Estatísticas do catálogo a partir dos registros MARC

Em muitas situações, é necessário conseguir fazer estatísticas do catálogo, ou mesmo, é desejável fazer um levantamento para entender melhor a sua coleção. Este post vai mostrar uma estratégia para que se possa conseguir estatísticas de maneira bem simples.

1º Passo: Conseguir os registros MARC

Conseguir uma cópia do seu catálogo em formato MARC. A maioria dos bons sistemas hoje exporta em formato MARC. Mesmo sistemas que não exportem em MARC podem ser usados neste caso, mas terá que entender como o sistema exporta e como conseguir extrair dados.

2º Passo: Baixar e instalar o MarcEdit

O MarcEdit é um editor de registros MARC bem eficiente, pode ser baixado em: http://marcedit.reeset.net/

3º Passo: Extrair dados

O MarcEdit tem uma ferramenta para transformar registros em CSV. O caminho para acessar é Tools > Export > Export Tab Delimited Records

Aqui acredito que explicar a lógica é mais importante do que dar uma receita pronta. Os passos para exportação são: escolher o arquivo MARC de origem, escolher o nome e caminho do arquivo de destino, escolher quais campos serão exportados e como serão exportados.
Para escolher quais estatísticas podem ser feitas no catálogo, primeiramente temos que pensar o que pode se agrupado. Se pensarmos por exemplo no campo título, não é possível fazer nenhum tipo de estatística usando ele, mas ele por ser útil para criar um gráfico de rede, por exemplo. Há também campos repetitivos, que você escolhe o separador e o MarcEdit coloca todos os campos em uma só coluna. Mas aqui como vamos ficar só nas estatísticas mais simples, vamos pensar em campos que pode ter valores repetidos, por exemplo, o ano de publicação. O campo normalmente do ano de publicação é o 260c. O resultado dessa exportação é um arquivo de texto como:

260c
1985
1987
2000
2013
2012
1985
1987

É bem simples lidar com esse tipo de dado, encarando cada um dos registros como uma linha. Mas precisamos tomar um cuidado aqui. Ao utilizar os campos abaixo de 900, estaremos fazendo estatísticas dos registros. Caso precise fazer estatísticas dos exemplares, terá que escolher os campos em que os exemplares são registrados, normalmente algum 9XX ou para ter uma maior precisão, deverá conseguir filtrar os registros que não tenham exemplares.

Também é possível combinar dados, tornando seu gráfico mais complexo. É possível, por exemplo, combinar o ano de publicação com o idioma da publicação (no exemplo, imaginamos que o valor está no campo 041a, apesar de saber que este não é o campo mais indicado para este valor), ficaria algo assim (é recomendável escolher o tab como separador):

260c -> 041a
1987 -> por
1985 -> por
2014 -> eng

4º passo: Tratar os dados

Este é um passo opcional, mas te permitirá verificar a qualidade dos dados de seu catálogo, além de deixar o gráfico mais correto. Em muitos casos, poderá haver problemas como erros de digitação, capitalização ou outras questões que podem influenciar o gráfico que você precisa gerar, para identificar rapidamente erros, recomendamos o software OpenRefine ( http://openrefine.org/ )
Por exemplo, caso queria fazer um gráfico por editora, temos os dados:

260b

EDUSP
EDUSP – USP
EDUSP/USP
Edusp

O OpenRefine ajuda a identificar dados semelhantes e permite correção em grandes lotes. Facilita muito a vida.

5º passo: Sumarizar e criar gráficos

Há duas ótimas ferramentas para sumarizar e criar gráficos. A primeira é o Excel, utilizando as tabelas dinâmicas. E recomendo uma segunda, mais fácil, chamada Tableau Public. Ele tem uma limitação na versão gratuita de somente salvar online e de maneira publica seu dado, mas é uma ferramenta bastante completa. Nos dois casos, é possível fazer diversos tipos de gráficos e combinar tipos de dados e fazer gráficos mais complexos.

Caso tenha alguma dúvida, pode entrar em contato comigo que ajudo na medida do possível: trmurakami EM gmail.com

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Altmetrics: redes sociais como métricas alternativas para medir o impacto científico

Todos nós bibliotecários conhecemos os métodos bibliométricos que servem para avaliar a qualidade das revistas científicas e o desempenho dos pesquisadores e professores. Com a crescente do chamado “big data” e de políticas cada vez mais restritivas que associam publicações e citações à cargos e salários nas universidades, surgiu nos últimos anos uma corrida por métodos mais sofisticados e abertos capazes de medir a reputação dos acadêmicos.

Altmetrics, ou métricas alternativas, podem ajudar nesse processo, fornecendo análise da produção acadêmica praticamente em tempo real. Com as altmetrics é possível medir a influência do produto de pesquisa a medida que o impacto ocorre, ao passo que as citações tradicionais levam algum tempo para acumular até estabelecer o real valor de um determinado artigo ou autor. Altmetrics não são métricas de citação, é verdade, mas podem complementar e reforçar a presença e reputação de um pesquisador acadêmico. Nesse sentido, elas podem ajudar os pesquisadores, financiadores e administradores a compreender e otimizar os diferentes tipos de impacto científico que melhor se adaptam às suas metas específicas.

O conceito mais importante das altmetrics é a ideia de “tipos de impacto”, uma maneira de entender os distintos padrões na disseminação de produtos acadêmicos. Além da contagem de citações, padrão único da excelência acadêmica, altmetrics medem compartilhamentos em redes sociais, posts de blogs, apresentações de slides, vídeos, conjuntos de dados e outras formas de comunicação científica, condizentes com o ambiente atual de comunicação sustentado pela internet. Estas métricas alternativas podem quantificar um tipo diferente de envolvimento do leitor com a literatura científica: se um leitor salva um artigo para a sua biblioteca pessoal online (delicious, pocket, delicious, kindle app, etc) ou/e, em seguida, compartilha o link do artigo no facebook e twitter, ou escreve um post de blog sobre o assunto, isso pode indicar que este artigo é mais atraente do que aquele que foi simplesmente baixado para o computador, em caráter pessoal e individual. Além disso, em muitos periódicos online e bases de dados científicas os comentários são agora permitidos, e sem dúvida, estes tipos de interações agregam algum valor ao artigo original.

Há muitas maneiras de classificar altmetrics, aqui está um quadro bastante completo criado pela Plum Analytics que indica as métricas atualmente passíveis de serem aplicadas. Em suma, podemos pensar em um classificação altmetrics desse tipo:

Uso – downloads, visualizações, empréstimo de livros e periódicos, empréstimo entre bibliotecas
Captura – favoritos, salvar, gestores de referência online (Mendeley, Zoreto, EndNote)
Menções – blogs, notícias, artigos da Wikipédia, comentários, opiniões
Redes sociais – tweets, curtidas, compartilhamentos, avaliações (Twitter, Facebook, LinkedIn, Academia.edu)
Softwares – utilização e distribuição de dados (GitHub, FigShare)

Existem hoje várias ferramentas (públicas e privadas) que permitem coletar o amplo impacto da pesquisa científica. As principais são Altmetric, ImpactStory e PlumX. Vocês podem testar e avaliar. Mas a melhor maneira de entender o processo é ver as altmetrics em funcionamento. Aqui estão dois exemplos, um da revista Nature (imagem abaixo. Reparem no quadro de atenção online e o número de menções, e o quadro de menções em blogs e no twitter) e outro da PLOS One.

altmetrics

Muitos trabalhos sobre altmetrics foram publicados ao longo dos últimos 2 anos, mas o panorama sobre o tema ainda não é perfeitamente claro ou consensual. As primeiras pesquisas sobre altmetrics têm concentrado principalmente em verificar se algumas dessas métricas (1) são tipos distintos de indicadores que mostram diferentes tipos de impacto, geralmente usando métodos estatísticos, e (2) se correlacionam com citações futuras. Não cabe aqui discutir, por enquanto, os prós e contras das altmetrics. Mas está aí para quem quiser ver um crescente corpo de pesquisa sobre altmetrics. Vale mencionar:

Altmetrics, Altmétricas, Altmetrias: novas perspectivas na visibilidade e no impacto das pesquisas científicas, de Sibele Fausto

Altmetria: métricas de produção científica para além das citações, de Fabio Gouveia

Introdução à altmetria: métricas alternativas da comunicação científica, de Iara Vidal e Carlos Marcondes

Uso de indicadores altmetrics na avaliação de periódicos científicos brasileiros em ciência da informação, de Andrea Gonçalves e Nanci Oddone

Cientometria 2.0, visibilidade e citação: uma incursão altmétrica em artigos de periódicos da ciência da informação, de Ronaldo Araujo

O QUE OS BIBLIOTECÁRIOS TEM A VER COM ISSO?

Com as altmetrics surgindo em toda parte (como nos artigos da PLoS ONE e Elsevier), os bibliotecários podem auxiliar professores e pesquisadores, contextualizando altmetrics dentro do cenário das métricas de citação tradicionais e mostrando como começar a utiliza-las.

Assim como todas as tendências e novidades, os bibliotecários não podem ignorar as altmetrics, ainda mais considerando que elas estão transformando-se em componentes adicionais dos produtos que nós compramos e ferramentas que recomendamos. Os bibliotecários precisam avaliar o potencial das altmetrics para apoiar adequadamente os pesquisadores, especialmente a geração mais jovem.

Os pesquisadores estão percebendo os botões altmetrics, emblemas e pontuação incorporados em artigos e perguntando o que são, se devem prestar atenção a eles, e como usá-los. Há uma oportunidade aqui aos bibliotecários para fornecer orientação e competências aos usuários.

Os bibliotecários que trabalham em ambientes de pesquisa terão de manter-se atualizados com as altmetrics para avaliar o impacto da literatura necessária para a sua coleção, e para direcionar os pesquisadores até as revistas de alto impacto para publicação. A mudança em direção à publicação de acesso aberto também tornará as altmetrics uma ferramenta valiosa para os bibliotecários na avaliação do impacto e da qualidade dessas publicações.

Em determinado momento, os bibliotecários responsáveis por repositórios e catálogos das bibliotecas universitárias terão de avaliar se é conveniente incluir dispositivos altmetrics a fim de incentivar os depositantes a enviar mais material e fornecer insights para o desenvolvimento de coleções. A Ex Libris, que fornece o softwares de biblioteca Aleph e Primo, adicionou um plugin Altmetric que qualquer cliente pode baixar e instalá-lo no catálogo, em que seus usuários serão capazes de ver o ranking e pontuação de todos os artigos correspondentes no sistema, através de uma nova aba “métricas” na página de detalhes do item.

Além disso, alguns bibliotecários estão envolvidos diretamente com departamentos de pesquisa, fornecendo suporte na concessão e obtenção de subvenções e fomento, acompanhando com a administração central a medição de desempenho e avaliação da qualidade das diversas atividades realizadas na universidade. Bibliotecários podem aconselhar sobre a compra de produtos e ferramentas que utilizam altmetrics e sobre a forma de apresentar a pesquisa realizada nas instituições em que trabalham usando altmetrics.

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O livro das árvores de Manuel Lima: visualizando ramos do conhecimento

O livro das árvores é o livro mais bonito em que coloquei minhas mãozinhas nos últimos anos e não bastasse a beleza visual para enfeitar a mesa da sala, é muito bem pesquisado e serve de referência para qualquer pessoa interessada em visualizações do conhecimento.

O livro é uma curadoria do português Manuel Lima e apresenta a história de visualizações hierárquicas, descrevendo a importância das árvores como metáforas para a vida e o conhecimento (“árvore do conhecimento” e “ramos” da ciência).

Para os bibliotecários e profissionais das correlatas, o maior impacto dessas árvores se dá no reino da taxonomia, como representações visuais de conceitos abstratos religiosos, científicos, artísticos e tudo mais.

Traz uma linha do tempo com mais de 800 anos de história dos diagramas de árvores, a partir de suas raízes nos manuscritos iluminados dos mosteiros medievais até o ressurgimento atual como meio de visualização de dados. Não é um livro sobre visualização de dados, não entra em detalhes sobre as técnicas atuais, e o autor argumenta que os diagramas de árvores possuem uma história muito mais longa de representações visuais do que apenas a visualização da informação.

É lindão. E o livro está disponível na Livraria Cultura e no Amazon e tem algumas páginas disponíveis para consulta no link abaixo.

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Leituras fundamentais para um bibliotecário

Edson Nery da Fonseca foi o segundo que veio a falecer dentre aqueles que considero como os fundamentais da crítica BBBB (bibliografia básica bibliotecária brasileira). Antes dele, Rubens Borba de Moraes. Isso significa que o legado está aí e permanecerá, mas todos os demais grandes autores brasileiros da área estão vivos e produtivos.

Como a biblioteconomia nacional é relativamente jovem, não produz em larga escala e as opiniões dificilmente mudam, é fácil identificar os grandes textos que constituem o núcleo duro da área, e seria perfeitamente possível para um bibliotecário aplicado ler essa produção ao longo de seu período formativo.

Quando ministrei a disciplina introdução à biblioteconomia (em algumas escolas chamada fundamentos da biblioteconomia) um dos objetivos era fazer com que os alunos, a maior parte deles sem saber ainda o que estavam fazendo no curso, reconhecessem os discursos prevalecentes da área e identificar essas correntes por intermédio de seus locutores, os grandes autores vivos.

Esse mapeamento da bibliografia fundamental bibliotecária já foi feito aqui anteriormente pelo Tiago, em duas ocasiões, Livros que influenciaram a biblioteconomia e Livros importantes para um bibiotecário.

Listei então os livros e textos que, para mim, constituem a bibliografia básica ou introdutória da biblioteconomia brasileira (incluído alguns poucos autores estrangeiros que foram bem traduzidos ao português). A maior parte dos livros está esgotada em suas tiragens, encontráveis apenas em bibliotecas e sebos. Algumas obras monumentais certamente ficaram de fora por descuido ou desconhecimento meu. Segue:

LIVROS FUNDAMENTAIS DA BIBLIOTECONOMIA BRASILEIRA

ALMEIDA JÚNIOR, Oswaldo. Sociedade e Biblioteconomia. São Paulo: Polis, 1997.
BUTLER, Pierce. Introdução à ciência da Biblioteconomia. Rio de Janeiro: Lidador, 1971.
CASTRO, Augusto Cesar. História da biblioteconomia brasileira: perspectiva histórica. Brasília: Thesaurus, 2000.
CYSNE, Fátima Portela. Biblioteconomia: dimensão social e educativa. Fortaleza: EUFC, 1993.
FONSECA, Edson Nery da. A biblioteconomia brasileira no contexto mundial. Rio de Janeiro : Tempo Brasileiro , 1979
FONSECA, Edson Nery da. Introdução à Biblioteconomia. Brasília: Briquet de Lemos, 2007.
LE COADIC, Yves-François. A Ciência da Informação. Brasília: Briquet de Lemos/Livros, 2004.
MCGARRY, Kevin. O contexto dinâmico da informação: uma análise introdutória. Brasília: Briquet de lemos, 1999.
MILANESI, Luis. Biblioteca. São Paulo : Ateliê, 2002.
MILANESI, Luis. O que é biblioteca. São Paulo : Brasiliense, 1984. [Coleção Primeiros Passos]
MORAES, Rubens Borba de. O problema das bibliotecas brasileiras
ORTEGA Y GASSET, J. Missão do bibliotecário. Brasília: Briquet de Lemos, 2005.
RANGANATHAN, Shiyali Ramamrita. As cinco leis da Biblioteconomia. Brasília: Briquet de Lemos, 2009.
SILVA, Waldeck Carneiro da. A miséria da biblioteca escolar. São Paulo : Cortez, 2003.
SOUZA, Francisco das Chagas. Biblioteconomia, educação e sociedade. Florianópolis UFSC, 1993. 104 p.

TEXTOS FUNDAMENTAIS DA BIBLIOTECONOMIA BRASILEIRA

+ Biblioquê?

BARBARA, Vanessa. Leitor de livraria
FONSECA, Edson Nery. Tudo o que no mundo existe começa e acaba em livro
GARRIDO, Isadora. Por que escolhi biblioteconomia?
LEMOS, Briquet de. Cinquenta anos de sonhos e esperanças
MEY, Eliane Serrão Alves. A biblioteconomia envergonhada
SOUZA, Francisco das Chagas de. A escola de biblioteconomia e a ancoragem da profissão de bibliotecário
CUNHA, Murilo Bastos da. O bibliotecário brasileiro na atualidade

+ Práxis bibliotecária

CASTRO, César. Profissional da informação: perfil e atitudes desejadas
FONSECA, Edson Nery. Receita de bibliotecário
GARRIDO, Isadora. Tipos de Bibliotecários – O que faz um bibliotecário?
JAMBEIRO, Othon. A informação e suas profissões: a sobrevivência ao alcance de todos
MILANESI, Luis. A formação do informador
MEY, Eliane. O que fazem os bibliotecários?
ROBREDO, Jaime. Documentação de hoje e de amanhã (Livro)
TARGINO, Maria das Graças. Praxis bibliotecária

+ Epistemologia da biblioteconomia

ANDRADE, METCHKO, SOLLA. Algumas considerações acerca da situação epistemológica da Biblioteconomia
ARAÚJO, Eliany Alvarenga. A subjetividade enclausurada: o discurso científico na Biblioteconomia
VIEIRA, Anna de Soledade. Repensando a biblioteconomia

+ Elementos histórico-sociais das bibliotecas e da biblioteconomia

SERRAI, Alfredo. História da biblioteca como evolução de uma idéia e de um sistema
BURKE, Peter. Problemas causados por Gutenberg: a explosão da informação nos primórdios da Europa moderna
LIVRO: BATTLE, Mathew. A conturbada história das bibliotecas.
LIVRO: BAÉZ, Fernando. História universal da destruição dos livros

+ Legislação e Instituições biblioteconômicas

DIAS, Eduardo Ense. Ensino e pesquisa em ciência da informação
JOB, Ivone. Marcos históricos e legais do desenvolvimento da profissão de bibliotecário no Brasil
MUELLER, Suzana. O ensino de biblioteconomia no Brasil
SANTOS, Jussara. A Estrutura da Carreira em Biblioteconomia: contribuição à Classificação Brasileira de Ocupações
SILVA, Jonathas Carvalho. Perspectivas históricas da biblioteca escolar no Brasil e análise da lei 12.244/10
SOUZA, Victor Roberto Corrêa de. O acesso à informação na legislação brasileira
SPUDEIT, Daniela. Sindicatos de bibliotecários: história e atuação

+ Bibliotecas públicas

LEMOS, Briquet de. A biblioteca pública em face da demanda social brasileira
MIRANDA, Antonio. A missão da biblioteca pública no Brasil
PINHEIRO, Ricardo Queiróz. Biblioteca Pública: teimosia ou prioridade?
SOUZA, Francisco das Chagas de. Biblioteca serve para que? Bibliotecário faz o que?

+ As 5 Leis de Ranganathan

CAMPOS, Maria Luiza de Almeida. As cinco leis da biblioteconomia e o exercício profissional
CARUSO, Fabino. Reescrevendo as Leis de Ranganathan
FIGUEIREDO, Nice Menezes de. A modernidade das cinco leis de Ranganathan
TARGINO, Maria das Graças. Ranganathan continua em cena

+ Relações biblio x bibliografia x documentação x ci

DIAS, Eduardo Wense. Biblioteconomia e ciência da informação:natureza e relações
FONSECA, Edson Nery da. Ciência da Informação e prática bibliotecária
LOUREIRO, JANNUZZI. Profissional da informação: um conceito em construção
ORTEGA, Cristina. Relações históricas entre Biblioteconomia, Documentação e Ciência da Informação
SAMBAQUY, Lydia. Da Biblioteconomia à lnformática
ZAHER, Celia, GOMES, Hagar Espanha. Da Bibliografia à Ciência da Informação: um histórico e uma posição

Estante de livros

Onde está Biblioteconomia?

Estava eu na livraria Cultura do centro do Rio de Janeiro procurando livros da área de Biblioteconomia perto da área de História, onde se encontravam desde a inauguração da loja.

Fui, voltei e não consegui localizá-los…

Quando desisti, perguntei ao funcionário da loja sobre a localização dos livros de Biblioteconomia, que disse: “Está ali embaixo, perto da  História.”.

Indo lá conferir, não achamos Biblioteconomia. Daí, ele perguntou ao colega que disse estar lá em cima, perto da Administração.

Será esse um reflexo das mudanças em nosso cenário profissional e no imaginário social ou apenas não havia espaço nas estantes perto da História?

Fundamentalmente, estávamos bem mais próximos da História do que da Administração, como pode ser observado nos quadros abaixo, que trazem as disciplinas das grades curriculares dos primeiros anos dos cursos de Biblioteconomia no Brasil:imagem2

Biblioteca Nacional
1915 (1 ano) 1931 (2 anos)
•Bibliografia;•Paleografia; •Diplomática; •Numismática •História Literária com aplicação à Bibliografia;•Iconografia e Cartografia;• Bibliografia;• Paleografia;• Diplomática.

 

Mackenzie Departamentode Cultura deSão Paulo
1929 – 1931 1936 – 1937
•Catalogação; •Classificação; •Referência. •Catalogação; •Classificação; •Referência.

 

Fonte: O profissional da informação: formação, perfil e atuação profissional, organizado pela Martha Valentim, disponível na Biblioteca Central do Gragoatá da Universidade Federal Fluminense

Com o passar dos anos, refletindo transformações econômicas e conjunturais, a formação do profissional bibliotecário, antes centrada em técnicas de organização de acervos, passou a abranger temas de cunho mais gerencial e, posteriormente, tecnológico, como recuperação da informação em bases de dados, seleção de softwares para bibliotecas, gestão da informação, gestão do conhecimento, inteligência competitiva e empresarial.

Além disso, disciplinas prevendo alguma especialização ainda na graduação, contemplando fontes de informação e temas específicos da área, passaram a serem ofertadas como disciplinas eletivas e optativas, sendo exemplos “Informação em Ciência & Tecnologia”, “Informação Jurídica” e “Informação em Arte”.

O crescimento da atuação bibliotecária também está refletido na Classificação Brasileiras de Ocupações – CBO. Em sua última revisão, de 2002, o profissional bibliotecário saiu da família ocupacional, onde figurava ao lado de arquivistas e museológos para constituir ocupação principal de uma nova família criada para abrigar as mudanças decorrentes do cenário vigente.

Antes, na CBO de 1994, o profissional bibliotecário aparecia da seguinte forma:

Código CBO: 1-91.20

Título: Bibliotecário

Sinônimos: Responsável de biblioteca Bibliotecário-chefe Bibliotecário de divisão técnica Biblioteconomista Bibliotecônomo Chefe de biblioteca Chefe de biblioteca e documentação científica Chefe de documentação e biblioteca Chefe de documentação e registro Chefe de setor de biblioteca Classificador bibliográfico Coordenador de biblioteca Diretor bibliotecário Diretor de biblioteca Encarregado de biblioteca Supervisor de biblioteca.

Descrição Resumida: Organiza, dirige e executa trabalhos técnicos relativos às atividades biblioteconômicas, desenvolvendo um sistema de catalogação, classificação, referência e conservação do acervo bibliográfico, para armazenar e recuperar informações de caráter geral ou específico, e colocá-las à disposição dos usuários, seja em bibliotecas ou em centros de documentação.

Código CBO: 1-91.90

Título: Outros bibliotecários, arquivologistas e museólogos

Sinônimos: Filmotecário Gerente de divisão de obras de arte Restaurador de livros e documentos Ajudante de documentação técnica Auxiliar de documentalista Auxiliar de museus Bibliotecário tradutor Subchefe de setor de cinemateca Supervisor de controle de volumes

Descrição Resumida: Incluem-se aqui os bibliotecários, arquivologistas e museólogos, não-classificados nas anteriores epígrafes deste grupo de base, por exemplo, os que se especializam na aquisição, avaliação, classificação, compilação e catalogação de documentos sobre assuntos de interesse para organizações comerciais e de outro gênero.

Com as modificações realizadas na CBO publicada em 2003, o profissional bibliotecário passou a figurar da seguinte forma:

2612: Profissionais da informação

2612-05 – Bibliotecário Biblioteconomista, Bibliógrafo, Cientista de informação, Consultor de informação, Especialista de informação, Gerente de informação, Gestor de informação

2612-10 – Documentalista Analista de documentação, Especialista de documentação, Gerente de documentação, Supervisor de controle de processos documentais, Supervisor de controle documental, Técnico de documentação, Técnico em suporte de documentação

2612-15 – Analista de informações (pesquisador de informações de rede) Pesquisador de informações de rede

Descrição Sumária: Disponibilizam informação em qualquer suporte; gerenciam unidades como bibliotecas, centros de documentação, centros de informação e correlatos, além de redes e sistemas de informação. Tratam tecnicamente e desenvolvem recursos informacionais; disseminam informação com o objetivo de facilitar o acesso e geração do conhecimento; desenvolvem estudos e pesquisas; realizam difusão cultural; desenvolvem ações educativas. Podem prestar serviços de assessoria e consultoria. (BRASIL. MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO, 2003)

Teoricamente, já ficou clara a nossa posição… E no dia-a-dia, na prática, estamos mais próximos da História ou da Administração?

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Leitura com cães

Ele voltou. Lá vem ele com temas menores. Ficou tanto tempo sem escrever para vir falar sobre leitura com cães?
Meu lado tradicional-conservador está a toda, mas não darei vez a ele….

Vou falar brevemente sobre a importância da leitura com cães como um fator de motivação da leitura de crianças (e não crianças).

Tudo começou quando estava em uma unidade da Livraria da Vila numa sessão de auto-terapia individual literária e partir de lá com a mochila cheia de livros e a revista da dita livraria na mão. Foi sentar no ônibus e começar a ler e chegar até a página que falava sobre a “Roda de leitura TAC+”, uma sessão de leitura com a presença de cães junto das crianças, que se realizou no dia 7 de junho (a atividade foi divulgada aqui).

Tenho que admitir que nunca havia pensado no assunto, mas chegando em casa comecei as pesquisas e consegui levantar mais informações e fiquei entusiasmado com o que li. E não poderia ser diferente. Os cães normalmente fazem a alegria das crianças e deixam até os adultos meio abobalhados, e se, segundo pesquisas eles podem ser companheiros na hora de leitura, a presença deles numa atividade de mediação de leitura certamente transforma aquele momento em um momento alegre e aconchegante (principalmente se o cão for grande peludo e estiver limpinho… risos), tornando por consequência a leitura em uma atividade lúdica daquelas que dá vontade de repetir a dose com ou sem o cão.

Acredito piamente que podemos implantar programas semelhantes em bibliotecas públicas, comunitárias e outros espaços de leitura.

Mas como sou um novato no assunto, simplesmente vou disponibilizar os sites, reportagens e artigos mais legais.

TAC+
associação parceira da Livraria da Vila que estimula Intervenções Assistidas por Animais para ampliar a qualidade de vida das pessoas.  Eles possuem um projeto onde pretendem atuar em bibliotecas públicas (olha a oportunidade aí!)

Librarydogs.com
site bacana com informações sobre leitura com cães. Vale a pena ir na seção Books with your breed, onde há indicações de livros e filmes com várias raças de cães!

Reading Education Assistance Dogs Program
Programa da Intermountain Therapy Animals dos Estados Unidos voltado para leitura com cães. Recomendo clicar em Research & Results e se divertir com o monte de artigos disponibilizados.
Lá é possível encontrar o artigo Man’s friend as a reading facilitator, que é esclarecedor.

TDI – Therapy Dogs International – Children Reading to Dogs
Outro programa internacional sobre a prática chamada de dog-friendly!

Crianças lêem para cachorros na Estônia
Artigo bastante veiculado há alguns meses por aqui (tirei do blog Mundo Bibliotecário)

Projeto L.E.R. Cãofiante
Matéria 1 (com breve entrevista)
Matéria 2
Projeto implantado na Escola Básica do 1.º Ciclo de Silves, em Portugal. Destaco aqui a participação enfática da bibliotecária Maria José Mackaaij em parceria com duas psicólogas.

Reading with Rover
Simpático.

E por último, um artigo na internet similar ao que li na revista:
Roda de leitura com cães gratuita ocorrerá na Livraria da Vila

Enfim, quem tiver mais “coisas” sobre o assunto é só recomendar e se iniciar algum projeto utilizando cães, me chame!

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USP, greve e bibliotecários

Neste momento preciso de minha vida profissional, sou uma bibliotecária em greve. Não é a primeira vez – na verdade deve ser a trigésima primeira greve da minha carreira – e duvido muito que seja a última.

Quem nunca fez greve na vida e morre de curiosidade para saber como é a coisa, ou simplesmente tem interesse acadêmico específico nos mecanismos que regem as greves na Universidade de São Paulo, pode encontrar informações acuradas dignas da bibliotecária que sou no meu blog,  Dia de Greve, Dia de Trabalho. Comecei esse blog na greve de 2010 da USP e não parei mais.  Mas não escrevo apenas sobre greve, até porque nossas greves, afortunadamente, não duram tanto assim.

Neste momento as três universidades estaduais paulistas estão em greve, basicamente por reajuste salarial,  mas não só por isso. Nunca é só por isso, mas geralmente é assim que começa: funcionários e professores reivindicam X de reajuste, recebem metade de X ou não recebem nada, como aconteceu conosco desta vez. Reajuste zero. Tudo sobe, o plano de saúde, a escola das crianças, o aluguel, a prestação da casa etc. Mas o salário permanece igual.

De acordo com o Conselho dos Reitores das Universidades Paulistas, que chamamos pela simpática sigla CRUESP, o reajuste não é possível porque não há dinheiro. A principal culpada pela dureza acadêmica é a assim chamada crise financeira da USP, cuja folha de pagamento estaria consumindo 105 por cento de sua receita. Portanto, a USP estaria  vivendo de suas reservas que, obviamente, teriam data certa para acabar: depois que acabar a água da represa da Cantareira, destruída pela sinistra incompetência do governo paulista, o mesmo que escolhe os reitores das universidades. A água dizem que vai acabar em agosto, as reservas da USP ainda duram mais um pouco.

A Folha de São Paulo, mais do que depressa, já vem com a eterna solução: cobrar mensalidades dos alunos, acabando de vez com qualquer chance de um jovem de família pobre entrar na preciosa Universidade de São Paulo, para todo sempre destinada a ser propriedade da elite.

A Folha, assim como uma assombrosa quantidade de seres humanos e veículos de comunicação, apresenta como verdade inquestionável a sangria de 105 por cento que ocorre segundo quem? Ora, segundo a Reitoria da mesma instituição na qual se dizia, até o ano passado, que “a USP tem dinheiro sobrando”, “dinheiro não é problema” e até mesmo “vocês precisam gastar mais dinheiro”, uma instituição cujo discurso dominante fazia o funcionário que não “gastava dinheiro” sentir-se incompetente, porque se as coisas não iam bem, certamente não era por falta de verba. O atual reitor culpa a gestão anterior que, de fato, não primava pela sobriedade, mas não podemos esquecer que é a mesma universidade. As pessoas que a dirigiam antes não morreram todas de repente e foram substituídas por alienígenas criados em vagens gigantes, certo?

Então, como saber se realmente a folha de pagamento está consumindo 105 por cento da verba e se a USP está à beira da catástrofe? Simplesmente não dá para saber, porque não temos acesso às contas da Universidade. E se não temos como contestar, também não vejo motivos para acreditarmos piamente.

Neste vídeo de um debate com representantes da Associação dos Docentes da USP sobre os números divulgados pela Reitoria, os professores Otaviano Helene e Ciro Teixeira Correia questionam as vozes oriundas do Olimpo com informações que jamais aparecem na grande imprensa. O vídeo é longo e não está editado, por isso vou destacar alguns trechos. De acordo com esses docentes rebeldes:

  •  tivemos perdas reais de poder aquisitivo de 7 por cento, contando apenas os efeitos da inflação (03:05);
  • os números do crescimento do ICMS não indicam a catástrofe financeira que está sendo anunciada (05:36);
  • O gráfico distribuído pela Reitoria que mostra a diminuição das reservas da USP contém um erro que faz a situação parecer pior do que é de fato (11:28).
  • se os gastos excessivos da gestão anterior forem contidos, a situação financeira da USP estará equilibrada em um ou dois anos, sem necessidade de arrochar salários (12:55).
  • o impacto do reajuste salarial sobre as contas da USP não é tão grande quanto dizem (13:50).
  • na proposta orçamentária para 2014 aprovada pelo Conselho Universitário da USP já estava previsto o reajuste dos professores e funcionários (23:17).
  • dados da reitoria sobre a “queima orçamentária” não consideram rendimentos de aplicação das reservas e nem as receitas próprias da Universidade (28:50).
  • despesas com obras em andamento – que ninguém sabe o que são e porque foram feitas – e “restos a pagar de 2013” presentes na previsão orçamentária para 2014 equivalem a quase duas folhas de pagamento (30:54).
  • O comprometimento da verba com a folha de pagamento não é o que está sendo dito (36:00).
  • Contribuição previdenciária é o que pode estar aumentando o comprometimento da verba, e não os reajustes salariais, mas os dados sobre isso não estão abertos para a comunidade (38:15).
  • O governo não repassa todos os recursos que são arrecadados com fonte ICMS: os juros de refinanciamento de pagamentos atrasados, por exemplo, não entram na conta; para as prefeituras o repasse é feito, mas não para as universidades (45:30).

Muito do que se diz nos meios de comunicação sobre a USP é engolido com facilidade pela população, graças à fama de elitista e arrogante que a instituição carrega, fama até certo ponto justificada. Em todas as nossas greves, quando somos invariavelmente atacados pelo discurso contrário à universidade pública que domina a imprensa, discutimos a necessidade de ações que mostrem para a população a real importância da Universidade e do conhecimento que ela produz. Mas isso nunca acontece. Parece que a questão só interessa à parcela da população uspiana que faz greve, e essa turma não manda nada. E os poucos que passam eventualmente a mandar, mudam rapidamente suas prioridades.

Bibliotecários poderiam ter um papel importante nessa briga, considerando nossa habilidade para buscar, analisar e transmitir informações, além do fato de ocuparmos posição privilegiada entre o universo do trabalhador “peão” e o mundo dos pesquisadores. Somos funcionários, vivemos com os pés no mundo real, sabemos o que é uma licitação e porque demora tanto para comprar um livro ou consertar uma janela, mas também circulamos com tranquilidade no espaço onde se produz o conhecimento acadêmico, sabemos de onde sai uma tese e temos um papel claro bem claro nesse processo. Além disso, somos muitos: cerca de 400, se não estou enganada.

Mas também não mandamos nada. Vivemos condicionados pela “mecânica de obediência vertical ao poder central”, expressão usada pelo professor Andrian Pablo Funjul na Folha de São Paulo que explica maravilhosamente as relações de poder na USP. Temos nossas chefias de biblioteca, que só não decidem tudo sozinhas se não quiserem, porque nada as impede, e o Departamento Técnico do Sistema de Bibliotecas, cujas prioridades podem ser decididas pela vontade de quem o chefia, sem que exista nenhum mecanismo institucional eficiente para evitar isso.

Bibliotecários não costumam atuar politicamente enquanto categoria dentro da USP, a não ser em questões bastante pontuais, como o movimento que fizemos há alguns anos para barrar a imposição de um software para o Banco de Dados Bibliográficos da USP.

Muitas bibliotecas da USP estão fechadas por causa da greve. Não dá para saber quantos bibliotecários estão em greve, porque algumas bibliotecas fecham porque os técnicos entram em greve. Tenho visto muitos bibliotecários participando das atividades de greve, mas ainda são poucos em relação à quantidade de bibliotecas que está fechada. Dizem alguns colegas que muitos estão trabalhando atrás das portas fechadas de suas bibliotecas e outros, provavelmente, foram para suas casas. É uma pena, porque um momento de greve seria uma excelente oportunidade para nos encontrarmos, discutirmos nossos problemas específicos e encontrar uma forma de atuarmos politicamente na Universidade. E fazer nossa voz ser ouvida, para variar um pouco. Mas, lamentavelmente, nem temos uma liderança capaz de articular o pessoal.

Mas esta greve ainda não terminou. Nem a USP. Nem as bibliotecas. Ainda temos algum tempo.

Biblioteconomia Pop

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