O veneno e suas lições

No dia 23 de fevereiro, quando teve início o aluno letivo na USP, os novos alunos da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, nossa querida FFLCH, encontraram sua biblioteca fechada pelos próprios funcionários, com apoio dos estudantes.

O protesto foi motivado por um caso bastante grave de contaminação por DDT e outros organoclorados encontrados numa grande doação de livros recebida em 2009 (?!). Os funcionários contestavam o tratamento dado ao caso pela direção da Faculdade e chefia da biblioteca, bem como as medidas recomendadas pelos especialistas consultados. Nesta matéria do UOL há links para os documentos da direção da Faculdade do Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp).

Resumindo a história sem me alongar em detalhes escabrosos, os funcionários que manipularam o material relataram sintomas como dor de cabeça, náuseas, sangramento do nariz, dor de garganta, ardência nos olhos, dificuldades respiratórias e problemas na pele.

Em cinco livros da coleção foi encontrado um pó branco que deixou os funcionários bastante preocupados. Isso depois da coleção ter sido higienizada, e aí fico imaginando a qualidade da “higienização” que deixou escapar essas 5 tartarugas. Um laudo do Instituto de Pesquisas Tecnológicas concluiu que os livros estavam contaminados por DDT, DDE e DDI,  bagulhos reconhecidamente perigosos e possivelmente cancerígenos.

A direção da Faculdade solicitou um parecer  “sobre as condições de trabalho envolvendo o contato e manuseio do acervo” a uma especialista em conservação de acervos. Apenas um único parecer, não posso deixar de notar. As recomendações foram consideradas adequadas pelo coordenador de preservação da Biblioteca Nacional que, entretanto, não achou necessário visitar o local. Curiosamente, embora a especialista recomende estabelecimento de “barreiras de contenção” e quarentena, o material estava cercado por um tapume – dentro da biblioteca – com abertura para circulação de ar “pois segundo orientação técnica a vedação completa poderia produzir danos ainda mais insanáveis à coleção”. Por mais tocante que pareça tanto amor e preocupação pelos livros, os funcionários da biblioteca não estavam se sentindo lá muito seguros. A Coordenação de Vigilância em Saúde (Covisa) do município inspecionou o local no dia 24 de fevereiro e também não achou graça na história, pois o tapume não  funciona como isolamento, determinando a retirada dos livros da biblioteca e  várias outras medidas para proteger a saúde dos seres humanos.

A Biblioteca Florestan Fernandes deve reabrir na segunda-feira, dia 2 de fevereiro, após um acordo firmado entre a direção e os trabalhadores, que inclui, surpreendentemente, um pedido de desculpas da Faculdade aos seus funcionários.

Esse pedido de desculpas é o segundo fato que me parece inédito em todos esses anos de brigas que testemunhei na Universidade de São Paulo. O primeiro é o fechamento de uma biblioteca em protesto contra uma ação da administração local. Foi um confronto direto com a chefia e com a diretoria da Faculdade, algo muito difícil de acontecer numa biblioteca da USP, creiam-me. Na verdade, não me lembro de outra ocasião em que isso tenha acontecido. Mesmo durante as greves de funcionários não são muitas as bibliotecas que fecham.

Temos aí uma bela lição para os administradores, que precisam ser mais prudentes  ao receber doações de livros antigos e mais sensíveis às reclamações dos funcionários, para dizer o mínimo. Poder, ao contrário de DDT, pode ser algo muito transitório. E uma lição mais importante ainda para bibliotecários e demais trabalhadores de bibliotecas que gostam de cultivar uma polida submissão à hierarquia, mesmo quando sua saúde pode estar em jogo. Organização e mobilização funcionam. E um pouco de coragem, ao contrário de DDT, não faz mal a ninguém.

Lamento apenas tenha sido necessário fechar uma biblioteca, acionar o Sindicato e chamar as autoridades sanitárias para resolver um problema que, embora difícil e complexo, é da alçada da nossa profissão. Tudo isso, se não me engano, poderia ter sido evitado no simples nível das ações bibliotecárias consequentes.

Vejam aí mais informações sobre o caso.

Matéria na Globo

Post no meu blog

Outro caso envolvendo contaminação por organoclorados.

foto: Propaganda de DDT. Crossett Library, Flickr.

Biblioteconomia: entre a felicidade e a tristeza por graus de separação

A clássica teoria dos seis graus de separação nasceu de um estudo científico, que criou a teoria de que, no mundo, são necessários no máximo seis laços de amizade para que duas pessoas quaisquer estejam ligadas.

Em tempos de ubiquidade, internet das coisas, a noção do que pode ser interconectado mudou drasticamente a forma de enxergarmos fenômenos em rede. Mas a teoria vigora e a todo vapor, inclusive sendo aplicada na web com inúmeras possibilidades (inclusive entre áreas de conhecimento, planos e projetos, assuntos, sentimentos e por aí vai…).

Uma delas que me peguei pensando esse mês e que pode auxiliar nas crises existências na área não auxilia em nada é, a qual distância estamos da felicidade ou da tristeza na Biblioteconomia? Obstinado a encontrar uma possível resposta passei semanas com os mais doutos conhecedores do sentido da vida vasculhando a internet e descobri uma aplicação* que pode ajudar. Após conhecer seu complexo funcionamento e as condições exigidas (ter um coração puro, desviar-se do mal, blá, blá…) para quem faz as perguntas não exitei:

“Uma vez na Biblioteconomia, a que distância estamos da tristeza e da felicidade” ao que obtive a resposta:

BSF1

 

BSF2

 

Como podem perceber, a distância é a mesma. Trata-se de três degraus, é como dizer que você está a três passos para ser feliz ou triste na Biblioteconomia. Mas notem que para se chegar à felicidade é necessário passar pela CDD!

Só não direi que qualquer semelhança é mera coincidência porque isso é ciência. E é por isso que I Fuck… <3 Science!

(*) Solução baseada em artigos da Wikipédia. Para usos acadêmicos de análises de 6 graus de separação de artigos da wikipédia, acesse: Degrees of Wikipedia.

Livros que falam de livros!

Eu, além de bibliotecária, sou apaixonada pelas possibilidades que um livro oferece. Sempre achei fantásticas as histórias em que uma obra é parte central ou muito importante da trama, sempre existe um mistério envolvido que deixa o livro como um objeto precioso e cheio significados ocultos. Há um bom tempo tenho vontade de falar sobre essa temática de leitura tão amada: livros que tem em seu enredo principal livros. Gravei então esse vídeo mostrando os títulos que eu tenho na minha coleção e falei um pouco deles.

Quem souber de outros títulos diga nos comentários!

:)

Como publicar seu livro

Treze anos depois da publicação do meu primeiro livro, e alguns anos depois de ter fechado a minha própria editora, a pergunta que mais respondi desde então foi: como consigo publicar um livro? Escutei isso de pessoas de todas as idades, classes sociais e nível de letramento. Fico feliz pois são todos escritores em potencial. Fico triste pois vejo que eles percebem isso de publicar um livro como algo muito distante de sua realidade. Sempre tento contar minha própria história, mas nem sempre se encaixa. Reuni então dois conselhos, que não são diferentes dos que se pode encontrar googleando por aí. Apenas são meus. E apresento alguns caminhos para a publicação. Também é preciso dizer que, curiosamente, o curso de biblioteconomia não ensina ninguém a publicar um livro. Seria interessante se o fizesse, não acham?

1. Tenha um livro. Pode parecer brincadeira, mas a verdade é que a maioria das pessoas que querem publicar um livro na realidade não tem nenhum livro. Senti isso na pele quando tive a editora Baluarte. As pessoas não escrevem livros, até possuem ideias boas, mas escrever, escrever, nada. Assim, você não tem o que publicar e ficará sempre a ver navios quando surgirem as oportunidades. Então, o conselho gratuito é: tenha um livro.

2. Você tem um livro. Acredite no seu livro. Claro que existem livros ruins. Porém, você não vai ficar meses, anos, debruçado em algo que no fim ficará ruim, correto? Então os livros ruins que existem, existem por conta dos seus responsáveis. Não é o caso do seu livro. Ainda assim, os próprios autores nem sempre acreditam no que escreveram. Basta ver que sempre que um grande autor morre saem publicações póstumas que em vida foram rejeitadas pelo próprio autor. Por isso, acredite no seu livro. Ele é fruto do seu esforço, do seu suor. Ele é bom.

Agora que você tem um livro, e acredita nele, sabe que deve publicá-lo. Por que razão guardar só para você? Existem vários caminhos para publicar um livro. Alguns curtos, outros mais curtos ainda, e alguns longos, bem longos. Cabe a você avaliar o que você espera.

1. Auto-publicação. Nunca foi tão fácil e barato se auto-publicar. É o caminho mais rápido para ser publicado. Temos editoras que imprimem por demanda, o que diminui bastante o preço para o autor, embora encareça um pouco o preço do exemplar. Essas editoras também se responsabilizam por vender os livros, o que também ajuda bastante. Outra opção é publicar eletronicamente pela Amazon. Grandes autores já começam a migrar para a Amazon enquanto editora e, quem sabe, em algum tempo ela será também a principal editora de livros do mundo. A facilidade de vender livros é uma vantagem e tanto.

2. Crowdfunding. Financiamento coletivo é algo mais antigo que se pensa. Mas com a possibilidade de se espalhar pela Rede, o negócio ficou sério e temos de atletas a artistas pedindo recursos aos seus fãs e amigos. E isso serve para livros também. É uma boa opção para quem não tem recursos para se autopublicar. É possível através do financiamento coletivo arrecadar uma boa grana e contratar grandes profissionais para trabalhar o livro, desde o design até estratégias de marketing e relacionamento. Essa é a vantagem desse método na minha opinião, porém pode demorar muito para atingir o valor necessario e pode, simplesmente, não atingi-lo. Também, pelo que li, alguns autores que se utilizaram disso comentaram que acabam tendo que complementar os custos com recursos próprios. Então acaba batendo no próprio bolso. Para entrar no crowdfunding de livros, creio que seja interessante apenas com um bom projeto que vá precisar de outros profissionais.

3. Editais Municípios, Estados e a União, por meio de órgãos e fundações, e também empresas públicas e privadas, costumam lançar editais destinados a fornecer recursos para a publicação de obras literárias. É uma forma de se conseguir recursos para fazer um bom projeto. A vantagem é que neste caso é possível arrecadar o suficiente para não precisar tirar muito do próprio bolso. É preciso ficar sempre de olho nos editais e obedecer às regras e burocracia.

4. Concursos literários. É uma forma que considero desgastante. Você submete seu livro para uma comissão que você não sabe se irá ler mesmo ou não. É algo muito subjetivo. Eu como autor nunca participei. Porém vale a pena se você não liga pra isso. Existem vários tipos de concurso para cada tipo de literatura. Até mesmo a FEBAB já realizou um concurso desse tipo. Se quiser ver seu livro publicado, vale a pena participar.

4. Editoras e agentes literários. Não é por acaso que está em último lugar. Para mim, é a forma menos indicada para se publicar um livro, ainda mais nos dias atuais e especialmente se você for um autor iniciante. 99% das editoras sequer olham originais não solicitados. As que olham, é apenas para cumprir tabela. Então para chegar numa editora é preciso ter alguém que faça essa conexão, que são os agentes literários. Que também não são fáceis. A vantagem de se publicar por uma editora é que ela vai fazer de tudo para vender seu livro. E isso para um autor é o máximo. Na nossa área, as editoras praticamente imploram por livros. Basicamente temos dois tipos de livros: coletâneas de artigos e trabalhos acadêmicos. Faltam na nossa área livros mais básicos, introduções, manuais, livros de crítica, livros de reflexão, livros sobre a carreira biblioteconômica. Precisamos escrever mais.

Existem outras formas e meios. Coloquei os que eu considero mais interessantes no momento.

Escrevam. Publiquem.

Violência na biblioteca

Outro dia Marina publicou no facebook uma ocorrência policial na biblioteca:

Usuário esquece a chave na mesa. Malandro pega a chave, abre o armário e vai embora com a mochila alheia! Funcionários têm um suspeito. Guarda universitária é acionada, o indivíduo é localizado, a mochila recuperada. Ufa. Cuidado, pessoal, essas coisas acontecem e nem sempre o final é feliz.

Nós passamos muito tempo na biblioteca. Na maioria das vezes, é tudo tranquilo, com apenas os sons de pessoas sussurrando, o estalido de dedos em teclados de computador, o som ocasional de espirros ou shiiii. Mas outras vezes, há o som da violência, pessoas gritando vulgaridades, doentes mentais agitados, usuários que discutem com seguranças sobre beber no edifício ou ter relações sexuais nos banheiros, e até mesmo colegas bibliotecários se estapeando (por que não?).

Não tenho números oficiais ou relatórios de segurança em bibliotecas, nas principais cidades, nos últimos anos, mas sabemos que incidentes são comuns, incluindo aí atividade criminosa, roubo, vandalismo, distúrbios, pornografia nos computadores de uso público e má conduta geral dentro de bibliotecas públicas e universitárias ao redor do país.

De casos recentes, para ilustrar, três baleados na Biblioteca Nacional de Brasília, porradaria na Biblioteca Nacional do Rio, porradaria em biblioteca de escola particular no Rio, porradaria em biblioteca pública em Guaíra, porradaria em biblioteca pública de Curitiba, estudante de biblioteconomia que furta obras raras, e por aí vamos.

Estou supondo que as bibliotecas com maior tráfego de usuários sejam as com número de distúrbios proporcional, casos em que os guardas de segurança ou a polícia local tiveram que intervir. Em suma, a maioria dos incidentes nas bibliotecas são benignos, mas elas não são imunes ao crime (como alertou Marina). Mesmo em espaços geralmente considerados seguros para visitar, reunir, aprender e explorar, seguros inclusive para crianças, os relatos entre colegas falam de pedofilia, drogas e brigas.

Vale lembrar que em muitas cidades não há outras instituições na área que recebem o número de visitantes que as bibliotecas recebem, mas mesmo assim, muitas não contam com vigilância ou dispositivos de segurança.

A verdade meus caros, é que não restam mais locais seguros, pra nós sair de casa já é se aventurar e estamos entregues à própria sorte. Uma característica marcante da biblioteca é a sua política de portas abertas, favorecendo o acesso à informação para todos, mas além de aberta é importante garantir que a biblioteca seja também segura. Por esta razão, é necessário reconhecer os casos típicos de violência e crime na biblioteca e estar preparado para lidar com eles. Um problema que não é ensinado no curso de biblioteconomia.

Com base em situações de risco (material e humano), perda e roubo, gestores de biblioteca podem formular um plano de segurança. Infelizmente, não encontrei orientações ou artigos sobre segurança e violência em bibliotecas. Há um diretriz da ALA sobre Segurança em bibliotecas. Seria legal também saber o que outras bibliotecas têm feito em relação à ocorrências policiais e se elas possuem alguma normativa sobre isso. Alguém teve alguma ocorrência recentemente ou desenhou uma política de segurança para a biblioteca?

Visibilidade das revistas de CI nas mídias sociais

Contribuição do Ronaldo Ferreira de Araújo:

Sabemos que aspectos de visibilidade e impacto são questões centrais na comunicação científica, praticamente indissociáveis, especialmente quando se fala em avaliação de periódico científico. A primeira geralmente está associada ao reconhecimento da revista e a qualidade e credibilidade que obtém em determinada comunidade científica e CLARO, estar indexada em bases/índices de prestígio nacionais e internacionais. A segunda, por sua vez, é pensada nas tradicionais métricas de citação.

Mas pensando nos rumos de uma ciência aberta ou ciência 2.0 já não estaria na hora de repensar tais critérios, e porque não, incluir as novas maneiras que a informação científica passa a circular na websocial? Já tivemos aqui postagens do Moreno, Andréa e Iara sobre altmetrics (métricas alternativas) para artigos, buscando compreender a atenção online que estes alcançam. Mas e a atenção que as revistas recebem?

Aqui, com uma metodologia duvidosa e um pouco de ócio de férias, levantamos por meio de parametrizações em Application Programming Interface – APIs das mídias sociais Facebook e Twitter o alcance de 28 (URLs) revistas da área de CI. Os dados podem ser visto na Gráfico 1 (até 100) e no Gráfico 2 (acima de 100).
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Gráfico 1 – Revistas por mídia social (até 100)

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Gráfico 2 – Revistas por mídia social (mais de 100)

Se olharmos os gráficos vamos perceber que umas revistas tem melhor desempenho em determinada mídia social que outra. Não há aqui nenhuma análise profunda, o intuito mesmo era passar o tempo. Mas achei interessante notar que, no geral, revistas com avaliação mais elevadas, recebem menos atenção online. O que acham?

Relação das revistas

  • R1 BIBLOS – Revista do Instituto de Ciências Humanas e da Informação
  • R2 Brazilian Journal of Information Science
  • R3 Em Questão: Revista da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS
  • R4 Informação & Tecnologia
  • R5 Informação Arquivística
  • R6 Bibliotecas Universitárias: pesquisas, experiências e perspectivas
  • R7 Informação & Informação
  • R8 RECIIS: Revista Eletrônica de Comunicação, Informação e Inovação em Saúde
  • R9 Perspectivas em Ciência da Informação
  • R10 Revista ACB
  • R11 Intexto
  • R12 Encontros Bibli: Revista Eletrônica de Biblioteconomia e Ciência da Informação
  • R13 A. to. Z. Revista Eletrônica
  • R14 Comunicação e Informação
  • R15 Informação@Profissões
  • R16 Múltiplos Olhares em Ciência da Informação
  • R17 Ciência da Informação
  • R18 InCID: Revista de Ciência da informação e Documentação
  • R19 Transinformação
  • R20 Biblionline
  • R21 Informação & Sociedade: Estudos
  • R22 Ponto de Acesso
  • R23 Liinc em revista
  • R24 DataGramaZero
  • R25 Tendências de Pesquisa Brasileira em Ciência da Informação
  • R26 Revista Biblioo
  • R27 Perspectivas em Gestão & Conhecimento
  • R28 Revista Brasileira de Biblioteconomia e Documentação