Pandemia e apagamento

Devo à conjunção da pandemia, algumas “lives” e uns tantos posts nas mídias sociais minhas recentes preocupações com apagamento.

Plagiei Borges, descubram.

TRABALHADORES E BIBLIOTECAS

Durante a pandemia, muito se tem falado sobre a necessidade das bibliotecas “se reinventarem”. E, exaustivamente, sobre os cuidados sanitários, quarentenas de livros e procedimentos para oferecer segurança ao público,.

Mas não vejo a mesma animação para falar dos trabalhadores das bibliotecas, de suas condições de trabalho e dos riscos a que estão expostos, como contaminar-se durante o esforço da tal reinvenção ou perder o emprego em plena pandemia, o que já aconteceu com muitos colegas.

Na Universidade de São Paulo, instituição que eu respeito e admiro, mesmo sabendo não ser correspondida, os funcionários só foram liberados para trabalhar em casa uma semana após a suspensão das aulas presenciais. Prefeitura e governo estadual já haviam dispensado os servidores, a USP não. Nossos museus, curiosamente, fecharam antes das bibliotecas, embora estas acumulem mais pessoas por metro quadrado, e por mais tempo. Por quê? Não sei dizer ao certo o que se passa na cabeça da classe dirigente uspiana, mas sei o que essa classe costuma esquecer: bibliotecas.

Mas, enfim, desde o dia 23 de março estou trabalhando em casa. E trabalhando muito, o tempo todo online, fazendo menos exercício do que fazia antes, quando podia andar pela biblioteca. Mas estou consciente de que, comparada aos milhões de brasileiros que não tiveram a chance de se preservar ou que perderam seus empregos, sou uma privilegiada.

Quase todas as bibliotecas da USP fecharam, com exceção de uma ou outra da área médica, por motivos compreensíveis.

A demanda por empréstimo ou digitalização de material impresso, não parou nem um dia, pelo menos na área onde atuo, que ainda usa muito o bom e velho livro impresso, até porque a oferta de e-books não é lá grande coisa. O discurso “as aulas continuam de forma remota, preciso muito desse material para minha tese, não dá para abrir uma exceção? ” foi recorrente durante o período. Em algumas ocasiões, a resposta às minhas detalhadas explicações sobre pandemia e impossibilidade de acesso ao acervo físico era singela: “mas vocês não poderiam digitalizar e me enviar, estou realmente precisando”. Até certo ponto é compreensível. Os estudantes têm suas necessidades, os professores nem sempre são sensíveis ao momento e o egoísmo, afinal, é humano. Mas não deixo de me espantar com a facilidade que tanta gente instruída apresenta em dissociar o serviço do ser humano que o executa. Tive que explicar para alguns amiguinhos mais insistentes que, para o pdf chegar ao recesso quentinho de seu lar, alguém teria que pegar um ônibus lotado em meio à pandemia e ir até a Universidade para digitalizar o material. Não existe mágica, mas sim força de trabalho de seres humanos.

Lá pelo final de agosto, a USP resolveu liberar o retorno de 20% dos funcionários, caso os diretores das unidades achassem necessário. A maioria não achou prudente arriscar a vida de seus funcionários, mas alguns gostaram muito da ideia. Chegaram ao meu conhecimento relatos sobre dirigentes universitários argumentando que, se bares e lojas podiam abrir, por que não as bibliotecas? Observem que não estou falando de “tios do pavê” que se informam pelo whatsapp, mas de professores universitários no topo da carreira, gente extremamente instruída e que não deveria falar bobagens desse tipo.  Anotem aí:

1 bibliotecas só são lembradas quando estão fechadas
2 a saúde dos seres humanos que trabalham nas bibliotecas vale menos do que o livro na mão do estudante ou do professor.

E não foram apenas diretores e diretoras de faculdades e institutos que acharam indispensável o empréstimo de livros em plena pandemia, com as aulas presenciais suspensas na Universidade. Alguns chefes de bibliotecas colaboraram alegremente, ou, no mínimo, não tiveram forças para dizer não a medidas “flexibilizadoras”, e muitos colegas não viram nisso grande problema. De um lado, a ideia da “colaboração voluntária” para evitar o risco de fazer uma convocação oficial, de outro a convicção que usar transporte próprio, máscara e álcool-gel afastaria o perigo. E isso mesmo depois que a Agência USP de Gestão da Informação Acadêmica, organismo que substituiu nosso extinto Sistema Integrado de Bibliotecas da USP, enviar um comunicado lembrando que o “empréstimo de livros expõe discentes, docentes e servidores das Bibliotecas à contaminação pelo novo coronavírus” e sugerindo a manutenção do atendimento virtual como prioridade, exceto para as bibliotecas envolvidas com a pesquisa sobre SARS-CoV-2.

Num evento recente sobre protocolos de segurança para bibliotecas no pós-COVID – como se a pandemia já fosse parte do passado – bibliotecários de instituições respeitáveis apresentaram medidas que adotaram para reabrir, ainda que parcialmente, os acervos ao público. Trabalhos sérios, claro, baseados em estudos científicos referenciados. Mas, como na maioria dos eventos desse tipo, muito se falou em quarentena de livros, em higienização de espaços, empréstimo com hora marcada e pouco (ou nada) do trabalhador das bibliotecas e suas condições de vida. Menos ainda dos trabalhadores terceirizados que, na maioria dos casos, cuidam da limpeza e da segurança, e do tratamento que recebem das empresas que os contratam.

Fala-se de retorno gradual, mas não se questionam os dados oficiais sobre o contágio e as trapalhadas dos governos no controle da pandemia. Fala-se de caixas de devolução e de digitalização, mas não se menciona o trabalhador – chamado graciosamente de “colaborador” – que vai recolher os livros das caixas e digitalizar os materiais. Mostram-se lindos espaços adaptados, mas não o ônibus lotado que os “colaboradores” tomam para chegar na biblioteca.
Todos falam muito da “reinvenção” das bibliotecas, quase ninguém se lembra do quanto a “reinvenção” deve à eterna exploração do trabalhador.

A impressão que tenho dessas “lives” todas é que bibliotecas são organismos que funcionam sem o trabalho de seres humanos. Para conveniência geral de empregadores, governos e instituições, os trabalhadores são apagados dessa história.

OS INTELECTUAIS E SUAS BIBLIOTECAS

Um conhecido intelectual brasileiro queixava-se, em sua página numa rede social, das dificuldades encontradas para doar sua biblioteca pessoal a uma instituição. Uma amiga bem intencionada marcou meu nome na publicação do professor, pensando que talvez a USP pudesse se interessar.

E lá fui eu esclarecer alguns pontos, por exemplo, que estamos numa pandemia e a maioria das bibliotecas, se não está completamente fechada, suspendeu o recebimento de doações. Achei desnecessário lembrar que as doações não se teletransportam automaticamente da casa do doador até as estantes das bibliotecas. E que os seres humanos que precisam receber e, eventualmente, até ir buscar os livrinhos também estão sujeitos a contágio.  Postei link para um texto no qual explico como é o processo de receber e selecionar doações. O professor, coitado, até mudou o texto de seu post, observando que estava entendendo melhor as dificuldades da coisa toda.

Dei uma espiada nos comentários da postagem e percebi que muita gente está com o mesmo problema: não consegue doar seus livros. E tive que responder, tentando ser delicada, a pelo menos dois comentários: o arrogante que concluiu que bibliotecários não gostam de receber doações porque “dá trabalho” e preferem “comprar um livro por semana” e a inocente que adoraria ter o “trabalho” (assim mesmo, entre aspas) de catalogar livros. Sim, muita gente confunde critérios de seleção e falta de estrutura das bibliotecas com preguiça dos bibliotecários, esses eternos culpados de tudo. E também há os que não têm a mínima ideia do que é, de fato, o trabalho numa biblioteca e de como pode ser árduo – apesar de interessante.

Muitos pesquisadores e professores passam a vida comprando livros, mas nem sempre cuidam bem deles. E como têm recursos para comprar todos os livros que desejam, não costumam frequentar bibliotecas. Mas, em algum momento, percebem que não têm mais espaço em casa, não estão mais usando 95% daqueles livros e não têm para quem deixar seu acervo quando morrerem. Então, sentindo-se generosos, decidem doar tudo a uma biblioteca, e descobrem que a maioria das bibliotecas não precisa, não quer ou não têm condições de receber 1.000 ou 2.000 livros de várias áreas, às vezes empoeirados, fungados, deteriorados e desatualizados, muito menos de ir buscar esses livros na casa do doador. A decepção costuma ser grande.

Por que tantos intelectuais acumulam desnecessariamente centenas de volumes  em suas casas,  em vez de ir doando às bibliotecas, aos poucos, seus livros ainda novos e atuais, para que possam ser aproveitados por pessoas menos privilegiadas? Apego, claro, gente que gosta de ler costuma gostar de ter livros ao seu redor. Mas também pode ser uma questão de poder. Ter muitos livros, emprestar somente a alguns leitores selecionados aquele livro que ninguém mais tem não deixa de ser uma forma de poder. E doar uma enorme biblioteca quando não precisa mais dela é uma forma de atribuir a sua existência um valor adicional. Ou não?

Bem, mas algumas doações são ótimas, e compensam até eventuais despesas com higienização e encadernação. Então, por que é tão difícil encontrar abrigo para bibliotecas pessoais? Creio que a maioria dos bibliotecários sabe a resposta: porque não damos valor a bibliotecas e instituições culturais em geral neste país, não cuidamos delas, não investimos recursos nelas, e até elegemos autoridades que desprezam a cultura, e ignoram a ciência e destroem a educação. Se não fosse assim, o Museu Nacional não teria pegado fogo e a Cinemateca Brasileira não estaria fechada.

Não adianta aliviar a consciência atribuindo a culpa à “preguiça” dos bibliotecários. O problema é bem mais profundo.

Mas temos culpa, me parece, quando não conseguimos lidar de forma amigável com as ofertas que precisamos recusar. É preciso sensibilidade para entender que a quebra das expectativas dos candidatos a doadores tende a ser dolorosa, e que uma recusa pouco diplomática pode ter consequências ruins para nossa imagem profissional.

A TROCA DE PDFs

Por curiosidade, frequento um desses grupos destinados à troca de livros digitalizados que pululam no Facebook. Esse foi criado em maio deste ano, em plena pandemia, e hoje já tem mais de 30.000 integrantes, que pedem e postam links para livros em pdf. Mais pedem do que obtêm, na verdade, pelas minhas contas.

É um fato da vida: leitores e estudantes precisam de livros, sobretudo na área de humanidades. Nem todos têm acesso a bibliotecas e, mesmo que tenham, muitos acham mais simples procurar um pdf na internet. E agora, com tantas bibliotecas fechadas pelo novo maldito coronavírus, esses grupos devem estar sendo a salvação de muita gente. Mas o que chamou minha atenção foi o pessoal que, além de procurar títulos específicos, também faz buscas por assunto. Algumas são bastante específicas e preguiçosas, como essa pessoa que não está com muita vontade de preparar seu próprio trabalho:

… preciso de um plano de aula sobre guerra fria, nono ano de história

Outras são definitivamente muito genéricas:

PDFs sobre educação, alguém? Estou precisando muito.

E há os que solicitam indicações:

Olá pessoal, poderiam me recomendar livros sobre psicanálise?

Muitas dessas questões, que costumam permanecer sem resposta no grupo, poderiam ter sido dirigidas a um serviço de referência de biblioteca. Na maioria dos casos, qualquer bibliotecário de referência razoável teria oferecido orientação ou, ao menos, indicado fontes. Somos treinados e estamos acostumados a ouvir as perguntas mais inusitadas e a responder com paciência até as mais ingênuas.

Então, o que está acontecendo?

Essas pessoas, provavelmente pesquisadores ou estudantes, não pensaram em consultar uma biblioteca de sua área de interesse? A porta física da maioria das bibliotecas ainda está fechada, mas há outras portas abertas para comunicação com os bibliotecários, que continuam trabalhando. Ou pior, talvez não entendam a biblioteca como um “lugar de fazer perguntas”. Imaginam que jogar apelos desesperados num grupo de mais de 30.000 desconhecidos pode ser mais eficiente do que consultar um profissional. Nada surpreendente, na verdade. Já conversei com muitos estudantes que simplesmente ignoravam a existência de uma profissional chamado “bibliotecário de referência” que serve, entre tantas coisas, para responder perguntas. E estou me referindo a estudantes da USP, que têm boas bibliotecas à sua disposição.

Mas não posso, infelizmente, excluir a hipótese do mau atendimento, do atendimento burocrático ou impaciente, do bibliotecário de porta fechada e inacessível, porque isso existe.

RESUMINDO

Somos apagados quando:

Nossa condição de trabalhadores é escamoteada, até pelos colegas em posição de poder ou de destaque.
Nossa condição de seres humanos sujeitos ao adoecimento e à morte é esquecida, em nome de um atendimento que supostamente não pode parar.
Nosso trabalho não é enxergado pela sociedade ou não é entendido como trabalho.

E também quando nos perdemos no doce discurso do amor pela profissão e na cega convicção de nossa importância, sem considerarmos o quadro social, econômico e político no qual vivemos.

Bette Davis como bibliotecária em “Storm center”

E quando não participamos coletivamente, enquanto profissão feminina indissoluvelmente ligada à cultura, educação e ciência, de manifestações de rua carregando faixas que gritem:

Bibliotecárias contra o machismo
Bibliotecárias contra o racismo
Bibliotecárias contra a homofobia
Bibliotecárias contra o desmonte das instituições culturais
Bibliotecárias pela democracia
A Terra é redonda

 

foto destacada (com edições): Gael Varoquaux

Como se faz uma ficha catalográfica de livro infantil

Não, esse não é um post técnico sobre como fazer a ficha seguindo as normas, mas um reconhecimento de como os livros infantis se tornaram tão bem projetados que até as fichas catalográficas passaram a fazer parte da arte. Sigam o fio:

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Acho que todos os títulos da editora Jujuba, pelo menos os mais recentes, seguem esse padrão de ficha campeão. Fica a recomendação também do instagram Resenhinha, que publica sugestões e resenhas de livros para a primeira infância, organizado por uma bibliotecária.

Paráfrase de Carlos Drummond de Andrade

texto de Edson Nery da Fonseca, publicado na Revista da Escola de Biblioteconomia da UFMG, v.1, n. 2, 1972.

resumo: Parafraseando o poema “Mãos Dadas”, de Carlos Drummond de Andrade, define-se o que deve ser o bibliotecário de uma época interdependente, condenando-se o isolacionismo, o tecnicismo e a fraseologia bibliofílica.

1 — O POEMA

Em Sentimento do Mundo, terceiro livro de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1940, encontra-se um dos seus melhores poemas: “Mãos Dadas”. De tanto o ler, acabei decorando este poema que nos ensina a solidariedade, condenando tanto as atitudes passadistas como as futuristas, tanto o romantismo piegas como a exploração de temas prosaicos, tanto a independência — impossível numa época interdependente — como todos os tipos de alienação.
Um dia, farto de ver as bibliotecas brasileiras preocupadas com tanta “coisa obsoleta” — como diria o Machado de Assis da crônica sobre “O Velho Senado” — desabafei com esta paráfrase do primeiro verso de “Mãos Dadas”:

Não serei o bibliotecário de um mundo caduco!

Ocorreu-me, agora, a ideia de parafrasear todo o poema, especialmente para esta nova revista da Escola de Biblioteconomia da Universidade Federal de Minas Gerais.

Nesta paráfrase não faço mais do que exprimir uma atitude de oposição ao conservantismo, ao isolacionismo, à mania infantil por máquinas e a outros males crônicos da biblioteconomia mundial.

Aos que estranharem a forma poemática parafraseada, responderei antecipadamente com a declaração que Fernando Pessoa colocou num poema do seu heterônimo como Álvaro de Campos; sendo engenheiro naval, ele fazia questão de dizer que era técnico mas tinha técnica “só dentro da técnica”: fora disso era “doido, com todo o direito a sê-lo”.

2 — A PARÁFRASE

BIBLIOTECÁRIO DE MÃOS DADAS

Não serei o bibliotecário de um mundo caduco
Também não me deixarei encantar pela biblioteconomia do futuro
Estou no balcão de referência e contemplo os leitores da biblioteca

Seus estudos alimentam a minha esperança
Mas considero, perplexo, o enorme universo dos livros
Deste mundo tão grande somos apenas uma parte
A tarefa é comum, trabalhemos de mãos dadas.

Não serei o escravo de um código obsoleto e de um sistema ultrapassado
Não direi que a biblioteca é hospital de almas
e o livro um amigo silencioso que não falha
O leitor é o meu objetivo: o leitor adulto, o leitor juvenil, o leitor infantil
O aluno e o professor, o neoalfabetizado e o pesquisador científico

Para cada leitor existe um livro
e para cada livro encontrarei o seu leitor.

3 — COMENTÁRIO

Em biblioteconomia, mundo caduco é o das Norme per il cataloqo degli stampati, o das Anglo-American cataloging rules, o das Rules for descriptive cataloging, o da Classificação Decimal de Melvil Dewey, o das frases em que se compraz uma bibliografia langorosa.

No extremo oposto está a fascinação idiota por equipamentos anunciados como deuses ex-machina da chamada “explosão bibliográfica” e suas soluções. Como em tudo o mais, a virtude situa-se no meio termo: nem informaticofobia nem informaticomania.

O balcão de referência é, sem dúvida, o lugar mais importante da biblioteca. Em vez de receber o leitor como um importuno que vem perturbar seu sossego, o bibliotecário deve estar tanto mais alegre quanto mais cheia de leitores estiver a biblioteca.

Uma perplexidade, entretanto, sempre o assalta e ninguém a exprimiu melhor do que Ortega y Gasset quando exclamou: “Hay ya demasiados libros”. A consciência desse problema — “el libro como conflicto” — deve levar-nos a evitar o isolacionismo, colaborando com os outros bibliotecários e contribuindo, assim, para a formação de uma rede ou sistema de bibliotecas.

As normas de catalogação e os sistemas de classificação bibliográfica são necessários, mas devem estar a serviço dos leitores — e não dos bibliotecários que, em muitos casos, deles se utilizam exatamente pour épater le lecieur — como os sábados a que se referia Jesus Cristo em conhecida parábola.

A biblioteca não é o “hospital de almas” da frase acaciana. Se ela faz alguma coisa pelas almas será antes saculejá-las do que hospitalizá-Ias. De alguns livros sabemos que contribuem em menos para salvar do que para perder as almas. Foi lendo livros de Cavalaria que Dom Quixote enlouqueceu. Depois de ler o romance Fabrizzio Luppo, um jovem mexicano suicidou-se, deixando carta dramática para o autor, Carlo Coccioli, que desde então passou a residir no México, onde escreveu, entre outros inúmeros livros, Un Suicide. Antes, aliás, desse episódio que poucos conhecem, houve a famosa cadeia de suicídios provocada, na Europa, pelo Werther de Goethe. Na biblioteca particular de um dos Inconfidentes mineiros — o cônego Luís Vieira da Silva — encontraram os sequestradores de seus bens 270 obras em cerca de oitocentos volumes, segundo os Autos da Devassa da Inconfidência Mineira. Uma dessas obras era, nada mais nada menos do que a famosa Encyclopédie organizada por Diderot e D’Alembert, obra que pelo seu caráter subversivo impedia qualquer biblioteca de ser ou considerar-se “hospital de almas”. Sobre o assunto, como se sabe, Eduardo Frieiro escreveu excelente ensaio bibliográfico.

Nos chamados beaux vieux temps, o livro podia ser considerado como “amigo silencioso que não falha”. Hoje, não! Com a explosão bibliográfica ele transformou-se num quase inimigo, como salientou Ortega ao escrever que o bibliotecário atual “habrará de ejercer la policia sobre el livro y hacerse domador del libro enfurecido”.
Ao contrário do bibliotecário da antiguidade — que precisava antes conservar que difundir o livro, por ser este um objeto raro — o bibliotecário moderno preocupa-se mais com o leitor, seja qual for a sua idade, nível cultural ou condição social.

A paráfrase termina aludindo a duas das conhecidas Five laws of library science, estabelecidas pelo bibliotecário indiano S. R. Ranganathan: “Every reader his book” e “Every book its reader”. Aparentemente, na distinção entre estas duas leis existe apenas um trocadilho. Na realidade, porém, elas são complementares.

Quando afirmamos que para cada leitor deve existir um livro, colocamos — como explica Ranganathan — um problema nacional, que é o da responsabilidade que têm os governos de favorecerem leitura para todo o povo e não apenas para uma elite. Disse Anísio Teixeira, no título de um de seus livros, que Educação não é privilégio. Nem educação nem biblioteca, digamos completando o saudoso educador, que sabia muito bem não ser possível a existência de uma coisa sem a outra.

Ao estabelecer “every book its reader”, Ranganathan tinha em vista a indispensável adequação de cada livro aos diferentes gêneros de leitores: diferenças etárias, psíquicas e éticas. Censuras de ordem religiosa ou ideológica não são admissíveis; mas pelo próprio fato de que nem todo livro é “o amigo silencioso que não falha” e de que as bibliotecas não são “hospitais de almas”, há que restringir-se a leitura de certos livros de acordo com a idade, a psicologia e a formação de cada leitor.

O embate

Ela vaga em paz entre as estantes iluminadas apenas pelas luzes dos postes, lá fora. A biblioteca já estava fechada há quase uma hora. O calor e cheiro humanos já estavam totalmente dissipados. Os ruídos dos poucos carros que ainda passavam não interferiam na tranquilidade soturna do ambiente. Esses momentos eram especiais para ela, ainda melhores do que a alegria diurna da biblioteca cheia de leitores. De repente, uma voz áspera interrompe seu passeio.

– Ainda por aqui?

–  Desculpa, já fechamos! Você ficou preso?

–  Não. Eu não fico preso.

Sim, claro. Agora estava entendendo. Sempre soube que um dia isso iria acontecer, apenas não imaginava que seria assim, tão rápido, que a tampa do esgoto se abriria.

– Por que você ainda está aqui, mulher?

– Eu trabalho aqui. E “ainda” é um termo que não se aplica à minha presença.

– Mas essas horas são minhas, não suas.

A voz já se alterava, autoritária, aflita. Um ligeiro odor a apodrecimento se espalhava no ar.

– Todas as horas são minhas.

– Você quer me enfrentar?

– Sim, quero. Mas cara a cara. Onde você está?

– Onde eu estou? Tente descobrir, mulher.

– Neste mundo ou em qualquer outro, não existe nada que eu não possa descobrir. Ou encontrar.

– Vamos ver.

– Entendi, você quer jogar. Numa biblioteca. Com uma bibliotecária! – A mulher riu alto.

– E se eu arrancar seus ossos e jogar pela janela? A bibliotecária vai gostar desse jogo?

– Posso estar enganada, o que raramente me acontece, mas acho que você precisaria aparecer para fazer isso. Não é mesmo?

A voz se cala por alguns instantes, mas logo volta, alterada, com um tom diferente, quase de aflição.

– Esse lugar está cheio de mulheres. Mulheres fracas, sangrando e cacarejando com vozes agudas enquanto mexem nesses livros. Livros podres, livros comunistas que um bando de pretos vagabundos vem fingir que lê!

– Você pode gritar, insultar, mas não pode se mostrar e muito menos tocar em mim. Sim, quase todos que trabalham aqui são mulheres e a maioria sangra ou já sangrou. E muitos, muitos pretos mesmo vêm aqui, todos os dias. E não só pretos, indígenas também. E sabe quem mais? Homossexuais e travestis de salto agulha e meia arrastão.  Queremos todos aqui.  – A mulher sibilava.

– É por isso que eu estou aqui, para acabar com essa pouca vergonha! Eu tive muitos filhos quando andava por aí, todos machos. Se um deles fosse veado, eu matava. Melhor filho morto que veado. E se precisar matar trinta mil, eu mato.

– Não, você não vai matar ninguém porque eu não vou permitir. Aqui mando eu. E vou encontrar o livro desgraçado onde você se esconde, antes que você descubra como começar a matar. E quando eu chegar no seu esconderijo, vou arrancar cada página e tratar todas elas com sal, água e fogo, até você começar a ferver e chiar.

– Eu vou matar trinta mil… trinta mil… – a voz insistia, cada vez mais fraca, até desaparecer.

E então a mulher cujo nome estava na placa de bronze da porta da biblioteca suspira fundo e ergue-se no ar, para contemplar do alto o mar de estantes. Por onde começar? Mein kampf? Malleus maleficarum? Teria que agir rapidamente. O primeiro embate foi fácil. A criatura ainda estava fraca e não parecia muito inteligente, ou saberia com quem estava conversando. Mas essas coisas nascidas do ódio e da ignorância crescem rápido e não devem ser subestimadas. Finalmente a bibliotecária que registrou os primeiros livros da biblioteca, há exatos 218 anos, entendia porque jamais havia conseguido sair de lá. Seu trabalho mais importante começava naquele momento.

imagem: Retrato da atriz francesa Rachel (detalhe), por Edouard Louis Dubufe 

Recursos sobre COVID-19 para pesquisadores e bibliotecários

segunda rodada de recursos sobre COVID-19 que podem ser úteis para pesquisadores e bibliotecários (primeira rodada aqui), passem adiante:

1) painéis datavis e análise de dados atualizados

https://covid19dashboards.com/

2) painel de revisão excelente tb

https://ourworldindata.org/coronavirus

3) harvesting da NLM, interface nota dez

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/research/coronavirus/

4) dataset absurdo requisitado pelo governo americano pra quem quiser trabalhar com dados abertos

https://pages.semanticscholar.org/coronavirus-research

5) projetos COVID-19 em busca de voluntários

https://helpwithcovid.com/

5.1) um problema agora é a fabricação em escala de respiradores hospitalares. já devem ter lido sobre impressão 3d e patentes, então tem um projeto de desenho open source

https://opensourceventilator.ie/

5.2) professor Jurandir Nadal da UFRJ está convocando voluntários para a fabricação dos componentes do ventilador mecânico com recursos no mercado nacional

https://www.facebook.com/jurandir.nadal/posts/3042980365746620

5.3) CCS da UFRJ convoca voluntários, vumbora

https://www.ccs.ufrj.br/conteudos/20200318voluntariosCovid19

6) Cambridge Press colocou 700 livros pra baixar (visualizar) até o final de maio, as coleções são as melhores, aproveitem

https://www.cambridge.org/core/what-we-publish/textbooks

7) LibraryThing melhor software de automação para pequenas bibliotecas e bibliotecas pessoais, agora é gratuito

https://blog.librarything.com/main/2020/03/librarything-goes-free/

8) agenda de webinars e treinamentos gratuitos para bibliotecas acadêmicas só relacionados a COVID-19, em inglês

https://docs.google.com/document/d/1jJt1qoNqe_XteGFvzK2vq_fzutTAP8XCjESH8pHmFxE/preview

9) cursos livres online sobre síntese de evidências e revisão sistemática

https://synthesistraining.github.io/

10) libguide da Johns Hopkins University para profissionais da saúde

https://browse.welch.jhmi.edu/covid-19

aproveitando, liberei gratuitamente meus dois cursos por um período de 14 dias. são eles:

como encontrar artigos científicos na internet, um apanhado de todos os macetes não-convencionais pra achar papers de pesquisa, desses que não tem no portal capes nem no scihub:

https://classcursos.com/cursos/como-encontrar-artigos-cientificos-na-internet/

e librarything: software para pequenas bibliotecas, melhor aplicativo pra quem tá precisando organizar os trocentos livros que tem em casa, gerenciar uma bibliotequinha comunitária, infantil e não tem grana, mas que precisa de um fluxo bacana pra buscar os livros, saber com quem cada qual está emprestado, quando volta, etc. o app agora tá totalmente grátis, aproveitem

http://classcursos.com/cursos/librarything-software-para-pequenas-bibliotecas/

let’s destroy capitalism together e todo mundo PhD depois da quarentena. divulguem aí e distância física sim, distância social não

Revisão sistemática e recursos sobre COVID-19

paranóides como eu e bbtecários que trabalham com revisão sistemática, tá quase impossível acompanhar o science in the making e a quantidade crescente de publicações sobre #COVID19, mas

1) aqui um site que contém todos os papers diários indexados na PubMed, Embase, bioRxiv e MedRxiv (demora um pouco para carregar)

https://zika.ispm.unibe.ch/assets/data/pub/ncov/

2) tem uma abordagem metodológica para a revisão sistemática em tempo real, e os códigos pro harvesting nas bases no github, aqui:

https://ispmbern.github.io/covid-19/living-review/

3) termos de busca para as revisões estão se modificando conforme a doença avança/estabiliza, mas comumente estão usando esse string aqui na PubMed:

“(\”Wuhan coronavirus\” [Supplementary Concept] OR \”COVID-19\” OR \”2019 ncov\”[tiab] OR ((\”novel coronavirus\”[tiab] OR \”new coronavirus\”[tiab]) AND (wuhan[tiab] OR 2019[tiab])) OR 2019-nCoV[All Fields] OR (wuhan[tiab] AND coronavirus[tiab])))))”

4) aqui os préprints só da medRxiv e do bioRxiv:

https://connect.biorxiv.org/relate/content/181

5) quase todos editores/vendedores eliminaram o paywall para assuntos relacionados ao covid19, aqui uma lista. quem precisar de algo específico que não esteja aberto via portal capes e afins pode tentar fazer contato via sibi das unis (ou falem comigo):

https://docs.google.com/…/2PACX-1vT3pF6oX93Ok0GqSvQuqOh…/pub

6) alguns motivos óbvios pra manter bibliotecas fechadas:

https://twitter.com/oodja/status/1238855481197842432

7) esse é o gráfico da morbidez mais decente e mais atualizado:

https://coronavirus.jhu.edu/map.html

8) outras novidades eu tô colocando no twitter e na minha newsletter, sempre que der. minha lista sobre covid:

https://twitter.com/i/lists/1239530064523468800

9) twitter é o lugar mais rápido pra ler revisões direto dos especialistas, exemplos abaixo

https://twitter.com/davidasinclair/status/1238972082756648960

https://twitter.com/AdamJKucharski/status/1239209782894002177

https://twitter.com/michaelzlin/status/1239675364172914688

se cuidem

Um livro e algumas decepções

Trabalho há muitos anos na Universidade de São Paulo e tenho imenso respeito pela pesquisa acadêmica, que acompanho de perto ao ajudar professores e alunos na biblioteca onde atuo.  E brigo de sair no tapa com quem falar mal das universidades e seus pesquisadores perto de mim – nem tentem.

Mas isso não me impede de exercer meu senso crítico que, afinal, a universidade ajudou a desenvolver, e que se aguça quando leio literatura acadêmica da minha principal área de interesse na biblioteconomia: os acervos audiovisuais.

E é com essa disposição que mistura respeito e implicância, que faço agora meus comentários sobre o livro Recursos audiovisuais: sua  contemporaneidade na organização e representação da informação e do conhecimento, organizado por Ana Cristina de Albuquerque (UEL) e Ana Carolina Simionato (UFSCar).

A implicância já começa pelo subtítulo. O que exatamente quer dizer “sua contemporaneidade na organização etc ”? Minha alegria ao encontrar um livrinho escrito por pesquisadores brasileiros sobre esse tema que tanto me interessa diminuiu sensivelmente ao refletir sobre esse curioso subtítulo e mais ainda ao me deparar com uma vírgula mal colocada e uma concordância bizarra logo no texto da contracapa. Falhas de revisão acontecem, bem sei, mas não dá pra ter erro num texto curto na contracapa de um livro acadêmico. Gente…

O livro, resultado do trabalho de um grupo de pesquisa, contém 6 capítulos cujos autores parecem ter se dedicado com seriedade às suas pesquisas, mas com resultado de qualidade desigual.

O texto A organização da informação da perspectiva da comunicação: as fotografias de Romeiroso (sic) tem um problema que vejo com frequência na literatura da área quando trata de técnicas e conhecimentos válidos e generalizáveis para virtualmente qualquer situação pensando em sua aplicação a um caso específico: apenas constata o que já é amplamente conhecido. Obviamente, apenas um acervo organizado e tratado poderá gerar conhecimento e propiciar debate. As autoras não apontam, na coleção de imagens de romeiros que analisaram, nenhuma particularidade ou característica que possa diferenciar sua organização de quaisquer outras coleções de imagens ou que demandem abordagens distintas dos princípios de tratamento de documentos fotográficos já conhecidos. Ou seja, a parte teórica do texto é interessante, em especial quando enfatiza a importância das imagens como documento e fonte de informações, mas a relação com a prática não se apresenta de forma clara.

O segundo capítulo, A perspectiva da análise de domínio como aporte à análise de documentos fotográficos: algumas considerações, a meu ver é um dos melhores do livro. É possível que a análise de domínio, teoria sobre a qual ainda não tenho mais informações além das que encontrei nesse texto, possa ser útil para entendermos melhor um fato bastante conhecido, mas pouco estudado: o contexto de produção e uso é um fator decisivo na no tratamento temático de coleções de imagens. A pergunta “como faço para tratar uma coleção de imagens” será sempre respondida com uma outra pergunta inicial: “imagens de que área”? Imagens de medicina, fotos jornalísticas e reproduções de obras de arte exigem olhares totalmente diferentes por parte dos indexadores. Acredito mesmo, com base na minha experiência prática, que a área é um fator importante também na catalogação. A noção de título, por exemplo, e a importância dessa informação muda muito conforme a área, sendo praticamente irrelevante ou inexistente em algumas e muito importante em outras. Mas o texto não avança em relação a possíveis aplicações práticas, ainda está no estágio do “acredita-se”. Aguardemos.

Abordagens multimodais para análise de documentos audiovisuais é um texto com alguns problemas. Um deles é a falta de definição  explícita de que tipo de indexação se está tratando: automática, executada por máquinas, ou indexação por humanos? Pelo contexto é possível inferir que o autor está abordando processos automáticos, mas em alguns momentos tive a impressão de que ele se refere a processos humanos ou híbridos. No parágrafo final, por exemplo, na qual afirma que

ao olharmos e buscarmos a compreensão de como as ideias e emoções ganham forma, bem como a toca efetiva dessas ideias e emoções entre seres humanos contida nos documentos audiovisuais, diversos avanços podem ser alcançado na área da Ciência da Informação (p. 53 a 54).

Como a multimodalidade vai resolver isso? Como seria esse processo?
Partindo do princípio que a multimodalidade vai ocorrer na indexação automática, faltou explicar qual é a novidade nessa abordagem. As técnicas que não são multimodais não consideram os diferentes níveis de conteúdo citados pelo autor, som, imagem e texto? O que há de diferente e inovador na multimodalidade? Para o leitor que não está familiarizado com o conceito, fica difícil entender a ideia. O texto é bastante técnico e, em alguns momentos, um tanto obscuro. Talvez isso ocorra, admito, por falta de informação minha. Só minha ou de muitos outros leitores? Uma das funções de trabalhos acadêmicos como esse é justamente explicar alguma coisa e se fazer entender, para que o conhecimento da área continue se desenvolvendo?

Também é difícil entender o que faz nesse artigo um capítulo sobre uso de vídeos no ensino à distância. Suponho que seja um interesse pessoal ou profissional do autor, que talvez visualize uma relação entre o uso do vídeo no ensino e as técnicas de indexação e recuperação da informação, mas isso não está explícito no texto. A gente fica se perguntando o que uma coisa tem a ver outra, o que é, me parece, uma falha num trabalho acadêmico.
Outro detalhe que me incomodou é essa afirmação:

Os vídeos digitais veiculam informação por meio de imagens (fixas e dinâmicas), textos e sons. Ao compararmos os vídeos com textos ou imagens, o vídeo difere por ser uma grande aproximação da experiência humana no mundo real. O vídeo digital traz uma dimensão significativa da nossa experiência do mundo: envolve sequências de mudança e de repetição nos campos visual e auditivo (…) (p. 41).

Primeiro: essas não são características exclusivas dos “vídeos digitais”, mas de qualquer vídeo ou filme em qualquer suporte. Segundo: ao fazer uma afirmação desse tipo, o autor deveria incluir uma ponderação a respeito do efeito de realidade da linguagem audiovisual, sobre a representação do real nos filmes – tema sobre o qual há muita literatura disponível. Não mencionar essa questão é ignorar um aspecto importante da linguagem desses documentos, um aspecto que tem muito impacto na atividade de indexação. Não se pode falar de “mundo real” e imagens em movimento na mesma frase sem entrar em questões mais profundas.

O autor está propondo uma arquitetura utilizando a análise multimodal e, para isso, construiu uma base de dados de testes. Infelizmente, as explicações do texto não são suficientes para que se possa entender como funciona essa ferramenta. Ele cita um trabalho que parece ser dele mesmo – é o mesmo sobrenome – que talvez contenha mais detalhes, mas essa fonte  não aparece na lista de referências. Ou seja, o leitor vai ter muita dificuldade em entender as funcionalidades da base de dados e visualizar, na prática, a análise multimodal. Parece interessante, fiquei curiosa, mas creio que vou continuar sem saber qual é a diferença entre a análise multimodal de filmes e a análise que sempre fiz, já que analisar imagem, som e texto é princípio básico da indexação de imagens em movimento.

O tratamento descritivo para recursos audiovisuais: a representação de filmes é, infelizmente, o mais decepcionante para quem tem experiência prática na área. Muito falho, contém conceitos equivocados. Por exemplo, o conceito de dispositivo, que a autora parece não ter compreendido ou não ter conseguido explicar corretamente. O dispositivo não é, como a autora afirma, referindo-se ao conceito expresso nos Functional Requirements for Bibliographic Records – FRBR, a manifestação.   Na fonte citada pela autora, o texto de Parente (2009) *,  dispositivo cinematográfico é um conceito bem mais amplo, que inclui um aspecto material – os equipamentos de produção e exibição, o espaço da sala escura – e aspectos psicológicos e ideológicos, com as formas de recepção pelo espectador, a impressão de realidade etc.

O texto contém confusões terminológicas indesculpáveis, como esta: “Inicia-se a discussão dos recursos audiovisuais por meio de sua terminologia, que advém do francês audiovisual (sic)” (p. 78). Dois erros na mesma frase: o termo em francês é audiovisuel, e não encontrei em nenhum bom dicionário a informação de que o termo em português vem do francês. Mais adiante, a autora passa a se referir a recursos fílmicos, alternado essa designação com recursos audiovisuais, sem explicitar distinções entre um conceito outro ou explicar o uso dos dois termos.

O conceito de gênero, inescapável para quem pretende tratar imagens em movimento, mas bastante problemático, é tratado de forma superficial. A autora cita uma lista de gêneros extraída de uma única fonte, sem questionar suas inconsistências, sem apontar a existência de outras possibilidades nem alertar para as dificuldades práticas que surgem no momento de conceituar, elaborar listas de termos e identificar o gênero dos filmes no momento da indexação.

Mas o maior problema do texto está justamente em seu tema central, a catalogação de filmes. A autora se baseia fortemente nas regras do AACR2 e o formato MARC, sem apontar as notórias deficiências dessas duas ferramentas para o tratamento de imagens em movimento. O texto sequer menciona as regras da Federação Internacional dos Arquivos do Filme, cujo conhecimento é fundamental para compreensão das informações necessárias à descrição desses materiais. Tampouco analisa as contribuições dos FRBR para essa área, que são importantes. Menciona de forma superficial o Metadata Standards for Cinematograhic Works, sem analisar suas vantagens em relação a outros padrões. Além disso, o quadro com os elementos descritivos desse conjunto de metadados contém erros de tradução que prejudicam a compreensão do enunciado. Nenhum profissional ou pesquisador que conheça acervos de filmes definiria série como “grupo de artigos distintos relacionados entre si, pelo fato de que cada um suporta de item, em adição ao seu próprio título, um título coletivo, aplicação para o grupo como um todo” (p. 92). Tradução automática sem revisão? Gente…

A falta de cuidado com a escrita aparece em vários parágrafos confusos,  dificultando a compreensão de conceitos importantes. Por exemplo:

Outro dado importante é que os filmes podem ser baseados em livros. No caso de obra modificada, a qual se apresente como uma modificação de outra, a entrada principal deve ser adequada pelo adaptador. Isto é, deve ser adequada à nova obra caso a modificação tiver alterado a natureza e o conteúdo originais, ou se o meio de expressão for alterado. ( p. 86)

Em quase todos os capítulos do livro está presente, de alguma forma, um problema recorrente na literatura da nossa área: o distanciamento da realidade prática. Temas interessantes e bons referenciais teóricos naufragam, com frequência, na falta de intimidade dos autores com procedimentos de catalogação, indexação, administração de acervos etc. Quando a pesquisa teórica pretende buscar soluções ou, ao menos, reflexão crítica sobre esses processos, essa lacuna pode ser fatal. E não estou dizendo que só quem tem experiência prática pode se dedicar a estudar e a escrever sobre os assuntos do bibliomundo, mas sim que é fundamental estudar e conhecer bem essas práticas – e não apenas por meio da literatura – sob pena de cair no discurso intelectual inócuo. Ou pior, de escrever bobagem e ter suas bobagens citadas por aí.

Não tenho muito a sobre o último capítulo do livro, Curadoria digital e organização do conhecimento: portais semânticos para as artes e cultura, porque não domino o assunto, mas tenho algo a dizer sobre a autora, com quem tive o prazer de conviver. Gabriela Previdello Orth desembocou na biblioteconomia e na ciência da informação pelo caminho das artes visuais, sua formação e interesse originais. Mas, ao contrário de outros pesquisadores que migraram de outras áreas e fazem carreira fingindo que entenderam tudo e se escondendo atrás de um discurso sofisticado e vazio, Gabriela fez questão de entender as práticas da biblioteconomia. Passou dias na Biblioteca da ECA – e talvez em outras bibliotecas também – crivando a mim e outras bibliotecárias de perguntas sobre nosso trabalho, com enorme disposição em aprender. E aprendeu muito, tanto que decidiu entrar na graduação enquanto fazia seu doutorado, para trabalhar como bibliotecária no futuro. Um futuro que não chegou a existir para ela. Teria sido uma excelente profissional e uma pesquisadora notável.

* PARENTE, A. A forma cinema: variações e rupturas. In.: MACIEL, K. (Org).Transcinemas. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2009. p. 23-47

VIII Encontro de Bibliotecários Educacionais

Fala galera,

Retomando um pouco dos eventos na área de biblio, o pessoal da Humus me pediu para divulgar por aqui o evento que acontecerá agora em outubro sobre Biblioteca 4.0.

Para quem tiver interesse vai rolar até um desconto na inscrição para os leitores do BSF. São dois dias de evento com diversas palestras, uma delas é da pessoa que vos escreve!

Segue o release oficial:

O novo conceito sobre as bibliotecas: 4.0

Os bibliotecários vêm se atualizando para acompanhar as tendências e tecnologias, afinal viver em uma era digital faz com que a busca por conhecimento seja constante. As ferramentas de trabalho mudaram, mas o conceito sobre as informações pode ser visto por diversos ângulos. A profissão está voltando à tona e tomando seu devido espaço no mercado.

Pensando em contribuir para fortalecer ainda mais esses profissionais a HUMUS está realizando o VIII Encontro de Bibliotecários Educacionais, que será realizado nos dias 23 e 24 de outubro de 2019, no Hotel Meliã Ibirapuera – São Paulo/SP. O evento contará com palestras de relevância para o mercado, como: Bibliotecas 4.0: Acervos virtuais e serviços em bibliotecas no futuro, por Cristiane Camizão; Como usar as redes sociais para atrair os estudantes para a biblioteca?, por Gabriela Pedrão; Workshop: Design Thinking para Bibliotecas, por Adriana Souza, entre outros assuntos imperdíveis.

As visitações as bibliotecas nas edições passadas foram um sucesso e se mantiveram. Acreditamos que as visitas inspiram e impulsionam, além das palestras com temas de extrema magnitude, você terá a oportunidade de consumar seus conhecimentos no dia seguinte, visitando uma biblioteca de excelência:  Biblioteca Telles, do Insper, conhecendo suas instalações e extraindo o melhor da gestão de Unidades da Informação (a visitação é limitada).

10% de desconto! Inscreva-se já!

Para mais informações e inscrições, acesse o site https://www.humus.com.br/enb

ou entre em contato: 11 5535.1397 | humus@humus.com.br

As time goes by

Fui convidada a participar de uma mesa de debates sobre o tema Desafios do Bibliotecário do Século XX vs Desafios do Bibliotecário do Século XXI: As Mudanças e Encontros Geracionais da Biblioteconomia, dentro do evento REPense: O Papel das Bibliotecas no Auxílio da Sociedade, organizado pelo InFoco, grupo de ex-alunos de Biblioteconomia da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).

Como minha companheira de mesa era a jovem Mari Galvani, assumi que a tarefa de falar sobre o século passado seria minha. Vou reproduzir aqui mais ou menos o que foi minha apresentação, incluindo o que acabei não dizendo por falta de tempo ou esquecimento mesmo.

Comecei explicando o que sou: mulher de 58 anos e meio (como dizem as crianças), feminista, de esquerda, trabalhadora assalariada, filha e neta de trabalhadores, bisneta de trabalhadores rurais, parte deles imigrante. Embora tenha, por enquanto, emprego, salário razoável, casa própria e possa comprar livros e passar férias na Europa – uma privilegiada, portanto – continuo sendo uma mulher da classe trabalhadora e a única coisa que tenho na vida é a força de trabalho que vendo para o Estado. Meu futuro, como o de qualquer trabalhador brasileiro, é incerto. Muita gente por aí se esquece disso.

Esperança

Entrei na faculdade em 1979 e concluí o curso de Biblioteconomia em 1982, já trabalhando na biblioteca onde estou até hoje. Vivi como adulta, estudante e profissional, os últimos anos da ditadura civil-militar instaurada pelo golpe de 1964. Ainda havia perigo, general na presidência, censura, gente no exílio etc, mas também havia esperança. Sabíamos que aquele período nefasto estava chegando ao fim e acho que sabíamos o que deveríamos fazer.

Vi a luta pela anistia, o fim da censura, a campanha das diretas, a redemocratização, a criação do Partido dos Trabalhadores, as primeiras eleições diretas para presidência da república. Vi o país mudar para melhor, aos trancos e barrancos, mas para melhor.  E hoje, vejo todo o horror do passado voltar, inacreditavelmente por meio do voto popular. E vejo bibliotecários que juraram “tudo fazer para preservar o cunho liberal e humanista da profissão de bibliotecário, fundamentado na liberdade de investigação científica e na dignidade da pessoa humana” apoiarem um projeto político racista, machista e homofóbico, que defende a ditadura, a tortura e o extermínio dos adversários políticos, ataca a cultura, a liberdade de expressão, a pesquisa científica, a educação, o meio-ambiente, os índios … e deixa queimar a floresta amazônica.

Hoje, ter esperança está mais difícil, tanto no país quanto na profissão de bibliotecário. Ter esperança é um desafio bem contemporâneo.

Formação política

Em minha época de estudante, formação política não existia. Na graduação, a política deu as caras apenas nas disciplinas básicas da área de comunicações. Já naquela época, ouvi dos professores o quanto era importante aprendermos a ler os meios de comunicação de forma crítica. “Precisamos ensinar a população a entender o discurso da televisão”, diziam eles. Nas disciplinas específicas de biblioteconomia, entretanto, o assunto morreu.  Mesmo aqueles professores que falavam na função da biblioteca da sociedade tinham, no fundo, uma visão idealizada de biblioteca, desconectada do seu entorno político e social. Era como se a biblioteca flutuasse numa nuvem cor-de-rosa acima do mundo, dependendo, para seu sucesso ou fracasso, apenas da atuação dos bibliotecários.

E vejam que não estou pensando numa formação política muito profunda, não mesmo. Se conceitos como direitos humanos, liberdade de expressão, tolerância, manipulação, estado laico, ditadura, democracia, comunismo, fascismo, nazismo, esquerda, direita, revolução e golpe de estado estivessem presentes no cotidiano de estudantes e profissionais, já seria um bom começo. Talvez assim a gente encontrasse menos colegas apoiando projetos de poder que, no limite, colocam em risco as bases da profissão e ameaçam nosso mercado de trabalho. Talvez a gente não tivesse que engolir bibliotecários propagando alegremente “fake news”.

A formação política do bibliotecário não precisa se limitar às salas de aula das faculdades. A participação em sindicatos, associações de classe e movimentos de trabalhadores costuma ser um excelente aprendizado. Foi participando dos movimentos dos funcionários da USP que aprendi que pertenço à classe trabalhadora e sempre pertencerei, que “mexeu com um, mexeu com todos” e, sobretudo, que a luta continua.

Esse é um desafio de ontem, de hoje e  será de amanhã, se houver amanhã.

Diversidade

Uma das melhores novidades deste século é a discussão sobre diversidade nas bibliotecas. Em meus primeiros anos de profissão não se falava  disso – ou se falava tão pouco que a velha aqui não se lembra mais. Hoje já temos pós-graduandos negros questionando a bibliografia predominantemente branca e europeia dos cursos e procurando por autores africanos nas bibliotecas;  mulheres em busca de textos escritos por mulheres;  pessoas transgênero exigindo o direito de serem tratadas por seu nome social; bibliotecárias negras escrevendo livros sobre bibliotecár@s negr@as;  todo mundo questionando os preconceitos presentes nas tabelas de classificação e vocabulários controlados.

Algumas dessas demandas, como o acesso à informação por caminhos que um exército de metadados furiosos e uma muralha de regras consagradas teima em barrar, chegaram com muita força. Essa chegada é uma prova de que muitos caminhos já foram desbravados e, por maior que seja o retrocesso, não vamos voltar passivamente para a cozinha, para a senzala ou para o armário.

A diversidade é o desafio do momento.

Tecnologia

Quando comecei a trabalhar em biblioteca, na Idade da Ficha de Cartolina Branca, meu maior anseio em termos de tecnologia era uma máquina de escrever elétrica com corretivo. E olhem só, eu era uma bibliotecária tão privilegiada que dispunha de um projetor 16 mm e podia projetar eu mesma os filmes que catalogava.

A informática ainda era algo muito distante, mas que não assustava ninguém. Só os bibliotecários mais bobinhos pensavam que seriam “substituídos por um computador”. O futuro era nosso.

Mas o futuro foi chegando e arrastando, aos poucos, todas as nossas ilusões. Informatização significava, em inúmeros casos, não uma decisão técnica e administrativa, precedida de estudos das necessidades dos usuários (risos, risos), mas apenas uma conveniência política originária do andar de cima. Era o diretor que achava bonito “ter tudo no computador porque é mais muderno”, era alguém escolhendo o software X ou Y por interesses particulares, era o departamento de informática querendo criar tudo do zero por vaidade, para tudo acabar nas pobres das bibliotecárias usando o Micro-Isis mesmo, porque foi o que deu. E, por fim, quando chegou  o sistema proprietário estrangeiro que fazia de tudo e resolveria todos os problemas, aprendemos que software não faz porcaria nenhuma sozinho, o que faz tudo  ou nada acontecer  é vontade política ou falta dela.

Durante tudo o processo, que começou com a gente percebendo que a máquina elétrica corretiva não viria e que era melhor aprender um bagulho chamado word e outro chamado dbase num computador velho, vi muitos colegas se tornando obsoletos. Gente que foi bom profissional na juventude, mas que não deu conta de incorporar o avanço rápido da tecnologia e reaprender a trabalhar. Nós, os não tão velhos, tentamos dar as mãos aos que submergiam e puxá-los para cima, mas muitos não conseguiram.

Também vi serviços que um dia foram inovadores perderem completamente o sentido em poucos anos, com a chegada da internet. A coleção de slides que ajudei a criar, por muitos anos menina dos olhos dos professores de arte, morreu de obsolescência tecnológica sob nossos narizes. Não que eu não soubesse mais ou menos o que deveria ser feito para remodelar o serviço, mas simplesmente não havia recursos tecnológicos, financeiros ou humanos ao meu alcance.

Antigamente, no tempo dos catálogos de fichas, diziam que as dificuldades intransponíveis na busca em acervos de documentos eram culpa dos fichários, coisas velhas, poeirentas e complicadas. O computador resolveria tudo. Hoje, as dificuldades intransponíveis são atribuídas às bases de dados ruins, interfaces horrorosas, softwares ultrapassados etc. Então, não é exatamente assim. As ferramentas ruins realmente atrapalham, mas a maior culpa é da falta de hábito em acessar acervos organizados, tanto físicos quanto digitais, falta de leitura, problemas com raciocínio lógico, preguiça de ler e entender o que está diante dos olhos, desconhecimento do que seja pesquisa até entre doutorandos. Observem que me refiro a dificuldades intransponíveis, porque dificuldade todo mundo tem mesmo.

Alguns desafios parecem mesmo eternos. Já escrevi um pouco sobre isso aqui mesmo no BSF.

Comunicação

Comunicar-se com seu público já foi um dos maiores problemas dos bibliotecários. Em tempos pré-internet, divulgar acervo e serviços ou estabelecer um diálogo mínimo com os usuários era dureza. As bibliotecas sem dinheiro faziam trabalhosíssimos boletins datilografados e xerocados que ninguém lia, de tão feios que eram. Um dos nossos diretores, crítico e historiador de arte, pegou uma publicaçãozinha nossa, folheou-a meio sem jeito e soltou essa: “meninas, eu até gosto de arte povera, mas isto aqui já é demais”.

A situação atual é incomparavelmente melhor. Quem viveu nos tempos dos boletinzinhos arte povera mal acredita nos recursos que temos agora: Canva para produzir facilmente cartazes e folhetos bastante decentes, blogs, chats, ferramentas de marketing para fazer newsletter, mídias sociais para postar avisos com fotos de gatinhos… Enfim, um verdadeiro parque de diversões. Hoje a comunicação com o público pode ser rápida, interativa, direta e informal. Podemos finalmente desamarrar a cara sisuda que sempre tivemos e brincar com os usuários, basta saber usar a tecnologia que temos ao nosso alcance. É aí que mora o problema. Embora existam cada vez mais bibliotecas fazendo um trabalho excelente nas redes sociais, e até bibliotecários dando dicas simples de marketing pros coleguinhas, ainda há muitas bibliotecas que conseguem burocratizar até o Facebook e Twitter. Vocês já ouviram falar que, em algumas bibliotecas, todas as postagens nos perfis institucionais precisam ser previamente aprovadas pela chefia? Bem, isso existe, não é lenda urbana de bibliotecário.

Algumas coisas não mudam jamais.

Os audiovisuais

Minha primeira tarefa profissional foi organizar um acervo de filmes. Depois vieram as fotografias, slides, partituras e gravações de música. Os documentos audiovisuais já foram uma promessa de mercado de trabalho que se abriria para os bibliotecários. Passei os últimos quase 40 anos ouvindo professores dizerem que “biblioteconomia não se ocupa SÓ de livros” e bibliotecários chamarem filmes e fotografias de “materiais especiais”, tanto uns como outros tratando essas coleções com ferramentas criadas para tratar textos.

Não vi, de lá para cá, muitos avanços nessa área, pelo menos não no Brasil. Já apresentei aqui minhas preocupações com a perda desse mercado.
Se eu fosse otimista, diria que o desafio de hoje é recuperar os espaços perdidos ou, pelo menos, tentar não perder mais nada. Mas eu não sou.

Epílogo: o fim do SIBiUSP

Em 1981, quando foi criado o Sistema Integrado de Bibliotecas da USP  (SIBi) foi criado em 1981, eu já trabalhava na Universidade. Esse órgão, cuja criação tornou possível que as bibliotecas da USP, cada uma delas subordinada à sua faculdade, instituto, escola ou museu, conseguissem trabalhar em conjunto nas atividades comuns a todas, acaba de ser extinto.

A Agência USP de Gestão da Informação Acadêmica, que substitui o SIBi, é presidida por um docente sem formação em biblioteconomia. O projeto da Agência foi –  ou está sendo – definido sem a participação dos bibliotecários da Universidade. O que será essa Agência? Ninguém sabe. O que vai acontecer com as bibliotecas? Ninguém sabe. Vejam aqui um pouco dessa triste história, contada por uma bibliotecária velha que nunca imaginou que viveria para ver o fim do Sistema Integrado de Bibliotecas da USP.

The fundamental things apply
As time goes by

Qual é o melhor software para organizar uma biblioteca pequena?

Justo agora que eu tava pra liberar a chamada do curso de automação para pequenas bibliotecas, o Murakami veio com a ideia de construir um software simples para bibliotecas com baixo orçamento. Eu e ele, que mantemos este singelo BSF há uns 15 anos, sabemos que um dos posts mais buscados aqui é uma lista de softwares de biblioteca, desde pequeno até grande porte, proprietários e abertos. Nas nossas andanças, muita, muita gente mesmo parou pra perguntar: eu tenho uma pequena biblioteca em casa, tô começando a trabalhar em uma biblioteca comunitária, fui chamada para migrar do papel para o computador, estou trabalhando com acervo infantil… qual é o software que você indica pra minha biblioteca?

Desde tempos imemoriais eu brincava com Roosewelt dizendo que o melhor software de automação de bibliotecas de pequeno porte é o Microsoft Excel. Isso porque é perfeitamente possível gerenciar um acervo e controle de empréstimos utilizando uma planilha xls como base. Você nem precisa de internet, basta um netbook velho. Cada campo da catalogação é uma coluna, cadastros de usuários podem ser feitos em uma aba secundária e para encontrar qualquer registro no momento do empréstimo basta dar um ctrl+F. Excel aguenta muitas linhas sem dar pau, então a principal questão é: quando estamos falando de biblioteca de pequeno porte (seja ela pessoal, comunitária, infantil, tanto faz) qual é o seu real tamanho? A resposta talvez seja justamente a quantidade de linhas que um excel aguenta sem dar pau em um netbook velho. Eu vou chutar 2000 linhas como limite. O que daria 2000 títulos ou 2000 usuários, uma aba aberta por vez.

Então se você tem uma biblioteca com até 2000 títulos e/ou 2000 usuários, chega aqui pertinho que eu vou te contar uma coisa: o melhor software pra gerenciar esse montante aí se chama: LibraryThing. Você poderia usar um xls do excel, claro, mas você não quer passar ridículo com os usuários. Você é millenial e quer um software de verdade. Vem comigo.

Ao longo da vida de bibliotecário que precisava migrar da lógica do catálogo de fichas para o universo digital e sempre trabalhou com pouca ou nenhuma grana, testei tudo quanto é tipo de software, dos mais horríveis aos mais pretensiosos. Pode mandar o nome aí que eu dou um check: winisis, biblivre, gnuteca, phl, openbiblio, emilda, koha, pergamum, sophia, aleph, argonauta, shelfari, goodreads, libib….etc. Para cobrir as necessidades de uma pequena biblioteca todos esses daí perdem pro librarything pelos seguintes motivos:

não precisa de instalação (só precisa de internet)
não precisa catalogar (dá pra importar quase tudo)
não precisa pagar (para fins pessoais)
tem OPAC e website (design minimalista)
registo de usuários e controle de empréstimos (tinycat)

Obviamente que os outros softwares oferecem esses quesitos, mas todos eles combinados só o LibraryThing.

Quanto ao Bibliolight do Murakami, eu vou apoiar qualquer esforço na distribuição de um software que seja genuinamente nacional, aberto, livre, que seja adequado para pequenas bibliotecas sem recursos. É uma demanda real que a gente vem tentando solucionar desde os idos de 2000s e início, batendo cabeça com a falta de infraestrutura, logística, plano de negócios, capital inicial, enfim, mas que agora talvez finalmente surja uma solução alinhada com a oferta de tecnologia a baixo custo e pouca exigência operacional.

Eu fiz uma sequência de vídeos com captura de tela mostrando como gerenciar uma biblioteca pequena usando o LibraryThing. Estão em formato de curso e vocês podem se inscrever na ClassCursos. Assistam o meu convite:

(se você não é bibliotecário ou não se interessa pelos pormenores pode parar de ler aqui. O link para o curso, com apresentação e ementa completa está aqui: classcursos.com)

Tem duas coisas que realmente me incomodam quando se trata de software para pequenas bibliotecas. O primeiro problema, eu mencionei rapidamente acima, é que as pessoas desejam um software para bibliotecas sem recursos, mas não conseguem identificar com clareza quais são as demandas reais dessa biblioteca e o que se entende quando dizemos biblioteca de pequeno porte. O bibliotecário sempre quer um feature a mais no desenvolvimento e customização, que a meu ver não vai ter impacto significativo na gestão de um acervo pequeno. Em outras palavras, seguir os manuais de representação é mais importante para algumas pessoas do que adaptar o mais simples pro usuário e gestão do acervo. E isso causa uma confusão mental na hora de avaliar qual é o software mais adequado.

Exemplos que uso são que os bibliotecários têm receio de seguir a CDD da catalogação na fonte, quando que diferença faz se você precisa de poucas informações para recuperar um registro localmente. Se você tem um acervo de 500 títulos, não vai fazer muita diferença se a classificação é 322 ou 328.12, não é necessário esse nível de especificidade para fins de recuperação, talvez nem mesmo em um acervo com uma única temática. Cutter daria uma ajuda adicional e seria o suficiente. Outra opção é utilizar somente 3 dígitos na etiqueta da lombada. Pra que mais que isso em um acervo de menos de 2 mil itens? Não precisa, convenhamos. Falo isso por experiência, já testei dessas formas, e nunca houve interferência, funcionou pra mim e pros usuários, sem diminuir a qualidade da representação temática. Se algum bibliotecário acha herético, então é só reler o parágrafo anterior.

O outro problema é a questão da instalação e necessidade de uso de outros softwares ou qualquer coisa 3rd party. Normalmente se pensa em software pequeno na ótica do bibliotecário catalogador e não na do bibliotecário dummie. Eu por exemplo mal saberia onde incluir um arquivo dll quanto mais usar mysqld, apache e php. Não faço a menor ideia. Poderia ver uns vídeos no youtube, claro, ou pagar uma empresa especializada pela instalação e hospedagem. Mas isso meio que tá na contramão da minha necessidade: quero algo simples, barato, que me dê autonomia.

Você pode optar por softwares ultra simplificados, que exigem apenas instalação local e pequenas modificações no windows, sim, mas daí você perde em design/interface e em aplicações de rede, como importação e consulta remota ao opac. Não tem pra onde fugir.

Bem, o LibraryThing possui vantagens e desvantagens como qualquer produto. Vou tentar fazer uma argumentação em sua defesa, é a minha primeira indicação para uma pequena biblioteca, passionalmente por motivos óbvios: não tô ganhando nada promovendo o software, é que eu gosto dele mesmo.

VANTAGENS

Instalação: o librarything é totalmente baseado na web. Não precisa de instalação, não precisa de atualização. Funciona como e-mail, você cria uma conta e entra com login e senha no navegador. Basta ter acesso à internet. Claro que é aqui que mora o perigo. Os experts vão dizer, ah mas justamente por isso é necessário rodar uma instalação local monousário, pois não requer rede. Talquei, mas vou chutar que hoje é muito mais provável que o responsável pela biblioteca consiga uma conexão, nem que seja via celular (e para isso o librarything tem um app). Bibliotecas pessoais nem se fala. Se a situação for muito precária, existe a possibilidade de catalogar tudo na internet de alguém, deixar pelo menos o OPAC rodando normalmente pra quem tem celular e fazer o controle de empréstimos offline.

Bibliotequices: bibliotecário é um bicho chato então mesmo sem saber pra que serve ele vai perguntar “mas esse software oferece protocolo z39.50?” E eu digo sim, o LibraryThing tem tudo isso, api, interoperabilidade, importação formato .mrc, dublin core, xml e o escambau. Conheço bibliotecárias capazes de catalogar 2 mil itens em pouco mais de 1 mês, então a não ser que você esteja migrando de outro software ou seu acervo corrente se atualize com uma velocidade absurda, essa coisa de importação também não faz o menor sentido. É muito mais simples fazer tudo na mão, biblioteca pequena irmão. Pensando nessa lógica, de uma pequena biblioteca que não vai exigir uma recuperação minuciosa, você não precisa preencher todos os campos do marc. Basta os campos principais, alguma coerências nos assuntos e só. Coisa que se cataloga em 2 minutos. Mesmo assim, o LibraryThing pega z39.50 de quase 5 mil bibliotecas, e pasmem, quase nenhuma dessas no Brasil. E por que? Porque bem, as bibliotecas brasileiras simplesmente não liberam seus dados. Pra que a gente fica falando de interoperabilidade no curso de biblio, eu me pergunto. O LibraryThing suga a maior parte dos dados do Amazon, quer vocês gostem ou não, a maior base bibliográfica do mundo hoje. É só jogar um título, um ISBN, um clique de mouse e pronto, importação feita.

Cabeçalhos de assunto: não sei como funciona tabela de autoridade nos outros softwares, mas no LibraryThing você pode criar quantos descritores e remissivas quiser. Qualquer assunto que você atribuir vira um link, qualquer livro identificado com aquele assunto estará associado ao link. Tem facetada até dizer chega pra fazer combinação de busca, booleana. Tem tudo isso, e eu nem sei pra que, porque vou ter que dizer de novo: biblioteca pequena. Pra que inventar?

Empréstimos: o LibraryThing propriamente é o módulo de catalogação. Funciona satisfatoriamente para uma biblioteca pessoal. Mas ele possui um módulo paralelo que se chama TinyCat, e é um espelho dos livros catalogados no LT. Tem OPAC, tem painel administrativo pra controle de usuário e gerenciamento dos empréstimos. A melhor coisa é que o TinyCat é um catalogo público de verdade, o acervo fica disponível em um link na web, cada usuário pode ter um login para controle online (o usuário tem que ir fisicamente até a biblioteca pegar o livro, claro. Um ponto fraco é que o usuário online não consegue fazer reserva, só o bibliotecário como administrador. Mas biblioteca pequena gente, não vamos complicar).

Desenvolvimento: o LibraryThing foi concebido como uma rede social de livros. Perdeu o posto pro GoodReads e hoje é focado mais em pequenas bibliotecas mesmo. Mas desde sempre ele contou com bibliotecários na equipe de desenvolvimento. Isso fica evidente nas minúcias e características do softwares, simples porém completo. A equipe é bastante acessível, precisei entrar em contato com eles algumas vezes e sempre foram muito solícitos.

OPAC: o TinyCat é minimalista, oferece as capinhas, tem opções de navegação pelas facetadas e busca avançada. Acho que não perde em design pra nenhum outro software, mesmo entre os grandes.

DESVANTAGENS

Tradução: o software é gringo, a interface é em inglês com opção de tradução automática. A parte do TinyCat não tem tradução. Mas o desenho é intuitivo, as principais operações são em inglês muito básico. Na pior das hipóteses o bibliotecário pode auxiliar o usuário a consultar o catálogo, até que ele identifique as informações principais por conta própria.

Preço: o LibraryThing é gratuito para fins pessoais. Para todas as outras modalidades ele oferece um pacote de pagamento compatível com o tamanho do acervo. Quanto maior o acervo, mais cara a assinatura. Acho o valor irrisório quando colocado custo e benefício na balança. Existe a possibilidade sim de usar o LibraryThing gratuito indefinidamente, mas pra que fazer isso, não façam.

Reservas: ele não tem a opção de fazer a reserva online (tem um botão lá pra isso, mas ele meio que não tem serventia).

LibraryThing: software para pequenas bibliotecas, curso online