Biblioteconomia do possível vs. Biblioteconomia das possibilidades

Como disse em um post anterior, a Biblioteconomia tem diversos entraves que podem até impedir a inovação. Todo o nosso trabalho está voltado para organizar algo que já existe, e tudo o que fazemos está diretamente associado às características já existentes nesse objeto. Por isso, sempre seremos a Biblioteconomia do possível e isso em questão de matéria de sobrevivência é muito ruim.

E o porque da sobrevivência?

O problema da nossa área, a meu ver, não é “se o livro vai ou não deixar de existir”, ou “as pessoas não leem mais”… O problema é que estamos competindo pelo tempo escasso dos nossos usuários. Todos nós temos um tempo limitado no dia a dia e pela primeira vez na história, uma abundância de oportunidades de entretenimento e informações, com grandes players na concorrência, e além disso, temos um modelo de negócios estremamente ultrapassado, que poderia ter sido causa de nosso desaparecimento, caso dependessemos apenas de nós mesmos (com algumas exceções, é claro, mas grandes empresas competidoras já estão falindo. Ex: Blockbuster).

Mas então, o que nos tornaria a Biblioteconomia das possibilidades?

Se encarassemos como o foco nosso a divulgação do conhecimento (o que fatalmente ocasiona na preservação da memória) e projetassemos serviços que teria como base esse objetivo, fatalmente seriam diferentes de hoje, pois estamos focados na “recuperação da informação”.

Além disso, em algumas oportunidades, pensar em possibilidades se torna um grande diferencial. Acostumamos a lidar com o presente e acreditamos que é só isso que existe. Coisas podem ser feitas de modo diferente. Um exemplo disso, é o computador pessoal:

“A contracultura se responsabilizou por trazer o computador do plano industrial-militar para o plano do uso pessoal, quebrando o monopólio da IBM na área da computação. O escritor Pierre Lévy falou, corretamente, em desvio contracultural da alta tecnologia, em “bricolagem high tech” em meio a grupos da “nebulosa underground”, observando que “uma pitoresca comunidade de jovens californianos à margem do sistema inventou o computador pessoal.

Do mesmo modo, aconteceu uma espécie de migração contracultural das viagens de LSD para os laboratórios de alta tecnologia e para o sonho da realidade virtual. A Califórnia era, naquele momento, um centro da viagem contracultural e um centro de alta pesquisa tecnológica. E tudo se misturava: Janis Joplin e engenharia eletrônica, alteradores de estados de consciência e programadores de computador. Foi assim que Stewart Brand, organizador do grande festival psicodélico de 1966 em São Francisco, acabou indo parar no “Media Lab” do Instituto de Tecnologia de Massachussets, trabalhando ao lado de Nicholas Negroponte.

A verdade é que, naquela época, alguns militantes da contracultura passaram a ver, no computador, um instrumento revolucionário de transformação social e cultural. Podemos falar até mesmo de uma espécie de contraculturalismo eletrônico, onde se inclui um livro como “Computer Lib” de Ted Nelson, um jovem criado nas águas do rock e do underground. A supracitada vitória contra a centralização tecnológica em mãos da IBM se deu nesse contexto. Foi uma conquista da cidadania. E foi também nesse contexto impregnado de utopismo contracultural que surgiu o “Apple”, o modelo por excelência do computador pessoal. (GIL, 2003)

A tecnologia não é o principal diferencial, mas sim o uso que se faz dela:

“Em uma analise mais fria, a grande “rede mundial” nada mais é que uma série de computadores de grande porte interconectados, transmitindo informações para bilhões de terminais inteligentes ao redor do mundo, estejam eles em microcomputadores caseiros ou sistemas de orientação de barcos por satélite. O que faz dessa rede de infra-estrutura algo realmente significativo não é o poder das máquinas que as compõem, mas sim o uso que se faz delas, ao transformar a miríade de dados disponíveis em matéria compreensível e utilizável.” (ANTUNES, 2001)

Portanto, cabe a nós refletirmos sobre o nosso real papel na sociedade e quais contribuições poderemos dar.

Referência:

ANTUNES, Luiz Guilherme. Cyrano digital: a busca por identidade em uma sociedade em transformação. Tese de doutorado: Escola de Comunicações e Artes – São Paulo. 2001.

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