A grande ilusão

Trabalhei com documentação audiovisual durante toda a minha vida profissional. Comecei organizando uma filmoteca, no tempo em que o suporte para o cinema amador ou para filmes destinados ao uso didático era a película em 16 milímetros. Depois veio um caótico acervo de fotografias e slides, mais tarde aprendi a catalogar discos e partituras e quando surgiu o videocassete, criei uma videoteca. Trabalhei com conservação, migração de suportes, digitalização, tratamento da informação, seleção e aquisição, atendimento ao público. Desenvolvi metodologias de tratamento para esses documentos e preparei dois manuais para compartilhar a experiência.

Tive o privilégio de ter sido aluna da Johanna Smit, convivido e trocado ideias com ela ao longo desses anos todos de trabalho na ECA/USP. Lá no início dos anos 80 os professores do curso de biblioteconomia já diziam,  com aquela carinha de professor  que descobriu algo muito importante e está alertando as crianças para o fato , que “bibliotecários não trabalham só com livros, hoje as bibliotecas tem vários tipos de documentos” e que “nós trabalhamos com informação, não com livros”. E provavelmente já diziam coisas assim antes, mas eu não ainda estava lá para ouvir.

O problema é que essas afirmações, que gosto de chamar de “a grande ilusão” por motivos essencialmente cinematográficos, só se tornavam realidade palpável na aula da Johanna, enquanto as demais tratavam mesmo de livros. E lá se foram mais de 30 anos. Suportes que na época ainda não existiam hoje já estão praticamente extintos, e os alunos de hoje continuam reclamando da mesma coisa: por mais que se apregoe o contrário, nos cursos de biblioteconomia só se aprende a trabalhar com livros.

Para suprir as deficiências de sua formação, bibliotecários que trabalham com documentos audiovisuais sempre recorreram à experiência de instituições com tradição na área. Eu fiz isso no início, e quando já estava mais à vontade nesse universo comecei a receber visitas de colegas para conhecer o trabalho da Biblioteca da ECA. Conheci dessa forma muitos bibliotecários preocupados por não saber como tratar o acervo sob sua responsabilidade que, provavelmente, acabaram aprendendo. Também conheci administradores que nem imaginavam que um bibliotecário poderia resolver seu problema, até porque nem sabiam o que era um bibliotecário, e outros que não conseguiam contratar um profissional com experiência ou algum conhecimento na área de audiovisual. Mas o pior foi topar com gente que contratou bibliotecário e se arrependeu, porque o profissional só enxergava uma forma de trabalhar, seguindo aquelas normas que aprendeu na faculdade como se fossem leis de um livro sagrado e teimando em ignorar a opinião do usuário de seus serviços.

Sempre tive a sensação de que estávamos perdendo uma fatia do mercado de trabalho que poderia ser muito promissora para bibliotecários, por culpa, sobretudo, da formação deficiente que recebemos. Já reclamei disso no meu blog Dia de Greve, Dia de Trabalho, onde reclamo o tempo todo.

Fora do discurso vazio, na dura realidade, o status quo da biblioteconomia só se preocupa com documentos textuais e não entende muito outras linguagens e formas de expressão. Reparem que não estou me referindo a simples diferenças de suportes, a coisa não é tão simples como pretendem os que dizem que “é tudo a mesma coisa, só muda o suporte”. Para atender às necessidades de  usuários de acervos de imagens ou de música, por exemplo, é preciso saber um pouco mais do que preencher corretamente os 007 e 300 do MARC. Já escrevi um pouco sobre essa questão em alguns textos de um blog sobre documentação audiovisual, onde também reclamo bastante (porque sou uma bibliotecária muito rabugenta):

http://imagemfalada.wordpress.com/2012/05/14/antes-que-o-diabo-saiba/

http://imagemfalada.wordpress.com/2012/04/07/calma-uma-coisa-de-cada-vez/

http://imagemfalada.wordpress.com/2012/01/11/a-regra-do-jogo/

Um artigo recente da revista El Profesional de la Información, Rasgos y trayetorias de la documentación audiovisual,  coloca em termos bastante concretos os meus receios. O autor observa que ao crescimento da produção e circulação da informação audiovisual não estaria correspondendo um crescimento proporcional da gestão documental desses conteúdos. Muito se produz e se usa, mas pouco se organiza. Uma das razões apontadas no artigo é o fato de que os novos sistemas digitais de produção audiovisual transferem ao próprio produtor-usuário funções antigamente próprias dos arquivos, como a inserção de metadados e a busca. E bota o dedo numa ferida antiga e difícil de curar:

Observa-se que existe uma distância entre os programas acadêmicos das graduações em biblioteconomia e documentação, orientados monograficamente à gestão da informação, e os perfis profissionais demandados em determinados setores, como o multimídia, onde a gestão de informação não ocupa um lugar independente, mas integrado em outras atividades da organização (p. 11).

Resumindo, não conseguimos dar conta do recado, apesar de existir a demanda por um serviço que, em tese, poderíamos oferecer. E a tecnologia veio ajudar os próprios usuários potenciais e negligenciados a se virarem sem nossa preciosa mediação.

Outro ponto interessante do artigo é a constatação de que grandes arquivos audiovisuais analógicos permanecem, na Espanha, à espera de projetos de conservação e digitalização. O risco de perda de documentos é expressivo: gravações em vídeo da década de oitenta, por exemplo, já mostram sinais de deterioração. Uma das dificuldades a enfrentar é a falta de um inventário nacional desses arquivos. Sabe-se que existem talvez milhares, mas não se sabe ao certo o que contêm. Suponho que a situação no Brasil não seja lá muito diferente, embora o autor mencione nosso país como um dos que inseriram “a preservação do patrimônio audiovisual dentro de um conceito mais amplo de identidade cultural” (p. 8), dado sem dúvida positivo.

Minha conclusão pessoal é que  ainda somos necessários, embora a perda de espaço já seja um fato. Ainda existem acervos importantes precisando de tratamento, mercado potencial para profissionais da informação que saibam o que fazer ou aprendam muito rápido.  Mas quanto tempo ainda resta, isso eu não sei.

 

6 pensamentos em “A grande ilusão”

  1. Marina!! Um sinal de esperança pra ti! Sempre acompanho suas publicações, fui aluna do professor Mucheroni durante o mestrado ai na ECA e com ele trabalhei com representação de videos acadêmico na web. Apanhei bastante pra me encontrar enquanto bibliotecária nesse contexto. Hoje estou trabalhando na maior emissora de televisão do Rio Grande do Sul, e tenho sob minha responsabilidade um acervo riquíssimo dos grandes personagens gaúchos políticos assim como toda a história do Rio Grande, luto todos os dias pra conseguir demonstrar o valor de uma política bem estabelecida de preservação e principalmente de recuperação dos quase 8 mil rolos de 9 milímetros que ainda não foram telecinados.
    As vezes me sinto incapaz diante desse grande desafio que tenho, mas me “alegra” saber que não estou sozinha nessa busca. Então no que precisar conte comigo! =)

    1. Obrigada, Camila! Boa sorte pra você e seus 8 mil (!!!) rolos de 9 mm. Tenho mantido contato com uma profissional de uma emissora do Paraná que também se sente só, vou apresentar vocês. Concorrentes podem conversar (rs)?

  2. Pois é Marina!
    Sempre digo que a biblio é uma área maravilhosa, somente oferecida de maneira fraca e exercida da mesma forma.

    Tenho procurado ser diferente nas disciplinas que leciono em um curso da área, indicando as minhas experiências e estudando para oferecer mais.

    Na disciplina de banco de dados tem uma atividade para o desenvolvimento de um formato de metadados de imagem, para não ficar apenas no bendito MARC.

    Na disciplina leitura documentária (optativa) é discutido aspectos relativos à tipologia textual, e portanto, análise documentária de textos científicos, obras ficcionais, história em quadrinhos (ficcional tbm né!), imagem, música impressa etc. Tem um trabalho que os alunos comparam a indexação (não a tradução) de um livro indicado por mim, em 10 bibliotecas, e os resultados são assustadores, não somente na profundidade da análise, mas também nos temas tratados nas obras. Obras com os termos bem traduzidos pela linguagem documentária, mas com o assunto equivocado, pois o profissional ou é negligente ou mal preparado ou ruim mesmo. Enfim!

    O duro é esbarrar na motivação e conhecimento geral dos alunos também, acomodados demais da conta sô!

    Muito legal as suas publicações. Abr.

  3. Olá Marina!
    Muito bom ler o teu texto!
    Logo após sair da faculdade houve uma mudança de currículo (e atualmente já devam ter ocorrido outras (assim, espero)), que me contentou pois começavam a dar certa atenção às imagens. Contudo, antes disso, o foco era totalmente o texto escrito, então podes imaginar o desafio meu e de meus colegas que aceitaram o desafio de trabalhar em seus respectivos TCCs as variadas vertentes a que podemos atender, como a fotografia, HQs, moda.
    Quando resolvi pesquisar sobre como era tratada a linguagem cinematográfica em bibliotecas deparei-me com nada mais que um grande vazio. Quando parti para a aplicação de questionários para tentar preencher esse vazio, vi o descaso e o quão relegada está esse tipo de informação.
    Lidar com esse tipo de informação sai da zona de conforto do bibliotecário, mas abre um leque variado de campos em que podemos mostrar que somos mais que necessários num mundo no qual a informação sofre mudanças tanto de suporte como de natureza.

  4. Oi, Marina.
    Apesar da realidade que você expõe, fiquei feliz em ler seu texto.
    Me identifico muito com o que você escreveu.
    Minha experiência dentro da biblioteconomia foi sempre focada em imagens, tanto de acervos físicos, com slides 35 mm, como de acervos de imagens digitais. Hoje já soma 6 anos de experiência prática com acervos de imagens. No entanto, tudo que aprendi sobre essa área foi de conhecimento prático transferido por outras bibliotecárias, que também tiveram que ralar muito para desenvolver técnicas de tratamento para esses documentos, que não ficasse preso só no uso do padrão marc.
    Tenho certeza que durante o curso de biblioteconomia, eu e outras colegas que também trabalharam com esse tipo de acervo, contribuíram mais para a exposição desse mercado de trabalho do que os próprios professores do curso.
    Meu TCC foi escrito para dar mais dimensão sobre a realidade de organização de acervos de imagens. Falo sobre os padrões de metadados existentes, interoperabilidade, entre outros temas pertinentes para organização de imagens digitais (ou imagens digitalizadas, pois afinal, não dá mais pra trabalhar com fichinhas).

  5. Adorei a abordagem! É necessário mostrar e trabalhar os ditos “documentos não convencionais”. É incoerente mostrar um universo repleto de tarefas inovadoras e reformuladas e continuar apresentando tão somente as questões relacionados aos livros e documentos arquivisticos em suas formas mais tradicionais.

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