Os pioneiros e Edson Nery da Fonseca

Valorizar os homens e mulheres que ajudaram a forjar uma profissão é algo muito digno, especialmente quando é uma profissão que vive da memória.

A Revista World Libraries tem edições especiais em que traz uma biografia dos grandes bibliotecários e bibliotecárias ao redor do mundo. Até o momento não tem ninguém do Brasil. Não me perguntem a razão.

Entre outros, temos o perfil de Ranganathan, escrito por outro pioneiro, Foskett.

Mas quem seriam os pioneiros brasileiros? Vamos nos reportar ao clássico livro História da Biblioteconomia Brasileira, do Prof. César Augusto Castro. Os pioneiros estão todos lá. Rubens Borba de Moraes recebeu uma biografia de qualidade, publicada pela Briquet de Lemos. Ramiz Galvão teve uma biografia escrita por Edson Nery da Fonseca. Edson Nery da Fonseca não tem ainda nenhuma biografia sobre si. Existem, no entanto, rumores de que em breve seja lançada uma autobiografia.

Mas o que diria uma biografia sobre Edson Nery da Fonseca?

Ele foi importante não apenas para a biblioteconomia, mas para a cultura brasileira de modo geral. Nascido em 1921, conviveu com todos os expoentes intelectuais brasileiros. Dos poetas Bandeira e Cabral, ao romancista e ex-presidente José Sarney. De Otto Carpeaux e Antonio Houaiss a José Lins do Rego e Rubens Borba de Moraes. De Gilberto Freyre a Ricardo Brennand. De Álvaro Lins a Mauro Mota. Mauro Mota, que é mais um dos grandes poetas desconhecidos do Brasil, e que chegou a ser até da ABL, escreveu um poema para Edson Nery com o título: O Cão.

O Cão
(A Edson Nery da Fonseca)

É um cão negro. É talvez o próprio Cão
assombrado e fazendo assombração.
Estraçalha o silêncio com seus uivos.
A espada ígnea do olhar na escuridão
separa a noite, abre um canal no escuro.
Cão da Constelação do Grande Cão,
tombado no quintal, espreita o pulo:
duendes, fantasmas de ladrão no muro.

O latido ancestral liberta a fome
de tempo, e o cão, presa do faro, come
o medo e a treva. Agita-se, devora

sua ração de cor. Pois, louco e uivante,
lambe os pontos cardeais, morde o levante
e bebe o sangue matinal da aurora.

Participou da fundação da UnB, onde ensinou durante anos e de onde é Professor Emérito. Foi levado para lá pelo próprio Darcy Ribeiro. Falar de Edson Nery é contar um pouco a história da inteligência brasileira.

Para a Biblioteconomia, no entanto, seu legado é muito mais importante. Edson Nery foi e ainda é combativo. Não aceita absurdos e não aceita a ignorância como regra. É clássica a sua paródia do verso de Vinícius de Moraes “As burras que me desculpem, mas cultura é fundamental” no seu texto Receita para um bibliotecário. Ele fundou cursos de biblioteconomia de graduação e de pós-graduação. Ajudou a fundar o IBBD, hoje IBICT. Escreveu inúmeros livros, entre eles o principal livro de biblioteconomia escrito no Brasil, que é o Introdução à Biblioteconomia. Traduziu livros. É dele a organização do primeiro e quase único livro sobre bibliometria publicado por aqui. Nunca se contentou com as bibliotecas ruins que o Brasil tem, e nunca temeu as consequências das “verdades incômodas” que escreveu. Vários dos imbróglios em que se meteu estão no livro “Ser ou não ser bibliotecário e outros manifestos contra a rotina”.

Infelizmente, muita coisa que o Professor condenava há mais de 40 anos no seu “Ser ou não ser bibliotecário” ainda hoje são realizadas. Precisamos ler mais Edson Nery da Fonseca. Tem uma passagem de uma palestra dele em que, se reportando ao primeiro congresso de biblioteconomia, ele critica o fato dos bibliotecários perderem tempo discutindo “código de ética e outras bobagens semelhantes”. E há pouco tempo, ganhou mais uma vez a ira da classe bibliotecária do seu estado (Pernambuco) por denunciar inflamado o descaso de profissionais na Biblioteca Pública Estadual.

Para mim, todo curso de biblioteconomia deveria ter uma disciplina chamada “Estudos da obra de Edson Nery da Fonseca”.

14 pensamentos em “Os pioneiros e Edson Nery da Fonseca”

  1. Já fui para variás palestras de Edson Nery e só posso dizer uma coisa: ele é o máximo (concordando com o Moreno!).
    Ele se garante no que faz!!!

  2. É interessante mesmo esta questão da memória (ou da falta dela). Outro dia tentei recuperar informações sobre um ótimo professor dos tempos de faculdade: Alfredo Américo Hamar. Ele foi um dos grandes incentivadores das redes de informação, da automação e do trabalho cooperativo e um dos criadores da Biblioteca Complementar de Engenharia, um meio de extrema utilidade para os engenheiros e pesquisadores das décadas de 70 e 80. Muito do que ele falava há 40 anos atrás se confirma hoje no entanto há pouco na Internet sobre ele…mas acabei descobrindo uma fonte: http://www.holmes.feudo.org/archives.php

  3. Tive a grata e maravilhosa experiência de ter conhecido Edson Nery da Fonseca em sua residência em Olinda. E não esqueço das ferozes e conscientes críticas feitas por ele ao ensino de biblioteconomia. E olhando um pouco da história do mesmo, sabíamos que ali era alguém que sabia o que dizia, com propriedade e vigor. Eu, na época, um estudante de 2º semestre, tentava assimilar com o pouco conhecimento que tinha sobre o curso, o que Edson Nery passava com calma e atenção, me impressionando bastante e marcando a minha visão de biblioteconomia que tenho hoje.

    Lembro-me que ele disse “se um computador cataloga, indexa e classifica melhor que um bibliotecário, então porque diabos um bibliotecário seria necessário???”. E mais adiante defendeu a idéia de que o curso deveria ser uma pós, e não um curso de graduação. Você se formaria em qualquer área de conhecimento, direito, ciências sociais, biologia, e depois faria uma pós em biblio voltada a tratar o conhecimento daquela área estudada em sua graduação, especificando, e acabando com o bibliotecário que trabalha com uma informação que ele desconhece.

    Vive Edson Nery da Fonseca!

    1. Exatamente o que penso. É assim nos Estados Unidos. Os cursos de biblioteconomia a gente sabe o que são (“uma praga”!); é gente que só entra para pegar um diplominha fácil, por ser um curso fácil de passar no vestibular…Professores picaretas, como aquele que tive na UFMG – o cara põe até desenho animado para a gente assistir no Youtube, e manda literalmente a gente ir “lavar a bunda”; Pode uma coisa dessa?! Lixo de curso!

  4. o Grande Professor escreveu sua autobiografia: “vão-se os dias e eu fico” – estou com vontade de ler, olhem lá no site da Briquet.

  5. Perguntaram à Inezita Barroso se ela era mesmo formada em Biblioteconomia. A resposta: -“uma decepção”. Programa Roda Viva.

  6. Parabéns ao Bibliotecários sem Fronteiras. Acabei de cumprimenta-los em Post no meu face, dirigido à colega Lucimar Oliveira, do CFB (é baiana como eu), por esse compromisso com a memória da Biblioteconomia que uns poucos profissionais dão o testemunho(eu me incluo)
    Vanda Cunha, professora adjunto aposentada da UFBA.

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