Encontro marcado com alguns livros

Depois de tirar da fila de leitura alguns livros, consegui visitar a Biblioteca Pública mais próxima (a Mário de Andrade lá no centro de São Paulo) e a livraria preferida (a Livraria Cultura do Conjunto Nacional na avenida Paulista) e voltar a ampliar a lista de livros para ler.

E tendo como pano de fundo essas visitas, gostaria de deixar as impressões sobre alguns livros. Não se tratam de resenhas, pois não li todos, mas acredito que possa ser uma forma de dar uma visão parcial aos colegas de profissão e leitores de algumas publicações disponíveis nas livrarias e boas bibliotecas (chamo de boas aqui aquelas que obtêm o beneplácito, segundo os governantes, de adquirir livros com recursos próprios).

Primeiro, fui até  a Biblioteca Mário de Andrade e renovei a reserva do livro “Sinfonia em branco” da Adriana Lisboa (mas só falarei dele em uma próxima postagem sobre autoras mulheres em comemoração ao Dia Internacional da Mulher) e aproveitei para pegar o “Quiça” da jovem Luisa Geisler. Fiquei vidrado em pegar uma outra autora nova, a Laura Erber e algum outro livro do Joca Reners Terron ou um clássico, mas só posso pegar dois livros por vez (Mário, aumenta ao menos para 3 vai!).

O fato engraçado foi que acabei atendendo involuntariamente um pesquisador em busca de obras sobre erotismo e prostituição em São Paulo. Não foi difícil falar de obras como “Pornopopéia” do Reinaldo Moraes, “Zero” do Loyola Brandão, “Eles eram muitos cavalos” do Luiz Ruffato ou mesmo do velho João Antônio e seu “Malagueta, Perus e Bacanaço”, além dos livros sobre prostituição em São Paulo ali disponíveis.

No dia seguinte, mais uma sessão de encontros e lá estava eu carregando uns 10 livros em busca de um lugar confortável para ler na Livraria Cultura. Depois de selecionar os livros que era possível carregar fui me abrigar no salão de música da Livraria, e ali, ao som de música clássica comecei a leitura de trechos, introduções e orelhas dos livros que vou apresentar.

São os seguintes:

De gados e homens – Ana Paula Maia
Pequena novela de não mais que 130 páginas que narra o dia-a-dia de trabalhadores em um matadouro de gado em algum lugar do país. Simplesmente poderoso e leitura só para os fortes! Li em algumas horas, mas falarei dele na postagem citada há pouco.

 

É isto um homem? Primo Levi
Trata-se de um clássico da literatura mundial. Nele o italiano Primo Levi, um dos três sobreviventes do campo de concentração de Auschwitz, narra sua experiência de forma belíssima nessa reedição brasileira. Copio um trecho da poesia de abertura da obra:

É isto um homem?

Vocês que vivem seguros

em suas cálidas casas, vocês que, voltando à noite,

encontram comida quente e rostos amigos,

pensem bem se isto é um homem

que trabalha no meio do barro,

que não conhece paz,

que luta por um pedaço de pão,

que morre por um sim ou por um não.

Pensem bem se isto é uma mulher,

sem cabelos e sem nome, sem mais força para lembrar,

vazio os olhos, frio o ventre,

como um sapo no inverno.

 

Você vai voltar para mim e outros contos – Bernardo Kucinski
Um livro de amor? Não. Inspirado em depoimento da Comissão da Verdade Paulista, a obra retrata 28 histórias que têm a ditadura militar como pano de fundo.  O autor, que é jornalista e cientista político, publicou outro romance que vale a pena ler chamado “K”. E em ambos os livros histórias ternas e chocantes para não nos esquecermos do quão triste e revoltante é qualquer regime de exceção!

 

Fim – Fernanda Torres
Apesar de não confiar muito nas críticas dos grandes jornais e nas indicações do onipresente Jô Soares, a atriz realmente escreveu uma obra contundente. Cheia de sexo e ambientada no Rio de Janeiro, a obra me agradou. Só não me agradou o agradecimento à Rede Globo, mas não vou perseguir ninguém aqui….

 

Pulp Head: o outro lado da América – John Jeremiah Sullivan
Fazia um bom tempo que não tinha coragem de pegar um livro de ensaios, mas depois de ler em alguns blogs sobre este não via a hora de pegá-lo. Foi paixão imediata e olha que li apenas o hilário capítulo onde o Sullivan destaca como foi sua cobertura no maior evento de música gospel dos Estados Unidos. Uma beleza! Uma visão sem preconceitos apesar da extrema discordância dele em relação ao que aconteceu no tal Festival. E ainda citou aquelas bandas que eu tanto ouvia nos anos 1990 (Jars of Clay e Petra estão lá) e umas novas dos anos 2000 que não curto nada… Os tempos mudam!

(Disponível na Biblioteca Mário de Andrade e Centro Cultural São Paulo)

 

31 songs – Nick Hornby
Trata-se de um livro delicioso para quem curtiu ou curte a cultura pop musical, feita pelo britânico especialista em listas (autor do memorável e clássico Alta Fidelidade). O momento especial foi verificar que, assim como eu, ele considera a canção Rain dos Beatles como uma das melhores dos caras de Liverpool!
Não posso me esquecer da Aimee Mann, aquela linda criatura que praticamente deu origem ao roteiro do filme Magnólia (sim, velharia de 1999, assista e ouça esse trecho!). Uma pena não ter sido traduzido para o português ainda (ou nunca).

O frio aqui fora – Flávio Cafiero
Um executivo deixa uma corporação para se tornar escritor. Essa é a história do autor. Confuso? Pois é, nesse livro realidade e ficção se misturam (no que chamam de autoficção e onde o Ricardo Lísias autor de “O céu dos suicidas” e “Divórcio” é mestre) nesse livro lançado no ano passado e cujo conteúdo é bem interessante para reconhecer e ver com outros olhos esse mundo hoje tão distante deste funcionário público….

 

A contadora de filmes – Hernán Rivera Letelier
Este livrinho do chileno que também é roteirista é surpreendentemente gostoso e de cara me fez lembrar do filme “Cinema Paradiso” do Giuseppe Tornatore. Tenho certeza que em breve vira um filme, por isso, fica a dica, leia antes!

(Disponível em quase todo as bibliotecas públicas de São Paulo, menos nas duas centrais: Mário e Lobato. Vai entender!)

 

Por enquanto, são esses os achados! Estou com três deles em casa (A contadora de filmes, De gados e homens e É isto um homem) e posso compartilhar o uso, principalmente entre os paulistanos….

Pô, espero que não esteja desvirtuando o blog! hahaha

Autor: William Okubo

Paulistano, bibliotecário, maltrapilho e inconformado. Metido a escrever poesia, crônicas. Coleciona marca-páginas e burradas.

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