Cientistas da informação? Mesmo?

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Meme que circulou hoje (18/02/2014) no Facebook.

Quando digo que sou formada em biblioteconomia, as pessoas que não tem muito contato com bibliotecas fazem várias perguntas. A que todo mundo conhece e que todos os estudantes da área já estão cansados de ouvir é o famoso “biblioquê?“. A segunda pergunta é “mas quem se forma nisso faz o quê mesmo?”. A terceira “Ah! Mas então você é biblioteconomista!”, quase, na trave. E os que sabem um pouco mais perguntam “você é bibliotecária onde?”.

Tinha escrito que um nome é só um nome antes. Mas querendo ou não, nomes designam uma série de coisas. Eu não sabia se eu ia, efetivamente, trabalhar como bibliotecária depois de formada. Vários colegas bacharéis se formam e vão trabalhar no mercado de Arquitetura da Informação, por exemplo, ou de Análise/Métricas de Mídias Sociais, ou com estatística de dados. São bacharéis em biblioteconomia, mas que não precisam de CRB. São bibliotecários de alma, mas não de carteirinha.

O que é mais importante?

O contexto é importante. Categorias e classes apenas importam no contexto em que importam. Caso eu fizesse o mestrado, seria apenas uma bacharel em biblioteconomia – pois, para mim, bibliotecário é quem atua e para o CRB é quem tem CRB. Para o mercado, bibliotecário é quem tem experiência ou procedência de uma boa universidade. Caso eu me formasse mestre em Ciência da Informação, me consideraria mestre em Ciência da Informação.

Este ano pretendo fazer uma pós latu sensu e devo me tornar especialista, caso tenha sucesso. A Ciência da Informação é uma grande área, mas vinculada a ela ou não, posso continuar pesquisando ‘a informação’ de modo a melhor se adequar aos meus interesses profissionais no momento. Posso ser pesquisadora vinculada à uma instituição de ensino superior ou pesquisadora independente, que é o que acredito que faço quando traduzo artigos e escrevo posts para o meu blog.

Vejo até hoje muitos graduandos utilizando o termo ‘cientistas da informação’ para se definirem, mas talvez as únicas pessoas que tenham ‘alvará’ para se denominar assim sejam os mestrandos e doutorandos em CI. No Brasil, não há uma graduação em Ciência da Informação propriamente dita, mas em Biblioteconomia apenas (isso explica bem o quadrinho). Há apenas uma graduação em Gestão da Informação na UFPR e ela não forma bibliotecários. Nem cientistas da informação. 

Então: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa!

Sobre esse termo, imagino que seja apenas um nome pretensioso demais para definir algo que é muito mais simples: pesquisadores com interesse em informação de uma determinada área; ou com interesse na gestão ou fluxo de informação de um determinado ambiente, serviço ou produto. Particularmente quando leio o termo “ciência” o que me vem imediatamente em mente são as hard sciences: química, física, etc., onde existem os cientistas propriamente ditos.

Vamos pesar um pouquinho no estereótipo agora: aqueles mesmo, que usam jalecos, tem cabelos esquisitos, vivem enfurnados em laboratórios com substâncias raras, utilizadas com propósitos específicos, em ambientes ultra controlados e se comunicam com demonstrações e símbolos. Nem melhores, nem piores, mas bastante diferentes da área de ciências humanas. De qualquer modo o nome – Ciência da Informação – já existe e está consolidado enquanto área dentro da grande área das Ciências Sociais Aplicadas.

Mas sim, é sempre bom lembrar que existem ciências e ciências. 

E fazer ciência, infelizmente, ainda é pra poucos.

25 pensamentos em “Cientistas da informação? Mesmo?”

  1. Não sei se considero CI uma ciência, mas não porque ela não faz parte da ciência dura (ciências naturais), mas porque é mais confusa que música do Jorge Ben, não tem uma conformidade e no fim das contas pega tudo emprestado de outras áreas para definir objetos de estudo.
    Sobre a biblioteconomia, penso com o namorado do Gustavo Henn, o Edson Nery da Fonseca, quando ele diz que a biblioteconomia deveria ser uma especialização e não uma graduação. Biblio é uma técnica e deveria ser aplicada a áreas de conhecimentos segmentadas.
    Né? evitaria aquela de não saber o que fazer pro almoço e nem com a vida.

    1. É uma baita questão espinhosa Cauê. Alguns trabalhos são realmente bons, outros são um total despropósito. E nos Estados Unidos a biblioteconomia é pós-graduação de dois anos se não me engano. Aqui deveria ser o mesmo e evitaria muita meta-pesquisa que contribui muito pouco pras pessoas ou pra uma determinada área.

  2. Creio que o ponto seja entender porque, no Brasil, Biblioteconomia seja considerada uma ciência social aplicada. Isso já explicaria muita coisa e talvez ajude a solucionar vários dilemas.

  3. Adorei artigo, parabéns Dora. Eu que fiz as frases dos balões, da charge do tapa do Batman tão utilizada em vários contextos, que bom era esse meu maior objetivo despertar discussão e sentimentos que tudo isso envolve. Abraços a todos!

  4. Dora. Texto muito bacana. No entanto a UFSCar outorga o título de Bacharel em Biblioteconomia e Ciência da Informação rs.

    1. Mesmo Ricardo? Caramba! Não lembrava, realmente.

      Ainda acredito que um dia aqui no Brasil vai ser que nem nos EUA e biblio/CI vão se tornar programa de pós-graduação, mas aí já é uma outra discussão…

      1. O curso da USP-Ribeirão oferta o título de Bacharelado em Biblioteconomia e Ciências da Informação e da Documentação.

        1. O curso é Bacharelado em ciências da Informação e da Documentação e Biblioteconomia. Sobre a discussão, não acredito que a Biblioteconomia deveria ser uma especialização, mas concordo com a falta de clareza nessa dicotomia Biblioteconomia/CI

  5. Dora, adorei o seu artigo. Na graduação vivenciei várias situações com alguns colegas na UFSCar, o curso é Biblioteconomia e Ciência da Informação, muitos colegas quando perguntado que curso fazia, respondia que era Ciência da Informação, por terem vergonha de dizer que seriam bibliotecários.

  6. Pra mim conceito de ciência não diferencia em relação ao objeto de estudo, ciência é ciência em qualquer área. Investigação sistemática, método científico é um conceito amplo e independente do conhecimento que se busca.

    Sem falar no conceito informação …

    Então se alguém acha que faz ciência, seja na química, na informação, por mim tudo bem ele se denominar assim.

    Mas realmente, na maioria das vezes é por pura vaidade.

  7. Informação relevante: Até bem pouco tempo atras existia o curso de Ciência da Informação a nível de bacharelado pela Puc Minas.

    http://www.algosobre.com.br/guia-de-profissoes/ciencias-da-informacao.html

    http://www.academia.edu/220768/O_BACHAREL_EM_CIENCIA_DA_INFORMACAO_NO_MERCADO_DE_TRABALHO_ESTUDO_EXPLORATORIO_COM_OS_EGRESSOS_DA_GRADUACAO_DA_PUC_MINAS_BRASIL_

    http://www.dgz.org.br/out02/Art_06.htm

    E se não me engano, os egressos podiam sim serem considerados cientistas da informação.

      1. Até onde acompanhei, houveram problemas “políticos” dentro da coordenação e a coisa ficou feia. O curso perdeu força e infelizmente deixou de existir… mas a grade era das mais completas e de deixar qualquer profissional da informação boquiaberto. vou procurar a grade e posto aqui mais tarde. Realmente foi uma pena ter acabado.

  8. Parabéns Dora.
    Sobre a Biblioteconomia ser (ontologicamente?) “Ciência Social Aplicada”, vejo que o egresso sai sem nem ter ideia do que diabos é/são ciências sociais. Atribui-se predicação às ciências sociais sem saber o que é ciências sociais. Não que precise ser algo claramente definido. Mas o que temos é uma relação de pertencimento ao conjunto e não um aprofundamento das próprias ciências sociais.

  9. Bom, acho que vou me autodenominar surfista da informação, já que tenho o sonho secreto de aprender a surfar. Infelizmente, descobri esse sonho depois dos cinquenta e mal consigo me equilibrar naquelas bolinhas de fazer agachamento na academia (de ginástica). Mas se tem gente que termina a graduação é já é cientista, por que não posso ser surfista? Eu adoro do mar.

  10. Excelente texto Dora, me fez lembrar de uma conversa que tive certa vez com a Dra. Beth Baltar que me dizia que o que faz o cientista não é título e sim a pesquisa. Só uma correção, no Brasil existe ou pelo menos existiu graduação em Ciência da Informação e eu fui uma das vítimas dessa coqueluche que contagiou vários bibliotecários na época que acreditavam que mudando-se apenas o nome do profissional bibliotecário já era o suficiente para prepara-lo para as grandes mudanças trazidas pelas TIC’s.

    Sou bacharel em ciência da informação, eu e mais 13 colegas fazemos parte de um seleto grupo em todo Brasil, quiçá do universo que possui tal titulação, você tem noção do que isso significa? Absolutamente NADA. Ser bacharel em ciência da informação, pelo menos para mim é algo extremamente frustrante e acredite, bem pior do que escutar os bibloquês da vida, é dizer que é cientista da informação e as pessoas dizerem que é legal estar no ramo dos computadores.

    Além disso, ganhar a vida honestamente como cientista da informação é mais difícil do que esse nome bonitinho sugere, primeiro por que somos forçados a viver das migalhas do bibliotecários, aceitando os empregos que nenhum deles querem, além disso, temos que evitar as grandes bibliotecas para escapar dos olhos famintos dos fiscais do CRB, que vivem querendo nos tirar dos nossos empregos, sem que ao menos hajam bibliotecários suficientes para suprir as necessidades da cidade onde trabalho, isso quando não nos esbarramos em bibliotecários espertinhos nos arrastam para o PT de uma biblioteca para se aproveitarem de nossas habilidades técnico-científicas enquanto eles passam o dia navegando no grande mar de informação que é a internet e colhem os louros do sucesso diante dos seus superiores. Agora o que me faz querer tomar veneno e acabar com minha vida, é quando vejo um edital de concurso que pede bacharelado em biblioteconomia OU bacharelado em ciência da informação e registro no CRB. Aaahh vá tomar banho rapá.

    Antes de mais nada, peço desculpas pelo desabafo, mas minha intenção é apenas mostrar um lado da CI que ninguém conhece. Mas, para que se entenda o contexto disso tudo permita-me fazer o breve resumo da história de como a coisa é séria.

    Tudo começa quando uma bibliotecária sai da capital para abrir um curso de biblioteconomia no interior, vem a comissão do MEC para autorizar o funcionamento do curso, que assim como a dita bibliotecária eram fãs da nova onda do momento a tal ciência da informação, e dizem para os diretores da faculdade “mudemos o nome desse curso, ao invés de chamarmos biblioteconomia, chamemos de ciência da informação, até por que, ciência da informação é um termo que está em alta e logo logo irá suprir a obsoleta biblioteconomia” e assim foi feito, três anos mais tarde, vieram outra comissão do MEC, só que agora com bibliotecários lúcidos e em seu juízo perfeito e disseram, não, com esse nome vocês jamais poderão ser bibliotecários, pois bibliotecários, são aqueles que são bacharéis em biblioteconomia.

    – Mas a coordenadoras do curso disse que poderíamos ser bib…
    – Não
    – Mas o projeto pedagógico do curso disse q…
    – NÃO
    – Mas a grade do curso é a mesm…
    – NÃO, NÃO E NÃO

    E assim o sonho de vários aspirantes à cientistas da informação, pseudo-bibliotecários de todo o país foi sendo desfeito, o sonho acabou, mas eis que surge uma luz no fim do túnel, as universidades se dão conta besteira que fizeram e começam a mudar o nome do curso, primeiro a USP que diz sem dar o braço a torcer “o curso é realmente ciência da informação, mas para que nossos egressos fiquem em paz com o CRB, nós emitiremos um diploma de bacharel em Biblioteconomia, ciência da informação e da documentação”, as PUC-Campinas e Minas apagaram de vez esse capítulo vergonhoso de sua história, a Universidade Federal de Rondônia, após muita luta dos seus alunos, numa simples canetada mudou o nome do curso para biblioteconomia. Pronto problema resolvido. Para eles, não para mim, pois tanto a USP, quanto a UNIR são universidades públicas, autarquias independentes que fazem o que querem, o faculdade que eu estudei é particular, subordinada ao MEC e mesmo a faculdade solicitando ao MEC, mesmo já tento se passado cinco anos desde que eu me formei, mesmo eu e meu colegas termos ligado e mandado e-mails, mesmo entrando com uma ação junto ao ministério público o MEC simplesmente se calou diante do nosso caso.

    Hoje o nosso quadro é o seguinte.
    Temos um diploma de bacharel em ciência da informação, cujo projeto pedagógico aprovado pelo Ministério da Educação diz que podemos atuar e gerir bibliotecas.
    O CRB diz que não é assim que a banda toca.
    A faculdade solicita à SETE ANOS a mudança de nome do curso.
    O MEC sequer responde, mesmo sendo cobrada uma resposta em juízo.
    Não podemos ter carteira assinada como cientista da informação, pois segundo a classificação brasileira de ocupações, cientista da informação é um sinônimo de bibliotecário que é o título da profissão, assim nossa carteira de trabalho deve ser assinada como bibliotecário, mas se isso acontecer vocês já sabem o que o CRB faz com a gente.
    Assim o diploma que a faculdade me deu serve apenas para enfeitar a parede da sala da minha mãe que o tem numa moldura bem bonita e que ela faz questão de mostrar pra todo mundo que vai na casa dela, que tem um filho bacharel. Tadinha, mal sabe ela o que esse tal bacharelado já me fez passar e que até hoje não me explicou afinal o que faz, ou melhor, o que pode fazer um cientista da informação.

    1. Poxa, eu me formei no bacharelado em Ciencia da Informacao da Puc Minas e alem de passar por todas estas questoes, tem o agravante de que o Curso nem existe mais!

  11. Não sei explicar bem, mas toda vez em que me vejo nesse imbrolio o qual não criamos, mas somos partes dele, me vem à cabeça aquela obra de auto-ajuda “Quem mexeu no meu queijo?”.
    No labirinto dessa vida cheio de corredores turbulentos, que requer um posicionamento sejam no pessoal ou coletivo para não sermos inertes diante dos nossos objetivos.

  12. Olá Dora, antes de mais nada, parabéns pelo post e pelo trabalho.

    Aqui em Ribeirão Preto teve uma alteração no nome do curso agora em 2014: foi inserido o termo Biblioteconomia, portanto agora é “Ciências da Informação e da Documentação e Biblioteconomia”. No diploma apenas inverte, Biblioteconomia fica em primeiro.
    Aqui em Ribeirão Preto tenho a sensação de que saímos mais capacitados em C.I. do que em Biblio, temos disciplinas de diversas áreas, mas ainda falta um pouco da parte prática nas disciplinas de Biblioteconomia. A grande sacada do curso aqui em Ribeirão Preto ao meu entender é a pluralidade que encontramos ao longo dos quatro anos. Temos disciplinas de linguística, filosofia, administração, etc., e vejo que todas conseguem fazer uma conexão sobre qual é a atuação do profissional da informação atualmente. Entendo que nossa atuação está passando por um processo de (re?)construção de identidade, e que caminhos como os da Inteligência Competitiva, Gestão da Informação e do Conhecimento, T.I.C., Redes de Informação entre outros são os muito prováveis destinos dos Cientistas da Informação em cargos privados principalmente. Vejo dessa forma pois ainda em muitas empresas de qualquer porte o Administrador, o Programador são os profissionais que estão executando atividades que na verdade são de competência do Cientista da Informação.
    Pensando num panorama futuro para nossa atuação como bibliotecários, acredito que as bibliotecas escolares PODEM ser o nicho a ser desenvolvido, digo isso por conta de algumas decisões que o governo federal tem tomado à respeito, e claro as bibliotecas digitais e as virtuais. Por enquanto vejo que financeiramente o bibliotecário é valorizado apenas em cargos públicos, aqui na região os cargos privados não pagam bem e não satisfazem o bibliotecário profissionalmente.
    Seja Cientista da Informação ou Bibliotecário, o importante é entender que essa área do conhecimento talvez seja a área que mais deva se relacionar com as outras áreas, visto que o elemento inicial para que qualquer área do conhecimento se estabeleça é a informação. Atuando como Cientista da Informação ou Bibliotecário, cabe a este profissional buscar/filtrar/tratar/disponibilizar a informação pertinente, ou seja, atender a necessidade informacional apresentada. Obviamente não se resume a apenas esta atividade.
    Bom, essa é a minha visão sobre a profissão, acho que ainda tem muito a se desenvolver e acredito que sua visibilidade e sucesso tem a tendência de continuar crescendo.

  13. No meu pais, Mocambique existe a graduacao em Ciencia da Informacao que teve inicio no ano 2009 na maior e mais antiga instituicao de ensino superior do pais, a Universidade Eduardo Mondlane. Nao obstante volvidos esses anos todos, a coordenacao do curso decidiu que no proximo ano mudar-se da designacao para Licenciatura em arquivistica e outro de Licenciatura em Biblioteconomia. Eu me formei no curriculo de Licenciatura em Ciencia da Informacao, no 1o e 2o ano tinhamos disciplinas do tronco comum e ramificava-se a partir do 3o outras se especializavam em Arquivistica e outros iam em Biblioteconomia, mas no fim o diploma e de Ciencia da Informacao.

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