Os bibliotecários em essência – quinteplica

Caro Tiago

Vou me ater aos pontos principais que ainda rendem discussão. Como eu previa, concordamos muito mais que discordamos, tratava-se apenas de esclarecer…

“Ainda insisto que a nossa principal função é a preservação. Por quê? Porque a preservação é conseqüência do uso da informação, e para que ela seja usada, é necessário conseguir chegar até ela e ela estar em condições de uso.”

Suponho que queira dizer o contrário, que o uso da informação é conseqüência de sua preservação, certo? Pois bem, mas o Tiago está mais confundindo que esclarecendo. Porque “chegar até ela” pressupõe mais que preservação, implica *organização*. Preservação quer dizer apenas conservação, não organização. Daí que a informação (e todos os seus suportes) pode perfeitamente existir, e em ótimo estado, mas ser inacessível – porque está armazenada em qualquer lugar que não sabemos, não está identificada, não é fácil e objetivamente recuperável etc. O problema da conservação, de um ponto de vista histórico, está ligado ao da organização simplesmente pelo suporte envolvido (livro). Mas hoje há vários outros suportes (e Tiago deve saber disso melhor que eu) cujo problema de “preservação” é algo diferente do problema antigo de ‘conservação’. “Conservação” pode ser feito por outros profissionais tão ou melhor qualificados que os bibliotecários. Organização, em tese, não – porque é mais o que se espera destes.

“Essa visão contrasta um pouco com o fetiche pelo objeto original da informação, que ainda é o objetivo dos que trabalham com a preservação. Como exemplo, vou usar as principais exposições em São Paulo atualmente: O Museu da Língua Portuguesa e a exposição do Leonardo da Vinci. Ambas têm em comum o fato que o que está exposto não são as obras originais e sim cópias, porém isso não impede de o conhecimento que essas cópias trazem seja preservado, pois está sendo disseminado. Outro exemplo é um pedaço de código de um software, que está sendo compartilhado e serve para criar outras aplicações, ele também está sendo preservado e isso a meu ver é mais importante do que manter a integridade do original. A organização, disseminação e outros são ferramentas que tornam mais fáceis o uso dessa informação, por isso são importantes, mas não são a finalidade.”

Vamos clarificar essas questões. Para se fazer uso de qualquer coisa é preciso que essa coisa exista. Neste sentido a conservação é importante, e Tiago tem razão.

Mas este não é sentido comum da expressão “preservação” enquanto atividade profissional. Neste caso, o termo refere a uma atividade dedicada a tratar um dado objeto de modo a prolongar-lhe o tempo de uso.

É esse o objetivo fundamental da Biblioteconomia?

Por acaso quando um livro torna-se inutilizável, se o custo de restaurá-lo for maior que o da aquisição de um novo, nós o restauramos? Se todo o acervo de um periódico for facilmente acessível pela internet, nós por acaso mantemos o antigo acervo físico apenas para prolongar o tempo de uso?

Evidente que não. Pois a Biblioteconomia está preocupada com o ‘acesso’. Acesso pressupõe necessariamente organização e, incidentalmente, disseminação. A conservação é apenas uma questão menor, e isso devido à obviedade de, para se ter acesso, é preciso que exista aquilo a que se acede. Mas isso não quer dizer que aquele que intermedeia tal acesso é o mesmo responsável por manter a integridade do *suporte* daquilo que se pretende acessar.

O exemplo do código de programação é muito mais apropriado neste raciocínio – porque ao ser reaproveitado ele não está sendo “conservado” (no sentido usual e mais empregado do termo), mas *disseminado*. (Os exemplos com relação à arte não foram bons porque no plano da arte, ao contrário do da cultura e da ciência, é preciso a conservação do próprio suporte necessariamente, pois que o conteúdo da obra é uma coisa só com ele; e cópias apenas *informam sobre* a arte, mas desqualificam aquilo que é sua natureza mais fundamental: a incitação a uma *experiência estética*.)

“Mudando de assunto (para não parecer que foi sem intenção): Concordo quando diz que a Biblioteconomia não é uma ciência. Isso porém não quer dizer que ela não use ferramentas científicas (metodologias, etc.) e ainda, que possa dar contribuições a ciência.”

Duas vezes de acordo.

“Outra questão que você colocou é sobre a escolha da área pelos egressos: Não concordo, por que isso ocorre também em todas as áreas.”

Em escala muitíssimo menor.

“A diferença é que a Biblioteconomia é muito pequena e isso se torna muito aparente. Em relação ao comentado descaso com a área, eu acho que é conseqüência da falta de profissionais, que também traz como conseqüência o êxodo de pessoas eficientes para outras áreas de melhor perspectiva (por motivos financeiros ou status). Além do mais, somos uma área exclusivamente de prestação de serviços, por isso não podemos acreditar que estaremos no topo da pirâmide.”

O que eu critico é justamente a necessidade psicológica que profissionais e estudantes têm de insistir em parecer estar “no topo da pirâmide” (o mesmo para professores, mas neste caso a pirâmide é acadêmica e, sua escada, a CI).

Mas a Biblioteconomia não é tão pequena assim. Se pensarmos em termos de profissionais totais, tem mais membros que algumas áreas altamente especializadas. O problema não é tanto seu número, mas sua *organização* – seus profissionais, estudantes e professores, sejam quantos forem, estão dispersos, desacreditados das próprias instituições e desmotivados.

“A afirmação acima já contrasta com a sua afirmação que a sociedade precisa de menos bibliotecários. Eu acredito que precisa de muito mais, mas concordo com o seu argumento de que a biblioteconomia ainda olha muito para o próprio umbigo e não se expõe a sociedade.”

Tiago, por favor, leia com mais atenção. Eu jamais disse isso. Disse que as mudanças que as sociedades vêm enfrentando, por serem profundas, abrangentes e imprevisíveis podem levar à direção contrária que pregam os bibliotecários: ao invés de ter mais necessidade destes, poderia ter menos. É apenas uma possibilidade que, a meu ver, é tão factível quanto a oposta.

“Uma das questões que mais gostei foi quando disse que nos preocupamos com as “necessidades universalizáveis mas universalmente desconhecidas” e a incompetência generalizada da sociedade em organizar a própria informação. Não sei se o termo incompetência se aplica, mas acredito em algo como incapacidade, uma vez que o processo informacional é muito mais complexo do que qualquer pessoa só consiga compreender. Por isso acredito que podemos dar a nossa contribuição, mas ela tem que estar menos voltada aos nossos interesses e mais voltadas ao interesse coletivo.”

Concordo integralmente com a última frase. Só que se “o processo informacional” é complicado de entender não há razão ‘a priori’ para supor que bibliotecários o dominem *tão* melhor que outros profissionais e estudiosos. É apenas uma crença que os bibliotecários gostam de acalentar. O que quis dizer é justamente que, se há dificuldades quanto a essas competências essas dificuldades não parecem evidenciar incompetência ou incapacidade nenhumas porque todas as áreas estão a fazer suas pesquisas, atender seus clientes e produzir e divulgar seus conhecimentos. De alguma maneira, de um jeito ou de outro, estão entendendo e desenvolvendo seus “processos informacionais”. Em boa parte das casos, com o auxílio da Biblioteconomia. E vice-versa. Mas o ponto é: nem por isso a Biblioteconomia é o ponto principal, o supra-sumo, a extrema salvação dessas áreas. É apenas mais um instrumento. Tão (ou mais, ou menos) importante e útil quanto vários outros.

Saudações
Alex Lennine

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