DSCN4537

USP, greve e bibliotecários

Neste momento preciso de minha vida profissional, sou uma bibliotecária em greve. Não é a primeira vez – na verdade deve ser a trigésima primeira greve da minha carreira – e duvido muito que seja a última.

Quem nunca fez greve na vida e morre de curiosidade para saber como é a coisa, ou simplesmente tem interesse acadêmico específico nos mecanismos que regem as greves na Universidade de São Paulo, pode encontrar informações acuradas dignas da bibliotecária que sou no meu blog,  Dia de Greve, Dia de Trabalho. Comecei esse blog na greve de 2010 da USP e não parei mais.  Mas não escrevo apenas sobre greve, até porque nossas greves, afortunadamente, não duram tanto assim.

Neste momento as três universidades estaduais paulistas estão em greve, basicamente por reajuste salarial,  mas não só por isso. Nunca é só por isso, mas geralmente é assim que começa: funcionários e professores reivindicam X de reajuste, recebem metade de X ou não recebem nada, como aconteceu conosco desta vez. Reajuste zero. Tudo sobe, o plano de saúde, a escola das crianças, o aluguel, a prestação da casa etc. Mas o salário permanece igual.

De acordo com o Conselho dos Reitores das Universidades Paulistas, que chamamos pela simpática sigla CRUESP, o reajuste não é possível porque não há dinheiro. A principal culpada pela dureza acadêmica é a assim chamada crise financeira da USP, cuja folha de pagamento estaria consumindo 105 por cento de sua receita. Portanto, a USP estaria  vivendo de suas reservas que, obviamente, teriam data certa para acabar: depois que acabar a água da represa da Cantareira, destruída pela sinistra incompetência do governo paulista, o mesmo que escolhe os reitores das universidades. A água dizem que vai acabar em agosto, as reservas da USP ainda duram mais um pouco.

A Folha de São Paulo, mais do que depressa, já vem com a eterna solução: cobrar mensalidades dos alunos, acabando de vez com qualquer chance de um jovem de família pobre entrar na preciosa Universidade de São Paulo, para todo sempre destinada a ser propriedade da elite.

A Folha, assim como uma assombrosa quantidade de seres humanos e veículos de comunicação, apresenta como verdade inquestionável a sangria de 105 por cento que ocorre segundo quem? Ora, segundo a Reitoria da mesma instituição na qual se dizia, até o ano passado, que “a USP tem dinheiro sobrando”, “dinheiro não é problema” e até mesmo “vocês precisam gastar mais dinheiro”, uma instituição cujo discurso dominante fazia o funcionário que não “gastava dinheiro” sentir-se incompetente, porque se as coisas não iam bem, certamente não era por falta de verba. O atual reitor culpa a gestão anterior que, de fato, não primava pela sobriedade, mas não podemos esquecer que é a mesma universidade. As pessoas que a dirigiam antes não morreram todas de repente e foram substituídas por alienígenas criados em vagens gigantes, certo?

Então, como saber se realmente a folha de pagamento está consumindo 105 por cento da verba e se a USP está à beira da catástrofe? Simplesmente não dá para saber, porque não temos acesso às contas da Universidade. E se não temos como contestar, também não vejo motivos para acreditarmos piamente.

Neste vídeo de um debate com representantes da Associação dos Docentes da USP sobre os números divulgados pela Reitoria, os professores Otaviano Helene e Ciro Teixeira Correia questionam as vozes oriundas do Olimpo com informações que jamais aparecem na grande imprensa. O vídeo é longo e não está editado, por isso vou destacar alguns trechos. De acordo com esses docentes rebeldes:

  •  tivemos perdas reais de poder aquisitivo de 7 por cento, contando apenas os efeitos da inflação (03:05);
  • os números do crescimento do ICMS não indicam a catástrofe financeira que está sendo anunciada (05:36);
  • O gráfico distribuído pela Reitoria que mostra a diminuição das reservas da USP contém um erro que faz a situação parecer pior do que é de fato (11:28).
  • se os gastos excessivos da gestão anterior forem contidos, a situação financeira da USP estará equilibrada em um ou dois anos, sem necessidade de arrochar salários (12:55).
  • o impacto do reajuste salarial sobre as contas da USP não é tão grande quanto dizem (13:50).
  • na proposta orçamentária para 2014 aprovada pelo Conselho Universitário da USP já estava previsto o reajuste dos professores e funcionários (23:17).
  • dados da reitoria sobre a “queima orçamentária” não consideram rendimentos de aplicação das reservas e nem as receitas próprias da Universidade (28:50).
  • despesas com obras em andamento – que ninguém sabe o que são e porque foram feitas – e “restos a pagar de 2013” presentes na previsão orçamentária para 2014 equivalem a quase duas folhas de pagamento (30:54).
  • O comprometimento da verba com a folha de pagamento não é o que está sendo dito (36:00).
  • Contribuição previdenciária é o que pode estar aumentando o comprometimento da verba, e não os reajustes salariais, mas os dados sobre isso não estão abertos para a comunidade (38:15).
  • O governo não repassa todos os recursos que são arrecadados com fonte ICMS: os juros de refinanciamento de pagamentos atrasados, por exemplo, não entram na conta; para as prefeituras o repasse é feito, mas não para as universidades (45:30).

Muito do que se diz nos meios de comunicação sobre a USP é engolido com facilidade pela população, graças à fama de elitista e arrogante que a instituição carrega, fama até certo ponto justificada. Em todas as nossas greves, quando somos invariavelmente atacados pelo discurso contrário à universidade pública que domina a imprensa, discutimos a necessidade de ações que mostrem para a população a real importância da Universidade e do conhecimento que ela produz. Mas isso nunca acontece. Parece que a questão só interessa à parcela da população uspiana que faz greve, e essa turma não manda nada. E os poucos que passam eventualmente a mandar, mudam rapidamente suas prioridades.

Bibliotecários poderiam ter um papel importante nessa briga, considerando nossa habilidade para buscar, analisar e transmitir informações, além do fato de ocuparmos posição privilegiada entre o universo do trabalhador “peão” e o mundo dos pesquisadores. Somos funcionários, vivemos com os pés no mundo real, sabemos o que é uma licitação e porque demora tanto para comprar um livro ou consertar uma janela, mas também circulamos com tranquilidade no espaço onde se produz o conhecimento acadêmico, sabemos de onde sai uma tese e temos um papel claro bem claro nesse processo. Além disso, somos muitos: cerca de 400, se não estou enganada.

Mas também não mandamos nada. Vivemos condicionados pela “mecânica de obediência vertical ao poder central”, expressão usada pelo professor Andrian Pablo Funjul na Folha de São Paulo que explica maravilhosamente as relações de poder na USP. Temos nossas chefias de biblioteca, que só não decidem tudo sozinhas se não quiserem, porque nada as impede, e o Departamento Técnico do Sistema de Bibliotecas, cujas prioridades podem ser decididas pela vontade de quem o chefia, sem que exista nenhum mecanismo institucional eficiente para evitar isso.

Bibliotecários não costumam atuar politicamente enquanto categoria dentro da USP, a não ser em questões bastante pontuais, como o movimento que fizemos há alguns anos para barrar a imposição de um software para o Banco de Dados Bibliográficos da USP.

Muitas bibliotecas da USP estão fechadas por causa da greve. Não dá para saber quantos bibliotecários estão em greve, porque algumas bibliotecas fecham porque os técnicos entram em greve. Tenho visto muitos bibliotecários participando das atividades de greve, mas ainda são poucos em relação à quantidade de bibliotecas que está fechada. Dizem alguns colegas que muitos estão trabalhando atrás das portas fechadas de suas bibliotecas e outros, provavelmente, foram para suas casas. É uma pena, porque um momento de greve seria uma excelente oportunidade para nos encontrarmos, discutirmos nossos problemas específicos e encontrar uma forma de atuarmos politicamente na Universidade. E fazer nossa voz ser ouvida, para variar um pouco. Mas, lamentavelmente, nem temos uma liderança capaz de articular o pessoal.

Mas esta greve ainda não terminou. Nem a USP. Nem as bibliotecas. Ainda temos algum tempo.

315732190_38ef8866b6_b

O que causa o cheiro de livros novos e velhos?

Todo mundo está familiarizado com o cheiro de livros antigos, o perfume estranhamente inebriante que assombra bibliotecas e sebos. Da mesma forma, quem não gosta de folhear as páginas de um livro recém-adquirido e respirar o aroma fresco de papel novo e tinta recém-impressa? Tal como acontece com todos os aromas, as origens podem ser traçadas a um número de constituintes químicos, e permitir o exame dos processos e compostos que podem contribuir para as duas causas.

Quanto ao cheiro de livros novos, é realmente muito difícil identificar compostos específicos, por várias razões. Em primeiro lugar, parece haver uma escassez de pesquisa sobre o assunto – para ser justo, é compreensível que o tópico não esteja exatamente no alto da lista de prioridades científicas. Em segundo lugar, a variação dos produtos químicos utilizados para a fabricação de livros também significa que se trata de um aroma que varia de livro para livro. Adicione a isso o fato de que existem literalmente centenas de compostos envolvidos, e torna-se mais claro por que ele foge da atribuição a uma pequena seleção de produtos químicos.

É provável que a maior parte do “cheiro de livro novo” possa ser atribuído a três fontes principais: o próprio papel (e os produtos químicos utilizados na sua fabricação), as tintas utilizadas para imprimir o livro, e a cola utilizada no processo de encadernação de livros.

O fabricação de papel requer a utilização de produtos químicos em várias fases. Grandes quantidades de papel são feitas de polpa de madeira (mas ele também pode ser feito a partir de algodão e tecidos) – produtos químicos tais como hidróxido de sódio, muitas vezes referido como “soda cáustica”, podem ser adicionados para aumentar o pH e fazer com que as fibras na polpa inchem. As fibras são, em seguida, branqueadas com um número de outras substâncias químicas, incluindo peróxido de hidrogênio; em seguida, são misturadas com grandes quantidades de água. Esta água vai conter aditivos para modificar as propriedades do papel – por exemplo, AKD (dímero de alquilceteno) é comumente usado como um “agente de cola” para melhorar a resistência do papel à água.

Muitos outros produtos químicos também são utilizados – esta é apenas uma visão geral sobre o processo. O resultado disso é que alguns destes produtos químicos podem contribuir, através de suas reações ou não, para a liberação de compostos orgânicos voláteis (COV) para a atmosfera, os odores que podemos detectar. O mesmo é válido para os produtos químicos utilizados nas tintas, e as colas utilizadas nos livros. Um número de diferentes colas são usadas ​​para encadernação de livros, muitas das quais são baseadas em orgânicos dos “co-polímeros” – grandes números de pequenas moléculas quimicamente interligadas.

Como dito, as diferenças de papel, adesivos e tintas utilizadas influenciam o “cheiro novo livro”, por isso nem todos os novos livros cheiram igual – talvez a razão porque nenhuma pesquisa ainda tentou definir conclusivamente o aroma.

Um aroma que tem tido muito mais pesquisas realizadas em torno dele, no entanto, é o de livros antigos. Há uma razão para isso, já que tem sido investigado como um potencial método para avaliar a condição de livros antigos, através do monitoramento das concentrações de compostos orgânicos diferentes que eles emitem. Como um resultado, nós podemos ter um pouco mais de certeza sobre alguns dos diversos compostos que contribuem para o aroma.

Geralmente, é a degradação química de compostos dentro do papel que leva à produção do “cheiro de livro antigo”. O papel contém, entre outras substâncias, celulose, e quantidades menores de lignina. Ambos são originários das árvores a partir do qual o papel é feito; papéis finos contêm menos lignina do que, por exemplo, papel de jornal. Em árvores, a lignina ajuda as fibras de celulose a se unirem, mantendo a madeira dura; também é responsável pelo processo de amarelado no papel com a idade, já que as reações de oxidação causam a decompor-se em ácidos, que, em seguida, ajudam a quebrar a celulose.

O cheiro de livro velho é derivado dessa degradação química. Documentos modernos de alta qualidade serão objetos de processamento químico para remoção da lignina, mas a quebra de celulose no papel ainda pode ocorrer (embora a um ritmo muito mais lento) devido à presença de ácidos nos arredores. Estas reações, referidas geralmente como “hidrólise ácida”, produzem uma ampla gama de compostos orgânicos voláteis, muitos dos quais podem contribuir para o cheiro de livros antigos. Um número selecionado de compostos tiveram suas contribuições identificadas: benzaldeído adiciona um aroma de amêndoas; vanilina adiciona um aroma de baunilha; etilbenzeno e tolueno comunicam cheiros doces; e 2-etilhexanol tem um contributo ligeiramente floral. Outros aldeídos e álcoois produzidos por essas reações têm baixos limiares de odor e também contribuem.

Outros compostos emitidos foram marcados como úteis para determinar a extensão da degradação de livros antigos. O furfural é um desses compostos, mostrado abaixo. Ele também pode ser usado para determinar a idade e composição de livros, com livros publicados após os meados dos anos 1800 que emitem mais furfural, e a sua emissão geralmente aumentando com o ano de publicação relativa aos livros antigos compostos por algodão ou papel de linho.

340px-Furfural_structure.svg

Assim, em conclusão, como acontece com muitos aromas, não podemos apontar um composto específico, ou a família de compostos, e afirmar categoricamente que ele é a causa do cheiro. No entanto, podemos identificar potenciais contribuintes, e, em particular, no caso do cheiro de livro velho, foram sugeridas uma série de compostos. Se alguém é capaz de fornecer mais informações sobre o “cheiro de livro novo” e suas origens, seria ótimo para incluir alguns detalhes mais específicos, mas eu suspeito que as grandes variações no processo de produção do livro fazem deste um pedido difícil.

No meio tempo, se você é incapaz de resistir ao cheiro de livro novo ou velho, vai gostar de saber que uma empresa tem produzido uma série de aerossóis destinados a replicá-los, embora eles já não parecem estar disponíveis para compra. Alternativamente, se você mesma quiser cheirar como um livro, parece que o aroma também está disponível em forma de perfume.

[tradução de What Causes the Smell of New & Old Books?]

cheiro de livro

DSpace_logo

DSPACE 4: Vale a pena migrar?

Já faz um tempinho que saiu a versão 4 do DSPACE. Uma nova versão normalmente traz diversas melhorias, porém também é necessário considerar que o DSPACE é um sistema de difícil atualização por conta das customizações necessárias. Este post vai tentar ajudar a refletir sobre a atualização para esta nova versão.

Novidades

Confiram o Release Notes completo. Destes, destaco:

  1. Índices agora estão integrados ao Discovery como padrão: Na versão 3, os índices eram gerados pelo Lucene e a busca usava o Discovery. A argumentação é que o Discovery é mais rápido e ainda fica mais fácil para gerenciar.
  2. Importação utilizando diversos formatos de metadados em lote, como por exemplo bibtex, csv, tsv, endnote e RIS
  3. JSPUI: O JSPUI é a interface que recebeu a maior quantidade de melhorias, como a adaptação ao Bootstrap, processo de submissão que permite uma consulta prévia a bases como a Crossref e PUBMED para importação de parte dos metadados, e interface do SHERPA para exibir a política da revista durante o processo de submissão
  4. Melhoria na ferramenta de EMBARGO
  5. Melhorias para a indexação correta no Google Scholar

O JSPUI já está completamente traduzido, numa tradução que iniciei e foi corrigida e completada pela equipe do IBICT.

Correções

Agora os módulos OAI e SWORD estão funcionando corretamente. Mas versões anteriores apresentavam problemas que foram agora corrigidos.

JSPUI vs. XMLUI

Até a versão 3, é notório que o XMLUI era a interface mais completa do DSpace. Na versão 4, o JSPUI incorporou todas as funcionalidades do XMLUI e ainda trouxe as funcionalidades novas já mencionadas. Neste momento, com todas as funcionalidades e pela facilidade em se trabalhar no desenvolvimento em JSP, eu recomendo a escolha do JSPUI. Mas é claro que esta escolha tem que ser feita levando em consideração a característica da equipe que irá trabalhar no repositório.

Dublin Core

Nesta versão, foi adicionado um novo esquema de metadados Dublin Core, o dcterms. Fiz um gráfico para mostrar as diferenças e semelhanças entre os dois esquemas:

Dublin Core Dspace 4

Para migração de versão, não é necessário usar o novo esquema, dá para optar em manter somente os metadados já definidos.

O processo de migração

Se você vai iniciar um novo projeto, já recomendo optar pelo DSPACE 4.
Mas como a maioria dos casos é de atualização, a recomendação é seguir a documentação.
É importante lembrar que alguns comandos mudaram e é necessário se adaptar. A única consideração importante é que o discovery considera a tabela coluna discoverable da tabela item na indexação. (perdi uma semana para descobrir isso, e impacta diretamente em quantos registros são indexados.)

Lista de discussão

Ainda tem dúvida, poste ela na lista de discussão DSPACE-Brasil que sua dúvida poderá também ser a dúvida de outros participantes da lista, fomentando uma discussão interessante.

Links úteis

Documentação da versão 4
Bootstrap
All About DSpace 4 – Improved Interfaces for Man & Machine

8746953049_b3b2648468_o

Qual sua experiência inesquecível na biblioteca?

No dia do bibliotecário escrevi a experiência mais emocionante que tive como bibliotecário, quando auxiliei um senhor a encontrar a nomeação do filho no diário oficial. Ele ficou tão feliz que eu senti que o meu fazer diário é a coisa mais importante do mundo.

Lancei a pergunta no facebook: qual a sua experiência mais emocionante na biblioteconomia? Aquela que ainda hoje você lembra com um palpitar diferente no coração?

Bibliotecários e bibliotecárias participaram e responderam sobre suas boas lembranças na profissão.

Interessante notar como 100% das experiências tratam simplesmente de ajudar uma outra pessoa. Será que nascemos ou nos tornamos bibliotecários? Creio que pessoas profundamente egoístas ou possessivas tenham dificuldades na nossa profissão. Fico imaginando que já cheguei a emprestar livros particulares para usuários da biblioteca (com o coração na mão, claro, mas devolveram :D). Uma característica que considero comum em bibliotecários é o altruísmo puro e simples de ajudar sem esperar na em troca. Claro que somos pagos para isso, estamos na biblioteca para ajudar, porém nem todos são vocacionados para isso.

As experiências relatadas aqui, como numa técnica do incidente crítico diferente, mostram que todos precisam de ajuda em maior ou menor grau.

Nelson, empreendedor da biblio, mostrou como um bibliotecário é fundamental para a inovação

A uns 2 anos atrás uma pessoa procurou ajuda na biblioteca publica registrar uma invenção. Expliquei todos os passos, a quem procurar, e como proteger a sua idéia. Um ano e meio depois a pessoa voltou para agradecer e dizer que ja havia encontrado uma indústria para produzir a sua idéia. Esta oportunidade de acreditar nos sonhos das pessoas e velos realizados é incrível.

Aline Costa contou sobre uma atividade que, creio, todos os bibliotecários já passaram que é ajudar na alfabetização e no incentivo à leitura para crianças.

“Sem dúvida nenhuma foi quando eu levava a Biblioteca nas zonas rurais de uma cidade do interior mineiro. As crianças ficavam ansiosas esperando o dia que eu iria lá. Trabalho super gratificante!!!”

Lucélia Mara Serra também vai nesse sentido, mas voltado a educação de adultos.

“Em um curso de pesquisa científica ter em sua maioria agricultores que não sabiam nem pegar no mouse. Ensinei informática básica e pude tranquilamente mostrar o que é ciência depois. Quando lembro que pude mudar a vida deles, me emociono.”

Rai Lima contou um pouco sobre a rotina de bibliotecas jurídicas, e lembrou de trabalhar com pessoas que gostam de ler

“Gustavo Henn, todos os dias, sempre que consigo realizar a pesquisa solicitada pelo usuário. Ontem mesmo um amigo estava há tempos em busca de uma resolução do CNDU, que já tinha perdido as esperanças. Qdo avisei que tinha enviado para que já tinha enviado para o e-mail dele a grata surpresa aliada ao muito obrigada e a certeza de saber que se resolve é td de bom!!!! Mas… a lembrança da biblioteca da AABB sempre cheia em pleno domingo com leitores ávidos por mais literatura de boa qualidade é o que mais me emociona. Por eles a biblioteca funcionária 24h.”

Tiago Marçal Murakami me encheu de orgulho ao compartilhar esse pequeno roteiro de filme, mostrando como profissionais podem ser fundamentais exemplos para os jovens.

“Trabalhava no CEU Butantã e tinha um menino que ia todo dia na Biblioteca, o Marquinhos. Ele ia, algumas vezes com o seu irmão mais velho e ficava a tarde toda na biblioteca. Um dia ele apareceu de manhã, ele falou que não tinha aula. No dia seguinte, apareceu de manhã de novo. Questionei e ele falou que abandonou a escola por causa de uns meninos que queriam pegar ele. Todo dia que ele aparecia lá eu enchia ele para que ele voltasse a estudar, que era importante para ele. Ele ia para jogar no computador, as vezes jogava xadrez comigo e eu comecei a dar alguns livros para ele e ele curtiu. Dai eu fui trabalhar em outra biblioteca, em São Bernardo do Campo. Como São Bernardo é longe, ia todo dia muito cedo para lá. Um dia encontrei o Marquinhos no ônibus bem cedo. Me disse que tinha me ouvido e tinha voltado a estudar, e agora estava indo trabalhar. É um tipo de coisa muito boa de se ouvir.”

Moreno Barros mostra como o espaço biblioteca pode servir às pessoas muito além do que livros, e sim dignidade.

“sempre que chegava um gringo na BU eu era intimado a interagir. um deles queria simplesmente autorização para colar um cartaz no mural da bbteca. o cartaz era sobre cursos de inglês que ele tava tentando dar pra pagar as despesas (não era um gringo play, era um inglês fudido de meia idade que veio pro brasil em um outro trabalho que não deu certo e tava tentando a sorte antes de voltar duro). ele perguntou se podia usar as salas de estudo da bbteca para estudar e lecionar. eu falei que não tinha problema algum. meses depois ele apareceu para agradecer e se despedir. disse que tava indo voltar pra sua família, que não via a filha há muitos meses e que graças as aulas ele conseguiu juntar a grana da passagem e zerar o investimento perdido vindo pra cá. tem outra tb de um cara que apareceu na cartografia da BN querendo um mapa antigo do Rio para provar que ele não precisava pagar o laudêmio da Marinha, se não ele teria que vender a casa para poder pagar as dívidas. conseguimos um mapa e ele ganhou o processo.”

Lucio Dias Cara conta como a nossa profissão além de ganha-pão é muito gratificante por proporcionar o crescimento intelectual das pessoas e oportunidades de filhos ensinarem algo aos pais,

“tinha um estágio na Fundaj para pagar as farras de sexta no bar do Bigode e os lanches do Beloto todo mês (os bibliotecários pernambucanos entenderão) pois bem comecei a fazer pesquisas no estágio pra gente de outros países por e-mail, o cara mandava as páginas que ele queria saber do conteúdo nas obras raras para ver se estava de acordo com outros livros mais novos… O ponto chave disso tudo, quando eu comecei a ver que estava no caminho certo foi quando um menino de 12 anos chegou com seu pai na biblioteca, logo perguntei que livro ele queria pois o acervo era fechado, o menino insistiu para ir nas estantes e eu deixei, ele pegou um livro de história e sentou com seu pai, eles passaram horas lá e depois voltaram algumas vezes. Certo dia fiquei curioso pra saber o que tanto eles faziam e o menino simplesmente me disse que lia para o seu pai que era analfabeto. Nesses tempos aqui na UFPB tive o privilégio de conhecer 2 caras gente boa pacas. Um pai e o seu filho, galera carente que chegou na universidade com suor e lágrimas. O filho cursa direito e o pai vendo seu filho na universidade fez vestibular pra filosofia e os dois estudam juntos na biblioteca. É por essas e outras que nossa profissão é gratificante.”

Amanda Luna nos lembra que na hora H o conhecimento técnico faz toda diferença para uma aprovação

“Ajudar um aluno a concluir uma dissertação, ajudando a normalizar(apenas) e o mesmo voltar na biblioteca, te chamar só pra dizer ” você salvou a minha vida”, não teve preço! ahahahahahha”

Alba Monteiro Coelho Silveira entrega que todo bibliotecário tem um pouco de ator

“Quando trabalhei numa biblioteca infantil e as crianças bem pequenas faziam um grande barulho e eu comecei a contar uma estorinha dos três porquinhos e eles foram se calando e AREGALAVAM OS OLHOS A CADA PARTE DA HISTÓRIA!”

Adriana Quincoses me emocionou mostrando em poucas linhas como a memória registrada é fundamental para a vida de todos.

“Há dois anos orientei uma pessoa a pesquisar no google sobre o próprio nome . Ele não tinha intimidade com a internet então fiz a pesquisa e seus olhinhos brilharam pois na pesquisa apareceram vários títulos que ele escreveu e não lembrava mais. Me senti muito bem em proporcionar minutos de alegria para o professor Lepargneur 87 anos!”

Vanessa Ribeiro conta que a relação de confiança entre o bibliotecário e o leitor nasce de várias formas

“Ao longo da vida presenciamos muitas lembranças. Mas a sensação única de saber que vc incentivou a leitura. Isso não tem preço. Trabalho em uma escola e tem uma menina de 7 anos que não queria pegar livro pq era chato e doia seus olhos. Sentei ela no meu colo e conversamos muito. Liguei para a mãe e falei pra mãe dela o que houve. No outro dia ela me abraçou e disse que iria ler. Pq ela não queria me decepcionar. Até chorei. Tem prazer maior.”

Sheila Alves contagiou seus amigos com tanto amor pela profissão e trouxe novos membros para a biblioteconomia

“Meus olhos brilham ao lembrar do quanto disseminei meu amor a esta linda profissão a ponto de incentivar, agora colegas de profissão, a entrar nesta área..mesmo quando pareciam esmorecer eu lhes mostrava sempre o lado bom…hoje são excelentes profissionais outros ainda estão no preparo, mas já tem um olhar diferente de nossa amada profissão né Paloma Santos, Ingrid Zahlouth e Josiel Queiroz e tantos tantos outros que passaram a valorizar nossa profissão pelo simples fato de eu exerce com amor cada gesto!”

Gracy Martins faz o moinho girar ao ver um aluno seguir o seu próprio caminho

“Quando entrei pela primeira vez na sala de aula, alguns anos mais tarde do que deveria, com dois filhos e em meio aos conflitos pessoais da época, senti uma emoção indescritível. A sala não tinha quase ninguém ainda e ali vi meus sonhos e esperanças se renovando. A biblioteconomia mudou minha vida, abriu novos caminhos e decidi que queria ser professora para participar da mudança de vida de outras pessoas. A vida continuou e eu, muito mais rápido do que eu poderia imaginar, me tornei professora. E a primeira vez que um aluno entrou na minha sala contando que tinha passado no mestrado, me agradeceu e emocionado narrou sua história e o quanto sua vida tinha mudado a partir dali, senti uma emoção imensa e tive certeza que aquele era meu caminho. Eu estava, na lei da gratidão, devolvendo à vida o que ela me proporcionara. E depois muitos outros alunos compartilharam comigo as boas mudanças do curso/carreira em suas vidas. E essa é sempre uma gratificante e grande emoção.”

Irma De Oliveira Souza agradece à biblioteconomia por ter mudado a sua vida.

“Quando estava no mestrado e ouvi uma professora me dizer que retirava tudo o que já havia dito e pensado ao meu respeito, pois eu era especial e deveria seguir carreira docente, pois já havia me revelado mais que bibliotecária. Nesse dia meu coração bateu tão forte que achei que teria um treco. A Biblioteconomia mudou minha vida em muitos aspectos e hoje quando entro em sala de aula e defendo o fazer e ser bibliotecário o faço com o maior amor que alguém pode sentir e nesta relação existe: gratidão, reconhecimento e um desejo enorme de mudança!”

Por fim, Moreno mostra que os bibliotecários também contribuem para a preservação das espécies ao salvar uma Coruja (símbolo da biblioteconomia) que queria ler um pouco.

e teve aquele dia que uma coruja entrou na biblioteca, ficou acuada embaixo de uma estante. arrumamos uma missão de resgate para devôlve-la a seu habitat natural em paz

E sua experiência, leitor bibliotecário, quer compartilhar com a gente?

Comunidade

Bibliotecas como comunidades de aprendizagem e espaços de trabalho coletivo

Uma das tendências na educação que tem despertado muito interesse atualmente é a aprendizagem por projetos. Iniciativas como a famosa Escola da Ponte, em Portugal, ou as brasileiras: Projeto Âncora (Cotia/SP) e a escola municipal Amorim Lima (São Paulo), entre tantas outras, vêm revolucionando o conceito de espaço de aprendizado. São escolas sem paredes, sem aulas, sem currículo, onde os alunos aprendem de acordo com projetos propostos por eles mesmos, com professores convidados para facilitar a aprendizagem. A ausência de séries e de diferenciação por idades, possibilita que alunos mais experientes ensinem os novos, numa constante colaboração, onde a figura do mestre e a participação dos alunos são totalmente ressignificadas.

Paralelamente, as tendências mais avançadas da gestão de pessoas no mercado corporativo têm reconhecido o valor da colaboração e da criatividade, no lugar dos conceitos velhos e batidos de competição e produtividade. Espaços de coworking se espalham pelas cidades, geralmente associados ao empreendedorismo.

E nossas bibliotecas, em especial as públicas e comunitárias? O que estão fazendo com essas novas conjunturas?

Na teoria, poucos discordam do fato de que a biblioteca como santuário do silêncio é um conceito ultrapassado. Mas quantas de nossas instituições realmente projetam espaços apropriados para o encontro, para a troca, para a cooperação?

Nesse aspecto, temos muito o que aprender com os modelos acima. Que tal seria uma biblioteca que funcionasse facilitadora das atividades de aprendizado em suas comunidades? Que, para além da curadoria de conteúdos para usuários específicos, servisse como curadoria e ambiente para experimentações diversas? Que, reunindo as pessoas interessadas em um mesmo tema, possibilitasse os espaços e recursos para que, juntas, elas desenvolvessem seus estudos?

A promoção de grupos de estudos livres, na biblioteca, que envolvesse o planejamento, divulgação, suporte para a realização dos encontros e inclusive o registro desses estudos e o encaminhamento desse material em produtos, como publicações, gravações em áudio ou vídeo, com os resultados práticos dessas pesquisas.

Não é difícil imaginar a miríade de interesses que surgem em qualquer aglomerado humano e as possibilidades de desenvolvimento de quaisquer deles. Talvez seja difícil vencer o preconceito com alguns desses interesses, ou a inércia do profissional, mas as possibilidades são inegáveis, em em todos ambientes.

Uma biblioteca comunitária em uma favela tem uma riqueza tão grande de questões e sonhos para trabalhar como qualquer biblioteca universitária, ou escritório de multinacional (provavelmente muito mais!).

Temas para estudo não faltam: a polêmica da novela pode formar um grupo para a discussão de ética, o hip-hop desperta um interesse natural por música e por poesia, o funk facilmente formaria um grupo de dança. Grupos de culinária poderiam trocar receitas e promover jantares. Professores poderiam ser convidados, trazendo uma nova perspectiva para cada assunto.

No grupo de construção civil, convidados poderiam ensinar técnicas de bioconstrução, como aproveitamento da água da chuva e do calor do sol, geração de energia sustentável, etc. O laboratório poderia ser as próprias moradias dos participantes. O grupo de culinária poderia aprender mais sobre alimentação saudável, autonomia alimentar, hortas coletivas. As possibilidades são infinitas.

Por que a biblioteca seria o espaço ideal para incubar essas iniciativas?

Essa pergunta poderia ser feita de outra forma: Que outro espaço poderia ser melhor que uma biblioteca para essas atividades? Bibliotecas precisam conhecer as comunidades que atendem. Precisam saber de suas preferências, desejos e sonhos. Bibliotecas são centros de informação com profissionais capazes de providenciar os recursos necessários para cada atividade de estudo. Bibliotecas se preocupam com o empoderamento das pessoas, têm por missão a promoção da autonomia e da cidadania.

Colaboração e comunidades de aprendizagem não são conceitos novos em bibliotecas. Algumas há tempos vêm inovando nessa direção, como as bibliotecas parque.  Vamos junto(s)?

o-olhar-de-machado-de-assis

Simplificar ou não?, eis a questão

Segunda-feira passada recebi pelo Twitter a notícia de que uma escritora mudaria a obra de Machado de Assis para facilitar a leitura.

Os comentários que li foram todos divididos. Curiosamente, quem se colocava fervorosamente contra a simplificação da obra eram pessoas que são da área de Letras, especificamente. Bibliófilos (pessoas de várias áreas) se colocavam à favor da alteração da obra. Argumentos de ambos lados com argumentações bastante apaixonadas. E muita gente, como eu, ficou bem dividida.

O primeiro questionamento que tive foi entre a diferenciação entre adaptação e simplificação, pois sim, são processos diferentes. Adaptação é uma modificação do enredo da história como um todo ou em partes e envolve criação. Na simplificação a história pode não mudar, mas o vocabulário muda – algumas pessoas defendem que não há mérito nem valor literário nenhum nessa troca de palavras. Algumas pessoas consideram a simplificação um atentado, um crime contra a nossa língua pátria. Não sei porque, isso me soa como um exagero, mas vá lá.

Bm4bgRyCMAI5sAK

Li também “se vocês são contra a simplificação, também são contra a tradução?”. Considero tradução como um trabalho de adaptação mesmo porque nem todo o vocábulo de um idioma para outro é plenamente traduzível. Às vezes são necessárias interpretações e isso é ligeiramente diferente, pois trata-se de dois códigos (idiomas) diferentes. No caso da simplificação, o idioma é o mesmo. Impossível discordar que haverá, inegavelmente, um empobrecimento de vocabulário com a simplificação da obra.

Mas ao mesmo tempo, ainda falamos como na época que “O alienista” foi lançado?

A linguagem é viva, o idioma muda, o contexto de tudo também. Sinto-me dividida pois entendo que com a simplificação o contexto da história como um todo invariavelmente será deturpado – pois sim, linguagem é parte do contexto histórico, cultural, social, etc. A obra simplificada continuará levando o nome do autor, como se não tivesse sido alterada. Isso também não me parece certo – mesmo póstumo, mesmo em domínio público, não se sabe se essa é a vontade do autor. Caso seja feita a simplificação, acredito que deva levar o nome de quem alterou a obra.

Bm4bRttCMAAHCLPPor outro lado, usam para se referir à simplificação palavras como: mutilação, ode à preguiça, desrespeito, entre outras nada ou pouco amistosas. Pessoalmente, desconfio de absolutos: absolutamente ruim ou bom. Prefiro entender perspectivas, olhares e quanto mais múltiplos, melhor se pode chegar a um consenso ou a um entendimento. Como bibliotecária, entendo como prioridade o acesso à leitura. Sou sempre favorável à pluralidade de fontes – mas tudo depende também do modo como isso é feito.

Sabemos que o problema de falta de leitura – ou pouca leitura – no país é estrutural e sabemos que não é colocando clássicos no vestibular que alguém vai se interessar por leitura. E talvez nem mesmo com uma boa simplificação porque simplesmente não podemos forçar ninguém a ler nada. A leitura deve ser propagada por meio da apreciação e do entusiasmo, jamais por obrigação – simplesmente por esse não ser o melhor modo. E entre ver uma pessoa se interessando por quadrinhos ao invés da leitura de um clássico, vou sempre apoiá-la na decisão do que for  mais interessante pra ela.  Prefiro alguém lendo quadrinhos do que não lendo absolutamente nada.

“Mas aí você vai estar nivelando por baixo ou optando pelo menos pior”. Excelência é uma pretensão reservada – e efetivamente alcançada – por poucos. Qualquer pessoa que diga que “entende Shakespeare” é um embuste, mesmo sendo um especialista. As pessoas – qualquer pessoa – devem ler, fruir e consumir o que melhor lhes aprouver, sem restrições, sem pautas. Como bibliotecária, é isso o que eu defendo. Anything goes. Isso não é diminuir nada, nem ninguém: uma obra não substituirá a outra em absoluto. Pelo contrário: é dar mais uma opção de leitura e fruição. Então, por que não?

Essa discussão se assemelha àquela do “ah, mas os livros são muito melhores que os filmes”. Precisamos parar com esse tipo de pensamento infrutífero e começar a questionar: as pessoas estão lendo livros? Estão vendo filmes? Se sim, por que? Como? Que tipos de comunidades estão sendo criadas em torno de determinada fruição? Etc. A discussão não devia ser levada para o sentido de “bom” ou “ruim”, mas sim levantar mais questionamentos sobre os hábitos de fruição e de engajamento das pessoas. Ou da falta deles – que é onde efetivamente deveríamos agir. Não?

Como bibliotecários, como vocês se sentem em relação a isso?

Seleção de matérias e artigos relacionados com o tema:

bsf-ccbb3

Por que leitores brasileiros preferem livrarias a bibliotecas?

Quando criança, eu não tinha o hábito de frequentar bibliotecas. Até porque elas não existiam no meu bairro, ou nas redondezas onde eu morava. Mas eu amava ler! Adorava bancas de jornal e livrarias, que eram os lugares onde eu encontrava livros e revistas e podia saciar minha sede de leitura. Depois descobri a biblioteca da escola e passava alguns recreios lá dentro, já que não podia levar os livros pra casa. Lembro de uma excursão da escola à Biblioteca Pública Municipal do Rio de Janeiro, que era muito longe da minha casa. Só me restava comprar os livros mesmo. Passeios a livrarias eram – e ainda são – os meus favoritos!

Foi só depois que me mudei para o Canadá que passei a frequentar bibliotecas públicas e me apaixonei. Tantos livros, tantos recursos disponíveis gratuitamente para o público! Sou frequentadora assídua e sempre trago pra casa mais livros do que posso ler dentro do prazo de entrega.

Como expatriada, comecei a questionar sobre os hábitos de leitura dos brasileiros, em especial sobre o uso de bibliotecas públicas. Depois de muita pesquisa, vi que há sim várias bibliotecas públicas em todo o Brasil. Sim, são escassas, e talvez o acervo não seja o dos mais atraentes ou relevantes, mas o recurso está lá. A pergunta então era: será que o povo usa?

No ano passado, em março, fui ao Rio de Janeiro visitar a família e fiz questão de conhecer uma biblioteca pública. Era quinta-feira. Fui no Centro Cultural Banco do Brasil, no centro da cidade, onde tem uma biblioteca no quinto andar. Fiquei maravilhada com o espaço! Tudo tão novo, tão arrumado! Tão diferente da minha biblioteca universitária na Escola de Comunicação da Praia Vermelha.

bsf-ccbb2

Tive que deixar bolsas na entrada, mostrar identidade e tudo. Sinceramente? Achei que isso já era a primeira barreira para o uso da biblioteca. Entendo a questão da segurança, mas devia haver outra forma de evitar roubo sem ter que obrigar os usuários a deixar seus pertences na porta. (Não preciso nem dizer que isso não existe aqui no Canadá, né? Com exceção de bibliotecas de coleções especiais e materiais raros, claro).

bsf-ccbb4

Fiquei encantada com a biblioteca infantil! Adorei a parede com lombadas de livros, coisa mais linda! Entrei no espaço infantil e encontrei apenas uma mãe com um menino de uns 7 anos talvez. O menino pedia pra mãe ler pra ele. A mãe estava ocupada no seu celular, sem dar atenção ao menino, ignorando o seu pedido. Aquilo me cortou o coração! Uma criança estava ali, sedenta pela leitura, e justamente a pessoa que deveria mais incentivá-lo estava desperdiçando esta oportunidade. Então foi na biblioteca pra quê, alguém pode me explicar?

bsf-ccbb1

Saí de lá e fui ver as outras estantes, com material de pesquisa. Adorei ver o catálogo de fichas, coisa que não vejo mais por aqui, que só consultamos o acervo digitalmente. Vi algumas pessoas estudando em salas de leitura, mas a biblioteca estava bem vazia. Não contei mais de 20 pessoas por lá.

Bem, numa quinta-feira, de manhã, no centro da cidade, como é que eu poderia esperar uma biblioteca cheia, não é mesmo?

Depois do almoço, no mesmo dia, na mesma quinta-feira, eu passei pela porta da Livraria Cultura, na rua Senador Dantas, também no centro da cidade.

A livraria estava LOTADA!

bsf-livraria-cultura

Na parte infantil tinham algumas famílias com crianças de várias idades, passando pelas estantes e escolhendo livros. Outras sentavam no chão com seus filhos no colo e folheavam livros juntos. Em todos os andares, muita gente. Os caixas, com fila.

E a pergunta: se tem um lugar onde as pessoas podem ter acesso a livros sem pagar um tostão, por que é que preferem gastar dinheiro com os livros em vez de pegar emprestado nas bibliotecas públicas?

Posso imaginar algumas respostas:

1) O acervo das bibliotecas públicas não é adequado e não atende à necessidade do público
Eu sinceramente não tenho ideia de como é feito o gerenciamento do acervo de bibliotecas públicas no Brasil. Elas compram materiais publicados recentemente? Você pode encontrar os best sellers por exemplo? Pelo que vi na biblioteca do CCBB, pelo menos na parte infantil, o acervo não era muito grande. Vi alguns títulos novos, mas a maioria não era. O estado físico das obras também era ruim, com aspecto velho, folhas amareladas, lombadas machucadas. O leitor tem prazer em ler um livro em bom estado. Se o leitor quer ler Nicholas Sparks e não encontra na biblioteca, claro que tem que comprar na livraria (não procurei por este autor naquela biblioteca, então é só um exemplo mesmo).

2) O público não tem conhecimento das bibliotecas públicas
Voltemos ao início do texto, lá quando eu era criança e não tinha a mínima ideia de que poderia existir um espaço de livre acesso aos livros. Biblioteca pra mim era algo que existia na escola e em lugares bem longe da minha casa. Biblioteca pra mim era um lugar onde não se podia falar alto. Biblioteca pra mim era um lugar onde encontrávamos livros velhos, muito antigos, empoeirados e com cheiro de mofo. A minha geração, que teve a mesma experiência que eu tive, provavelmente não vai pensar na biblioteca como opção cultural para levar seus filhos. Esses vão associar livros à livrarias imediatamente.

3) O acesso a bibliotecas é dificultoso
Essa e a última questão estão ligadas. É a questão da escassez. Provavelmente há mais livrarias do que bibliotecas públicas em cidades grandes do Brasil.

Acredito que o acervo deficiente seja uma das principais razões pelas quais o brasileiro prefere comprar o livro do que pegar emprestado. Porque talvez o livro que ele queira ler não esteja na biblioteca. Ou se está, o acesso não é facilitado ou o livro não está em condições boas de uso. Posso estar totalmente enganada, afinal estou longe e não tenho como avaliar essa questão de perto.

Sei que minha amostragem é muito pequena. Eu só visitei uma biblioteca pública. Mas no meu círculo de amizades vejo que essa hipótese não é tão absurda assim. Pouquíssimas pessoas que eu conheço no Brasil, em várias cidades até, têm o hábito de frequentar bibliotecas. Muito mais gente compra livros em livrarias, das pessoas com que me relaciono.

Mas vocês aí, me digam, por que o povo prefere livrarias a bibliotecas? E como podemos inverter essa situação no nosso papel de bibliotecários?

Biblioteconomia Pop

dissertation writing service | homework online | essay help