O que é leitura?

Capa

A idéia de leitura é normalmente restrita ao livro, ao jornal. Lêem-se palavras, e nada mais, diz o senso comum. As ciganas, contudo, dizem ler a mão humana, e os críticos afirmam ler um filme. O fato é que, quando escapa dos limites do texto escrito, o homem não deixa necessariamente de ler. Lê o mapa astral, o teatro, a vida – forma a sua compreensão de realidade. Que tal agora ler o que é ler? Sem conceitos estanques, antes de tudo este livro é um convite: “vamos fazer uma leitura?”.

Esse livro é muito gostoso de ler.. não sei se queima calorias (ver post abaixo), mas é bom demais…

Pode ser comprado no submarino, que por sinal tem uma seção de biblioteconomia.

14 opiniões sobre “O que é leitura?”

  1. Eu gostei do livro mais eu queria saber sua opinia sobre o livro e me passa amanha e dare minha resposta sobre seu comentario.
    Agradeço sua opiniao sobre O que e leitura?

  2. Recentemente elaborei, junto com outros colegas, um artigo acerca do silenciamento da leitura nos livros didaticos do ensino médio. A consulta que fiz do livro “O que é leitura” foi bastante válida, pois nos ajudou muito. Realmente é uma leitura inequecível!!!

    1. A IMPORTÂNCIA DO ATO DE LER: A LEITURA ENQUANTO PRÁTICA SOCIAL

      Regina Janiaki Copes-SEED/PR
      reginacopes@hotmail.com
      Esméria de Lourdes Saveli-UEPG

      RESUMO

      O texto está dividido em três partes: Na primeira apresentamos os objetivos do texto que é discutir a importância da leitura à formação do sujeito; e justificamos a nossa escolha por Paulo Freire. Na segunda parte trazemos as concepções de como o conhecimento é construído, a partir das idéias de Martins e Cortela. Na terceira parte, abordamos o papel da leitura na construção do conhecimento. O conhecimento engloba a totalidade da experiência humana, exige a curiosidade do sujeito em face ao objeto a ser conhecido e requer dele uma ação transformadora sobre a realidade. Assim, a busca do saber é uma atividade inerente ao ser humano e dele exclusiva. A leitura pode ser considerada um meio que possibilita chegar ao conhecimento. Como conhecer através da leitura? Para tratar deste assunto, tivemos como principais interlocutores o grande educador brasileiro, que se preocupou em criar uma teoria do conhecimento e que, de certa forma, desenvolveu uma epistemologia da leitura, Paulo Freire, e o estudioso na área da leitura, Alberto Manguel.

      Palavras-chave: Conhecimento, leitura e construção do conhecimento.

      INTRODUÇÃO
      Este texto emerge de um estudo bibliográfico e tem por objetivo discutir o que é leitura e a sua importância à formação do sujeito que “está no mundo e com o mundo” (FREIRE,1979:30). Buscamos analisar o ato de ler numa abordagem temática, que privilegia o “olhar antropológico”.
      Neste trabalho, nos deteremos ao papel da leitura como uma fonte possível de se chegar ao conhecimento. A nossa preocupação é compreender como se atinge o conhecimento a partir da leitura. Para iluminar o nosso entendimento, optamos pelo pensamento do grande educador brasileiro Paulo Freire.
      Justificamos a nossa escolha por Freire como interlocutor principal nesta discussão a cerca da importância de se valorizar o ato de ler por consideramos que, conforme Ghiggi (2001), o pensamento freireano representa uma profunda compreensão do significado da educação no contexto da existência social e individual dos homens. Ser ele um pensador crítico que incita práticas coletivas que sustentam a idéia de que a educação pode servir à transformação social e, por defender que a importância da educação está na reconstrução “da cultura do oprimido, particularmente através da noção de elaboração sistemática do conhecimento popular como instrumento de luta da contra-hegemonia” (FREIRE, 1994). Ser um pensador que buscou superar o relacionamento oposto entre teoria e prática, desafiando e propondo o fim das crenças ingênuas e não críticas das verdades tidas, até então, como absolutas. Ser um filósofo que, ao mesmo tempo, é também, um educador que visa a construção histórica do sujeito, levando-o a duvidar das certezas absolutas e dogmatizadas, possibilitando-lhe tornar-se ator de relações dialéticas de comunhão e confronto com outros sujeitos. Sujeito como ser histórico que se vai constituir, sem negar a sua realidade e nem a sua origem. (GHIGGI, 2001).
      Freire tem perspectivas de formação de educandos para o exercício da cidadania crítica, com competências para realizar intervenções na sociedade, autônoma e criativamente, a partir do que a liberdade e a autonomia podem constituir-se (GHIGGI, 2001).
      A CONSTRUÇÂO DO CONHECIMENTO
      Segundo Cortela (2000:126), “O homem é obrigado a enfrentar, a lutar com o mundo, alterando este e sendo alterado por ele.” Isto significa dizer que o homem vai se constituindo sujeito nas interações que faz com o mundo, vai construindo o seu conhecimento que por sua vez não é neutro mas é uma ação política. Essa ação é transformadora e age intencionalmente em busca de uma mudança no ambiente que o favoreça (ibd: 41).
      O homem pergunta-se: quem sou? de onde venho? onde posso estar? O homem pode refletir sobre si mesmo e colocar-se num determinado momento, numa certa realidade: é um ser na busca constante de ser mais e, como pode fazer esta auto-reflexão, pode descobrir-se como ser inacabado que está em constante busca (Freire, 1997, p. 27).
      A busca do conhecimento é uma atividade inerente ao ser humano e dele exclusiva. Mas como o homem conhece?
      O conhecimento é o pensamento que resulta da relação que se estabelece entre o sujeito que conhece e o objeto conhecido. O conhecimento pode designar o ato de conhecer, enquanto relação que se estabelece entre a consciência que conhece e o mundo conhecido. Mas o conhecimento também se refere ao produto, ao resultado desse ato. Ou seja, o saber adquirido e acumulado pelo homem.
      Portanto, o conhecimento humano é definido pelo contexto social. Neste sentido, ele é um produto social e o indivíduo portador deste conhecimento pertence a uma forma determinada de sociedade. Esse posicionamento é ratificado por Cortella (2000, p. 99), quando esclarece que:
      O Conhecimento e, nele, a Verdade, são construções históricas, sociais e culturais. São resultantes do esforço de um grupo determinado de homens e mulheres (com os elementos disponíveis na sua cultura e no tempo em que vivem) para construir referências que orientem o sentido da ação humana e o sentido da existência.
      O autor acima citado nos indica que, para compreender o que é conhecimento, é fundamental desvendar as influências sociais, políticas e econômicas que marcaram o tempo do homem, pois nenhum ser humano produz um pensamento absolutamente inédito, fora da cultura e do tempo no qual está inserido.
      Cortella (2000, p. 127) explica que “se o conhecimento é relativo à história, ele não é neutro; todo conhecimento está úmido de situações histórico-sociais; não há conhecimento absolutamente puro, sem nódoa. Todo conhecimento está impregnado de história e sociedade, portanto de mudança cultural”
      Tecendo o nosso argumento nesta mesma linha de raciocínio, um outro ponto que merece destaque é que só os seres humanos têm condições de produzir conhecimento. Esse tipo de produção é uma necessidade humana, pois envolve a relação homem/mundo. “Por uma questão de sobrevivência, o homem é obrigado a enfrentar as lutas com o mundo, alterando este e sendo alterado por ele (CORTELA, 2000, p.126)”. Isto significa dizer que o homem vai se constituindo sujeito nas interações que faz com o mundo, vai construindo o seu conhecimento que por sua vez não é neutro mas é uma ação política.
      A interferência no mundo se dá através da ação transformadora consciente, e isso é essencialmente humano. Essa ação dialética tem por objetivo modificar a realidade (FREIRE, 1994).
      Marx (2003) exemplifica essa afirmação, dizendo que o pior dos tecelões sempre seria melhor do que a melhor das aranhas. Enquanto ao pior tecelão seria possível modificar (fazer diferente, inovar) porque planejara antes, à aranha não restaria nada mais do que reproduzir sempre, e da mesma forma, aquilo que já estivesse inscrito em sua natureza.
      O que funda esta diferença, o que torna o homem humano é, básica e decisivamente, a palavra, a linguagem. A consciência humana é uma consciência reflexiva porque ela pode se voltar sobre si mesma, isto é, o homem pode pensar em si próprio, tornar-se como objeto de sua reflexão. E isto só é possível graças à linguagem: sistema simbólico pelo qual se representa as coisas do mundo, pelo qual este mundo é ordenado e recebe significação (DUARTE JÚNIOR, 2004, p. 18).
      Nossa percepção do mundo, conforme o autor acima citado, é derivada da linguagem que empregamos. E esta linguagem está dialeticamente ligada às condições materiais de nossa existência, especialmente nas sociedades divididas em classes. O sistema lingüístico de que se vale um povo é condicionante de sua maneira de interpretar o mundo e de nele agir, construindo a sua realidade.
      Nesta perspectiva, segundo Cortella (2000), os conhecimentos são produzidos pelos próprios humanos. Isto é, a relação de conhecimento é uma relação entre sujeito e objeto. Portanto, precisa existir um sujeito que conhece e um objeto a ser conhecido. E, na relação entre eles reside a ‘verdade’ (do grego Alétheia que significa não-velado, não-esquecível, não-obscurecido, não-coberto, isto é, desvelamento ou descoberta que, por sua vez, é histórica e social). (LEGRAND,1983).
      Em síntese o Conhecimento e, nele, a Verdade, são construções históricas, sociais e culturais. (CORTELLA, 2000). Portanto a idéia de Verdade como descoberta é uma construção.
      A LEITURA E A CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO
      “Nada se move, exceto meus olhos e a mão que vira ocasionalmente a página, e contudo algo não exatamente definido pela palavra texto desdobra-se, progride, cresce e deita raízes enquanto leio “. (MANGUEL, 2004, p. 42).
      A escrita é uma linguagem para os olhos. Portanto, a leitura começa com os olhos…
      Santo Tomás de Aquino (apud MANGUEL, 2004), chamou a visão de “o maior dos sentidos pelo qual adquirimos conhecimento”. Mas, de que maneira as coisas que chegam através dos olhos se tornam legíveis? O que acontece dentro de nós quando estamos diante de um texto? O que é, então, o ato que chamamos de ler?
      Para tentarmos responder a essas questões, nada melhor do que trazermos aqui as palavras de Manguel (2004, p. 53-54):
      “Sentado diante do meu livro, [...] percebo não apenas as letras e os espaços em branco entre as palavras que compõem o texto. Para extrair uma mensagem desse sistema de sinais brancos e pretos, apreendo primeiro o sistema de uma maneira aparentemente errática com os olhos volúveis, e depois reconstruo o código de sinais mediante uma ca¬deia conectiva de neurônios processadores em meu cérebro, cadeia que varia de acordo com a natureza do texto que estou lendo e impregna o texto com algo – emoção, sensibilidade física, intuição, conhecimento, alma – que depende de quem sou eu e de como me tornei o que sou.”
      A fala de Manguel nos remete a Freire quando diz que, no ato da leitura, todas as emoções do corpo se fazem presentes e confusas. A leitura seria o lugar onde a estrutura entra em conflito, pois ler é um ato intencional, que exige do leitor paciência, persistência e determinação, para que ele possa superar o próprio conflito com o texto. Esse conflito nasce e se agiganta devido à necessidade que o leitor tem de concordar, discordar, confrontar valores. Enfim, tudo aquilo que o texto propõe exige do leitor fazer relações com as suas experiências de vida. Nesse processo de introspecção se conhece, se desenvolve, sente-se o prazer de conhecer, há uma sensação de um mundo mais amplo. (FREIRE, 1994).
      Entender o que acontece durante o ato de ler, admitiu o pesquisador norte americano E. B. Huey (apud MANGUEL, 2004), “seria descrever muitos dos funciona¬mentos mais complexos da mente humana”. Continuamos a ler sem saber exatamente o que estamos fazendo. Sabemos que a leitura ocorre em certas áreas definidas do cérebro e que essas áreas não são as únicas a participar. Sabemos que o processo de ler, tal como o de pensar, depende da capacidade de decifrar a linguagem, o conjunto de palavras que compõem texto e pensamento e deles fazer uso (MANGUEL, 2004).
      Os elementos necessários para realizar a leitura são tão numerosos que conferem ao ato de ler uma complexidade impressionante. Muitos pesquisadores acreditam que essa complexidade pode ser tão grande quanto a do próprio pensamento. Trata-se de um processo generativo que reflete a tentativa disciplinada do leitor de construir um ou mais sentidos dentro das regras da linguagem, um processo de reconstrução desconcertante, labiríntico, comum e contudo pessoal. (MANGUEL, 2004).
      Para que o ato de ler tenha um desempenho satisfatório, se exige a coordenação de centenas de habilidades diferentes, além da visão e da percepção, da inferência e do julgamento, da memória e do reconhecimento, do conhecimento, da experiência e da prática. E é preciso considerar que existem outros elementos que afetam o resultado da leitura, como o momento, o lugar e até mesmo a qualidade do material impresso. Todavia, o modo como tudo acontece, as conexões intrincadas e fabulosas que esses elementos estabelecem entre si, permanece, ainda, sem resposta. (MANGUEL, 2004).
      Desta forma, o que se sabe é que ler é uma operação intelectual que ultrapassa o ato mecânico de identificar o escrito. É uma atividade “eminentemente polimorfa”, em que o olhar do leitor sobre as palavras é, antes de mais nada, o pensamento em movimento (SAVELI, 2003). Como diz Foucambert (1994), “ser leitor é querer saber o que se passa na cabeça de outro, para compreender melhor o que se passa na nossa”. (p.30)
      Na mesma linha de pensamento, Freire (1994) considera que o ato de ler é muito mais profundo do que operar uma decodificação de palavras e de frases. Para ele, ler é participar das representações do autor do texto lido e mergulhar em representações equivalentes. Significa, ainda, descortinar, mudar de horizontes, interagir com o real, interpretá-lo, compreendê-lo e decidir sobre ele. Enfim, ler é reescrever o que estamos lendo, é descobrir a conexão entre o texto e o contexto do texto e também vincular o texto/contexto ao contexto do leitor.
      Prosseguindo o raciocínio, Freire entende que, se um texto só pode ser lido se o reescrevemos, o mesmo ocorre com a leitura da realidade. Para ele, não lemos apenas as palavras, os textos e os livros; lemos o mundo, isto é, tudo aquilo que está ao nosso redor. O mundo em que vivemos é um texto que exige uma leitura mais crítica.
      Dentro da perspectiva freiriana, a leitura da realidade precede a leitura da palavra. Aprendemos a ler o mundo antes mesmo de decodificar os sinais gráficos das letras. Assim, ler o mundo é tão importante quanto ler a palavra, pois um não está dissociado do outro. São dois momentos que se comunicam no ato de pensar, pois existe uma relação mútua entre a leitura do mundo e a leitura da palavra, entre a linguagem e a realidade, entre o texto e o contexto. (FREIRE, 1994).
      Chegamos, assim, ao entendimento de que lemos a realidade quando a reescrevemos, isto é, quando a transformamos; o que significa dizer que, epistemologicamente, só estamos sendo bons leitores de mundo se estamos transformando esse mundo. Desse modo, conforme Freire, para o “ciclo gnosiológico” se realizar, é preciso ler e reelaborar o lido, estudar e refazer o estudado, aprender e reaplicar o aprendido, observar e intervir no incessante processo de transformação social, assumindo humanamente a vocação de sujeitos históricos, inacabados, e, por isso mesmo, em constante transformação.
      A construção do conhecimento, segundo Freire (1994), se dá quando o leitor desafia cada parágrafo, digere, reinventa, cria e aplica-o na construção de novos conhecimentos. E isso exige persistência e coragem de pensar e de fazer. Por isso, para ele, um texto não deve ser lido com rapidez e indiferença, como se o conhecimento fosse um processo meramente acumulativo, pois, um ‘palmo de leitura’ não significa necessariamente um ‘palmo de conhecimento’.
      Os textos devem ser encarados com seriedade, com rigor, já que aprender é um processo muito mais profundo, complexo e intenso do que a simples memorização mecânica de informações descoladas da realidade. A memorização leva ao que Freire chamava de “verbosidade“, palavra oca. Conhecimento é a reconstrução da realidade, é a confrontação das verdades. Desta forma, desde o início, a leitura deve contar com o leitor, sua contribuição ao texto, sua observação ao contexto, sua percepção de mundo.
      A leitura pode ser vista como uma fonte possível de conhecimentos, pois ler é não só uma ponte para a tomada de consciência, mas um modo de existir, no qual o indivíduo compreende e interpreta a expressão registrada pela escrita e passa a compreender-se no mundo. (SILVA, 1992). A leitura possibilita o conhecimento do eu, do outro e do mundo. Através da leitura é possível, também, obtermos o conhecimento de outras formas de vida, tempo e espaço e, conseqüentemente, adquirirmos uma cultura diferenciada.
      Sendo assim, só podemos atribuir importância e relevância às práticas de leitura quando o leitor é levado à condição de sujeito, trabalhando ativamente com seus pares na busca de compreensão de diferentes aspectos da realidade através dos textos. (FREIRE, 1994). Esse trabalho requer movimentos dinâmicos entre os textos e as experiências de vida dos leitores e vice-versa; na ausência desses movimentos, vistos aqui como geradores de significação/compreensão, a leitura perde seu papel na construção do conhecimento.
      Freire (1994), em seus textos, defende que o conhecimento engloba a totalidade de experiência humana. Para ele, o ponto de partida é a experiência concreta do indivíduo, em seu grupo, ou sua comunidade. O conhecimento crítico das relações entre os seres humanos e o mundo não surge, segundo ele, “como resultado de um jogo intelectualista”, como algo que se constitui fora da prática. Nem surge de um mecanismo, pois a consciência não é um espaço vazio a ser preenchido.
      Para Freire, o conhecimento não é ato passivo; exige curiosidade, ação transformadora sobre a realidade, busca constante, invenção e reinvenção. Ele insiste sobre a dimensão crítica do conhecimento e do papel da leitura como instrumento de conhecimento, questionamento e conscientização.
      Freire (1994), sustentava que, durante a leitura, é preciso apreender a sua significação profunda, pois só apreendendo-a seremos capazes de saber. Para ele, a memorização mecânica não se constitui em conhecimento do objeto de que o texto fala. Ele insistia na importância do ‘adentramento’ nos textos a serem compreendidos. Há leitura quando acontece esse adentramento. Assim, podemos considerar a leitura não apenas como ato mecânico, mas como um processo de descoberta de um universo desconhecido e maravilhoso. Na visão freireana os textos a serem lidos pelos alunos devem se oferecer à procura deles. A leitura desses textos devem ser propostos à curiosidade dos alunos de maneira dinâmica e viva como objetos a serem desvelados por eles.
      Esse processo é ratificado pela fala de Manguel (2004), durante a leitura de um livro, silenciou e trouxe à memória o momento em que viu, numa vitrine do museu Arqueológico de Bagdá, pela primeira vez, as duas placas de argilas encontradas por Tell Brak, Síria, quatro milênio antes de Cristo:
      “Tal como meu nebuloso ancestral sumério lendo as duas pequenas placas naquela tarde inconcebivelmente remota, eu também estou lendo, aqui na minha sala, através de séculos e mares. Sentado à minha escrivaninha, cotovelos sobre a página, queixo nas mãos, abstraído por um momento da mudança da luz lá fora e dos sons que se elevam da rua, estou vendo, ouvindo, seguindo (mas essas palavras não fazem justiça ao que está acontecendo dentro de mim) uma história, uma descrição, um argumento”. (Manguel, 2004, p.42).
      Nesse processo de pensamento, Manguel afirma que, ao olhar para as placas, estaria prolongando a memória e preservando um pensamento muito tempo depois que o pensador parou de pensar. Assim, ele se tornou participante de um ato de criação que permanecia aberto enquanto as imagens entalhadas nas placas fossem vistas, decifradas e lidas por ele.
      A leitura, segundo Silva (1992), é instrumento de acesso à cultura e de aquisição de experiências. Para ele, ‘experiência’ é o conhecimento adquirido pelo indivíduo nas suas relações com o mundo, através de percepções e vivências específicas. Desta forma, a leitura pode ser vista como uma fonte possível de conhecimento.
      “[...] a leitura do mundo precede sempre a leitura da palavra e a leitura desta implica a continuidade da leitura daquele”, dizia Freire. (1994, p. 20). Com base nessa idéia, é possível pensar numa relação dialógica entre o ser, a sua realidade e o conhecimento. Assim, há um movimento dinâmico sempre presente entre a palavra e o mundo.
      Estamos procedendo a leituras, conforme Martins (1989), quando começamos a organizar os conhecimentos adquiridos a partir das situações que a realidade impõe, e da nossa atuação nela; e quando começamos a estabelecer relações entre as experiências e a resolver os problemas que se nos apresentam.
      Nesses momentos, segundo a autora (ibid.), temos a impressão de que o mundo está ao nosso alcance; não só podemos compreendê-lo, conviver com ele, mas até modificá-lo, à medida em que incorporamos experiências de leitura.
      As concepções de leitura em Freire são construídas com base em práticas que têm em vista a produção do conhecimento e a transformação social, através de juízos de valor que a realidade possibilita e a ontologia humana exige.
      Freire discute a importância da leitura pensando e repensando sua própria prática, sua vivência pessoal. Para ele a leitura da palavra é sempre precedida da leitura do mundo. E aprender a ler é aprender a ler o mundo, compreender o seu contexto, numa relação dinâmica que vincula linguagem e realidade.
      Para ele a leitura da palavra não deve ser uma ruptura com a leitura do mundo. Freire explica que quando fazemos uma re-leitura dos momentos da nossa vida vamos compreendendo criticamente a importância do ato de ler e vamos nos constituindo sujeitos livres através da prática.
      Freire vê a aprendizagem da leitura como um ato de educação e educação é um ato político. Freire entende que através da leitura os sujeitos podem se posicionar criticamente ao vivenciarem a leitura , e essa possibilidade nega de vez a neutralidade da educação.
      A educação para ele deve ser vivenciada como prática concreta de libertação e de construção da história, um caminho para uma sociedade mais justa. Entende a leitura do ponto de vista ético e político.
      Assim, ler o mundo é compartilhar a leitura do mundo lido; a educação como ato de produção, de reconstrução do saber, como prática de liberdade, afirmando a politicidade do conhecimento são pressupostos pertinentes a Freire.
      CONSIDERAÇÕES FINAIS
      Buscou-se, no artigo, apresentar algumas considerações sobre papel da leitura no processo de construção do conhecimento. O conhecimento é o produto de um processo de reflexão, resultado de muitas leituras; exigindo curiosidade, requer ação transformadora sobre a realidade.
      O processo da leitura na mente humana é extremamente complexo, e compreendê-lo ainda não é possível; no entanto, o papel da leitura na construção do conhecimento é inegável. Podemos dizer que ela é uma fonte possível de conhecimento, pois consideramos que não lemos apenas as palavras, os textos e os livros; lemos o mundo.
      Conhecer é reconstruir a realidade, é confrontar as verdades. E reinventar o mundo, pronunciá-lo com “palavras grávidas de realidade”, como diz Freire, é a própria condição de sua leitura. Somente transformando a humanidade que criamos, e da qual fazemos parte, é possível conhecê-la com profundidade.
      REFERÊNCIAS
      CORTELLA, M. S. A escola e o conhecimento: fundamentos epistemológicos e políticos. 3. ed. São Paulo: Cortez: Instituto Paulo Freire, 2000.
      DUARTE JÚNIOR, J. F. O que é realidade. São Paulo: Brasiliense, 2004.
      FLECK, L. in BURKE, P. Uma história social do conhecimento: de Gutemberg a Diderot trad. Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2003.
      FREIRE, P. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 29. ed. São Paulo: Cortez, 1994.
      ____________. Educação e mudança. 21. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1997.
      FOUCAMBERT, J. A leitura em questão. Trad. Bruno Charles Magne. Porto Alegre: Artes médicas. 1994. 157p.
      GHIGGI, G. Paulo Freire e o conceito de autoridade em programas de formação de professores. Universidade Federal de Pelotas. in Currículo sem Fronteiras, v.1, n.2, pp 151-170, Jul / Dez 2001.
      LEGRAND, G. Dicionário de Filosofia. Trad. Armindo José Rodrigues e João Gama. Lisboa: Edições 70, Lt.da, 1983
      MANGUEL, A. Uma história de leitura. São Paulo: Companhia da Letras,1997.
      MARTINS, M. H. O que é leitura. 11. ed. São Paulo: Brasiliense, 1989.
      MARX, K. Manuscritos Econômicos-filosóficos. São Paulo: Martin Claret, 2003.
      SILVA, E. T. da. O ato de ler: fundamentos psicológicos para uma nova pedagogia da leitura. 6. ed. São Paulo: Cortez, 1992.
      SAVELI, E. de L. Leitura na escola: as representações e práticas de professores. Curitiba: Fortun & Granchelli, 2003.

  3. Gostaria de saber dentre várias opiniões em relação ao conceito de leitura, qual se adapta mais a nossa modernidade? Comente por favor!
    Obrigado…

  4. Para Foucambert (1994, p.5) ler significa ser questionado pelo mundo e por si mesmo, significa construir uma resposta que integra parte das novas informações ao que já se é no mundo, é assumir-se como sujeito da própria história. O autor enfatiza que ler é ter consciência dos processos que interferem na sua existência como ser social e político. Em outras palavras, a leitura é um ato social, entre dois sujeitos – leitor e autor – que interagem entre si, obedecendo a objetivos e necessidades socialmente determinados. Para Freire (1996) ler é descobrir a conexão entre o texto/contexto ao contexto do leitor. O que significa dizer que leitura é o resultado da tensão entre leitor e texto, . A leitura é, portanto, um processo de comunicação entre leitor e autor mediado pelo texto. O encontro com o autor, que está ausente, se dá por meio da palavra escrita. Leitura é interação.
    Freire (1982) enfatiza que a leitura é um diálogo, uma troca de saberes que possibilita a mudança de postura em relação ao mundo. Segundo Freire, a leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não pode prescindir da continuidade da leitura daquela. A compreensão do texto a ser alcançada por sua leitura crítica implica a percepção das relações entre texto e contexto (p11). Assim, não basta apenas decodificar a mensagem registrada, é preciso compreendê-la e relacioná-la ao mundo em que se vive.

Deixe uma resposta