The Public: a biblioteca pública como último bastião da democracia

Finalmente assisti The Public, filme mais recente da categoria “bibliotecários no cinema” e fiquei um pouco inclinado a incluí-lo na minha lista de filmes que todo bibliotecário deve assistir antes de morrer. Mas não vou. Talvez o azar tenha sido que ele veio justo após “Ex Libris: Biblioteca Pública de Nova York”, numa safra de filmes que celebram as bibliotecas como refúgios da imparcialidade e do pluralismo, em tempos de, bem sei lá, esse nosso tempo.

Os dois filmes não entraram no circuito aqui no Brasil, nem estão na netflix, então a saída foi baixar. Me desculpe Emilio Estevez. O ExLibris é um documentário longo e chato, mas que captura com bastante clareza o ideal de biblioteca em uma cidade cosmopolita como NY.

Já o The Public demonstra um admirável respeito pela instituição cívica da biblioteca pública que a gente tanto curte, sem negar que seja antiquada, à qual um personagem do filme se refere como “o último bastião da democracia” (lá no contexto estadunidense). Mas a arte narrativa é menos convincente, acho que a Marina Macambyra simplesmente diria que o filme é bobo.

A trama é inspirada em um artigo publicado em 2007 que relatou a cultura de tolerância aos moradores de rua que frequentam a Biblioteca Pública de Salt Lake City (What They Didn’t Teach Us in Library School: The Public Library as an Asylum for the Homeless -. Sem querer outro livro foi publicado quase que paralelo ao lançamento do filme, The Library Book, que é uma crônica das bibliotecas e o papel vital que desempenham nas comunidades a que servem.)

O filme se passa quase inteiramente dentro da biblioteca pública de Cincinnati. Um bibliotecário gente boa une forças com a população de rua da cidade para realizar uma ocupação durante uma noite de frio intenso.

A biblioteca pública é o refúgio dos moradores de rua durante o dia: um lugar onde podem se encontrar, se lavar nos banheiros e se aquecer. Alguns dos funcionários não são muito simpáticos, o chefão diz ao bibliotecário: “Somos uma biblioteca pública, não somos um abrigo para os sem-teto”. E o bibliotecário desobediente civil responde: “Isso é exatamente o que somos.”

O incidente da ocupação acontece relativamente cedo no filme, deixando a hora e meia restante para a trama martelar seu ponto óbvio (as bibliotecas são espaços públicos e devem permanecer assim) e inevitavelmente esbarrar no tropo do “white savior”, um clássico do racismo hollywoodiano. Os próprios personagens sem-teto no filme querem ser fiéis à realidade mas saem como caricaturas.

Claro que nem mesmo um desfile de clichês de biblioteca não pode desviar a atenção do tema subjacente do filme sobre como as bibliotecas públicas agora são de fato um dos últimos postos da democracia (americana). Dentro de suas paredes, vemos questões manifestas não apenas de falta de moradia, mas de raça, classe, viciados em drogas, doença mental, desigualdade de renda, aquecimento global, a morte dos livros e a perversa máquina política.

É o tipo de filme ativista que oferece uma porradinha a cada minuto sobre o dever público versus segurança pública. Os alvos são fáceis, não precisa problematizar. Me parece que o ator/autor/diretor do filme Emilio Estevez têm, assim como meu estimado Eduardo Marinho, uma inquietação com o estado da nação e uma sensação de que uma boa parte dos cidadãos sofre uma grande injustiça. Tem uma conclusão serena ali, mas fiquei no final com meu pessimismo e a sensação de que nada foi resolvido pros sem-teto.

Nestes tempos divididos e escrotos, filmes centrados em questões políticas fazem uma tentativa de persuadir o outro lado a considerar seu ponto de vista ou jogar com seus aliados políticos e demonizar os inimigos. Normal, sempre foi assim propaganda, vide celeuma em torno de Democracia em vertigem. Como tal, acho que o The Public provoca menos incitação e mais uma chamada à compreensão sem ser cirandeiro. É uma tarefa complexa, com muitas partes que são caras a nós bibliotecários e o ethos da profissão, mas sem se esquivar da brutalidade policial como precedente, o sensacionalismo da mídia, o ativismo ingênuo ineficaz e a infeliz realidade de que manter a lei é muitas vezes uma sanção implícita da desumanização.

Enquanto o filme passa, a gente se acostuma com a ideia de bibliotecários e sem-teto se unindo em protesto, e talvez isso nos distraia da crítica principal: como evitar que as bibliotecas públicas se reduzam a lugares esquálidos, e como essa biblioteca subitamente congrega todos os males da sociedade sob o mesmo teto – e força os usuários enquanto cidadãos a confrontar esses males.

Eu reconheço que o filme se esforça para manter o espectador envolvido, mesmo alguém que não entenda nada de bibliotecas públicas. Sinceramente não achei o filme nada de mais mas ele é honesto pra caramba. Nota 6,5 no meu IMDB.

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Dias desses eu fui na Biblioteca Parque Estadual aqui no Rio, e momentos antes da abertura o cenário era esse da foto abaixo. Não quero expor ninguém mas eram quase todos ali moradores de rua, que literalmente dormem sob as marquises da biblioteca e aguardam ansiosamente sua abertura diária para que possam fazer uso das instalações. É sabido entre os funcionários que eles gostam de assistir aos filmes da coleção, alguns até já tendo esgotado completamente o acervo. Adaptações na rotina de atendimento foram necessárias, como a adoção de uma política específica para o guarda-volumes, visto que os moradores de rua preferem guardar seus pertences na biblioteca a deixá-los expostos na calçada.

Eu não sei se o olhar profissional fica muito criterioso, seria melhor alguém que não é bibliotecário dizer se o melodrama apresenta um quadro racional do dia-a-dia da profissão e é convincente. O filme destaca um problema que as bibliotecas públicas enfrentam não só nos EUA, mas aqui no Brasil inclusive: a tensão que os moradores de rua colocam sobre bibliotecários, que por sua vez não são assistentes sociais ou profissionais de saúde pública/mental.

Moradores de rua passam o dia na biblioteca porque lá é um dos poucos locais públicos seguros onde as pessoas podem ficar sem gastar dinheiro. Às vezes eles perturbam a “ordem”, como quando no filme um homem tira toda a roupa e começa a cantar no meio do salão, ou quando o odor de um é tão pavoroso que afugenta outros usuários. Na moral, qual bibliotecário que nunca teve um usuário fétido empesteando o recinto? Como lidar com essas pessoas? (no filme a biblioteca é processada por usuário que foi convidado a se retirar por conta do mau cheiro, mas ele ganha o processo porque não existem leis que regulem o cheiro das pessoas). Mas normalmente os moradores de rua se retraem, eles sabem que não tem essa de bastião da democracia, biblioteca é ainda um instrumento do Estado, e o Estado é lapada no lombo pra quem está à margem. Eles se sentam em silêncio, folheiam os livros, assistem filmes e usam os computadores. E só.

A primeira cena do filme é um comercial do governo sobre a carreira de bibliotecário, que exige “um amor por livros e pessoas”. O bibliotecário personagem central do filme é esse indivíduo, que gosta de livros e pessoas. Eu vou arriscar a dizer que bibliotecários que trabalham no atendimento, mesmo que não gostem de lidar com humanos, aprendem a fazer na marra. Então o bibliotecário é aquele que, embora saiba das chatices e dos problemas que os desabrigados podem trazer – brigas no banheiro masculino, um cara que fica pelado no meio do salão, um que se recusa a deixar o computador, etc – também sabe todos seus nomes e fala com eles como faria com qualquer outro usuário. Me digam aí se todos vcs não conhecem um bibliotecário exatamente assim?

No final do filme tem uma sequência tragicômica de perguntas muito reais de usuários: pedir ao bibliotecário para encontrar um livro, mesmo que ele tenha esquecido o autor e o título, mas lembra que a capa do livro era vermelha e estava na prateleira de cima; um usuário surdo que faz sua pergunta sobre as quatro nobres verdades do budismo em libras; e uma mulher que gostaria de ver um globo terrestre – em tamanho real.

Em que outra instituição física você pode aprender sobre praticamente qualquer assunto, sem censura? Onde mais os sem-teto são acolhidos como iguais, pelo menos até que não sejam? Se as bibliotecas são microcosmos da democracia, o que significa que às vezes elas fecham ou perdem recurso a ponto do colapso? Muito mais do que apenas lugares para ler tranquilamente e procurar coisas, as bibliotecas conectam idosos e pobres à internet, ajudam os desempregados a arrumar emprego oferecendo classificados e computadores para mandar currículos, proporcionam às crianças atividades extracurriculares e, cada vez mais, oferecem aos moradores de rua espaços seguros para passar o tempo e socializar sem ameaça de expulsão ou coisa pior.

Os bibliotecários deveriam se preocupar se a expulsão de um usuário por reclamações de má higiene é uma violação dos direitos humanos? Não. Mas, como tantas outras instituições públicas que estão com déficit de pessoal e com recursos insuficientes, essa é exatamente uma das situações a quais se sujeitam. Assim, os bibliotecários devem encontrar o equilíbrio entre oferecer informação, recreação e formação a todos aqueles que solicitam e garantir a segurança dos que entram em suas portas. No processo, eles descobrem que a descrição do trabalho, sempre em transformação, também inclui vestir a carapuça sempre que um bode expiatório se faz necessário.

Informações falsas: como evitar?

Dando início à série  de divulgação de artigos publicados em periódicos de Ciência da Informação (veja o post A sociedade tem interesse na Biblioteconomia e Ciência da Informação?)

Estudo sobre a desinformação aponta passos básicos para identificar as fake news

Todos os dias um mar de informações são compartilhadas em todo o mundo por meio das redes sociais. Ao mesmo tempo que essa profusão de informações auxilia as pessoas na compreensão do mundo, possibilita também a propagação de informações falsas ou parcialmente falsas. Como identificá-las?

Com o objetivo de apresentar estratégias para avaliar a veracidade das informações que acessamos todos os dias, o artigo “Competência em informação e desinformação: critérios de avaliação do conteúdo das fontes de informação” publicado na Liinc em Revista, da pesquisadora Mariana Zattar, Doutora em Ciência da Informação e Professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), indica três critérios para avaliação de fontes de informação evitando, assim os usos e compartilhamentos de desinformações.

A autora afirma que o grande volume de notícias falsas e a prática de desinformação atuais são preocupantes, mas esse fenômeno não é uma novidade. As primeiras fake news surgiram ainda no século XVIII com o desenvolvimento da imprensa. Os avanços da tecnologia de informação e comunicação só ampliou as condições de proliferação de informações, tanto as comprovadas quanto as falsas. Atualmente, as redes sociais como o Facebook e o Whatsapp, pela sua própria informalidade se tornaram grandes veículos de propagação de notícias falsas e minam a confiança dos meios de comunicação e das instituições.

De acordo com Zattar a ampliação do acesso à informação é essencial na atualidade, mas “não basta que se tenha acesso a qualquer tipo de informação, pois é necessário qualidade, relevância e veracidade nos mais diferentes contextos, de modo que sejam evitadas desinformações e notícias falsas nas bolhas informacionais em que somos inseridos.”

Para evitar a desinformação, a autora aponta a necessidade da “competência em informação”, que significa o desenvolvimento de um conjunto de habilidades que possibilitam a compreensão da informação de forma ética e crítica.

Competência Informacional

Para combater as fakenews, a “Alternative facts and fake news – verifiability in the information society” da The International Federation of Library Association and Institutions (IFLA), propõe a averiguação das informações, apontando oito passos como critérios de avaliação de fontes das informações e notícias.

Dentre os critérios apresentados, destacam-se aqueles relacionados à autoridade, à atualidade e à precisão. O critério de autoridade aponta quem é o responsável pela informação; a atualidade indica quando essa informação foi disponibilizada; e a precisão refere-se o que e como foi exposto o conteúdo.

Quem disse? – Segundo a pesquisadora é “essencial a identificação dos responsáveis pela criação intelectual ou artística da fonte para entender seus objetivos, suas aspirações, tendências e propósitos quanto à sua motivação na disseminação do conteúdo”.

Quando disse? – Na avaliação do conteúdo, também deve ser considerada a atualidade das informações apresentadas, isto é, se o conteúdo é constantemente atualizado.

O que e como disse? – Zattar alerta que se houver desconfiança na precisão da informação é melhor “recorrer à opinião de um especialista de uma área do conhecimento que comprove a precisão ou a imprecisão da informação.”

A pesquisadora conclui em seu artigo que a prática de avaliação das informações e notícias, além de evitar a desinformação, permite que o indivíduo perceba as oportunidades de aprendizagem que a informação pode proporcionar.

O estudo “Competência em informação e desinformação: critérios de avaliação do conteúdo das fontes de informação” (DOI: 10.18617https://doi.org/10.18617/liinc.v13i2.4075) de Mariana Zattar pode ser lido na Liinc em Revista em http://bit.ly/2QjmSdt

A sociedade tem interesse na Biblioteconomia e Ciência da Informação?

Em tempos de crise de confiança na ciência, a divulgação científica é a chave para conectar a população aos estudos desenvolvidos em universidades, laboratórios e centros de pesquisa do país.

A pesquisa “Wellcome Global Monitor 2018”, levantamento realizado pelo fundo britânico Wellcome em parceria com a Gallup, que envolveu 140 mil pessoas em 144 países, mostrou que 35% dos brasileiros desconfiam da ciência e que um em cada quatro acredita que a produção científica não contribui para o país.

O Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia, coordenado pela Fiocruz, no Rio de Janeiro também divulgou recente estudo de percepção pública da ciência no qual 71% dos 2,2 mil jovens entrevistados concordaram com a afirmação de que o conhecimento confere poderes que tornam os cientistas perigosos. Que medo é esse da ciência? Ou será apenas medo do desconhecido?

Daí a importância fundamental da divulgação científica ao disseminar o trabalho dos pesquisadores e dos resultados das suas pesquisas. Talvez a sociedade mais consciente do trabalho dos cientistas perceba melhor o papel da ciência no desenvolvimento social e econômico do país.

Mas toda e qualquer pesquisa pode ser divulgada para a sociedade? As pesquisas nas áreas de Saúde, Ciências Biológicas e Ciências Naturais certamente são mais acessíveis, dada a relação automática que as pessoas fazem dessas áreas com a ciência. Uma pesquisa sobre questões de saúde feminina impacta diretamente na vida de grande parcela da sociedade, o que gera um maior interesse social.

E na área da Biblioteconomia? Como divulgar as pesquisas em uma área que as pessoas nem conseguem pronunciar o nome?  Esta é uma pergunta muito pertinente, afinal qual o bibliotecário ou pesquisador da área que nunca escutou a indagação cheia de espanto: “Biblio o quê?”

A boa notícia é que na pesquisa do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia, 70% jovens afirmaram ter interesse em ciência e tecnologia, superando o interesse em esporte e religião. Mesmo que haja um interesse maior nas áreas do “núcleo duro” da ciência, podemos pegar uma carona no entusiasmo desses jovens pela ciência e criar caminhos e pontes para alcança-los.

O mesmo estudo revela ainda que a informação deixa de ser “buscada” e passa a ser “encontrada”, além dos jovens reclamarem da dificuldade em identificar o que é verdadeiro nas informações que circulam tanto na grande mídia como na internet. E isso é uma ótima noticia, pois corrobora com a ideia que a informação está no centro das demandas da sociedade. E quem mais do que bibliotecários e pesquisadores em Ciência da Informação entende sobre esse assunto?

No esforço de refletir sobre divulgação científica em Biblioteconomia e Ciência da Informação (BCI), estou iniciando uma série de postagens no BSF que é um espaço de trocas de ideias entre estudantes, profissionais e pesquisadores da área.

Os trabalhos divulgados são essencialmente de artigos publicados em revistas brasileiras de BCI e o critério de escolha seguiu questões relacionadas ao tema e assunto que abordam e/ou apelo social, conforme orientações do Projeto “Monitoramento de Métricas Alternativas e Atenção Online de Artigos de Periódicos da Ciência da Informação” da qual sou bolsista de iniciação científica do CNPq sob coordenação do Professor Ronaldo Araújo (UFAL).

 

Arquitetura de bibliotecas – edição internacional 2019

Preparem o pacote de dados. Não fiz categorias específicas ou tendências, vou colocar abaixo alguns projetos que gostei, recentes ou nem tanto, critério estritamente pessoal.

Royal College of Surgeons, Dublin

se vc tem dinheiro sobrando, é assim que se faz

Grünerløkka, Oslo – Noruega

Curto demais projetos dessa agência Aatvos, pegada steampunk.

DataLab, Universidade de Stavange – Noruega

Haus der Geschichte, Bonn – Alemanha

Lochal, Tilburg – Holanda

antigo pátio de trens convertido em biblioteca

Fondazione Giangiacomo Feltrinelli, Sala di lettura – Itália

Caulfield Library, Monash University – Australia

Lichfield Library, St Mary’s Church – Inglaterra

JK Murray Library, Universidade de Queensland – Australia

nada de mais mas tem tudo que os alunos precisam. eu gosto da pegada industrial, funciona bem para biblioteca universitária

​University of Roehampton Library, Londres

nada de diferente tb mas parece aconchegante demais

Shellharbour City Library – Australia

meio over talvez, mas curti

O futuro da profissão de bibliotecário

Não tem como não assistir a reportagem da Andreza no globo reporter e não se identificar. Afinal, qual não foi o bibliotecário que acordava às 6 pra ir pra facul e voltava meia noite do estágio mal remunerado, comia aquela marmita vez ou outra estragada, mas fazia tudo isso esperançoso e hoje é um profissional com orgulho dessa saga? Não entendi bem se o programa era sobre o futuro do trabalho ou sobre pessoas que precisaram mudar suas rotinas para garantir um salário. Pagando bem, que mal tem? Ou ainda se era sobre o futuro da educação, porque gostar de aprender como requisito para o mercado de trabalho até ontem pra mim era somente sinônimo de diploma universitário.

De tempo em tempos sai na mídia estudos que indicam que ora a biblioteconomia é uma das profissões mais promissoras para o futuro, ora uma das condenadas a deixar de existir. Eu já fiz minha análise sobre o futuro do nosso trabalho e gosto sempre de acompanhar as taxas de ocupação da profissão. Não sei se o CFB possui esses dados compilados, mas vou chutar que nos últimos 20 anos o número de bibliotecários dobrou, refletindo o aumento no número de escolas de biblioteconomia também nesse recorte de tempo. A nossa população é pequena comparada a outras profissões, mas eu nunca consigo saber ao certo se estamos formando o número adequado de profissionais para a suprir a demanda real de vagas de trabalho, pra mais ou pra menos.

Me recordo quando da data de lançamento da lei da universalização das bibliotecas escolares haveria uma demanda reprimida de cerca de 175 mil vagas de bibliotecários referente aos postos em todas as instituições de ensino no país, e uma média de 20 mil profissionais registrados nos CRBs (considerando a relação dos que se aposentam e registram ao longo dos anos). Comparativamente, parece uma relação muito saudável, mas certamente há agora muitas preocupações sobre o excesso de bibliotecários se formando em um mercado de trabalho saturado, especialmente nas grandes capitais, e a mítica onda de aposentadorias que abriria muitas novas vagas, não parece estar acontecendo na escala prometida (aqui mesmo na firma tem um número grande de gente que já tem idade e tempo de serviço mas que prefere ou precisa continuar trabalhando pra manter a renda). Deve ter até um punhado de graduados que encontram um mercado de trabalho tão hostil que eles voltam para a escola e escrevem dissertações e teses sobre a crise do mercado de trabalho na área de informação. Ou seja, ainda que seja promissora conceitualmente, no mundo real o bibliotecário e outros profissionais estão disputando vaga pra ser entregador do rappi.

A outra equação do futuro do trabalho está no futuro da educação. Desafios de outras épocas como a crescente divergência de objetivos entre o curso de biblioteconomia e o mercado de trabalho, tanto para as habilidades administrativas quanto de administração, continuam os mesmos. Ninguém discorda que não tem como a universidade adequar seus currículos na mesma velocidade que as indústrias alteram suas formas de querer ganhar mais dinheiro. Mas individualmente, se um aluno só vai conseguir obter um pequena fatia de habilidades para o mercado e depois terá que ter contínua “disposição para aprender” então afinal pra que serve a faculdade?

Dizer que o profissional do futuro precisa gostar de aprender é tão óbvio quanto o desafio de aplicar um pacote de teorias e conceitos fundamentais, adaptando os conhecimentos adquiridos não só na faculdade, mas durante toda a vida, aos problemas elementares do trabalho remunerado. É uma estratégia bem simples. Mas não vai ter nenhum requisito de vagas de bibliotecários descrito dessa maneira.

Então bem, que tal fazer um apanhado das descrições de trabalho oferecidos a bibliotecários e traçar um paralelo com os tópicos oferecidos na formação tradicional nas escolas e em cursos de especialização? No linkedin mesmo tem uma variedade de vagas que ou exigem competências demais para o bibliotecário clássico ou trabalhos que exigem competências adicionais que não estão no currículo tradicional mas que poderiam ser realizados por bibliotecários. Isto é, tem as vagas muito tradicionais, as vagas muito especializadas e as propensas vagas. A maior parte dos egressos só consegue competir na primeira linha, que é natural em qualquer profissão, o que causa uma sensação de que o mercado está competitivo demais. Mas acho que existe uma margem grande hoje pra ter currículos flexíveis e professores/instrutores oferecendo disciplinas a distância, compondo um mega currículo agregado entre todas as escolas de biblioteconomia do país. E com isso ampliar a chance de competir naqueles outros dois segmentos de vagas. Mas isso é difícil demais de colocar em prática por conta da burocracia e dos feudos.

Eu fico feliz pela Andreza, que teve a sagacidade de ocupar nichos novos, mudar de cidade em busca de melhores oportunidades, que se manteve fiel ao ethos da profissão atualizando a práxis. Ela muito bem representa a classe. Como fazer agora pra replicar esse espírito, sem que ele seja mero fruto do destino individual?

Tote bag, eco bag, sacola ecológica, bolsa de pano: tem pra vender na loja da biblioteca?

Estava procurando uma bolsa de pano pra dar de presente a mim mesmo mas não encontrei nenhuma loja de biblioteca que tivesse pra vender. Bolsas de pano (tote bad, eco bag, sacola ecológica, como queiram indexar) são bastante comuns em congressos, brindes baratos e úteis de fato, que as pessoas continuam usando mesmo depois dos eventos. Algumas tem desenhos e logos bem feitos, então pow, é um presente legal, tô precisando pra fazer a feira. Essas bolsas são até um item de status, reparem, tem gente que vai em bibliotecas e museus do exterior, compram as bolsas nas lojinhas e depois desfilam aqui.

Bem, então tem algumas questões: por que no Brasil não é comum as bibliotecas terem lojinhas? Tem algumas, claro. Mas essas normalmente não contam com uma venda virtual, caso da Loja do Livro da BN. Tem mais lojinhas em museus, mas por que não também em bibliotecas? Comercializar/lojinhas são tabu em bibliotecas públicas? porque ninguém se espanta com livrarias em shoppings né, mas e se alguma prefeitura decide instalar e bancar uma biblioteca dentro de um shopping por exemplo, daria certo? As pessoas apoiariam a ideia? Ou que uma biblioteca pública grande, como a BMA-SP, lançasse uma pop-up store em algum local na cidade, não só para emprestar livros, mas para vendar produtos da marca? Dá pra conciliar legislação e prática, a biblioteca pública como tal e sua lojinha? Como seria utilizada a grana das vendas? A BP tem que virar uma fundação ou associação de amigos pra poder ter essa lojinha? Você compraria itens de uma loja da biblioteca? Quais tipos de itens, livros, papelaria, camisetas, bolsas?

São perguntas para um TCC quem sabe, acho que não temos muitas experiências desse tipo (já teve biblioteca que substituiu sacolas de plástico por bolsas ecológicas, ótima iniciativa), então mesmo em, ou em função de, um cenário de crise, seria legal a população fazendo uma propaganda das bibliotecas públicas locais, carregando as sacolas como uma consequência da estratégia promovida pelas bibliotecas e um símbolo de status (intelectual, hipster, consumo consciente, sei lá) para quem carrega.

Ainda não encontrei uma bolsa legal aqui no Brasil para presentear, mas fiz algumas buscas e vou deixar abaixo os links de lojas de bibliotecas (e bibliotecas somente, não vale livrarias ou lojas de confecção sob demanda) e as bolsas que gostei mais.

NYPL



Calgary Public Library Foundation


Library of Congress


British Library

Neilson Heys Library

Toronto Public Library Foundation

Brooklyn Public Library

Chicago Public Library

Los Angeles Public Library

State Library New South Wales

Morgan Library

Bodleian Libraries

* foto da Loja do Livro da BN: Alexandre Macieira | Riotur

Censura à pesquisa, censura em bibliotecas: cena de Chernobyl episódio 4

Censura em bibliotecas no Brasil normalmente aparece em quatro versões: censura religiosa, censura ética/social, censura política e censura militar. Censura religiosa é a que historicamente mais aparece nos noticiários e grande mídia (incluir obrigatoriedade de ou excluir bíblias, disputas no sincretismo, etc); censura ética/social acontece normalmente quando querem expurgar de escolas algum livro do tipo que você costuma ler com uma mão só (se é que me entendem meninos e meninas); censura militar mesmo quem não viveu entre 64 e 85 conhece bem, tem a ver com interesses estratégicos e propriedade industrial. Se confunde com a censura política/ideológica, que em governos supostamente democráticos é mais sutil, mas é a que tem aparecido com mais impulso nos últimos anos, desde a redemocratização.

Isso não é um argumento acadêmico, os dados aqui são difusos, mas mesmo considerando os principais casos de censura não lembro de situações extremas recentes que tenham causado a necessidade de algum tipo de reparação na práxis bibliotecária. Muitas das nossas normativas e código de ética em relação à censura são baseadas em preceitos universais do humanismo e democracia, vagos o bastante para se adequar à nossa realidade local. Isto é, para os bibliotecários, seja em uma biblioteca pública, infantil ou lidando com uma coleção especializada, nenhum instrumento de censura pode ser tolerado. Um ponto essencial é que, como trabalhamos com desenvolvimento de acervos, da compra ao descarte, estamos em posição ambivalente de censurar e sermos censurados. Não vou problematizar. Quem quiser saber mais basta procurar nas fontes da área que existem excelentes trabalhos sobre o tema.

Me peguei pensando nesse tema depois que vi o trecho abaixo, da série Chernobyl:

Também não vou problematizar Chernobyl enquanto série, acho que tá claro ali a narrativa ocidental enviesada ainda que o foco seja na tensão entre os pesquisadores/especialistas e os burocratas. A série é muito baseada no livro da Svetlana Aleksiévitch, Vozes de Tchernóbil, que é um trabalho excelente. São dois pontos que me chamaram a atenção nessa cena: fazer pesquisa na era pré-internet e fazer pesquisa sob regime de censura, ou as duas coisas juntas, tudo isso ambientado na biblioteca tradicional.

Eu sinto muita pena de quem tinha que fazer pesquisa na era pré-internet. Se hoje com a velocidade de troca que a gente tem, às vezes as informações ainda são lentas, imaginem naquela época. Pensem na chatice que era vasculhar catálogos de fichas, ter que fazer solicitações para uma bibliotecária gatekeeper e ainda ter que esperar semanas ou meses para obter um determinado artigo, sem saber de fato se ele é relevante para a pesquisa. Deixo aqui meus parabéns a todos os pesquisadores e bibliotecários guerreirinhos pré 1990s.

Sinto mais pena ainda de quem tem que fazer pesquisa sob censura. No trecho da série acima, a pesquisadora solicitou algo em torno de 4 artigos, mas o censor disse que ela poderia ter acesso a somente um deles. E este artigo ainda vinha com páginas a menos, por conta da censura. Era informação crucial para a prevenção de um acidente nuclear, mas que foi mantido em sigilo por um estratégia de Estado. Deu ruim.

Bem, as observações que eu pontuei na cena da biblioteca enquadram o tema que a série explora de maneira geral: o perigo de um poder tão centralizado que a verdade e a falsidade se invertem. Quando as sociedades depreciam não apenas o conhecimento especializado, mas também a natureza da própria verdade, a catástrofe inevitavelmente se segue. Se a gente aplicar essa maior mensagem da série de TV à mudança climática, a disseminação de fake news, terra planismo, campanhas anti-vacinas, memes bizarros no whatsapp e facebook, ela é uma fábula perfeita para os nossos tempos. E eu me pergunto: como nós bibliotecários vamos nos posicionar e lidar com isso? (quando for o momento, se ele não for agora)

Nós não estamos vivendo no Brasil um estado totalitário, mas estamos numa realidade onde um estudo da Fiocruz sobre uso de drogas no Brasil acabou de ser censurado. Um projeto de lei do governo prevê eliminar multa para quem levar criança sem o equipamento apropriado no carro, sendo que estudos mostram que o uso da cadeirinha reduz acidentes fatais. Um lugar onde a verdade não é fixa e as referências estão mudando, na medida em que a verdade é de quem a controla. Vira uma espécie de commodity, a gente pode comprar na esquina ou num ad farm chinês.

Eu trabalho na universidade, então eu sei que os pesquisadores tendem a ser ambíguos quanto aos controles sobre a aplicação e comunicação científica, porque ao mesmo tempo que se opõem a qualquer tipo de censura que possa prejudicar sua autonomia, aceitam algumas restrições justamente a fim de proteger a comunidade acadêmica de intervenção externa. Já os políticos simplesmente evitam qualquer repercussão baseada em dados científicos que mostra o impacto das merdas que estão fazendo. Escolha a cor da sua bandeirinha, não faz diferença. A novidade é que, além de tentar impedir pesquisas em áreas ditas sensíveis ou de “menor retorno”, o governo brasileiro atual está tentando forçar os cidadãos a ignorar que o conhecimento existe.

O paradoxo dos desenvolvimentos atuais desses mecanismos de censura é que eles tendem a destruir a base dos direitos civis ao restringir a liberdade intelectual e científica, quando o uso apropriado dessa censura seria para coibir a presença do anti-intelectualismo, convenhamos. Bibliotecários devem ter isso muito claro em mente.

A censura na maioria dos casos práticos é reduzida em um agente censor que acredita que um determinado banimento pode melhorar a sociedade, proteger criancinhas e restaurar aquilo que vê como valores morais perdidos. Os censores tentam usar o poder do Estado para impor sua opinião sobre o que é verdadeiro e apropriado, ou ofensivo e censurável, acima de tudo, acima de todos. Os censores pressionam as instituições públicas, como as bibliotecas, a suprimir e remover informações de acesso público que julgam inadequadas ou perigosas, de modo que ninguém mais tenha a chance de ler ou visualizar o material e decidir por ele. Isso tudo tá bonitinho lá nas diretrizes da IFLA, devemos combater com todas as forças. Mas quando bate aqui, na nossa porta, é duro de assimilar. Eu me sinto em 1986. Parabéns aos envolvidos.

Arquitetura de bibliotecas – edição nacional 2019

O dinheiro acabou pra todo mundo, exceto pras escolas Lemann e do high society paulistano. Mas continuo sonhando com obras e reformas de bibliotecas públicas no pinterest. Não fiz categorias específicas ou tendências, vou colocar abaixo alguns projetos que gostei, recentes ou nem tanto, critério estritamente pessoal.

Centro Educacional Pioneiro, SP

Bernoulli Go, BH

Beacon School, SP

Anglo 21, SP

Escola Eleva, RJ

Insper, SP

Educandario Imaculada Conceição, Florianópolis

Maison de France, RJ

Instituto Quindim, Caxias do Sul

Livro Livre, SP

Casa Plana, SP

Material BA-Z, SP

[créditos]

Centro Educacional Pioneiro e Bernoulli Go: projeto do StudioLux

Beacon School: projeto da Base Urbana

Anglo 21: projeto Novidário

Quindim: projeto de Jessica de Carli, foge bem da pegada das escolas bilingue, excelente. Manteve as características originais do moinho construído no final do século 19.

Eleva: projeto MPGAA

Maison: projeto Peckson

Insper: Athié Wohnrath

Educandario Imaculada Conceição: Studio 8

Casa Plana é livraria, não fazem empréstimo domiciliar, mas eles se auto-intitulam biblioteca, então está aqui pra gente cobrar depois.

Material BA-Z: primeira biblioteca com foco em materiais da América Latina. Aberta para todos os alunos, professores e funcionários da Belas Artes. Público externo, é necessário agendar visita.

Como realizar uma aula pública sobre a biblioteca universitária

Se você tivesse que montar uma banquinha na praça da cidade e explicar como é o trabalho em uma biblioteca universitária, como você faria? Me peguei pensando nisso, já que novamente existe uma pressão para justificar a existência da universidade e seus funcionários (aqui no caso, universidades públicas). Ideologias políticas e biblioteconômicas a parte, concluí que é um pouco difícil fazer essa explicação.

Pessoalmente eu entendo a biblioteca universitária como um conjunto de técnicas aplicadas ao implemento de outras áreas, ou seja, a BU seria uma espécie de meta-ciência, não uma “ciência” propriamente, mas um tipo de atividade no contexto especializado que está ao serviço de outras ciências. Mas como traduzir isso em termos de um entendimento comum, ao público que está fora da universidade?

Talvez essa aula pública pudesse ser um apanhando de experiências diárias, nos moldes do um dia na vida, ou uma espécie de agradecimento ou reconhecimento por parte dos pesquisadores tal qual em uma banca. Claro que em uma aula pública devemos ofertar antes de esperar aplausos e ampla defesa, mas é impressionante que seja tão raro que os acadêmicos de qualquer nível, as pessoas que de fato utilizam as bibliotecas das universidades, falem sobre como bibliotecários moldam seu trabalho quando articulam os métodos da pesquisa.

Pode ter um sido falta de treinamento de pesquisa propriamente ao decorrer de suas carreiras, mas os pesquisadores deveriam pelo menos intimamente reconhecer que as decisões que os bibliotecários tomam impactam o trabalho que eles, pesquisadores, conseguem realizar. No passado e hoje o acesso a coleções (ou falta desse acesso) determina quase toda a pesquisa acadêmica. Bibliotecas são moldadas pelo desenvolvimento dessas coleções, pelas políticas de acesso, gerenciamento de registros e decisões de avaliação feitas por bibliotecários ao longo dos anos, e são essas decisões que impactam as informações que os alunos e pesquisadores conseguem obter, para dar prosseguimento à suas pesquisas.

Quando um pesquisador vai até a biblioteca solicitando determinados materiais, a gente acaba trazendo outros documentos, deixando-o mergulhar a fundo nas coleções. As vezes só podemos oferecer respostas superficiais e acesso limitado aos registros (seja em razão de orçamento e quadro de pessoal insuficientes ou estar sujeitos à políticas restritivas da instituição). As decisões tomadas pelos bibliotecários podem influenciar também nas descobertas eventuais, e nesse caso é necessário o pesquisador confirmar esse processo para articular o desenvolvimento de seus métodos. Este é principal lembrete para bibliotecários de universidades de que todas as nossas decisões moldam o ambiente da pesquisa acadêmica mais profundamente do que nós mesmos tendemos a acreditar.

Ou seja, uma aula pública sobre a BU é bem vinda no momento atual, mas acredito que sempre haverá a oportunidade para desafiar os acadêmicos, mesmo aqueles que agradecem bibliotecários na seção de agradecimentos, a colocar o processo de pesquisa na biblioteca no corpo de seu trabalho e falar sobre como as bibliotecas determinaram e como os bibliotecários auxiliaram suas pesquisas. Se a pesquisa bibliotecária, física ou digital, fizer parte do método, que digam. Se vc faz pesquisa, pense naqueles momentos em que o acesso a coleções de bibliotecas, ou a falta dele, na verdade moldou as escolhas que você tomou. É necessário fazer essa defesa especialmente se a sua experiência de pesquisa na biblioteca tenha sido tão perfeita que você nem pensou em agradece-la.

Nem todo o público, gestores ou políticos entendem a importância e impacto das bibliotecas. Então uma boa maneira de ajudar a defender as bibliotecas na universidade é essa: demonstrar como você as usa.

Cultura e infraestrutura da publicação acadêmica

Apesar do scihub ter ampliado bastante o acesso por meio de leakings o panorama permanece o mesmo: a publicação científica ainda é dominada pelas grandes editoras (com crescentes margens de lucro financiadas pelo erário); a maior parte dos resultados de pesquisa permanece legalmente sob paywalls; pesquisadores dificilmente passam em concursos ou avançam na carreira se não publicarem em top journals; o número de periódicos continua a crescer exponencialmente (apertando ainda mais o gargalo no processo de submissão); problemas de replicação permanecem especialmente por conta desse gargalo (nem os top journals são mais confiáveis); as bibliotecas ainda estão sujeitas ao corpo docente que é intransigente em relação à manutenção das assinaturas de determinados journals; a tecnologia aplicada à literatura ainda é arcaica moldes anos 90 (muitos periódicos não tem hiperlinks, não tem gráficos 3d, não tem seção de comentários, não tem participação aberta, não oferecem plataformas de colaboração, etc); não existem soluções institucionais para armazenar os produtos dos pesquisadores além da produção textual (caso dos repositórios nas principais universidades). Esses pontos estão evidenciados em trabalhos de gente que pesquisa profundamente a publicação científica.

Uma mudança de percepção em relação a minha posição no passado foi a noção que o comportamento dos pesquisadores era determinado pelos incentivos. Mas agora entendo que, para além do benefício pecuniário e obtenção de recursos, uma vez inseridos na cultura da publicação científica, eles não se importam. Isto é, pesquisadores/docentes não se importam em pagar pra ter artigo publicado em gold access. Se eles pesquisam um artigo e o encontram via scihub, não conseguem avaliar em que grau isso é ou não prejudicial às suas carreiras. Não fazem a menor ideia de como as bibliotecas funcionam, rúbricas de pagamento, como o portal capes adquire as assinaturas, qual o real papel das bibliotecas nas avaliações da Capes e Inep, por que o sci-hub existe, por que ainda exigem a impressão de teses nascidas digitais, qual é o argumento central do open access, etc etc. Se importam somente com suas pesquisas e departamentos. Lidar com assinaturas de periódicos, aquisições de livros, implantação de uma cultura de acesso igualitário, não é com eles, essa deveria ser uma responsabilidade da burocracia e infraestrutura. Na verdade eles veem com bastante descrédito o sistema de aquisições, seja de periódicos ou livros. Estão errados? Talvez não. Entendo que eles tem suas razões para se ater ao sistema e ir contra o movimento de ciência aberta: falta de tempo para compreender o cenário amplo, medo de competição, preocupação com privacidade, plágio, etc. Alguns professores criticam minha abordagem defendendo que são conscientes de todo esse cenário, estão fazendo sua parte e que a Capes caminha positivamente. Preferem achar distorcida a realidade em que vivo, tratando minha experiência de bibliotecário em uma BU federal como uma narrativa fora da curva, eu generalizando a publicação a tal ponto que fica difícil para eles convencer seus orientandos a importância de escrever artigos.

Quando eu me dispunha a discutir e falar sobre o tema, em qualquer instância da universidade, minha defesa era simples: periódicos não são mais relevantes para a academia (em função das possibilidades de publicação e disseminação em base web, distinta dos moldes originais da royal society); o valor das assinaturas dos periódicos é tão alto que nos limita a investir na criação de uma infraestrutura própria (coisa que o Ibict capitania no Brasil, mas passaram muitos anos desde Budapeste e o parágrafo inicial permanece. O portal Capes é ótimo, não é o problema, mas ofusca o entendimento do panorama maior. Quanto custa anualmente o portal capes inteiro? E se esse dinheiro fosse revertido em outras frentes que não assinaturas?)

Atualmente o custo estimado da publicação mundial é 10 bi dólares anuais; o valor de assinatura de um top journal é da ordem de 5k por artigo. APC (article processing charges) varia entre 100 e 5k dólares. Os movimentos recentes estão na direção em que os recursos/verba devem ser usados para a publicação em vez da leitura (e ainda idealmente os casos de rompimento da alemanha, suécia, california com elsevier, plano S e Fapesp indo green access). O desafio é participar de discussões e atuar na prática em estratégias de acesso aberto total, convencer Capes (na figura do portal) e bibliotecas (como fornecedoras das avaliações e solicitações de assinatura) que é do melhor dos interesses cancelar assinaturas; reverter essa grana para desenvolvimento de infra; desenvolver padrões e definir as funcionalidades necessárias para uma infraestrutura de publicação moderna; estratégia para estabelecer um núcleo de funcionalidades para as instituições cooperadoras/conveniadas/capes. Não é uma tarefa simples, mas imaginem de início um scihub inteiramente legal, fazendo harvesting dos repositórios das maiores universidades daqui, que seriam alimentados localmente a contento (a partir de normativas institucionais ou não). As etapas posteriores são da mudança da cultura de avaliação/punição em relação aos locais de publicação dos produtos de pesquisa (difícil demais isso aqui, como fazer os pesquisadores se desvencilhar do fator de impacto, sou pessimista).

Enfim, a proposta é, deixar de pagar assinaturas e pegar esse dinheiro e investir na implementação de uma infra. Mas por quê? Porque os editores com fins lucrativos estão cada vez se movendo da publicação somente (dentro do ciclo de vida da pesquisa) para a aquisição da infraestrutura de pesquisa. A nossa atenção somente ao paywall nos distraiu das estratégias que essas empresas estão adotando. Não existem mecanismos com força suficiente para mitigar o poder e influência dessas editoras a partir do momento que possuírem controle sobre todo o ciclo da pesquisa (pesquisa, publicação e avaliação). Não existe margem para competição e tendem a adquirir qualquer novo serviço emergente independente (como aconteceu com Mendeley e algumas ferramentas de altmetria). Trata-se da mesma linha de atuação das grandes empresas que controlam os mercados digitais: mão de obra barata ou grátis, serviço em troca da liberação de dados e privacidade, lucros altos e centralização total, não interoperáveis. Uma vez dominado o mercado é impossível não participar do modelo.

Talvez a única maneira de fazer com que os docentes/pesquisadores abandonem as editoras tradicionais (que não seja pela força de normativas) é oferecer uma infra com todas as ferramentas que vc deseja que eles usem, com tudo mastigadinho (por exemplo, o default da publicação sendo aberta e não o contrário). Justamente aqueles que não se importam ou não fazem a menor ideia, vão adotar o que for mais conveniente, rápido e grátis, para enfim poderem focar na pesquisa. Os que tem receios e tem motivos pra manter o trabalho fechado, vão pelo menos ter a chance de avaliar os benefícios. Uma vez criada a infraestrutura para os produtos de pesquisa, pensar depois em mecanismos para avaliar a qualidade da pesquisa em um cenário em que os periódicos não mais existem.