O que fichas catalográficas tem em comum com crowdsourcing

Primeiramente, você observa nas Bibliotecas – geralmente universitárias – colegas bibliotecários inconformados, e até mesmo mau humorados, por ficar horas e mais horas elaborando fichas catalográficas de teses e dissertações.

Depois, você lê, ouve, come, respira e transpira que estamos na era da informação, da colaboração, da participação, etc, etc, etc.  Então… bingo!!! Que tal um crowdsourcing?

Não gosto muito de “estrangeirismos”, mas se me for útil e funcional, por que não usar? Crowdsourcing ao pé da letra vem da adesão de duas palavras inglesas, crowd, que significa multidão e source, que significa fonte, origem, raiz e na sua melhor tradução para o termo, fonte de informações.

Crowdsourcing, são então pessoas que se unem para resolver problemas em conjunto, criar novos produtos, testarem sites, criarem conteúdo, encontrarem soluções e muito mais. E é uma tarefa feita por nós há muito tempo, não é uma novidade da internet, as cooperativas são exemplos de crowdsourcing, determinados movimentos também (esse conceito quem me passou foi a mega bibliotecária e amiga Marchelly Porto).

Então mãos à obra. O desafio era encontrar alguém que auxiliasse a montar um código de programação para um sistema de geração automática de ficha catalográfica de teses e dissertações; disponibilizar este formulário numa webpage, e os próprios usuários informar os dados. Gerando assim, mais autonomia ao usuário, e também empregando os bibliotecários em atividades afins na biblioteca.

Encontrei isso já pronto. Quem me cedeu gentilmente o código fonte, para livres adaptações às necessidades das bibliotecas, foi a analista de sistemas Maria Alice Soares de Castro, do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo.

De posse do código, comecei a esboçar e adequar os campos. Contei com parceria das bibliotecárias da Universidade  Federal de Santa Catarina, e o então aluno de ciências da computação e estagiário, Bernardo Egelke, que foi o responsável pela implementação do código PHP.

O resultado pode ser conferido nesta página http://ficha.bu.ufsc.br/

Alguns testes com usuários, e percebi que havia muitas dúvidas de como preencher estes campos. Fez-se necessário a elaboração de um tutorial, http://portalbu.ufsc.br/ficha/

Sei que não está dentro das normas de arquitetura da informação, mas após vários testes, resolvi deixar assim, por permitir a leitura em softwares para pessoas cegas ou com baixa visão.

Outro detalhe, resolvemos chamar de Ficha de Identificação da Obra, para não “ferir” o trabalho intelectual do bibliotecário. Afinal, uma ficha catalográfica, precisa ter a CDU/CDD e Cutter, o que não temos aqui.

Agora, o próximo desafio deste crowdsourcing (preciso do auxílio de mais bibliotecários e analistas de TI), é usarmos estes dados que o usuário já informa, e, importar diretamente para os sistemas automatizados das bibliotecas. Sei que foram feitos contatos prévios com o Pergamun, mas não sei como está esse processo. A ideia é que um bibliotecário possa checar algumas informações básicas: confirmar se a tese, dissertação existe,; se está impresso e depositado na biblioteca; e, verificar os metadados, e importá-los já para a catalogação.

Outro modelo muito bem adaptado,  foi elaborado pela Biblioteca da Universidade Federal de Santa Maria, disponível em  http://cascavel.ufsm.br/ficha_catalografica/. Este está com o visual mais parecido com o código cedido pela Maria Alice, ou seja, não foram implementadas folhas de estilo.

Tá… eu sei que tem cloud computing, big data, anotações semânticas e tudo mais, mas às vezes somos desafiados nas pequenas coisas do dia a dia, e não temos verbas para gastar. Aliás, em alguma das minhas próximas postagens quero abordar a seara dos repositórios, sei que vai dar pano pra manga.

No mais, dúvidas, sugestões ou mesmo quem precisar dos códigos, me escreva que enviarei por e-mail.

7 pensamentos em “O que fichas catalográficas tem em comum com crowdsourcing”

  1. Muito interessante. Informo que aqui na UFFS também estamos finalizando a adequação, trabalho do bibliotecário Diego Borba, com apoio do bibliotecário Silvio Santos e um estagiário de TI. Deve ser disponibilizado ainda esta semana.

  2. Em se tratando de criar uma ferramenta para elaboração de ficha catalográfica, acho emblemático e coloco a seguinte reflexão: Médicos criariam uma ferramenta de receituário para que pacientes preenchessem campos pré-definidos e ao final obtivessem a receita médica para adquirirem medicamentos/tratamento de saúde?

    1. Olha, eu sei que é emblemático Segemar, mas ao mesmo tempo tem muita gente consultando a internet, procurando ler sobre os sintomas que sente, e tentando achar um diagnóstico, e já chega para o médico muito bem informado. A segunda questão, é que justamente como falei, relatamos que se trata de Ficha de Identificação da Obra. E terceira, se me permite, não estamos tratando de “doenças” e sim da saúde e qualidade de vida do bibliotecário. Não sou contra a ficha catalográfica, muito pelo contrário. Quando catalogo livros estrangeiros, sinto uma falta enorme deste recurso. O que temos que pensar é, m bibliotecário fica semanas e semanas fazendo um serviço repetitivo que nada agrega à vida dele, será que se sente valorizado e feliz?

  3. Essa comparação com o trabalho médico não se sustenta. O motivo da receita não ser colaborativa é que em medicina não é desejável automatizar o atendimento. 80% de uma ficha catalográfica é pura transcrição de informações que podem ser apenas revisadas pelo bibliotecário, e não envolve a perda da qualidade do trabalho.

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