Como realizar uma aula pública sobre a biblioteca universitária

Se você tivesse que montar uma banquinha na praça da cidade e explicar como é o trabalho em uma biblioteca universitária, como você faria? Me peguei pensando nisso, já que novamente existe uma pressão para justificar a existência da universidade e seus funcionários (aqui no caso, universidades públicas). Ideologias políticas e biblioteconômicas a parte, concluí que é um pouco difícil fazer essa explicação.

Pessoalmente eu entendo a biblioteca universitária como um conjunto de técnicas aplicadas ao implemento de outras áreas, ou seja, a BU seria uma espécie de meta-ciência, não uma “ciência” propriamente, mas um tipo de atividade no contexto especializado que está ao serviço de outras ciências. Mas como traduzir isso em termos de um entendimento comum, ao público que está fora da universidade?

Talvez essa aula pública pudesse ser um apanhando de experiências diárias, nos moldes do um dia na vida, ou uma espécie de agradecimento ou reconhecimento por parte dos pesquisadores tal qual em uma banca. Claro que em uma aula pública devemos ofertar antes de esperar aplausos e ampla defesa, mas é impressionante que seja tão raro que os acadêmicos de qualquer nível, as pessoas que de fato utilizam as bibliotecas das universidades, falem sobre como bibliotecários moldam seu trabalho quando articulam os métodos da pesquisa.

Pode ter um sido falta de treinamento de pesquisa propriamente ao decorrer de suas carreiras, mas os pesquisadores deveriam pelo menos intimamente reconhecer que as decisões que os bibliotecários tomam impactam o trabalho que eles, pesquisadores, conseguem realizar. No passado e hoje o acesso a coleções (ou falta desse acesso) determina quase toda a pesquisa acadêmica. Bibliotecas são moldadas pelo desenvolvimento dessas coleções, pelas políticas de acesso, gerenciamento de registros e decisões de avaliação feitas por bibliotecários ao longo dos anos, e são essas decisões que impactam as informações que os alunos e pesquisadores conseguem obter, para dar prosseguimento à suas pesquisas.

Quando um pesquisador vai até a biblioteca solicitando determinados materiais, a gente acaba trazendo outros documentos, deixando-o mergulhar a fundo nas coleções. As vezes só podemos oferecer respostas superficiais e acesso limitado aos registros (seja em razão de orçamento e quadro de pessoal insuficientes ou estar sujeitos à políticas restritivas da instituição). As decisões tomadas pelos bibliotecários podem influenciar também nas descobertas eventuais, e nesse caso é necessário o pesquisador confirmar esse processo para articular o desenvolvimento de seus métodos. Este é principal lembrete para bibliotecários de universidades de que todas as nossas decisões moldam o ambiente da pesquisa acadêmica mais profundamente do que nós mesmos tendemos a acreditar.

Ou seja, uma aula pública sobre a BU é bem vinda no momento atual, mas acredito que sempre haverá a oportunidade para desafiar os acadêmicos, mesmo aqueles que agradecem bibliotecários na seção de agradecimentos, a colocar o processo de pesquisa na biblioteca no corpo de seu trabalho e falar sobre como as bibliotecas determinaram e como os bibliotecários auxiliaram suas pesquisas. Se a pesquisa bibliotecária, física ou digital, fizer parte do método, que digam. Se vc faz pesquisa, pense naqueles momentos em que o acesso a coleções de bibliotecas, ou a falta dele, na verdade moldou as escolhas que você tomou. É necessário fazer essa defesa especialmente se a sua experiência de pesquisa na biblioteca tenha sido tão perfeita que você nem pensou em agradece-la.

Nem todo o público, gestores ou políticos entendem a importância e impacto das bibliotecas. Então uma boa maneira de ajudar a defender as bibliotecas na universidade é essa: demonstrar como você as usa.

Cultura e infraestrutura da publicação acadêmica

Apesar do scihub ter ampliado bastante o acesso por meio de leakings o panorama permanece o mesmo: a publicação científica ainda é dominada pelas grandes editoras (com crescentes margens de lucro financiadas pelo erário); a maior parte dos resultados de pesquisa permanece legalmente sob paywalls; pesquisadores dificilmente passam em concursos ou avançam na carreira se não publicarem em top journals; o número de periódicos continua a crescer exponencialmente (apertando ainda mais o gargalo no processo de submissão); problemas de replicação permanecem especialmente por conta desse gargalo (nem os top journals são mais confiáveis); as bibliotecas ainda estão sujeitas ao corpo docente que é intransigente em relação à manutenção das assinaturas de determinados journals; a tecnologia aplicada à literatura ainda é arcaica moldes anos 90 (muitos periódicos não tem hiperlinks, não tem gráficos 3d, não tem seção de comentários, não tem participação aberta, não oferecem plataformas de colaboração, etc); não existem soluções institucionais para armazenar os produtos dos pesquisadores além da produção textual (caso dos repositórios nas principais universidades). Esses pontos estão evidenciados em trabalhos de gente que pesquisa profundamente a publicação científica.

Uma mudança de percepção em relação a minha posição no passado foi a noção que o comportamento dos pesquisadores era determinado pelos incentivos. Mas agora entendo que, para além do benefício pecuniário e obtenção de recursos, uma vez inseridos na cultura da publicação científica, eles não se importam. Isto é, pesquisadores/docentes não se importam em pagar pra ter artigo publicado em gold access. Se eles pesquisam um artigo e o encontram via scihub, não conseguem avaliar em que grau isso é ou não prejudicial às suas carreiras. Não fazem a menor ideia de como as bibliotecas funcionam, rúbricas de pagamento, como o portal capes adquire as assinaturas, qual o real papel das bibliotecas nas avaliações da Capes e Inep, por que o sci-hub existe, por que ainda exigem a impressão de teses nascidas digitais, qual é o argumento central do open access, etc etc. Se importam somente com suas pesquisas e departamentos. Lidar com assinaturas de periódicos, aquisições de livros, implantação de uma cultura de acesso igualitário, não é com eles, essa deveria ser uma responsabilidade da burocracia e infraestrutura. Na verdade eles veem com bastante descrédito o sistema de aquisições, seja de periódicos ou livros. Estão errados? Talvez não. Entendo que eles tem suas razões para se ater ao sistema e ir contra o movimento de ciência aberta: falta de tempo para compreender o cenário amplo, medo de competição, preocupação com privacidade, plágio, etc. Alguns professores criticam minha abordagem defendendo que são conscientes de todo esse cenário, estão fazendo sua parte e que a Capes caminha positivamente. Preferem achar distorcida a realidade em que vivo, tratando minha experiência de bibliotecário em uma BU federal como uma narrativa fora da curva, eu generalizando a publicação a tal ponto que fica difícil para eles convencer seus orientandos a importância de escrever artigos.

Quando eu me dispunha a discutir e falar sobre o tema, em qualquer instância da universidade, minha defesa era simples: periódicos não são mais relevantes para a academia (em função das possibilidades de publicação e disseminação em base web, distinta dos moldes originais da royal society); o valor das assinaturas dos periódicos é tão alto que nos limita a investir na criação de uma infraestrutura própria (coisa que o Ibict capitania no Brasil, mas passaram muitos anos desde Budapeste e o parágrafo inicial permanece. O portal Capes é ótimo, não é o problema, mas ofusca o entendimento do panorama maior. Quanto custa anualmente o portal capes inteiro? E se esse dinheiro fosse revertido em outras frentes que não assinaturas?)

Atualmente o custo estimado da publicação mundial é 10 bi dólares anuais; o valor de assinatura de um top journal é da ordem de 5k por artigo. APC (article processing charges) varia entre 100 e 5k dólares. Os movimentos recentes estão na direção em que os recursos/verba devem ser usados para a publicação em vez da leitura (e ainda idealmente os casos de rompimento da alemanha, suécia, california com elsevier, plano S e Fapesp indo green access). O desafio é participar de discussões e atuar na prática em estratégias de acesso aberto total, convencer Capes (na figura do portal) e bibliotecas (como fornecedoras das avaliações e solicitações de assinatura) que é do melhor dos interesses cancelar assinaturas; reverter essa grana para desenvolvimento de infra; desenvolver padrões e definir as funcionalidades necessárias para uma infraestrutura de publicação moderna; estratégia para estabelecer um núcleo de funcionalidades para as instituições cooperadoras/conveniadas/capes. Não é uma tarefa simples, mas imaginem de início um scihub inteiramente legal, fazendo harvesting dos repositórios das maiores universidades daqui, que seriam alimentados localmente a contento (a partir de normativas institucionais ou não). As etapas posteriores são da mudança da cultura de avaliação/punição em relação aos locais de publicação dos produtos de pesquisa (difícil demais isso aqui, como fazer os pesquisadores se desvencilhar do fator de impacto, sou pessimista).

Enfim, a proposta é, deixar de pagar assinaturas e pegar esse dinheiro e investir na implementação de uma infra. Mas por quê? Porque os editores com fins lucrativos estão cada vez se movendo da publicação somente (dentro do ciclo de vida da pesquisa) para a aquisição da infraestrutura de pesquisa. A nossa atenção somente ao paywall nos distraiu das estratégias que essas empresas estão adotando. Não existem mecanismos com força suficiente para mitigar o poder e influência dessas editoras a partir do momento que possuírem controle sobre todo o ciclo da pesquisa (pesquisa, publicação e avaliação). Não existe margem para competição e tendem a adquirir qualquer novo serviço emergente independente (como aconteceu com Mendeley e algumas ferramentas de altmetria). Trata-se da mesma linha de atuação das grandes empresas que controlam os mercados digitais: mão de obra barata ou grátis, serviço em troca da liberação de dados e privacidade, lucros altos e centralização total, não interoperáveis. Uma vez dominado o mercado é impossível não participar do modelo.

Talvez a única maneira de fazer com que os docentes/pesquisadores abandonem as editoras tradicionais (que não seja pela força de normativas) é oferecer uma infra com todas as ferramentas que vc deseja que eles usem, com tudo mastigadinho (por exemplo, o default da publicação sendo aberta e não o contrário). Justamente aqueles que não se importam ou não fazem a menor ideia, vão adotar o que for mais conveniente, rápido e grátis, para enfim poderem focar na pesquisa. Os que tem receios e tem motivos pra manter o trabalho fechado, vão pelo menos ter a chance de avaliar os benefícios. Uma vez criada a infraestrutura para os produtos de pesquisa, pensar depois em mecanismos para avaliar a qualidade da pesquisa em um cenário em que os periódicos não mais existem.

FOLIO – O Futuro das Bibliotecas é aberto – Software livre para bibliotecas

O mercado de softwares livres de biblioteca já possui boas opções como o PMB e o Koha. Mas está sendo desenvolvido pela The Open Library Foundation um Software Livre que representa um novo conceito em softwares de biblioteca: o FOLIO, que é uma Library Services Platform (LSP – Plataforma de serviços para bibliotecas).

Para entender, é necessário comparar com o conceito anterior, o Integrated Library System (ILS). ILS são softwares que integram diversos módulos, mas cada um com uma função exclusiva. Por exemplo, num ILS, existe um módulo de catalogação, um de aquisições, um de circulação… Uma Library Services Platform (LSP) funciona de maneira diferente, a melhor comparação é com o Android, uma plataforma em que podem ser instalados diversos aplicativos que executam funções não exclusivas. Por exemplo, pode se ter um modulo de catalogação em MARC, mas também outro módulo de catalogação em Dublin Core, outro em BIBFRAME. A vantagem é poder montar o software de acordo com as necessidades da instituição, e não o contrário, em que a instituição tinha que se adaptar ao ILS.

Por se tratar de um conceito diferente, muitas serão as vezes que estranharemos usar um novo sistema:

  • Seu foco não é o MARC, é o Folio CODEX.
  • Não tem GUI, é tudo na nuvem.
  • Não tem OPAC, a instituição pode escolher o frontend que mais lhe atende.
  • Não tem reload, é um webapp.
  • Gerencia recursos eletrônicos e físicos, separadamente e tudo junto
  • Totalmente modular, inclusive permitindo retirar módulos que não são utilizados
  • Sim, pode ter mais de uma forma de cadastrar um registro, inclusive mais de um editor MARC, por exemplo. Ah, ele pode usar o MARC, apesar de não ter foco nele.

Uma ressalva bem importante: será um software livre bastante robusto e por isso, demandará uma infraestrutura de servidor bem robusta. E ainda, é sempre importante lembrar que ao contrário de um software proprietário, o software livre exige conhecimento técnico pela equipe de informática. É sempre importante lembrar que não se investe recursos em aquisição, mas é importante investir na capacitação da equipe.

O FOLIO permite que nós bibliotecários tenhamos uma oportunidade incrível de aprender como se constrói um software de biblioteca. Importante destacar que em todos os módulos, os bibliotecários foram protagonistas no desenvolvimento, participando de equipes multidisciplinares. Todo o processo está bem documentado (inclusive em um canal no Youtube), há diversas formas de interação… Há um texto completo de Como posso participar do projeto FOLIO?.

Por ser interativo, a tradução já está 100% em Português do Brasil. Foi feita por voluntários que se inscreveram no projeto

Tá curioso? Quer testar:

Você pode testar a demo da versão bellis (q1-2019) do FOLIO aqui: diku_admin (username) / admin (password)

Tem alguma dúvida, deixe um comentário.

UPDATE:

Haverá 3 eventos para divulgação do FOLIO para a comunidade bibliotecária no Brasil. Uma oportunidade boa para conhecer não só o software, mas o contexto por trás:
São Paulo – USP – 7 de maio de 2019
Porto Alegre – UFRGS – 8 de maio de 2019
Brasília – Biblioteca Nacional de Brasília – 9 de maio de 2019

Como ter acesso a artigos científicos pagos

Uma das minhas atividades de trabalho como bibliotecário é ir até as salas dos alunos de graduação, mestrado e doutorado e ensina-los a localizar os documentos que veem nas referências das suas pesquisas. As referências são aquelas listas de artigos/livros que aparecem ao final dos artigos/livros, que contêm todas as citações e menções a outros documentos. Mesmo quem nunca fez pesquisa acadêmica é capaz de reconhecer isso na literatura tradicional e a importância desse modelo para o avanço da ciência.

Normalmente os orientadores começam o processo de pesquisa indicando uma lista de referências e o aluno tem que correr atrás desse material inicial, até começar a se aprofundar no tema e então descobrir e percorrer suas próprias referências de maneira autônoma. O meu papel é fazê-los entender a diferença entre acesso e acessibilidade, nos termos da publicação acadêmica, que é a diferença entre confirmar que um documento existe e saber onde ele se encontra, para a etapa onde é possível de fato ter acesso e consultar esse material, pegar emprestado, imprimir, baixar e ler. Independente de referências individualmente serem bastante citadas, o desafio é garantir que o aluno consiga obter a maior quantidade possível de materiais que ele precisar, na íntegra.

Mas bem, eles não conseguem sozinhos encontrar tudo que precisam, seja por falta de familiaridade com as ferramentas de busca e catálogos de bibliotecas e bases de dados ou simplesmente porque em algum momento empacam em sites de editoras científicas que cobram algumas dezenas de dólares para ter acesso ao texto completo. Quais são então as estratégias que eu uso e indico a eles para conseguir esses artigos na íntegra? Como é o meu esquema de trabalho toda vez que um professor ou aluno me manda um email dizendo “tô precisando dessa publicação, não tem no portal capes, nem no scihub, pode ajudar?”

Eu venho fazendo muito disso nos últimos 10 anos trabalhando em uma das bibliotecas da UFRJ e embora quase todos os dias seja a mesma coisa, eu nunca soube ao certo como explicar o que faço de maneira clara e coerente. Nos treinamentos que a gente oferece normalmente eu explico os passos superficiais (catálogos de biblioteca, portal capes, comut, ccn) mas sempre esquivo na parte mais complexa dizendo para os alunos não perderem tempo e mandarem pra mim a referência quando encontrarem alguma dificuldade.

Enfim, eu decidi destrinchar algumas das táticas e macetes que utilizo com mais frequência, e oferecer isso em formato de vídeo-tutoriais, onde as pessoas pudessem ver o processo de busca exatamente como eu estou fazendo no meu computador. É um curso basicão sobre como encontrar artigos científicos usando métodos não tradicionais. Serve para bibliotecários claro, mas também para qualquer pessoa interessada ou que esteja fazendo pesquisa científica. O curso é pago, tem um custo operacional da plataforma, mas combinei com o Cauê de deixar bem acessível. A primeira aula é grátis pra quem quiser ver e saber como funciona.

No escuro da biblioteca, brilha uma luz

Se o mundo ficar pesado
Eu  pedir emprestado
A palavra poesia
Se o mundo emburrecer
Eu vou rezar pra chover
Palavra sabedoria

Jonathan Silva. Samba da utopia

Naquela noite, Mauro estava incumbido de fechar a biblioteca. Um funcionário ainda estava em férias quando o outro quebrou o pé no futebol de domingo, isso tudo ocorrendo durante a licença maternidade da bibliotecária do noturno. A chefe fez o que pode, colegas trocaram de horário para ajudar, mas sobraram três dias em não houve jeito, e o estagiário foi incumbido de fechar toda a área de acervo, enquanto o guardinha fechava a sala de leitura maior, enxotando suavemente os últimos leitores, e a porta de saída. O rapaz estava um pouco preocupado, mas bastante orgulhoso com a responsabilidade. Era uma tarefa importante, afinal, e o fizeram decorar uma listinha: examinar as janelas, esvaziar o reservatório do desumidificador da sala de obras raras, fazer a revista dos corredores em busca de algum distraído que ainda estivesse enfiado por lá, ver se o gato não estava dormindo em algum canto, apagar as luzes, acionar o alarme.

Mauro, estudante de letras e filho de professores, amava bibliotecas desde pequeno. Quase não acreditou em sua sorte quando lhe falaram da vaga de estagiário na biblioteca central da universidade. Dizia para os amigos que, além de trabalhar o dia todinho no meio dos livros, ainda iam lhe dar dinheiro por isso! Era muita felicidade. Diante de seu entusiasmo, a chefe explicou, tentando parecer muito séria mas sem conseguir disfarçar a ternura do olhar, que não esperasse muito do estágio. Seria, basicamente, guardar livros, procurar livros perdidos, fazer empréstimo e outros serviços menores. Talvez um pouco chato para um rapaz inteligente como ele, sorriu apreensiva a bibliotecária-chefe. Chato? Não, jamais. Como poderia ser chato pegar esse monte de livros, sentir o peso deles e a textura de suas capas, dar uma olhadinha rápida no títulos e arrumar tudo na estante de acordo com essas etiquetinhas? Não, Mauro achou maravilhoso e gostou mais ainda quando entendeu todos os detalhes da formação dos códigos de localização, cujo nome, número de chamada, achou poético. Trabalhava contente, fotografando com seu celular as capas que achava mais bonitas, os livros que um dia, quando terminasse a faculdade, iria ler. Os funcionários achavam meio bobo o entusiasmo do rapaz, mas para a bibliotecária-chefe, era “muito fofo”.

Em dias de pouco movimento, Mauro gostava de ouvir as histórias dos funcionários mais antigos e crivá-los de perguntas. Como era antes do computador, quando a gente precisava procurar os livros naquelas fichinhas? Quem era o professor Onofre Arantes, que doou, no entendimento do estagiário, “metade dos livros desta biblioteca”? Por que não encadernavam os livros de acordo com a classificação, cada assunto uma cor? As perguntas divertiam o pessoal, mas nada era melhor do que contar histórias de fantasmas, algumas já tradicionais, outras incrementadas pela fantasia de uma das bibliotecárias mais jovens.

Sim, bibliotecas são lugares notoriamente mal-assombrados. Funcionários muito apegados que morrem mas não querem ir embora, gente que morreu enquanto lia um dos livros, ou mesmo uma dessas almas perdidas que descobre um bom refúgio em lugares tão calmos, onde sempre há livros antigos. Fantasmas adoram coisas antigas, garantia Marlene, a bibliotecária mocinha. Mas são espíritos inofensivos, como o da senhora que guardou livros a vida toda, e até hoje aparece de vez quando para dar uma ajeitadinha nas estantes. Espíritos inofensivos, quase todos, frisou Marlene. Mauro adorava as histórias e, embora não acreditasse no sobrenatural, sentia alguma coisa parecida com inquietude quando ouvia ruídos de procedência incerta à noite, na biblioteca.

Mas, naquela noite, ele não estava pensando nessas coisas. Quando chegou a hora de fechar, pegou sua listinha (para não esquecer de nada) e foi fazer seu trabalho, calmo e confiante, até que viu as luzes. Depois de apagadas todas as lâmpadas que ele sabia existirem, Mauro vislumbrou, levemente piscantes, alguns focos de luz entre as estantes da classificação 300. Que diabo, será que algum retardatário maluco ainda está com a cara enfiada nesses livros e ligou o celular quando ficou escuro? Não seria tão surpreendente, em biblioteca o que não falta é gente doida no meio das estantes.

– Tem alguém aí? A gente está fechando… – avisou.

A única resposta foi um inequívoco aumento na intensidade das luzes. Assustado, Mauro correu até os interruptores, acendeu as luzes novamente e chamou pelo guardinha, que aguardava no saguão. Os dois examinaram corredor por corredor, começando pelas estantes onde as luzes haviam brilhado. Nada, não havia ninguém em meio às estantes, apenas livros em sua habitual impassibilidade. O guardinha nem pareceu muito surpreso com a bizarrice da história, fato que o estagiário achou estranho.

– Deve ter sido algum reflexo de alguma luz lá fora, Mauro. Não esquenta, não tem ninguém aqui dentro, vambora que eu não quero perder o busão.

Mauro considerou a explicação estapafúrdia, mas, como não conseguiu produzir outra, decidiu aceitá-la. Acompanhou o Rafa até o ponto do ônibus e foi para casa à pé, para relaxar e pensar um pouco. A noite, passou quase em claro, dividido entre sentimentos como medo, vergonha de ter medo e mais alguns que não conseguia nomear. Nos próximos dois dias, ele teria que fechar novamente a biblioteca. E apagar a luz.

No dia seguinte, perto da hora de fechar, Rafa veio avisar, num tom cúmplice, que iria adiantar o seu serviço na parte externa para ficar com ele na hora de fechar. Mas o guardinha só apareceu depois que Mauro já havia feito a ronda, botado o gato para fora e apagado todas as luzes, menos aquela que deixou atrás de si ao sair quase correndo do local. Quase tropeçou no Rafa, que se desculpou todo atrapalhado, explicando que tivera que atender a uma ligação da namorada que estava puta com ele por motivos que não vinham ao caso, e ficou dando bronca por uns 5 minutos.

– E hoje – perguntou – teve luz fantasma de novo?

Mauro só respondeu com um olhar aflito, que encheu o guardinha de remorsos por não ter cumprido o prometido. Achou que seria o caso de levar o estagiário até o boteco para tomar um troço, proposta que foi bem recebida. Depois da primeira dose da melhor cachacinha do estabelecimento, Rafa esfregou as mãos, criou coragem e aconselhou:

– Cara, se eu fosse você, ia falar com a Lídia. Aquela chefe lá do segundo andar, a de cabelo cinza.

Sim, Mauro sabia quem era Lídia. A chefe da catalogação era uma mulher de olhar penetrante e pisada dura, de idade indefinida e cabelos cinzentos  encaracolados, ainda bem bonita. Todos a respeitavam muito e calavam a boca quando ela passava. Mauro a atendia quando ia retirar livros à noite, depois da aula. A bibliotecária também era professora de grego, e dava aulas uma vez por semana numa faculdade próxima dali. Era educada, mas muito reservada e de pouca fala. Mas o que ela poderia fazer? Mauro confessou que teria vergonha de falar com ela sobre o assunto.

– Lídia é uma mulher dos mistérios, mano. Sabe de muitas coisas e já resolveu umas paradas estranhas lá na biblioteca – fez uma pausa, virou o último gole da cachaça e ficou olhando o copo antes de se decidir a continuar. E foi ela que tirou da casa da mãe do meu chefe uma coisa que não queria sair de lá. Fala com ela, amanhã, sem falta.

Mauro pediu mais uma rodada para espantar o arrepio que sentiu a ouvir “paradas estranhas” e não ousou perguntar o que era a coisa que não queria sair da casa da mãe do chefe. Beberam, mudaram de assunto e foram embora, Mauro ao encontro de mais uma noite ruim.

No final da tarde do dia seguinte, quando caminhava pelo corredor empurrando o carrinho de livros para guardar, sentiu uma sensação diferente na nuca que o obrigou a olhar para trás. Lídia olhava para ele, com uma expressão marota.

– Desculpa, não quis te assustar. Vamos ver quem está brilhando no escuro hoje?

A bibliotecária soltou uma risada suave diante da surpresa confusa do rapaz e fez sinal para caminharem até o jardim. Mauro seguiu-a vexado, procurando o guardinha linguarudo para fazer um gesto de ameaça, mas não o viu. Que vergonha da porra iria passar agora.

Sentaram-se num banco de madeira. Por alguns instantes, a bibliotecária ficou quieta, olhando as copas das árvores, como se estivesse pensando no que dizer. Por fim, soltou um pequeno suspiro e começou.

– Eles fazem isso, Mauro, ao menos alguns deles. Não é todo mundo que vê, mas os livros de alguns autores emitem luzes no escuro. Às vezes é só um leve brilho, mas também pode ser um verdadeiro holofote. Foi isso o que você viu, não?

Mauro não tinha certeza do que havia visto, mas a hipótese de livros emitindo luz era ainda mais absurda do que qualquer história de fantasmas em bibliotecas. Sem dar sinais de se importar com a incredulidade do rapaz, a bibliotecária continuou.

– Os livros de poesia são os maiores responsáveis por esses eventos luminosos. Drummond, Fernando Pessoa, Garcia Lorca… esses caras adoram iluminar estantes. Mas há livros que se manifestam em momentos específicos ou lugares específicos, de acordo com circunstâncias que os fazem necessários.  Nem sempre a luz que brilha na Síria é a mesma que brilha aqui ou em Londres, mas às vezes é. Gosto de pensar que temos os mesmos livros brilhando em várias bibliotecas do mundo. Que tal a ideia?

Mauro não respondeu. Não tinha certeza de que a mulher estivesse falando sério, e ela percebeu. Avisou que ficaria até o horário de fechar, para testemunharem juntos o fenômeno – se é que aconteceria novamente naquela noite.

Lídia ficou por lá, lendo e fazendo anotações em seu caderninho de capa preta. O estagiário terminou de guardar os poucos livros que ainda restavam no carrinho e foi para o balcão de atendimento. Pouco depois da nove e trinta, seu colega de balcão foi embora e a bibliotecária começou a ajudá-lo a fechar o local. Lá fora, Rafa dava umas espiadas, ressabiado, mas não entrou. O último usuário saiu, dando boa noite abraçado a uma pilha de livros “para o final de semana”. Quando Mauro desligou todos os interruptores, como nos dois dias anteriores, nem todas as luzes de apagaram. Lá nas estantes da classe 300, brilhavam levemente alguns focos de luz. Lídia sorriu.

– Ah, eu já desconfiava! –  e foi puxando o estagiário pela mão para dentro do corredor.

E de repente, Mauro viu e entendeu. Lá na classificação 370, sob o olhar de uma bibliotecária madura e de um jovem estudante que segurava com força a mão dela, com os títulos em suas lombadas perfeitamente visíveis sob a luz suave que agora se erguia quase até o teto, luziam os livros de Paulo Freire.

foto do cabeçalho: Micke Jakobsson (Flickr); foto do gato: Watchcaddy (Flickr) foto da biblioteca à noite: Marina

Imagens de arte e a arte de trabalhar com imagens

Comecei a trabalhar com organização de imagens de obras de arte na Biblioteca da Escola de Comunicações e Artes da USP ainda no tempo em que o melhor suporte para esse tipo de acervo eram os slides, no início dos anos 1980. E não me refiro ao power point, mas a fotografias em suporte transparente, montadas em molduras de plástico ou papelão, próprias para serem projetadas. Para quem não lembra, ou só nasceu muito depois:

Antes da internet e dos sites de museus, os professores usavam slides para mostrar e discutir obras de arte em sala de aula, e as bibliotecas de instituições que ofereciam cursos de artes precisavam se virar para formar coleções.

Como praticamente não existiam, no Brasil, esse tipo de material disponível para compra, a solução era obter doações com os próprios artistas e produzir artesanalmente nossos próprios slides. Inicialmente atendíamos às demandas específicas dos professores, que solicitavam imagens de obras de um determinado artista, por exemplo. Com o tempo e a experiência adquirida, chegamos a estabelecer uma política de desenvolvimento de acervo: já sabíamos que material fotografar, quais  slides deveríamos descartar etc.

Não era fácil. Precisamos aprender a  localizar e escolher as ilustrações, fotografar da melhor forma possível, iluminar,  analisar a qualidade das imagens depois de prontas, montar os slides etc. Isso tudo se passou em eras pré-internet e câmeras digitais –  quem nasceu depois disso tudo não tem ideia da pauleira que era montar uma coleção de imagens naquela época. Mas era bem divertido, devo admitir.

Nossa pequena coleção de slides, que não chegou a ultrapassar 25.000 itens, era bastante usada pelos professores da Escola e pelos alunos que davam aula em outras instituições, até ser engolida pela evolução tecnológica.

Quando projetores de slides entraram para a lista de espécies em extinção e os professores se convenceram de que outros brinquedos eram necessários,  começamos a digitalizar os itens da coleção que ainda tinham relevância: slides de obras que não estavam disponíveis na internet, geralmente doados pelos próprios artistas ou reproduzidos de catálogos de exposições brasileiros. Infelizmente, as imagens digitalizadas não chegavam aos usuários, porque o único catálogo disponível era uma base de dados em rede local – praticamente o mesmo que não ter catálogo.

Enquanto a coleção de slides perdia a relevância e o público, outro acervo de imagens crescia e adquiria cada vez mais importância na instituição: os trabalhos acadêmicos dos cursos de graduação e pós-graduação em Artes Visuais que se expressam fundamentalmente em imagens, ou que são trabalhos artísticos originais. Nos cursos da ECA, principalmente na área de concentração em Poéticas Visuais da Pós-Graduação, é possível apresentar  gravuras, desenhos, esculturas, objetos, livros de artista etc como trabalho final do curso.

A escultura monumental Lugar com Arco, por exemplo, que enfeita o jardim da Escola, é resultado da tese de doutorado da escultora Norma Grinberg, docente aposentada da instituição.

Regina Silveira, Ana Tavares, Evandro Carlos Jardim, Carmela Grosz, Dora Longo Bahia, Carlos Fajardo, Geraldo de Souza Dias Filho, Henrique de Souza Oliveira e Leda Catunda são alguns dos artistas brasileiros que deixaram trabalhos acadêmicos no acervo da Biblioteca da ECA. Em alguns casos são obras originais, como o álbum de gravuras Anamorfas, de Regina Silveira, em outros são trabalhos de reflexão  – com muitos registros fotográficos- do artista sobre a própria obra, ou ensaios fotográficos resultantes do processo de pesquisa. Um acervo belíssimo catalogado em sistemas que, por serem concebidos para registrar documentos textuais, não dão a necessária visibilidade à sua dimensão  mais importante: a imagem.

Fotos de alguns trabalhos do acervo

https://www.flickr.com/photos/bibliotecadaeca/albums/72157641280876704

A pesquisa de mestrado da minha colega Sarah Lorenzon Ferreira constatou que nossos professores e alunos das artes visuais precisam de um catálogo de imagens acessível pela internet, com imagens de alta qualidade técnica, boa resolução e diferentes opções de visualização, e que contenha, prioritariamente: criações artísticas dos professores; obras resultantes de pesquisas de mestrado e doutorado; trabalhos de conclusão de curso de graduação; registros do processo criativo dos artistas da ECA. Ou seja, o mínimo que uma biblioteca de uma escola que forma artistas e pesquisadores da área de artes deveria poder oferecer aos seus usuários.

O projeto começou a se tornar viável quando o Tiago Murakami veio para o Departamento Técnico do nosso Sistema Integrado de Bibliotecas e nos apresentou ao Omeka, software open source desenvolvido para exibir coleções digitais em bibliotecas e museus. O Omeka tem instalado um plugin para os metadados VRA Core, desenvolvidos pela Visual Resources Association para descrição conjunta de obras de artes e suas imagens.

O VRA Core, usado com o Cataloging Cultural Objects – CCO é uma solução muito boa para bases de dados de imagens. Resolve bem a questão de catalogar os dados da obra e de suas imagens em registros diferentes, relacionando os dois tipos de registros, sem misturar e confundir as informações como faz o insuportável formato MARC, por exemplo. Tentei explicar essas  todas paradas neste texto aqui.

Além disso, o Omeka tem plugins para aplicações do International Image Interoperability Framework (IIIF), um conjunto de protocolos para visualização de imagens criado em 2001 por um consórcio internacional de bibliotecas. Eis aí uma ferramenta muito legal que precisa ser urgentemente pesquisada no Brasil, porque permite visualização de imagens em alta resolução com carregamento rápido e possibilidade de fazer anotações, além de ter recursos de edição básica, zoom profundo etc. Tudo isso sem precisar carregar várias imagens de tamanhos diferentes na base de dados, basta uma única em alta resolução. Melhor ainda: o freguês consegue compartilhar, editar  e comparar imagens de bases de dados diferentes numa mesma interface online, sem precisar baixá-las. Vejam 0 que dá pra fazer nesse demo do Projeto Mirador

O IIIF tem um canal no Youtube com apresentações muito interessantes de instituições que fazem parte da comunidade de usuários da coisa. Em breve a Biblioteca da ECA  estará lá, aguardem. Já colocamos o Brasil na comunidade e a Sarah está na equipe do código de conduta .

Falta mais gente no Brasil usando e interessada na discussão. Também falta um jeito brasileiro de pronunciar a sigla IIIF, que os falantes do inglês pronunciam “triple I F“. Em português não temos o hábito de dizer “i triplo”, mas repetir a letra “i” na fala vai ficar estranho por excesso de iiis. Sem contar que pode virar  piada…

O protótipo da nossa Biblioteca Digital da Produção Artística da ECA/USP já existe e está sendo testado. Funciona, mas ainda temos muito o que resolver. Precisamos customizar o Omeka para melhorar a navegação entre registros da obra e suas imagens, criar um tema mais agradável e outras coisinhas.  Com relação ao conteúdo, temos que encontrar um curador entre os docentes de artes visuais, escolher as imagens, digitalizar ou fotografar os trabalhos, entrar em contato com os artistas para obter sua autorização para divulgação das images, catalogar etc. Os “etcs” são muitos, na verdade. Nossa professora Vânia Lima, que voltou de suas andanças por instituições de arte dos Estados Unidos com as primeiras notícias que ouvimos sobre o IIIF (ó, tá todo mundo usando isso aqui, estudem), já está pensando em projetos e tentando contratar bolsistas.  Nossa Biblioteca Digital da Produção Artística da ECA/USP promete ser um laboratório interessante para os alunos de biblioteconomia.

Já apresentamos alguns trabalhos em eventos da área. Vejam aí:

V Seminário de Informação em Arte da Redarte -RJ

https://doity.com.br/anais/seminario-de-informacao-em-arte

Colóquio de Dados, Metadados e Web Semântica

https://cdmws.isci.com.br/ocs/index.php/cdmws/home/paper/view/13

I Seminário de Humanidades Digitais – IV Congresso Internacional em Tecnologia e Organização da Informação

https://prezi.com/h2smfyo-5zl7/biblioteca-digital-da-producao-artistica-da-ecausp/?utm_campaign=share&utm_medium=copy

Assim que os testes estiverem concluídos e a Biblioteca Digital da Produção Artística da ECA/USP tiver seu endereço definitivo, divulgaremos o link.

A lógica do uso da API REST do DSpace

Este é um post para explicar um pouco da lógica do DSpace REST API. A grande maioria das APIs REST permite com as operações básica CRUD (acrónimo de Create (Criar), Read (Ler), Update (Atualizar) e Delete (Excluir)).
É possível desenvolver uma nova interface totalmente utilizando a API REST. É possível também sincronizar qualquer fonte externa ao DSpace. Vou explicar um pouco do que é necessário. Para testar o REST, sugiro o uso do Postman. Não irei colocar os códigos aqui, porque cada linguagem tem sua especificidade, mas o principio é o mesmo:

LOGIN:

A primeira operação no REST é o Login. Para o login, é necessário enviar os dados de login e senha. Importante lembrar que este login tem que ter permissões para submeter nas coleções. A resposta do POST /login é:

HTTP/1.1 200 OK
Set-Cookie: JSESSIONID=6B98CF8648BCE57DCD99689FE77CB1B8; Path=/rest/; Secure; HttpOnly

É necessário pegar esse Cookie para as outras operações.

CRIAR REGISTRO:

Para criar um item, é necessário utilizar o comando (POST /collections/{collectionId}/items) com o cookie do login. Importante: o colletionID é uma hash criada pelo DSpace, por exemplo: 6b9f840e-7bfe-4511-a4f5-2e181990679e
E enviar por POST um registro como por exemplo:

{"type":"item";
"metadata":[
{
"key": "dc.contributor.author",
"value": "LAST, FIRST"
},
{
"key": "dc.description",
"language": "pt_BR",
"value": "DESCRICAO"
},
{
"key": "dc.description.abstract",
"language": "pt_BR",
"value": "ABSTRACT"
},
{
"key": "dc.title",
"language": "pt_BR",
"value": "TITULO"
}
]}

O programa tem que conseguir consultar a fonte de dados e gerar esse formato, mapeado com o dublin core do DSpace.
Importante: É necessário que todos os metadados enviados estejam cadastrados no registro de metadados do DSpace.

É possível usar os outros comandos para Atualizar, Deletar, adicionar Bitstreams, etc…

LOGOUT:

Depois de executar as operações, é importante finalizar a sessão.

A grande maioria dos softwares atuais disponibiliza uma API REST, por exemplo o Omeka ou Koha. Temos que usá-los a nosso favor.

Lista com os 88 livros censurados na ditadura militar (1964-1985)

Na internet existem muitas reportagens sobre a lista de livros censurados no período da ditadura, mas é difícil encontrar a lista propriamente. O livro Repressão e resistência — Censura a livros na ditadura militar (Sandra Reimão, Edusp/FAPESP, 2011) reconhecidamente apresenta a mais completa lista de obras submetidas à censura. Paralelo ao livro é possível consultar uma lista de obras de ficção e não-ficção, peças teatrais e livros pornográficos disponível nos anexos da tese de livre-docência da mesma autora.

O Levantamento bibliográfico sobre censura nos meios de comunicação da Biblioteca de Pós-Graduação da Escola de Comunicação da UFRJ foi compilado em 1985 e apresenta 428 títulos, referentes ao material cedido pelos sindicatos de editores e escritores àquela biblioteca. Na Listagem da Seção: Censura Prévia — Série: Publicações da Divisão de Censura de Diversões Públicas — DCDP organizada pelos funcionários do Arquivo Nacional de Brasília constam 561 títulos, sendo 470 livros e 91 revistas. A Lista de livros proibidos pelo Ministério da Justiça (1964–1979) elaborada por Maria Mercedes Otero (tese de 2003 da UFPE), apresenta 520 títulos.

Estes levantamentos serviram de base para a pesquisa de Kelly Lima, “Onde estão os livros censurados?: ainda os efeitos de 64 nas coleções de biblioteca”, dissertação de mestrado defendida na UFF em 2016. Lima selecionou 88 livros de não-ficção censurados entre 1964 e 1985, a partir das listas mais abrangentes (ficção e não ficção, livros e revistas). As três listas podem ser consultadas como apêndice da dissertação (link acima). Abaixo os 88:

1 Actas tupamaras: uma experiência de guerrilha urbana no Uruguai
2 ALBUQUERQUE, J. A. Guilhon Movimento estudantil e consciência
3 ALBUQUERQUE, J. A. Guilhon Classes médias e política
4 ALMEIDA, Mauro U.S.A : civilização empacotada
5 ALTHUSSER, Louis La filosofia como arma de la revolucion
6 ALTHUSSER, Louis Marxismo
7 ALVES, Marcio Moreira O despertar da revolução brasileira
8 ALVES, Marcio Moreira Tortura e torturados
9 CABRAL, Alexandre Um português em Cuba
10 CARDOSO, Fernando Henrique Autoritarismo e democratização
11 CASTRO, Fidel et al. A aventura boliviana : Che Guevara
12 CHE GUEVARA, Ernesto Nossa luta em Sierra Maestra
13 CHE GUEVARA, Ernesto Socialismo y el hombre em Cuba
14 CONCEGHI, Manilo; BORIS Ivan. Solano Lopez,o Napoleão do Prata
15 CUBA. Ministério de Educação A educação em Cuba
16 CUNHAL, Álvaro Rumo à vitória
17 DAVID, Moisés MO : nova vida revolucionária
18 DEBRAY,Regis Revolução na revolução
19 FANON, Frantz Os condenados da terra
20 FANON, Frantz Sociologia de una revolucion
21 FONSECA, Rubem Feliz Ano Novo
22 GIAP, Nguyen Guerra del pueblo : exercito del pueblo
23 GIAP, Nguyen Lucha armada : fuerza armada
24 HERZOG, Philipe A união popular e o domínio da economia
25 HITE, Shere O relatório Hite
26 HUBERMAN, Leo; SWEEZY, Paul H. Socialismo em Cuba
27 HUSTON, Oliver Os degenerados da terra
28 KUCINSKI, Bernardo; TRONCA, Ítalo La violence militaire au Bresil
29 LAURENT, Faure Barran Os comunistas e o desporto
30 LAZARENTO Os sindicatos e a gestão de empresas
31 LENINE A doença infantil do esquerdismo no comunismo
32 LENIN, Vladimir Ilitch A catástrofe iminente e os meios a conjurar
33 LENINE Citações de Lenine sobre a revolução proletária e a ditadura
34 LENIN, Vladimir Ilitch O imperialismo e a cisão do socialismo
35 LENIN, V.I. Sobre a caricatura do marxismo e o economismo imperialista
36 LEVY STRAUSS Estruturalismo
37 LÖWY, Michael Método dialético e teoria política
38 MAES, Pierre A concepção de superpotência
39 MAO, TSÉ-TUNG Citações do presidente Mao Tsé-Tung
40 MAO, TSÉ-TUNG Obras escogidas
41 MIROW, Kurt Rudolf A ditadura dos carteis
42 MOÍSES, J. Alvaro et al. Contradições urbanas e movimentos sociais
43 MOURÃO FILHO, Olympio. A verdade de um revolucionário
44 MOVIMENTO Comunista InternacionalLa guerre popular em la Brasil
45 MURARO, Rose Marie A automação do homem
46 MURARO, Rose Marie A mulher na construção do mundo futuro
47 MYRDAL, Jan Uma aldeia da China Popular
48 O’CONNOR, James U.S.A : a crise do estado capitalista
49 POLARI, Alex Meu companheiro querido
50 PORFÍRIO, Pedro Canteiro de obras
51 PORFÍRIO, Pedro O belo burguês
52 POULANTZAS, Nicos. A crise das ditaduras : Portugal, Grécia e Espanha
53 PRADO JR., Caio A revolução brasileira
54 PRADO JR., Caio O mundo do socialismo
55 PREOBRAJANSKY; DEUKSARINE ABC do comunismo
56 ROJO, Ricardo Meu amigo Che
57 Revolucion política del partido comunista en Colombia
58 RIBEIRO, Darcy A universidade necessária
59 ROVETTA, Vicente El direcho a rebelar-se
60 SERRA, José et. al. América Latina : ensaios de interpretação econômica
61 SISSON, Roberto O gênio nacional da história do Brasil
62 SODRÉ, Nelson Werneck História militar do Brasil
63 SOFRI, Gianni O modo de produção asiático
64 SOLLERS, Philippe La teoria revolucionária
65 STRADA, Ezequiel M Mi experiência cubana
66 TERESHOVA, Unikelajeva O papel da mulher na sociedade: do problema
67 Textos de Che Guevara
68 TOURINHO, Nazareno Lei é lei e está acabado
69 TROSTKI, Leon La internacional comunista desde la morte de Lenine
70 URBANO, Miguel Opções da revolução na América Latina
71 VAN THAL, Hoang Guera de guerrilhas em Vietnam
72 ALMEIDA, Hélio de. Basta bastardos
73 BADIA, Joan Sariol Petita historia de la guerra civil
74 BRANDEN, Nathanie. Quem é Ayn Ran?
75 CARMELLO, Amadeu Trinta e quatro anos de desgoverno no Brasil
76 CHATELET, François Logos e práxis
77 EDWARDS, Jorge Desde la cola del dragón
78 GARROCHO, Walter de O. A revolução ganha a rua
79 GUILLEN, Abraham Estrategia de guerrilla urbana
80 KISHERMAN, Natalio Servicio social pueblo
81 LAUPINAITIS, Meldutis Eu acuso: genocídio soviético
82 POERNER Arthur José O poder jovem
83 QUADROS, Jânio Os dois mundos das três Américas.
84 RAMIREZ, Ricardo Autobiografia di uma Guerrilla
85 RAND, Ayn A nova esquerda: a revolução antindustrial
86 WILCZYNSKI, J. The economics of socialism.
87 Cinco anos : julgamento político na União Soviética
88 RAMIREZ, Ricardo Autobiografia di uma Guerrilla

Visualização de dados – O exemplo da execução orçamentária da USP

Visualização de dados é uma área muito fascinante. Facilita bastante a compreensão de dados mais complexos, resumindo eles em uma imagem que é mais fácil de ser interpretada. Vou mostrar um exemplo do que é possível fazer, de maneira muito rápida (não demora 20 min), usando a execução orçamentária da USP (Ano 2017), que está disponível aqui.

Utilizei a ferramenta Tableau Public, que é bem intuitiva e fácil de utilizar e tem uma versão gratuita, com algumas limitações.

Acessar os dados interativos no site do Public Tableau.

Fonte do recurso:

Grupo orçamentário:

Estes são só um exemplo, veja todos aqui.

Acredito que podemos ajudar a sociedade a interpretar melhor dados públicos que estão disponíveis mas que são difíceis de ser compreendidos no formato em que estão disponibilizados. Ferramentas para isso não faltam.

Chega dessa babaquice de assediar bibliotecárias

[do original #TimesUp on Harassing Your Public Librarian, de Katie MacBride. Livre tradução de Dora e Branca]

Bibliotecárias lidam diariamente com assédio sexual em seus locais de trabalho.

O homem em frente ao balcão de referência pediu uma senha de acesso aos computadores e depois se inclinou para a frente com segundas intenções: “Você já viu o Jornada nas Estrelas original?

Imprimi a senha e sacudi a cabeça. “Não. Você está procurando os DVDs?”

“Não”, disse ele. “Você é idêntica a uma atriz da série que apareceu na lista das “Mulheres mais bonitas de Jornada nas Estrelas’! Você é a cara dela!”

Ele começou a me olhar com cobiça, com uma intimidade atípica. Tinha um olhar esquisito de tiozão, aparentando ter quase 60 anos.

Lidar com perguntas desconfortáveis dos usuários é muito comum para mim e para a maioria das bibliotecárias que lidam com o público. Decidi que a melhor estratégia seria um breve aceno (reconhecer que você ouviu o comentário para que ele não se repita) e um curto, “OK, existe algo na biblioteca que posso ajudá-lo a encontrar?”

Não havia. Ele caminhou até os terminais de consulta e eu teria esquecido a interação se ele não tivesse reaparecido alguns minutos depois.

“Você pode me ajudar a imprimir uma coisa?”

Assenti com a cabeça e o acompanhei de volta para o computador. Na tela havia uma foto de uma atriz loira e uma descrição feita pelo autor da “Lista das mais gostosas”. Lia-se, em parte, “A melhor parte dela é a fantasia sexual de ‘Eu não conheço as sensações humanas. Por favor, me ensine a beijar, abraçar, [insira aqui o ato sexual depravado]’. Oh, sim, por favor!”

O usuário olha excitadamente da tela para mim.

“Veja! Você parece exatamente com ela!”

Dei de ombros.

“Bem, eu quero imprimir essa foto dela”. Ele insistiu. “Vocês tem uma impressora a cores?”

Nós tínhamos. Mostrei-lhe como ampliar e imprimir a imagem. Ele deixou a biblioteca pouco depois, acenando a foto para mim e piscando antes de sair.

Quando o movimento #TimesUp surgiu (Time’s Up é um movimento contra o assédio sexual fundado por celebridades de Hollywood), fiquei satisfeita ao ver o foco no setor de serviços, onde parte significativa do trabalho é ser simpática e estar disponível para clientes e usuários. Porque a verdade é que toda mulher/feminina/cis/trans/bibliotecária tem dezenas de histórias como esta; incômodas, mas inofensivas interações de assédio. Nós reviramos os olhos na sala de funcionários, reclamamos a nossos amigos e pessoas próximas depois de ofensas particularmente flagrantes, mas tendemos a considerar essas ofensas como uma parte infeliz porém inevitável do trabalho. Uma das minhas ex-colegas descreveu perfeitamente o assédio na biblioteca como: “Eu apenas me lembro do sentimento ruim de ser um público cativo”. Afinal, o assédio sexual é sobre poder e vulnerabilidade e um público cativo – como a bibliotecária que não pode se recusar a mostrar ao homem como usar uma impressora – é um público vulnerável.

Muitas vezes, discussões sobre o assédio sexual no local de trabalho focam nas interações entre funcionários e supervisores. Há uma boa razão para isso; os supervisores têm influência, quando não têm o controle total, sobre quem é contratado e demitido. Quando se trabalha no setor de serviços, no entanto, manter o cliente satisfeito costuma ser tão importante quanto manter o chefe feliz. O funcionário que não ri da piada do cliente ou se ofende quando perguntado sobre sua vida amorosa é vulnerável a queixas à gerência. As pessoas que não trabalham em setores de serviços podem se surpreender com a rapidez com que não rir de uma piada sobre a aparência de seu uniforme, segundo a vontade do cliente, pode se transformar em queixas ao seu gerente sobre seu mau comportamento; ou como rejeitar um convite para sair pode se transformar em falsas alegações sobre seu suposto terrível desempenho no trabalho.

Normalmente, essas interações ocorrem dentro de uma janela de tempo limitada. Você serve um jantar para o seu assediador, ele faz comentários inapropriados, mas depois, inevitavelmente, vai embora. Mas e se o usuário nunca precisasse ir embora? E se alguém pudesse entrar no seu local de trabalho, fazer-lhe quantas perguntas quisesse sobre praticamente qualquer assunto, desde o momento em que as portas se abrem de manhã até fecharem à noite?

Funcionárias de bibliotecas públicas são profundamente comprometidas com o acesso. Acreditamos que a biblioteca deve ser aberta a todos e queremos que os usuários se sintam confortáveis ao pedir informações sobre quase qualquer coisa. Você quer informações sobre doenças sexualmente transmissíveis? Sem problemas. Livros sobre sexo tântrico? Por aqui. Nós permanecemos dispostas, amigáveis e acessíveis porque queremos que vocês saibam que não julgamos suas necessidades de informação.

Mas isso também faz do nosso trabalho um terreno fértil para o assédio sexual. Tecnicamente, não há motivo para que um usuário não possa sentar-se em uma mesa vazia e olhar para a bibliotecária o dia todo, pedir ajuda para configurar um perfil de namoro online ou imprimir material explícito. Em muitos casos, não há nada de errado com o comportamento mencionado acima e é isso o que dificulta as coisas. Os bibliotecários resguardam fanaticamente o direito dos usuários de fazerem de tudo, o que torna o assédio sexual tão recorrente nas bibliotecas públicas – até o ponto em que isso se torna um abuso.

Existe um caráter de gênero para o assédio sexual em bibliotecas que é impossível ignorar. Em 2015, a categoria de bibliotecários era composta de uma maioria desproporcional de mulheres (elas representavam 83% de todos os bibliotecários) e, embora o assédio sexual possa acontecer com qualquer gênero, é frequentemente perpetrado contra mulheres. Como diz Kelly Jensen, uma editora contribuinte para a Book Riot e bibliotecária pública: “Quando você trabalha na posição de atendimento ao público, ser mulher é uma desvantagem.” As mulheres não brancas e as pessoas LGBT+ sofrem assédio em taxas particularmente altas. Junte a isso o entusiasmo de todos os bibliotecários (independentemente do gênero) para ajudar e não é difícil ver como a linha entre ter acesso a informações e ter acesso à bibliotecária fornecendo essas informações para você é tênue na mente de algumas pessoas. Às vezes, parece que os homens veem as bibliotecárias como as secretárias da era “Mad Men” que eles nunca tiveram.

A gestão de bibliotecas varia amplamente quando se trata de implementar políticas para lidar com essas situações. A American Library Association não fornece diretrizes ou recursos para lidar com o assédio sexual, seja de usuários ou colegas. Sem essa orientação, cabe às bibliotecas criar políticas individuais para lidar com o assédio de usuários.

Em qualquer cenário de assédio sexual no local de trabalho, não é suficiente apenas conscientizar os funcionários sobre as políticas que os protegem. A gerência também tem de apoiar essas políticas, tomando medidas quando for necessário. Isso nem sempre acontece. Descobri isso em primeira mão quando fui denunciar para meu chefe os constantes assédios por parte de um usuário. Quando relatei esse recente caso de comportamento inadequado, meu chefe perguntou: “Bem, quantos anos ele tem? É possível que você esteja apenas…” Meu chefe se afastou, parecendo implicar que eu estava simplesmente exagerando sobre um homem mais velho que não tinha consciência que estava sendo inapropriado.

Na minha experiência e na experiência de muitas outras bibliotecárias que conheço, a administração geralmente reluta em abordar o problema do assédio sexual – especialmente se for verbal e não físico – pelo medo de gerar repercussões negativas em relação à biblioteca. As bibliotecas públicas necessitam que o público as valorize; quando uma biblioteca de bairro está à beira de ser fechada, muitas vezes os usuários (talvez até os usuários que se envolveram em assédio) se reúnem para nos manter abertas. São cidadãos que aprovam e pagam impostos que mantêm as bibliotecas em atividade. Eu entendo isso. É por isso que passei tantos anos engolindo sapos em relação a comentários sobre como eu realmente pareceria a “bibliotecária sexy” se eu usasse óculos.

Sem padrões formalizados e uma gestão pró-ativa, os bibliotecários fazem o que as pessoas vulneráveis ao assédio sempre fizeram. Nós sussurramos, nós avisamos. Impedimos o usuário que tem a intenção de perseguir a bibliotecária vá até a sala reservada aos funcionários. Se tivermos a sorte de nos depararmos com isso a tempo. Se outros funcionários da biblioteca estiverem presentes naquele momento. Se ele puder ser impedido.

Os bons bibliotecários são alquimistas que transformam as bibliotecas de um edifício com livros e computadores em um vibrante centro de informações e exploração. As bibliotecas precisam dessas pessoas apaixonadas e dedicadas que querem que ela continue existindo. E chegou a hora da American Library Association reconhecer e abordar a realidade do assédio sexual nas bibliotecas. Chegou a hora da gestão de bibliotecas e dos governos das cidades e dos estados aos quais estão afiliadas defenderem inequivocamente o direito das bibliotecárias de atenderem ao público livres de assédio sexual, físico ou verbal. As bibliotecárias apoiam nossas comunidades e é hora de exigir o apoio a elas em troca. Nosso #TimesUp está atrasado.