Qual é o melhor software para organizar uma biblioteca pequena?

Justo agora que eu tava pra liberar a chamada do curso de automação para pequenas bibliotecas, o Murakami veio com a ideia de construir um software simples para bibliotecas com baixo orçamento. Eu e ele, que mantemos este singelo BSF há uns 15 anos, sabemos que um dos posts mais buscados aqui é uma lista de softwares de biblioteca, desde pequeno até grande porte, proprietários e abertos. Nas nossas andanças, muita, muita gente mesmo parou pra perguntar: eu tenho uma pequena biblioteca em casa, tô começando a trabalhar em uma biblioteca comunitária, fui chamada para migrar do papel para o computador, estou trabalhando com acervo infantil… qual é o software que você indica pra minha biblioteca?

Desde tempos imemoriais eu brincava com Roosewelt dizendo que o melhor software de automação de bibliotecas de pequeno porte é o Microsoft Excel. Isso porque é perfeitamente possível gerenciar um acervo e controle de empréstimos utilizando uma planilha xls como base. Você nem precisa de internet, basta um netbook velho. Cada campo da catalogação é uma coluna, cadastros de usuários podem ser feitos em uma aba secundária e para encontrar qualquer registro no momento do empréstimo basta dar um ctrl+F. Excel aguenta muitas linhas sem dar pau, então a principal questão é: quando estamos falando de biblioteca de pequeno porte (seja ela pessoal, comunitária, infantil, tanto faz) qual é o seu real tamanho? A resposta talvez seja justamente a quantidade de linhas que um excel aguenta sem dar pau em um netbook velho. Eu vou chutar 2000 linhas como limite. O que daria 2000 títulos ou 2000 usuários, uma aba aberta por vez.

Então se você tem uma biblioteca com até 2000 títulos e/ou 2000 usuários, chega aqui pertinho que eu vou te contar uma coisa: o melhor software pra gerenciar esse montante aí se chama: LibraryThing. Você poderia usar um xls do excel, claro, mas você não quer passar ridículo com os usuários. Você é millenial e quer um software de verdade. Vem comigo.

Ao longo da vida de bibliotecário que precisava migrar da lógica do catálogo de fichas para o universo digital e sempre trabalhou com pouca ou nenhuma grana, testei tudo quanto é tipo de software, dos mais horríveis aos mais pretensiosos. Pode mandar o nome aí que eu dou um check: winisis, biblivre, gnuteca, phl, openbiblio, emilda, koha, pergamum, sophia, aleph, argonauta, shelfari, goodreads, libib….etc. Para cobrir as necessidades de uma pequena biblioteca todos esses daí perdem pro librarything pelos seguintes motivos:

não precisa de instalação (só precisa de internet)
não precisa catalogar (dá pra importar quase tudo)
não precisa pagar (para fins pessoais)
tem OPAC e website (design minimalista)
registo de usuários e controle de empréstimos (tinycat)

Obviamente que os outros softwares oferecem esses quesitos, mas todos eles combinados só o LibraryThing.

Quanto ao Bibliolight do Murakami, eu vou apoiar qualquer esforço na distribuição de um software que seja genuinamente nacional, aberto, livre, que seja adequado para pequenas bibliotecas sem recursos. É uma demanda real que a gente vem tentando solucionar desde os idos de 2000s e início, batendo cabeça com a falta de infraestrutura, logística, plano de negócios, capital inicial, enfim, mas que agora talvez finalmente surja uma solução alinhada com a oferta de tecnologia a baixo custo e pouca exigência operacional.

Eu fiz uma sequência de vídeos com captura de tela mostrando como gerenciar uma biblioteca pequena usando o LibraryThing. Estão em formato de curso e vocês podem se inscrever na ClassCursos. Assistam o meu convite:

(se você não é bibliotecário ou não se interessa pelos pormenores pode parar de ler aqui. O link para o curso, com apresentação e ementa completa está aqui: classcursos.com)

Tem duas coisas que realmente me incomodam quando se trata de software para pequenas bibliotecas. O primeiro problema, eu mencionei rapidamente acima, é que as pessoas desejam um software para bibliotecas sem recursos, mas não conseguem identificar com clareza quais são as demandas reais dessa biblioteca e o que se entende quando dizemos biblioteca de pequeno porte. O bibliotecário sempre quer um feature a mais no desenvolvimento e customização, que a meu ver não vai ter impacto significativo na gestão de um acervo pequeno. Em outras palavras, seguir os manuais de representação é mais importante para algumas pessoas do que adaptar o mais simples pro usuário e gestão do acervo. E isso causa uma confusão mental na hora de avaliar qual é o software mais adequado.

Exemplos que uso são que os bibliotecários têm receio de seguir a CDD da catalogação na fonte, quando que diferença faz se você precisa de poucas informações para recuperar um registro localmente. Se você tem um acervo de 500 títulos, não vai fazer muita diferença se a classificação é 322 ou 328.12, não é necessário esse nível de especificidade para fins de recuperação, talvez nem mesmo em um acervo com uma única temática. Cutter daria uma ajuda adicional e seria o suficiente. Outra opção é utilizar somente 3 dígitos na etiqueta da lombada. Pra que mais que isso em um acervo de menos de 2 mil itens? Não precisa, convenhamos. Falo isso por experiência, já testei dessas formas, e nunca houve interferência, funcionou pra mim e pros usuários, sem diminuir a qualidade da representação temática. Se algum bibliotecário acha herético, então é só reler o parágrafo anterior.

O outro problema é a questão da instalação e necessidade de uso de outros softwares ou qualquer coisa 3rd party. Normalmente se pensa em software pequeno na ótica do bibliotecário catalogador e não na do bibliotecário dummie. Eu por exemplo mal saberia onde incluir um arquivo dll quanto mais usar mysqld, apache e php. Não faço a menor ideia. Poderia ver uns vídeos no youtube, claro, ou pagar uma empresa especializada pela instalação e hospedagem. Mas isso meio que tá na contramão da minha necessidade: quero algo simples, barato, que me dê autonomia.

Você pode optar por softwares ultra simplificados, que exigem apenas instalação local e pequenas modificações no windows, sim, mas daí você perde em design/interface e em aplicações de rede, como importação e consulta remota ao opac. Não tem pra onde fugir.

Bem, o LibraryThing possui vantagens e desvantagens como qualquer produto. Vou tentar fazer uma argumentação em sua defesa, é a minha primeira indicação para uma pequena biblioteca, passionalmente por motivos óbvios: não tô ganhando nada promovendo o software, é que eu gosto dele mesmo.

VANTAGENS

Instalação: o librarything é totalmente baseado na web. Não precisa de instalação, não precisa de atualização. Funciona como e-mail, você cria uma conta e entra com login e senha no navegador. Basta ter acesso à internet. Claro que é aqui que mora o perigo. Os experts vão dizer, ah mas justamente por isso é necessário rodar uma instalação local monousário, pois não requer rede. Talquei, mas vou chutar que hoje é muito mais provável que o responsável pela biblioteca consiga uma conexão, nem que seja via celular (e para isso o librarything tem um app). Bibliotecas pessoais nem se fala. Se a situação for muito precária, existe a possibilidade de catalogar tudo na internet de alguém, deixar pelo menos o OPAC rodando normalmente pra quem tem celular e fazer o controle de empréstimos offline.

Bibliotequices: bibliotecário é um bicho chato então mesmo sem saber pra que serve ele vai perguntar “mas esse software oferece protocolo z39.50?” E eu digo sim, o LibraryThing tem tudo isso, api, interoperabilidade, importação formato .mrc, dublin core, xml e o escambau. Conheço bibliotecárias capazes de catalogar 2 mil itens em pouco mais de 1 mês, então a não ser que você esteja migrando de outro software ou seu acervo corrente se atualize com uma velocidade absurda, essa coisa de importação também não faz o menor sentido. É muito mais simples fazer tudo na mão, biblioteca pequena irmão. Pensando nessa lógica, de uma pequena biblioteca que não vai exigir uma recuperação minuciosa, você não precisa preencher todos os campos do marc. Basta os campos principais, alguma coerências nos assuntos e só. Coisa que se cataloga em 2 minutos. Mesmo assim, o LibraryThing pega z39.50 de quase 5 mil bibliotecas, e pasmem, quase nenhuma dessas no Brasil. E por que? Porque bem, as bibliotecas brasileiras simplesmente não liberam seus dados. Pra que a gente fica falando de interoperabilidade no curso de biblio, eu me pergunto. O LibraryThing suga a maior parte dos dados do Amazon, quer vocês gostem ou não, a maior base bibliográfica do mundo hoje. É só jogar um título, um ISBN, um clique de mouse e pronto, importação feita.

Cabeçalhos de assunto: não sei como funciona tabela de autoridade nos outros softwares, mas no LibraryThing você pode criar quantos descritores e remissivas quiser. Qualquer assunto que você atribuir vira um link, qualquer livro identificado com aquele assunto estará associado ao link. Tem facetada até dizer chega pra fazer combinação de busca, booleana. Tem tudo isso, e eu nem sei pra que, porque vou ter que dizer de novo: biblioteca pequena. Pra que inventar?

Empréstimos: o LibraryThing propriamente é o módulo de catalogação. Funciona satisfatoriamente para uma biblioteca pessoal. Mas ele possui um módulo paralelo que se chama TinyCat, e é um espelho dos livros catalogados no LT. Tem OPAC, tem painel administrativo pra controle de usuário e gerenciamento dos empréstimos. A melhor coisa é que o TinyCat é um catalogo público de verdade, o acervo fica disponível em um link na web, cada usuário pode ter um login para controle online (o usuário tem que ir fisicamente até a biblioteca pegar o livro, claro. Um ponto fraco é que o usuário online não consegue fazer reserva, só o bibliotecário como administrador. Mas biblioteca pequena gente, não vamos complicar).

Desenvolvimento: o LibraryThing foi concebido como uma rede social de livros. Perdeu o posto pro GoodReads e hoje é focado mais em pequenas bibliotecas mesmo. Mas desde sempre ele contou com bibliotecários na equipe de desenvolvimento. Isso fica evidente nas minúcias e características do softwares, simples porém completo. A equipe é bastante acessível, precisei entrar em contato com eles algumas vezes e sempre foram muito solícitos.

OPAC: o TinyCat é minimalista, oferece as capinhas, tem opções de navegação pelas facetadas e busca avançada. Acho que não perde em design pra nenhum outro software, mesmo entre os grandes.

DESVANTAGENS

Tradução: o software é gringo, a interface é em inglês com opção de tradução automática. A parte do TinyCat não tem tradução. Mas o desenho é intuitivo, as principais operações são em inglês muito básico. Na pior das hipóteses o bibliotecário pode auxiliar o usuário a consultar o catálogo, até que ele identifique as informações principais por conta própria.

Preço: o LibraryThing é gratuito para fins pessoais. Para todas as outras modalidades ele oferece um pacote de pagamento compatível com o tamanho do acervo. Quanto maior o acervo, mais cara a assinatura. Acho o valor irrisório quando colocado custo e benefício na balança. Existe a possibilidade sim de usar o LibraryThing gratuito indefinidamente, mas pra que fazer isso, não façam.

Reservas: ele não tem a opção de fazer a reserva online (tem um botão lá pra isso, mas ele meio que não tem serventia).

LibraryThing: software para pequenas bibliotecas, curso online

Interpretando registros MARC

Este post é um breve guia sobre registros bibliográficos MARC, para aqueles que normalmente não os criam ou editam, mas gostariam de entender melhor como funciona nos bastidores o catálogo de uma biblioteca.

INTRODUÇÃO AO MARC

O formato MARC foi desenvolvido por Henriette Avram na Biblioteca do Congresso dos EUA no final dos anos 1960 para permitir a transferência e manipulação de dados de catálogo por computadores. Em vez de ter que redigitar a mesma informação várias vezes em fichas de papel 3 x 5 polegadas, os catalogadores poderiam reutilizar as informações já inseridas, adicionar o que precisavam e imprimir quantos cartões fossem necessários (para arquivamento sob autor, título, assuntos, etc). Até hoje os registros nos principais catálogos de bibliotecas e outros catálogos eletrônicos são muito simplificados, porque foram originalmente planejados para impressão nas fichas de índice remissivo ou copiados à mão a partir de fichas criadas na era pré-MARC.

Inicialmente, apenas os bibliotecários tinham acesso à informação eletrônica, mas nos anos 80 os terminais de computador para acesso público ao acervo de uma biblioteca começaram a se tornar comuns. Como esses terminais mostravam dados em rede, e não dados armazenados apenas naquela máquina ou em um CD-ROM, por exemplo, eles ficaram conhecidos como Catálogos de Acesso Público Online, ou OPACs. O termo ainda é usado por bibliotecários, embora a noção de um catálogo “offline” hoje não faça mais sentido.

O MARC foi projetado para lidar com registros de autoridade (tabelas de nomes e assuntos oficialmente estabelecidos), registros bibliográficos (descrições genéricas de livros e outros itens nas coleções de uma biblioteca) e registros de acervos (informações específicas sobre os materiais armazenados fisicamente, incluindo número de chamada). O MARC é para ser legível por máquina, mas a maioria dos campos pode ser formatada para ser legível também ao olho humano; no entanto, pode parecer informação demais até que a pessoa se acostume a visualizar um registro completo. Para ter uma noção do como é um registro MARC, se você não trabalhou com ele antes, abra um ficha nos catálogos online das principais bibliotecas e procure por um link de visualização do MARC. Você vai ver algo mais ou menos assim:


[ficha MARC para “Olhai os lírios do campo” no catálogo da UFRJ]

PARTES DE UM REGISTRO MARC

Um registro bibliográfico MARC divide seus dados (a descrição bibliográfica) em partes fáceis de serem digeridas pelos computadores, por meio de campos e subcampos. Alguns blocos são bem formatados e outros vêm em texto livre, mas como todos eles estão em locais designados, um computador pode interpretar quais são seus usos e como eles devem ser analisados. Cada registro MARC inclui vários tipos de informações, agrupadas próximas umas das outras (embora isso esteja muito longe de ser consistente ou regular); a maior parte das informações é sobre o item que está sendo catalogado, mas algumas são sobre o registro em si e sua estrutura – novamente, para garantir que o computador possa interpretar o registro corretamente.

Naturalmente, quando se diz “o computador pode interpretar…”, normalmente estamos nos referindo a um programa em um computador, tal como um ILS (sistema integrado de biblioteca ou software de automação de bibliotecas), que gerencia os registros de usuários e o catálogo de uma biblioteca, ou o MarcEdit, que é especificamente projetado para fazer alterações em massa nos registros MARC. Os registros MARC são armazenados principalmente com a extensão .mrc ou .mrk (o último sendo uma forma ligeiramente mais legível por humanos), que não são prontamente reconhecidos pela maioria dos computadores sem programas especializados. Registros MARC também podem ser armazenados como texto (por exemplo, ao baixar registros de um catálogo, você será levado a uma página de texto gerada dinamicamente e precisará especificar a extensão .mrc para salvar seus registros) ou como XML, usando a especificação MARCXML.

CAMPOS

Cada linha do registro MARC é referida como um campo, distinguida por um número de três dígitos que informa ao visualizador que tipo de informação entra nesse campo. Entre os bibliotecários são referidos simplesmente pelos seus números de três dígitos: isto é, “o campo duzentos e quarenta e cinco” e “o campo cem”. Quando os catalogadores desejam se referir a um grupo de campos, eles frequentemente substituem x por alguns dos dígitos: ou seja, “campos 6xx” ou “campos 33x”.

SUBCAMPOS

A maioria dos campos é dividida em subcampos, diferenciados por letras, que permitem informações mais específicas. Por exemplo, o campo 245, que fornece o título e o autor do livro, pode ser dividido nos seguintes subcampos:

‡ a Título principal
‡ b Sub-título ou títulos adicionais
‡ c Declaração de responsabilidade

(Em alguns registros, o campo 245 também têm subcampos ‡ e ‡ p, que fornecem informações sobre a numeração ou subparte do item, se ele faz parte de uma série ou conjunto de várias peças. Você encontra esse tipo em registros de partituras para designar partes instrumentais, por exemplo.)

Como cada campo tem um propósito específico, seus subcampos podem significar coisas diferentes, mesmo que sejam codificados pelas mesmas letras. Os subcampos possibilitam extrair informações específicas de um registro ou conjunto de registros, ajudando a isolá-lo (por exemplo, quase todas as datas de publicação serão encontradas no subcampo ‡ c dos campos 260 ou 264).

INDICADORES

Muitos campos também possuem indicadores. Essas são dois dígitos extras que aparecem entre o número de três dígitos principal e o restante do campo, referidos como primeiro e segundo indicadores. Seu significado varia por campo, mas eles sempre dão informações sobre o conteúdo dos próprios campos. Para usar o campo 245 como exemplo novamente:

Primeiro indicador – informa se o campo 245 é precedido por um campo 1xx (se o livro tem um autor principal ou criador)
Segundo indicador – informa se o título inclui um artigo inicial (o, a, os, as, uma, etc) e, em caso afirmativo, quantos caracteres ele contém.

No exemplo 245 abaixo, o primeiro dígito indicador “1” significa que o campo 245 é precedido por uma entrada principal (o campo 100), enquanto o segundo dígito indicador “2” significa que existem 2 caracteres iniciais antes da primeira palavra do título (A-[espaço]).

100 10 ‡a Shakespeare, William, ‡d 1564-1616, ‡e autor
245 12 ‡a A tempestade / ‡c William Shakespeare

O exemplo acima só se aplica ao campo 245, e os indicadores para outros campos terão significado diferente. Consulte a documentação de cada campo individualmente.

DOCUMENTAÇÃO MARC

A Biblioteca do Congresso Americano (LoC), que primeiro projetou e atualmente mantém o padrão MARC, fornece uma grande documentação para os campos MARC em registros bibliográficos. A OCLC, a empresa por trás de várias ferramentas importantes de bibliotecas, como o catálogo coletivo Worldcat, também fornece documentação para o formato bibliográfico MARC; é semelhante à orientação da Biblioteca do Congresso, mas voltada para os catalogadores que trabalham com o cliente Connexion da OCLC, uma interface de catalogação amplamente utilizada nos Estados Unidos. A documentação da LoC e da OCLC inclui guias completos para o uso e a implementação de cada campo e a importância de seus indicadores e subcampos.

MARC é um padrão de formato, por isso determina a estrutura das informações adicionadas aos registros; a informação em si é determinada de acordo com os principais padrões de catalogação AACR2 e RDA. AACR2 é a segunda edição das Regras de Catalogação Anglo-Americanas e foi o principal padrão usado pela comunidade de catalogação desde sua criação em 1967. AACR2 foi criada com o formato MARC em mente, mas assumiu que livros e periódicos seriam a principal preocupação de catalogadores. Nos últimos anos, os catalogadores têm feito a transição gradual do AACR2 para o seu sucessor, RDA (Resource Description and Access), que foi criado para trabalhar com o MARC, mas não está vinculado a ele, e para levar em conta a ampla gama de materiais em coleções modernas de bibliotecas – livros, DVDs, pôsteres, kits de atividades, bancos de dados eletrônicos e tudo mais.

TRABALHANDO COM MARC

Além de sua documentação, a OCLC também tem um projeto que examina como os campos MARC são utilizados ​​nos registros do Worldcat (existem cerca de 2,2 bilhões até o momento). Os dados resultantes do uso do MARC no Worldcat permitem que você selecione um campo e veja quantos registros no sistema o utilizam e/ou seus subcampos; é um bom método pra ter uma ideia de quais (sub)campos podem ser úteis ou ricos em conteúdo. (Lembre-se de que isso representa todos os registros adicionados à Worldcat, que distorce bastante as publicações recentes em bibliotecas públicas e acadêmicas, especialmente no Brasil).

Algumas bibliotecas oferecem dados do MARC em estado bruto. Se você deseja trabalhar com uma seleção maior de dados a partir do OPAC, tente entrar em contato os administradores de sistema da biblioteca em questão para mais informações. Eu mesmo já pedi alguns arquivos mrc para o Murakami e ele gentilmente me enviou.

Além disso o programa MarcEdit é gratuito para download e tem alta funcionalidade, mas uma curva de aprendizado bastante suave. Veja o screencast da Folger Library sobre como exportar registros MARC para planilhas por meio do MarcEdit.

A Biblioteca do Congresso também reuniu uma lista de ferramentas do MARC; muitas são pagas e destinadas a uso institucional, mas também há vários recursos gratuitos e de menor escala entre os oferecidos. O wiki Code4Lib também possui uma página de recursos MARC, incluindo aplicativos, bibliotecas de programação e conjuntos de dados.

CAMPOS MARC

Abaixo está um apanhado geral de alguns dos campos mais frequentemente utilizados em um catálogo tradicional. Esta seção é propositalmente pequena, muito distante de uma lista completa. Para todos os campos, consulte a documentação da LoC ou da OCLC para obter informações adicionais sobre o uso.

Campo fixo (campos Líder e 008)
“Campo fixo ” é um termo coletivo para o conjunto de campos de caracteres limitados no cabeçalho de um registro MARC. O campo fixo abrange o Líder MARC e os campos 008; juntos, os campos Líder e 008 fornecem informações codificadas sobre o registro, o conteúdo intelectual que ele descreve e as normas de catalogação utilizadas. “Campo fixo ” é um termo baseado na OCLC, mas entrou em uso popular devido à sua concisão e ao uso generalizado da interface Connexion da OCLC, que agrupa os campos fixos em conjunto acima do corpo do registro.


[captura de tela da seção de campo fixo na interface do Connexion da OCLC]

A documentação da Biblioteca do Congresso inclui um guia de byte por byte para o campo líder e a OCLC fez o mesmo para sua seção de campo fixo. Uma vez que as informações nos campos Líder e 008 são determinadas de forma posicional, pode referir-se a cada tipo de informação pelas suas posições de caracteres: ou seja, o LDR/17 (nível de codificação) informa o leitor o quanto o registo é completo, enquanto o 008/35-37 contém o código de idioma de três dígitos para o idioma primário da manifestação que foi catalogada. Como você pode notar nesses exemplos, o campo fixo contém informações sobre o próprio registro e sobre a manifestação que o registro descreve.

0XX
O grupo de campos começando com 0 em um registro MARC na verdade não tem um assunto comum. Esses campos contêm informações administrativas e codificadas, números de chamada e informações sobre o próprio registro, entre outras coisas. Alguns campos comumente usados são:

020: número do ISBN
035: número de controle da OCLC. Cada registro adicionado ao banco de dados da OCLC terá um número exclusivo.
040: fonte da catalogação. Fornece informações sobre qual biblioteca criou o registro, quais padrões de catalogação eles usaram e quais bibliotecas o editaram desde então.
041: idioma da obra (usando códigos de idioma de três letras). Se for uma tradução, também indica a língua original.
043: área geográfica (usando códigos de países de três letras). Inclui o país em que a obra transcorre (por exemplo, Itália, para Romeu e Julieta), ou um local que o registro é sobre.
046: datas codificadas especiais.
050: número de chamada (esquema de classificação da Biblioteca do Congresso)
090: número de chamada local (pode ser Biblioteca do Congresso ou um esquema de classificação local)

1xx
Os campos que começam com um 1 são referidos como campos de entrada principal, e deve haver somente um deles em cada registro MARC. Eles contêm o nome da pessoa ou entidade que é a principal responsável pela criação do trabalho descrito no registro. Esta pode ser uma única pessoa, uma corporação, ou mesmo uma conferência ou outro tipo de evento (como no caso de anais de uma conferência). Os nomes que podem ser usados nos campos 1xx geralmente também podem ser usados em seus campos 7xx correspondentes; ou seja, um nome que é usado no campo 100 como uma entrada principal em um registro também pode ser usado no campo 700 como uma entrada adicional em outro registro (os nomes também podem ser usados nos campos 6xx como sujeitos quando aplicável; ver abaixo.) Os dois campos 1xx mais frequentes são:

100: entrada principal (nome pessoal)
110: entrada principal (nome coletivo/jurídico)

2xx
Os campos que começam com um 2 fornecem o título da obra que está sendo catalogada, e informações sobre sua edição, publicação e manufatura. Alguns campos comuns são:

240: título uniforme (o título oficial de uma obra, ou o título que é mais conhecido por)
245: título e declaração de responsabilidade
246: forma variável do título
250: edição
260: publicação
264: publicação (também pode incluir informações sobre produção, manufatura, distribuição e direitos autorais de um item, dependendo do segundo indicador). O campo 264 é um campo baseado no RDA e acabará por substituir o campo 260.

3xx
Os campos que começam com 3 contêm informações sobre a forma física e as características da obra. Muitos campos 3xx são desenvolvidos especificamente para descrever materiais audiovisuais, digitais e outros materiais não-livros. Alguns campos comumente usados são:

300: descrição física (número de páginas/volumes, presença de ilustrações ou outro conteúdo especial e tamanho físico)
336, 337, 338: conteúdo, tipo de mídia e suporte. Estes são comumente referidos coletivamente como os campos 33x. Eles são adições recentes ao MARC, acompanhando o advento do RDA como um padrão de catalogação.

4xx
Há atualmente apenas um campo 4xx, o campo 490 (há vários campos 4xx obsoletos, que ocasionalmente você pode encontrar em registros mais antigos). Ele contém a instrução de série de um item, conforme aparece na obra que está sendo catalogada, que pode não corresponder exatamente ao formulário oficialmente estabelecido sobre as instruções relacionadas à série.

490: declaração da série (transcrita do item)

5xx
Os campos que começam com 5 são usados para uma variedade de notas diferentes sobre a obra que está sendo catalogada. Isto pode abranger uma vasta gama: notas sobre bibliografias e tabelas de conteúdos, restrições de acesso, especificações audiovisuais, resumos, históricos de exposições ou apenas notas gerais sobre algum aspecto da obra que não pode ser facilmente incluído em outro lugar. Devido à sua natureza, a maioria dos campos de nota são carregados de texto livre. Alguns dos campos 5xx comumente usados incluem:

500: Nota geral. Aceita informações que não possuem nenhum outro campo dedicado.
504: Nota bibliográfica. Indica presença de bibliografia e/ou índice.
505: Nota de conteúdo.
506: Nota de restrições de acesso.
510: Nota de citação/referências.
520: Nota de resumos.
530: Nota de exemplar físico adicional disponível.
546: Nota de idioma. Uma versão em texto livre dos campos 041 e 008/35-37.
585: Nota de exposições.

6xx
Os campos que começam com 6 contêm descrições do assunto(s) da obra, e às vezes seu gênero e/ou forma também. Os nomes pessoais e corporativos que são usados nos campos 1xx e 7xx também podem ser usados nos campos 6xx quando eles são o assunto de uma obra. Vocabulários controlados são usados extensivamente nos campos 6xx. Comumente:

600: nome pessoa física (assunto)
610: nome coletivo (assunto)
651: nome geográfico (assunto)
655: gênero/forma

7xx
Os campos que começam com 7 são usados para fornecer acesso adicional à obra que está sendo catalogada, como localizações geográficas relacionadas, entidades adicionais envolvidas na criação ou produção de um título, ou outros títulos relacionados (como em um livro que possui várias reproduções). O grupo de campos 77x são usados como “campos conectores” para associar o registro com outros registros relacionados; por exemplo, para vincular um fascículo especial à versão completa de um periódico ou vincular uma versão impressa à um recurso digital. Alguns campos 7xx comuns são:

700: entrada secundária (nome pessoal)
710: entrada secundária (nome coletivo)
740: entrada secundária (título não controlado – ou seja, um título que não é oficialmente estabelecido, mas que pode ser útil para usuários do catálogo)
751: entrada secundária (nome geográfico). Usado para a associação do lugar com o conteúdo da obra, por exemplo, localização de uma peça de teatro ou sermão. Não confunda com o campo 043.
752: entrada secundária (nome de local hierárquico). Usado para o lugar de publicação, impressão, etc.
776: forma física secundária.

8xx
Os campos que começam com 8 têm diversos usos: para fornecer acesso adicional através do título da série, da nota e/ou da ligação aos formatos adicionais da obra que estão sendo catalogados, ou especificar a informação local do título no acervo (aplicável somente a uma determinada instituição, não a todas as cópias). Alguns campos 8xx comumente usados são:

830: título de série uniforme (o título oficialmente estabelecido, ou controlado, para uma série)
852: localização do recurso (dentro da biblioteca). Isso é usado principalmente em registros locais para especificar qual estante da biblioteca um item está localizado e observar quaisquer recursos exclusivos do item. Também aparece no registro bibliográfico principal para garantir que seja pesquisável por palavras-chave.
856: acesso eletrônico. Se uma versão digitalizada de um item físico estiver disponível, ela será vinculada a aqui.

9xx
Os campos que começam com 9 são considerados obsoletos e não são mais utilizados em registros MARC, mas você pode encontrá-los usados em registros mais antigos para anotar informações locais e/ou administrativas.

[texto original Interpreting MARC records]


[registro MARC para os 24 sonetos de Shakespeare, catálogo da rede Pergamum]

The Public: a biblioteca pública como último bastião da democracia

Finalmente assisti The Public, filme mais recente da categoria “bibliotecários no cinema” e fiquei um pouco inclinado a incluí-lo na minha lista de filmes que todo bibliotecário deve assistir antes de morrer. Mas não vou. Talvez o azar tenha sido que ele veio justo após “Ex Libris: Biblioteca Pública de Nova York”, numa safra de filmes que celebram as bibliotecas como refúgios da imparcialidade e do pluralismo, em tempos de, bem sei lá, esse nosso tempo.

Os dois filmes não entraram no circuito aqui no Brasil, nem estão na netflix, então a saída foi baixar. Me desculpe Emilio Estevez. O ExLibris é um documentário longo e chato, mas que captura com bastante clareza o ideal de biblioteca em uma cidade cosmopolita como NY.

Já o The Public demonstra um admirável respeito pela instituição cívica da biblioteca pública que a gente tanto curte, sem negar que seja antiquada, à qual um personagem do filme se refere como “o último bastião da democracia” (lá no contexto estadunidense). Mas a arte narrativa é menos convincente, acho que a Marina Macambyra simplesmente diria que o filme é bobo.

A trama é inspirada em um artigo publicado em 2007 que relatou a cultura de tolerância aos moradores de rua que frequentam a Biblioteca Pública de Salt Lake City (What They Didn’t Teach Us in Library School: The Public Library as an Asylum for the Homeless -. Sem querer outro livro foi publicado quase que paralelo ao lançamento do filme, The Library Book, que é uma crônica das bibliotecas e o papel vital que desempenham nas comunidades a que servem.)

O filme se passa quase inteiramente dentro da biblioteca pública de Cincinnati. Um bibliotecário gente boa une forças com a população de rua da cidade para realizar uma ocupação durante uma noite de frio intenso.

A biblioteca pública é o refúgio dos moradores de rua durante o dia: um lugar onde podem se encontrar, se lavar nos banheiros e se aquecer. Alguns dos funcionários não são muito simpáticos, o chefão diz ao bibliotecário: “Somos uma biblioteca pública, não somos um abrigo para os sem-teto”. E o bibliotecário desobediente civil responde: “Isso é exatamente o que somos.”

O incidente da ocupação acontece relativamente cedo no filme, deixando a hora e meia restante para a trama martelar seu ponto óbvio (as bibliotecas são espaços públicos e devem permanecer assim) e inevitavelmente esbarrar no tropo do “white savior”, um clássico do racismo hollywoodiano. Os próprios personagens sem-teto no filme querem ser fiéis à realidade mas saem como caricaturas.

Claro que nem mesmo um desfile de clichês de biblioteca não pode desviar a atenção do tema subjacente do filme sobre como as bibliotecas públicas agora são de fato um dos últimos postos da democracia (americana). Dentro de suas paredes, vemos questões manifestas não apenas de falta de moradia, mas de raça, classe, viciados em drogas, doença mental, desigualdade de renda, aquecimento global, a morte dos livros e a perversa máquina política.

É o tipo de filme ativista que oferece uma porradinha a cada minuto sobre o dever público versus segurança pública. Os alvos são fáceis, não precisa problematizar. Me parece que o ator/autor/diretor do filme Emilio Estevez têm, assim como meu estimado Eduardo Marinho, uma inquietação com o estado da nação e uma sensação de que uma boa parte dos cidadãos sofre uma grande injustiça. Tem uma conclusão serena ali, mas fiquei no final com meu pessimismo e a sensação de que nada foi resolvido pros sem-teto.

Nestes tempos divididos e escrotos, filmes centrados em questões políticas fazem uma tentativa de persuadir o outro lado a considerar seu ponto de vista ou jogar com seus aliados políticos e demonizar os inimigos. Normal, sempre foi assim propaganda, vide celeuma em torno de Democracia em vertigem. Como tal, acho que o The Public provoca menos incitação e mais uma chamada à compreensão sem ser cirandeiro. É uma tarefa complexa, com muitas partes que são caras a nós bibliotecários e o ethos da profissão, mas sem se esquivar da brutalidade policial como precedente, o sensacionalismo da mídia, o ativismo ingênuo ineficaz e a infeliz realidade de que manter a lei é muitas vezes uma sanção implícita da desumanização.

Enquanto o filme passa, a gente se acostuma com a ideia de bibliotecários e sem-teto se unindo em protesto, e talvez isso nos distraia da crítica principal: como evitar que as bibliotecas públicas se reduzam a lugares esquálidos, e como essa biblioteca subitamente congrega todos os males da sociedade sob o mesmo teto – e força os usuários enquanto cidadãos a confrontar esses males.

Eu reconheço que o filme se esforça para manter o espectador envolvido, mesmo alguém que não entenda nada de bibliotecas públicas. Sinceramente não achei o filme nada de mais mas ele é honesto pra caramba. Nota 6,5 no meu IMDB.

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Dias desses eu fui na Biblioteca Parque Estadual aqui no Rio, e momentos antes da abertura o cenário era esse da foto abaixo. Não quero expor ninguém mas eram quase todos ali moradores de rua, que literalmente dormem sob as marquises da biblioteca e aguardam ansiosamente sua abertura diária para que possam fazer uso das instalações. É sabido entre os funcionários que eles gostam de assistir aos filmes da coleção, alguns até já tendo esgotado completamente o acervo. Adaptações na rotina de atendimento foram necessárias, como a adoção de uma política específica para o guarda-volumes, visto que os moradores de rua preferem guardar seus pertences na biblioteca a deixá-los expostos na calçada.

Eu não sei se o olhar profissional fica muito criterioso, seria melhor alguém que não é bibliotecário dizer se o melodrama apresenta um quadro racional do dia-a-dia da profissão e é convincente. O filme destaca um problema que as bibliotecas públicas enfrentam não só nos EUA, mas aqui no Brasil inclusive: a tensão que os moradores de rua colocam sobre bibliotecários, que por sua vez não são assistentes sociais ou profissionais de saúde pública/mental.

Moradores de rua passam o dia na biblioteca porque lá é um dos poucos locais públicos seguros onde as pessoas podem ficar sem gastar dinheiro. Às vezes eles perturbam a “ordem”, como quando no filme um homem tira toda a roupa e começa a cantar no meio do salão, ou quando o odor de um é tão pavoroso que afugenta outros usuários. Na moral, qual bibliotecário que nunca teve um usuário fétido empesteando o recinto? Como lidar com essas pessoas? (no filme a biblioteca é processada por usuário que foi convidado a se retirar por conta do mau cheiro, mas ele ganha o processo porque não existem leis que regulem o cheiro das pessoas). Mas normalmente os moradores de rua se retraem, eles sabem que não tem essa de bastião da democracia, biblioteca é ainda um instrumento do Estado, e o Estado é lapada no lombo pra quem está à margem. Eles se sentam em silêncio, folheiam os livros, assistem filmes e usam os computadores. E só.

A primeira cena do filme é um comercial do governo sobre a carreira de bibliotecário, que exige “um amor por livros e pessoas”. O bibliotecário personagem central do filme é esse indivíduo, que gosta de livros e pessoas. Eu vou arriscar a dizer que bibliotecários que trabalham no atendimento, mesmo que não gostem de lidar com humanos, aprendem a fazer na marra. Então o bibliotecário é aquele que, embora saiba das chatices e dos problemas que os desabrigados podem trazer – brigas no banheiro masculino, um cara que fica pelado no meio do salão, um que se recusa a deixar o computador, etc – também sabe todos seus nomes e fala com eles como faria com qualquer outro usuário. Me digam aí se todos vcs não conhecem um bibliotecário exatamente assim?

No final do filme tem uma sequência tragicômica de perguntas muito reais de usuários: pedir ao bibliotecário para encontrar um livro, mesmo que ele tenha esquecido o autor e o título, mas lembra que a capa do livro era vermelha e estava na prateleira de cima; um usuário surdo que faz sua pergunta sobre as quatro nobres verdades do budismo em libras; e uma mulher que gostaria de ver um globo terrestre – em tamanho real.

Em que outra instituição física você pode aprender sobre praticamente qualquer assunto, sem censura? Onde mais os sem-teto são acolhidos como iguais, pelo menos até que não sejam? Se as bibliotecas são microcosmos da democracia, o que significa que às vezes elas fecham ou perdem recurso a ponto do colapso? Muito mais do que apenas lugares para ler tranquilamente e procurar coisas, as bibliotecas conectam idosos e pobres à internet, ajudam os desempregados a arrumar emprego oferecendo classificados e computadores para mandar currículos, proporcionam às crianças atividades extracurriculares e, cada vez mais, oferecem aos moradores de rua espaços seguros para passar o tempo e socializar sem ameaça de expulsão ou coisa pior.

Os bibliotecários deveriam se preocupar se a expulsão de um usuário por reclamações de má higiene é uma violação dos direitos humanos? Não. Mas, como tantas outras instituições públicas que estão com déficit de pessoal e com recursos insuficientes, essa é exatamente uma das situações a quais se sujeitam. Assim, os bibliotecários devem encontrar o equilíbrio entre oferecer informação, recreação e formação a todos aqueles que solicitam e garantir a segurança dos que entram em suas portas. No processo, eles descobrem que a descrição do trabalho, sempre em transformação, também inclui vestir a carapuça sempre que um bode expiatório se faz necessário.

Arquitetura de bibliotecas – edição internacional 2019

Preparem o pacote de dados. Não fiz categorias específicas ou tendências, vou colocar abaixo alguns projetos que gostei, recentes ou nem tanto, critério estritamente pessoal.

Royal College of Surgeons, Dublin

se vc tem dinheiro sobrando, é assim que se faz

Grünerløkka, Oslo – Noruega

Curto demais projetos dessa agência Aatvos, pegada steampunk.

DataLab, Universidade de Stavange – Noruega

Haus der Geschichte, Bonn – Alemanha

Lochal, Tilburg – Holanda

antigo pátio de trens convertido em biblioteca

Fondazione Giangiacomo Feltrinelli, Sala di lettura – Itália

Caulfield Library, Monash University – Australia

Lichfield Library, St Mary’s Church – Inglaterra

JK Murray Library, Universidade de Queensland – Australia

nada de mais mas tem tudo que os alunos precisam. eu gosto da pegada industrial, funciona bem para biblioteca universitária

​University of Roehampton Library, Londres

nada de diferente tb mas parece aconchegante demais

Shellharbour City Library – Australia

meio over talvez, mas curti

O futuro da profissão de bibliotecário

Não tem como não assistir a reportagem da Andreza no globo reporter e não se identificar. Afinal, qual não foi o bibliotecário que acordava às 6 pra ir pra facul e voltava meia noite do estágio mal remunerado, comia aquela marmita vez ou outra estragada, mas fazia tudo isso esperançoso e hoje é um profissional com orgulho dessa saga? Não entendi bem se o programa era sobre o futuro do trabalho ou sobre pessoas que precisaram mudar suas rotinas para garantir um salário. Pagando bem, que mal tem? Ou ainda se era sobre o futuro da educação, porque gostar de aprender como requisito para o mercado de trabalho até ontem pra mim era somente sinônimo de diploma universitário.

De tempo em tempos sai na mídia estudos que indicam que ora a biblioteconomia é uma das profissões mais promissoras para o futuro, ora uma das condenadas a deixar de existir. Eu já fiz minha análise sobre o futuro do nosso trabalho e gosto sempre de acompanhar as taxas de ocupação da profissão. Não sei se o CFB possui esses dados compilados, mas vou chutar que nos últimos 20 anos o número de bibliotecários dobrou, refletindo o aumento no número de escolas de biblioteconomia também nesse recorte de tempo. A nossa população é pequena comparada a outras profissões, mas eu nunca consigo saber ao certo se estamos formando o número adequado de profissionais para a suprir a demanda real de vagas de trabalho, pra mais ou pra menos.

Me recordo quando da data de lançamento da lei da universalização das bibliotecas escolares haveria uma demanda reprimida de cerca de 175 mil vagas de bibliotecários referente aos postos em todas as instituições de ensino no país, e uma média de 20 mil profissionais registrados nos CRBs (considerando a relação dos que se aposentam e registram ao longo dos anos). Comparativamente, parece uma relação muito saudável, mas certamente há agora muitas preocupações sobre o excesso de bibliotecários se formando em um mercado de trabalho saturado, especialmente nas grandes capitais, e a mítica onda de aposentadorias que abriria muitas novas vagas, não parece estar acontecendo na escala prometida (aqui mesmo na firma tem um número grande de gente que já tem idade e tempo de serviço mas que prefere ou precisa continuar trabalhando pra manter a renda). Deve ter até um punhado de graduados que encontram um mercado de trabalho tão hostil que eles voltam para a escola e escrevem dissertações e teses sobre a crise do mercado de trabalho na área de informação. Ou seja, ainda que seja promissora conceitualmente, no mundo real o bibliotecário e outros profissionais estão disputando vaga pra ser entregador do rappi.

A outra equação do futuro do trabalho está no futuro da educação. Desafios de outras épocas como a crescente divergência de objetivos entre o curso de biblioteconomia e o mercado de trabalho, tanto para as habilidades administrativas quanto de administração, continuam os mesmos. Ninguém discorda que não tem como a universidade adequar seus currículos na mesma velocidade que as indústrias alteram suas formas de querer ganhar mais dinheiro. Mas individualmente, se um aluno só vai conseguir obter um pequena fatia de habilidades para o mercado e depois terá que ter contínua “disposição para aprender” então afinal pra que serve a faculdade?

Dizer que o profissional do futuro precisa gostar de aprender é tão óbvio quanto o desafio de aplicar um pacote de teorias e conceitos fundamentais, adaptando os conhecimentos adquiridos não só na faculdade, mas durante toda a vida, aos problemas elementares do trabalho remunerado. É uma estratégia bem simples. Mas não vai ter nenhum requisito de vagas de bibliotecários descrito dessa maneira.

Então bem, que tal fazer um apanhado das descrições de trabalho oferecidos a bibliotecários e traçar um paralelo com os tópicos oferecidos na formação tradicional nas escolas e em cursos de especialização? No linkedin mesmo tem uma variedade de vagas que ou exigem competências demais para o bibliotecário clássico ou trabalhos que exigem competências adicionais que não estão no currículo tradicional mas que poderiam ser realizados por bibliotecários. Isto é, tem as vagas muito tradicionais, as vagas muito especializadas e as propensas vagas. A maior parte dos egressos só consegue competir na primeira linha, que é natural em qualquer profissão, o que causa uma sensação de que o mercado está competitivo demais. Mas acho que existe uma margem grande hoje pra ter currículos flexíveis e professores/instrutores oferecendo disciplinas a distância, compondo um mega currículo agregado entre todas as escolas de biblioteconomia do país. E com isso ampliar a chance de competir naqueles outros dois segmentos de vagas. Mas isso é difícil demais de colocar em prática por conta da burocracia e dos feudos.

Eu fico feliz pela Andreza, que teve a sagacidade de ocupar nichos novos, mudar de cidade em busca de melhores oportunidades, que se manteve fiel ao ethos da profissão atualizando a práxis. Ela muito bem representa a classe. Como fazer agora pra replicar esse espírito, sem que ele seja mero fruto do destino individual?

Tote bag, eco bag, sacola ecológica, bolsa de pano: tem pra vender na loja da biblioteca?

Estava procurando uma bolsa de pano pra dar de presente a mim mesmo mas não encontrei nenhuma loja de biblioteca que tivesse pra vender. Bolsas de pano (tote bad, eco bag, sacola ecológica, como queiram indexar) são bastante comuns em congressos, brindes baratos e úteis de fato, que as pessoas continuam usando mesmo depois dos eventos. Algumas tem desenhos e logos bem feitos, então pow, é um presente legal, tô precisando pra fazer a feira. Essas bolsas são até um item de status, reparem, tem gente que vai em bibliotecas e museus do exterior, compram as bolsas nas lojinhas e depois desfilam aqui.

Bem, então tem algumas questões: por que no Brasil não é comum as bibliotecas terem lojinhas? Tem algumas, claro. Mas essas normalmente não contam com uma venda virtual, caso da Loja do Livro da BN. Tem mais lojinhas em museus, mas por que não também em bibliotecas? Comercializar/lojinhas são tabu em bibliotecas públicas? porque ninguém se espanta com livrarias em shoppings né, mas e se alguma prefeitura decide instalar e bancar uma biblioteca dentro de um shopping por exemplo, daria certo? As pessoas apoiariam a ideia? Ou que uma biblioteca pública grande, como a BMA-SP, lançasse uma pop-up store em algum local na cidade, não só para emprestar livros, mas para vendar produtos da marca? Dá pra conciliar legislação e prática, a biblioteca pública como tal e sua lojinha? Como seria utilizada a grana das vendas? A BP tem que virar uma fundação ou associação de amigos pra poder ter essa lojinha? Você compraria itens de uma loja da biblioteca? Quais tipos de itens, livros, papelaria, camisetas, bolsas?

São perguntas para um TCC quem sabe, acho que não temos muitas experiências desse tipo (já teve biblioteca que substituiu sacolas de plástico por bolsas ecológicas, ótima iniciativa), então mesmo em, ou em função de, um cenário de crise, seria legal a população fazendo uma propaganda das bibliotecas públicas locais, carregando as sacolas como uma consequência da estratégia promovida pelas bibliotecas e um símbolo de status (intelectual, hipster, consumo consciente, sei lá) para quem carrega.

Ainda não encontrei uma bolsa legal aqui no Brasil para presentear, mas fiz algumas buscas e vou deixar abaixo os links de lojas de bibliotecas (e bibliotecas somente, não vale livrarias ou lojas de confecção sob demanda) e as bolsas que gostei mais.

NYPL



Calgary Public Library Foundation


Library of Congress


British Library

Neilson Heys Library

Toronto Public Library Foundation

Brooklyn Public Library

Chicago Public Library

Los Angeles Public Library

State Library New South Wales

Morgan Library

Bodleian Libraries

* foto da Loja do Livro da BN: Alexandre Macieira | Riotur

Censura à pesquisa, censura em bibliotecas: cena de Chernobyl episódio 4

Censura em bibliotecas no Brasil normalmente aparece em quatro versões: censura religiosa, censura ética/social, censura política e censura militar. Censura religiosa é a que historicamente mais aparece nos noticiários e grande mídia (incluir obrigatoriedade de ou excluir bíblias, disputas no sincretismo, etc); censura ética/social acontece normalmente quando querem expurgar de escolas algum livro do tipo que você costuma ler com uma mão só (se é que me entendem meninos e meninas); censura militar mesmo quem não viveu entre 64 e 85 conhece bem, tem a ver com interesses estratégicos e propriedade industrial. Se confunde com a censura política/ideológica, que em governos supostamente democráticos é mais sutil, mas é a que tem aparecido com mais impulso nos últimos anos, desde a redemocratização.

Isso não é um argumento acadêmico, os dados aqui são difusos, mas mesmo considerando os principais casos de censura não lembro de situações extremas recentes que tenham causado a necessidade de algum tipo de reparação na práxis bibliotecária. Muitas das nossas normativas e código de ética em relação à censura são baseadas em preceitos universais do humanismo e democracia, vagos o bastante para se adequar à nossa realidade local. Isto é, para os bibliotecários, seja em uma biblioteca pública, infantil ou lidando com uma coleção especializada, nenhum instrumento de censura pode ser tolerado. Um ponto essencial é que, como trabalhamos com desenvolvimento de acervos, da compra ao descarte, estamos em posição ambivalente de censurar e sermos censurados. Não vou problematizar. Quem quiser saber mais basta procurar nas fontes da área que existem excelentes trabalhos sobre o tema.

Me peguei pensando nesse tema depois que vi o trecho abaixo, da série Chernobyl:

Também não vou problematizar Chernobyl enquanto série, acho que tá claro ali a narrativa ocidental enviesada ainda que o foco seja na tensão entre os pesquisadores/especialistas e os burocratas. A série é muito baseada no livro da Svetlana Aleksiévitch, Vozes de Tchernóbil, que é um trabalho excelente. São dois pontos que me chamaram a atenção nessa cena: fazer pesquisa na era pré-internet e fazer pesquisa sob regime de censura, ou as duas coisas juntas, tudo isso ambientado na biblioteca tradicional.

Eu sinto muita pena de quem tinha que fazer pesquisa na era pré-internet. Se hoje com a velocidade de troca que a gente tem, às vezes as informações ainda são lentas, imaginem naquela época. Pensem na chatice que era vasculhar catálogos de fichas, ter que fazer solicitações para uma bibliotecária gatekeeper e ainda ter que esperar semanas ou meses para obter um determinado artigo, sem saber de fato se ele é relevante para a pesquisa. Deixo aqui meus parabéns a todos os pesquisadores e bibliotecários guerreirinhos pré 1990s.

Sinto mais pena ainda de quem tem que fazer pesquisa sob censura. No trecho da série acima, a pesquisadora solicitou algo em torno de 4 artigos, mas o censor disse que ela poderia ter acesso a somente um deles. E este artigo ainda vinha com páginas a menos, por conta da censura. Era informação crucial para a prevenção de um acidente nuclear, mas que foi mantido em sigilo por um estratégia de Estado. Deu ruim.

Bem, as observações que eu pontuei na cena da biblioteca enquadram o tema que a série explora de maneira geral: o perigo de um poder tão centralizado que a verdade e a falsidade se invertem. Quando as sociedades depreciam não apenas o conhecimento especializado, mas também a natureza da própria verdade, a catástrofe inevitavelmente se segue. Se a gente aplicar essa maior mensagem da série de TV à mudança climática, a disseminação de fake news, terra planismo, campanhas anti-vacinas, memes bizarros no whatsapp e facebook, ela é uma fábula perfeita para os nossos tempos. E eu me pergunto: como nós bibliotecários vamos nos posicionar e lidar com isso? (quando for o momento, se ele não for agora)

Nós não estamos vivendo no Brasil um estado totalitário, mas estamos numa realidade onde um estudo da Fiocruz sobre uso de drogas no Brasil acabou de ser censurado. Um projeto de lei do governo prevê eliminar multa para quem levar criança sem o equipamento apropriado no carro, sendo que estudos mostram que o uso da cadeirinha reduz acidentes fatais. Um lugar onde a verdade não é fixa e as referências estão mudando, na medida em que a verdade é de quem a controla. Vira uma espécie de commodity, a gente pode comprar na esquina ou num ad farm chinês.

Eu trabalho na universidade, então eu sei que os pesquisadores tendem a ser ambíguos quanto aos controles sobre a aplicação e comunicação científica, porque ao mesmo tempo que se opõem a qualquer tipo de censura que possa prejudicar sua autonomia, aceitam algumas restrições justamente a fim de proteger a comunidade acadêmica de intervenção externa. Já os políticos simplesmente evitam qualquer repercussão baseada em dados científicos que mostra o impacto das merdas que estão fazendo. Escolha a cor da sua bandeirinha, não faz diferença. A novidade é que, além de tentar impedir pesquisas em áreas ditas sensíveis ou de “menor retorno”, o governo brasileiro atual está tentando forçar os cidadãos a ignorar que o conhecimento existe.

O paradoxo dos desenvolvimentos atuais desses mecanismos de censura é que eles tendem a destruir a base dos direitos civis ao restringir a liberdade intelectual e científica, quando o uso apropriado dessa censura seria para coibir a presença do anti-intelectualismo, convenhamos. Bibliotecários devem ter isso muito claro em mente.

A censura na maioria dos casos práticos é reduzida em um agente censor que acredita que um determinado banimento pode melhorar a sociedade, proteger criancinhas e restaurar aquilo que vê como valores morais perdidos. Os censores tentam usar o poder do Estado para impor sua opinião sobre o que é verdadeiro e apropriado, ou ofensivo e censurável, acima de tudo, acima de todos. Os censores pressionam as instituições públicas, como as bibliotecas, a suprimir e remover informações de acesso público que julgam inadequadas ou perigosas, de modo que ninguém mais tenha a chance de ler ou visualizar o material e decidir por ele. Isso tudo tá bonitinho lá nas diretrizes da IFLA, devemos combater com todas as forças. Mas quando bate aqui, na nossa porta, é duro de assimilar. Eu me sinto em 1986. Parabéns aos envolvidos.

Arquitetura de bibliotecas – edição nacional 2019

O dinheiro acabou pra todo mundo, exceto pras escolas Lemann e do high society paulistano. Mas continuo sonhando com obras e reformas de bibliotecas públicas no pinterest. Não fiz categorias específicas ou tendências, vou colocar abaixo alguns projetos que gostei, recentes ou nem tanto, critério estritamente pessoal.

Centro Educacional Pioneiro, SP

Bernoulli Go, BH

Beacon School, SP

Anglo 21, SP

Escola Eleva, RJ

Insper, SP

Educandario Imaculada Conceição, Florianópolis

Maison de France, RJ

Instituto Quindim, Caxias do Sul

Livro Livre, SP

Casa Plana, SP

Material BA-Z, SP

[créditos]

Centro Educacional Pioneiro e Bernoulli Go: projeto do StudioLux

Beacon School: projeto da Base Urbana

Anglo 21: projeto Novidário

Quindim: projeto de Jessica de Carli, foge bem da pegada das escolas bilingue, excelente. Manteve as características originais do moinho construído no final do século 19.

Eleva: projeto MPGAA

Maison: projeto Peckson

Insper: Athié Wohnrath

Educandario Imaculada Conceição: Studio 8

Casa Plana é livraria, não fazem empréstimo domiciliar, mas eles se auto-intitulam biblioteca, então está aqui pra gente cobrar depois.

Material BA-Z: primeira biblioteca com foco em materiais da América Latina. Aberta para todos os alunos, professores e funcionários da Belas Artes. Público externo, é necessário agendar visita.

Como realizar uma aula pública sobre a biblioteca universitária

Se você tivesse que montar uma banquinha na praça da cidade e explicar como é o trabalho em uma biblioteca universitária, como você faria? Me peguei pensando nisso, já que novamente existe uma pressão para justificar a existência da universidade e seus funcionários (aqui no caso, universidades públicas). Ideologias políticas e biblioteconômicas a parte, concluí que é um pouco difícil fazer essa explicação.

Pessoalmente eu entendo a biblioteca universitária como um conjunto de técnicas aplicadas ao implemento de outras áreas, ou seja, a BU seria uma espécie de meta-ciência, não uma “ciência” propriamente, mas um tipo de atividade no contexto especializado que está ao serviço de outras ciências. Mas como traduzir isso em termos de um entendimento comum, ao público que está fora da universidade?

Talvez essa aula pública pudesse ser um apanhando de experiências diárias, nos moldes do um dia na vida, ou uma espécie de agradecimento ou reconhecimento por parte dos pesquisadores tal qual em uma banca. Claro que em uma aula pública devemos ofertar antes de esperar aplausos e ampla defesa, mas é impressionante que seja tão raro que os acadêmicos de qualquer nível, as pessoas que de fato utilizam as bibliotecas das universidades, falem sobre como bibliotecários moldam seu trabalho quando articulam os métodos da pesquisa.

Pode ter um sido falta de treinamento de pesquisa propriamente ao decorrer de suas carreiras, mas os pesquisadores deveriam pelo menos intimamente reconhecer que as decisões que os bibliotecários tomam impactam o trabalho que eles, pesquisadores, conseguem realizar. No passado e hoje o acesso a coleções (ou falta desse acesso) determina quase toda a pesquisa acadêmica. Bibliotecas são moldadas pelo desenvolvimento dessas coleções, pelas políticas de acesso, gerenciamento de registros e decisões de avaliação feitas por bibliotecários ao longo dos anos, e são essas decisões que impactam as informações que os alunos e pesquisadores conseguem obter, para dar prosseguimento à suas pesquisas.

Quando um pesquisador vai até a biblioteca solicitando determinados materiais, a gente acaba trazendo outros documentos, deixando-o mergulhar a fundo nas coleções. As vezes só podemos oferecer respostas superficiais e acesso limitado aos registros (seja em razão de orçamento e quadro de pessoal insuficientes ou estar sujeitos à políticas restritivas da instituição). As decisões tomadas pelos bibliotecários podem influenciar também nas descobertas eventuais, e nesse caso é necessário o pesquisador confirmar esse processo para articular o desenvolvimento de seus métodos. Este é principal lembrete para bibliotecários de universidades de que todas as nossas decisões moldam o ambiente da pesquisa acadêmica mais profundamente do que nós mesmos tendemos a acreditar.

Ou seja, uma aula pública sobre a BU é bem vinda no momento atual, mas acredito que sempre haverá a oportunidade para desafiar os acadêmicos, mesmo aqueles que agradecem bibliotecários na seção de agradecimentos, a colocar o processo de pesquisa na biblioteca no corpo de seu trabalho e falar sobre como as bibliotecas determinaram e como os bibliotecários auxiliaram suas pesquisas. Se a pesquisa bibliotecária, física ou digital, fizer parte do método, que digam. Se vc faz pesquisa, pense naqueles momentos em que o acesso a coleções de bibliotecas, ou a falta dele, na verdade moldou as escolhas que você tomou. É necessário fazer essa defesa especialmente se a sua experiência de pesquisa na biblioteca tenha sido tão perfeita que você nem pensou em agradece-la.

Nem todo o público, gestores ou políticos entendem a importância e impacto das bibliotecas. Então uma boa maneira de ajudar a defender as bibliotecas na universidade é essa: demonstrar como você as usa.

Cultura e infraestrutura da publicação acadêmica

Apesar do scihub ter ampliado bastante o acesso por meio de leakings o panorama permanece o mesmo: a publicação científica ainda é dominada pelas grandes editoras (com crescentes margens de lucro financiadas pelo erário); a maior parte dos resultados de pesquisa permanece legalmente sob paywalls; pesquisadores dificilmente passam em concursos ou avançam na carreira se não publicarem em top journals; o número de periódicos continua a crescer exponencialmente (apertando ainda mais o gargalo no processo de submissão); problemas de replicação permanecem especialmente por conta desse gargalo (nem os top journals são mais confiáveis); as bibliotecas ainda estão sujeitas ao corpo docente que é intransigente em relação à manutenção das assinaturas de determinados journals; a tecnologia aplicada à literatura ainda é arcaica moldes anos 90 (muitos periódicos não tem hiperlinks, não tem gráficos 3d, não tem seção de comentários, não tem participação aberta, não oferecem plataformas de colaboração, etc); não existem soluções institucionais para armazenar os produtos dos pesquisadores além da produção textual (caso dos repositórios nas principais universidades). Esses pontos estão evidenciados em trabalhos de gente que pesquisa profundamente a publicação científica.

Uma mudança de percepção em relação a minha posição no passado foi a noção que o comportamento dos pesquisadores era determinado pelos incentivos. Mas agora entendo que, para além do benefício pecuniário e obtenção de recursos, uma vez inseridos na cultura da publicação científica, eles não se importam. Isto é, pesquisadores/docentes não se importam em pagar pra ter artigo publicado em gold access. Se eles pesquisam um artigo e o encontram via scihub, não conseguem avaliar em que grau isso é ou não prejudicial às suas carreiras. Não fazem a menor ideia de como as bibliotecas funcionam, rúbricas de pagamento, como o portal capes adquire as assinaturas, qual o real papel das bibliotecas nas avaliações da Capes e Inep, por que o sci-hub existe, por que ainda exigem a impressão de teses nascidas digitais, qual é o argumento central do open access, etc etc. Se importam somente com suas pesquisas e departamentos. Lidar com assinaturas de periódicos, aquisições de livros, implantação de uma cultura de acesso igualitário, não é com eles, essa deveria ser uma responsabilidade da burocracia e infraestrutura. Na verdade eles veem com bastante descrédito o sistema de aquisições, seja de periódicos ou livros. Estão errados? Talvez não. Entendo que eles tem suas razões para se ater ao sistema e ir contra o movimento de ciência aberta: falta de tempo para compreender o cenário amplo, medo de competição, preocupação com privacidade, plágio, etc. Alguns professores criticam minha abordagem defendendo que são conscientes de todo esse cenário, estão fazendo sua parte e que a Capes caminha positivamente. Preferem achar distorcida a realidade em que vivo, tratando minha experiência de bibliotecário em uma BU federal como uma narrativa fora da curva, eu generalizando a publicação a tal ponto que fica difícil para eles convencer seus orientandos a importância de escrever artigos.

Quando eu me dispunha a discutir e falar sobre o tema, em qualquer instância da universidade, minha defesa era simples: periódicos não são mais relevantes para a academia (em função das possibilidades de publicação e disseminação em base web, distinta dos moldes originais da royal society); o valor das assinaturas dos periódicos é tão alto que nos limita a investir na criação de uma infraestrutura própria (coisa que o Ibict capitania no Brasil, mas passaram muitos anos desde Budapeste e o parágrafo inicial permanece. O portal Capes é ótimo, não é o problema, mas ofusca o entendimento do panorama maior. Quanto custa anualmente o portal capes inteiro? E se esse dinheiro fosse revertido em outras frentes que não assinaturas?)

Atualmente o custo estimado da publicação mundial é 10 bi dólares anuais; o valor de assinatura de um top journal é da ordem de 5k por artigo. APC (article processing charges) varia entre 100 e 5k dólares. Os movimentos recentes estão na direção em que os recursos/verba devem ser usados para a publicação em vez da leitura (e ainda idealmente os casos de rompimento da alemanha, suécia, california com elsevier, plano S e Fapesp indo green access). O desafio é participar de discussões e atuar na prática em estratégias de acesso aberto total, convencer Capes (na figura do portal) e bibliotecas (como fornecedoras das avaliações e solicitações de assinatura) que é do melhor dos interesses cancelar assinaturas; reverter essa grana para desenvolvimento de infra; desenvolver padrões e definir as funcionalidades necessárias para uma infraestrutura de publicação moderna; estratégia para estabelecer um núcleo de funcionalidades para as instituições cooperadoras/conveniadas/capes. Não é uma tarefa simples, mas imaginem de início um scihub inteiramente legal, fazendo harvesting dos repositórios das maiores universidades daqui, que seriam alimentados localmente a contento (a partir de normativas institucionais ou não). As etapas posteriores são da mudança da cultura de avaliação/punição em relação aos locais de publicação dos produtos de pesquisa (difícil demais isso aqui, como fazer os pesquisadores se desvencilhar do fator de impacto, sou pessimista).

Enfim, a proposta é, deixar de pagar assinaturas e pegar esse dinheiro e investir na implementação de uma infra. Mas por quê? Porque os editores com fins lucrativos estão cada vez se movendo da publicação somente (dentro do ciclo de vida da pesquisa) para a aquisição da infraestrutura de pesquisa. A nossa atenção somente ao paywall nos distraiu das estratégias que essas empresas estão adotando. Não existem mecanismos com força suficiente para mitigar o poder e influência dessas editoras a partir do momento que possuírem controle sobre todo o ciclo da pesquisa (pesquisa, publicação e avaliação). Não existe margem para competição e tendem a adquirir qualquer novo serviço emergente independente (como aconteceu com Mendeley e algumas ferramentas de altmetria). Trata-se da mesma linha de atuação das grandes empresas que controlam os mercados digitais: mão de obra barata ou grátis, serviço em troca da liberação de dados e privacidade, lucros altos e centralização total, não interoperáveis. Uma vez dominado o mercado é impossível não participar do modelo.

Talvez a única maneira de fazer com que os docentes/pesquisadores abandonem as editoras tradicionais (que não seja pela força de normativas) é oferecer uma infra com todas as ferramentas que vc deseja que eles usem, com tudo mastigadinho (por exemplo, o default da publicação sendo aberta e não o contrário). Justamente aqueles que não se importam ou não fazem a menor ideia, vão adotar o que for mais conveniente, rápido e grátis, para enfim poderem focar na pesquisa. Os que tem receios e tem motivos pra manter o trabalho fechado, vão pelo menos ter a chance de avaliar os benefícios. Uma vez criada a infraestrutura para os produtos de pesquisa, pensar depois em mecanismos para avaliar a qualidade da pesquisa em um cenário em que os periódicos não mais existem.