A arte de viajar e minhas leituras de janeiro: resenhas

Janeiro normalmente junta os ingredientes necessários para ser o mês com maior volume de leituras: livros recebidos no natal, férias e a resolução de ano novo de ler mais livros.

Na viagem das férias eu li o melhor livro que já li sobre viagem e férias. A arte de viajar, um livro não muito recente, que em princípio pode ser confundido com leitura de aeroporto (esses livros vendidos nas livrarias Laselva, que são tão ruins que não duram nem uma ponte aérea completa), é uma bela compilação de todos os elementos que qualquer viajante frequente irá se identificar: hotéis, aviões, línguas nativas, placas de informação, comidas e tudo mais que cerca uma viagem, seja de férias ou trabalho.

A arte de viajar – Alain de Botton

[disponível para empréstimo na Biblioteca de São Paulo e na Biblioteca Parque de Manguinhos]

Pra mim a grande sacada do livro é a explicação de que em determinado momento, para o viajante experiente, a expectativa da viagem excede a experiência da própria viagem. Depois de muito mochilão nas costas, as vezes a gente se deixa enganar por aquela foto da praia paradisíaca, para descobrir in loco que uma viagem para Paquetá renderia o mesmo entusiasmo. Mas há uma expectativa boa. Programar viagem, para quem viaja sozinho e não curte CVC, é um trabalho extenso de profissional da informação. É um trabalho saboroso. Marina acabou de lançar seu guia de viagens e em tempos futuros iremos oferecer um curso prático para viajantes bibliotecários.

Me recordei, em visita à Biblioteca Parque de Manguinhos, um dos funcionários comentou que os guias de viagem faziam parte do conjunto de livros mais lidos pelos usuários: “interessante como eles leem guias de viagem para os Estados Unidos e Europa, embora muitos nunca tiveram condições de sair nem do município”.

Taí a mágica. Taí a expectativa. Taí a representação fiel de como a leitura é uma viagem. Taí o motivo por qual toda biblioteca pública que se preze deveria oferecer guias de viagem, desses bastante ilustrados (feito os guias da Folha) e informativos (feito Lonely Planet).

Isso sem falar das inúmeras vezes que eu mesmo, em viagem remota em tempos pré-3G, tive que recorrer à biblioteca ou livraria local para buscar um guia da região (mapas, transporte, restaurantes). Na biblioteca pública de Copacabana é presença constante os gringos hippongas que entram para folhear os guias da cidade.

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Costumo ler livros em blocos temáticos e como 2014 é ano de copa de mundo, eu entrei numa vibe meio futebolística e catei três títulos. Segue as mini-resenhas:

Vampeta – Memórias do Velho Vamp

[disponível para empréstimo na Biblioteca de São Paulo]

Gente que não gosta do Vampeta pode de cara não curtir o livro, mas eu acho que além de ser um livro de piadas batidas e pequenas crônicas, trás alguns elementos dos bastidores do futebol que pouco se vê nos chatíssimos programas esportivos. Lembro de uma comunidade no orkut “Eu seria um jogador sincero” e sinto muita falta desses caras no esporte. Vampeta talvez tenha sido o último deles. Existe uma ética boring entre os jogadores, que mesmo desempenhando em esporte de alto rendimento e ganhando muito dinheiro por isso, agem como se fosse um emprego qualquer de bater cartão. Quem é ou já foi boleiro sabe que o que mais rola é intriga, baixaria, manipulação. Talvez seja essa a arte que falta ao futebol, e que o Vampeta de certo modo traz de volta nesse livro.

Casagrande e seus demônios

[disponível para empréstimo na Biblioteca de São Paulo]

Acabou sendo mais um evangelho contra o uso de drogas do que uma crônica futebolística. De qualquer modo é uma biografia legal, a visão de um jovem, rockeiro, famoso, junkie e rico em São Paulo em tempos de ditadura.

O Drible – Sérgio Rodrigues

Leio o blog do Sérgio Rodrigues. Me deixei seduzir pela capa. Mas o livro me frustou um pouco porque a melhor parte, sobre futebol, teve que ceder espaço para uma DR arrastada entre pai moribundo e filho. Mas continuo gostando de Sérgio e lerei os próximos.

Ficou faltando ler Afonsinho e Edmundo, deixarei para outro mês.

O outro bloco temático foi “o que faz o Brasil, Brasil?”, indo pra linha first person shooter:

Rota 66 – Caco Barcellos

[disponível para empréstimo na Biblioteca de São Paulo e na Biblioteca Parque de Manguinhos]

Eu já tinha lido, mas não lembrava muito e resolvi ler de novo porque estava interessado em entender os métodos da polícia militar em tempos de discussão sobre desmilitarização. O Caco é reporter né, ponto. Não é opinador feito o Boechat, que deixou de ser repórter há muito. Não sei se a desmilitarização no Brasil é possível em curto prazo (soluções de curto prazo é o que menos aparece nas discussões desvairadas do facebook), mas o livro explica razoavalmente o simples fato do por que e como a polícia se tornou militar e o ranço que esse processo carrega até hoje.

Holocausto brasileiro – Daniela Arbex

[disponível para empréstimo na Biblioteca de São Paulo]

É um bom livro sobre uma história muito medonha. Reportagem a véra que trata da vida dos pacientes de um manicômio em Barbacena, onde milhares (mi-lha-res) de brasileiros morreram em condições sub-humanas, muitos sem mesmo ter o quadro de saúde que justificasse a internação. O livro não tem final feliz, porque é um reflexo do Brasil, mas é um relato importante pra quem quiser conhecer nossas veias abertas.

Z a cidade perdida – David Grann

[disponível para empréstimo na Biblioteca de São Paulo]

Meu orientador é antropólogo e ex-presidente da Funai, então costumamos falar sobre índios, Rondon, malária, desmatamento e toda a questão da presença indígena como uma espécie de resquício da (boa) humanidade que não queremos perder, mas que ao mesmo tempo somos incapazes de incorporar. Fui ler o livro de Z, que conta a história fantástica do malucão desbravador Percy Fawcett, que adentrou a floresta amazônica nas primeiras décadas do século passado em busca do que ele acreditava ser uma civilização avançada e rica em ouro. Fawcett é tipo um Indiana Jones desglamourizado, uma pena que eu nunca tenha tomado conhecimento dele (e tantos outros desbravadores, como próprio Rondon e os Villas-Bôas) na escola. É um livro sobre um Brasil hostil e remoto, embora a poucas centenas de kilometros distante de qualquer um de nós. Faz parte do nosso mapa, mas não pertence a nós. O livro vai virar filme, com Robert Pattinson em um dos papéis. E tem um outro (ou muitos outros) livro sobre Fawcett, escrito por um brasileiro.

Estou terminando de ler O Sinal e o ruído e Ligeiramente fora de foco, deixarei suas resenhas para fevereiro.

2 pensamentos em “A arte de viajar e minhas leituras de janeiro: resenhas”

  1. Em experiência que tive com esse tipo de documento, posso afirmar que os guias de viagens possuem alto número de empréstimos em bibliotecas que possuem esse tipo de publicação. No entanto, é interessante observar por parte de alguns bibliotecários o preconceito com esse tipo de publicação, como ainda o há com histórias em quadrinhos em bibliotecas infantis e escolares, livros de literatura em bibliotecas técnicas…

  2. A Arte de Viajar é sensacional e já li ele ano passado. Um livro que faz você repensar na vida e querer tirar férias sempre. 🙂 Os outros ainda não li, mas já peguei alguns para comprar. Obrigado!

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