O WikiBrasil e seus temas na visão de um bibliotecário

O bibliotecário Moreno Barros foi com amigos assistir ao debate do WikiBrasil na noite de 10 de novembro, no Centro Cultural São Paulo. No dia seguinte, ele publicou um post no blog Bibliotecários sem Fronteiras sobre o evento. Lá, destacou os principais temas abordados durante a discussão e também deu sua opinião sobre alguns deles.

Este post chamou a atenção da equipe do blog do WikiBrasil e resolvemos, então, entrar em contato com Barros para uma exclusiva entrevista. Confira!

*PS*A entrevista oficial está disponível no site do WikiBrasil. Abaixo eu reproduzo o texto original, que foi editado para se enquadrar nos propósitos da entrevista.

Como o avanço da tecnologia e da internet influenciou diretamente o trabalho dos bibliotecários?

O avanço da tecnologia e da internet influenciou o trabalho dos bibliotecários no senso em que é possível perceber uma tendência, uma transição de um modelo clássico de biblioteconomia centrado em dinâmicas para gestão do acesso, recuperação e disseminação da informação, para um modelo emergente centrado em pessoas e na experiência do usuário.

Independente de autoridade/arbitrariedade, as pessoas têm liberdade hoje – graças especialmente à internet e tecnologias emergentes – para conquistar os espaços que necessitam para usufruírem de seus próprios modelos organizacionais, e ainda, fazer isso sem a necessidade de intermediários (aqui, falamos de bibliotecários, e em consequência, da maneira como este profissional precisa se readequar para permanecer socialmente relevante).

Por outro lado, é preciso deixar claro que a biblioteconomia não se trata de gestão de pessoas. O objetivo pode ser pessoas e comunidades, mas os meios com que faz isso é através de serviços técnicos com objetos (informação e tecnologias – conteúdo e suportes), não pessoas.

Mas a internet em princípio não é sobre informação (o foco de trabalho do bibliotecário), e sim sobre conexões sociais. Agora nós temos pessoas que por razões profundamente sociais querem participar do mundo (físico e virtual) de uma maneira que faça sentido para elas, e conectar com outras pessoas que fazem o mesmo.

O impacto sobre o nosso trabalho será especificamente definido pela maneira como nós oferecemos as ferramentas necessárias para que as pessoas encontrem as suas coisas significantes, sejas essas coisas outras pessoas, documentos ou serviços.

O que na verdade é o que os bibliotecários vêm fazendo há séculos, mas desta vez mudando a linha de atuação, do modelo anterior onde o usuário recorria ao bibliotecário como filtro, e agora com o bibliotecário indo até aonde o usuário está, já que a informação está presente em todos os lugares ao mesmo tempo e não requer intermediários propriamente.

Os bibliotecários, em geral, são contra ou a favor de uma enciclopédia livre e digital como a Wikipédia?

Existe uma frente bibliotecária que contribui com a Wikipédia. São bibliotecários de diversos países que trabalham em pról da organização da informação da enciclopédia, não só em termos de conteúdo, mas também estrutura e tecnologia. A página do projeto é
http://en.wikipedia.org/wiki/Wikipedia:WikiProject_Librarians

Não posso falar por todos, mas grande parte dos bibliotecários, especialmente os americanos, que representam a classe mais forte e atuante entre os bibliotecários, são a favor de uma enciclopédia livre e digital.

Por outro lado, a impressão que tenho é que os bibliotecários brasileiros ainda são relutantes em considerar a legitimidade de uma biblioteca livre e digital como a Wikipédia. Alguns profissionais torcem o nariz para uma mentalidade que pensa que é possível ter uma formação cultural sólida utilizando tecnologias colaborativas de produção de conteúdo.

O que eu defendo, enquanto bibliotecário, é que estamos no limiar de garantir o acesso universal a todo o conhecimento, o que seria uma das grandes realizações da humanidade. Existe a possibilidade de oferecer o melhor que possuímos ao alcance do maior número de pessoas possível. E esse esforço não pode ser reduzido à discussões sobre autoridade de verbetes e o embate entre conteúdo resultante de um longo processo de maturação acadêmica e conteúdo efêmero. Uma enciclopédia livre e digital é muito maior do que isso.

No futuro, todas as bibliotecas também serão virtuais? No que vocês acreditam?

Se pensarmos na questão técnica, de ferramental, é bastante provável que dentro de alguns anos os livros digitais substituirão os livros impressos. É apenas uma questão de tempo. Mas a discussão não deve girar em torno de livros impressos vs. livros digitais, ou biblioteca físicas vs. bibliotecas virtuais. O ponto principal é que estes aparatos tecnológicos serão capazes de oferecer aos livros digitais, a mesma relação agradável que leitores possuem atualmente com os livros físicos. Os livros impressos e as bibliotecas físicas continuarão a existir, obviamente.

Mas a partir daí, o ambiente da biblioteca assume uma nova postura. A biblioteca deixa de ser uma caixa de livros para se tornar um local físico onde as pessoas vão se encontrar em torno de interesses comuns. A busca pelo conhecimento não se reduz mais a espaços físicos delimitados, pois em um cenário de ubiquidade tecnológica, informações estão circulando no celular, no relógio, na roupa, no ipod, etc.

A biblioteca de Alexandria, que já foi a maior do mundo, tinha a proposta de abrigar todo o conhecimento registrado. Era excelente, mas o problema é que você tinha que ir até Alexandria para usufruir disso. Hoje em dia, ou no futuro próximo, essa limitação física é inadmissível.

O meu orientador, prof. Aldo Barreto, levanta uma questão interessante sobre o futuro das bibliotecas físicas: os documentos de amanhã serão em sua maioria digitais e em redes . Porque continuar a construir enormes palácios vazios destinados a estruturas de informação que terão cada vez menos demanda de usuários para seu estoque de informação?

No debate do WikiBrasil falou-se muito sobre disponibilizar livros inteiros na rede. Há quem ache que isso possa desvalorizar a versão impressa. Qual sua opinião a respeito?

Não conheço grandes estudos que comprovem que a disponibilização de livros inteiros na rede seja prejudicial a autores e editores, ou em qual extensão essa modalidade fere um modelo centrado no indivíduo, aquele que permite a uma pessoa fazer uma criação, ter sua autoria reconhecida e ganhar e responder por ela. Não precisamos entrar nesses méritos, já que a pergunta é bem específica.

Minha opinião é que não vejo qualquer indício de desvalorização da versão impressa caso o livro seja disponibilizado inteiro na rede. Afinal, essa correlação é mesmo relevante? A forma é mais importante do que o conteúdo, desde quando? O autor está mesmo preocupado com isso? Deveria estar?

Eu só posso falar como consumidor e não como produtor, e o que eu desejo é ter acesso à obra, da maneira mais fácil e rápida possível.

Essa pergunta tem relação com a anterior, no senso de que os aparatos tecnológicos tendem a quebrar o monopólio de certos meios de comunicação e objetos de informação. E com isso o meio deixa de ser mais importante do que os fins a que se propõe.

Quais foram as melhores coisas aprendidas e as conclusões a que você chegou após o debate do WikiBrasil?

Antes de tudo, é importante ressaltar a postura de um empreendedor de alto-escalão como o Jimmy, que ao contrário de muitos dos nosso acadêmicos e gurus, está disposto a participar de um discussão pública, na esfera pública, e ainda bater papo em mesa de bar. Ou seja, quem está atuando, pesquisando, tem competência e experiência e coloca a mão na massa, tem a percepção de que a aprendizagem é um processo de comunicação entre pessoas que compartilham do mesmo perfíl (não do mesmo título).

Não podemos esquecer que a discussão calorosa do debate se deu graças à defesa dos cânones acadêmicos e a diferença entre o “Zé Mané” e a autoridade academica.

Para iluminar minhas idéias, eu preciso resgatar as falas de dois amigos bibliotecários, Fabiano Caruso e Alex Lennine, quando discutíamos em uma troca de email sobre o livro do Tapscott. O que ficou claro nas nossas discussões, e mais ainda com o debate, é que é preciso ter como perspectiva que em certas comunidades de pesquisas a autoridade é consolidada por outro tipo de dinâmica em que a titulação confunde-se com autoridade e competência.

Curiosamente, um dos setores que já se usava da dinâmica wiki há décadas é um dos acusados de ser mais “hierárquico”, “fechado” e “autoritário” – a ciência. O que o prof. Gilson Schwartz tentou explicar e talvez tenha sido mal compreendido, é que o método científico faz exatamente consolidar a autoridade, através do mérito, tanto do pesquisador quanto da pesquisa. E, mesmo assim, os pesquisadores não deixam de colaborar uns com os outros e compartilhar dados. No “Wisdow of Crowds” a Ciência é apresentada como o melhor exemplo de como uma grande comunidade de agentes independentes consegue através de critérios simples produzir conhecimento científico.

É importante ressaltar que a ciência não é hierárquica, fechada e autoritária. Mas o grande problema, e que ficou bastante evidenciado no debate, é quando acadêmicos fazem críticas a um modelo pela sua forma, não pelo seu conteúdo. Ou seja, o pior artigo publicado em um periódico científico, tem mais autoridade do que um artigo crítico excelente publicado em uma revista informal ou uma enciclopédia livre.

Não sei se é possível chegar a qualquer conclusão, mas este maniqueísmo só serve para a manutenção de um modelo de status muitas vezes baseado em titulações. E não na consolidação da autoridade através de uma dinâmica honesta e responsável em relação a produção do conhecimento. Dinâmica esta que é exatamente o que Jimmy e a Wikipedia tentam prover.

9 pensamentos em “O WikiBrasil e seus temas na visão de um bibliotecário”

  1. Mandou muito bem velho!

    É uma frente importante participar de um debate, em que nos bibliotecários estamos num processo de transformação, como você bem disse quanto ao papel de mediação, e os mecanismos que teremos que lidar daqui pra frente pra se enquadrar nos fazeres de nossa formação.

    O que me preocupa bastante é que esta visão é percebida por poucos estudantes da area, e até muito menos pelos professores.

    Até quando o bibliotecário vai achar que informação é fechada, e o seu valor é tangível?

    Foda a entrevista!

  2. “os documentos de amanhã serão em sua maioria digitais e em redes . Porque continuar a construir enormes palácios vazios destinados a estruturas de informação que terão cada vez menos demanda de usuários para seu estoque de informação?” Na verdade os documentos já são em sua maioria assim, e continua fazendo sentido ter bibliotecas enormes. Aliás, acho que cada vez mais só vai fazer sentido ter bibliotecas enormes, com muita coisa acontecendo.

Deixe uma resposta