Zen e arte da cobrança de multas em bibliotecas

Semana passada dois momentos chamaram minha atenção no facebook para o fato de que pouco se discute a questão da logística dos atraso nos empréstimos e como se manifesta nos colegas de profissão a ética da cobrança de multas.

atualização: cheguei com 5 dias de atraso em uma outra discussão que estava rolando no facebook também sobre multas. devo pagar multa?

Confesso que fiquei surpreso quando li que “uma forma encontrada para chamar a atenção dos associados inadimplentes foi a publicação dos nomes dos ‘caloteiros’ nos murais das bibliotecas“, mas não mais supreendido em saber que outros bibliotecários são a favor de medidas como essa com o pretexto de zelar pelo patrimônio público.

Prefiro não dar pitaco nas políticas de cada biblioteca sobre a cobrança das multas, porque o antagonismo entre a cobrança de multas por parte das bibliotecas representando barreiras de uso especialmente aos usuários mais pobres e a ética do usuário em cumprir com a outra metade na barganha pelo empréstimo de materiais oferecidos gratuitamente já dá conta do problema que é tudo isso. Mas, se me permitem citar Thomas More:

“…se submete seu povo à uma má educação e as boas maneiras são corrompidas na infância, e ainda os pune por aqueles crimes que a educação lhes obrigara a cometer, então o que podemos concluir senão que você cria ladrões para depois puni-los?”

E se eu tivesse que falar mais alguma outra coisa sobre a ética da cobrança de multas, poderia dizer que simpatizo completamente com o relato do Vinicius Miquiles no facebook:

Aquele momento em que vc está atendendo dezenas de crianças que gritam, se batem e tentam subir no balcão da biblioteca. Cenário de guerra. Se tivessem os rostos pintados de azul pareceriam guerreiros de William Wallace. Cada um deles que vai pegar um livro já tem outro em atraso, aí vc tem q decidir em meio às labaredas de fogo e lanças pontiagudas se barra o empréstimo enquanto pede trégua ou libera a suspensão do pequeno usuário priorizando a disseminação informacional. Bibliotecário escolar, nessas horas vc vê que vale cada centavo o seu salário.

O que eu propus ao Vinícius foi o mesmo que a biblioteca de Chicago fez com seus usuários: anistia. Quase todos os estudos sobre leitura dizem que o mau uso de bibliotecas e baixo índice de leitura está relacionado à 1) má experiência com a biblioteca durante a infância e 2) pais que não leem, não incentivam e não servem de modelo de leitores para os filhos. Então no caso particular de uma biblioteca escolar, mais incentivo para liberar a garotada da cobrança de multas.

Não precisa ter lido Freaknomics para entender que as multas em bibliotecas são vistas muito mais como punição por comportamento social inadequado do que um pagamento pela extensão do serviço. São os bibliotecários que decidem arbitrariamente o período que julgam ser conveniente para os usuários completarem suas leituras (mesmos 14 dias de empréstimos para livros de diferentes números de páginas). Nós oficialmente dizemos que a preocupação é com a presença dos materiais nas estantes para o usufruto de outros usuários e que precisamos zelar pelo patrimônio e temos responsabilidade fiscal sobre isso, mas em muitas bibliotecas no Brasil a grana das multas é a principal ou única fonte de renda para a compra de outros materiais ou eventualmente cobrir a festinha dos aniversariantes do mês entre os funcionários.

Então eu gostaria de propor uma outra coisa. Que tal alguns bibliotecários escreverem, formal ou informalmente, sobre o impacto das multas na circulação dos itens como um todo (como medir o índice de livros em atraso que poderiam ser emprestados se já tivessem retornado? esse índice é significativo que justifique o prazo estabelecido para o retorno?) e quão efetivo elas são para melhorar o comportamento “errante” dos usuários (eles se conscientizam por causa das multas? preferem pagá-las por algum tipo de conveniência? pagam por algum tipo de inconveniência?)

Vamos?

27 pensamentos em “Zen e arte da cobrança de multas em bibliotecas”

  1. Moreno, não tenho pitacos sobre multas, pois não as cobramos monetariamente, mas adoraria se você tratasse do empréstimo para terceirizados e estagiários – e até usuários externos.

    Muitos colegas meus são contra por dizer que eles não tem vínculo e simplesmente vão embora com patrimônio público e etc. Já eu penso que se a biblioteca é mantida com $$$ público, todos deveriam ter acesso ao empréstimo e ser responsabilizados caso desapareçam com o material. Obviamente concordo que não se deve emprestar itens únicos ou raros, que realmente façam absurda falta se sumirem por muito tempo; mas isso valeria mesmo pro usuário institucional, na minha singela opinião.

    1. Carla, trabalho em uma biblioteca de um orgão público e aqui fazemos empréstimos para estagiários, mas não para terceirizados. A lógica utilizada para esse critério é a de que os estagiários trabalham em áreas que necessitam do suporte (doutrina, jurisprudência, legislação,pesquisa etc) oferecido pela biblioteca. Para evitar que algum deles se desvincule da instituição com livro da biblioteca em seu poder o RH exige uma declaração de nada consta. Até hoje não tivemos problemas e eles são os maiores usuários dos serviços da biblioteca. Na minha opinião esse serviço deveria ser estendido aos terceirizados, mas ao público externo acho extremamente temeroso, pelo fato da falta de controle.

  2. Uma pergunta curiosa. Livro impresso ainda é patrimônio? Pela lei do livro não deixou de ser? “Art. 18. Com a finalidade de controlar os bens patrimoniais das bibliotecas públicas, o livro não é considerado material permanente.”

    Outra questão que está sendo discutida hoje em relação aos livros em formato digital e seus dispositivos eletrônicos para leitura é que seus livros não são considerados bens, mais serviços vinculados a uma pessoa.

    Quando compro um livro na amazon para o meu kindle ele não é um produto, mas um acesso a um livro como serviço (e que se eu morrer este acesso não é transferido para outra pessoa, era meu).

    Existe uma mudança de filosofia e cultura em relação aos “bens intelectuais”. Os bibliotecários estão participando desta discussão no Brasil?

    1. Caruso, o livro realmente deixou de ser material permanente, mas ainda devemos preserva-lo enquanto acervo da biblioteca. Muitas vezes não é fácil adquirir outro exemplar do mesmo livro para repor o que foi extraviado. Cito como exemplo o caso do livro O Segundo Sexo, da Simone de Beauvoir, que foi extraviado do acervo da biblioteca onde trabalho, muitos alunos reclamam pois é um texto base sobre feminismo, e eu não consegui fazer aquisição de outro nos últimos dois anos, pois a obra está esgotada.

  3. Sempre fui avessa à cobrança de multas, por um simples motivo: quem pode, paga. E acaba se achando no direito de atrasar, porque paga. Jamais vou me esquecer do motorista uniformizado que veio me devolver material 2 meses atrasado, com uma folha de cheque assinada (faz tempo) e a pergunta: quanto é a multa?
    Na biblioteca onde trabalho a punição sempre foi suspensão de empréstimos, o que pode ser bastante cruel. Eu gostaria de implantar “penas alternativas”, mas parece que não é muito viável. Agora estamos num sistema enorme, empréstimo unificado com todas as unidades da USP, não dá para ser muito criativo.
    Não sei fazer esses cálculos que o Moreno propõe, mas a ideia é interessante. Punição funciona de fato? Ou precisamos de punição para que os usuários disciplinados não se sintam prejudicados?
    Embora, hoje em dia, seja favorável a pegar leve com o usuário, não posso deixar de lembrar que, pela minha experiência, restrita apenas à biblioteca universitária em que trabalho, o usuário que atrasa um monte raramente o faz porque precisou, ou porque o prazo de empréstimo é pequeno. Geralmente os mais complicados são pessoas displicentes, que não estão muito preocupadas com o direito dos outros.

  4. Sou contra a cobrança de multas. Acredito que nós bibliotecário não podemos criar barreiras para disseminação da informação Adotei a alternativa de suspender o usuário pelo mesmo tempo em que atrasou a obra.

  5. Trabalho há 6 anos em biblioteca universitária e penso o oposto. Se o cidadão chega no ensino superior sem noção de responsabilidade e é tratado com paternalismo, que pessoa ele vai se tornar? Pode ser o pensamento de uma pessoa desiludida com usuários que escondem livros, conversam ao celular na área de estudo sem a menor cerimônia com os colegas, enfim, só pensam nos direitos, mas é uma preocupação de quem teme pelo futuro. Essa geração não tem muita responsabilidade, (não cheguei aos 30 ainda) e algumas normas não fazem mal a ninguém.

  6. Isso é um problema! Tem que ser resolvido sem radicalismos…
    Infelizmente, a solução é mais educativa que punitiva, apesar de alguns usuários abusarem, e somente estes que abusam devem sofrer uma sanção mais grave, mas somente até o momento em que não devolvem os livros emprestados.
    As campanhas de anistia, com diminuição significativa de suspensão ou total, são um caminho interessante, bem como a postagem nos sites e envio de mensagens educadas informando os males causados pela não devolução de obras.
    Aonde trabalho, de cerca de 9.000 obras emprestadas, cerca de 350 não foram devolvidas no período de 2 meses. A porcentagem é bastante alta e deixou-nos preocupadíssimos, pois no caso de uma Biblioteca Pública vários livros bastante procurados estão entre os não devolvidos, o que provoca insatisfação em outros usuários que ficam P da vida com a não devolução. Ou seja, é uma sacanagem com o outro cidadão que compartilha o mesmo bem.
    Em nossas listas de compras, sempre há livros comprados para substituir aqueles que estão há mais de 6 meses sem devolução! Ou seja, da pouca grana (em minha opinião) para aquisição, parte dela vai não para novos títulos, mas para reposição…. assim, as contas não batem, concordam?
    Como temos veículos à disposição, vamos à cata dos livros e mandamos nosso funcionário mais FORTÃO…. hahaha… Brincadeira, ele é forte, mas é um senhor extremamente educado, com jogo de cintura e brincalhão. E mesmo assim há o descaso, pois às vezes o cara sai daqui do centro, pega trânsito para ir até os bairros mais distantes de SP, andando mais de 30 kilometros e a pessoa não deixa o livro para ser devolvido….
    Enfim, nesses casos, que é quase uma apropriação indébita algo deve ser feito, mas na maioria dos casos, que são causados por falta de educação e ética, o caminho é o da CONVERSA e do bom humor.
    Como exemplo, outro dia, por acaso, recebi dois livros com 60 dias de atraso e agradeci o usuário e ainda disse: meu, essa porcaria de livro você nem precisava ter devolvido (não lembro o título horroroso que era…).

  7. Trabalho em uma biblioteca que não cobra multa, mas que adota a suspensão de empréstimo por um período determinado para tentar educar os usuários. O problema principal, contudo, não são os atrasos, mas sim a não-devolução dos materiais.Isso é frequente em outras bibliotecas também? Imagino que nas públicas deva ocorrer bastante, porque não existe nada que realmente impeça o cidadão de desaperecer.
    Sobre os comentários, hoje penso mais como o Lázaro. No início tentei flexibilizar ao máximo todos os procedimentos relacionados aos usuários. Hoje percebo que esse não é o caminho. As pessoas carecem de educação, respeito e responsabilidade, e não é justo que o funcionamento de uma biblioteca seja prejudicado por isso. A flexibilidade deve existir onde existiu responsabilidade por parte do usuário. Do contrário, sou a favor de alguma medida punitiva sim.

  8. Em nenhum outro serviço se oficializa condescendência com o atraso, por que com um bem compartilhado pela coletividade deveria-se fazer isto? Eu, como usuário, ficaria chateado se quisesse muito um livro que alguém está prendendo em seu poder e soubesse que este usuário não ia ter nenhuma sanção pelo transtorno.

    Festinha de aniversário com dinheiro de multa? Onde você teve ou presenciou esta experiência?

  9. Uma ótima discussão. Na pouca experiência que tive em BU ficava vi o drama de quem não podia pagar multa e vi gente que podia pagar multa e segurava o único exemplar do livro que ia cair na prova. Também cabe questionar para onde vai o dinheiro da multa, especialmente nas bibliotecas de instituições públicas, pois é algo nebuloso em muitos locais (e Souza eu já vi o dinheiro da multa ser usado para festas e já vi também ser roubado por um funcionário, só não vou dizer onde, né?).
    Carla, também penso como você e estagiários e terceirizados tomam livros emprestados assim como os servidores. Mas aqui são poucos então é possível controlar, imagino que se tivessemos algo como 100 eu não arriscaria. Uma solução interessante que uma bibliotecária usava era sempre emprestar no nome de algum servidor, então facilitava para todos os lados.

  10. O valor da multa deveria ser proporcional a procura pelo livro no acervo. Mas isso seria interessante em um sistema de automação que permita a reserva do livro (e que no livro específico exista uma cópia na biblioteca apenas para consulta).

    Então, daqueles livros que não existe demanda para empréstimo, qual é o sentido de se cobrar uma multa para devolução? Dependendo, é até vantagem que o livro nunca volte para a biblioteca caso não exista outra demanda. O usuário está fazendo um favor em não devolver o livro a biblioteca e garantir mais espaço no acervo para outras obras.

    O meu na biblioteca de uma instituição que trabalhei durante uns anos é montar uma biblioteca em rede, em que poucos livros ficassem na biblioteca. Todos sob responsabilidade das pessoas na instituição em suas próprias mesas. Então a política de desenvolvimento de coleções estaria intimamente ligada ao interesse de cada colaborador. Então, no sistema de automação apareceria o livro relacionado a coleção de uma pessoa. Então, saberia-se que é aquela pessoa a maior especialista (interessada) no tema. Bem, desviei-me do assunto… Mas porque esta questão de multas está associada a imagem do bibliotecário como o “quardião do acervo”. Ao invés do promotor da “inteligência da comunidade”.

  11. Não precisa ter lido Freaknomics para entender que as multas em bibliotecas são vistas muito mais como punição por comportamento social inadequado do que um pagamento pela extensão do serviço. São os bibliotecários que decidem arbitrariamente o período que julgam ser conveniente para os usuários completarem suas leituras (mesmos 14 dias de empréstimos para livros de diferentes números de páginas). Nós oficialmente dizemos que a preocupação é com a presença dos materiais nas estantes para o usufruto de outros usuários e que precisamos zelar pelo patrimônio e temos responsabilidade fiscal sobre isso, mas em muitas bibliotecas no Brasil a grana das multas é a principal ou única fonte de renda para a compra de outros materiais ou eventualmente cobrir a festinha dos aniversariantes do mês entre os funcionários.

  12. Para ajudar na discussao, passo a relatar o que ocorreu com meu filho. Ele estuda em uma escola particular e tomu um livro emprestado dia 7/8/12 e esqueceu de devolve-lo, sendo que o mesmo ficou em casa junto com outros livros que ele possui. Fui informado em novembro que ele estava devendo um livro da biblioteca da escola. Eu procurei o livro e enviei para a escola (meu filho o levou). Na agenda veio um recibo de devolucao com multa de r$ 45,00. A escola nunca me informou que o mesmo estava em debito como a biblioteca em 3 meses.Pasmem, meu filho tem 6 anos de idade. Ele errou ao esquecer o livro em casa e nao me avisar que a professora havia pedido para procura-lo.Sera que a escola particular nao errou por nao ter avisado aos responsaveis (pais) por telefone ou por escrito na primeira semana que meu filho nao devolveu o livro?

    1. Nesse caso específico, sim. Os pais ou responsáveis pela criança devem ser avisados do atraso, e logo cedo, esperar tantos meses foi uma falha. Nesse caso, a criança está utilizando a biblioteca, e aprendendo nessa ação um monte de coisas. Os pais e a escola devem auxiliar nesse processo de aprendizagem, inclusive se houver atraso. O atraso, neste caso, seria mais uma oportunidade de mostrar ao seu filho como proceder nesse tipo de situação, como usar uma biblioteca, etc. A galera da escola tratou do assunto como se ele fosse um usuário adulto, sendo que seria necessário que o atendimento se encaixasse na especificidade do usuário que seu filho é: uma criancinha…

  13. Sempre trabalhei em instituição privada e os comentários acima são todos de instituições públicas, que acredito que tenham regras diferentes, como, p. ex. para onde vai o dinheiro da multa? Acho que as bibliotecas devem ter alguma forma de penalidade com os usuários que atrasam a devolução de livros, mas que esteja dentro das possibilidades de todas as pessoas daquele universo. Tenho experiências com as duas situações e a suspensão é a que mais incomoda. Porque quando a pessoa paga pode pegar o mesmo livro de novo, é um pouco injusto. E a suspensão é igual para todos.
    Concordo também em dar prazos acima de 14 dias. Sete dias é pouquíssimo!
    O e-mail de comunicação de que falta 1 ou 2 dias para a devolução dos materiais, na minha opinião complementa a logística da cobrança de multa. A biblioteca não tem essa obrigação, mas é mais um serviço de apoio ao usuário. Sou a favor de facilitar todos os serviços de acesso a informação. Comentei em outro post sobre regras de bibliotecas, que “a informação já é livre, mas a biblioteca não”. Nos apegamos a muitas regras, muitos “não pode…”, quando estamos numa época que devemos ser facilitadores e não complicadores. Porque com a tecnologia está tudo mais fácil e mais rápido, mas a maioria das bibliotecas está parada no tempo devido a rigidez nas regras básicas. Não me incomoda conversas ou lanches na biblioteca, me incomoda extremamente ver/ouvir um funcionário fazer “shhhhhhh”. Isso é coisa do passado, é apego e deixa uma impressão negativa.
    Eu quero me libertar das regras tradicionais, vou conseguir e um dia volto para contar.

  14. Na biblioteca onde trabalho as multas são suspensões: dois dias de suspensão por dia de atraso para livros normais e quinze dias de suspensão por dia de atraso para livros locais. Se tiver devendo exemplar não pode emprestar e se não estiver, pode emprestar um livro normal como local.

  15. Complicado isso! Acho que cada biblioteca precisa avaliar seu público e suas opções. Eu na minha, escolar privada, aplico multa cobrada em dinheiro. Por que? Porque a chefe mandou e também porque a suspensão não significa NADA para eles. Não existe tanto aquela necessidade como existe na bib universitária, que se o aluno não achar o livro ferrou. Lá se eu disser ‘você não vai poder retirar livros por um mês’, eles dão risada e vão embora.
    É difícil… na escola lido muito com descaso, petulância e o famoso ‘eu pago a escola, faço o que quiser’. O respeito é quase nulo e os problemas com livros simplesmente não devolvidos ou devolvidos em péssimo estado é enorme!
    O que eu faço? Avalio. Se o aluno é responsável, um usuário que dificilmente falha com a biblioteca, eu relevo. Agora se é o problemático eu sou pontual. Podem achar injusto, mas quem não merece a minha flixibilidade não tem.
    Consigo levar bem assim, e para cada caso de multa dou a opção de ser doado um livro para o acervo (se eu aprovar a obra).
    Esse é um assunto difícil, acaba sendo vários pesos e várias medidas!

  16. O assunto é delicado entre nós bibliotecários. Eu acho que “os livros são para serem usados”. O atraso na devolução de livros, na biblioteca onde trabalho, gera uma penalidade em dias. Porém nada como uma boa conversa, tipo entrevista de referência, para analisar a questão e tomar a melhor decisão. Eu prefiro os livros da bibliotecas sendo usados do que parados na estante. Sobre os livros que extraviam, é outra questão. Se pensarmos os usuários como inimigos da biblioteca, é melhor desistir da profissão. Com todas as dificuldades, acho que nada como uma boa conversa para explicar aos usuários a função da biblioteca e a responsabilidade em relação aos livros. A postura do usuário na biblioteca, também depende da nossa postura. Assim eu acredito…
    Abraços

  17. Acredito que de alguma forma devemos educar de alguma forma o usuário para os compromissos que assume e a consciência do coletivo na utilização dos materiais. Gosto da ideia de “multas alternativas”.
    Sobre a lei a confusão no caso da biblioteca ser especializada, isto é, destinada a atender um grupo específico de pessoas (bibliotecas das universidades, bibliotecas de órgãos de pesquias, etc.), o livro deverá ser classificado como material permanente e, portanto, deverá ser tombado. Essa controvérsia foi enfrentada pelo TCU ao proferir o ACÓRDÃO Nº 111/2006-TCU-1ª CÂMARA

    […] 1.22 utilize a classificação contábil de que trata o art. 18 da Lei 10.753/2003 (regulamentado no Manual SIAFI, transação >CONMANMF 02.11.38 item 3.3) exclusivamente para aqueles acervos que exerçam a função de “biblioteca pública” no sentido técnico do termo, a saber, uma unidade bibliotecária destinada indistintamente a todos os segmentos da comunidade, com acervos de interesse geral, voltada essencialmente à disseminação da leitura e hábitos associados entre um público amplo definido basicamente em termos geográficos, sem confundir-se com as bibliotecas destinadas a atender um segmento da comunidade para um propósito específico (a exemplo da biblioteca escolar, a universitária, a especial, a especializada e a infantil);
    1.23 atente especialmente para a não-caracterização como “bibliotecas públicas”, no sentido técnico, daqueles acervos que destinem-se prioritariamente à prestação de serviços de informação, documentação e comunicação necessários para o desenvolvimento dos programas de ensino e pesquisa das suas unidades acadêmicas (bibliotecas universitárias).

  18. Em 2010 nós fizemos uma discussão sobre multas, numa Roda de Conversas da APCIS/RJ. Os resultados estão registrados no site antigo da Associação http://www.apcisrj.org/sitebck/index.htm e em meu blog http://papeandomktg.blogspot.com.br/ (que está desatualizado desde aquele tempo). Surgiram algumas ideias interessantes, entre elas prazos flexíveis de empréstimo, segundo o grau de demanda do livro /material e o desejo do usuário e um “banco de compensação” em que devoluções dentro do prazo gerariam pontos positivos que seriam levados em consideração num eventual atraso.

  19. “A cobrança de multa visa EDUCAR o usuário para a valorização do coletivo” é o que mais tenho lido por aqui. Discordo deste argumento! A educação no sentido de formação de valores (não matar, não roubar, não cobiçar coisas alheias) se dá na infância, estando a formação para a valorização dos bens coletivos contida no “valor” de não cobiçar pra si o que é do alheio e, sim de preservá-lo e de compartilhá-lo. Ocorre que no Brasil, por uma deformação cultural, não costumamos cuidar bem do que é nosso (rios, meio ambiente, etc). Se a formação dos valores-base tem lugar na infância, dentro do lar, isso significa dizer que crianças você educa; adolescentes e adultos você PUNE ou, no máximo, PROMOVE A CONSCIENTIZAÇÃO através de campanhas (“Use camisinha! Devolva o livro no prazo e permita que outros tenham a oportunidade de enriquecer-se!”). No entanto, conscientizar-se é um processo autônomo e vai do querer de cada um. Tem haver com maturidade para exercer a liberdade de escolha. Coisa que ALGUNS adolescentes e adultos ainda não tem! Como vivemos numa sociedade que funciona por normas, diretrizes e medidas punitivas, ao não cobrarmos uma multa, estaremos “colaborando” para jogar no mercado de trabalho e na sociedade, pessoas sem a mínima noção de preservação daquilo que é de todos -posto que quem assim procede, careceu de uma boa formação educativa dentro do seu lar. Como a escola não educa -quem educa são os pais- a ela cabe a escolarização, fixação e cumprimento de normas… ou a punição no caso de infração.. Sendo o primeiro espaço social, fora de casa, que a criança vai frequentar, será também o primeiro espaço em que ela terá que deparar-se com normas, diretrizes e medidas punitivas. Se assim não for, a escola estará “desescolarizando” e, pior, contribuindo para que esse indivíduo jamais tenha a oportunidade de criar “vergonha na cara” e respeitar o que é de todos. Imaginem que tipo de pessoa ele será nos ambientes onde a demanda por cumprimento de prazos é maior, por exemplo, a empresa ou organização onde este sujeito, um dia, irá atuar. Perdoem-me os “pedabôbos” ou “Modernosos” da Pedagogia (aqui no Brasil qualquer tese ou dissertação esdrúxula valendo um mestradozinho ou doutorado está sendo aceita!… rs). Abunda “a produção do mesmo com variações sobre o mesmo tema”. Se alguém for pesquisar a história das maiores, mais antigas e notáveis bibliotecas pelo mundo, verá que elas não abrem mão da multa.

  20. Sou bibliotecária há trinta anos, trabalhando em bibliotecas públicas e esse sempre foi o assunto mais difícil de tratar : a não devolução por parte do leitor. Durante esse período já fiz de tudo : cobrei multa, dei suspensão, mandei buscar livros em casa, mandei email., telefonei e, nada muda. A multa não resolve porque muitos não pagam e nem devolvem os livros, alegando não ter o dinheiro para tal. O que fazer? Já mandei funcionários na casa dos atrasados. Alguns devolvem outros não ( a velha desculpa : “amanhã eu levo”). Ligo no celular ou no fixo, muitos nem atendem ou o número não existe. Envio e-mail, raramente alguém responde. No ano passado fizemos uma campanha de 30 dias, no Facebook “A semana do Perdão”, pouquíssimos se conscientizaram e trouxeram e, os que trouxeram estão atrasados novamente. É um assunto muito sério, pena que não temos fórmula mágica. Se alguém tiver , por favor me envie.

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