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Mensagem da Amazon para leitores e autores, contra a editora Hachette: disputa sobre o preço de ebooks

Pouco antes da Segunda Guerra Mundial houve uma invenção radical que abalou os alicerces da publicação de livros. O livro de bolso. Nesta época ingressos de cinema custavam 10 ou 20 centavos de dólar, e os livros custavam U$ 2,50. O novo livro em formato brochura custava 25 centavos – era dez vezes mais barato. Os leitores adoraram o livro e milhões de cópias foram vendidas apenas no primeiro ano.

Por ser tão barato e com muito mais gente sendo capaz de comprar e ler livros, você deveria pensar que o “establishment” literário daquele período teria celebrado a invenção do livro de bolso, certo? Não. Em vez disso, recuaram. Eles acreditavam que os livros de bolso de baixo custo destruiriam a cultura literária e prejudicariam a indústria (para não mencionar suas próprias contas bancárias). Muitas livrarias se recusaram a armazená-los, e os primeiros editores de bolso tiveram que usar métodos não convencionais de distribuição – locais como bancas de jornal e farmácias. O famoso escritor George Orwell saiu publicamente e comentou sobre o novo formato de bolso, “se os editores tivessem juízo, se juntariam contra os livros de bolso e suprimia-os”. Sim, George Orwell estava sugerindo conspiração.

Bem … a história não se repete, mas ela rima.

Avançando para os dias de hoje, é a vez do e-book ser alvo de oposição da entidade literária. Amazon e Hachette – uma editora americana e grande parte de um conglomerado de mídia de 10 bilhões de dólares – estão no meio de uma disputa comercial sobre e-books. Queremos [Amazon] preços mais baixos pelos e-books. Hachette não. Muitos e-books estão sendo lançados por U$ 14,99 e até U$ 19,99. Isso é injustificadamente elevado para um e-book. Com um e-book, não há nenhuma impressão, não há re-impressão, não há necessidade de prever retornos, nenhuma devolução de produto, nenhuma perda de vendas devido a falta de estoque, sem custos de armazenagem, sem custos de transporte, e não há mercado secundário – e-books não podem ser revendidos como livros usados​​. E-books podem e devem ser menos caros.

Talvez canalizando a sugestão de décadas atrás de Orwell, Hachette já foi pega ilegalmente conspirando com seus concorrentes para aumentar os preços dos e-books. Até agora, as partes pagaram U$ 166 milhões em multas e restituição. Conjurar com os seus concorrentes para aumentar os preços não era apenas ilegal, como também foi muito desrespeitoso para os leitores de Hachette.

O fato é que muitos operadores estabelecidos na indústria tomaram a posição de que os preços mais baixos dos e-books vão “desvalorizar os livros” e ferir as “Artes e Letras”. Eles estão errados. Assim como os livros de bolso não destruíram a cultura do livro, apesar de serem dez vezes mais baratos, tampouco os e-books. Pelo contrário, as brochuras acabaram rejuvenescendo a indústria do livro, tornando-a mais forte. O mesmo vai acontecer com os e-books.

Muitos dentro desta indústria pensaram pequeno. Eles acham que os livros só competem contra os livros. Mas, na realidade, os livros competem com jogos para celular, televisão, filmes, Facebook, blogs, sites de notícias grátis e muito mais. Se queremos uma cultura de leitura saudável, temos que trabalhar duro para ter certeza que os livros sejam competitivos em relação a outros tipos de mídia, e uma grande parte disso é trabalhar duro para tornar os livros mais baratos.

Além disso, os e-books são muito elásticos em relação ao preço. Isso significa que, quando o preço cai, os clientes compram muito mais. Nós quantificamos a elasticidade de preços dos e-books a partir de medições repetidas em muitos títulos. Para cada cópia de um e-book vendido a U$ 14,99, ele venderia 1,74 cópias se o preço fosse U$ 9,99. Assim, por exemplo, se o cliente comprasse 100 mil cópias de um determinado e-book a U$ 14,99, os clientes iriam comprar 174 mil cópias desse mesmo e-book por U$ 9,99. A receita total de U$ 14,99 seria $1.499.000. A receita total a U$ 9,99 é de U$ 1.738.000. O importante a notar aqui é que o preço mais baixo é bom para todas as partes envolvidas: o cliente está pagando 33% a menos e o autor está recebendo um cheque de royalties 16% maior e será lido por um público 74% maior. As fatias do bolo são simplesmente maiores.

Mas quando uma coisa tem sido feito de certa forma por um longo tempo, resistir a mudança pode ser um instinto automático, e os poderosos interesses do status quo são difíceis de mover. Nunca foi do interesse de George Orwell suprimir os livros de bolso – ele estava errado sobre isso.

[o restante da carta é um pedido da Amazon ao público para que entrem em contato com a Hachette reivindicando a diminuição de preços e acabar com práticas nocivas à autores e leitores. Veja a mensagem na íntegra: A Message from the Amazon Books Team]

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Identificadores de fragmento e DOIs

Antes do conteúdo (ou quase tudo nessa vida) se tornar digital, nós utilizávamos números de página para descrever uma seção específica de um livro ou documentos longos (antes disso, os manuscritos antigos usavam o folio). Os números das páginas migraram para os livros eletrônicos, e leitores como o Kindle oferecem algum tipo de suporte à paginação e sequência de páginas.

folio

Para conteúdo na web, podemos usar o identificador de fragmento #, por exemplo, https://en.wikipedia.org/wiki/Fragment_identifier#Proposals para visualizar uma seção específica de uma página web. Como a ligação a este fragmento é tratada depende do tipo MIME do documento, e será, por exemplo, feita de formas diferentes para uma página de texto e um vídeo – YouTube entende minutos e segundos em um vídeo como identificador de fragmento, por exemplo, https://www.youtube.com/watch?v=0UNRZEsLxKc#t=54m52s. Identificadores de fragmento não são úteis apenas para linkar a uma subseção de um documento, mas, claro, também para a navegação dentro de um documento.

Tudo isso é, naturalmente, muito relevante para o conteúdo acadêmico, que normalmente é muito mais estruturado, com a maioria dos artigos de periódicos seguindo o formato IMRD – introdução, métodos, resultados e discussão – geralmente com seções adicionais, tais como resumo, referências, etc. Uma abordagem para a ligação de figuras e tabelas dentro de artigos acadêmicos é o uso de componentes DOIs, por exemplo, DOIs específicos para partes de um documento maior. A editora PLOS vêm utilizando-os por um longo tempo, o número de componentes DOIs está aumentando, mas a maioria dos artigos de periódicos acadêmicos ainda não utilizam componentes DOIs. E embora os componentes DOIs sejam um grande conceito para conteúdo como figuras (nos permitindo descrever o tipo MIME e outros metadados relevantes), eles provavelmente não são a melhor ferramenta de ligação para uma seção ou parágrafo de um documento acadêmico.

Acontece que já temos uma ferramenta para isso, visto que o servidor proxy DOI encaminha identificadores de fragmentos. Podemos, portanto, usar um DOI com um identificador de fragmento para:

Seção de resultados: http://dx.doi.org/10.1371/journal.pone.0103437#s2
Referências específicas: http://dx.doi.org/10.12688/f1000research.4263.1#ref-7
Decisão editorial: http://dx.doi.org/10.7554/eLife.00471#decision-letter

Obviamente, isso só funciona se o DOI é resolvido para o texto completo, e não uma página de destino. E a maneira como os identificadores de fragmentos são nomeados e implementados é uma decisão do editor, o resolvedor DOI não possui nenhuma informação sobre eles. Esses links específicos são particularmente úteis para as discussões de um artigo, seja no Twitter ou em um fórum de discussão. Parece que, pelo menos, o encurtador de links do Twitter mantém o identificador de fragmento (o link para a carta de decisão da eLife é encurtado para http://t.co/URWaYmGHnY). Esse tipo de vinculação funciona particularmente bem se o editor está usando um sistema refinado de identificadores de fragmentos. A editora PeerJ por exemplo, permite ligações a um parágrafo específico – por exemplo, http://dx.doi.org/10.7717/peerj.500#p-15 – e permite que os usuários façam perguntas ao lado daquela seção.

Todos exemplos acima usam o tipo MIME texto/html, pois esse é o que os DOIs de exemplo resolvem por padrão. Não sei se e como os editores têm implementado identificadores de fragmentos de outros formatos, como PDF ou ePub, e o que acontece se você combinar identificadores de fragmentos com negociação de conteúdo. O serviço shortDOI também trabalha com identificadores de fragmentos: http://doi.org/pxd#decision-letter. Outra questão interessante seria como identificadores de fragmentos são tratados pelos conjuntos de dados. Normalmente DOIs separados são atribuídos para vários conjuntos de dados relacionados, mas poderia também haver um lugar para identificadores de fragmentos, bem como, por exemplo, para especificar um subconjunto através de um intervalo de datas. A solução depende de novo sobre o tipo de conteúdo, e o popular texto/csv infelizmente não é bem adequado para isto, enquanto o JSON – usando JSON Pointer – funcionaria bem.

Além disso, manusear o identificador de fragmento é uma opção do cliente e o identificador de fragmento não é enviado para o servidor. O Acrobat Reader, por exemplo, suporta o identificador de fragmento #page=. Também há uma RFC7111 para identificadores de fragmento para o tipo de mídia texto/csv – browsers no futuro podem aceitar algo como http://example.com/data.csv#linha=5-7.

via Martin Fenner

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Qual é um bom fator de impacto?

Não há um número de FI bom ou certo. Para saber se uma revista possui “bom” fator de impacto, basta compará-la com outras revistas dentro de sua categoria de assunto. Quanto maior o fator de impacto, mais bem classificada a revista é. Ou seja, o fator de impacto é apenas um cálculo que permite classificar as revistas em um ranking. Ele pode ser visualizado por meio do Journal Citation Reports.

Abaixo está a tabela 2012 para as revistas da categoria “Information Science & Library Science”, classificadas por fator de impacto (embora seja possível visualizar no JCR outras medidas como o número total de citações, FI de 5 anos, meia-vida e Eigenfactor):

ci if

Atenção: o FI não foi concebido para comparação entre disciplinas. Isso ocorre porque cada disciplina tem um tamanho distinto e diferentes comportamentos de citação (por exemplo, os matemáticos tendem a citar menos, os biólogos tendem a citar mais. A revista PLoS biology, periódico com maior fator de impacto na categoria biologia, tem um FI 2012 de 12.690. Já o Journal of the American Mathematical Society, o periódico com maior fator de impacto na categoria matemática, tem um FI 2012 de 3.567). Veja a tabela com os maiores rankings, dentre todas as categorias combinadas da edição “ciências”:

fator de impacto

A tabela abaixo oferece algum contexto, em termos de quantas revistas atingem os vários níveis de classificação. Ela mostra o número e a porcentagem de revistas as quais foram atribuídas fatores de impacto em 2012, que variam em uma escala de 1 a 30, para ambos os períodos de um ano e cinco anos. Como mostrado, apenas 21 títulos de revistas, ou 0,2% das revistas monitorados pelo JCR, tem um fator de impacto 30 referente ao ano 2012. Apenas 158 revistas têm um fator de impacto 2012 igual ou superior a 10, que representa 1,9% das revitas no topo do ranking do fator de impacto. 8217 revistas têm um fator de impacto 2012 abaixo de 10.

JCR impact factor

Ao calcular o fator de impacto de uma revista se leva em conta o número total de citações recebidas por esta publicação em um determinado ano, englobando os dois anos anteriores, e então dividindo-o pelo número de itens “citáveis” publicados por esta revista naqueles dois anos predecessores (a Thomson Reuters, empresa responsável pela confecção do fator de impacto também oferece uma escala de 5 anos, mas o fator de impacto em escala de 2 anos é o mais decisivo).

FI = (citações recebidas em 2013 para artigos publicados em 2012 + 2011) / (nº de artigos “citáveis​​”, publicados em 2012 + 2011)

O Journal Citation Reports abrange cerca de 10 mil revistas em ciência e tecnologia e cerca de 3 mil periódicos em ciências sociais. É um grande banco de dados, mas ainda cobre apenas uma fração das revistas de pesquisa do mundo. Se uma revista não está no banco de dados JCR (como é o caso de muitas revistas brasileiras, em diversas áreas do conhecimento), não só todas as citações a ela não são computadas pelo FI, mas também são perdidas todas as citações em artigos publicados nesta revista concedidos a periódicos pertencentes à base do JCR. Outro problema é que em função da cobertura ter sido criado nos EUA, o JCR tem um viés de língua inglesa bastante influente.

Contagens de citações surgiram na década de 20 do século passado e foram usadas ​​principalmente por bibliotecários acadêmicos que queriam economizar dinheiro e espaço nas estantes, descobrindo quais periódicos representavam o melhor investimento em cada área. Este método teve um sucesso modesto, mas não ganhou muita força até os anos sessenta. Em 1955, Eugene Garfield publicou um artigo na revista Science, onde discutiu pela primeira vez a idéia de um Fator de Impacto com base em citações. Em 1964, ele e seus parceiros publicaram o Science Citation Index (SCI). Mais ou menos no mesmo período, Irving H. Sherman e Garfield criaram o JIF (Journal Impact Factor), com a intenção de usá-lo para selecionar revistas para o SCI.

Não é necessário enfatizar que o FI deve ser apenas um dos indicadores a serem considerados na avaliação de periódicos. Tanto é que nem todas as áreas do conhecimento da CAPES utilizam o indicador FI para estabelecer o Qualis de suas revistas e muitas áreas o utilizam apenas como um dos indicadores, mas não o único.  

O FI (e por extensão o Qualis) vêm há alguns anos sofrendo críticas em relação a funcionar como medida de avaliação da produção de pesquisadores (brasileiros) pelos órgãos de fomento, e nesse sentido as altmetrics aparecem como substituto óbvio capaz de avaliar a qualidade das publicações e pesquisadores.

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A beleza dos periódicos científicos e acadêmicos

Recebi ontem a notícia do lançamento da Rebecin, uma nova revista da área de informação, e não pude evitar de comparar o lançamento dessa revista acadêmica com o relançamento de uma revista da grande mídia, a New Yorker, que passou por reformulação no seu design e política de acesso aos artigos. A mudança do site da New Yorker destaca um consenso crescente na indústria editorial conforme revistas e jornais se ajustam a um público que se deslocou para a internet, e cada vez mais consome conteúdo por meio de redes sociais e dispositivos móveis.

Algumas poucas discussões acerca do design gráfico de periódicos estão sendo travadas, e giram em torno da evolução do formato tradicional do artigo acadêmico em relação a seus três elementos-chave: apresentação, conteúdo e contexto (ou o modelo leitura-descoberta-extensão). Uma questão pontual é a supressão do PDF em favor do HTML, onde de um lado estão os benefícios da visibilidade em larga escala na web e de outro a cultura enraizada dos pesquisadores de baixar e imprimir os artigos.

Me peguei avaliando apenas a questão estética da apresentação do material dos dois veículos de comunicação citados acima, desconsiderando o caráter acadêmico de um e comercial de outro. Afinal, por que as revistas acadêmico científicas são tão feias comparadas com revistas de banca de jornal?

Isso vale tanto para a versão impressa como digital. E não tem nada a ver com uma revista acadêmica específica, muito menos com o OJS/SEER. Tem a ver com apelo visual na leitura do documento digital (ou que venha a ser impresso). Poucas revistas fogem do tradicional “duas colunas verticiais, times new roman 12″, sem mencionar todo o aspecto de dispersão online dos artigos, que tem seu potencial atrapalhado pelas interfaces ruins onde estão abrigados. Pouco tem a ver também com a oferta de plataformas para publicação de conteúdo (no caso comum brasileiro, meu voto seria ter o SEER funcionando apenas para controle de submissão e revisão de pares, e o WordPress com seus milhares de temas grátis funcionando em paralelo para a publicação dos artigos propriamente).

Em termos comparativos, muitas revistas de grande circulação e periódicos científicos conseguem manter o aspecto sóbrio e formal de suas publicações, sem se prender ao modelo quadrado acadêmico. Muitos editores científicos argumentam que o que privilegiam é o conteúdo de suas edições, mas novamente me pergunto que tipo de esforço e investimento é necessário para explorar melhores formas de apresentar artigos de revistas online e com isso enriquecer seu conteúdo.

Novos visualizadores de artigos estão explorando outras maneiras de interagir com conteúdo de pesquisa na web, os melhores exemplos sendo eLife Lens e PubReader. Alguns anos atrás a Elsevier inaugurou o projeto que redesenhou a interface de apresentação de seus artigos, The Article of the future. O mesmo exemplo foi seguido pela JSTOR, que já oferece design responsivo, e demais bases de dados. A PubMed por exemplo já oferece seus artigos em formato epub.

As feias que me desculpem, mas beleza é fundamental. Escolha a sua revista acadêmica preferida e compare com essas:

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plos

carbono

new yorker

bibliotecario

Bancos em formato de livros em Londres

Cinquenta bancos em formato de livro foram instalados em diferentes locais de Londres como parte do projeto Livros sobre a cidade de incentivo à leitura e comemoração da herança literária da cidade.

A lista completa dos livros que inspiraram cada banco, e dos artistas que os criaram, pode ser encontrada no site do projeto. A primeira imagem abaixo é inspirada em Mary Poppins. Vocês conseguem identificar as demais?

Há quatro roteiros que podem ser seguidos e os visitantes podem fazer download de mapas e questionários para responderem ao longo de cada trilha.

Ao final do projeto em outubro os bancos serão leiloados e a renda revertida para a organização do projeto, a National Literacy Trust. Para nós que não moramos em Londres é possível seguir os bancos no Instagram, Facebook e Twitter.

mary poppins

clarice bean

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Altmetrics: redes sociais como métricas alternativas para medir o impacto científico

Todos nós bibliotecários conhecemos os métodos bibliométricos que servem para avaliar a qualidade das revistas científicas e o desempenho dos pesquisadores e professores. Com a crescente do chamado “big data” e de políticas cada vez mais restritivas que associam publicações e citações à cargos e salários nas universidades, surgiu nos últimos anos uma corrida por métodos mais sofisticados e abertos capazes de medir a reputação dos acadêmicos.

Altmetrics, ou métricas alternativas, podem ajudar nesse processo, fornecendo análise da produção acadêmica praticamente em tempo real. Com as altmetrics é possível medir a influência do produto de pesquisa a medida que o impacto ocorre, ao passo que as citações tradicionais levam algum tempo para acumular até estabelecer o real valor de um determinado artigo ou autor. Altmetrics não são métricas de citação, é verdade, mas podem complementar e reforçar a presença e reputação de um pesquisador acadêmico. Nesse sentido, elas podem ajudar os pesquisadores, financiadores e administradores a compreender e otimizar os diferentes tipos de impacto científico que melhor se adaptam às suas metas específicas.

O conceito mais importante das altmetrics é a ideia de “tipos de impacto”, uma maneira de entender os distintos padrões na disseminação de produtos acadêmicos. Além da contagem de citações, padrão único da excelência acadêmica, altmetrics medem compartilhamentos em redes sociais, posts de blogs, apresentações de slides, vídeos, conjuntos de dados e outras formas de comunicação científica, condizentes com o ambiente atual de comunicação sustentado pela internet. Estas métricas alternativas podem quantificar um tipo diferente de envolvimento do leitor com a literatura científica: se um leitor salva um artigo para a sua biblioteca pessoal online (delicious, pocket, delicious, kindle app, etc) ou/e, em seguida, compartilha o link do artigo no facebook e twitter, ou escreve um post de blog sobre o assunto, isso pode indicar que este artigo é mais atraente do que aquele que foi simplesmente baixado para o computador, em caráter pessoal e individual. Além disso, em muitos periódicos online e bases de dados científicas os comentários são agora permitidos, e sem dúvida, estes tipos de interações agregam algum valor ao artigo original.

Há muitas maneiras de classificar altmetrics, aqui está um quadro bastante completo criado pela Plum Analytics que indica as métricas atualmente passíveis de serem aplicadas. Em suma, podemos pensar em um classificação altmetrics desse tipo:

Uso – downloads, visualizações, empréstimo de livros e periódicos, empréstimo entre bibliotecas
Captura – favoritos, salvar, gestores de referência online (Mendeley, Zoreto, EndNote)
Menções – blogs, notícias, artigos da Wikipédia, comentários, opiniões
Redes sociais – tweets, curtidas, compartilhamentos, avaliações (Twitter, Facebook, LinkedIn, Academia.edu)
Softwares – utilização e distribuição de dados (GitHub, FigShare)

Existem hoje várias ferramentas (públicas e privadas) que permitem coletar o amplo impacto da pesquisa científica. As principais são Altmetric, ImpactStory e PlumX. Vocês podem testar e avaliar. Mas a melhor maneira de entender o processo é ver as altmetrics em funcionamento. Aqui estão dois exemplos, um da revista Nature (imagem abaixo. Reparem no quadro de atenção online e o número de menções, e o quadro de menções em blogs e no twitter) e outro da PLOS One.

altmetrics

Muitos trabalhos sobre altmetrics foram publicados ao longo dos últimos 2 anos, mas o panorama sobre o tema ainda não é perfeitamente claro ou consensual. As primeiras pesquisas sobre altmetrics têm concentrado principalmente em verificar se algumas dessas métricas (1) são tipos distintos de indicadores que mostram diferentes tipos de impacto, geralmente usando métodos estatísticos, e (2) se correlacionam com citações futuras. Não cabe aqui discutir, por enquanto, os prós e contras das altmetrics. Mas está aí para quem quiser ver um crescente corpo de pesquisa sobre altmetrics. Vale mencionar:

Altmetrics, Altmétricas, Altmetrias: novas perspectivas na visibilidade e no impacto das pesquisas científicas, de Sibele Fausto

Altmetria: métricas de produção científica para além das citações, de Fabio Gouveia

Introdução à altmetria: métricas alternativas da comunicação científica, de Iara Vidal e Carlos Marcondes

Uso de indicadores altmetrics na avaliação de periódicos científicos brasileiros em ciência da informação, de Andrea Gonçalves e Nanci Oddone

Cientometria 2.0, visibilidade e citação: uma incursão altmétrica em artigos de periódicos da ciência da informação, de Ronaldo Araujo

O QUE OS BIBLIOTECÁRIOS TEM A VER COM ISSO?

Com as altmetrics surgindo em toda parte (como nos artigos da PLoS ONE e Elsevier), os bibliotecários podem auxiliar professores e pesquisadores, contextualizando altmetrics dentro do cenário das métricas de citação tradicionais e mostrando como começar a utiliza-las.

Assim como todas as tendências e novidades, os bibliotecários não podem ignorar as altmetrics, ainda mais considerando que elas estão transformando-se em componentes adicionais dos produtos que nós compramos e ferramentas que recomendamos. Os bibliotecários precisam avaliar o potencial das altmetrics para apoiar adequadamente os pesquisadores, especialmente a geração mais jovem.

Os pesquisadores estão percebendo os botões altmetrics, emblemas e pontuação incorporados em artigos e perguntando o que são, se devem prestar atenção a eles, e como usá-los. Há uma oportunidade aqui aos bibliotecários para fornecer orientação e competências aos usuários.

Os bibliotecários que trabalham em ambientes de pesquisa terão de manter-se atualizados com as altmetrics para avaliar o impacto da literatura necessária para a sua coleção, e para direcionar os pesquisadores até as revistas de alto impacto para publicação. A mudança em direção à publicação de acesso aberto também tornará as altmetrics uma ferramenta valiosa para os bibliotecários na avaliação do impacto e da qualidade dessas publicações.

Em determinado momento, os bibliotecários responsáveis por repositórios e catálogos das bibliotecas universitárias terão de avaliar se é conveniente incluir dispositivos altmetrics a fim de incentivar os depositantes a enviar mais material e fornecer insights para o desenvolvimento de coleções. A Ex Libris, que fornece o softwares de biblioteca Aleph e Primo, adicionou um plugin Altmetric que qualquer cliente pode baixar e instalá-lo no catálogo, em que seus usuários serão capazes de ver o ranking e pontuação de todos os artigos correspondentes no sistema, através de uma nova aba “métricas” na página de detalhes do item.

Além disso, alguns bibliotecários estão envolvidos diretamente com departamentos de pesquisa, fornecendo suporte na concessão e obtenção de subvenções e fomento, acompanhando com a administração central a medição de desempenho e avaliação da qualidade das diversas atividades realizadas na universidade. Bibliotecários podem aconselhar sobre a compra de produtos e ferramentas que utilizam altmetrics e sobre a forma de apresentar a pesquisa realizada nas instituições em que trabalham usando altmetrics.

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O livro das árvores de Manuel Lima: visualizando ramos do conhecimento

O livro das árvores é o livro mais bonito em que coloquei minhas mãozinhas nos últimos anos e não bastasse a beleza visual para enfeitar a mesa da sala, é muito bem pesquisado e serve de referência para qualquer pessoa interessada em visualizações do conhecimento.

O livro é uma curadoria do português Manuel Lima e apresenta a história de visualizações hierárquicas, descrevendo a importância das árvores como metáforas para a vida e o conhecimento (“árvore do conhecimento” e “ramos” da ciência).

Para os bibliotecários e profissionais das correlatas, o maior impacto dessas árvores se dá no reino da taxonomia, como representações visuais de conceitos abstratos religiosos, científicos, artísticos e tudo mais.

Traz uma linha do tempo com mais de 800 anos de história dos diagramas de árvores, a partir de suas raízes nos manuscritos iluminados dos mosteiros medievais até o ressurgimento atual como meio de visualização de dados. Não é um livro sobre visualização de dados, não entra em detalhes sobre as técnicas atuais, e o autor argumenta que os diagramas de árvores possuem uma história muito mais longa de representações visuais do que apenas a visualização da informação.

É lindão. E o livro está disponível na Livraria Cultura e no Amazon e tem algumas páginas disponíveis para consulta no link abaixo.