Biblioteca Digital no Brasil: tesouros escondidos

É intrigante como no Brasil se investe alto em projetos de digitalizações, mas sem saber muito bem o que, e quem está sendo beneficiado.

[Tentei estabelecer uma diferenciação entre projetos de digitalização essencialmente iconográficos, dos essencialmente textuais, embora há vários casos em que as duas coisas acontecem juntas. Eis uma boa lista com várias bibliotecas digitais brasileiras e internacionais]

Apenas digitalizar e publicar na internet já justifica o investimento nesses tipos de projetos. Mas essa preocupação, pelo que eu tenho visto, só atende grandes pesquisadores, pessoas que de uma forma ou outra já estariam dispostas a frequentar o acervo localmente (preocupação excessiva com imagens em alta resolução é indicativo claro dessa preocupação. Público leigo se satisfaz com JPEGs com 500 pixels de largura). Então colocando na internet, supõe-se que a abordagem deveria ser diferente, atingir virtualmente uma audiência diferente daquela que já se atinge fisicamente.

Essas imagens, documentos, em domínio público, ficam presos aos catálogos e softwares sofríveis (muito sofríveis) das instituições abrigadoras, nem sempre são rastreáveis pelas máquinas de busca, nem sempre estão disponíveis em JPGs e arquivos simples, nem oferecem possibilidade de intervenção nos dados.

Analise tecnicamente um projeto como o Flickr Commons e os portais de digitalizações de instituições de primeiro mundo pra ver como estamos técnica e mentalmente atrasados. E nunca foi um problema de investimento ou atraso tecnológico.

No caso primordialmente de iconografias basta comparar esse tipo de curadoria:
http://www.shorpy.com/
http://www.indicommons.org/
http://www.flickr.com/commons

com esse
http://www.brasiliana.usp.br/
http://bndigital.bn.br/

Nos brasileiros, eu nem sei por onde começar a navegar. Antes fosse apenas um problema de arquitetura da informação.

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Esses dias, como exercício eu criei uma conta no Flickr com algumas imagens de Marc Ferrez (que estão sob curadoria da Biblioteca Nacional e do Instituto Moreira Sales).
http://www.flickr.com/photos/marcferrez

Percorra as fotos no Flickr, depois tente percorrer as fotos na BN e no IMS. Depois peça para o google enquanto robô fazer o mesmo, uma busca por título por exemplo, e me diga o que aparece nos resultados.

Criei também uma conta no Tumblr como uma idéia de agrupar em uma galeria tudo o que está publicado nessas diferentes bibliotecas digitais, mas somente obras sob domínio público (a maioria dos projetos lida com obras em domínio público, mas toda essa coisa de domínio público e internet no Brasil ainda é muito obscura. Eu nem sei se posso até mesmo escrever esse post, incluindo aqui no blog essas fotos que eu compilei.) Essas obras em domínio público poderiam gerar derivativas, obras remixadas. Já que, sob domínio público, existe essa possibilidade (eu acho…).

http://publicodominio.tumblr.com/

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Tem coisas relacionadas aos projetos de digitalização que todo mundo no Brasil faz, são os pontos positivos: objetos digitais apresentáveis em vários níveis (high resolution, low resolution); interoperabilidade (marc21, xml, dublin core); marketing institucional.

Tem coisas que ninguém no Brasil faz, são as ausências: OCR (para obras textuais); investir em qualquer CMS que crie urls persistentes para cada objeto digital; possibilidade de intervenção na curadoria (comentários, tags, hashtags, crowdsourcing); websites decentes em termos de AI e design (embora Brasiliana chegue bem perto); creative commons.

Os bibliotecários e curadores estão fazendo um bom trabalho, um trabalho necessário. Mas é apenas a primeira parte do trabalho, a apresentação das obras. Enquanto já poderiam estar possibilitando as segundas etapas: interoperabilidade e remix, e readaptação dos novos dados alterados pelo público na curadoria.

Pra resolver esse problema em curto prazo, o mais lógico seria se aliar a grandes empresas de tecnologia (google appliance ou flickr/yahoo por exemplo) ou oferecer uma metodologia de trabalho mais aberta. Ou então, deixar como está e criar uma série de espelhos. E se esforçar muito no desenvolvimento de galerias, já que o apelo visual dessas fotos vai muito além do alcance de somente pesquisadores de alto nível.

Isso aqui embaixo é uma amostra do que milhares, milhões de pessoas poderiam estar apreciando. Está tudo aí, na internet. Mas quase ninguém sabe (ou somente uma pequena parcela da comunidade de pesquisa acadêmica). Então, novamente, o que, e quem, está se beneficiando? Que os tesouros escondidos sejam encontrados. É só isso. Quando eu crescer, eu escrevo um artigo sobre o assunto.

Biblioteca Nacional Digital http://bndigital.bn.br/
– Rede da Memória Virtual Brasileira http://bndigital.bn.br/projetos/redememoria/

– Biblioteca Nacional 200 anos http://bndigital.bn.br/projetos/200anos/

– A França no Brasil http://bndigital.bn.br/projetos/francebr/


avenida do mangue, Rio

– Periódicos Literários http://bndigital.bn.br/projetos/periodicosliterarios/

– Pedro de Angelis http://bndigital.bn.br/projetos/angelis/


carta da cidade de Porto Alegre

– Guerra do Paraguai http://bndigital.bn.br/projetos/guerradoparaguai/


uniformes militares, guerra do Paraguai. Voluntário da Pátria

– Collecção D. Thereza Christina Maria http://bndigital.bn.br/projetos/terezacristina/


Luogo del sonno degli apostoli – Jerusalem

– Alexandre Rodrigues Ferreira http://bndigital.bn.br/projetos/alexandre/

– Memória dos Presidentes http://bndigital.bn.br/projetos/presidentes/

– Brasil e Estados Unidos http://international.loc.gov/intldl/brhtml/brhome.html

– Tráfico de escravos no Brasil http://bndigital.bn.br/projetos/escravos/

– Cartografia Histórica http://bndigital.bn.br/cartografia/

Brasiliana http://www.brasiliana.usp.br/


exlibris do Rubens Borda de Moraes, bibliotecário

Biblioteca Digital de Cartografia Histórica da USP http://www.cartografiahistorica.usp.br/

Laboratório de digitalização de obras raras da Fiocruz
http://www.labdigital.icict.fiocruz.br/

Biblioteca Digital do Senado Federal http://www2.senado.gov.br/bdsf/

Biblioteca Digital Mundial http://www.wdl.org/


Princesa Isabel

Acervo CPDOC FGV http://www.flickr.com/photos/fgv_oficial/

Biblioteca Digital da Escola de Música da UFRJ
http://www.docpro.com.br/escolademusica/bibliotecadigital
(e esse plugin que não funciona?)

Biblioteca Digital do Museu Nacional
http://www.obrasraras.museunacional.ufrj.br/

Real Gabinete Português de Leitura
http://rgplgead.bibliopolis.info/GeADOPAC/
requer instalação do silverlight

LUME – Universidade Federal do Rio Grande do Sul
http://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/8992

Fica difícil até mesmo selecionar boas fotos. A navegação é muito ruim. Softwares que não permitem download e edição das fotos de maneira facilitada. A catalogação é boa, mas a recuperação e a apresentação é fraca. Algumas BibDigs solicitam instalação de plugin. #lame

[meus agradecimentos à Sibele Fausto pela ajuda na compilação das bibliotecas digitais brasileiras, e ao Lucas Mation pela troca de idéias e vontade de criar uma biblioteca digital dos sonhos]

Indiquem nos comentários outras bibliotecas digitais iconográficas brasileiras que eu não mencionei, e eu atualizo o post.

10 pensamentos em “Biblioteca Digital no Brasil: tesouros escondidos”

  1. Caro Moreno Barros,

    Li seu post com atenção e achei muito interessante. Sou responsável por uma biblioteca pública de um pequeno município de Portugal, que não tem mais de 7000 habitantes.
    A nossa biblioteca tem apostado muito em serviços digitais, na web 2.0 e na digitalização de todo o tipo de materiais (jornais, revistas,livros, fotos, vídeos, etc.) relacionados com a história do nosso município (aqui chama-se de Fundo Local a esse tipo de acervo).
    Quero dizer para voçê que um projecto de digitalização não implica necessariamente muitos recursos financeiros, implica sim uma mudança de atitude. Existem muitas ferramentas disponíveis e gratuitas onde as bibliotecas podem colocar seus materiais digitalizados (Flickr, Scribd, são alguns exemplos). É necessário uma estratégia muito mais virada para as pessoas comuns, e sem medo de usar e experimentar muitas dessas ferramentas. Como voçê diz (e aqui em Portugal também acontece isso) muitas bibliotecas investem muito dinheiro na digitalização para depois esse trabalho ser utilizado por um pequeno grupo de eruditos.
    Convido voçê a explorar os serviços digitais de minha biblioteca:
    http://www.bmfigueirodosvinhos.com.pt/
    Deixo aqui também o link de um site sobre digitalização, em português, que poderá ser útil para quiser desenvolver um projecto de digitalização em sua instituição.
    http://coleccoes-digitais.wikidot.com/

  2. Parte do problema das bibliotecas digitais de imagens está na tendência em tratar imagens como se fossem textos. Isso vale para catalogação, indexação, construção da base de dados, escolha de software e tudo o mais. Às vezes é difícil convencer os colegas bibliotecários que exibir imagens não é “só botar um link e abrir o arquivo, olha que lindo”. No mundo todo houve grande investimento em projetos de digitalização, mas não na catalogação dessas imagens (isso não tem tanta graça).
    A carência de recursos humanos e entraves políticos nas instituições públicas, principalmente, também não ajuda. O conceito de “seleção de software” numa instituição pública não é exatamente o que todo mundo pensa. Até mesmo abrir uma simples e barata conta pro no Flickr pode ser missão impossível, diante da legislação que regula o uso de verbas públicas.

  3. Você conhece algum software para uso interno em uma instituição? um tipo de repositório que não ficaria exposto à internet, restrito apenas à empresa, para gestao de documentos.

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