E-books para bibliotecas – curso a distância

ebooks biblioteca

Só se fala deles: e-books. O mesmo trabalho, um novo suporte. E os bibliotecários querendo saber como integrar esse recurso aos seus serviços e acervos.

O livro em papel não morreu, nem morrerá, fiquem tranquilos. Embora essa discussão pra gente não faça sentido, justamente porque se trata apenas de mais um formato, por outro lado, temos a responsabilidade da guarda e atender a demanda dos usuários, então é importante que estejamos atentos às mudanças de padrões tecnológicos (a escrita sendo a primeira tecnologia, os ebooks a mais recente). O que os bibliotecários não podem fazer é argumentar que não estão preparados para a mudança.

Já escrevi algumas coisas sobre ebooks, vocês podem ler aqui:
Alguma biblioteca brasileira já faz *empréstimo* de ebooks?
O que os bibliotecários precisam saber sobre ebooks?

Daí, o pessoal da ExtraLibris e eu decidimos criar um curso online pra oferecer uma visão introdutória ao universo dos livros eletrônicos, apresentando as alternativas disponíveis em termos de formatos, dispositivos e fornecedores no Brasil e no exterior, provendo aos participantes os conhecimentos necessários para avaliar, planejar e implementar o uso de e-books em sua biblioteca.

Vai ser mais um boa oportunidade de trocar experiências e trabalharmos juntos para preparar o terreno para os livros eletrônicos.

No site da ExtraLibris vocês encontram todas as informações sobre o curso a distância, que começa dia 28 de abril.

OBJETIVO
O curso tem como objetivo aportar conhecimentos teóricos e práticos sobre a implementação e uso de livros eletrônicos em bibliotecas, que permitam ao profissional preparar-se para introduzir ou otimizar esse tipo de recurso em seu acervo.

Ao final do curso, os participantes deverão conhecer e estar familiarizados com:
Formatos de e-books e dispositivos de leitura disponíveis no mercado brasileiro e internacional;
Principais modelos para aquisição e assinatura de e-books;
Critérios para avaliação e comparação de coleções eletrônicas e interfaces de acesso;
Estratégias para a disseminação e promoção do catálogo de e-books na biblioteca;
Tendências futuras na área dos livros eletrônicos em relação ãs bibliotecas.

INSTRUTOR
Moreno Barros
Bibliotecário do centro de tecnologia da UFRJ. Mestre em Ciência da Informação. Têm longa experiência em projetos de digitalização e curadoria digital. Participou de editais públicos de fomento e processos de aquisição de livros eletrônicos. É um dos editores do blog Bibliotecários Sem Fronteiras, foi organizador do primeiro BiblioCamp e já ministrou dezenas de palestras e cursos sobre cultura digital em bibliotecas e universidades ao redor do país.

CONTEÚDO PROGRAMÁTICO
Módulo I – Introdução aos e-books
Definição e conceitos dos e-book
Principais formatos de publicação
E-readers e outros dispositivos de leitura
Vantagens e desvantagens para os usuários e a biblioteca

Módulo II – Tipos de e-books e fontes de aquisição
Mercado editorial de e-books
Modelos de negócio para aquisição de e-books
Repositórios de livros eletrônicos e fontes de acesso aberto
Fornecedores ativos no Brasil e no exterior (distribuidores, agregadores, editoras, etc.)

Módulo III – Critérios de avaliação de e-books
Critérios de avaliação para aquisição de e-books
Comparação de plataformas e interfaces de acesso
Avaliação de necessidades dos usuários
Boas práticas de negociação com fornecedores

Módulo IV – Como implementar o uso dos e-books com sucesso
Acesso local e remoto aos e-books
Empréstimo de e-books e e-readers
Otimização do uso de e-books nas bibliotecas e em sala de aula
Estratégias para promoção do acervo eletrônico (usando as ferramentas disponíveis na biblioteca)

Módulo V – Desafios e novas tendências
Principais desafios para a implementação de e-books
Questões éticas no uso dos e-books
Tendências futuras dos e-books em relação às bibliotecas
Revisão dos temas abordados

METODOLOGIA
O curso requer aproximadamente 6 horas de participação por semana, no horário de sua preferência. Não há sessões ao vivo, e todas as atividades estão disponíveis para consulta no site do curso. Espera-se dos participantes que leiam os textos recomendados, assistam ao conteúdo online das aulas, participem ativamente das discussões nos fóruns, e completem as tarefas e atividades propostas para a semana. As aulas em vídeo e outros materiais de apoio de cada módulo serão liberados para acesso no início de cada semana. O instrutor irá monitorar regularmente as discussões nos fóruns, propor novos tópicos de discussão e responder a perguntas individuais e do grupo.

AVALIAÇÃO
O curso é totalmente online. Cada módulo conta com tarefas e exercícios para fixação de conteúdo dos conceitos apresentados e discutidos em aula que vão sendo computados continuamente no decorrer do curso. O aluno tem permissão de cópia do material didático escrito.

CARGA HORÁRIA
40 Horas

O curso tem carga horária de 40 horas que poderão ser desenvolvidas em até 60 dias corridos, a partir da data de início do curo. O curso fica disponível 24 horas, 7 dias da semana. Você pode acessar o conteúdo em qualquer hora ou lugar, no seu tempo disponível, sem horários fixos, de forma simples e prática. Após o encerramento do curso, o aluno poderá acessar o conteúdo do curso por mais 30 dias.

PERÍODO DE INSCRIÇÕES
24/03/2014 a 26/04/2014

PERÍODO DE REALIZAÇÃO
De 28/04/2014 a 20/06/2014

VALORES
PROMOCIONAL (PESSOA FÍSICA)
R$ 249*
* O valor promocional é para estudantes e profissionais que se inscrevem com CPF e pagam através do PagSeguro.
* O valor pode ser parcelado no cartão em até 12x com adicional ou no boleto bancário, através do Pagseguro.
* O curso inicia no dia 28/04/2014, portanto, se o pagamento for feito através de Boleto Bancário, o banco pode demorar até 2 dias úteis para processar o pagamento. Desta forma, pode haver um atraso pra aqueles que pagarem por boleto depois do dia 25/04/2014. Assim que o pagamento for liberado pelo banco, a matrícula é liberada no sistema automaticamente.

OFICIAL (PESSOA JURÍDICA)
A ExtraLibris pratica valores promocionais para democratizar o acesso a formação para estudantes e profissionais liberais que queiram investir por contra própria em sua formação. Para consultar o valor integral de cada curso com a emissão de notas fiscas ou notas de empenho para pessoa jurídica entre em contato com a empresa responsável no email: caruso@personates.com

VAGAS
60 (mínimo 20 inscritos)

TIPO DE CURSO
Ensino a distância (EAD) / Moodle : extralibris.com

CERTIFICADO
Serão emitidos certificados para os alunos que tiverem o aproveitamento mínimo de 70%. Consta no certificado: a carga horária do curso, os conteúdos ministrados, a marca da ExtraLibris e assinatura tanto do professor quanto do organizador do curso. Os certificados serão enviados para o e-mail do aluno ao fim do curso.

CONTATO
contato@extralibris.org

Outras informações sobre a ExtraLibris e a plataforma você encontra clicando aqui.

pergamum

Qual é o futuro do catálogo das bibliotecas?

Catálogos de biblioteca não são esteticamente atraentes (embora gosto e bunda…), mas o problema mais crítico é que, em muitos casos, eles são impossíveis de usar, especialmente para as pessoas que tentam usá-los pela primeira vez. Daí a necessidade constante de oferecer treinamentos aos usuários sobre o uso do catálogo e demais recursos da biblioteca, como a minha e muitas outras bibliotecas fazem.

Murakami já divagou sobre o catálogo, eu tive algumas ideias sobre a interface dos OPACs, e o próprio conceito de catálogo 2.0 já vem sendo abordado há algum tempo, mas nenhuma proposta que eu conheça envolve diretamente o design a partir da demanda dos usuários. Na evolução do catálogo sob a ótica do usuário temos muito a aprender com o Google em termos de usabilidade e apresentação dos resultados de busca. Claro que como um sistema de recuperação o Google funciona de maneira diferente, porque a representação de páginas web não é feita da mesma maneira como nós descrevemos registros bibliográficos (e o investimento em user experience é infinitamente maior, porque o produto deles afinal são os usuários).

A discussão técnica entre bibliotecários deveria sugerir um catálogo de biblioteca que altera seu foco sobre a informação bibliográfica (metadados) para o foco no desempenho da busca realizada pelo usuário em relação ao item de biblioteca. O catálogo funcionaria mais como uma ferramenta que auxilia as pessoas a realizar suas tarefas, e os dados bibliográficos existiriam silenciosamente em segundo plano, expostos somente quando necessário (mais necessário em uma biblioteca acadêmica do que em uma biblioteca pública, por exemplo).

Um outro aspecto é que os vendedores de software estão cada vez mais aprimorando e cobrando caro por sistemas de “discovery e delivery” (Primo da ExLibris, Chamo da VTLS, por ex), quando na verdade os usuários estão encontrando seus caminhos em sistemas de busca abertos (Google Scholar, por ex). Nesse sentido, a segunda discussão técnica deveria sugerir que as bibliotecas não devem investir em novas ferramentas de descoberta, porque o benefício para os usuários é marginal. Em vez disso, poderíamos nos concentrar em melhorar a entrega dos materiais comprados e licenciados para usuários, permitindo que os metadados sejam rastreados e anexados pelos sistemas que os usuários costumam utilizar (google, facebook e wikipedia, por exemplo).

Entendo que existe uma resistência por parte da classe em liberar seus dados, já que delegar essa função a outros players pode eliminar nosso status de guardiões. Mas se isso já é feito sem qualquer problema com os atuais provedores de software de bibliotecas (Pergamum, Sophia, Aleph, etc), pagando caro por isso, e os resultados, em termos de aceitação e apreciação estética por parte dos usuários não são satisfatórios, temos que repensar e redesenhar a maneira que nós oferecemos nossos serviços e produtos para o acesso à informação bibliográfica (e em paralelo, no curto prazo, cobrar dessas empresas que contratem designers front end, porque a interface é pífia).

Muita coisa ainda precisa ser discutida, mas por enquanto, tomando o texto da Mariana Mathias como partida, gostaria de me concentrar nos aspectos estéticos e de design dos catálogos, sob a ótica do usuário final. Assim como eu fiz anteriormente na compilação dos melhores design e usabilidade de sites de biblioteca (que aliás sofrem a maioria do mal de não contar com um catálogo que seja integrado ao próprio site ou que junte as coleções de ebooks, de periódicos e de livros), percorri alguns sites e sistemas de apresentação de livros (catálogos de bibliotecas ou não) que operando no modelo de “estante virtual” com ênfase nas capas dos livros, representam um salto qualitativo enorme na perspectiva estética de busca e recuperação.

Quando teremos catálogos de biblioteca que se pareçam com os exemplos abaixo?

Bibliotecas fora de moda

Por R$138 (mais o frete) você pode ter um capinha de iphone que parece ter sido tirada de uma biblioteca que não respeita a privacidade de seus usuários.

Por mais que eu adore a ideia de que as pessoas estariam pegando emprestado um livro de Shakespeare quase semanalmente (em 2014! Ele está disponível na internet) e, pessoalmente, gostar da iconografia dessas fichas antigas, é sempre intrigante vê-los por aí apropriados como um objeto da moda.

Kate Spade lançou uma coleção que celebra a “sagacidade literária” e um monte de itens com temática de biblioteca, o que deve significar que, pelo menos em algum lugar, as bibliotecas são vistas como algo que vale a pena investir.

Curiosamente, as assinaturas na ficha do livro são nomes de funcionários da Kate Spade. Hester Sunshine é um blogueiro da Kate Spade. Erin Graves trabalha no marketing, assim como Noura Barnes, Sophia Smith e Wendy Chan. Julie Ly é do RP e Suzanne Schloot trabalha no marketing de mídia social. Outras pessoas possuem assinaturas que são difíceis de ler (jogada inteligente) ou nomes que são demasiado gerais para rastrear.

Então, isso é legal e um monte de gente compartilhou a capinha no facebook. Ao mesmo tempo, isso meio que fetichiza a biblioteca (e faz dinheiro para os criadores do produto) sem realmente passar qualquer desse entusiasmo à própria biblioteca.

Eu tenho sentimentos semelhantes sobre as chamadas Pequenas Bibliotecas Livres. Eu gosto delas. Elas são divertidas e uma ideia elegante para as pessoas conseguirem outras pessoas interessadas em leitura e no poder de construção de uma comunidade em torno de livros. Eu sou a favor de ambas as coisas. Mas já que elas são chamadas de bibliotecas, as pessoas olham para mim e meus colegas de trabalho e dizem: “Ei, você curtiu essas bibliotecas? Não acha que deveria ter pensado nisso antes?” E minha resposta, que eu tento oferecer sem soar mal humorada, é que eu amo essas coisas, mas eu não sei por que elas são chamadas bibliotecas, em vez de estantes comunitárias, que é o que realmente elas são.

Exceto que eu sei por quê. Porque a palavra biblioteca é evocativa de um monte de coisas, de agora se estendendo profundamente no passado. Tem seriedade e vem com um monte de associações que você pode de certa forma obter gratuitamente, ligando as suas coisas com bibliotecas. Exceto que as bibliotecas têm um custo. E o trabalho exigido para mantê-las em funcionamento (o que é muito mais do que manter uma estante abastecida) é complicado, às vezes ingrato e sob o ataque de pessoas que acham que de alguma forma as bibliotecas não estão na moda o suficiente, não são maneiras ou atuais o suficiente, que o nosso dia passou. Então, sinta-se livre para deixar de me enviar esta capa de iPhone, por mais que eu tenha achado bacana, e pense sobre o porquê de as pessoas adorarem esse tipo de coisa e ao mesmo tempo não darem a mínima para as bibliotecas de sua cidade.

[tradução de unfashionable libraries]

O que mudou um ano depois do marco zero?

images

Dia 31 de março de 2013 foi anunciado pela Library of Congress como marco zero (ou dia zero) em que todos os registros criados por seus catalogadores serão inteiramente baseados na RDA. Entretanto, essa mudança implica abandonar alguns princípios para que seja adotado um novo modelo conceitual baseado em entidades, relacionamentos e atributos alterando aspectos que interferem no nosso fazer profissional.

Um ano se passou e já conseguimos perceber algumas poucas, mas significativas mudanças. Contudo, é preciso estar atento, pois surgiram empresas querendo tirar proveito da falta de conhecimento dos bibliotecários e gestores de bibliotecas para vender soluções e porções mágicas para converter os registros antes catalogados de acordo com o AACR para o RDA. Vejam esse anúncio, por exemplo, da empresa RDA Express.

É importante saber que apesar do RDA ser lançado em 2010, vem passando por atualizações e testes em várias instituições, sendo que a próxima grande atualização está marcada para 22 abril desse ano conforme site oficial do RDA.

No site do RDA aparecem as instituições que já implementaram RDA para a catalogação entre elas Biblioteca Nacional da Austrália, Biblioteca Nacional de Conselho de Cingapura, Biblioteca Britânica, Cambridge University Library, Universidade de Warwick, Biblioteca do Congresso, National Agricultural Library, National Library of Medicine, Brigham Young University, Universidade de Stanford, Universidade de Chicago espalhadas por Austrália, Cingapura, Reino Unido, Inglaterra, Estados Unidos.  Tem várias outras implementações acontecendo como na Biblioteca Nacional do Canadá, na Holanda, Nova Zelândia, Filipinas, Escócia, entre outras. Para facilitar isso, em 2011, foi criado o RDAToolkit como plataforma para implementação do novo código, onde o interessado deve fazer uma assinatura para ter direito a licença de uso.

Isso tudo mostra que os bibliotecários precisam acompanhar as novidades em relação ao RDA para não perderem oportunidades ou terem prejuízos, seja em eventos, leitura de publicações ou mesmo nas mídias sociais como o grupo chamado Catalogação e Metadados do facebook. Além disso,, o bibliotecário e doutorando Fabrício Assumpção e o bibliotecário da UCS Marcelo Votto são exemplos de jovens profissionais que estão estudando/atuando em pesquisas e aplicações sobre RDA hoje no Brasil e disseminando as novidades e tendências sobre o novo código e seus modelos conceituais. Ana Carolina Siomionato, faz doutorado na UNESP e atualmente professora colaboradora na UEL também é outro exemplo de uma jovem pesquisadora da área. Quem quiser conhecer mais sobre RDA, procure pelo nome desses bibliotecários no slideshare que aparecerão várias palestras e apresentações deles por todo país.

Fabrício além de estudar aspectos que envolvem essa temática no mestrado, ministra um curso sobre as tendências da catalogação pela empresa Content Mind e em seu blog atualiza informações sobre o assunto sugerindo bibliografias para quem quiser se aprofundar.

Antes deles, a professora Plácida L. V. A. da Costa Santos, da UNESP, já vinha pesquisando a temática, inclusive orientou Rosa Maria Rodrigues Corrêa na dissertação do mestrado finalizada em 2008. O professor Fernando Modesto, da USP, também pesquisa há alguns anos o surgimento e evolução do novo código de catalogação. Existem vários outros pesquisadores no país, mas fiz um pequeno recorte de alguns que venho acompanhando para me atualizar sobre esse assunto.

O importante é saber que, assim como ocorreu com o AACR que evoluiu desde 1967 até o surgimento das discussões em torno do RDA em meados de 2003 durante a II Conferência de Paris, ocorrerá o mesmo com o novo código visto que trata-se de um trabalho coletivo envolvendo várias instituições de diferentes países que estão adaptando, testando, ajustando, etc.

Sobre o idioma,  o RDA está sendo traduzido para francês e alemão, sendo que o chinês e espanhol estão em andamento, mas não há previsão para o lançamento. No Brasil, além da UCS que está em fase de testes com o FRAD no Pergamum, não há mais nenhuma instituição (a não ser que estejam fazendo sem divulgar). O RDA ainda não foi traduzido para o português e há dúvidas entre os analistas e proprietários de empresas de softwares para automação de bibliotecas no Brasil, principalmente em relação ao formato, pois o mesmo é compatível com Dublin Core e com o MARC. Imagina-se que por isso não exista oficialmente nenhuma instituição no Brasil implementando o RDA, pelo menos foi essa informação discutida no II ENACAT junto ao Encontro Internacional de Catalogadores, ocorrido no Rio de Janeiro em novembro passado.

Paralelo às publicações sobre o assunto, o bibliotecário deve buscar capacitação para o entendimento dos novos instrumentos de descrição, padrões de metadados como Dublin Core, MODS, modelos conceituais (FRBR, FRAD, FRSAD), linguagem XML adotada para o intercâmbio de dados na Web, pois serão eles que nortearão os trabalhos dos bibliotecários com a implementação do novo código no século XXI.

Contudo, é importante esclarecer que como estamos em fase de testes e mudanças, tem outras tecnologias sendo estudadas para atender a demanda de descrição, representação e recuperação de objetos digitais visando promover o relacionamento entre esses itens, independente de sua manifestação, como os projetos de Linked Data que permitem a interoperabilidade e interligação entre dados em bibliotecas, museus e arquivos conforme Professor Marcondes, da UFF, explica. Além disso, tem as iniciativas relacionadas ao BIBFRAME, iniciativa da Library of Congress, que fornece uma base para descrição bibliográfica na web.

Por isso e tudo mais que percebo as áreas de descritiva (catalogação) e temática (indexação) estão cada vez mais próximas, principalmente no que tange à web semântica  e tudo que ela pode contribuir para a organização e representação de conhecimento.  Daí a necessidade do bibliotecário estar atualizado sobre essas tendências para se apropriar desses conceitos e se inserir nessa discussão.

OBS: Imagem tirada do blog do Fabrício Assumpção.

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A grande ilusão

Trabalhei com documentação audiovisual durante toda a minha vida profissional. Comecei organizando uma filmoteca, no tempo em que o suporte para o cinema amador ou para filmes destinados ao uso didático era a película em 16 milímetros. Depois veio um caótico acervo de fotografias e slides, mais tarde aprendi a catalogar discos e partituras e quando surgiu o videocassete, criei uma videoteca. Trabalhei com conservação, migração de suportes, digitalização, tratamento da informação, seleção e aquisição, atendimento ao público. Desenvolvi metodologias de tratamento para esses documentos e preparei dois manuais para compartilhar a experiência.

Tive o privilégio de ter sido aluna da Johanna Smit, convivido e trocado ideias com ela ao longo desses anos todos de trabalho na ECA/USP. Lá no início dos anos 80 os professores do curso de biblioteconomia já diziam,  com aquela carinha de professor  que descobriu algo muito importante e está alertando as crianças para o fato , que “bibliotecários não trabalham só com livros, hoje as bibliotecas tem vários tipos de documentos” e que “nós trabalhamos com informação, não com livros”. E provavelmente já diziam coisas assim antes, mas eu não ainda estava lá para ouvir.

O problema é que essas afirmações, que gosto de chamar de “a grande ilusão” por motivos essencialmente cinematográficos, só se tornavam realidade palpável na aula da Johanna, enquanto as demais tratavam mesmo de livros. E lá se foram mais de 30 anos. Suportes que na época ainda não existiam hoje já estão praticamente extintos, e os alunos de hoje continuam reclamando da mesma coisa: por mais que se apregoe o contrário, nos cursos de biblioteconomia só se aprende a trabalhar com livros.

Para suprir as deficiências de sua formação, bibliotecários que trabalham com documentos audiovisuais sempre recorreram à experiência de instituições com tradição na área. Eu fiz isso no início, e quando já estava mais à vontade nesse universo comecei a receber visitas de colegas para conhecer o trabalho da Biblioteca da ECA. Conheci dessa forma muitos bibliotecários preocupados por não saber como tratar o acervo sob sua responsabilidade que, provavelmente, acabaram aprendendo. Também conheci administradores que nem imaginavam que um bibliotecário poderia resolver seu problema, até porque nem sabiam o que era um bibliotecário, e outros que não conseguiam contratar um profissional com experiência ou algum conhecimento na área de audiovisual. Mas o pior foi topar com gente que contratou bibliotecário e se arrependeu, porque o profissional só enxergava uma forma de trabalhar, seguindo aquelas normas que aprendeu na faculdade como se fossem leis de um livro sagrado e teimando em ignorar a opinião do usuário de seus serviços.

Sempre tive a sensação de que estávamos perdendo uma fatia do mercado de trabalho que poderia ser muito promissora para bibliotecários, por culpa, sobretudo, da formação deficiente que recebemos. Já reclamei disso no meu blog Dia de Greve, Dia de Trabalho, onde reclamo o tempo todo.

Fora do discurso vazio, na dura realidade, o status quo da biblioteconomia só se preocupa com documentos textuais e não entende muito outras linguagens e formas de expressão. Reparem que não estou me referindo a simples diferenças de suportes, a coisa não é tão simples como pretendem os que dizem que “é tudo a mesma coisa, só muda o suporte”. Para atender às necessidades de  usuários de acervos de imagens ou de música, por exemplo, é preciso saber um pouco mais do que preencher corretamente os 007 e 300 do MARC. Já escrevi um pouco sobre essa questão em alguns textos de um blog sobre documentação audiovisual, onde também reclamo bastante (porque sou uma bibliotecária muito rabugenta):

http://imagemfalada.wordpress.com/2012/05/14/antes-que-o-diabo-saiba/

http://imagemfalada.wordpress.com/2012/04/07/calma-uma-coisa-de-cada-vez/

http://imagemfalada.wordpress.com/2012/01/11/a-regra-do-jogo/

Um artigo recente da revista El Profesional de la Información, Rasgos y trayetorias de la documentación audiovisual,  coloca em termos bastante concretos os meus receios. O autor observa que ao crescimento da produção e circulação da informação audiovisual não estaria correspondendo um crescimento proporcional da gestão documental desses conteúdos. Muito se produz e se usa, mas pouco se organiza. Uma das razões apontadas no artigo é o fato de que os novos sistemas digitais de produção audiovisual transferem ao próprio produtor-usuário funções antigamente próprias dos arquivos, como a inserção de metadados e a busca. E bota o dedo numa ferida antiga e difícil de curar:

Observa-se que existe uma distância entre os programas acadêmicos das graduações em biblioteconomia e documentação, orientados monograficamente à gestão da informação, e os perfis profissionais demandados em determinados setores, como o multimídia, onde a gestão de informação não ocupa um lugar independente, mas integrado em outras atividades da organização (p. 11).

Resumindo, não conseguimos dar conta do recado, apesar de existir a demanda por um serviço que, em tese, poderíamos oferecer. E a tecnologia veio ajudar os próprios usuários potenciais e negligenciados a se virarem sem nossa preciosa mediação.

Outro ponto interessante do artigo é a constatação de que grandes arquivos audiovisuais analógicos permanecem, na Espanha, à espera de projetos de conservação e digitalização. O risco de perda de documentos é expressivo: gravações em vídeo da década de oitenta, por exemplo, já mostram sinais de deterioração. Uma das dificuldades a enfrentar é a falta de um inventário nacional desses arquivos. Sabe-se que existem talvez milhares, mas não se sabe ao certo o que contêm. Suponho que a situação no Brasil não seja lá muito diferente, embora o autor mencione nosso país como um dos que inseriram “a preservação do patrimônio audiovisual dentro de um conceito mais amplo de identidade cultural” (p. 8), dado sem dúvida positivo.

Minha conclusão pessoal é que  ainda somos necessários, embora a perda de espaço já seja um fato. Ainda existem acervos importantes precisando de tratamento, mercado potencial para profissionais da informação que saibam o que fazer ou aprendam muito rápido.  Mas quanto tempo ainda resta, isso eu não sei.

 

You almost feel like you could fly without the plane...

Fora da biblioteca

Passadas as comemorações do Dia do Bibliotecário, acredito que se fizermos um levantamentos dos temas mais abordados nesses eventos, entre os três mais recorrentes vamos encontrar “a atuação do bibliotecário fora da biblioteca” (os outros dois vocês já sabem quais são).

Não é um tema novo. Eu mesma já participei de paineis e projetos sobre o assunto em outros anos. Mas a popularidade desse tema me faz pensar se isso, na verdade, não é um reflexo do temor de estarmos nos tornando obsoletos e termos que encontrar novos espaços e atribuições onde todo esse nosso precioso conhecimento adquirido na graduação possa ser útil e relevante.

Desde que escolhi o curso de Biblioteconomia, nunca tive a pretensão de trabalhar em uma biblioteca. Lembro-me perfeitamente de que quando ainda estava indecisa entre prestar vestibular para Enfermagem, Arquitetura ou Matemática, li a descrição do curso de Biblioteconomia no Guia do Estudante e achei fantástica a ideia de uma profissão criada para organizar informações, e a promessa de que poderia atuar em empresas, escritórios, grupos de pesquisa, etc.

De fato, em mais de dez anos de carreira, nunca cataloguei um livro profissionalmente, só trabalhei no setor de referência por duas semanas (ou cobrindo o horário de almoço de algum colega), e tive uns seis meses de experiência na indexação, mas ainda assim fiquei conhecida como “a bibliotecária que trabalhou na ONU”. Só que o restante do tempo lá, eu estava fazendo outras coisas.

Como bibliotecária, já fui coordenadora de publicação eletrônica, diretora de tecnologia, gerente de marketing, gerente-geral de vendas de publicações, gerente de relacionamento, e especialista em treinamento, entre outras funções. Em algumas delas, a formação em Biblioteconomia foi determinante para conseguir a vaga, em outras foi um diferencial importante, e em todas, os conhecimentos de organização e gestão de informação foram fundamentais para ser bem sucedida.

Aos que pretendem seguir esse caminho fora das bibliotecas, tenho duas recomendações:

Primeira: Cultive habilidades e competências adicionais aos seus conhecimentos básicos. Pode ser em áreas instrumentais, como idiomas ou tecnologia; em áreas afins, como arquitetura da informação ou publicação eletrônica; ou ainda em tópicos totalmente diversos, como economia, finanças, políticas públicas, sustentabilidade, que lhe trarão uma nova perspectiva e podem abrir caminhos para atuar nesses contextos.

Segunda: Não tenha medo de se desapegar da nossa eterna bandeira da informação como bem social. Todos nós temos em nosso cerne bibliotecário o ideal do compartilhamento, da disseminação, da democratização da informação. Mas o mercado não está nem aí para isso. Empresas querem vender produtos, outros grupos querem vender ideias. E você vai ser pago para isso. Mas não se preocupe, pois no meio do caminho, você vai acabar descobrindo maneiras de socializar a informação sem entrar em conflitos com seu empregador.

Biblioteconomia Pop

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