“Malogramos sempre ao falar do que amamos”, por Aldo Barreto

Reflito o futuro da ciência da informação como área de conhecimento. Temos colocado, continuamente em nossas mensagens, ecos que indicam que a relação da informação com seu receptor está cada vez mais se configurando em uma mudança no estatuto do documento que está indo do documento fechado para o documentos aberto, em se fazendo, e em rede.

As facilidades de acesso da web marca sua interatividade com o receptor e a interoperabilidades dos estoques globais. O usuário de informação não aceita mais percorrer os caminhos ocultos dos universos particulares da linguagem nem perder tempo com as intrincadas regras das taxonomias voltadas para os processos de almoxarifagem de uma acervação convencional que não lhe diz respeito.

A pergunta que não quer calar, pelo menos em mim é: a ciência da informação, como atualmente entendida e ensinada na pós graduação, subsistira enquanto área de conhecimento aplicado nos próximos 10 anos?

Se existir alguma divida, porque continuamos ensinando a nossos alunos, conteúdos e práticas envelhecidas e ultrapassadas?

Qual campo virá a ser o articulador de um comportamento novo, ocupado, com o sucesso da transferência adequada da informação para uma uso aplicado da comunidade. Como tratar da acervação de 70 milhões de blogs, documentos abertos que crescem 200 mil por semana, só para indicar um exemplo.

Porque os cursos de pós-graduação, seus alunos, docentes e a sociedade da área não estão discutindo um futuro possível frente a uma tecnologia da informação cada vez mais intensa e presente e modificadora. Existe, na área, uma contagiosa síndrome do baile no Titanic?

Vale afirmar que acredito que os documentos e seus conteúdos tradicionais e as suas práticas ortodoxas de organização e controle, permanecerão mil anos em uma ciência da informação “com resguardado”, tão honrosa quanto necessária para a guarda da memória do que fomos na construção do que seremos. Mas esta não será a dinâmica, dos novos atos de informação para o desenvolvimento, do ser humano e da sua realidade.

A rede está afetando o núcleo de serviços da biblioteca: (1) desenvolvimento de coleções, (2) guarda de documentos, e (3) referência. Área de ciência da informação, como um todo enfrenta, há algum tempo, problemas, que antes eram detectados só por alguns docentes, mas que agora atinge o alunato.

No artigo 4 do volume do DataGramaZero (v.4, n.1, fev/2003) a representante da área no CNPq diz: “a estagnação no volume de bolsas concedidas entre 1994 e 2002 levanta preocupações a respeito da evolução da área.”

Os representantes da área na Capes, indicam no DataGramaZero (v.3, n.6, dez/2002,artigo 04): “o diagnóstico da área em 2001 é preciso destacar que as análises realizadas pela Comissão, bem como os dados disponíveis na CAPES em relação ao Sistema Nacional de Pós-Graduação, caracterizam a Ciência da Informação como uma área tímida, pouco agressiva, que se evidencia por um número restrito de iniciativas” “. a área viveu durante 30 anos com 5 programas e neste momento conta 6 programas formalmente inscritos na área de conhecimento da Ciência da Informação. A situação é, neste sentido, de uma quase estagnação”

O profissional da ciência da informação se encontra, neste momento, como estando em um ponto no presente entre o passado e o futuro. Convive com tarefas e técnicas tradicionais, mas precisa atravessar caminhos para atuar em uma outra realidade, onde estão indo seus clientes.

“O homem é corda estendida …sobre um abismo; é perigosa a travessia, é perigoso caminhar, é perigoso olhar para trás, tremer e parar….sobreviverão os que sabem viver como que se extinguindo, porque são esses os que atravessam de um para o outro lado.” *adaptações livres de palavras de Zaratustra de Nietzsche

Observação:

“Malogramos sempre ao falar do que amamos”, originalmente destinado a um colóquio sobre Stendhal em Milão. Acredita-se ser este o último dos trabalhos de Barthes. A segunda página de “Malogramos sempre…” estava na sua máquina de escrever em 25 de fevereiro de 1980.

Naquele dia, Barthes foi atropelado — ou deixou-se atropelar, segundo a versão romântica — por uma caminhonete em frente ao College de France, onde ministrava um curso sobre Marcel Proust e a fotografia.

E porque eu, agora, incluo esta observação nesta mensagem? E continua Barthes em seu último artigo: “O que se passou foi a escrita. A escrita o que é? Um poder, fruto provável de uma longa iniciação, que desfaz a imobilidade estéril do imaginário e dá a sua aventura uma generalidade simbólica”

Incluo esta parte porque como um velho docente da área, não podendo mudar nada pois sequer sou chamado a opinar procuro sanar esta minha imobilidade estéril, com o que pelo menos posso fazer: a Escrita meu refúgio simbólico.

Aldo Barreto

Enviado originalmente para a lista Bib_Virtual. Agradeço ao Aldo por nos permitir reproduzir o texto neste espaço.

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