10592988_1510601165818521_8316115770562555117_n

Por uma pedagogia da descoberta

A escola mata a descoberta. Ela entrega o conhecimento pronto em um currículo, definido de acordo com aquilo que é considerado por autoridades como conhecimento válido, todo o resto é excluído.

O que há nesse “resto”?  Toda  a experimentação, o conhecimento informal, aprendido nas vivências, os saberes tradicionais, transmitidos pelos mais velhos e a descoberta.

A serendipidade (o princípio da descoberta) só existe quando há liberdade de escolha por caminhos diferentes e aleatórios. A descoberta se dá, principalmente, quando não estamos procurando exatamente aquilo. Esse processo, que não pode ser controlado, é inexistente na grade escolar. Na escola somos todos considerados incompetentes para adquirir nosso próprio conhecimento. E nunca somos estimulados à fazê-lo.

A palavra serendipidade surgiu em referência a um antigo conto persa sobre os três príncipes de Serendip. Em suas aventuras eles viviam se deparando com situações inusitadas e fazendo descobertas ao acaso, encontrando respostas para questões que eles sequer haviam feito. Tinha um pouco de sorte envolvida, mas era a sagacidade dos meninos, um toque genial de mentes abertas para a descoberta, que realmente operava a magia.

Essa qualidade da descoberta não é de forma alguma privilégio de mentes superiores. É uma habilidade e um posicionamento, uma forma de ver o mundo, disponível para qualquer pessoa.

Bibliotecas são um excelente lugar para o exercício de serendipidade e nas escolas elas ficam isoladas das pessoas, que mal as frequentam nos intervalos das aulas. Temos alguma contação de história, mas livros previamente escolhidos. Mesmo quando eles não são previamente escolhidos, raramente é o acervo todo ofertado à escolha e, mesmo que fosse, ainda assim seria apenas uma atividade controlada, algum livro teria de ser “o escolhido”, os outros permanecerão inertes nas estantes.

Em geral é proibido (ou vigiado) andar entre as estantes a procura de livros que não se sabe ainda quais são. Isso é feito em nome da “ordem” que sempre vem de cima, e está sempre acima da vivência, pairando sobre ela, limitando suas possibilidades libertadoras.

Há um tipo de acesso à biblioteca, que é transversal, não linear, baseado quase que puramente na serendipidade. Ao conduzir uma leitura, indo de um texto à outro, colecionando trechos diferentes de cada livro sobre determinado assunto, eu estou praticando a descoberta. Aliás foi essa prática que desenvolveu a ciência como hoje a conhecemos e o acesso não linear a uma coleção de livros foi o embrião do hipertexto.

Essa forma de utilizar acervos surgiu lá na antiguidade e se tornou evidente na Biblioteca de Alexandria. Foi responsável pelo desenvolvimento da filologia, da geografia, da matemática, da astronomia, da medicina, da poesia, da filosofia, da história e de muitas outras ciências e saberes.

A serendipidade foi a maior consequência de se acumular livros em uma sala. Isso desenvolveu toda uma economia e ergonomia do saber: o surgimento da paginação, da referência, da citação, da glosa, do colofão, dos sumários, dos resumos, das bibliografias, dos catálogos, das resenhas… Todas essas formas de diálogo entre livros, escritores e leitores.

Uma biblioteca nunca é a mesma para duas pessoas praticando a descoberta. As escolhas, mais ou menos aleatórias, de livros formam caminhos, percursos diagonais, transversais, paralelos, pela coleção toda. O prazer de percorrê-los é como o prazer do desconhecido, é desbravar os universos não domesticados do saber. E é possível reiniciar muitas vezes o processo, sempre com resultados inusitados.

A autonomia de percorrer estantes, pegar livros, ler um trecho, procurar outro livro, compará-lo com um terceiro, pegar uma enciclopédia e, partindo de um verbete qualquer, buscar outras fontes, é o principio do amor pela pesquisa e do autodidatismo. São qualidades fundamentais para o pensamento livre e crítico.

Não provoca nenhum espanto a pouca valorização das bibliotecas e da leitura nos dias de hoje. É um reflexo do que a educação faz com a descoberta. Em tempos em que a homogeneidade de ideias, comportamentos e atividades e a obediência a regras, controles e currículos é o que está nas bases da educação, é bastante esperado que as capacidades revolucionárias e libertadoras das bibliotecas sejam caladas.

A busca por uma forma de educação livre passa pelo resgate da descoberta como veículo da potência humana. A serendipidade em substituição à rigidez curricular. É aí que está a importância esquecida das bibliotecas!

Em uma pedagogia da serendipidade, a descoberta é o centro do aprendizado e  a biblioteca é o coração da escola.

9469185471_0615abb16a_o

Mensagem da Amazon para leitores e autores, contra a editora Hachette: disputa sobre o preço de ebooks

Pouco antes da Segunda Guerra Mundial houve uma invenção radical que abalou os alicerces da publicação de livros. O livro de bolso. Nesta época ingressos de cinema custavam 10 ou 20 centavos de dólar, e os livros custavam U$ 2,50. O novo livro em formato brochura custava 25 centavos – era dez vezes mais barato. Os leitores adoraram o livro e milhões de cópias foram vendidas apenas no primeiro ano.

Por ser tão barato e com muito mais gente sendo capaz de comprar e ler livros, você deveria pensar que o “establishment” literário daquele período teria celebrado a invenção do livro de bolso, certo? Não. Em vez disso, recuaram. Eles acreditavam que os livros de bolso de baixo custo destruiriam a cultura literária e prejudicariam a indústria (para não mencionar suas próprias contas bancárias). Muitas livrarias se recusaram a armazená-los, e os primeiros editores de bolso tiveram que usar métodos não convencionais de distribuição – locais como bancas de jornal e farmácias. O famoso escritor George Orwell saiu publicamente e comentou sobre o novo formato de bolso, “se os editores tivessem juízo, se juntariam contra os livros de bolso e suprimia-os”. Sim, George Orwell estava sugerindo conspiração.

Bem … a história não se repete, mas ela rima.

Avançando para os dias de hoje, é a vez do e-book ser alvo de oposição da entidade literária. Amazon e Hachette – uma editora americana e grande parte de um conglomerado de mídia de 10 bilhões de dólares – estão no meio de uma disputa comercial sobre e-books. Queremos [Amazon] preços mais baixos pelos e-books. Hachette não. Muitos e-books estão sendo lançados por U$ 14,99 e até U$ 19,99. Isso é injustificadamente elevado para um e-book. Com um e-book, não há nenhuma impressão, não há re-impressão, não há necessidade de prever retornos, nenhuma devolução de produto, nenhuma perda de vendas devido a falta de estoque, sem custos de armazenagem, sem custos de transporte, e não há mercado secundário – e-books não podem ser revendidos como livros usados​​. E-books podem e devem ser menos caros.

Talvez canalizando a sugestão de décadas atrás de Orwell, Hachette já foi pega ilegalmente conspirando com seus concorrentes para aumentar os preços dos e-books. Até agora, as partes pagaram U$ 166 milhões em multas e restituição. Conjurar com os seus concorrentes para aumentar os preços não era apenas ilegal, como também foi muito desrespeitoso para os leitores de Hachette.

O fato é que muitos operadores estabelecidos na indústria tomaram a posição de que os preços mais baixos dos e-books vão “desvalorizar os livros” e ferir as “Artes e Letras”. Eles estão errados. Assim como os livros de bolso não destruíram a cultura do livro, apesar de serem dez vezes mais baratos, tampouco os e-books. Pelo contrário, as brochuras acabaram rejuvenescendo a indústria do livro, tornando-a mais forte. O mesmo vai acontecer com os e-books.

Muitos dentro desta indústria pensaram pequeno. Eles acham que os livros só competem contra os livros. Mas, na realidade, os livros competem com jogos para celular, televisão, filmes, Facebook, blogs, sites de notícias grátis e muito mais. Se queremos uma cultura de leitura saudável, temos que trabalhar duro para ter certeza que os livros sejam competitivos em relação a outros tipos de mídia, e uma grande parte disso é trabalhar duro para tornar os livros mais baratos.

Além disso, os e-books são muito elásticos em relação ao preço. Isso significa que, quando o preço cai, os clientes compram muito mais. Nós quantificamos a elasticidade de preços dos e-books a partir de medições repetidas em muitos títulos. Para cada cópia de um e-book vendido a U$ 14,99, ele venderia 1,74 cópias se o preço fosse U$ 9,99. Assim, por exemplo, se o cliente comprasse 100 mil cópias de um determinado e-book a U$ 14,99, os clientes iriam comprar 174 mil cópias desse mesmo e-book por U$ 9,99. A receita total de U$ 14,99 seria $1.499.000. A receita total a U$ 9,99 é de U$ 1.738.000. O importante a notar aqui é que o preço mais baixo é bom para todas as partes envolvidas: o cliente está pagando 33% a menos e o autor está recebendo um cheque de royalties 16% maior e será lido por um público 74% maior. As fatias do bolo são simplesmente maiores.

Mas quando uma coisa tem sido feito de certa forma por um longo tempo, resistir a mudança pode ser um instinto automático, e os poderosos interesses do status quo são difíceis de mover. Nunca foi do interesse de George Orwell suprimir os livros de bolso – ele estava errado sobre isso.

[o restante da carta é um pedido da Amazon ao público para que entrem em contato com a Hachette reivindicando a diminuição de preços e acabar com práticas nocivas à autores e leitores. Veja a mensagem na íntegra: A Message from the Amazon Books Team]

Liberdade do Leitor

A liberdade do leitor

Finalmente criei coragem e vergonha na cara para escrever um pouco sobre o tema que mais me fascina, a escolha do leitor a respeito do que vai ler, ou seja, sua liberdade de escolha, e como podemos, ou não, influenciar nessas escolhas como bibliotecários, professores, livreiros, pais ou mesmo amigos.

Mas antes de escrever sobre um dos vários empecilhos para que os leitores tenham essa liberdade de ler o que quiserem no país, vou apresentar alguns textos que abordam a liberdade do leitor recolhidos em leituras aleatórias (ou seriam libertárias?!) que fiz sobre o tema no último mês.

Começo a jornada com um trecho do excelente ensaio “Como se deve ler um livro?”, escrito por uma das maiores escritoras do século XX, Virginia Woolf. O ensaio foi publicado recentemente no Brasil pela Cosac Naify no livro “O valor do riso”. [Vale a pena ler o livro todo, é muito bom!]

Quero enfatizar, antes de tudo, o ponto de interrogação no fim do meu título. Ainda que eu pudesse responder para uso próprio à pergunta, a resposta só se aplicaria a mim, não a você. De fato, o único conselho sobre leitura que uma pessoa pode dar a outra é não aceitar conselho algum, seguir os próprios instintos, usar o próprio bom senso e tirar suas próprias conclusões. Se nos pusermos de acordo quanto a isso, sinto-me então em condições de apresentar algumas ideias e lhes fazer sugestões, pois você assim não permitirá que elas restrinjam a característica mais importante que um leitor pode ter, sua independência. Afinal, que leis podem se podem formular sobre livros? A Batalha de Waterloo foi sem dúvida travada em certo dia; mas será Hamlet uma peça melhor do que Rei Lear? Ninguém o pode dizer, cada um deve decidir por si mesmo essa questão. Admitir autoridades em nossas bibliotecas, por mais embecadas e empelicadas que estejam, e deixar que elas nos digam como ler, o que ler e que valor atribuir ao que lemos, é destruir o espírito de liberdade que dá alento a esses santuários. Em qualquer outra parte podemos ser limitados por convenções e leis – mas lá não temos nenhuma.

 

Leiamos agora o que diz o velho Roger Chartier (A aventura do livro, 1998):

A queles que são considerados não-leitores lêem, mas lêem coisa diferente daquilo que o cânone escolar define como leitura legítima. O problema não é tanto o de considerar como não-leituras estas leituras selvagens que se ligam a objetos escritos de fraca legitimidade cultural, mas é o de tentar apoiar-se sobre essas práticas incontroladas e disseminadas para conduzir esses leitores, pela escola mas também sem dúvida por múltiplas outras vias, a encontrar outras leituras. É preciso utilizar aquilo que a norma escolar rejeita como um suporte para dar acesso à leitura na sua plenitude, isto é, ao encontro de textos densos e mais capazes de transformar a visão de mundo, as maneiras de sentir e de pensar.

 

Tenha um pouco mais de paciência leitor, as citações já estão acabando. Tanto é assim que as próximas citações todas são de uma única autora. Trata-se da Graça Ramos, detentora do blog  tri-legal “A pequena leitora: literatura infantojuvenil” que fica dentro do portal do jornal carioca O Globo. Um achado!
Na primeira citação apresento dois trechos com constatações que ela alcançou depois de ler a pesquisa de uma professora da UFRJ que analisou os hábitos de leitura de alunos de escolas do Rio de Janeiro e de Barcelona. O artigo pode ser lido aqui.

Nas duas cidades, garotas e garotos não têm quase nenhuma ingerência na escolha de títulos adotados pelo sistema de ensino e apresentam resistência ao que é determinado como leitura pela escola. “Os alunos não são escutados e raramente são atraídos pela forma como lêem autores clássicos”, afirma a estudiosa.

Como ter liberdade de leitura sem poder escolher o que ler? A leitura na escola, e respectivamente, nas bibliotecas escolares, deve mudar, isso está muito claro há muito tempo. Apesar da distribuição de livros pelos governos municipais, estaduais e federal, o quadro não muda, porque? Será que esses programas estão pensando na bibliodiversidade de leitura? Será que ninguém lê? Claro que não, conforme indica a pesquisa, os alunos estão lendo outras coisas.
E por falar nisso, a Graça Ramos escreveu o seguinte em outro artigo:

Penso ainda ser melhor a companhia/leitura de qualquer livro do que a ausência total do hábito de ler.

 

Pronto! Termino o caminho das citações com um depoimento pessoal da própria Graça:

Foi na biblioteca pública da SQS 308, em Brasília, que fiz algumas das melhores descobertas de minha vida de leitora. Respeitada em minhas escolhas, conheci autores os mais diferentes, pois o importante era o prazer de ler. Ainda acho que essa é a primeira premissa para formar leitores.

 

Muito bem, chega de enrolação, agora é minha vez. E já que a arapuca está armada, tenho que dizer que um dos empecilhos para a plena liberdade do leitor, principalmente do leitor com menos recursos financeiros, está na situação constrangedora de nossas bibliotecas, principalmente as públicas e as escolares de escolas públicas, mas não só nestas instituições.

E porque a situação é constrangedora?

Não quero generalizar a situação, mas pelo que conheço posso dizer que a situação em muitas bibliotecas públicas é essa, pois muitas não possuem efetivamente políticas de desenvolvimento de coleções que lhes ofereçam condições de proporcionar real liberdade ao leitor. Muitas vivem de doações, programas de distribuição de obras (com títulos escolhidos pelo doador e não pelo doado) e vários outros tipos de editais não permanentes, como o último edital da Fundação Biblioteca Nacional que na minha opinião, mais serviu para desovar livros encalhados do que para ampliar a diversidade e riqueza dos acervos das bibliotecas. Admito que colegas bibliotecários discordam de mim, e com razão, quando falo do edital da FBN, afinal, para quem não tem recurso para adquirir nada, quando tem a possibilidade de escolher algo, aquilo foi tudo de bom! Mas não posso deixar de me manifestar, mesmo depois de anos do acontecido.

Também não posso esquecer daquelas bibliotecas que possuem recursos, mas não suficientes para grandes compras e para proporcionar uma quantidade mínima de títulos que possibilitem essa liberdade.

E há também a dificuldade, que já enfrentei  de, com poucos recursos, ter de escolher entre clássicos e livros premiados e os best-sellers e livros de autoajuda. Nas duas últimas bibliotecas onde trabalhei as discussões para determinar a quantidade de obras a serem adquiridas de cada uma dessas categorias sempre gerou discussões sem fim, levando até a xingamentos explícitos em trabalhos acadêmicos!
Acredito que tenha aprendido algo relacionado à quinta lei de Ranganathan: para cada leitor o seu livro.

Essa discussão toda deve ser estimulada em nosso meio sempre, e com o tempo, pode ser possível chegar a parâmetros que atendam a todos os gostos.

E novamente, a Virginia Woolf pode ajudar (desculpa, mas não poderia deixar essa citação de fora; é a última mesmo!):

Para gozar de liberdade, se a platitude for desculpável, temos porém, é claro, de nos controlar. Não devemos desperdiçar nossas forças, com incompetência e inépcia, esguichando água por metade da casa a fim de molhar uma roseira apenas; devemos discipliná-las, com rigor e energia, no ponto certo. Essa pode ser uma das primeiras dificuldades com que nos defrontamos numa biblioteca. Qual será “o ponto certo”? Pode bem ser que lá não pareça haver senão acúmulo, senão amontoamento confuso. Poemas e romances, histórias e memórias, dicionários e publicações do governo; livros escritos em todas as línguas por homens e mulheres de todas as raças, idades e temperamentos acotovelam-se nas prateleiras. E do lado de fora o burro zurra, as mulheres tagarelam no poço, os potros galopam pelos campos. Por onde vamos começar? Como vamos pôr ordem nesse caos multitudinário e assim extrair do que lemos o prazer mais amplo e profundo?

 

Para finalizar essa questão, posso me usar como exemplo de leitor.
Gosto de ler os clássicos, quadrinhos, um ou outro best-seller (principalmente os de fantasia) e literatura brasileira e estrangeira contemporânea de autores premiados ou que recebem críticas positivas da famigerada, e em eterna crise, crítica literária brasileira. Também sou leitor de poesia, de literatura periférica paulistana e outras coisas meio estranhas….. Enfim, sou um multi-leitor, nem pior nem melhor que qualquer outro, diga-se, um pouco diferente de muitos leitores que preferem focar em poucos mundos, cada um à sua maneira.

E como leitor, o que sinto nas bibliotecas públicas da cidade onde moro quando a questão é bibliodiversidade e liberdade do leitor?
Infelizmente, não sinto essa liberdade tão citada, seja na Biblioteca de São Paulo, na Mário de Andrade, na Biblioteca do Centro Cultural São Paulou ou na Biblioteca Temática de Poesia Alceu Amoroso Lima.
Na Biblioteca de São Paulo a aquisição de acervo é mais ágil, mas como ela foca bastante em best-sellers, exceção seja feita aos livros ligados ao Prêmio São Paulo de Literatura, ela não agrada minha parte-leitor de livros não populares. Não localizo lá vários autores brasileiros premiados e bem criticados.
Nas outras bibliotecas citadas, em alguns momentos não encontro nem uma coisa ou nem outra, ou a demora é grande devido a toda a imensa burocracia enfrentada pelos colegas para fazer compras e aos constantes cortes e congelamentos de recursos que me canso esperar. Por outro lado, como são bibliotecas com grandes acervos, me divirto pegando clássicos e mais clássicos da literatura.
E mais, senti o mesmo em outras bibliotecas onde entrei: em Barueri-SP, no Rio de Janeiro (apesar de ótimas, o leitor chato aqui sentiu falta de mais variedade em Manguinhos e na Rocinha), em Brasília (na Biblioteca Demonstrativa – e judiada, na Biblioteca “Nacional” de Brasília em uma ramal de cidade satélite), Recife, Fortaleza e Florianópolis entre outras.

Infelizmente, nos últimos tempos tenho sentido essa liberdade nas grandes livrarias. Foi nelas que tive de comprar pelo menos 75% dos livros que tive vontade, desejo ou necessidade de ler!
Tenho alguma condição de fazer isso, apesar de ter prometido à minha conta bancária que não utilizarei recursos dela esse mês para aquisição de livros.
E quem não tem condições, como fica?!
Em tese, quem não tem condições é um leitor sem liberdade, meio que aprisionado em plena era dos e-book/e-readers!
Como muitos ainda não possuem boa internet ou bons smartphones, sequer tem condições de participar das comunidades (piratas) de livros digitalizados e distribuídos a quem contribui com 10 ou 20 reais mensais….

Enfim, é tempo de conquistarmos essa liberdade para nós mesmos e para os nossos leitores, familiares, amigos, cachorros e gatos. Precisamos LUTAR por recursos para bibliotecas, sejam elas públicas, comunitárias ou escolares. Precisamos participar de todos os Planos Municipais ou Estaduais do Livros. Precisamos pressionar governadores, deputados, senadores, prefeitos e vereadores!

Só assim o leitor brasileiro poderá ser livre!

Só assim poderei chegar em uma biblioteca e encontrar o livro “A Primavera da Pontuação” do Vitor Ramil. Obra que peguei na estante de uma livraria depois de ver um monte de pontos, virgulas, travessões, tremas e outros componentes da língua portuguesa na capa, ler a engraçada apresentação da Natércia Pontes, e mesmo como livro plastificado pegar e levá-lo sem nenhuma referência. Sem nenhuma referência anterior tive acesso a um dos livros mais divertidos que já li na vida e que só depois descobri que havia sido patrocinado pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo e publicada pela conceituada Cosac Naify. Liberdade total!

Só assim poderei chegar em uma outra biblioteca e encontrar o livro “A vida do livreiro A. J. Fikry” da Gabrielle Zevin. Best-seller internacional cuja capa com várias janelinhas coloridas me chamou a atenção e que, por acaso, ao pegar vi que se tratava de uma história ligada ao mundo do livro, mas contada de forma suave e divertida, sem a erudição de um Alberto Manguel, lançada pela Paralela, o selo de livros “pop” da Companhia das Letras. [Em tempo, o livro é muito bom]. Liberdade total!

Quero essa liberdade total nas bibliotecas, e quero logo!

Edson Nery da Fonseca , Escritor , Bibliotecário e Professor Universitário em frente a sua casa em Olinda , Pernambuco

Pequena bibliografia sentimental de Edson Nery da Fonseca

Dormiu Edson Nery da Fonseca. Ficamos tristes, todos os bibliotecários perdemos alguém importante. Não existe um bibliotecário brasileiro que não tenha o conhecido de alguma forma. Se não o conheceu, não pode ser bibliotecário. Escrevi diversos textos em blogs falando do que o Professor significa para mim, e minha homenagem a ele acabou sendo sugerida pelo Moreno Barros: bibliografia sentimental. O sentimento, nesse caso, é o meu em relação à bibliografia escrita pelo Professor. É o que eu tento fazer abaixo: Bibliografia sentimental de Edson Nery da Fonseca.

Os primeiros contatos que tive com Edson Nery da Fonseca foram através dos textos que eu lia no Diário de Pernambuco e no Jornal do Commercio. Sempre gostei de ler a parte de cartas/opinião, e vez ou outra notava que os textos dos quais eu mais gostava estavam os desse autor Edson Nery da Fonseca. Com aquele nome gravado, acabei notando que um livro que meu pai tinha em casa chamado “O Recife de Manuel Bandeira” tinha sido organizado justamente por aquele autor de quem eu gostava de ler as opiniões. O livro é muito belo, grande, os poemas trazem textos de Edson sobre Bandeira e sobre o poema em si. É uma aula tanto de poesia quanto de pernambucanidade. E o livro me aproximou tanto de um quanto de outro.

recife de manuel bandeira

Alguns anos depois, já na universidade, vez ou outra escutava algum professor, especialmente as professoras Gilda Verri e Silvia Cortez, magníficas sempre, citando Edson Nery da Fonseca. E nunca foi en passant. Parece que falar do Professor era uma aula à parte. E foi nesse meio tempo que através de um Grupo de Estudos formado pelos amigos Uiraquitan Coutinho (in memorian) e Karine Villela que tive contato com o texto que posso dizer mudou minha visão da biblioteconomia: “Ser ou não ser bibliotecário”. Sentimentalmente, esse texto me fez decidir que profissional eu buscaria ser dali pra frente. Ainda nesse momento de fervor, em uma palestra organizada pelo Grupo de Estudos, tive o prazer de conversar um pouco com o Professor e receber dele o livro “Acertos e Desacertos da Biblioteconomia”, com dedicatória e tudo.

Também das mãos do Professor, mas sem autógrafo, recebi o livro “Ramiz Galvão”, uma biografia que mostra toda a humildade de quem se sente alegre por escrever sobre uma outra pessoa.

A Professora Gilda Verri, em 2001, por ocasião dos 80 anos do Professor, organizou um livro chamado “Interpretação de Edson Nery da Fonseca”, em que várias personalidades falam sobre o Professor. Um livro belíssimo e importante para entender quem é uma pessoa na visão de quem o conhece. Como o Professor caminhou por várias áreas, religiosa, acadêmica, militar, literária, jornalística, Freireana, então o livro é um apanhado de grandes nomes que escreveram sobre Edson Nery da Fonseca ao longo do tempo, de Álvaro Lins a Eva Grabouer, dando suas opiniões. É um livro que ainda hoje gosto de ler um relato ou outro a fim de entender como alguém sempre polêmico consegue ser tão grande, sem forçar a simpatia.

edson nery

Quando li “Vão-se os dias e eu fico”, que é a sua autobiografia, por assim dizer, fiquei impressionado como o Professor foi tão forte em tantos momentos de sua vida. Sempre altivo e forte. Foi um homem sem medo.

E me preparo para ler “Estão todos dormindo”, seu livro de memórias em homenagem aos amigos que dormiram antes dele. Vou aguardar mais um pouco.

page-numbers

Identificadores de fragmento e DOIs

Antes do conteúdo (ou quase tudo nessa vida) se tornar digital, nós utilizávamos números de página para descrever uma seção específica de um livro ou documentos longos (antes disso, os manuscritos antigos usavam o folio). Os números das páginas migraram para os livros eletrônicos, e leitores como o Kindle oferecem algum tipo de suporte à paginação e sequência de páginas.

folio

Para conteúdo na web, podemos usar o identificador de fragmento #, por exemplo, https://en.wikipedia.org/wiki/Fragment_identifier#Proposals para visualizar uma seção específica de uma página web. Como a ligação a este fragmento é tratada depende do tipo MIME do documento, e será, por exemplo, feita de formas diferentes para uma página de texto e um vídeo – YouTube entende minutos e segundos em um vídeo como identificador de fragmento, por exemplo, https://www.youtube.com/watch?v=0UNRZEsLxKc#t=54m52s. Identificadores de fragmento não são úteis apenas para linkar a uma subseção de um documento, mas, claro, também para a navegação dentro de um documento.

Tudo isso é, naturalmente, muito relevante para o conteúdo acadêmico, que normalmente é muito mais estruturado, com a maioria dos artigos de periódicos seguindo o formato IMRD – introdução, métodos, resultados e discussão – geralmente com seções adicionais, tais como resumo, referências, etc. Uma abordagem para a ligação de figuras e tabelas dentro de artigos acadêmicos é o uso de componentes DOIs, por exemplo, DOIs específicos para partes de um documento maior. A editora PLOS vêm utilizando-os por um longo tempo, o número de componentes DOIs está aumentando, mas a maioria dos artigos de periódicos acadêmicos ainda não utilizam componentes DOIs. E embora os componentes DOIs sejam um grande conceito para conteúdo como figuras (nos permitindo descrever o tipo MIME e outros metadados relevantes), eles provavelmente não são a melhor ferramenta de ligação para uma seção ou parágrafo de um documento acadêmico.

Acontece que já temos uma ferramenta para isso, visto que o servidor proxy DOI encaminha identificadores de fragmentos. Podemos, portanto, usar um DOI com um identificador de fragmento para:

Seção de resultados: http://dx.doi.org/10.1371/journal.pone.0103437#s2
Referências específicas: http://dx.doi.org/10.12688/f1000research.4263.1#ref-7
Decisão editorial: http://dx.doi.org/10.7554/eLife.00471#decision-letter

Obviamente, isso só funciona se o DOI é resolvido para o texto completo, e não uma página de destino. E a maneira como os identificadores de fragmentos são nomeados e implementados é uma decisão do editor, o resolvedor DOI não possui nenhuma informação sobre eles. Esses links específicos são particularmente úteis para as discussões de um artigo, seja no Twitter ou em um fórum de discussão. Parece que, pelo menos, o encurtador de links do Twitter mantém o identificador de fragmento (o link para a carta de decisão da eLife é encurtado para http://t.co/URWaYmGHnY). Esse tipo de vinculação funciona particularmente bem se o editor está usando um sistema refinado de identificadores de fragmentos. A editora PeerJ por exemplo, permite ligações a um parágrafo específico – por exemplo, http://dx.doi.org/10.7717/peerj.500#p-15 – e permite que os usuários façam perguntas ao lado daquela seção.

Todos exemplos acima usam o tipo MIME texto/html, pois esse é o que os DOIs de exemplo resolvem por padrão. Não sei se e como os editores têm implementado identificadores de fragmentos de outros formatos, como PDF ou ePub, e o que acontece se você combinar identificadores de fragmentos com negociação de conteúdo. O serviço shortDOI também trabalha com identificadores de fragmentos: http://doi.org/pxd#decision-letter. Outra questão interessante seria como identificadores de fragmentos são tratados pelos conjuntos de dados. Normalmente DOIs separados são atribuídos para vários conjuntos de dados relacionados, mas poderia também haver um lugar para identificadores de fragmentos, bem como, por exemplo, para especificar um subconjunto através de um intervalo de datas. A solução depende de novo sobre o tipo de conteúdo, e o popular texto/csv infelizmente não é bem adequado para isto, enquanto o JSON – usando JSON Pointer – funcionaria bem.

Além disso, manusear o identificador de fragmento é uma opção do cliente e o identificador de fragmento não é enviado para o servidor. O Acrobat Reader, por exemplo, suporta o identificador de fragmento #page=. Também há uma RFC7111 para identificadores de fragmento para o tipo de mídia texto/csv – browsers no futuro podem aceitar algo como http://example.com/data.csv#linha=5-7.

via Martin Fenner

Estatísticas do catálogo a partir dos registros MARC

Em muitas situações, é necessário conseguir fazer estatísticas do catálogo, ou mesmo, é desejável fazer um levantamento para entender melhor a sua coleção. Este post vai mostrar uma estratégia para que se possa conseguir estatísticas de maneira bem simples.

1º Passo: Conseguir os registros MARC

Conseguir uma cópia do seu catálogo em formato MARC. A maioria dos bons sistemas hoje exporta em formato MARC. Mesmo sistemas que não exportem em MARC podem ser usados neste caso, mas terá que entender como o sistema exporta e como conseguir extrair dados.

2º Passo: Baixar e instalar o MarcEdit

O MarcEdit é um editor de registros MARC bem eficiente, pode ser baixado em: http://marcedit.reeset.net/

3º Passo: Extrair dados

O MarcEdit tem uma ferramenta para transformar registros em CSV. O caminho para acessar é Tools > Export > Export Tab Delimited Records

Aqui acredito que explicar a lógica é mais importante do que dar uma receita pronta. Os passos para exportação são: escolher o arquivo MARC de origem, escolher o nome e caminho do arquivo de destino, escolher quais campos serão exportados e como serão exportados.
Para escolher quais estatísticas podem ser feitas no catálogo, primeiramente temos que pensar o que pode se agrupado. Se pensarmos por exemplo no campo título, não é possível fazer nenhum tipo de estatística usando ele, mas ele por ser útil para criar um gráfico de rede, por exemplo. Há também campos repetitivos, que você escolhe o separador e o MarcEdit coloca todos os campos em uma só coluna. Mas aqui como vamos ficar só nas estatísticas mais simples, vamos pensar em campos que pode ter valores repetidos, por exemplo, o ano de publicação. O campo normalmente do ano de publicação é o 260c. O resultado dessa exportação é um arquivo de texto como:

260c
1985
1987
2000
2013
2012
1985
1987

É bem simples lidar com esse tipo de dado, encarando cada um dos registros como uma linha. Mas precisamos tomar um cuidado aqui. Ao utilizar os campos abaixo de 900, estaremos fazendo estatísticas dos registros. Caso precise fazer estatísticas dos exemplares, terá que escolher os campos em que os exemplares são registrados, normalmente algum 9XX ou para ter uma maior precisão, deverá conseguir filtrar os registros que não tenham exemplares.

Também é possível combinar dados, tornando seu gráfico mais complexo. É possível, por exemplo, combinar o ano de publicação com o idioma da publicação (no exemplo, imaginamos que o valor está no campo 041a, apesar de saber que este não é o campo mais indicado para este valor), ficaria algo assim (é recomendável escolher o tab como separador):

260c -> 041a
1987 -> por
1985 -> por
2014 -> eng

4º passo: Tratar os dados

Este é um passo opcional, mas te permitirá verificar a qualidade dos dados de seu catálogo, além de deixar o gráfico mais correto. Em muitos casos, poderá haver problemas como erros de digitação, capitalização ou outras questões que podem influenciar o gráfico que você precisa gerar, para identificar rapidamente erros, recomendamos o software OpenRefine ( http://openrefine.org/ )
Por exemplo, caso queria fazer um gráfico por editora, temos os dados:

260b

EDUSP
EDUSP – USP
EDUSP/USP
Edusp

O OpenRefine ajuda a identificar dados semelhantes e permite correção em grandes lotes. Facilita muito a vida.

5º passo: Sumarizar e criar gráficos

Há duas ótimas ferramentas para sumarizar e criar gráficos. A primeira é o Excel, utilizando as tabelas dinâmicas. E recomendo uma segunda, mais fácil, chamada Tableau Public. Ele tem uma limitação na versão gratuita de somente salvar online e de maneira publica seu dado, mas é uma ferramenta bastante completa. Nos dois casos, é possível fazer diversos tipos de gráficos e combinar tipos de dados e fazer gráficos mais complexos.

Caso tenha alguma dúvida, pode entrar em contato comigo que ajudo na medida do possível: trmurakami EM gmail.com

14605349495_2a36b4cb71_c

O livro das árvores de Manuel Lima: visualizando ramos do conhecimento

O livro das árvores é o livro mais bonito em que coloquei minhas mãozinhas nos últimos anos e não bastasse a beleza visual para enfeitar a mesa da sala, é muito bem pesquisado e serve de referência para qualquer pessoa interessada em visualizações do conhecimento.

O livro é uma curadoria do português Manuel Lima e apresenta a história de visualizações hierárquicas, descrevendo a importância das árvores como metáforas para a vida e o conhecimento (“árvore do conhecimento” e “ramos” da ciência).

Para os bibliotecários e profissionais das correlatas, o maior impacto dessas árvores se dá no reino da taxonomia, como representações visuais de conceitos abstratos religiosos, científicos, artísticos e tudo mais.

Traz uma linha do tempo com mais de 800 anos de história dos diagramas de árvores, a partir de suas raízes nos manuscritos iluminados dos mosteiros medievais até o ressurgimento atual como meio de visualização de dados. Não é um livro sobre visualização de dados, não entra em detalhes sobre as técnicas atuais, e o autor argumenta que os diagramas de árvores possuem uma história muito mais longa de representações visuais do que apenas a visualização da informação.

É lindão. E o livro está disponível na Livraria Cultura e no Amazon e tem algumas páginas disponíveis para consulta no link abaixo.

Biblioteconomia Pop

clavier arabe | nutrisystem discount code 2014 | Vampire Facial