Violência na biblioteca

Outro dia Marina publicou no facebook uma ocorrência policial na biblioteca:

Usuário esquece a chave na mesa. Malandro pega a chave, abre o armário e vai embora com a mochila alheia! Funcionários têm um suspeito. Guarda universitária é acionada, o indivíduo é localizado, a mochila recuperada. Ufa. Cuidado, pessoal, essas coisas acontecem e nem sempre o final é feliz.

Nós passamos muito tempo na biblioteca. Na maioria das vezes, é tudo tranquilo, com apenas os sons de pessoas sussurrando, o estalido de dedos em teclados de computador, o som ocasional de espirros ou shiiii. Mas outras vezes, há o som da violência, pessoas gritando vulgaridades, doentes mentais agitados, usuários que discutem com seguranças sobre beber no edifício ou ter relações sexuais nos banheiros, e até mesmo colegas bibliotecários se estapeando (por que não?).

Não tenho números oficiais ou relatórios de segurança em bibliotecas, nas principais cidades, nos últimos anos, mas sabemos que incidentes são comuns, incluindo aí atividade criminosa, roubo, vandalismo, distúrbios, pornografia nos computadores de uso público e má conduta geral dentro de bibliotecas públicas e universitárias ao redor do país.

De casos recentes, para ilustrar, três baleados na Biblioteca Nacional de Brasília, porradaria na Biblioteca Nacional do Rio, porradaria em biblioteca de escola particular no Rio, porradaria em biblioteca pública em Guaíra, porradaria em biblioteca pública de Curitiba, estudante de biblioteconomia que furta obras raras, e por aí vamos.

Estou supondo que as bibliotecas com maior tráfego de usuários sejam as com número de distúrbios proporcional, casos em que os guardas de segurança ou a polícia local tiveram que intervir. Em suma, a maioria dos incidentes nas bibliotecas são benignos, mas elas não são imunes ao crime (como alertou Marina). Mesmo em espaços geralmente considerados seguros para visitar, reunir, aprender e explorar, seguros inclusive para crianças, os relatos entre colegas falam de pedofilia, drogas e brigas.

Vale lembrar que em muitas cidades não há outras instituições na área que recebem o número de visitantes que as bibliotecas recebem, mas mesmo assim, muitas não contam com vigilância ou dispositivos de segurança.

A verdade meus caros, é que não restam mais locais seguros, pra nós sair de casa já é se aventurar e estamos entregues à própria sorte. Uma característica marcante da biblioteca é a sua política de portas abertas, favorecendo o acesso à informação para todos, mas além de aberta é importante garantir que a biblioteca seja também segura. Por esta razão, é necessário reconhecer os casos típicos de violência e crime na biblioteca e estar preparado para lidar com eles. Um problema que não é ensinado no curso de biblioteconomia.

Com base em situações de risco (material e humano), perda e roubo, gestores de biblioteca podem formular um plano de segurança. Infelizmente, não encontrei orientações ou artigos sobre segurança e violência em bibliotecas. Há um diretriz da ALA sobre Segurança em bibliotecas. Seria legal também saber o que outras bibliotecas têm feito em relação à ocorrências policiais e se elas possuem alguma normativa sobre isso. Alguém teve alguma ocorrência recentemente ou desenhou uma política de segurança para a biblioteca?

Visibilidade das revistas de CI nas mídias sociais

Contribuição do Ronaldo Ferreira de Araújo:

Sabemos que aspectos de visibilidade e impacto são questões centrais na comunicação científica, praticamente indissociáveis, especialmente quando se fala em avaliação de periódico científico. A primeira geralmente está associada ao reconhecimento da revista e a qualidade e credibilidade que obtém em determinada comunidade científica e CLARO, estar indexada em bases/índices de prestígio nacionais e internacionais. A segunda, por sua vez, é pensada nas tradicionais métricas de citação.

Mas pensando nos rumos de uma ciência aberta ou ciência 2.0 já não estaria na hora de repensar tais critérios, e porque não, incluir as novas maneiras que a informação científica passa a circular na websocial? Já tivemos aqui postagens do Moreno, Andréa e Iara sobre altmetrics (métricas alternativas) para artigos, buscando compreender a atenção online que estes alcançam. Mas e a atenção que as revistas recebem?

Aqui, com uma metodologia duvidosa e um pouco de ócio de férias, levantamos por meio de parametrizações em Application Programming Interface – APIs das mídias sociais Facebook e Twitter o alcance de 28 (URLs) revistas da área de CI. Os dados podem ser visto na Gráfico 1 (até 100) e no Gráfico 2 (acima de 100).
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Gráfico 1 – Revistas por mídia social (até 100)

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Gráfico 2 – Revistas por mídia social (mais de 100)

Se olharmos os gráficos vamos perceber que umas revistas tem melhor desempenho em determinada mídia social que outra. Não há aqui nenhuma análise profunda, o intuito mesmo era passar o tempo. Mas achei interessante notar que, no geral, revistas com avaliação mais elevadas, recebem menos atenção online. O que acham?

Relação das revistas

  • R1 BIBLOS – Revista do Instituto de Ciências Humanas e da Informação
  • R2 Brazilian Journal of Information Science
  • R3 Em Questão: Revista da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS
  • R4 Informação & Tecnologia
  • R5 Informação Arquivística
  • R6 Bibliotecas Universitárias: pesquisas, experiências e perspectivas
  • R7 Informação & Informação
  • R8 RECIIS: Revista Eletrônica de Comunicação, Informação e Inovação em Saúde
  • R9 Perspectivas em Ciência da Informação
  • R10 Revista ACB
  • R11 Intexto
  • R12 Encontros Bibli: Revista Eletrônica de Biblioteconomia e Ciência da Informação
  • R13 A. to. Z. Revista Eletrônica
  • R14 Comunicação e Informação
  • R15 Informação@Profissões
  • R16 Múltiplos Olhares em Ciência da Informação
  • R17 Ciência da Informação
  • R18 InCID: Revista de Ciência da informação e Documentação
  • R19 Transinformação
  • R20 Biblionline
  • R21 Informação & Sociedade: Estudos
  • R22 Ponto de Acesso
  • R23 Liinc em revista
  • R24 DataGramaZero
  • R25 Tendências de Pesquisa Brasileira em Ciência da Informação
  • R26 Revista Biblioo
  • R27 Perspectivas em Gestão & Conhecimento
  • R28 Revista Brasileira de Biblioteconomia e Documentação
  • Ebooks e o desenvolvimento de coleções

    Definitivamente, o maior impacto do ebook nas bibliotecas será sentido pelo desenvolvimento de coleções e tudo o que ele envolve: seleção, aquisição, desbaste, descarte, inventários, avaliação, e política de desenvolvimento.

    O desenvolvimento de coleções foi moldado para o período de escassez de produtos de informação e de recursos para a aquisição. Porém, para um período de abundância informacional como o nosso e, consequentemente(?), de barateamento dessa informação, muitas de suas atividades ficam sem sentido. Talvez seja cedo para falar disso, mas precisamos começar a imaginar um futuro sem a preocupação com o desenvolvimento de coleções. Ou, talvez, com uma preocupação menor.

    Seleção. selecionar livros é tarefa fundamental para qualquer bibliotecários. analisar todos os critérios possíveis e decidir comprar um livro em detrimento de outro, quantos exemplares, é uma das tarefas mais belas de uma biblioteca, pois isso é decidir que livro sua comunidade irá ler. Agora, imagine que no lugar de optar por um livro ou outro você possa ter os dois que você considera interessante para a biblioteca e vários outros menos interessantes(na sua opinião, é claro, nao na do usuário). É isso o que a amazon permite com o seu aluguel de livros e que, mais cedo ou mais tarde, as editoras farão o mesmo. Para que selecionar se se pode ter tudo?

    Aquisição. Adquirir significa dizer “é meu””. Nada mais explícito de um período de escassez. no entanto, ja há um tempo que os livros nao são mais vistos como produto e sim como serviço. Serviços são acessados. A tendência é que as bibliotecas adquiram cada vez mais o acesso a bases de dados de livros, algo bem parecido com o que ja ocorre com os periódicos.

    Desbaste e descarte. são atividades especificamente para o acervo físico. São atividades que daqui a alguns anos serão peça de museu. no máximo, haverá uma descontinuidade de serviço. Mas ninguém irá entrar no acervo para avaliar se um livro deve ir para o lixo ou para a restauração.

    Inventário. Errei acima. nada representa melhor a escassez do que o inventário. que é verificar se os livros adquiridos estão no acervo. Vejo bibliotecas investirem alto em equipamentos de segurança e RFID para inventário. Seria melhor investirem em ebooks. Pois terão que investir de qualquer forma.

    Política de desenvolvimento de coleções. uma vez que o livro é um serviço, a política deverá incluir aspectos sobre quais serviços adquirir. Quais aspectos devem ser levados em conta. E também quais critérios norteiam os leitores de ebook.

    E para você, como será?

    P.s.: Essas ideias foram discutidas com a Professora Geysa Flávia da UFPB. A quem agradeço.

    O que fazer com disquetes velhos

    Até poucos anos atrás muitos livros eram publicados tendo como parte integrante um disquete. Normalmente eram discos que ofereciam algum conteúdo adicional, gráficos ou exercícios. Ainda é possível ver em alguns livros bolsos especiais que serviam para guardar tais disquetes, mas se tornou comum a migração do disquete para os cds, dvds, até o conteúdo adicional estar disponível inteiramente online, como é feito hoje.

    Junte isso ao fato de que os computadores recentes não possuem entrada para disquete, ou sequer entrada para cds e dvds, e surge a dúvida: o que os bibliotecários fizeram ou fazem com os disquetes antigos? Estou interessado em ouvir as respostas sobre isso, pois certamente muitos colegas (re)descobriram um baú de tesouro cheio de disquetes e ainda não decidiram o que fazer com eles.

    Claro que do ponto de vista da história da computação, quando não outros, os disquetes devem ser preservados. E o método mais adequado é transferi-los para uma mídia de arquivamento atual. Mas sabemos que os bibliotecários se borram com a obsolescência dos suportes e se fosse possível, alguém iria prontamente sugerir que os disquetes fossem transferidos para tábuas de argila ou algo do tipo.

    Bem ou mal, grande parte dos próprios livros os quais os disquinhos estavam associados já foram descartados, e os disquetes sempre obtiveram pouco uso. É importante acrescentar que a principal razão por trás desta questão é que os disquetes não eram prontamente emprestados junto aos livros. Durante anos eles foram mantidos como itens de reserva, de modo que os usuários só tinham acesso ao disquete quando expressamente o solicitavam junto ao livro texto. Um bibliotecário das antigas me explicou que os velhos sistemas de segurança de bibliotecas, baseados em fitas magnéticas, eram capazes de desmagnetizar e consequentemente apagar o conteúdo dos disquetes. No ato do empréstimo, algum bibliotecário poderia não notar a presença do disco no bolso do livro e passá-lo através da máquina, destruindo o disco. Essa é uma das razões pela qual os discos permaneciam separados dos livros.

    Mas você pode simplesmente dar uma olhada quantas vezes os discos foram solicitados para empréstimo. Se eles não tiverem sido verificados em vários anos, existe ainda uma necessidade de mantê-los? Sabemos que é uma má ideia para fins de arquivamento, mas tenho quase certeza que ninguém vai sentir falta deles.

    Se você de alguma forma possuir a tecnologia necessária para obter as informações sobre os disquetes, ainda há chance. Por sorte, ainda tenho aqui na minha biblioteca dois computadores antigos que possuem entrada floppy disk e outros computadores recentes com leitores de cd. Mas tivemos que considerar seriamente alguns disquetes e cds que simplesmente não eram possíveis de ser lidos em função de oxidação e mofo. Nesse caso, não há muita solução a não ser descartá-los. Além disso, embora obter uma unidade que possa ler um disquete não seja um problema (entradas externas de disquetes que usam uma conexão USB ainda estão disponíveis e podem ser encontradas em lojinhas de informática), você pode acabar descobrindo que todos os programas que estão nos discos não são compatíveis com os sistemas operacionais atuais. Este problema pode ser resolvido através da criação de uma máquina virtual que emula um sistema mais antigo, mas a esta altura muitos usuários já desistiram do conteúdo dos disquetes.

    No final das contas, tudo dependerá da política de sua instituição. Para uma biblioteca pública a resposta provavelmente será o descarte, já que não faz parte da sua missão fornecer materiais desatualizados em longo prazo. Algumas bibliotecas universitárias podem ter a capacidade e compromisso de fornecer o acesso à informação sobre os discos. Quando não o fazem, vale a pena ver se talvez este material foi convertido ou está facilmente acessível na web. Se os dados existem em outros lugares (banco de dados, website) fica mais fácil se livrar dos discos.

    Mesmo arquivos especializados estão percebendo o problema do esgotamento de seus espaços físicos, e para sair dessa, eles devem decidir sua estratégia e passar adiante coleções que não se ajustam a sua missão. Estamos sendo encurralados em nossos bibliotecas físicas e tentando cada vez mais nos livrar dos itens sub-utilizados. Uma questão interessante é que as bibliotecas estão mais propensas a reter os livros por mais tempo, em função do seu tipo de suporte. Será que elas manteriam os materiais de disquetes se eles fossem impressos?

    Vocês bibliotecários, mantêm os disquetes no caso de alguém precisar deles? Jogam fora? Alguém tem políticas sobre isso?

    A SABESP e o descaso com a informação

    Depois de alguns dias com sérios problemas ligados à informação, eu não poderia deixar de publicar o ocorrido neste blog, afinal, acredito que problemas de informação em serviços públicos nos interessam bastante e essa bagaça é sem fronteiras.

    E o caso é bem grave. Trata-se do descaso da SABESP, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, empresa que talvez seja a maior distribuidora de água do Brasil, com a divulgação de informações ao cidadão, que no caso é um mero reles bibliotecário, que há seis dias sofre com a falta de água em uma bairro da cidade de Jandira na região Metropolitana do futuro deserto chamado São Paulo.

    Em primeiro lugar, o primeiro sinal de descaso com a informação, ou melhor, com a divulgação de informações sobre os serviços prestados pela empresa. No segundo dia de falta de água, o cidadão, que acredita na comunicação via tecnologia, entrou no site da empresa (www.sabesp.com.br), localizou facilmente (um ponto positivo) a área onde estão os Canais de Atendimento e o Atendimento Online. Lá ele preencheu os dados, localizou sua residência, informou seu telefone e e-mail e ficou aguardando algum contato da empresa.
    E lá se foram dois dias e nenhum retorno.  O descaso com a informação tomou forma, pois não é correto você solicitar uma informação e não utilizá-la para nada, e neste caso, foram solicitados dados para contato e nenhum contato foi feito. Acabo de olhar na caixa de e-mails e no aparelho celular e não consta nenhum sinal de vida da SABESP.

    No final do terceiro dia tive que fazer uma ligação para a central de atendimento de voz da empresa. Para conseguir falar com um atendente a espera foi muito longa, mas finalmente o contato foi feito, a reclamação da falta de água foi repetida e para surpresa do cidadão, o atende informou que não havia problema de fornecimento de água na região há exatos três dias. Foi preciso argumentar que aquela informação não estava correta, afinal, as torneiras estiveram sem água o tempo todo. Mais um erro! Ao final da conversa, o atendente disse que abrira um chamado e que em 24 horas uma equipe iria ao local para verificar o que estava acontecendo.
    Muito bem, se passaram 24 horas, nenhuma equipe apareceu e mesmo após confirmar telefone fixo, celular e e-mails não houve nenhum retorno da parte da SABESP para informar o motivo da falta de água. Nesse meio tempo, a caixa de água já havia se esvaziado, o número de roupas para lavar já se acumulava, os desinfetantes já não suportavam o cheiro ruim e a família foi tomar banho à noite na casa de amigos.

    Enquanto aguardava o retorno do site e da central de atendimento de voz, o cidadão tentou contato através das redes sociais (Twitter e Facebook) da SABESP.
    No Twitter, a resposta para a reclamação não demorou, e logo depois da publicação da mensagem, foi solicitado o endereço da residência sem água. O endereço foi enviado e há três dias espera-se um retorno com informações e nada até agora.
    Já no Facebook parece que ninguém da comunicação da empresinha olha as notificações, pois nenhuma resposta ou pedido de informação foi solicitado. E pensar que as redes sociais servem para fins de comunicação, não é? Mas parece que o Facebook é utilizado apenas para marketing….

    Por fim, mais uma vez, na tarde do quinto dia o cidadão entrou em contato com a central de atendimento de voz. O leitor deve estar pensando, mas que cidadão chato! Porque ele insiste em pedir informações para a SABESP?!?! Acontece que a situação se tornou insustentável, pois para comer, vários galões de 20 litros de água foram comprados e até água de um caminhão pipa foi preciso para encher a caixa de água que já acumulava pó. E nada disso foi de graça ou enviado pela concessionária de serviço público, foi comprado! Ou seja, além da falta de respeito e de ao menos uma informação do problema que leva à falta de água, há prejuízos financeiros.
    Voltando à ligação, a atendente informou que na tarde daquele dia, os técnicos estavam  na região verificando o ocorrido, e que se a situação continuasse da forma que estava, seriam enviados caminhões pipa para realizar o abastecimento de emergência.
    Um sinal de alívio, ufa!
    Mas mesmo assim, algumas informações importantes não foram dadas: qual o motivo da falta de água e qual a previsão de data de retorno da mesma.

    E assim, ao final do dia, ao chegar em casa, o cidadão é informado pela irmã que um vizinho havia ligado para a SABESP e a mesma informou que a previsão de retorno de água seria para o dia 22/01! Hoje é madrugada do dia 16/01. Ou seja, a previsão de retorno é daqui há seis dias. Ou seja, mais um desencontro de informação, pois um atendente não informou nada sobre previsão de retorno e outro informou para outro cidadão que entrou em contato.

    Enfim, como bibliotecário estou horrorizado com o descaso da SABESP com a informação e principalmente com os cidadãos a quem ela tem o dever de atender e manter informados quando não consegue realizar a sua tarefa, tarefa que é remunerada via impostos pagos por todos.

    Será que a SABESP não precisa de um bibliotecário para organizar o fluxo de informação entre os atendentes, sites, redes sociais e entre suas equipes a fim de prover informações de qualidade a quem ela atende?

    Alguém libera um chuveiro aí?

    Bibliotecários lato e strictu sensu

    Sempre tive probleminhas com denominações e definições das coisas. Acho que esse foi um dos motivos que me levou a fazer biblioteconomia e também faz parte de uma busca pessoal por um certo senso de identidade – que hoje reconheço como ilusório. De uns tempos pra cá aprendi que a minha identidade pode ser fluída e essa questão não tem mais me angustiado tanto. Mas volta e meia me pego pensando no tema. A minha dúvida não é mais “o que é um bibliotecário” ou “o que faz um bibliotecário”, mas mudou para “onde está o bibliotecário?”. Já passei do “quem sou eu?”, hoje questiono “onde estou?” e daqui alguns tempos devo me perguntar de novo “pra onde vou?”.

    Me formei em 2011 em Biblioteconomia e eu deveria ter feito mestrado. Contra tudo o que todos diziam, não fiz. Não sei dizer se foi a melhor escolha, só sei dizer que foi uma escolha minha. Da mesma forma que me diziam pra jamais fazer biblioteconomia e eu fui teimosa, insisti e fiz. Não me arrependo de nenhuma das decisões que tomei até hoje pois elas não me inviabilizaram nada, muito pelo contrário: me ensinaram muitas coisas. E depois da graduação fui fazer o que eu fui formada pra fazer: ser bibliotecária. Mas foi tudo muito diferente do que eu esperava. Eu achava que ia conseguir um emprego e ficar nele por um bom tempo até ir para outro e assim por diante. Mas não foi assim que a vida funcionou (pra mim ao menos).

    Jamais considerei tentar concursos – mas sempre tentei e sempre falhei. Apesar de ser uma das opções mais interessantes para se ter estabilidade, acredito que me desmotivaria gradualmente por uma série de outros motivos. Pra mim seria morte em vida permanecer em um lugar apenas pelo dinheiro. Sim, eu sei, dinheiro é muito importante sim, mas existem outras coisas que me interessam mais. Ainda entendo que dentro da biblioteconomia o campo é vasto e que há de fato muito a ser feito. E eu nunca soube exatamente que tipo de bibliotecária eu seria. E ainda não sei se hoje tenho certeza – e não acho isso nada ruim, pelo contrário, o leque de possibilidades continua aí para que eu possa explorá-lo até onde for possível.

    Ano passado recebi 3 ligações me oferecendo vagas pra trabalhar com a mesma coisa em lugares diferentes de São Paulo. Recusei cada uma delas, mas me interessava em saber sobre os detalhes à título de curiosidade do quanto o mercado está aquecido por aqui (São Paulo, capital). Até que um dia me chamaram pelo LinkedIn e me fizeram uma proposta que mudaria tudo – mas não muito. A vaga era para Analista de Produto, para trabalhar com taxonomia e catalogação em uma multinacional. Me interessei na hora, pois sempre quis trabalhar com isso tudo. Fui nas três entrevistas e então me chamaram.

    Complicou um pouco pois eu estava exatamente na metade da pós, moro no centro e a empresa é em outra cidade e aí mudou tudo: horários, lugares, tudo aqui é longe e difícil. Mas coloquei na balança e decidi que eu queria passar por essa experiência acima de qualquer coisa e que queria o cargo. Valia o sacrifício. Mudar de cargo pra mim foi aceitar um desafio e tanto, pois até o momento tinha trabalhado apenas em frentes que podem ser consideradas strictu sensu na área de biblioteconomia e arquivologia: em uma biblioteca corporativa especializada e em um arquivo de uma construtora e incorporadora. Eu precisava e queria dar esse salto.

    Sempre tive facilidade e curiosidade em lidar e aprender a mexer com algumas tecnologias, mas não entendia – diferente de vários dos meus colegas – como isso podia se encaixar na profissão que escolhi pra mim: a de bibliotecária. Há algum tempo eu achava que tinha escolhido biblioteconomia apenas para aprender as técnicas. Hoje acredito que minha relação com a área tem mais a ver com o fato de eu ter ‘aprendido’ ou melhor, vivenciado o mindset bibliotecário, que é diferente sim dos outros profissionais. É uma questão de mentalidade mesmo, da forma que enxergamos as coisas como estão ou podem estar no mundo.

    Hoje eu entendo que num nível bem pessoal e particular, biblioteconomia para mim se aproxima mais disso mesmo, da estrutura, da forma que pensamos a informação – independente do contexto e de qualquer tipo de apego a normas e regras – sejam elas criadas há muito tempo atrás ou até mesmo as recentes, pois as regras do jogo estão mudando o tempo todo, constantemente. Acredito sinceramente que, pelo menos os bibliotecários do que posso chamar de nova geração (de 2000 pra cá) pensam a organização e representação da informação, suas estruturas e fluxos de modo específico, com foco no usuário. Ao menos quero ter essa fé..

    Acredito também que a nossa área nos permite essa flexibilidade de poder trabalhar em diferentes tipos de ambientes de acordo com nossas habilidades. Nessa época em que o e-commerce é uma tendência cada vez mais em evidência, a forma de pensar do bibliotecário – trabalhando com uma equipe multidisciplinar, juntamente com arquitetos de informação e programadores – é primordial para o andamento do negócio. Neste tipo de ambiente em específico onde a experiência do usuário é altamente priorizada e privilegiada, a organização das informações e sua estruturação é o core, uma vez que não estamos mais lidando com objetos físicos e não podemos ver efetivamente o que se está comprando. A partir daí podem surgir N questões, nas quais já estou pensando para o meu TCC.

    Trabalhando com taxonomia, indexação e catalogação, basicamente o que eu e minha equipe fazemos hoje consiste em: receber demandas dos departamentos da empresa, planejar e sugerir soluções levando em conta a taxonomia pré-existente do site (suas categorias, subcategorias, facetas e limitações da ferramenta); Analisar criticamente padronização das fichas de produtos disponíveis (seus atributos e valores, algo muito próximo de catalogação), avaliando as mudanças pretendidas e sugerindo implementações; E também estar em contato com o modelo de taxonomia da matriz, pensando numa possível migração e adaptação do modelo de negócio americano para o Brasil.

    Como Analista de Produto trabalhando com taxonomia em ambiente de Internet, posso dizer que hoje sou uma bibliotecária lato sensu, que não trabalha com um cargo convencional ou tradicional na área. Mas basta observar as atividades realizadas que fica difícil dizer que “isso não tem nada a ver com biblioteconomia”. Tem sim. E tem muito. O que percebo é que apenas troquei livros e papéis por estruturas em árvores de links, mas a ideia da coisa toda é muito parecida contendo apenas nomes diferentes. Esse mundo de links parece muito distante de livros e papéis, mas a verdade é que pensar em planejamento e estratégia de organização da informação para o digital é bastante similar, com a diferença que as coisas acontecem muito mais rápido.

    A tônica é de mudança constante. E isso requer um determinado tipo de perfil muito flexível, resiliente e adaptável – o que tradicionalmente não faz parte de um perfil da nossa área que seja mais conservador e avesso à mudanças (ainda mais constantes!). Geralmente as mudanças não ocorrem do dia pra noite: ocorrem de hora em hora, e das formas mais inesperadas possíveis… Linkagem, relinkagem, categorização, recategorização e migração são palavras de uso diário. Mas é só mais um jeito diferente de permanecer fazendo a mesma coisa. Este mês fazem três meses e nenhum dia tem sido igual ao outro…

    Espero aprender tudo o que posso aprender por aqui.   

    A Grande Biblioteca

    Os bibliotecários até que se animaram mas, que pena, a tal série The Librarians é irremediavelmente ruim. O gênero fantasia infanto-juvenil costuma contar com minha indulgência, sou capaz até de assistir Grimm, outra bela porcaria da televisão, mas tenho meus limites. Não consegui ver nem um episódio completo, porque produções assim tão bobinhas me irritam demais.

    Mas fiquei pensando que daria pra fazer uma série interessante ambientada numa biblioteca, com enfoque realista e tudo. Por que não? Existem séries que se passam em escolas, firmas de advocacia, escritórios de sei lá o quê e outros cenários que, na vida real também não são lá muito charmosos. E hospitais, então? A gente encontra umas três séries hospitalares diferentes em cada dia de programação da TV. Ah, mas médicos e advogados são mais interessantes, salvam vidas, tiram inocentes da cadeia, essas coisas. A gente só faz psiu e tira livros da estante, de acordo com a visão corrente.

    Será mesmo? Penso que tudo depende de roteiristas, diretores e atores. Vamos ver como isso poderia ser.

    Nosso cenário seria uma grande biblioteca pública ou a biblioteca central de uma universidade, porque precisamos de muitos personagens, escadarias imponentes e grande quantidade de estantes. De bibliotequinha acanhada bastam as da vida real. Tenho dúvidas de qual seria a melhor opção: a pública, por seu público mais variado, ou a universitária, por ter alunos e professores. Só o relacionamento professor-bibliotecário já garantiria assunto para pelo menos uma temporada.

    O usuário vai ser tema importante na série. Em cada capítulo veremos pelo menos uma história de usuário. Algumas terão continuidade, outras vão começar e terminar no mesmo dia; algumas  serão conhecidas pelos personagens fixos – o pessoal da biblioteca – outras não. Sabem aqueles usuários dos quais a gente não sabe nada e fica apenas imaginando comos e porquês? Então, esses mesmos. No primeiro capítulo veremos um usuário comum, sem nada de excepcional, o tipo que só diz bom dia, obrigado e até logo, que sai da biblioteca e se suicida. Só o espectador fica sabendo, o pessoal da biblioteca nem imagina o que aconteceu.

    Os personagens principais serão  dois bibliotecários jovens que acabaram de ser contratados: a moça de temperamento artístico – talvez ela desenhe ou cante, ainda não sei – que fez biblioteconomia por razões de pobreza, como tantos de nós, e o rapaz meio nerd que pensava que biblioteconomia era outra coisa, uma coisa mais tecnológica. Vamos acompanhar os conflitos pessoais e profissionais desses jovens, seu desencanto com a profissão  e, em algum momento,sua a decisão de começar a lutar. Vocês conhecem essa história? Eu conheço.

    A chefe da biblioteca acabou de se aposentar, depois de 58 anos de valorosos serviços prestados e virou retrato. A nova chefe é uma daquelas tiazinhas que administra usando sua experiência de dona de casa e mãe, toda senso comum e orações. Boa pessoa, dedicada ao trabalho e responsável, mas com formação deficiente. Aos poucos, a pacata senhora, com medo de perder o cargo, vai cair de boca na paranoia e revelar um lado autoritário que nem todos conheciam. O perigo, como sempre acontece, vai chegar de onde ela menos espera. Seu braço direito, uma bibliotecária simpática e moderninha que não vacila em usar táticas de sedução com propósitos carreirísticos, é quem vai puxar o tapetinho florido da chefia. O objetivo da moça não é apenas o cargo, mas assegurar bons negócios para um fabricante de mobiliário de bibliotecas com quem tem umas tretas. Vocês conhecem histórias parecidas? Eu conheço.

    Num dado momento, a equipe da biblioteca vai se dividir entre a tiazinha conservadora, mas honesta, e a arrivista cheia de más intenções, mas com ideias um pouco mais modernas.

    Nossos jovens bibliotecários vão arrumar um enorme problema com seu projeto de empréstimo de livros e criação de serviços especialmente dedicados a uma ocupação do movimento dos sem teto próxima à biblioteca. Os funcionários conservadores e os idealistas vão se enfrentar com unhas e dentes.

    Teremos histórias de amor, claro, queremos audiência. O jovem bibliotecário terá um rolo com uma funcionária casada com um homem violento, o que pode render alguns momentos de violência e heroísmo entre as estantes e talvez até alguns tiros. A arrivista vai seduzir o introspectivo especialista em conservação, homem de poucas palavras que vai reagir de forma surpreendente ao se perceber enganado. Precisaremos de amores lésbicos, porque num lugar com tantas mulheres seria inverossímil não haver pelo menos uma lésbica. Que poderia ser nossa bibliotecária com pendores artísticos, por que não? E quem seria sua namorada? A dona do restaurante onde a galera almoça ou uma estudante estrangeira que passa tardes inteiras na biblioteca? E vai ter beijo lésbico entre as estantes sim, e se reclamarem vai ter até no balcão de empréstimo.

    A estagiária do setor de seleção vai se encantar pelo intelecto refinado que reuniu a linda coleção de livros que a biblioteca recebeu em doação. Nas cartas e velhas fotografias encontradas entre as páginas, nas anotações feitas nas margens e na própria seleção de obras, a estudante de letras vai descobrir aquele que poderia ser o homem da sua vida, se não estivesse morto há uns 10 anos. A magia termina quando ela conversa com a filha do falecido e descobre, por trás da máscara poética, um homem egoísta que, perdido entre seus livros, ignorava o sofrimento da família durante a longa agonia da esposa que morreu de câncer. E os bilhetes e cartas que a filha não quis levar de volta vão parar no lixo reciclável porque, nas palavras da chefe do setor, o defunto “não era nenhum Mário de Andrade pra gente ficar guardando os todos os papeizinhos dele”.
    O suspense será garantido por uma suspeita: a chefe da catalogação, ex-militante presa e torturada durante a ditadura, acredita que um de seus carrascos está frequentando a biblioteca.
    A primeira temporada deve terminar com a mais temida das tragédias que podem acontecer numa biblioteca: um incêndio. Nossa biblioteca vai sobreviver?

    Pronto, agora só falta alguém escrever e produzir isso aí. Vai ser um sucesso, garanto. Quanto ao elenco, já que estou sonhando mesmo, só faço questão de Irhandir Santos e Hermila Guedes, os demais vocês podem escolher.

     

    A foto é do palácio de verão da imperatriz Sissi na ilha de Corfu, Grécia. Já que estamos sonhando.