

 

Submissão

 

O Muro

 

Safadas: Encontros

 

Safadas: Natal

 

Safadas: Lingerie

 

Safadas: Verão

Arquitetura de bibliotecas

A biblioteca física tá aí né gente. Mesmo que o surgimento e sofisticação das “TICs” digitais tenham alimentado um certo receio em relação à manutenção dos prédios das bibliotecas – o “fim das bibliotecas” -, o que parece é que as bibliotecas físicas se adaptaram às aspirações da sociedade e vêm mostrando uma interessante flexibilidade. Deu pra ter de uns anos pra cá esses modelos de biblioteca-café ou bibliotecas que se parecem com livrarias, mas o ponto principal é que a biblioteca, o seu prédio, se revelou uma TIC propriamente. Fica claro que a explosão da tecnologia digital tem sido acompanhada por um investimento em larga escala na biblioteca física, em espaços novos ou renovados quem tem a intenção de “encantar”.

Esse é um processo que se repete ao longo da história, mas de fato, nos últimos vinte anos tem havido um renascimento na construção de bibliotecas, incluindo uma grande dose de inventividade nos projetos de design e renovação. Eu já criei um site para tentar agrupar projetos de bibliotecas (Arquitetura de Bibliotecas), em particular no Brasil, e publiquei aqui anos atrás exemplos de arquitetura de biblioteca que servem de inspiração (estado da arte na arquitetura de bibliotecas em 2012, arquitetura de bibliotecas brasileiras, a biblioteca de Seattle, arquitetura e design de bibliotecas em vídeos).

Eu sempre tive comigo que um bom design de biblioteca exerce impacto crucial no seu funcionamento e engajamento com os usuários. Mas nunca consegui encontrar um debate entusiasmado sobre inovação e design de bibliotecas, nem na literatura da área, nem nos próprios cursos de biblioteconomia (exceto artigo de Antonio Miranda, monografia de Regina Garcia Brito e trabalhos apresentados nos SNBUs sobre renovação predial e padronização de segurança e acessibilidade). Além disso, nem todos os bibliotecário tem a chance de participar diretamente, ao longo de suas carreiras, de um projeto de construção ou renovação de biblioteca.

O processo de design para qualquer tipo de prédio/construção é essencialmente uma atividade de solução de problemas, e a concepção de bibliotecas não é exceção. Por esse motivo, tentando alinhar a minha vontade de explorar melhor a arquitetura predial de bibliotecas e como os bibliotecários podem aplicar metodologias de user experience e design thinking para promover um modelo de biblioteca centrado em pessoas (diferente de um modelo clássico centrado na gestão do acervo unicamente), eu decidi oferecer um curso sobre arquitetura de bibliotecas.

O curso é parte do Futuro das Ideias, que é um projeto vencedor de edital de atividades culturais do Centro Cultural Justiça Federal no Rio, que tem inovação como mote e conta com a participação dos criativos Andrea Gonçalves, Dora Steimer e Fabiano Caruso, que vão dar cursos sobre métricas alternativas, curadoria digital e ciência aberta, respectivamente. Os cursos são de curtíssima duração e o preço é camarada. Todas as informações estão no site Biblioteca Aberta.

Uma pequena parte do meu curso vai apresentar as diferentes frentes de estilo e processos de arquitetura de bibliotecas. Vejam um pouco abaixo:

a introdução do acesso livre às estantes, embora os livros ficassem presos por correntes (~1600):

o conceito de biblioteca universal, que contém todo o conhecimento disponível (~1790):

com o aumento no número de usuários, o balcão de empréstimo se torna o elemento central na arquitetura (~1890):

as bibliotecas “pré-fabricadas” de Carnegie, com espaço exclusivo para crianças (~1910):

arquitetura construtivista do modelo “worker’s club”, onde o trabalhador iria ao final do dia para se informar e instruir (1925):

a introdução do modelo escandinavo, que combina o modernismo com elementos tradicionais das biblioteca, além de utilizar materiais rústicos e de baixo custo (~1940):

brutalismo e bibliotecas universitárias introduzindo a ideia de flexibilidade de espaços, em função do crescimento do acervo (~1960):

a biblioteca como terceiro lugar, depois da casa e do trabalho/escola (~2000):

desmantelamento da abordagem tradicional, a biblioteca agora também incorpora galeria de arte, auditório, centro audiovisual, etc (~2005):