Incompetência informacional. Eu tenho, e você?

Ainda comentando sobre o excelente artigo What Students Don’t Know, outro ponto que chamou a atenção foi o fato de muitos professores, assim como muitos bibliotecários, superestimarem a competência informacional dos seus alunos.

Por exemplo, um professor poderia dizer aos estudantes para encontrar “fontes acadêmicas”, sem considerar que os alunos não sabem realmente o que é uma “fonte acadêmica”.

Heather Jagman, coordenadora de treinamentos da biblioteca da Universidade de DePaul, descreveu esta situação como a “maldição do conhecimento prévio” – um fenômeno para o qual ambos professores e bibliotecários são vulneráveis. Os professores e os bibliotecários são suscetíveis de terem sido excepcionalmente qualificados como pesquisadores universitários. Mas os acadêmicos da carreira teriam um tempo difícil colocando-se na pele de um aluno que entra na biblioteca sem saber praticamente nada.

Isso casa com a longa discussão sobre a geração atual ser a mais retardada de todos os tempos – o que particularmente acho não ser verdade e precisaria de um artigo crítico e denso para me justificar em defesa dessa geração, embora concorde com o alto nível de incompetência informacional atual. Aproveitando, gostaria de não deixar passar uma breve troca de mensagens no Facebook que tive com Fabiano Caruso, criticando o texto do Daniel Piza Discernimento.com, que é mais um desses que insiste em comparar (equivocadamente, acho eu) práticas de consumo de informação e construção do conhecimento em uma economia de escassez com as de uma na economia da abundância em que vivemos atualmente. Em uma economia de abundância, o problema não é excesso de informação e sim falha na filtragem de informação (Clay Shirky, “Cognitive Surplus”)

Fabiano pontuou precisamente o que é indicado no artigo como “maldição do conhecimento prévio”.

A questão é que o “filtrar” esta totalmente relacionado a uma bagagem que deveria vir previamente na nossa formação antes da manipulação da abundância. Ou seja, uma formação cultural mais sólida para termos como referência na nossa própria avaliação e filtro. Abundância ok. Mas sem noções básicas individuais de epistemologia, a seleção acaba não passando de critérios hermenêuticos: está bem escrito e argumentado, então é verdadeiro.

Resolver isso em curto prazo é impossível, ou seja, se as premissas em favor da geração retardada estiverem corretas, não só perdemos uma geração inteira, como estamos caminhando na direção da perda das gerações seguintes.

Voltando ao artigo do InsideHigherEd, parte do desafio para os professores e bibliotecários em aprender a servir os alunos de forma mais eficaz pode ser o ajuste das suas expectativas à realidade do que os alunos já sabem – e eles podem ser razoavelmente passíveis de aprendizagem – no espaço de uma tarefa ou pesquisa dada.

Na sua contribuição para o relatório que serviu de base para este artigo, chamado “Pragmatismo e idealismo na Biblioteca Acadêmica”, Mary Thill escreveu sobre a tensão entre o pragmatismo na biblioteca – o desejo de satisfazer os requisitos mínimos de um trabalho de pesquisa – e do idealismo da biblioteca, que glorifica a tediosa descoberta e meticulosa leitura de textos. Sem surpresa, a maioria dos estudantes segue na direção do pragmatismo, enquanto “bibliotecários e professores [repetidamente] queriam que os alunos pudessem investir mais tempo na contemplação e descoberta, pintando um retrato idealizado de alunos vagando prazerosamente pelas estantes ou sentados pensativos esperando a inspiração.”

Lembrando aqui que o fator Tempo também entra na equação da falha na filtragem.

Bibliotecários e corpo docente certamente têm a obrigação de encorajar a boa e completa pesquisa, mas eles também têm a responsabilidade de servir aos estudantes – e isso significa entender as limitações do idealismo da biblioteca na prática, e agir de forma pragmática, quando necessário.

4 pensamentos em “Incompetência informacional. Eu tenho, e você?”

  1. Só o ‘praserosamente’ da tradução da Thil não rolou.
    Mas acho que é isso que tu colocas Moreno, a falta de filtros, a falta de uma busca sistêmica, lógica e que use muito mais da massa cinzenta e não apenas jogue palavras p/ remeter ao infindável mundo das informações é o que falta na geração atual ou Y.

  2. Até a segunda ordem, somos todos incompetentes informacionais e talvez o problema seja justamente esperarmos sempre por essa “segunda ordem”..

    Antes o problema fosse apenas a geração retardada mas pra que essa geração se comporte assim é porque a anterior tb já não era exatamente brilhante e, por uma série de fatores (políticos, economicos, sociais), preferiu manter alguns modelos estagnados (dos quais tb já não estão conseguindo mais dar conta). Não é de hoje que a geração mais antiga acha a nova retardada, rs. E aprender a filtrar informação – e o valor disso – tb não é nada fácil.

    Sobre o pragmatismo na biblioteca, acho que a intenção é boa, mas se realmente não for um trabalho em equipe não resolve. Não adianta nada a biblioteca ter todo um esforço em “satisfazer requisitos mínimos de um trabalho de pesquisa ou tarefa” sendo que os usuários já estão acostumados (acomodados?) com o modelo top down, de esforço mínimo, advindo dos (maus) professores.

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