Uma visão errada do que é uma biblioteca… mas qual é a certa?

Acabo de ler a seguinte matéria no G1: “Com ‘escola da vida’, ex-feirante ajudou a criar mais de 10 bibliotecas em SP”. Foi uma matéria feita em razão do Dia Mundial do Livro e traz a história de superação de um ex-feirante que hoje atua na formação de bibliotecas em bairros periféricos. Sinceramente, ele tem todos os méritos e de ser aplaudido.
Mas (sempre tem um mas), eu ainda acredito que o papel que ele está desempenhando é do Estado (seja ele Federal, Estadual ou Municipal). Acesso à uma biblioteca deveria ser um direito do cidadão. Temos que acreditar nisso. Mas ai volto a uma questão anterior. Há alguma biblioteca que possa ser encarada de exemplo de serviço adequado ao cidadão? Que seja apoiada pelo Estado e que este dê condições para que funcione plenamente e possa criar serviços relevantes. A grande maioria das bibliotecas, tem bons profissionais, mas não condições adequadas de funcionamento. Então pergunto como a população poderia brigar para ter algo que não conhece?
O caminho é longo. Mas é acredito que precisamos vender a imagem de biblioteca mantida pelo poder público e não apenas as bibliotecas criadas bravamente por algum esforço individual.

12 pensamentos em “Uma visão errada do que é uma biblioteca… mas qual é a certa?”

  1. Tiago,

    Suas colocações trazem alguns pontos interessantes para a nossa reflexão. Concordo contigo quando você afirma que o acesso à biblioteca, e eu diria à informação, deveria ser um direito do cidadão, e por conseguinte, dever do Estado. Contudo, para botar um pouco mais de tempero na conversa, ao invés de responder a seu questionamento sobre a biblioteca exemplar, vou colocar outra pergunta. Quando você fala em “biblioteca exemplar” e também em “dever do estado” me faz lembrar um tema com o qual periodicamente nos deparamos, a democratização da informação. Não somos poucos, os(as) profissionais da informação que levantamos essa bandeira e que a incorporamos em nossos discursos. Contudo, ao me deparar com tal discurso – do qual muitas vezes lanço mão – fico me perguntando se isso não passa de uma utopia. Em que medida, no nosso cotidiano e na nossa prática profissional, estamos trabalhando por esta democratização? Quais as ações que realizamos em nossos ambientes de trabalho para promover essa tão falada cidadania? …

  2. Agora me pergunto: Quantas dessas bibliotecas, surgidas da vontade de um indivíduo, sem o aparato do Estado, foi criada por um Bibliotecário(a)??? heim heim???

    Sinceramente, esperar do Estado as medidas necessárias para uma transformação, seja ela em que âmbito for, ai sim, é esperar demais.

    Vide o que passei em um hospital público semana passada com minha vó doente, e em estado grave. Ela numa maca no corredor por três dias, em que tivemos que levar tudo, até lençol. Vou esperar que o Estado se compadeça? primeiro tomo as medidas necessárias pra suplantar, ou agilizar um processo que é de responsabilidade do Estado sim, mas como é de caráter emergencial…resolvo logo ou me fodo. Depois protesto, processo, faço o escambau e brigo com o mundo.

    É a mesma coisa com o cidadão que cria bibliotecas, e disponibiliza acesso ao conhecimento aos seus iguais que esperam do mesmo Estado as medidas que são de sua responsabilidade.

    Brasilsilsilsillllllll!!!!

  3. Tiago, é meu dever manifestar minha discordância de você, quando diz que “o papel que ele [o ex-feirante] está desempenhando é do Estado”. O dever do Estado (que por princípio detem o monopólio legítimo do uso da força), neste caso como em tantos outros, é indireto, ou seja: sua principal função é fornecer as condições para que os cidadãos exerçam da melhor forma possível suas aptidões e interesses em benefício da coletividade. Por exemplo, garantindo a segurança pública para que o feirante-bibliotecário tenha tranquilidade em seu trabalho, que é uma verdadeira paixão para ele. Creio que estamos todos (mal) acostumados a esperar que “o Estado” resolva nossos problemas ou, pelo menos, tendemos a superdimensionar suas tarefas. Dizendo isto, não pretendo diminuir a importância do poder público; ao contrário, desejo que ele seja realmente eficaz naquilo que só ele pode fazer: cuidar da ordem pública, para que possamos todos trabalhar em paz tendo em vista o bem comum.

    Abraços, e parabéns pelo BSF!

  4. Oswaldo,

    Eu acredito que não estou superdimensionando o papel do Estado não. O próprio Estado foi criado com grandes direitos (alta carga tributária) e muitos deveres decorrentes disso. Pagamos para manter um Estado Social forte e as atribuições do tipo de Estado que existe é que ele forneça condições de desenvolvimento para o País, não somente mantenha a ordem social. As bibliotecas estão intimamente ligadas ao desenvolvimento e portanto fazem parte, do meu ponto de vista, do papel do Estado. O que precisamos é criar uma consciencia nos nossos governantes disso.

  5. O que é que a Constituição diz que o Estado deve garantir? Para o Estado garanta condições que todos “exerçam da melhor forma suas aptidões” é preciso garantir educação, cultura, informação e isso tudo que se encontra em bibliotecas. Não apenas “segurança”. Como o Estado não faz, a gente vai se virando.

  6. Também acho que é um dever do Estado. O fato de termos um estado inoperante e negligente não o livra de suas responsabilidades. Principalmente porque pagamos (e muito) para que o Estado cumpra essas responsabilidades. Precisamos trabalhar 4 meses no ano só para pagar os impostos. Prá quê???

    Agora, aos que defendem um discurso liberal, de desobrigação do Estado em suas responsabilidades fundamentais, então que defendam também a minimização ou até mesmo o fim dos impostos pagos por nós.

  7. Penso que de nossas falas estão emergindo duas questões, próximas, mas distintas. A primeira, que me parece esta chamando maior atenção gira em torno das obrigações do Estado. Enfim, qual o papel dessa entidade que paira sobre nossas cabeças e que chamamos de Estado? Bem, está lá na Constituição, uns podem dizer. O Estado tem seus deveres, porém, todos sabemos que o fato de nossos direitos estarem garantidos pela lei, nem sempre eles saem das leis para o nosso cotidiano, como bem lembrou o Caue em seu relato sobre o atendimento em um hospital público. Talvez fosse interessante deslocar a questão de “Qual é o papel do Estado?” ou qual deveria ser, para “qual é o estado que temos?”
    Decorrente dessas questões emerge a segunda pergunta que apareceu nas falas aqui expostas. “E nós com isso?” Ou formulando de outra forma, qual tem sido nosso papel enquanto profissionais da informação no que se refere a promoção desses direitos? Será que algo nos cabe neste latifúndio?

  8. O dever do Estado de promover o acesso a cidadania é inquestionavel, porem ele caminha em passos lentissimos enquanto que a informacao, esta nao caminha, corre! Concordo com Cauê quando diz que esperar do Estado é demais.Educacao é uma coisa primordial e o governo(Estadual,municipal, etc)só nao investe nela porque sabe do poder da informacao! Tambem me questiono sobre nós Bibliotecarios(ou futuros) quantos de nós estamos engajados nestes projetos comunitarios… todos sabemos que montar uma biblioteca e principalmente mantê-la dá trabalho e se alguem mesmo,não tendo esta consciencia, resolve monta-la. Aleluia! temos que agradecer, e mais: nos unir a ela!

  9. No seminário de políticas de incentivo à leitura nos dias 14, 15 e 16 de abril próximo passado em Belo Horizonte, esteve presente um rapaz que montou uma “borrachalioteca” ( uma borracharia com uma biblioteca) e tem uma frequência incrível de usuários especialmente pela facilidade de acesso aos livros tanto para pesquisas quanto para lazer.Na mesma cidade existe uma biblioteca pública municipal… Aliás, em MG todos os municípios possuem uma biblioteca Municipal instituida. Palmas para Minas e saudações a todos que lutam pelo acesso aos livros!!

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