Como identificar os potenciais de sua comunidade

O que a história do jazz e do blues, Violeta Parra e Páez Vilaró podem ensinar aos bibliotecários…

Seguindo com a série sobre o desenvolvimento de atividades editoriais em bibliotecas públicas e comunitárias.

No primeiro post, abordei algumas razões para bibliotecas desenvolverem alguma atividade editorial. Longe de esgotar esse assunto, apenas ressaltei aqueles motivos que considero cruciais para a missão das bibliotecas públicas e comunitárias:

  • o empoderamento da comunidade;
  • o resgate da cultura popular; e
  • o reconhecimento dos talentos escondidos e esquecidos na comunidade.

Agora vou falar sobre a identificação das pessoas que serão a nova “coleção” dessas bibliotecas.

Não há como resolver esse problema apenas abrindo inscrições e esperando interessados. Em geral as pessoas que têm as melhores histórias, aquelas que guardam os registros culturais mais autênticos, sequer sonham que esse material tenha algum valor.

Em nossa sociedade, infelizmente, a cultura popular só ganha valor quando algum grande nome da música, artes plásticas ou cinema resolve resgatá-la (e diluí-la, na maioria das vezes) em suas obras. E nesse ponto deixa o âmbito onde foi criada e, transformada em produto, ganha valor comercial, vira concerto, álbum, mostra em museus, item de leilão, cartaz em cinema… E quantas manifestações genuínas e ricas de nossa cultura se extinguiram aguardando a “descoberta”!!!

Então, como nós bibliotecários poderíamos descobrir esses verdadeiros tesouros e legitimar sua importância para a sociedade e, principalmente para as próprias pessoas que os produzem e transmitem?

Esse não é um papel novo em bibliotecas! As bibliotecas nacionais costumam organizar o acervo cultural de seus países e algumas dedicaram esforço para documentar a cultura popular, com o principal foco no registro e resgate da identidade histórica da nação.

Dessas eu destaco o exemplo mais emblemático, por dois motivos: primeiro pela iniciativa ter partido da maior biblioteca que já existiu, a Biblioteca do Congresso dos EUA (o que diz bastante sobre a importância desse resgate), o segundo motivo é que o projeto envolveu a documentação e o resgate do blues e do jazz, e eu sou fã de blues e jazz!

John Lomax e seu filho Alan, dois antropólogos, dedicaram suas vidas a explorar e documentar a música folclórica nos Estados Unidos e em diversos outros países.  Das inúmeras expedições pelos confins dos EUA, procurando músicos populares e menestréis errantes (documentando o impressionante acervo de gravações folclóricas que compõe o Archive of American Folk Song), talvez o mais importante trabalho dos Lomax tenha sido o registro das canções dos negros do país, feito entre 1933 e 1942, sob encomenda da Biblioteca do Congresso.

Equipamento de gravação no porta malas do carro de John Lomax
Equipamento de gravação no porta malas do carro de John Lomax

Essa coleção permitiu traçar a história da música negros dos EUA, precursora do blues, do jazz, do rock e da música pop, resgatar canções que hoje são conhecidas mundialmente e projetar artistas que, de outra forma, permaneceriam no ostracismo da pobreza, racismo e exclusão social.

Para conseguir esse feito, os Lomax não lançaram editais convocando músicos negros para gravarem suas canções. Não publicaram anúncios no jornal e esperaram. Foram atrás desses artistas nos lugares onde eles estavam, conversaram com cada um deles, entrevistaram, registraram suas duras trajetórias de vida e gravaram pessoalmente suas canções.

E onde encontrariam músicos negros e pobres naquela época? Geralmente nas prisões dos estados do sul do país! Marginalizados, os negros pobres dessa época e especialmente os músicos, eram presos por muito pouco. Nessas prisões, e também em bares, zonas rurais e guetos urbanos, John e Alan Lomax descobriram músicos como Leadbelly, Muddy Waters, Woody Guthrie, Big Bill Broonzy, Bessie Jones, Kelly Pace e muitos outros. Os que estavam presos ganhavam a liberdade com acordos entre Lomax e os diretores das penitenciárias, alguns seguiram carreiras internacionais a partir de então.

Voltando para nossas bibliotecas, você talvez diria: “Mas Derbi, eles tinham a maior biblioteca do mundo financiando essas expedições! Nós, aqui na biblioteca do bairro, mal conseguimos comprar um computador!”. E você tem razão. Por isso tenho outro exemplo para ilustrar como algo parecido pode ser feito, sem um orçamento gigante, ou mesmo sem qualquer orçamento…

Violeta Parra, compositora e cantora, saiu cedo na vida, violão embaixo do braço, percorrendo as bucólicas paisagens rurais e as difíceis cordilheiras do Chile, em busca daqueles músicos que conheciam as canções folclóricas, transmitidas pela tradição oral. Por ter tomado para si essa missão, é considerada a fundadora da música popular chilena. Começou pobre, estudou até o segundo ano do secundário e largou os estudos para poder ganhar a vida. Também é considerada a mãe das canções de protesto e suas músicas foram gravadas por gente como Milton Nascimento e Mercedez Sosa, Elis Regina , Joan Baez e muitos outros (para saber mais sobre essa heroína latino-americana, recomendo o filme Violeta se fue a los cielos).

Cena do filme "Violeta fue a los cielos" sobre a vida de Violeta Parra
Cena do filme “Violeta fue a los cielos” sobre a vida de Violeta Parra

Mas não vamos restringir os exemplos ao resgate da cultura musical, cito aqui uma passagem da história do grande pintor uruguaio Carlos Páez Vilaró, muito conhecido pela Casa Pueblo, a “escultura habitável”, em Punta Ballena, no Uruguai. No começo de sua carreira, nos anos 40, Páez Vilaró viveu em um cortiço de negros chamado Mediomundo, em Montevidéu. Ali se apaixonou profundamente pelo candombe, uma tradição popular de origem africana. Nesse período produziu inúmeras obras retratando o candombe e o cotidiano dos moradores do Mediomundo.

Cortiço Mediomundo, de Páez Vilaró
Cortiço Mediomundo, de Páez Vilaró

Mais tarde, quando convidado para expor essas obras em uma exposição fechada para os europeus, Páez Vilaró recusou o convite, respondendo que, se quisessem conhecer o cortiço, que viessem ao cortiço. Daí surgiu uma exposição única, que trouxe a Europa para o cortiço!

Com telas penduradas nos varais de roupa e nas entradas das casas, o mundo se encantou com a vida dessa comunidade afro-castelhana. Isso trouxe aos protagonistas da cultura do candombe um reconhecimento que até então nunca tiveram, inclusive evitando o despejo planejado pelas autoridades e garantindo o direito a uma moradia digna (embora o prédio histórico tenha sido demolido posteriormente). Hoje o candombe é um patrimônio imaterial uruguaio comparado ao carnaval brasileiro.

O que pretendo demonstrar com os exemplos acima é que, em todos os casos, a ação intensa de convívio possibilitou o resgate e a valorização de um ativo cultural que estava até então escondido, abafado, fadado a desaparecer na crescente alienação provocada pela massificação da cultura. Os próprios artistas e comunidades ganharam uma nova consciência do valor daquilo que faziam cotidianamente, logo, de seus lugares no mundo.

Assim, o menestrel que cantava notícias por onde passava em forma de proto-blues, o peão da fazenda que marcava o ritmo da pesada rotina nos campos de algodão com canções de trabalho ancestrais, ensinadas por seus pais, a senhora que animava as festas da família com melodias de seus antepassados Mapuches nos Andes Chilenos, o povo do cortiço, que viu suas vidas refletidas nas pinturas, todos e cada um imediatamente se identificou com suas raízes e percebeu o quanto aquilo era importante!!!

Da mesma forma podemos fazer isso em nossas bibliotecas, pelas comunidades que atendemos. Estamos preparados para isso? Provavelmente não! Mas Violeta estava? Hoje não precisamos cruzar desertos e cordilheiras para realizar essa proposta, mas ainda temos penhascos de desigualdade e de preconceito para superar. Também temos toda sorte de recursos educativos e apoio de pessoas especializadas para nos ajudar nesse difícil e longo caminho.

Mas onde procurar? Em todos os lugares! Mas certos locais e eventos são mais propícios a revelar talentos e histórias impressionantes.  Alguns passos para iniciar essa aventura:

  • Fortaleça os laços da biblioteca com associações de moradores, participe de reuniões, saiba dos problemas da comunidade;
  • Proponha atividades da biblioteca em eventos das igrejas e terreiros do local. Construa esses eventos junto com as lideranças desses espaços, aceite as propostas, respeite as preferências e decisões sobre essas ações;
  • Desenvolva alguma atividade da biblioteca nas ruas. Pode ser uma biblioteca itinerante no porta malas de um carro, uma feira de trocas, uma bicicloteca…;
  • Crie uma banquinha da biblioteca nas feiras da comunidade. Faça contação de histórias, ofereça empréstimos… frutas e verduras costumam ser mais populares que livros e a feira é um dos lugares mais democráticos dos bairros;
  • Descubra onde as pessoas se reúnem. As praças são sempre um bom ponto de partida, são o lugar onde velhos jogam dominó, jovens andam de skate nas pistas, homens e mulheres caminham ou passam o tempo.
  • Converse muito, sobre todos os assuntos e escute mais do que fala!

O grande desafio é a abordagem, que precisa ser a mais honesta o possível, sem ser invasiva ou artificial. É preciso ter interesse genuíno no que as pessoas fazem, é preciso querer fazer parte.

Para aproximar a discussão de nossa realidade e para ter uma ideia do que fazer com as histórias descobertas, nos próximos posts dessa série (prometo que serão mais curtos!) vou falar sobre alguns coletivos e movimentos sociais, de várias partes do Brasil, que praticam ações culturais desse tipo nas vilas e favelas e vêm obtendo resultados fantásticos! Se alguém souber de ações desse tipo e quiser contribuir, comente por aqui!

* A imagem do post é a pintura “Favela Vila Broncos”, de Bob Dylan, do livro The Brazil Series.

6 pensamentos em “Como identificar os potenciais de sua comunidade”

  1. Muito bom mesmo, Derbi! Se eu voltar a trabalhar em biblioteca um dia, este é o tipo de projeto que gostaria de me envolver…

  2. Derbi!! ótimo post… tenho tido discussões dessa natureza com amigos da cultura, e eles sempre me questionam pq as bibliotecas disputam esta pequena fatia de orçamento que a cultura possui, sendo que elas deveriam estar “alicerçadas” na educação. Então, seu post é muito esclarecedor.

  3. Conheço essa discussão, Claudiane. Há uma dificuldade grande de compreensão da dimensão cultural das bibliotecas. Penso que em parte somos responsáveis. Nossos serviços clássicos não se inserem muito bem como atividades culturais, apenas parcialmente, num conceito bem superficial e elitista de cultura. A ação cultural em bibliotecas ainda é muito insipiente, temos muito que aprender e mais ainda por fazer… Mas, mãos e cabeças à obra! 😀

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