Morada das lembranças: como as bibliotecas podem ajudar imigrantes e refugiados

Morada das lembranças conta a história de uma família de refugiados de guerra, saídos da Europa e chegando ao Rio de Janeiro. A saga é narrada pela filha mais velha, ainda criança, uma daquelas tragédias de gente inocente vítima de guerras, fome ou distúrbios climáticos, que precisa largar tudo pra trás e encarar uma nova terra estranha e geralmente inóspita. O livro trata em paralelo das mulheres que ficaram conhecidas aqui como polacas, que saíam da miséria camponesa na Europa apenas para descobrir que nas Américas a dignidade humana ia muito abaixo daquilo que foi capaz de convencê-las a deixar seus países. É um relato duro de ler, mas talvez necessário, porque é uma das maneiras de nos colocarmos nos pés dessas pessoas e compreendermos o que se passa além dos nossos preconceitos. O livro valoriza também a ideia do resgate da memória oral, porque a maior parte dessas pessoas perdem suas línguas e vozes, deixadas nas cidades de origem, em certos casos optando por esquecê-la por completo, como uma necessidade de ajuste à nova vida, livre das dores do passado. É a neta, a segunda geração já nascida no Brasil que decide recontar a história da avó. Vale a leitura.

Em tempos de crise econômica, guerras e mudanças climáticas, as migrações (não confundir migrantes com refugiados) se intensificam, e considerando o Brasil como um dos países que mais atraem refugiados ou imigrantes, certamente este aspecto deve aparecer na agenda dos bibliotecários daqui, para agora e os próximos anos.

Os refugiados e imigrantes vêm com diversas formações e experiências, e ainda encontram uma miríade de desafios para se adaptarem às suas novas vidas. Existem muitas maneiras que uma biblioteca, de qualquer tipo, pode oferecer apoio aos indivíduos destas diferentes comunidades (étnicas, religiosas, etc.) com recursos e serviços que os ajudam a se adaptar ao novo país.

Algumas recomendações e materiais servem de referência, como o Manifesto da Biblioteca Multicultural da IFLA, e acredito que William Okubo seja a melhor pessoa para documentar e apresentar as experiências brasileiras no relacionamento com Haitianos, Bolivianos, Sírios, entre tantos outros potenciais usuários de bibliotecas públicas e universitárias. Então em vez de montar uma lista de atividades sugeridas que podem ser realizadas dentro de bibliotecas em apoio aos refiguados/migrantes, vou indicar alguns projetos de bibliotecas ou criados por bibliotecas em situações de crise, que servem de inspiração e exemplo para nós:

Ideas Box – Depois de ter construído dezenas de bibliotecas em tendas no Haiti, após o terremoto de 2010, o Bibliotecas Sem Fronteiras (Libraries Without Borders) passou a testar seu projeto Ideas Box no Burundi. Usando apenas duas caixas transportadoras e 20 minutos para montar, o box fornece o equivalente a uma biblioteca de uma pequena cidade. Ela vem com seus próprios livros, e-readers, tablets, laptops e ferramentas digitais, bem como acesso à internet e energia elétrica. A as caixas que contêm todos estes objetos transformam-se em cadeiras e mesas. Em abril deste ano o projeto chegou em campos de refugiados sírios na Jordânia.

Jungle Library – voluntários criaram uma biblioteca improvisada no acampamento de migrantes em Calais, norte da França, que as autoridades estimam abrigar pelo menos 3.000 refugiados, que fugiram da repressão e da guerra em países como a Eritreia, Afeganistão e Síria. Muitos querem chegar ao Reino Unido por causa das conexões familiares ou simplesmente melhores oportunidades. A professora britânica Mary Jones era uma dos voluntários que iniciou a biblioteca, e queria oferecer ajuda real, prática. “Muitas pessoas aqui são bem-educadas – eles querem entrar e querem livros que irão ajudá-los a ler e escrever Inglês, se candidatar a empregos, preencher formulários.” A biblioteca recebe doações e oferece livros, dicionários, textos, zines, etc- em qualquer e todas as línguas, inglês, francês, italiano, árabe, pashto, farsi, tigrinya, amárico e grego. A biblioteca também empresta potes, panelas, utensílios domésticos, coisas práticas como ferramentas para consertar bicicletas, jogos de cartas, jogos de tabuleiro e instrumentos musicais.

Resgate de livros na Síria – Entre tiros e destruição na cidade de Darayya, um grupo de jovens sírios conseguiu criar um lugar de refúgio – uma biblioteca. Depois que os moradores da cidade sitiada fugiram, esses estudantes resgataram livros de suas bibliotecas privadas abandonadas. Em alguns casos, os edifícios ainda estavam pegando fogo, por conta das bombas. Até agora eles já recolheu mais de 11.000 livros. Os jovens criaram um sistema de empréstimos e passam longos dias catalogando os livros, e por isso, se os proprietários voltarem depois da guerra, poderão tê-los de volta.

Enchentes no Myanmar – Localizada nas proximidades de cinco campos de refugiados que acomodam cerca de 1.500 pessoas deslocadas pelas inundações recentes, a biblioteca de Taikkyi tem desempenhado um papel-chave nos esforços de socorro. Equipada com tablets, um roteador móvel com conectividade, revistas, e os mais recentes jornais, a bibliotecária San Khaing monta sua moto e fez rondas para alcançar os membros da comunidade nos campos de refugiados. Lá, ela distribui materiais impressos e atividades organizadas com os tablets para as crianças, que ficaram presas nos campos durante semanas sem o mínimo de acompanhamento educacional.

Outra biblioteca, destruída no dilúvio, continuou a prestar serviços para as comunidades locais, principalmente através do uso de dispositivos móveis da biblioteca. A bibliotecária Ko Aung e seus colegas coorderam esforços de evacuação, ajudando as pessoas deslocadas a chegar a um dos 18 campos de refugiados da região. Ko também identificou aldeias afetadas e coordenou a distribuição de suprimentos para aldeias remotas e inacessíveis nas áreas rurais do país. Os bibliotecários passaram a transmitir informações de socorro para as autoridades, permitindo-lhes cobrir uma área maior e fornecer serviços de emergência para mais pessoas.

Bubisher – esta biblioteca móvel nasceu no acampamento para refugiados do Saara Ocidental, na Argélia, em 2008, e é agora parte de uma rede que trabalha com professores locais e organiza clubes do livro para crianças e adultos. Seu nome, Bubisher, refere-se a um pássaro do deserto cuja chegada traz boa sorte na tradição saariana.

Kista: Biblioteca Pública de Estocolmo, a melhor do mundo em 2015

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A Biblioteca de Kista, localizada em um subúrbio de Estocolmo, na Suécia foi escolhida como a melhor do mundo por representantes da Federação Internacional de Associações de Bibliotecas (IFLA), no dia 16 de agosto de 2015, durante sua reunião anual, este ano realizada na Cidade do Cabo, na África do Sul.

Almejando alcançar o “Public Library of the Year Award 2015“, cinco bibliotecas públicas inovadoras concorreram pelo título.

O prêmio faz parte do Programa Modelo para o projeto de Bibliotecas Públicas da Agência Dinamarquesa para a Cultura e Realdania (associação dinamarquesa privada que apóia projetos nas áreas de arquitetura e planejamento).

Haviam pré-requisitos para participação, como por exemplo, o fato de que a biblioteca deveria ser recém-construída ou reformada em edifício que não houvesse sido utilizado antes como biblioteca. Era também preciso ter sido inaugurada entre 1 de Janeiro de 2013 e 15 de junho de 2015.

Dentre as cinco bibliotecas finalistas constavam Devonport Library, de Nova Zelândia, Narok Biblioteca, do Quênia, Sant Gervasi – Joan Maragall, da Espanha, Biblioteca no Dock, da Austrália (amplamente descrita pelo Bibliotecário Moreno Barros, no blog Caçadores de Bibliotecas) e por fim Kista Biblioteca, da Suécia.

O Programa da Agencia Dinamarquesa tem por objetivo contribuir com a promoção de uma proposta de biblioteca do futuro. Foram levados em consideração questões voltadas para o desenvolvimento digital, demandas por serviços, aspectos da cultura local e as possibilidades de atender anseios de diferentes grupos populacionais.

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E foi Kista, da Suécia a vencedora. Projetado pela Wester + Elsner Architects, a biblioteca construída em um shopping center, recebeu destaque por sua arquitetura e design de interiores, também ao uso de tecnologias digitais, contudo, principalmente pela diversidade populacional que atende na região aonde foi instalada. O blog da IFLA ao apresentar previamente cada uma das bibliotecas candidatas ao título destacou que:

A nomeação da Biblioteca Kista foi baseada em sua posição significativa, localizada em um ambiente multicultural. O interior apresenta ideias conceituais diferentes que criam uma diversidade intensiva, espacial, com base na utilização particular do espaço. A biblioteca centra-se na contratação de pessoal com uma vasta gama de conhecimentos e competências linguísticas, um rico programa de digitalização do tradicional para o criativo e um alto envolvimento com a mídia social interativa.

Localizada em um subúrbio de Estocolmo, a região concentra vários empreendimentos comerciais, além de empresas de telecomunicações e industrias, contudo em termos populacionais, vive na região uma gama considerável de imigrantes de diferentes países.

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Em 2012, em minha primeira visita a Suécia tive a oportunidade de conhecer a antiga Biblioteca de Kista, localizada naquela época na Praça de Kista. Os centros comerciais de Estocolmo sempre dispõem de uma praça e a biblioteca era bastante visível logo na saída do metrô. Comentei sobre minhas impressões tempos depois sem saber que o espaço (que já era excelente) havia sido mudado e com grandes investimentos.

A ideia de colocar bibliotecas no interior de shoppings é relativamente comum. Outras do Sistema de Bibliotecas Públicas de Estocolmo também foram adaptadas para esse fim, contudo em Kista o empreendimento foi realmente grande.

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A Biblioteca de Kista é a segunda maior biblioteca de Estocolmo e creio, pode ser considerada uma das mais confortáveis e dotadas de infraestrutura tecnológica. Possui acesso extremamente fácil (como geralmente são todas as bibliotecas suecas), contudo por estar localizada no interior de um grande shopping center, alguns desavisados podem sair do local sem tomar conhecimento de sua existência, contudo os grandes letreiros da biblioteca competem com os de outros espaços comerciais na busca por chamar a atenção de clientes, mas creio que são os letreiros da biblioteca vem chamando mais atenção por que o fluxo de pessoas ali é intenso.

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Inovações tecnológicas estão espalhadas por vários espaços, inclusive na apresentação dos funcionários que atuam na casa, onde suas imagens físicas são mostradas em telas em uma das entradas da biblioteca. As telas exibem também os serviços oferecidos.

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A Biblioteca oferece muito! Há livros dos diversos ramos do conhecimento (ficção e não-ficção) e para todos os públicos, atendendo ao pré-requisito das diversidades linguísticas. Ainda no tocante ao acervo, dispõe de jornais de todo o mundo e cerca de 350 revistas digitais.

O espaço reservado para o público infantil (onde geralmente é o ambiente que mais me encanta nas bibliotecas públicas suecas), mas parece um grande quarto de dormir. O mobiliário (com tamanho para atender a estatura dos pequenos) e a decoração das paredes e do teto são detalhes significativos.

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Computadores e acesso gratuito a internet, salas para estudos individuais, em dupla e em grupos podem ser reservadas de segunda a domingo para uso em horários das 10h00 às 21h00 horas.

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Ainda tem mais? Sim! a Biblioteca dispõe também de um café e para ações e atividades culturais possui um palco, um auditório e ambientes para encontros com escritores, palestras, teatro, música e muito mais.

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Enquanto escrevia e refletia sobre a Biblioteca de Kista (neste momento escrevo de Estocolmo), aproveitei para perguntar para algumas pessoas sobre o que pensam sobre esse espaço. Contrariando minhas expectativas pude perceber que há quem se enfade com os grandes investimentos voltados para atender ampla clientela formada por jovens, desempregados e imigrantes, haja vista que na concepção destes, muitos aproveitam horas ociosas para estar em seus celulares sem nenhum atenção aos livros.

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O fato de que qualquer usuário pode utilizar o ambiente para deitar em uma rede, ou em confortáveis poltronas para ler dados em seus celulares ou tablets em detrimento ao livro ainda é um elemento que incomoda. Por isso me pergunto, será que existe algum tipo de mediação para introduzir os usuários a outros suportes e serviços?

De minha parte vejo essa biblioteca como um espaço de futuro. Uma biblioteca pública que efetivamente oferece acesso e oportunidades. Parabenizo ao Sistema de Bibliotecas Públicas de Estocolmo pelo feito!

O prêmio Public Library of the Year Award foi criado pela Agência Dinamarquesa para a Cultura e esse ano foi patrocinado pela empresa de TI Systematic que fez uma doação de US $ 5.000 para a Biblioteca vendedora.

Fontes: Blog IFLA

Freud versus as requisições de obras

Enquanto os colegas do blog olham para o futuro, vou olhar um pouco para o passado. Mas quem disse que ao olhar para o passado não podemos tirar dados e fatos para remoldar o futuro? É isso que pretendo fazer contando uma história.

 

Tudo começa na Sala de Leitura Herculano de Freitas (atual Circulante), na Biblioteca Mário de Andrade, no ano de 2007. Faltavam alguns meses para se iniciar a grande reforma que mudaria aquela Biblioteca e o estado físico do prédio realmente era deprimente: pisos rachados, vazamentos e infiltrações para todo lado, mobiliário acabado, acervo com pragas e precisando de encadernação e restauro. A falta de pessoal apertava e a estrutura administrativa não existia, a improvisação reinava ali. Para tristeza de todos até chegou a nós uma crítica de um aluno do curso de Biblioteconomia da ECA-USP que dizia que a Mário havia parado na Idade Média.

Exatamente naquela época eu trabalhava como bibliotecário de referência, e fazia o horário das 13 às 21 horas. O trabalho de referência era muito estimulante, mas depois das 18 horas a coisa ficava tenebrosa. A Mário (abreviação carinhosa) ficava bem vazia dali até o fechamento, e naquele dia deviam ter umas 10 pessoas (cabiam 120!), e entediado que estava, pois não havia muito o que fazer (os dois únicos computadores do salão só acessavam o horrível (ainda é!) catálogo eletrônico e o celular não tinha Hungry Birds e muito menos Internet) eu costumava xeretar a vida dos leitores, e ficava tentando identificar o que liam, ou sentava no mesão de referência e ficava anotando no caderno de causos e ocorrências os livros solicitados e não comprados, os assuntos com resultados negativos ou  minhas reclamações e ideias de mudanças.

E naquele dia, eram umas 19 horas, e como sempre, eu acabara de voltar do jantar (normalmente a janta era um lanche de pernil no Bar do Estadão que fica ali perto), quando estava andando por entre as quase 60 mesas de usuários existentes no salão, parando aqui e ali, levantando-as e tentando deixá-las umas atrás da outras na posição certa (toque bibliotecário) que vi aquele usuário sentado folheando os livros. Folheando quase sem parar. Continuei observando e logo depois, ele se levantou, foi até o balcão de entrega de livros, os entregou junto com duas requisições de livros, voltou e aguardou pela chegada de mais livros. Quando chegaram, ele recomeçou a folheação. Mais um tempo passou, ele se levantou novamente e fez tudo de novo.

Não resisti à cena toda e fui lá conversar com ele. Ao chegar perto pedi licença e perguntei:

– O que você está procurando?!

– Preciso localizar dois artigos do Sigmund Freud que estão nas suas Obras Psicológicas Completas que um professor pediu….

– Você não sabe o assunto e o volume ou tem alguma outra informação?!

– Não. Ele parou, olhou num papel todo amassado e leu os títulos dos artigos. Como sempre acontecia na referência, nem eu nem ele entendemos direito do que se tratavam aqueles títulos enormes e sem sentido algum para leigos.

– Realmente, você terá que olhar todos os volumes. São quantos?

– 24.

– E quantos você já checou?

– Olha, estou no sexto volume. Eu não queria reclamar, mas  quando termino de olhar dois, tenho que pedir mais dois e os livros não descem tão rápido. Vai demorar um bocado.

A situação da pobre criatura era crítica, pois a Mário tinha um rígido sistema de regras, sendo as primordiais naquele momento:

1- Cada leitor só podia solicitar 2 livros de cada vez.

2- Os pedidos eram feitos através de um formulário de requisição individual para cada obra. E em cada pedido era preciso preencher os dados pessoais, título e localização da obra.

Isso significava que aquele ser ainda precisava escrever mais 18 vezes as mesmas coisas, mudando apenas a localização da obra.

 

Era óbvio que eu já sabia daquelas regras, e não concordava com elas, mas como era novo na instituição eu meio que deixei estar… até aquele dia, claro!

Diante da situação, como era (sou?!) meio sanguíneo, enlouqueci e o espírito do Ranganathan desceu sobre mim martelando na cabeça aquele trecho da lei mais aterrisadora da biblioteconomia: poupe o tempo do leitor, poupe o tempo do leitor, poupe o tempo do leitor….

Disse ao leitor para aguardar que ia resolver o problema e fui correndo atrás de um carrinho. Encontrei um bem velho e barulhento e avisei as funcionárias do monta carga (elevador de livros da biblioteca) que iria até o oitavo andar pegar toda a coleção do Freud para um usuário consultar tudo de uma vez. A dona Valmira e a Silvania arregalaram os olhos e deixaram o jovem bibliotecário subir, não sem antes avisar que eu estava descumprindo uma regra e que no dia seguinte teria treta (elas falaram isso com outras palavras, claro….).

Bufando, entrei num dos velhos elevadores e fui buscar os livros. Quando os trouxe, a fim de evitar mais tretas (já pensou na zona de outros usuários querendo o mesmo? sem as mesmas justificativas que aquele?!) chamei o usuário e o deixei consultando as obras em uma sala anexa.

Ele ficou muito agradecido, e eu e as “meninas/os” (a Silvania, a Valmira, a Mazé, o Siloni, o Dudu e mais dois colegas que não lembro o nome) nos sentimos no paraíso e não naquela instituição com jeitão de massa falida.

 

Antes do fim, uma pausa para algumas explicações.

Como muitos devem saber, na BMA uma boa parte dos livros ficam na torre e no período citado o atendimento realizado na Sala de Leitura se referia ao que se chama Coleção Geral de Livros, e estes livros ficavam do sexto ao décimo quarto andar. Como haviam poucos funcionários e muitos eram idosos, se tentava evitar muitos vais e vens para não cansar os velhinhos que já reclamavam de dores em quase todo lugar. Além disso, as estantes não eram (e não são) muito ergonomicas, e pegar obras próximo ao chão era (é!) um saco e muito complicado para aqueles senhores e senhoras.

A administração tinha comprado milhões de formulários, e num local onde os recursos eram escassos ou simplesmente não existiam (diferente de hoje, a BMA ainda não tinha recursos próprios, pois acabara de deixar de ser uma espécie de “biblioteca ramal grande” e se transformara finalmente em um departamento)  deixar de utilizar aqueles formulários e criar outros menos grotescos, mesmo que em benefício do usuário, era uma heresia!

Apesar de certa beleza, o tipo de arquitetura da BMA também era (é!) um problema. Ela foi pensada em uma época que o acesso livre às estantes não era uma premissa fundamental como é hoje.

 

Enfim, tal sistema de funcionamento fazia com que problemas surgissem a todo momento e a razão de existir de uma biblioteca, que são seus usuários, eram submetidos a regras e modos de fazer que claramente os faziam perder tempo e se afastassem da biblioteca não somente por causa da situação caótica causada pelo descaso dos políticos (e também dos profissionais bibliotecários, diga-se de passagem) que deixaram uma instituição chegar naquele ponto.

Depois daquele dia ainda tive vários enfrentamentos com as regras da biblioteca e com os colegas, me exasperei e se exasperaram comigo, mas olhando para o tempo que passou vejo que valeu a pena. Muitos daqueles colegas cansados e desmotivados estiveram ao meu lado durante e após a reforma que durou longos 3 anos, e conseguimos avançar bastante, transformando o que eu chamava de uma biblioteca morta mas não enterrada, em uma biblioteca estimulante, com muitos desafios, inclusive uma diretoria atual meio cabeçuda (não que os diretores anteriores e eu, auxiliar deles, não o fossemos também em alguns momentos).

 

Espera aí! Você quer saber o que aconteceu com as requisições?!

Tomei ódio delas e durante a reforma as reencontrei em caixas e mais caixas com milhares delas. E admito que, escondido, durante os três longos anos de reforma, dei fim a muitas delas, mas acredito que em alguma salinha da torre elas ainda esperam o dia de retornarem ao uso e assombrarem a vida dos leitores da Biblioteca, que hoje, podem pedir livros à vontade, mas sem exageros, claro.

 

O apocalipse zumbitecário

Cansada, mas ainda não inteiramente derrotada, a bibliotecária envelhecente sorri ao terminar a leitura dos posts do Bibliotecários Sem Fronteiras que discutem o futuro da profissão. Parte dela, a que se orgulha dos colegas mais jovens e acha que ainda vale a pena estar numa trincheira com gente assim, luta contra a outra parte, a que se distancia cada vez mais do interesse pela profissão. Ela sabe que, no seu caso, o futuro é algo que deve acabar mais cedo e provavelmente mal.

Naquela noite, a bibliotecária envelhecente tem um sonho vívido e rico em detalhes.

Num mundo praticamente sem bibliotecas como hoje as conhecemos, no qual os livros que simplesmente apareciam em lugares inusitados, como centros cirúrgicos e elevadores, eram considerados krönir *, recolhidos rapidamente e vendidos a preços impossíveis para misteriosos colecionadores, os bibliotecários há muito tido como extintos começaram a voltar.

Não, não eram krönir biológicos. Apesar dos insistentes rumores sobre a existência desses seres quase humanos criados pela imaginação de homens e mulheres, os únicos bio-krönir efetivamente documentados eram tigres e outros grandes felinos extintos, um rinoceronte branco e alguns pássaros dodôs, todos ligeiramente diferentes de seus paralelos já extintos no que poucos lunáticos ainda insistiam em chamar de mundo real.

Não, esses bibliotecários em nada lembravam os tigres vermelhos de olhos de chama nem os dodôs com esporões letalmente venenosos. Pareciam antes zumbis pálidos, alguns exibindo sinais de decomposição e marcas dos ferimentos ou doenças que os haviam matado. Surgiam enfurecidos nas imediações das grandes piscinas de leitura que tomaram o lugar de algumas antigas bibliotecas, piscinas azuis onde o leitor podia sonhar as histórias que gostaria de ler e transmiti-las mentalmente em forma de texto, filme ou música para outros que as completavam, modificavam ou apenas usufruíam. Outros foram vistos rondando as casas onde supostamente viveriam colecionadores de livros krönir.

Não eram realmente muitos, mas começaram a despertar o interesse dos fãs de filmes de terror antigos e a preocupar as autoridades. Mas os zumbitecários – como logo começaram ser chamados – nada faziam de errado ou realmente perigoso. Não atacavam, não mordiam, não tentavam devorar cérebros, apenas gritavam o quanto eram importantes e não reconhecidos, lembravam a todos da importância da padronização. Coisas assim que ninguém mais compreendia. Alguns seguravam, com orgulho, pequenos cartazes afirmando que “O Google te oferece 100 mil opções, o bibliotecário te oferece a certa“. Alguns andavam abraçados às regras de catalogação com as quais supostamente teriam sido sepultados. Outros tentaram carregar tabelas de classificação, mas os braços de zumbi não aguentavam tanto peso e se quebravam.

De fato, os zumbitecários não pareciam saber que atitude tomar. Muito comportados para agirem como zumbis normais e mordedores, dividiram-se. Metade queria mudar o paradigma, metade preferia ir para um congresso que oferecesse um bom coffee-break. Uma discussão acalorada começou, mas alguns indivíduos com pose e voz de autoridade aproximaram-se do grupo e pediram silêncio. Obedientes, os zumbitecários se calaram e se dispersaram. Apenas desapareceram quietamente, ninguém soube como. Os últimos foram vistos sentadinhos em frente às piscinas onde não os deixaram entrar, e lá ficaram até se desintegrarem. Um pterodáctilo com asas de prata passou gritando: extinção é para sempre!

A bibliotecária envelhecente acorda com o despertador berrando incoerências e levanta, sacudindo do peito o peso do sonho estranho. No espelho do fundo do corredor, um velho bibliotecário sorri, cego.

* Objetos formados pela duplicação de objetos perdidos originários das “regiões mais antigas de Tlön”, “filhos fortuitos da distração e do esquecimento”. Do conto Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, de Jorge Luís Borges.

13 perfis do Instagram para se seguir!

Eu amo Instagram. Acho que é a rede social mais bacana, principalmente se você for além dos perfis cheios de selfies e comidas! Há um tempo tenho evitado seguir esses perfis pessoais e preferido seguir contas sobre lugares, viagens, editoras e é claro, bibliotecas!

Depois de ver o post sobre a hashtag #marbledmonday feito pelo Moreno aqui para o BSF, eu comecei a ver o que mais os perfis que andavam postando essa hashtag traziam. O resultado é que me apaixonei e passei a seguir vários!

Achei sensacional essas bibliotecas fazerem esse trabalho de divulgação e ao mesmo tempo encher nosso feed de fotos lindas. É aquela modernização que tanto falamos, sabe?

Vou deixar aqui os perfis que estou seguindo e que são de fazer o coração de qualquer bibliotecário parar!

@guildhalllibrary: é uma biblioteca pública de Londres especializada na história da cidade.

@uispeccoll: instagram das coleções especiais e arquivos da Universidade de Iowa, comandado por uma bibliotecária.

@milwaukeepublib: biblioteca pública de Milwaukee

@sfpubliclibrary: biblioteca pública de San Francisco

@uib_ubbspes: departamento de coleções especiais da biblioteca da Universidade de Bergen

@fisherlibrary: insta da Thomas Fisher Rare Book Library, que está na Universidade de Toronto.

@unilib_treasures: coleções especiais e manuscritos da biblioteca da Universidade de Lund.

@americanantiquarian: biblioteca especializada em história, cultura e literatura americana.

Que não são bibliotecas, mas valem igualmente a pena:

@penguinclassics: editora Penguin, nessa conta eles postam apenas livros clássicos! Serve como inspiração de leitura.

@scifibookcovers: para quem curte o estilo, esse insta posta só capas de livros de ficção científica. Na mesma pegada das inspirações literárias.

@mapcenter: não são livros, são mapas, mas olha, que mapas!

@bookdecorbooks: um perfil pessoal cheio de fotos lindas!

@book_historia: mais um perfil pessoal, a dona estuda história dos livros e trabalha em um antiquario de livros!

Para quem não tem conta no Instagram , todos esses perfis são abertos, então é só acessar e suspirar!

Qual é a finalidade do trabalho bibliotecário?

Durante meus cursos costumo oferecer uma apresentação introdutória contextualizando as mudanças em nossa área traçando uma paralelo com as transformações da economia industrial para a economia da experiência. Um dos objetivos é evidenciar que a miopia de marketing presente em alguns em discursos sobre atuação profissional podem ofuscar reais oportunidades de atuação.

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Quando a formação do bibliotecário era específica para atuação em bibliotecas o marketing da área estava embutido na natureza de cada biblioteca. Ou seja, a finalidade da atuação profissional poderia ser compreendida relacionando o nosso código de ética (preservar o cunho liberal e humanista de sua profissão, fundamentado na liberdade da investigação científica e na dignidade da pessoa humana) que orienta nossas práticas a prestação de serviços para as pessoas, com os tipos de bibliotecas, que as direcionam para comunidades e necessidades pré-definidas. Ou seja, os livros, documentos e as técnicas eram meios utilizados para maximizar o acesso e prover experiências intelectuais positivas em cada tipo de biblioteca.

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No entanto a partir fase da economia de serviços acompanhamos uma mudança da formação na área orientada para o problema da informação. Bibliotecários passaram também a denominar-se gestores de unidades de informação e/ou mediadores da informação. A miopia de marketing esta na perspectiva de que a informação é a finalidade da atuação profissional. O que não deveria ser pois a informação é um dos meios e não a finalidade da atuação em nossa área. Da mesma forma que os livros e documentos eram nossos meios nas bibliotecas tradicionais na fase pré-digital. Mesmo quando atuamos sobrecarregados de trabalho técnico em bibliotecas sem relação direta com os usuários, poderiamos cumprir nossa função de forma indireta, pois o marketing estava vinculado a experiência dos usuários no acesso aos tipos de serviços  intrínsecos ao tipo de cada biblioteca.

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Quando divulga-se que a finalidade da atuação profissional é disseminação da informação em qualquer suporte gera-se o grande problema de formação atualmente: a confusão entre meios e fins. Faz sentido enquanto pesquisador  (cientista da informação) tentar compreender como os fluxos da informação (meios) relacionam-se com a realidade. Mas não faz sentido para atuação profissional acreditar que precisamos disseminar a informação indiscriminadamente. Pois a nossa atuação profissional deve ser centrada em como melhor adequar nossos meios (recursos e serviços de informação) para os fins (pessoas). Com esta distinção entre meios e fins que também é possível diferenciar a responsabilidade de técnicos em biblioteconomia e bibliotecários. Os técnicos podem trabalhar exclusivamente com os meios, mas só os bibliotecários podem planejar novos serviços para converter os meios para os fins.

O discurso que vincula as oportunidades de atuação profissional apenas para os meios é o que costumo chamar de ideologia da informação (ideologia é um sistema de pensamento que não corresponde com a realidade). Um discurso muitas vezes proveniente da importação de tendências de outras áreas – como a de gestão  – tentando vislumbrar novas oportunidades de atuação em diferentes suportes. Um dos exemplos esta em práticas como a de Gestão da Informação e na relação entre Dado – Informação – Conhecimento superada em práticas de gestão mais emergentes. Devido a consumerização da tecnologia da informação  muitas práticas de gestão relacionadas a mediação da informação deram lugar a práticas ligadas a Gestão da Inovação e Colaboração. Ou seja, o que pode fazer sentido teórico durante uma pesquisa e revisão de literatura pode não fazer como objetivo da atuação profissional em um cenário de rupturas tecnológicas. 

Qual é a diferença entre um profissional da informação e um bibliotecário? Durante um período de tempo pude atuar com a aplicação de técnicas de organização da informação para o desenvolvimento de portais corporativos e de plataformas de e-commerce. Estava sendo bibliotecário? Não. Pois a atuação estava centrada nos meios para resolver problemas de processos corporativos. Lembram do código de ética com a liberdade de investigação científica? O que otimizar a recuperação de informação em um portal corporativo tem haver com desenvolvimento intelectual? Existe uma relação muito mais direta da aplicação de nossas técnicas para o desenvolvimento organizacional do que o  desenvolvimento humano e em algumas situações eles podem não ser compatíveis.

No entanto acredito na possibilidade de atualizar o sentido da formação profissional em biblioteconomia para o cenário econômico emergente. De que forma? Partindo do princípio de que as bibliotecas sempre foram parte da economia da experiência. Que tipo de experiência? Experiência Intelectual. Logo o objetivo da atuação profissional não tem relação com a disseminação da informação (meios) mas em prover uma experiência intelectual positiva (fins). É possível disseminar a informação com o uso adequado de técnicas da nossa área para organização e recuperação da informação, mas o valor do nosso trabalho só pode ser medido quando conectamos os meios com os fins. 

Planejar e prover serviços de informação orientados a experiência intelectual dos usuários em diferentes contextos.

Qual seria então a finalidade da atuação profissional do bibliotecário que faz mais sentido em qualquer suporte que tem relação direta com a experiência intelectual? Inteligência. A minha defesa é que o nosso objeto de atuação profissional é a inteligência, mesmo que  o de pesquisa continue sendo a informação. Sempre atuamos através das bibliotecas com alguma modalidade de Democratização da Inteligência. Tanto que o campo da Ciência da Informação surgiu com a expectativa de que técnicas oriundas da nossa área poderiam oferecer suporte aos setores de inteligência na área governamental. Um exemplo pode ser a criação de serviços de informação voltados para os distintos níveis de intelecto profissional ou em pesquisa.

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Compreendendo que a Democratização da Inteligência é a norteadora para o desenvolvimento de serviços de informação centrados nas pessoas existem pelo menos três linhas de atuação profissional possíveis: Curadoria Digital, Colaboração e Capacitação.

Curadoria Digital é o tema do meu próximo curso na ExtraLibris. Trata-se de uma forma de atualização da disciplina de Referência.

Estas três linhas são uma proposta para melhor relacionar nossos meios com os fins e são temas abordei profissionalmente na última década. Quem sabe, em uma próxima publicação para o BSF escreva com exemplos de práticas profissionais possíveis com cada uma das linhas.

NOTAS:

(1) Importante assistir a apresentação do Joseph Pine sobre a Economia da Experiência.

(2) O artigo original traduzido para português sobre a Miopia de Marketing do Theodore Levitt para a Harvard Business Review – jul/ago/1960 pode ser baixado neste link.

(3) Também vale a pena ler sobre a importância da criação de serviços de informação centrados nas pessoas em um cenário de abundância de informação  no artigo A “fadiga da carne”: reflexões sobre a vida da mente na Era da Abundância, publicado originalmente na EDUCAUSE Review, vol. 39, no. 2 (March/April 2004). Durante a leitura deste artigo na graduação que foi possível compreender que o foco da atuação em ambientes digitais não deveria ser direcionado para a criação de repositórios e bibliotecas digitais.

(4) O que escrevi no post é um direcionamento de um trabalho de pesquisa maior que envolve o cruzamento de diversas outras referências. Durante os meus cursos realizo uma apresentação com mais exemplos, referências e estudos de caso de práticas orientadas a democratização da inteligência que podemos realizar com nossas técnicas para organização e disseminação da informação.

Como identificar uma pintura usando Google Images

Sobre os dois posts recentes que discutiram o futuro da biblioteconomia, o primeiro do Gustavo e o segundo da Dora, eu tendo a concordar mais com o primeiro do que o segundo, no sentido que, de fato, não há nada que uma máquina não possa fazer melhor do que um bibliotecário. Alguns poucos anos atrás a nossa semântica era superior ao de máquinas, hoje não mais.

Esse mimimi não se restringe à biblioteconomia, tenho certeza que muitas outras profissões discutem a mesma sentença. Neste ano saiu até mesmo aquele manifesto contra a inteligência artificial avançada, assinado por Hawking, Elon Musk, Wozniak, entre outros. Ou seja, a coisa já está mais para Ex Machina do que HAL 9000.

Tem dois exemplos que eu acho ilustram bem o processo de robotização substituindo o trabalho tradicional do bibliotecário. O primeiro é a logística de um dos galpões da Amazon:

A biblioteconomia tradicional pode ser entendida como mais do que organização para recuperação, mas neste quesito específico, que é o que melhor nos difere de outros profissionais, as máquinas já estão na frente. Eu acho que as classificações decimais são a tecnologia mais avançada que pudemos oferecer ao mundo, mas hoje elas já não oferecem um diferencial que um robô não possa emular.

CDD faz completo sentido no mundo físico, com restrição de espaço, mas ela se torna apenas um adereço se o seu catálogo e sistema de busca/recuperação é tão bom a ponto de diminuir o potencial da navegação por entre as estantes e oferecer diversas combinações possíveis para encontrar um determinado objeto.

Vejam o Stack Life que é um sistema de navegação visual das bibliotecas de Harvard e a estante virtual da Universidade de Virgínia, que exibe imagens em alta resolução dos livros como eles teriam aparecido nas prateleiras e usa informação bibliográfica do catálogo de 1828, para permitir pesquisa sobre a coleção dos livros históricos.

Claro que pra isso acontecer e chegarmos a este nível de recuperação da informação foram necessários anos de investimento em metadados e mais outros anos de adequação do algoritmo para oferecer melhores resultados de busca. Mas bem, já passamos dessa fase, os robôs hoje estão propensos a resolver alguns problemas sozinhos com base no acúmulo de informações coletadas a priori, junto de outro volume de informação coletado a posteriori, a partir do de buscas/atividades/intervenções realizadas pelos usuários do sistema. É exatamente assim que funciona todos os algoritmos essenciais que usamos, Google e Facebook especialmente.

Ou seja, novamente, a organização da informação se tornou apenas uma espécie de defesa corporativista: quando toda a área computacional está preocupada apenas em modelos organizacionais a posteriori, com base no input de usuários, a biblioteconomia permaneceu trancada nos modelo a priori, com base na inteligência dos bibliotecários. Ainda é importante para pequenas coisas, mas está na contramão da realidade pragmática do mundo moderno.

O segundo exemplo que eu quero mostrar é como é possível descobrir informações sobre uma obra de arte usando apenas inteligência artificial. Digamos que eu tenha visitado um museu e gostei de um quadro, ou tenha visto uma imagem na internet mas não tenho quaisquer informações sobre ela. Como descobrir o autor, a data, o tema retratado, sem dispor de outra informação além da própria imagem? Pois bem, é possível descobrir utilizando o Google Images e selecionar a pequena câmera no lado direito do botão de busca (conhecida como Pesquisar por imagens).

Esta imagem por exemplo foi rapidamente identificada pela busca reversa do Google, me remetendo a um blog que possuía a descrição completa da obra. Todo o procedimento é realizado artificialmente, sem qualquer necessidade de interpretação semântica, ontológica ou de indexação, apenas aplicando técnicas matemáticas como distância euclidiana e detecção de pontos salientes no objeto.

Uma segunda opção seria submeter a imagem à um sistema crowdsourced, como o Reddit, e deixar que outros humanos, especialistas ou não, pudessem contribuir com novas informações.

Em alguns anos acredito ser possível o mesmo tipo de busca para livros e textos digitais, descobrir informações relevantes e contextuais, sem necessariamente ter um conjunto a priori de descritores ou metadados ou árvores do conhecimento.

Tudo isso para reforçar a ideia de que a robotização sim é capaz de substituir o grosso do trabalho dos bibliotecários em médio ou longo prazo, mas como a Isadora disse, existem ainda várias maneiras de os bibliotecários permanecerem relevantes.

Eu continuo achando que a nossa maior contribuição ao mundo é cada vez mais converter as coleções físicas para o digital e deixar que o pessoal da computação faça o restante do trabalho. Nós somos os melhores profissionais em armazenar e salvaguardar a herança cultural humana e eles vem fazendo melhor trabalho do que nós em termos de recuperação, disseminação e contextualização, do que nós fomos capazes de fazer sozinhos. Ainda teremos uns bons 100 anos em coletar, organizar, definir os metadados elementares, de todos os materiais textuais, visuais e outras mídias que ainda existem fisicamente, e jogá-los na internet para que outros profissionais façam melhor sentido desses objetos.

Fazer exercício de futurologia é necessário, porque do contrário estaremos sempre correndo atrás do tempo perdido. Mas como disse a Marianna, o futuro é agora.