A ridícula ideia de guardar livros ao contrário

Algum tempo atrás apareceram no instagram fotos de estantes cheias de livros dispostos ao contrário (com a lombada pra dentro), seguindo uma proposta de decoração que tem a intenção de reduzir a paleta de cores e “acalmar” um ambiente.

Em primeiro momento podemos todos concordar que a ideia pode ser interessante esteticamente mas impraticável em uma biblioteca de verdade, afinal como encontrar um livro específico ali?

Todo as pessoas são livres pra organizar livros em suas coleções pessoais como bem quiserem. Então a ridícula ideia de guardar livros ao contrário pode ser defendida se ela funciona como uma tática pra saber quais livros faltam ser lidos (como o “want to read” no goodreads, livros com a lombada pra dentro são os que ainda serão lidos, livros com a lombada pra fora são os que já foram lidos) ou simplesmente uma tática para escolher uma próxima leitura aleatoriamente (como as campanhas de “encontro às cegas” que algumas bibliotecas fazem). Existem os extremos onde a apresentação de uma coleção pessoal deseja representar uma intelectualidade que na verdade não existe ou leitores que são tão afetuosos que reconhecem seus livros por tamanho e condição física. Então, fiquem à vontade.

O curioso é que guardar livros com a lombada/espinha voltada pra dentro da prateleira não é um fenômeno recente na história do livro porque nos séculos 17 e 18 os títulos de livros e os autores eram escritos em tinta na borda das páginas, e as lombadas ficavam viradas para dentro para proteger a encadernação em couro. Outra mudança que reforçou esse tipo de disposição foi que os ricos decidiram que ter as bordas das folhas adornadas em ouro daria um certo charme às suas bibliotecas (aqui uma referência sobre a biblioteca real em El Escorial).

Exprimam todo seu desprezo bibliotecário apreciando estas belas fotos (#backwardbooks):

22 livros pra ter na biblioteca em 2018

Nós bibliotecários ainda carecemos de uma boa publicação especializada sobre lançamentos editoriais e resenhas de livros, nos moldes dos reviews da Library Journal. Recentemente esse esforço tem sido preenchido pela Quatro Cinco Um e um sem número de booktubers, mas creio que em termos gerais, em especial por conta da burocracia das licitações e relacionamento com os editores, poucos bibliotecários fazem valer esse tipo de fonte como base para aquisições.

De qualquer modo, uma das maneiras mais simples e eficazes de construir uma lista de aquisições é percorrendo as indicações de melhores livros do ano oferecidas por cadernos literários, críticos e especialistas. As sugestões são muitas mas a grana é sempre curta, então pra facilitar, juntei em uma lista única as indicações provenientes de 17 listas de melhores livros de 2017 (metodologia aqui, tal qual ano passado). Possivelmente bastante coisa que foi lançada no último ano deve servir tanto para compor o acervo de literatura em diversos tipos de bibliotecas, bem como nossas bibliotecas pessoais. As sinopses foram retiradas dos sites das editoras e livreiros.

Boas leituras e bons empréstimos em 2018!

1. Manual da faxineira, Lucia Berlin (11 votos)

Lucia Berlin teve uma vida repleta de eventos e reviravoltas. Aos 32 anos, já havia vivido em diversas cidades e países, passado por três casamentos e trabalhado como professora, telefonista, faxineira e enfermeira para sustentar os quatro filhos. Lutou contra o alcoolismo por anos antes de superar o vício e tornou-se uma aclamada professora universitária em seus últimos anos de vida. Desse vasto repertório pessoal, Berlin tira inspiração para escrever os contos que a consagraram como uma mestre do gênero. Com a bravura de Raymond Carver, o humor de Grace Paley e uma mistura de inteligência e melancolia, Berlin retrata milagres da vida cotidiana, desvendando momentos de graça em lavanderias, clínicas de desintoxicação e residências de classe alta da Bay Area.

2. Anos de formação: os diários de Emilio Renzi, Ricardo Piglia (11 votos)

O primeiro de uma trilogia que celebra a leitura como uma atividade vital e existencial, estabelecendo de uma vez por todas o lugar de Piglia na literatura mundial. Estes diários (que podem ser lidos como um monumental romance de formação) são escritos por Emilio Renzi, alter ego que Ricardo Piglia elegeu em diversos livros para dar voz às suas obsessões. É a história de um artista quando jovem tentando encontrar o seu lugar no mundo, entre erros e acertos. Um livro central para o nosso tempo, escrito numa prosa altamente literária que não abdica da discussão de ideias, do prazer do texto e da imaginação mais poderosa.

3. Anjo noturno, Sérgio Sant’Anna (8 votos)

Depois dos aclamados O homem-mulher e O conto zero e outras histórias, Sérgio Sant’Anna segue surpreendendo seus leitores. Nas nove narrativas reunidas em Anjo noturno, um dos principais escritores brasileiros da atualidade explora num gênero híbrido — que abrange contos, memórias e novelas — temas a um só tempo díspares e intrincados, como morte e vida, infância e velhice, paixão carnal e amor fraternal. O conto “Talk show” narra a participação de um escritor em um programa de auditório, numa sucessão de situações embaraçosas e eletrizantes que se desenrolam tanto no palco quanto nos bastidores. Já em “Augusta”, o autor relata o encontro entre um professor universitário e uma produtora musical numa festa em Copacabana. A mesma atmosfera lasciva marca outras narrativas, como “Um conto límpido e obscuro”, em que o narrador recebe a visita inesperada de uma amiga artista plástica com quem não tem relações amorosas há cerca de dois anos. Nesse universo de tensão entre desejo e profunda solidão, a prosa de Sérgio Sant’Anna percorre com engenhosidade e maestria as memórias e os anseios do escritor.

4. O vendido, Paul Beatty (6 votos)

Nascido em Dickens, no subúrbio de Los Angeles, Eu, o narrador de O VENDIDO, passou a maior parte da juventude como cobaia para estudos raciais realizados por seu pai, um polêmico sociólogo. Quando o pai é morto em um tiroteio com a polícia e Dickens desaparece do mapa da Califórnia por motivos políticos e econômicos, Eu se junta a Hominy Jenkins, o mais famoso morador local e o último ator vivo da série “Os Batutinhas”, para tentar salvar a cidade através de um controverso experimento social: reinstaurar a segregação racial em Dickens, marginalizando brancos e negros em um plano que o levará a ser julgado pela Suprema Corte dos Estado Unidos.

5. Noite dentro da noite, Joca Reiner Terron (6 votos)

Durante uma brincadeira no colégio, um garoto bate a cabeça e entra em coma. Ele desperta sem saber ao certo quem é, e, conforme suas memórias vão se dissolvendo, tem início o que vem a ser conhecido na família como O Ano do Grande Branco. Nos meses seguintes, o garoto vive a sensação intensa de que aquelas pessoas que cuidam dele e que o alimentam não são seus pais. Todavia, os barbitúricos receitados pelo médico confundem seu raciocínio e o garoto vai aos poucos perdendo as certezas que alguém de onze anos pode ter. É a partir daí que Joca Reiners Terron vai contar essa labiríntica história. Com uma galeria que inclui espiões, guerrilheiros, caçadores e pelo menos um monstro da natureza, Noite dentro da noite percorre a história recente do Brasil, inserindo nossa realidade no mesmo caleidoscópio que faz mover este romance incomum e extraordinário.

6. Lima Barreto: triste visionário, Lilia Moritz Schwarcz (6 votos)

Durante mais de dez anos, Lilia Moritz Schwarcz mergulhou na obra de Afonso Henriques de Lima Barreto, com seu afiado olhar de antropóloga e historiadora, para realizar um perfil biográfico que abrangesse o corpo, a alma e os livros do escritor de Todos os Santos. Esta, que é a mais completa biografia de Lima Barreto desde o trabalho pioneiro de Francisco de Assis Barbosa, lançado em 1952, resulta da apaixonada intimidade de Schwarcz com o criador de Policarpo Quaresma – e de um olhar aguçado que busca compreender a trajetória do biografado a partir da questão racial, ainda pouco discutida nos trabalhos sobre sua vida. Abarcando a íntegra dos livros e publicações na imprensa, além dos diários e de outros papéis pessoais de Lima Barreto, muitos deles inéditos, a autora equilibra o rigor interpretativo demonstrado em Brasil: Uma biografia e As barbas do imperador com uma rara sensibilidade para as sutilezas que temperam as relações entre contexto biográfico e criação literária. Escritor militante, como ele mesmo se definia, Lima Barreto professou ideias políticas e sociais à frente de seu tempo, com críticas contundentes ao racismo (que sentiu na própria pele) e outras mazelas crônicas da sociedade brasileira. Generosamente ilustrado com fotografias, manuscritos e outros documentos originais, Lima Barreto: Triste visionário presta um tributo essencial a um dos maiores prosadores da língua portuguesa de todos os tempos, ainda moderno quase um século depois de seu triste fim na pobreza, na doença e no esquecimento.

7. A Noite da espera, Milton Hatoum (6 votos)

Nove anos após a publicação de Órfãos do Eldorado, Milton Hatoum retorna à forma da narrativa longa em uma série de três volumes na qual o drama familiar se entrelaça à história da ditadura militar para dar à luz um poderoso romance de formação. Nos anos 1960, Martim, um jovem paulista, muda-se para Brasília com o pai após a separação traumática deste e sua mãe. Na cidade recém-inaugurada, trava amizade com um variado grupo de adolescentes do qual fazem parte filhos de altos e médios funcionários da burocracia estatal, bem como moradores das cidades-satélites, espaço relegado aos verdadeiros pioneiros da capital federal, migrantes desfavorecidos. Às descobertas culturais e amorosas de Martim contrapõe-se a dor da separação da mãe, de quem passa longos períodos sem notícias. Na figura materna ausente concentra-se a face sombria de sua juventude, perpassada pela violência dos anos de chumbo. Neste que é sem dúvida um dos melhores retratos literários de Brasília, Hatoum transita com a habilidade que lhe é própria entre as dimensões pessoal e social do drama e faz de uma ruptura familiar o reverso de um país cindido por um golpe.

8. A cena interior, Marcel Cohen (5 votos)

Em 14 de agosto de 1943, Marcel Cohen, com cinco anos e meio, foi passear com sua babá em uma praça parisiense. Do outro lado da rua, ao retornar para casa, viu sua família, de judeus turcos emigrados, ser presa pelos nazistas. Todos eles, incluindo sua irmã recém-nascida, sua mãe, seu pai, seus tios e avós, acabariam mortos nos campos de concentração alemães. Setenta anos depois, já um escritor consagrado, Cohen publicou este livro impressionante, “feito de recordações e, em maior medida, de silêncio, de lacunas e de esquecimento”, no qual procura recuperar a história de sua família por meio dos parcos objetos e fragmentos de memória que puderam escapar ao Holocausto.

9. Laços, Domenico Starnone (4 votos)

Vanda e Aldo estão casados há mais de 50 anos, e seu casamento esteve sujeito a tensões e desgastes da rotina. Ao voltarem de uma semana de férias, eles encontram o apartamento revirado. Reorganizando seus papeis, Aldo se vê forçado a encarar lembranças dos anos em que abandonara Vanda e os filhos para viver com outra mulher. As fissuras causadas por esse trauma permanecem latentes. Com atmosfera napolitana, LAÇOS é uma narrativa honesta sobre relacionamentos, família e amor. Não há respostas fáceis – a esposa traída, a filha abandonada, o marido infiel, herois ou vilões – mas sim pessoas comuns, com seus complexos desejos e anseios.

10. Meu coração está no bolso, Frank O’Hara (4 votos)

Meu coração está no bolso reúne 25 poemas de Frank O’Hara, poeta que fez parte, nos anos 1950 e 60, da New York School of Poetry. Os versos de O’hara conduzem o leitor por um universo urbano e veloz, que dialoga com as vanguardas literárias e com outras artes, como cinema e artes plásticas. Aliás, por estar bem próximo de pintores como Jackson Pollock e Willem de Kooning, é como se o poeta tomasse emprestado deles a destreza da ‘action painting’ – técnica usada no expressionismo abstrato – para compor uma obra cheia de vida e alvoroço.

11. O martelo, Aledaide Ivánova (4 votos)

Adelaide Ivánova nasceu em 1982 na cidade de Recife. Jornalista, poeta, tradutora e fotógrafa, seu trabalho percorre o mundo em publicações impressas e digitais como i-D (UK), Colors (Itália), Te Hufngton Post (EUA), Modo de Usar & Co. (Brasil), Suplemento Pernambuco (Brasil) entre outras. “O Martelo” é seu terceiro livro de poemas. Sua edição brasileira lançada pelo Edições Garupa em 2017 traz um aparente formato padrão e surpreende o leitor com uma fina camada de tinta vermelha que cobre a capa sujando suavemente as mãos de quem o encosta. Dividido em duas partes, o livro se destaca da atual poesia brasileira ao assumir uma voz verdadeiramente feroz e não temer tratar assuntos cortantes.

12. O método Albertine, Anne Carson (4 votos)

Da primeira à última página, O método Albertine trava uma queda de braço com Em busca do tempo perdido, de Proust. O ponto óbvio entre ambos é Albertine, a personagem encarcerada pelo narrador da obra de Proust. É dividida em duas partes: na primeira, são elencadas 59 reflexões rápidas sobre a figura de Albertine na trama; na segunda parte, há apêndices com reflexões mais extensas e profundas que as da primeira parte. O livro, como um todo, emula um trabalho ensaístico.

13. O palácio da memória, Nate DiMeo

Seleção de algumas das melhores narrativas recolhidas e apresentadas por Nate DiMeo em The Memory Palace, um dos podcasts de maior sucesso dos Estados Unidos, O PALÁCIO DA MEMÓRIA reúne, pela primeira vez em livro, um conjunto absolutamente irresistível e viciante de histórias sobre pessoas comuns que enfrentaram – com coragem, paixão e inteligência – as vicissitudes, grandes e pequenas, oferecidas pela vida. Muitas não fazem parte daquela história oficial, com “h” maiúsculo: mas suas trajetórias iluminam aspectos que nos ajudam a entender a vida de todos nós graças ao encanto imorredouro da narrativa.

14. Uma História do Samba – Volume 1, Lira Neto

Depois da aclamada trilogia biográfica de Getúlio Vargas, Lira Neto se lançou ao desafio de contar a história do samba urbano. Em sua nova empreitada (de fôlego!), o escritor cearense pretende retraçar, com sua verve narrativa singular, o percurso completo desse ritmo sincopado que é um dos sinônimos da brasilidade. Em virtude da riqueza e da amplitude do material compilado, recheado de documentos inéditos e registros fotográficos, o projeto será desdobrado em três volumes – neste primeiro, Lira leva o leitor das origens do samba até o desfile inicial das escolas de samba no Rio. O samba carioca nasceu no início do século XX a partir da gradativa adaptação do samba rural do Recôncavo baiano ao ambiente urbano da então capital federal. Descendente das batidas afro-brasileiras, mas igualmente devedor da polca dançante, o gênero encontrou terreno fértil nos festejos do Carnaval de rua. Nas décadas de 1920 e 1930, com o aprimoramento do mercado fonográfico e da radiodifusão, consolidou seu duradouro sucesso popular, simbolizado pelo surgimento das primeiras estrelas do gênero e pela fundação das escolas de samba.

15. História da menina perdida, de Elena Ferrante

No quarto e último volume da série napolitana, a aclamada autora Elena Ferrante finaliza a história de vida de Lenu e Lina e de todos os personagens do bairro de Nápoles. Os personagens caminham agora da maturidade à velhice. A amizade entre Lenu e Lina, que foi a força que as fez evoluir apesar da violência do bairro, é também a responsável por toda a dor que rodeou as personagens durante toda a saga, e, continua aqui, a atingir o seu ápice. História da menina perdida é o final que o leitor esperava, com a dureza e a força que aprendemos a identificar nas personagens de Ferrante, sem rodeios.

16. Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis, Jarid Arraes

Desde 2012, a autora Jarid Arraes tem se dedicado a desvendar a história das mulheres negras que fizeram a História do Brasil. E não bastava conhecer essas histórias, era preciso torná-las acessíveis e fazer com que suas vozes fossem ouvidas. Para isso, Jarid usou a linguagem poética tipicamente brasileira da literatura de cordel. E vendeu milhares de seus cordéis pelo Brasil, alertando para a importância da multiplicidade de vozes e oferecendo exemplos de diversidade para as mulheres atuais. Neste livro, reunimos 15 dessas histórias, que ganharam uma nova versão da autora e a beleza das ilustrações de Gabriela Pires.

17. Da poesia, Hilda Hilst

A intensa e prolífica atividade literária de Hilda Hilst se desdobrou em livros de ficção e em peças de teatro, mas foi na poesia que ela deu início à sua carreira. Ao longo de 45 anos, entre 1950 e 1995, a poeta publicou em pequenas tiragens graças ao entusiasmo de editoras independentes, com destaque para Massao Ohno, seu amigo e principal divulgador. No início dos anos 2000, os títulos de Hilda começaram a ser editados pela Globo. A partir desse momento, a sua escrita – até então considerada marginal e hermética – passou a ter ampla divulgação e a receber o interesse de uma legião de leitores e estudiosos. Agora, a Companhia das Letras reúne, pela primeira vez, toda a lavra poética da autora de Bufólicas em um só livro, que inclui, além de mais de 20 títulos, uma seção de inéditos e fortuna crítica. O material contém posfácio de Victor Heringer, carta de Caio Fernando Abreu para Hilda, dois trechos de Lygia Fagundes Telles sobre a amiga e uma entrevista cedida a Vilma Arêas e a Berta Waldman, publicada no Jornal do Brasil em 1989. A poesia de Hilda – que ganha forma em cantigas, baladas, sonetos e poemas de verso livre – explora a morte, a solidão, o amor erótico, a loucura e o misticismo. Ao fundir o sagrado e o profano, a poeta se firmou como uma das vozes mais transgressoras da literatura brasileira do século XX.

18. Como se fosse a casa: uma correspondência, Ana Martins Marques e Eduardo Jorge

Durante um mês, a poeta Ana Martins Marques alugou o apartamento do amigo e também poeta Eduardo Jorge, que viajara para a França. O imóvel fica na região centro-sul de Belo Horizonte, no edifício JK, projetado por Oscar Niemeyer em 1952. Enquanto viveu ali, a inquilina trocou e-mails com o locador. As mensagens, de início, abordavam questões meramente práticas. Mas, depois, se converteram em uma troca de poemas sobre o permanecer e o partir, o morar e o exilar-se, o familiar e o estranho.

19. Breve História de Sete Assassinatos, Marlon James

Em 3 de dezembro de 1976, às vésperas das eleições na Jamaica e dois dias antes de Bob Marley realizar o show Smile Jamaica para aliviar as tensões políticas em Kingston, sete homens não identificados invadiram a casa do cantor com metralhadoras em punho. O ataque feriu Marley, a esposa e o empresário, entre várias outras pessoas. Poucas informações oficiais foram divulgadas sobre os atiradores. No entanto, muitos boatos circularam a respeito do destino deles. Breve história de sete assassinatos é uma obra de ficção que explora esse período instável na história da Jamaica.

20. Aqui, Richard McGuire

Aqui conta a história de um canto de uma casa, e o que aconteceu ali durante centenas de milhares de anos. Aguardada há quase três décadas, Trata-se da versão final de uma ideia que McGuire publicou numa revista independente nos anos 1980. Dramático, cômico e amplamente inovador, é o testemunho não apenas de um grande artista no auge de sua forma, mas também das possibilidades infinitas da linguagem dos quadrinhos. Ao extrapolar regras e inverter convenções, McGuire criou uma obra única, que não poderia ser contada de outra forma, um trabalho pioneiro que vai marcar para sempre o cenário das HQs.

21. Angola Janga: uma história de Palmares, Marcelo D´Salete

Durante onze anos, Marcelo D’Salete, autor de Encruzilhada e do sucesso internacional Cumbe, pesquisou e preparou-se para contar a história dessa rebelião que tornou-se nação, referência maior da luta contra a opressão e o racismo no Brasil. O resultado é um épico no qual o destino do país é decidido em batalhas sangrentas, mas que demonstra a delicada flexibilidade da resistência às derrotas. Um grandioso romance histórico em quadrinhos que fala de Zumbi, e de vários outros personagens complexos como Ganga Zumba, Domingos Jorge Velho, Ganga Zona e diversos homens e mulheres que compõe o retrato de um momento definidor do Brasil.

22. Antiboi, Ricardo Aleixo

Conhecido por sua atuação como “performador” e pesquisador das poéticas intermídia, Ricardo aposta na poesia expandida através da performance, com gestos, cantos e entonações. Antiboi reúne 32 poemas escritos entre 2013 e 2017, muitos publicados originalmente em redes sociais. Os textos traduzem o sentido de urgência que caracteriza o momento atual da vida brasileira.

Livros pra ter na biblioteca em 2017

Uma das maneiras mais simples de construir uma lista de aquisições é percorrer as indicações de melhores livros do ano oferecidas por cadernos literários, críticos e leitores que costumam fazer resenhas consistentes. Mas são sempre muitas sugestões e a grana é curta, então pra facilitar, juntei em uma lista única as indicações provenientes de 23 listas de melhores livros de 2016 (metodologia aqui). Bastante coisa boa foi lançada no último ano, que deve servir tanto para compor o acervo de literatura em diversos tipos de biblioteca, como para as nossas bibliotecas particulares. As sinopses foram retiradas dos sites das editoras e livreiros. Boas leituras e bons empréstimos em 2017!

1. Vozes de Tchernóbil, Svetlana Aleksiévitch (indicado em 13 listas)

Em 26 de abril de 1986, uma explosão seguida de incêndio na usina nuclear de Tchernóbil, na Ucrânia – então parte da finada União Soviética -, provocou uma catástrofe sem precedentes em toda a era nuclear: uma quantidade imensa de partículas radioativas foi lançada na atmosfera da URSS e em boa parte da Europa. Em poucos dias, a cidade de Prípiat, fundada em 1970, teve que ser evacuada. Pessoas, animais e plantas, expostos à radiação liberada pelo vazamento da usina, padeceram imediatamente ou nas semanas seguintes. Tão grave quanto o acontecimento foi a postura dos governantes e gestores soviéticos (que nem desconfiavam estar às vésperas da queda do regime, ocorrida poucos anos depois). Esquivavam-se da verdade e expunham trabalhadores, cientistas e soldados à morte durante os serviços de reparo na usina. Pessoas comuns, que mantinham a fé no grande império comunista, recebiam poucas informações, numa luta inglória, em que pás eram usadas para combater o átomo. A morte chegava em poucos dias. Com sorte, podia-se ser sepultado como um patriota em jazigos lacrados. É por meio das múltiplas vozes – de viúvas, trabalhadores afetados, cientistas ainda debilitados pela experiência, soldados, gente do povo – que Svetlana Aleksiévitch constrói esse livro arrebatador, a um só tempo, relato e testemunho de uma tragédia quase indizível. Cenas terríveis, acontecimentos dramáticos, episódios patéticos, tudo na história de Tchernóbil aparece com a força das melhores reportagens jornalísticas e a potência dos maiores romances literários. Eis uma obra-prima do nosso tempo.

2. Como se estivéssemos em palimpsesto de putas, Elvira Vigna (indicado em 10 listas)

Dois estranhos se encontram num verão escaldante no Rio de Janeiro. Ela é uma designer em busca de trabalho, ele foi contratado para informatizar uma editora moribunda. O acaso junta os protagonistas numa sala, onde dia após dia ele relata a ela seus encontros frequentes com prostitutas. Ela mais ouve do que fala, enquanto preenche na cabeça as lacunas daquela narrativa. Uma das grandes escritoras brasileiras da atualidade, Elvira Vigna parte desse esqueleto para criar um poderoso jogo literário de traições e insinuações, um livro sobre relacionamentos, poder, mentiras e imaginação.

3. Simpatia pela demônio, Bernardo Carvalho (indicado em 10 listas)

O funcionário de uma agência humanitária é designado para levar o resgate que libertará o jovem refém de um grupo extremista islâmico. Enquanto espera para travar contato com os terroristas, o personagem revê o mais tortuoso episódio de paixão de sua vida: seu caso com um estudante mexicano em Berlim. É no espaço entre a vivência do terrorismo contemporâneo e a aceitação do mundo sem regras criado por um relacionamento desigual que Simpatia pelo Demônio se equilibra com maestria, fazendo do romance um dos grandes acontecimentos literários brasileiros. Um livro profundo e cativante, em que política, humanidade e desejo compõem uma grande odisseia pessoal.

4. Um amor feliz, Wislawa Szymborska (indicado em 10 listas)

Quando, em 2011, a Companhia das Letras lançou Poemas, o primeiro volume com a lírica da poeta polonesa Wislawa Szymborska (Prêmio Nobel de literatura em 1996), começou uma verdadeira “febre Szymborska” no Brasil: ótimas vendas, esplêndidas resenhas e uma enorme repercussão garantiram um novo e amplo público para essa poesia que fala diretamente com o leitor. A obra de Szymborska equilibra-se entre o rigor e a observação dos fatos, sempre num tom levemente informal – a despeito da cuidadosa construção dos versos. Falando de amores e da vida cotidiana, a escritora ergueu uma obra que toca os leitores e influencia novas gerações. Este segundo volume promete fazer tanto barulho quanto o primeiro.

5. Tetralogia napolitana, Elena Ferrante: A amiga genial (indicado em 3 listas); História do novo sobrenome (indicado em 9 listas); História de quem foge e de quem fica (indicado em 8 listas)

Envolvente e com a costumeira cadência impecável, a narrativa de História do novo sobrenome dá espaço para reflexões profundas a respeito da subjetividade, da sexualidade, do amor e, sobretudo, do papel imposto à jovem mulher em meados do século XX ― contraponto construído entre as duas personagens centrais, às voltas com as restritas possibilidades de escolha, mas ao mesmo tempo surpreendidas pelas descobertas acerca de suas próprias capacidades e seus limites. Lila, que teve os estudos interrompidos por questões familiares – muito cedo teve que trabalhar com o pai e o irmão, se casou cedo. Lenu, por sua vez, consegue se desvencilhar do destino certo das moças da época e não se casa, mas passa a se preparar para a faculdade, levando consigo as marcas definitivas da complexa relação de amizade com Lila – admiração misturada a identificação.Os personagens vão ganhando espaço na história, não apenas nos acontecimentos cotidianos relatados por Lenu, como também nos comentários subjetivos da narradora. Lenu, sem poupar de nada o leitor, escancara cenas de casamento, de adultério, de supostas e reais traições dentro de uma amizade, mas também os pequenos momentos em que parece acertar as contas com ela mesma.

6. O tribunal da quinta-feira, Michel Laub (indicado em 9 listas)

Um publicitário faz confissões por e-mail ao melhor amigo. Os textos falam de sexo e amor, casamento e traição, usando termos e piadas ofensivas que contam a história de uma longa crise pessoal. Quando a ex-mulher do protagonista faz cópias das mensagens e as distribui, tem início o escândalo que é o centro deste romance explosivo. O fio condutor da história, que une o destino dos personagens diante de um tribunal inusitado, são os reflexos tardios e ainda hoje incômodos da epidemia da aids, e o que está em jogo são os limites do que entendemos por tolerância – mas para chegarmos a eles é preciso ir além do que seria uma literatura “correta” ao tratar de homofobia, assédio, violência, empatia, liberdade e solidariedade.

7. Todos os contos, Clarice Lispector (indicado em 9 listas)

Autora de romances e contos que figuram entre os mais emblemáticos da literatura brasileira, Clarice Lispector é considerada uma das mais importantes escritoras do século XX. Sua figura e sua obra exercem sobre leitores o mesmo e fascinante estranhamento que causaram desde sua estreia literária, em 1943. Nesta coletânea, que reúne pela primeira vez todos os contos da autora num único volume, organizado pelo biógrafo Benjamin Moser, é possível conhecer Clarice por inteiro, desde os primeiros escritos, ainda na adolescência, até as últimas linhas. Essencial para estudantes e pesquisadores, para fãs de Clarice Lispector e iniciantes na obra da escritora, Todos os contos foi lançado nos Estados Unidos em 2015, figurando na lista de livros mais importantes do ano do jornal The New York Times e ganhou importantes prêmios, como o Pen Translation Prize, de melhor tradução. Agora é a vez de os leitores brasileiros (re)descobrirem por completo esta contista prolífica e singular.

8. A guerra não tem rosto de mulher, Svetlana Aleksiévitch (indicado em 8 listas)

A história das guerras costuma ser contada sob o ponto de vista masculino: soldados e generais, algozes e libertadores. Trata-se, porém, de um equívoco e de uma injustiça. Se em muitos conflitos as mulheres ficaram na retaguarda, em outros estiveram na linha de frente.
É esse capítulo de bravura feminina que Svetlana Aleksiévitch reconstrói neste livro absolutamente apaixonante e forte. Quase um milhão de mulheres lutaram no Exército Vermelho durante a Segunda Guerra Mundial, mas a sua história nunca foi contada. Svetlana Aleksiévitch deixa que as vozes dessas mulheres ressoem de forma angustiante e arrebatadora, em memórias que evocam frio, fome, violência sexual e a sombra onipresente da morte.

9. Enclausurado, Ian McEwan (indicado em 8 listas)

O narrador deste livro é nada menos do que um feto. Enclausurado na barriga da mãe, ele escuta os planos da progenitora para, em conluio com seu amante – que é também tio do bebê -, assassinar o marido. Apesar do eco evidente nas tragédias de Shakespeare, este livro de McEwan é uma joia do humor e da narrativa fantástica. Em sua aparente simplicidade, Enclausurado é uma amostra sintética e divertida do impressionante domínio narrativo de McEwan, um dos maiores escritores da atualidade.

10. A filha perdida, Elena Ferrante (indicado em 7 listas)

Lançado originalmente em 2006 e ainda inédito no Brasil, o terceiro romance da autora que se consagrou por sua série napolitana acompanha os sentimentos conflitantes de uma professora universitária de meia-idade, Leda, que, aliviada depois de as filhas já crescidas se mudarem para o Canadá com o pai, decide tirar férias no litoral sul da Itália. Logo nos primeiros dias na praia, ela volta toda a sua atenção para uma ruidosa família de napolitanos, em especial para Nina, a jovem mãe de uma menininha chamada Elena que sempre está acompanhada de sua boneca. Cercada pelos parentes autoritários e imersa nos cuidados com a filha, Nina parece perfeitamente à vontade no papel de mãe e faz Leda se lembrar de si mesma quando jovem e cheia de expectativas. A aproximação das duas, no entanto, desencadeia em Leda uma enxurrada de lembranças da própria vida – e de segredos que ela nunca conseguiu revelar a ninguém.No estilo inconfundível que a tornou conhecida no mundo todo, Elena Ferrante parte de elementos simples para construir uma narrativa poderosa sobre a maternidade e as consequências que a família pode ter na vida de diferentes gerações de mulheres.

11. O marechal de costas, José Luiz Passos (indicado em 6 listas)

Operando no limite entre fato e ficção, O marechal de costas traça um retrato sem paralelos da história do país. Por trás de um olhar imóvel e de um silêncio desconcertante, o marechal Floriano definiu o período mais turbulento da nossa República. Mas o marechal de ferro oculta o sonhador casado com a própria irmã e obcecado por Napoleão Bonaparte. Nascido em Alagoas, Floriano é a figura de maior importância política nos primeiros anos da República. Nas páginas deste romance, passado e presente se intercalam de forma espantosa. Acompanhamos não só um Floriano Peixoto humano e o nascimento da República, como os acontecimentos turbulentos do presente, por meio de uma antiga cozinheira que segue, de perto, as manifestações de 2013 e seus desdobramentos políticos. Um livro poderoso sobre a construção de nossa nação.

12. Linha M, Patti Smith (indicado em 5 listas)

Depois do cultuado Só garotos, a lendária cantora e escritora Patti Smith volta à sua odisseia pessoal neste Linha M, que ela chama de “um mapa para minha vida”. O livro começa no Greenwich Village, o bairro que tanto marcou sua história. Todos os dias a artista vai ao mesmo café e, munida de seu caderno de anotações, registra suas impressões sobre o passado e o presente, a arte e a vida, o amor e a perda. É desse café que ela nos conduz ao México, onde visita a Casa Azul de Frida Kahlo em Coyoacán; a uma conferência dos membros do Instituto Alfred Wegener em Bremen, na Alemanha; e ao bangalô em Rockaway Beach que ela compra pouco tempo antes de o furacão Sandy atingir o país. Patti Smith, uma leitora voraz, nos conduz também pelo labirinto de suas paixões literárias. Conhecemos, de um ponto de vista privilegiado, sua opinião sobre escritores como Murakami, Jean Genet, Sylvia Plath e Rimbaud. As ideias de Smith abrem uma janela para sua arte e seu processo de criação, que são revelados com candura sinceridade tocantes. Em meio a essas leituras, ela costura também as próprias memórias, desde a vida em Michigan até a dor irremediável pela perda do marido, Fred Sonic Smith, num depoimento ao mesmo tempo emocionante e honesto sobre o amor. Num tom que transita entre a desolação e a esperança – e amplamente ilustrado com suas icônicas polaroides -, Linha M é uma reflexão sobre viagens, séries de detetives, literatura e café. Um livro poderoso e comovente de uma das mais multifacetadas artistas em atividade.

13. Mulheres, raça e classe, Angela Davis (indicado em 5 listas)

Mais importante obra de Angela Davis, “Mulheres, raça e classe” traça um poderoso panorama histórico e crítico das imbricações entre a luta anticapitalista, a luta feminista, a luta antirracista e a luta antiescravagista, passando pelos dilemas contemporâneos da mulher. O livro é considerado um clássico sobre a interseccionalidade de gênero, raça e classe.A perspectiva adotada por Davis realça o mérito do livro: desloca olhares viciados sobre o tema em tela e atribui centralidade ao papel das mulheres negras na luta contra as explorações que se perpetuam no presente, reelaborando-se. O reexame operado pela escrita dessa ativista mundialmente conhecida é indispensável para a compreensão da realidade do nosso país, pois reforça a práxis do feminismo negro brasileiro, segundo o qual a inobservância do lugar das mulheres negras nas ideias e projetos que pensaram e pensam o Brasil vem adiando diagnósticos mais precisos sobre desigualdade, discriminação, pobreza, entre outras variáveis. Grande parte da nossa tradição teórica e política (Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda, para ficarmos em poucos exemplos) insiste em confinar as questões aqui tratadas por Davis na esfera privada, como se apenas desta proviesse sua solução.

14. Uma vida pequena, Hanya Yanagihara (indicado em 5 listas)

Quando quatro amigos de uma pequena faculdade de Massachusetts se mudam para Nova York em busca de uma vida melhor, eles se veem falidos, sem rumo e amparados apenas por sua amizade e por suas ambições. Willem, lindo e generoso, é aspirante a ator; JB, nascido no Brooklyn, é um pintor perspicaz e às vezes cruel que busca de todas as formas ingressar no mundo das artes; Malcolm é um arquiteto frustrado que trabalha numa empresa de renome; e o solitário, brilhante e enigmático Jude funciona como o centro gravitacional do grupo. Com o tempo, o relacionamento deles se aprofunda e se anuvia, matizado pelo vício, pelo sucesso e pelo orgulho. No entanto, seu maior desafio, como cada um passa a perceber, é o próprio Jude, um litigante extremamente talentoso na meia-idade, porém, ao mesmo tempo, um homem cada vez mais atormentado, a mente e o corpo marcados pelas cicatrizes de uma infância misteriosa, e assombrado pelo que teme ser um trauma tão intenso que não só não será capaz de superar — mas que vai definir sua vida para sempre. Com uma prosa magnífica e genial, Hanya Yanagihara criou um hino trágico e transcendental do amor fraterno, uma representação magistral da dor física e psicológica, e uma análise da verdade nua e crua que permeia a tirania da memória e os limites da resistência humana.

15. Dias de abandono, Elena Ferrante (indicado em 5 listas)

No livro, a escritora escondida pelo misterioso pseudônimo utiliza suas palavras cortantes e sua clareza brutal para percorrer o turbilhão emocional vivido por Olga após um casamento fracassado. Traída e se sentindo abandonada pelo marido, a personagem enfrenta conflitos internos em meio à nuvem cinzenta da desolação e da nova e inquietante realidade que se apresenta.Moradores de um apartamento em Turim, para onde Olga se mudou por conta da carreira profissional do marido, com dois filhos e um cachorro, Mario e Olga viveram ma relação de 15 anos com os altos e baixos de um casamento normal. Sem abalos que evidenciassem um término repentino, Olga ouve o discurso de seu marido anunciando que ele a deixaria naquele momento. As páginas seguintes vão desnudando cenas críticas do passado do casal, repassadas até a exaustão pela protagonista e misturadas à urgência do seu cotidiano completamente destruído.

16. 41 inícios falsos, Janet Malcolm (indicado em 4 listas)

O trabalho da jornalista norte-americana Janet Malcolm já foi descrito como uma mistura de reportagem, biografia, crítica literária e psicanálise, com pitadas do romance realista do século XIX. Nesta coletânea, essa junção única – marca registrada de uma das maiores escritoras de não ficção de nossos tempos – pode ser verificada a cada página. O volume reúne ensaios publicados ao longo de várias décadas, sobretudo na New Yorker, berço do jornalismo literário, e na New York Review of Books, bíblia da intelectualidade nova-iorquina. São textos que refletem o interesse da autora por pintores, fotógrafos, escritores, críticos, e pelas particularidades do ofício criativo. Malcolm explora a obsessão dos integrantes de Bloomsbury – o célebre grupo a que pertenceram Virginia Woolf e Lytton Strachey – com a construção do efeito “literário”; as apaixonadas colaborações por trás dos nus retratados pelo fotógrafo Edward Weston; ou a “banalidade” que tanto incomodava J. D. Salinger. Sob seu olhar, o pintor Julian Schnabel tem o ar modestamente satisfeito de um empreendedor bem-sucedido. O fotógrafo alemão Thomas Struth, flagrado ao citar Proust sem tê-lo lido, percebe que sua declaração será presa inevitável do oportunismo jornalístico. No perfil que dá título ao livro, o artista David Salle ganha 41 versões para sua trajetória declinante. A cada ensaio, como diz o crítico Ian Frazier na introdução, Malcolm demonstra que a não ficção – um livro-reportagem, um artigo em uma revista, o que lemos todos os dias – pode ser alçada à literatura de mais alto nível. Não à toa, Janet Malcolm vem estimulando gerações de jornalistas e escritores a romper com as convenções dos textos não ficcionais. Seu trabalho caminha no sentido contrário às crenças estabelecidas sobre as artes e a escrita, com olhar arguto para o detalhe inesperado e a disposição constante para surpreender o leitor.

17. O Fim da História, Lydia Davis (indicado em 4 listas)

Ao tentar reconstituir as lembranças de um romance fracassado, a protagonista de O fim da história se confunde, inventa, conta e reconta episódios que não temos certeza se de fato aconteceram. Ao mesmo tempo que tenta escrever um livro sobre a trajetória do casal, ela se embrenha nos recantos da memória, que escolhe caminhos tortuosos para dar sentido a eventos conduzidos pelo amor e pelo fim dele. Lydia Davis é crítica literária, tradutora e escritora, a americana Lydia Davis nasceu em Northampton (Massachussetts) em 1947. Vencedora do Man Booker International 2013, seu nome tem sido associado à radical renovação da narrativa breve, com históricas que entre ficção, ensaio e poesia. Aclamada também pelas traduções de autores franceses como Foucault, Flaubert e Proust, a autora venceu o French-American Foundation Translation Prize de 2003 por sua tradução de No caminho de Swann. Davis publicou seis livros de contos e um romance, The end of history (2004). Seu mais recente título Tipos de perturbação (2013) foi indicado ao National Book Award.

18. O homem sem doença, Arnon Grunberg (indicado em 4 listas)

O romance narra as desventuras tragicômicas no Oriente Médio de Samarendra Ambani, jovem e idealista arquiteto suíço. Sam, como é conhecido pelos amigos, mora em Zurique com a mãe e uma irmã deficiente da qual ele mesmo cuida, e trabalha num pequeno estúdio de arquitetura montado com um sócio. Ao participar de um concurso para a construção de um teatro de ópera em Bagdá, lançado por uma obscura organização internacional chefiada pelo misterioso Hamid Shakir Mahmoud, é selecionado e, posteriormente, convidado para ir ao Iraque. A viagem, iniciada em clima de ingênuo otimismo, rapidamente se transforma em uma experiência traumatizante: no país devastado pela violência, Sam vivenciará a brutalidade da guerra na própria pele: enganado, absurdamente acusado por alguns policiais – que também poderiam ser integrantes de uma milícia – de ser espião, é preso, interrogado e torturado, conseguindo retornar para Zurique graças apenas à inesperada intervenção da Cruz Vermelha. Uma vez em Zurique, Sam tenta retomar a normalidade, mas, ferido no corpo e na mente, não consegue e, pouco tempo depois, viaja para Dubai, a fim de acompanhar o projeto de construção de uma grandiosa biblioteca. No emirado, nosso herói é novamente acusado de espionagem e até de assassinato, acusações que o levarão a um trágico e surreal epílogo.Uma história trágica contada com irresistível ironia, O homem sem doença é um impiedoso ato de acusação contra o idealismo e a hipocrisia do Ocidente, que logra, ao mesmo tempo, divertir e chocar o leitor. Em outras palavras, é um típico romance de Arnon Grunberg.

19. O reino, Emmanuel Carrère (indicado em 4 listas)

Obra-prima de um dos maiores escritores franceses da atualidade, este romance reconta os primórdios do cristianismo e investiga as vidas de São Paulo e São Lucas. O Reino mergulha — e busca reconstituir — as origens do cristianismo, no final do primeiro século depois de Cristo. Carrère descreve como dois homens, Paulo e Lucas, transformaram uma pequena seita judaica, centrada em seu pregador, crucificado durante o reinado de Tibério e que acreditavam ser o messias, em uma religião que em três séculos transformou a fé no Império Romano e a seguir conquistou o mundo.
Quem narra — e se coloca na história como investigador e personagem — é o próprio Emmanuel Carrère. Partindo de uma narrativa sobre sua juventude, quando se tornou um católico fervoroso, até suas dúvidas e sua renúncia à religião, Carrère mescla presente e passado numa história turbulenta, e procura descobrir as figuras humanas por trás desses dois personagens tão marcantes da história mundial: São Paulo e São Lucas. Está é a obra-prima de Emmanuel Carrère, com mais de 300.000 exemplares vendidos na França.

20. Prosas apátridas, Julio Ramón Ribeyro (indicado em 4 listas)

Nascido em 1929,o peruano Julio Ramón Ribeyro notabilizou-se como mestre do conto e do relato inclassificável, discorrendo com agudo senso de observação e ironia sobre a vida cotidiana, os personagens citadinos e suas próprias obsessões, entre elas o cigarro. Estas Prosas apátridas reúnem fragmentos que oscilam entre anotações em um diário, aforismos e o ensaio filosófico, passeando por temas como literatura, infância e velhice, amor e sexo, memória e esquecimento, com sensibilidade, elegância e amargura ímpares. Mais um ícone da literatura latino-americana a chegar às prateleiras brasileiras pela coleção Otra Língua, organizada por Joca Reiners Terron.

21. Uma história natural da curiosidade, Alberto Manguel (indicado em 4 listas)

Em Uma história natural da Curiosidade, Alberto Manguel mapeia os textos e autores que o inspiraram ao longo de sua vida como leitor. Não se trata, porém, de um leitor qualquer. Manguel vivia rodeado por 30 mil livros em sua casa na França e atualmente dirige a Biblioteca Nacional da Argentina, cargo antes ocupado por Jorge Luís Borges. O livro se estrutura em torno de dezessete questões de respostas nada óbvias. “O que é língua? ” e “Quem sou eu?” são temas que estão na origem das histórias que o autor mobiliza neste livro. Manguel seleciona uma galeria de curiosos notáveis, como Tomás de Aquino, David Hume, Lewis Carroll, Sócrates e, sobretudo, Dante, para nos guiar em meio a tais questões.

22. Atlas de Nuvens, David Mitchell (indicado em 3 listas)

Neste que é um dos romances mais importantes da atualidade, David Mitchell combina o gosto pela aventura, o amor pelo quebra-cabeça nabokoviano e o talento para a especulação filosófica e científica na linha de Umberto Eco, Haruki Murakami e Philip K. Dick. Conduzindo o leitor por seis histórias que se conectam no tempo e no espaço – do século XIX no Pacífico ao futuro pós-apocalíptico e tribal no Havaí -, Mitchell criou um jogo de bonecas russas que explora com maestria questões fundamentais de realidade e identidade.

23. Butcher’s Crossing, John Williams (indicado em 3 listas)

Na década de 1870, Will Andrews, um jovem de 23 anos, desiste de Harvard e resolve sair da casa paterna, abandonando o opulento estilo de vida da classe média bostoniana. Viaja, então, para o West, em busca de uma forma mais autêntica de viver, e vai parar em Butcher’s Crossing, um pequeno povoado solitário perdido na vastidão da pradaria do Kansas e habitado por uma pequena comunidade de negociantes de peles e rudes caçadores de búfalos. Alguns dias depois, ele faz amizade com um caçador e, junto com outros três homens, monta uma expedição de caça a búfalos nas Rochosas do Colorado. Marcada por desafios extremos – sede, frio, calor, exaustão – e por um isolamento quase total, essa caçada vai durar vários meses e se tornar uma aventura muito árdua na natureza selvagem, tocando os limites da sobrevivência. Para Will Andrews, debilitado pela fadiga e absorto na contemplação da linda paisagem, a aventura representará uma experiência existencial com caraterísticas quase oníricas e um verdadeiro ritual de passagem.

24. Detetive à Deriva, Luís Henrique Pellanda (indicado em 3 listas)

Nas crônicas de Detetive à deriva, as belas estranhezas do dia a dia – como uma família de urubus nas alturas de um prédio, um par de botas abandonado, um solitário bebê chinês na calçada e um enigmático rastro de pétalas – estabelecem a relação entre o flâneur e o investigador, entre os observadores da poesia cotidiana e os autores policiais. Fugindo da tendência atual de transformar o espaço da crônica na imprensa em tribuna de opinião, Luís Henrique Pellanda, grande renovador e um dos principais autores contemporâneos do gênero, inspira-se nas ruas e nas janelas de sua Curitiba. Em pistas que só o cronista vê, o mistério das coisas pequenas se revela ao leitor com a leveza e o encanto de uma história bem contada.

25. Diários parte II, Susan Sontag (indicado em 3 listas)

“Quem inventou o casamento era um torturador astuto. É uma instituição destinada a embotar os sentimentos.” Reflexões agudas como essa, entre a amargura e a ironia, fazem parte da matéria-prima destes Diários, espécie de buraco da fechadura privilegiado por onde se enxerga a intimidade mental e existencial dos anos de juventude de uma das intelectuais mais influentes da América do pós-guerra. Selecionados por seu filho David Rieff depois de sua morte, os trechos ora publicados exibem um foco temático irrequieto que se desloca num caleidoscópio de assuntos da esfera pessoal e cultural. A par do seu vasto itinerário de leituras e experiências de fruição artística, presenciamos aqui, em registro confessional, a descoberta adolescente da sexualidade, as vivências como caloura precoce na Universidade da Califórnia, onde ingressou aos dezesseis anos, o breve casamento aos dezoito com seu professor Philip Rieff e as duas grandes relações amorosas mantidas com mulheres na sua fase de jovem adulta. Os Diários nos transportam, enfim, para o denso e rico mundo mental de uma jovem Susan Sontag em plena batalha diária para se tornar Susan Sontag.

26. Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança, Joaquim Ferreira dos Santos (indicado em 3 listas)

Por quase trinta anos, entre 1969 e 1997, a sociedade brasileira foi desnudada pela escrita espirituosa do jornalista Zózimo Barrozo do Amaral em sua coluna diária no Jornal do Brasil e depois em O Globo. Muito além dos registros sociais, ele oferecia um noticiário que flertava com a economia, a política e o esporte (sua paixão), em um estilo elegante e sem qualquer cerimônia. Fez muitos amigos, ganhou uns poucos desafetos e chegou a ser preso duas vezes durante o regime militar. Joaquim Ferreira dos Santos reconstitui toda a trajetória do colunista, desde sua infância, no bairro carioca do Jardim Botânico, passando por seu começo de carreira quase acidental no jornalismo, até conquistar uma coluna assinada no Jornal do Brasil, aos vinte e sete anos. Ao seguir a trilha aberta por pioneiros como Álvaro Americano, Jacinto de Thormes e Ibrahim Sued, ele fez escola. Enquanto se tornava a mais respeitada grife do colunismo no país, Zózimo registrava nas páginas dos jornais as imensas mudanças ocorridas na elite carioca. As festas saíram dos salões dos grã-finos e instalaram-se em casas noturnas como o Regine’s e o Hippopotamus. A animação movida pelo champã ganhou aditivos como a cocaína.Ao mesmo tempo que retratava o agito social, Zózimo enfrentava os próprios demônios. Viveu amores, momentos de turbulência familiar e sérias questões de saúde. Mas até o final foi um homem apaixonado pela vida, como ele gostava de dizer: “Enquanto houver champanhe, há esperança.”

27. Homo Deus, Yuval Noah Harari (indicado em 3 listas)

Neste Homo Deus: uma breve história do amanhã, Yuval Noah Harari, autor do estrondoso best-seller Sapiens: uma breve história da humanidade, volta a combinar ciência, história e filosofia, desta vez para entender quem somos e descobrir para onde vamos. Sempre com um olhar no passado e nas nossas origens, Harari investiga o futuro da humanidade em busca de uma resposta tão difícil quanto essencial: depois de séculos de guerras, fome e pobreza, qual será nosso destino na Terra? A partir de uma visão absolutamente original de nossa história, ele combina pesquisas de ponta e os mais recentes avanços científicos à sua conhecida capacidade de observar o passado de uma maneira inteiramente nova. Assim, descobrir os próximos passos da evolução humana será também redescobrir quem fomos e quais caminhos tomamos para chegar até aqui.

28. Machado – Silviano Santiago (indicado em 3 listas)

Rio de Janeiro, começo do século XX. Viúvo e solitário, Machado de Assis sofre fortes dores e crises nervosas enquanto testemunha a modernização da antiga cidade do Rio de Janeiro. Em Mário de Alencar, filho de José de Alencar, o presidente da Academia Brasileira de Letras encontrará um precioso interlocutor, que também sofre terríveis crises nervosas e o encaminhará ao dr. Miguel Couto. Qual é a relação entre as convulsões de Machado e sua genial criação? Depois de narrar passagens inauditas das vidas de Graciliano Ramos e Antonin Artaud, Silviano Santiago oferece uma perspectiva totalmente original e audaciosa dos últimos anos de vida de um dos maiores romancistas de todos os tempos.

29. Nunca o Nome do Menino – Estevão Azevedo (indicado em 3 listas)

Em Nunca o nome do menino, a personagem principal, uma mulher, nos relata os dias de sua vida que se seguiram ao momento em que ela descobre que é personagem de uma ficção que não aprecia e cujo autor despreza. Em seu labirinto literário, dois tempos distantes de sua vida nos são narrados, duas linhas que se estendem da primeira à última página como serpentes ávidas por devorar o próprio rabo e criar uma narrativa de vertigem, repleta de espelhamentos, ciclos e sentimentos. Ela nos conta os fatos de sua vida passada – sua infância, o amor de um menino, o convívio com o próprio corpo em transformação, a relação com os pais – que a conduziriam a tal descoberta. O que fazer diante de tão angustiante possibilidade? À personagem deste livro resta amputar o dedo mínimo da mão esquerda, imaginando com isso arrancar pelo menos algumas letras das palavras que a descrevem. Ao leitor, cabe percorrer as páginas de lirismo e delicadeza do primeiro romance de Estevão Azevedo e aceitar o desafio de pensar que sua própria vida pode também ser uma ficção.

30. O Inferno dos Outros – David Grossman (indicado em 3 listas)

Em cima de um palco decadente de uma pequena cidade israelense, Dovale apresenta um show de stand up para alguns gatos pingados e um amigo de infância, seu convidado especial da noite. Enquanto faz piadas mais ou menos sagazes, no limite do politicamente correto e do bom gosto, passeando por temas tão amplos quanto o conflito Israel-Palestina e os palavrões proferidos por um papagaio, o comediante provoca o riso da plateia, mas também o desconforto. A tensão aumenta conforme Dovale expõe seus dramas pessoais mais profundos, e o humor se esvai dando lugar a uma melancolia comum a todos nós. Um romance corajoso e atual, breve mas avassalador, de um dos maiores ficcionistas contemporâneos.

31. Os sertões – Euclides da Cunha (indicado em 3 listas)

Os sertões – marco fundamental nos estudos sobre a formação brasileira, ao lado de Casa-grande e senzala e Raízes do Brasil – foi escrito a partir de um trabalho jornalístico sobre a rebelião de Canudos, liderada por Antonio Conselheiro e duramente reprimida pelo governo. Baseada em teorias deterministas em voga na época, a obra aborda cientificamente a influência do meio sobre o homem, como mostra a própria estrutura dos capítulos: “A terra”, “O homem”, “A luta”. Parte da riqueza do livro reside no fato de ele retratar a mudança de opinião do escritor que, movido por um espírito patriótico e republicano, via com maus olhos a revolta dos “fanáticos” defensores da monarquia, alinhando-se ao restante da elite letrada, que considerava a insurgência uma ameaça ao desenvolvimento brasileiro. Enviado para o interior da Bahia pelo jornal O Estado de S. Paulo, Euclides se defrontou com a realidade de famílias reunidas em torno de um líder messiânico, cujo movimento – crítico especialmente da precariedade da região – estava na iminência de ser massacrado. A experiência foi transformadora e teve como fruto um romance social que se tornou uma das maiores obras da literatura brasileira.Dificilmente classificável devido à mescla de jornalismo, literatura e estudo sociológico, o livro adianta temas-chave do modernismo e tem como um de seus legados a incorporação do ponto de vista local – nesse caso, do Brasil profundo –, por meio de uma linguagem grandiosa e repleta de contrastes. “O sertanejo é, antes de tudo, um forte” impôs um novo modo de se pensar o brasileiro, e tornou-se referência histórica incontornável para as discussões sobre identidade nacional. Além do texto estabelecido pela edição crítica de Walnice Nogueira Galvão, o volume conta com uma extensa fortuna crítica, reprodução de páginas das cadernetas de campo de Euclides da Cunha e um conjunto de imagens de Flávio de Barros, único registro fotográfico conhecido do conflito.

32. Poemas completos – Herberto Helder (indicado em 3 listas)

Poemas Completos é o novo título para o livro que passa a reunir a poesia de Herberto Helder. Esta obra segue a fixação empregue na edição anterior, Ofício Cantante, e inclui já os esgotados «Servidões» – considerado por grande parte da crítica especializada como o livro do ano em 2013 – e A Morte sem Mestre. Herberto Helder – é a última e mais completa antologia poética organizada pelo autor em 2014, um ano antes da sua morte. Unanimemente considerado o maior poeta português do século XX, ao lado de Pessoa, Herberto Helder escreveu intensamente até ao fim de sua vida, construindo aquilo a que chamava um “poema contínuo”. “Poemas Completos” reúne grande parte de sua obra poética, refeita e editada conforme era hábito do autor, um ano antes da sua morte. Publicada em Portugal em 2014, essa antologia obrigatória fica agora também acessível aos leitores brasileiros, a partir de 2016. Para além de Poemas Completos, a Editora Tinta da China Brasil publicou também Os Passos em Volta (2016). Já Photomaton & Vox, O Bebedor Nocturno e Poemas Canhotos serão os próximos títulos.

33. Quem matou Roland Barthes? – Laurent Binet (indicado em 3 listas)

Após vencer o Prêmio Goncourt com seu primeiro romance, HHhH, Laurent Binet volta a transitar pela fronteira entre ficção e realidade numa engenhosa e bem-humorada mescla de thriller histórico e farsa filosófica. A premissa é simples: e se o atropelamento que matou o crítico e semiólogo francês Roland Barthes não tivesse sido um acidente, mas sim um crime? E se o autor de Fragmentos de um discurso amoroso tivesse sido vítima de uma conspiração por estar de posse de um manuscrito contendo a sétima função da linguagem, última parte da teoria do linguista Roman Jakobson nunca revelada, capaz de convencer qualquer um de qualquer coisa? Nos meios intelectuais e políticos da Paris de então, em que transitam personagens como Foucault, Derrida, Deleuze, Althusser e Guattari, qualquer um pode ser o culpado…

34. Reza de mãe – Allan da Rosa (indicado em 3 listas)

“Reza de Mãe”, livro de contos de Allan da Rosa, é uma promissora estreia, em mais de uma acepção da palavra. Além de ser a primeira reunião impressa da produção do autor em contos, inaugura também uma abordagem linguística e literária que contempla a dura vivência na periferia sob o prisma afro-brasileiro, dos movimentos negros que germinam nas franjas da metrópole, que já estabeleceram uma produção cultural de inédito colorido poético.Como todo escritor que faz jus ao ofício, o projeto artístico de Allan é ambicioso. Não se trata apenas de dar voz ao excruciante cotidiano daqueles que vivem à margem do sistema. Ele o faz através de uma revolução estética que perpassa vários níveis, desde um trabalho de fixação de sonoros vocábulos e nomes de origem africana (malunga, requenguela, Mutalambô e outros) até uma sintaxe original na fatura das narrativas, que possuem grande poder de encantamento graças tanto ao lirismo pungente do destino dos personagens quanto ao entrelaçamento de algumas estórias. “Reza de Mãe” representa uma nova e benfazeja vertente da literatura brasileira contemporânea que não pode mais ser ignorada.

35. Rita Lee, Uma Autobiografia (indicado em 3 listas)

“Do primeiro disco voador ao último porre, Rita é consistente. Corajosa. Sem culpa nenhuma. Tanto que, ao ler o livro, várias vezes temos a sensação de estar diante de uma bio não autorizada, tamanha a honestidade nas histórias. A infância e os primeiros passos na vida artística; sua prisão em 1976; o encontro de almas com Roberto de Carvalho; o nascimento dos filhos, das músicas e dos discos clássicos; os tropeços e as glórias. Está tudo lá. E você pode ter certeza: essa é a obra mais pessoal que ela poderia entregar de presente para nós. Rita cuidou de tudo. Escreveu, escolheu as fotos e criou as legendas – e até decidiu a ordem das imagens -, fez a capa, pensou na contracapa, nas orelhas… Entregou o livro assim: prontinho. Sua essência está nessas páginas. E é exatamente desse modo que a Globo Livros coloca a autobiografia da nossa estrela maior no mercado.” Guilherme Samora é jornalista e estudioso do legado cultural de Rita Lee.

18 dicas de livros para bibliotecárias – presente de natal

Bibliotecária(o)s gostam de ganhar livros e adoram ler livros sobre bibliotecas e a profissão. Se quiser presentear um bibliotecário neste natal, sem errar, basta escolher um dos títulos abaixo:

1. O futuro da biblioteconomia – Moreno Barros, Dora Steimer, Marina Macambyra, Fabiano Caruso e Gustavo Henn

2. Empreendedorismo na Biblioteconomia – Daniela Spudeit (org)

3. Altmetria para bibliotecários: Guia prático de métricas alternativas para avaliação da produção científica – Andréa Gonçalves do Nascimento

4. De bibliotecas e biblioteconomias: percursos – Briquet de Lemos

5. Tópicos em Biblioteconomia e Ciência Da Informação: Epistemologia, Política e Educação – Jonathas Carvalho

6. Expect More: melhores bibliotecas para um mundo complexo – David Lankes

7. Caderno Especial Direitos Autorais – Revista Biblioo

8. Criação da Faculdade de Biblioteconomia da UnB 1962-1967 – Maria Alice Guimarães Borges

9. A Biblioteca do Mediterrâneo – Gabriela Bazan Pedrão

10. Medieval: contos de uma era fantástica – Ana Lúcia Merege (org)

11. A Biblioteca Invisível – Genevieve Cogman

12. A Livraria dos Finais Felizes – Katarina Bivald

13. O Livro Secreto – Grégory Samak

14. Farmácia Literária – Ella Berthoud e Susan Elderkin

15. Cartas Extraordinárias – Shaun Usher

16. A Livraria Mágica de Paris – Nina George

17. Leo e seus amigos, os livrinhos – Soraia Magalhães

18. A Informação – James Gleick

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15 dicas de livros para dar de presente a uma bibliotecária
Presente de natal para bibliotecárias – 30 dicas de livros

Como funciona o mercado editorial no Brasil

peço perdão ao Rodrigo por reproduzir aqui na íntegra o conteúdo que foi publicado na newsletter do Grifo Negro. Mas era muito bom pra deixar passar e certamente vai ajudar a desmistificar muito aos bibliotecários, que são grandes compradores de livros no Brasil.

PRODUZIR UM LIVRO SAI MAIS CARO DO QUE PENSAMOS – Vários elementos compõem os custos de um livro: adiantamento e outros acordos de direitos autorais (quando aplicável, de 5% a 10%); tradução (quando aplicável); revisão de prova; revisões (que podem chegar a três); diagramação; capa; impressão; unidades para divulgação (blogs, revistas, jornais); margem de desconto na “venda” para as livrarias; impostos; provisão para inadimplência. Os custos gráficos variam conforme o miolo, a capa, o formato/as dimensões. Uma porcentagem significativa do preço de venda fica com as livrarias, físicas ou digitais. Como regra, as editoras dão para as livrarias um desconto de 50% sobre o valor de capa proposto. Por exemplo, se o preço de capa sugerido for de R$ 39,90, a livraria pagará aproximadamente R$ 20,00. Isso dá margem para promoções, como estamos acostumados a ver. Excepcionalmente, pode existir desconto maior na primeira leva de livros da editora para a livraria, ou outros acordos especiais.

POR QUE AS VERSÕES DIGITAIS SÃO CARAS – Como regra, os contratos estipulam um limite para o valor do ebook de 50% do preço de capa da edição física. Desse modo, como os livros, no Brasil, costumam ter um preço de capa de R$ 29,90 e de R$ 39,90, a versão digital fica com preços maiores do que os praticados, por exemplo, nos EUA.

AS LIVRARIAS SÓ COMPRAM OS LIVROS DEPOIS DA VENDA PARA O CONSUMIDOR – Ao contrário do que acontece em outros países, as livrarias brasileiras não compram os livros das editoras antes de venderem. Existem dois sistemas por meio dos quais distribuem os livros: consignação e venda com direito de devolução. A diferença está no momento em que o dinheiro entra no caixa da editora: na consignação, só entra quando há o acerto de contas, isto é, quando a livraria fatura os livros efetivamente vendidos (ou perdidos) e devolve o restante, se houver; na venda com direito de devolução, o dinheiro entra “imediatamente” no caixa da editora, mas, passado um tempo, a livraria tem o direito de devolver os livros não vendidos e reclamar o dinheiro (proporcional) de volta. O dinheiro não entra imediatamente no caixa das editoras em nenhuma das hipóteses: há prazos entre o faturamento da compra dos livros e a efetiva transferência da quantia. O prazo pode variar de 60 a 120 dias, conforme as negociações entre as partes, e o acerto de contas pode acontecer, às vezes, apenas uma vez por ano. Os pagamentos ainda podem ser feitos por outras formas, como por meio de bonificações em futuras compras. Por exemplo, a livraria devolve um número de livros e fica com um crédito de quatro mil reais que são abatidos da próxima aquisição de livros da mesma editora. Assim, as editoras têm de bancar todos os gastos desde a decisão pela publicação de uma determinada obra até o real recebimento de qualquer repasse das vendas pelas livrarias.

AS EDITORAS NÃO ODEIAM OS LEITORES – As editoras dependem dos consumidores, isto é, dos leitores. Mas a viabilidade de uma obra leva em conta a projeção de recepção pelo mercado em relação aos custos projetados. Em outras palavras, se o livro não se pagar e gerar lucro razoável, ele não será publicado ou republicado. O custo unitário é menor quanto maior for a tiragem. Em contrapartida, o risco é maior, já que o custo total é maior. Se as vendas não atingirem o mínimo, a editora absorve um prejuízo proporcional. O raciocínio se aplica a séries de livros: se o primeiro ou o segundo volume não se bancarem, provavelmente os demais não serão publicados.

POR QUE AS EDITORAS NÃO VENDEM OS LIVROS DIRETAMENTE – Se as editoras vendessem os livros diretamente, por loja ou site próprios, os preços poderiam ser menores e os lucros, maiores. Não existe nenhuma lei que proíba o comércio direto. Porém, haveria uma saia justa com as livrarias, que provavelmente deixariam de distribuir os livros dessa editora, pois não teriam como igualar os preços. O mercado editorial tem um equilíbrio complicado no atual modelo.

QUANTO OS AUTORES RECEBEM DE ROYALTIES – Geralmente as editoras pagam um adiantamento de direitos autorais para o autor contratado. Esse valor corresponde a um valor mínimo assegurado ao autor, ou seja, o autor não deve nem precisa reembolsar o adiantamento caso as vendas não atinjam o valor correspondente. Os royalties correspondem a um percentual do valor de venda, entre 5% e 10%. Se e quando as vendas de livros ultrapassam o valor do adiantamento, o autor começa a receber, no período estipulado no contrato, a sua porcentagem.

NENHUMA EDITORA COBRA PARA PUBLICAR UM AUTOR – Editora (ou editor) é a pessoa física ou jurídica (“empresa”) “à qual se atribui o direito exclusivo de reprodução da obra e o dever de divulgá-la, nos limites previstos no contrato de edição”, nos termos da Lei de Direitos Autorais. Se uma empresa cobra do autor para publicar, não é uma editora, mas uma gráfica ou, no máximo, uma prestadora de serviços. Não basta que se autodenomine “editora.” Em resumo, uma editora é um negócio cujo lucro vem da venda dos livros.

O que eu não aprendi na escola de biblioteconomia

Mesmo com periódicos ajustes e atualizações, dificilmente um curso universitário consegue acompanhar as evoluções do mercado. Isso vale para todas as áreas. Algumas lacunas na preparação tradicional de 4 anos podem ser preenchidas com cursos paralelos e formação continuada. Todos concordamos com isso, mas fico sempre pensando comigo mesmo, como seria uma grade/matriz curricular para o curso de biblioteconomia mais adequada para o mundo atual?

Pensando nisso eu joguei a seguinte pergunta no facebook: o que você não aprendeu na escola de biblio que gostaria de ter aprendido e o que você aprendeu na experiência profissional que não te ensinaram na escola de biblio?

Minha síntese é que a formação do bibliotecário poderia ser melhorada nas seguintes frentes: administração e tecnologia. Normalmente essas disciplinas são oferecidas dentro da matriz como superficiais comparadas às disciplinas de processos técnicos voltadas à gestão de acervos. São ministradas por professores dos cursos de origem, que em geral não tem qualquer conhecimento sobre a operação de bibliotecas (mal os de biblio tem). Lembro de reuniões de departamentos que essas disciplinas eram um fardo, tanto para os professores dos outros cursos como os professores de biblio.

Não acredito que a ABECIN não tenha conhecimento desse tipo de descompasso, que em princípio, não seria algo difícil de ser solucionado. A sugestão inicial seria reduzir algumas disciplinas excessivamente técnicas (quem precisa de três semestres de CDD?) e oferecer mais disciplinas de TI e ADM, com foco especial em bibliotecas. Mas não fazer apenas mudança de nomenclatura de disciplinas com o mesmo corpo docente de sempre, isso não.

Um leque de disciplinas poderia ser oferecido por especialistas que não necessariamente fazem parte do corpo docente, ou então disciplinas a distância ministradas por pessoas reconhecidamente competentes naqueles temas, e já que, afinal, a rede de universidades é praticamente uma só, não seria tão absurdo propor uma equivalência de créditos entre as universidades federais e estaduais.

Um estudo relevante poderia ser feito com os principais contratantes de bibliotecários ao redor do país, públicos e privados, e solicitar que eles indiquem o tipo de profissional que desejam. Ou então elencar descrições de vagas de trabalho que não são direcionadas à bibliotecários, mas que poderiam ser preenchidas por nós. E a partir disso redesenhar a matriz pra atender as demandas.

Claro que vão dizer que alguns cursos já fazem isso e reformularam suas grades, e que a universidade não tem como ensinar tudo, e que o aluno/profissional é responsável por sua formação também, e que a universidade não tá pra formar só mão de obra, e etc. Mas convenhamos né, muito da formação está completamente fora da realidade e a biblioteconomia mudou muitos nos últimos 20 anos. Não dá pra ficar sempre correndo atrás de atualização por fora ao mesmo tempo em que perdemos tempo dentro de sala de aula.

Algumas das respostas estão compiladas abaixo, principais temas que merecem ser ensinados mais e melhor:

ADMINISTRAÇÃO

– gestão de projetos, planejamento estratégico, plano de metas, concorrência a editais

– gestão de orçamentos, como gerir recibos, NFs, Lei 8.666/93 e impostos (processos de aquisição e assinaturas)

– marketing e comunicação da biblioteca (promocional, redes sociais)

– arquitetura de biblioteca, segurança de acervos, insalubridade

TECNOLOGIA

– avaliação de sistemas de automação (quesitos técnicos, customização)

– desenvolvimento de softwares (open source, apps, mobile)

– informação digital (competência digital, social media, mineração de dados)

GESTÃO DE PESSOAS

– atendimento e venda (comportamento informacional)

– relacionamento interpessoal, gestão de conflitos, psicologia

– colaboração, mentoring e coaching

PROCESSOS TÉCNICOS e outros

– mediação de leitura

– acessibilidade

– lei de acesso à informação

– idiomas

UNIVERSIDADE

– distância entre teoria e prática (foco na pesquisa em detrimento do ensino e extensão)

– parcerias com as bibliotecas setoriais (estágios e extensão)

– intercâmbio de matrizes, oferta de disciplinas de outras universidades, créditos a distância

10 coisas que aprendi depois de 40 congressos

Acabei de dar uma olhada na programação do SNBU, que vai acontecer na próxima semana, em Manaus. Gostaria muito de ir, mas por motivo de força maior não irei. De qualquer forma, estive presente em várias outras conferências e congresssos nos últimos anos. Fossem elas em nível local, estadual, nacional, internacional, especializada, estudantil, não importa, eu estive lá. Até conseguei montar um “kit de sobrevivência para congressos”, que inclui as roupas certas para cada evento e cidade, os materiais de divulgação ou de apresentação (caso eu fosse dar uma palestra ou curso) e o controle da programação dos grandes congressos, que normalmente colocam apresentações interessantes acontecendo simultaneamente ou em intervalos de tempo muito curtos (o que exige um planejamento para maximizar a grade de horários).

Por mais que a gente às vezes fique irritado com a profissão, no fundo no fundo sempre que participei de um evento da área foi pra ver se eu conseguia recapturar a emoção e crença nas bibliotecas que me fez permanecer na profissão depois desses anos todos. Foi por essa mesma razão que eu resolvi organizar o primeiro bibliocamp, uma conferência para me fazer acreditar de novo, naquilo que eu realizo todos os dias e no que eu dediquei minha vida a concretizar profissionalmente. Spoiler alert: deu certo.

então…o que eu aprendi depois de ter participado de tantos SNBUs, CBBDs, ENEBDs, colóquios, encontros, palestras, etc?

Lição 1: Uma paixão sincera pelo trabalho permeia tudo que os bibliotecários fazem

As principais apresentações e conversas nos eventos levam a esse ponto. Os colegam falam sobre seus projetos bem sucedidos (ou não), discutem entre si o que estão fazendo naquele momento, os esforços em grande parte centrados em seus usuários, com um entusiasmo geralmente reservado a shows do Wesley Safadão. A gente passa horas ou dias rodeados por pessoas sorridentes e orgulhosas sobre o trabalho que elas fazem diariamente. Soraia foi a primeira a dizer que a biblioteconomia é uma profissão de apaixonados. Quem sou eu pra discordar?

Lição 2: Os bibliotecários formam um grupo forte

Mesmo que o número de participantes oscile entre um evento e outro, não deixa de ser surpreendente pensar que todas aquelas pessoas que estão ali, andando pelos corredores, pegando seus brindes nos stands, sentadas assistindo uma palestra, é uma pessoa que trabalha ou trabalhou com bibliotecas. Há tantos de nós e todos nós estamos, em nosso próprio caminho, trabalhando pra caramba para tornar nossas bibliotecas melhores e mais relevantes pros nossos usuários. Falamos muito sobre nosso sentimento marginalizado, como nossas instituições não ligam pra gente, ou como não somos reconhecidos como classe profissional. Pode não parecer na primeira impressão, mas existem muitos de nós, muitos mesmo. Com os esforços de grupos como a ABRAINFO e dos próprios CRBs e associações, podemos continuar a melhorar nossos números, a nossa paixão e nossa ética, para realizar uma mudança positiva em níveis locais e nacional.

Lição 3: Pessoas incríveis fazem coisas incríveis todos os dias e não recebem prêmios por isso

Para cada mil pessoas que trabalham em bibliotecas fazendo coisas inovadoras, oferecendo soluções criativas, além de todo o resto, talvez uma só receba algum tipo de reconhecimento. Prêmios são bons, mas eles não representam todos, nem necessariamente o melhor, dentre todos os bibliotecários que estão dando seu sangue nas bibliotecas. Por favor, lembre-se de dizer obrigado para as pessoas com quem trabalha. Diga obrigado também às pessoas aleatórias em outros lugares que você vê fazendo coisas boas. Não existem certificados suficientes, troféus, medalhas para reconhecer o bom e necessário trabalho por tudo o que fazemos.

Lição 4: O trabalho dos bibliotecários é muitas vezes difícil devido a fatores fora do nosso controle

Nenhum trabalho em biblioteca, orçamento, chefe, estrutura política institucional, estrutura, população, apoio ou prédio vai ser perfeito para todos. Há muita coisa que tem o potencial de causar enormes quantidades de estresse. A realidade é que esses elementos são parte do trabalho, parte do serviço público. Há trabalhos que se encaixam melhor ou pior com uma pessoa e comunidades que se encaixam melhor ou pior com um bibliotecário. É nosso trabalho descobrir onde podemos encaixar para que possamos continuar fazendo um bom trabalho.

Lição 5: O trabalho dos bibliotecários é muitas vezes difícil devido a fatores completamente fora do nosso controle

Há algumas coisas que podemos controlar. Podemos optar por não trabalhar horas insanas e dar o nosso sangue de graça. Podemos cuidar de nós mesmos simplesmente aproveitando nossos intervalos (*suspiro*) e dar uma caminhada fora da biblioteca durante o almoço. Podemos dar prioridade ao desenvolvimento profissional. Podemos optar por não permitir que os pequenos dramas (e vamos ser honestos, eles são pequenos dramas) no local de trabalho tornem-se crises completas que nos levam ladeira a baixo. Podemos optar por gastar o nosso tempo e energia com os membros da equipe que trabalham como nós e que compartilham conosco os objetivos e a ética, e que são agradáveis de estar ao redor, minimizando assim o impacto e a influência das poucas maçãs podres que podem existir em qualquer organização.

Lição 6: Dinheiro, tipo de biblioteca e tipo de posição afetam significativamente a realidade de um bibliotecário

Um bom número de comentários que ouvi, tanto em sessões formais e conversas informais, refletia um viés pessoal e experiência limitada do palestrante. Nem todo mundo tem um smartphone. Talvez na sua comunidade, mas não na minha. Nem toda biblioteca pode ter um espaço “makerspace”. Nem todo bibliotecário pode pagar um hotel de luxo. Nem todos os usuários da biblioteca podem ler. Nem todo usuário da biblioteca se sente seguro na biblioteca. Nem todo bibliotecário tem suporte para publicar ou buscar o desenvolvimento profissional. Não toda escola possui um bibliotecário. Lembre-se que sua própria situação é apenas isso: a sua própria. Ouça as histórias dos outros e amplie sua compreensão do grande fluxo de nosso trabalho, bibliotecas e comunidades que servimos.

Lição 7: Existe um grupo de bibliotecários mais jovens que estão deixando os mais antigos orgulhosos

Percebi um tempo atrás que eu não faço mais parte da geração dos mais novos. Eu já sou bibliotecário por mais de 10 anos e trabalho em bibliotecas há mais de 15. Muitos novos bibliotecários, e, definitivamente, não apenas os bibliotecários, mas pessoas que trabalham diretamente com bibliotecas, estão fazendo coisas ótimas. A energia, inovação e perspectiva que eles trazem para os seus postos de trabalho me traz esperança de que nossas bibliotecas têm um futuro decente.

Lição 8: Questões de justiça social importam muito para os bibliotecários

Tenho visto exemplos lindos de pessoas que se juntam para aprender, mostrar solidariedade para com, e promover várias questões de justiça social. A localização de algumas conferências nas principais capitais, por exemplo, ampliou muito a consciência sobre a violência urbana, da população de rua, racismo e questões LGBT. A desigualdade social, o racismo, o sexismo, a disparidade de renda, intolerância e ódio de todas as formas não são tolerados nas bibliotecas ou pelas bibliotecas. As resoluções dos conselhoes e associações, que apelam para bibliotecas mais inclusivas, é um bom exemplo deste trabalho. Precisamos nos comprometer a fazer mais em nossas próprias bibliotecas e carreiras daqui para frente para defender estes valores essenciais. É muito fácil ter medo de tomar uma posição política e colocar a sua organização ou seu emprego em risco, em detrimento dos interesses da comunidade. É muito mais fácil ter medo e seguir as políticas e procedimentos e seguir a linha da sua instituição, esquecendo quem você é e qual é a sua ética profissional. Sou grato aos meus colegas por me lembrar a todos nós deste importante elemento do nosso trabalho.

Lição 9: As nossas histórias são mais importantes do que as nossas estatísticas

Você pode contar os seus livros, o número de visitantes, os seguidores no facebook. Ou você pode contar histórias, pode causar um impacto em outras vidas, e compartilhar essas histórias com as pessoas que tomam decisões orçamentais e políticas sobre a sua biblioteca. Tudo o que eu ouvi nas principais conferências tinha mais ênfase na segunda ação do que na primeira.

Lição 10: Ajudar as pessoas ainda me traz mais alegria do que qualquer outra coisa

Este último ponto pode parecer óbvio, mas não é. Os momentos nos congressos que me fizeram sorrir, que me energizaram e me animaram, todos tinham a ver com alguém ajudando alguém ou eu ajudando outra pessoa. Eu fico completamente entusiasmado pela profissão ao ver um impacto positivo a partir do intercâmbio de conhecimentos, uma mão amiga, uma dica simples ou uma experiência compartilhada.

Portanto, todos vocês vão ter que me aturar por mais um tempinho. Esta coisa de “ser bibliotecário” parece estar incorporada profundamente no meu ser para me levar a continuar a trilhar este caminho. Eu prometo fazer o meu melhor e sei que vocês vão prometer fazer os seus. Obrigado a todos por serem da minha tribo.

[artigo original Who We Are: Lessons from ALA Annual Conference 2016]