A liberdade do leitor

Finalmente criei coragem e vergonha na cara para escrever um pouco sobre o tema que mais me fascina, a escolha do leitor a respeito do que vai ler, ou seja, sua liberdade de escolha, e como podemos, ou não, influenciar nessas escolhas como bibliotecários, professores, livreiros, pais ou mesmo amigos.

Mas antes de escrever sobre um dos vários empecilhos para que os leitores tenham essa liberdade de ler o que quiserem no país, vou apresentar alguns textos que abordam a liberdade do leitor recolhidos em leituras aleatórias (ou seriam libertárias?!) que fiz sobre o tema no último mês.

Começo a jornada com um trecho do excelente ensaio “Como se deve ler um livro?”, escrito por uma das maiores escritoras do século XX, Virginia Woolf. O ensaio foi publicado recentemente no Brasil pela Cosac Naify no livro “O valor do riso”. [Vale a pena ler o livro todo, é muito bom!]

Quero enfatizar, antes de tudo, o ponto de interrogação no fim do meu título. Ainda que eu pudesse responder para uso próprio à pergunta, a resposta só se aplicaria a mim, não a você. De fato, o único conselho sobre leitura que uma pessoa pode dar a outra é não aceitar conselho algum, seguir os próprios instintos, usar o próprio bom senso e tirar suas próprias conclusões. Se nos pusermos de acordo quanto a isso, sinto-me então em condições de apresentar algumas ideias e lhes fazer sugestões, pois você assim não permitirá que elas restrinjam a característica mais importante que um leitor pode ter, sua independência. Afinal, que leis podem se podem formular sobre livros? A Batalha de Waterloo foi sem dúvida travada em certo dia; mas será Hamlet uma peça melhor do que Rei Lear? Ninguém o pode dizer, cada um deve decidir por si mesmo essa questão. Admitir autoridades em nossas bibliotecas, por mais embecadas e empelicadas que estejam, e deixar que elas nos digam como ler, o que ler e que valor atribuir ao que lemos, é destruir o espírito de liberdade que dá alento a esses santuários. Em qualquer outra parte podemos ser limitados por convenções e leis – mas lá não temos nenhuma.

 

Leiamos agora o que diz o velho Roger Chartier (A aventura do livro, 1998):

A queles que são considerados não-leitores lêem, mas lêem coisa diferente daquilo que o cânone escolar define como leitura legítima. O problema não é tanto o de considerar como não-leituras estas leituras selvagens que se ligam a objetos escritos de fraca legitimidade cultural, mas é o de tentar apoiar-se sobre essas práticas incontroladas e disseminadas para conduzir esses leitores, pela escola mas também sem dúvida por múltiplas outras vias, a encontrar outras leituras. É preciso utilizar aquilo que a norma escolar rejeita como um suporte para dar acesso à leitura na sua plenitude, isto é, ao encontro de textos densos e mais capazes de transformar a visão de mundo, as maneiras de sentir e de pensar.

 

Tenha um pouco mais de paciência leitor, as citações já estão acabando. Tanto é assim que as próximas citações todas são de uma única autora. Trata-se da Graça Ramos, detentora do blog  tri-legal “A pequena leitora: literatura infantojuvenil” que fica dentro do portal do jornal carioca O Globo. Um achado!
Na primeira citação apresento dois trechos com constatações que ela alcançou depois de ler a pesquisa de uma professora da UFRJ que analisou os hábitos de leitura de alunos de escolas do Rio de Janeiro e de Barcelona. O artigo pode ser lido aqui.

Nas duas cidades, garotas e garotos não têm quase nenhuma ingerência na escolha de títulos adotados pelo sistema de ensino e apresentam resistência ao que é determinado como leitura pela escola. “Os alunos não são escutados e raramente são atraídos pela forma como lêem autores clássicos”, afirma a estudiosa.

Como ter liberdade de leitura sem poder escolher o que ler? A leitura na escola, e respectivamente, nas bibliotecas escolares, deve mudar, isso está muito claro há muito tempo. Apesar da distribuição de livros pelos governos municipais, estaduais e federal, o quadro não muda, porque? Será que esses programas estão pensando na bibliodiversidade de leitura? Será que ninguém lê? Claro que não, conforme indica a pesquisa, os alunos estão lendo outras coisas.
E por falar nisso, a Graça Ramos escreveu o seguinte em outro artigo:

Penso ainda ser melhor a companhia/leitura de qualquer livro do que a ausência total do hábito de ler.

 

Pronto! Termino o caminho das citações com um depoimento pessoal da própria Graça:

Foi na biblioteca pública da SQS 308, em Brasília, que fiz algumas das melhores descobertas de minha vida de leitora. Respeitada em minhas escolhas, conheci autores os mais diferentes, pois o importante era o prazer de ler. Ainda acho que essa é a primeira premissa para formar leitores.

 

Muito bem, chega de enrolação, agora é minha vez. E já que a arapuca está armada, tenho que dizer que um dos empecilhos para a plena liberdade do leitor, principalmente do leitor com menos recursos financeiros, está na situação constrangedora de nossas bibliotecas, principalmente as públicas e as escolares de escolas públicas, mas não só nestas instituições.

E porque a situação é constrangedora?

Não quero generalizar a situação, mas pelo que conheço posso dizer que a situação em muitas bibliotecas públicas é essa, pois muitas não possuem efetivamente políticas de desenvolvimento de coleções que lhes ofereçam condições de proporcionar real liberdade ao leitor. Muitas vivem de doações, programas de distribuição de obras (com títulos escolhidos pelo doador e não pelo doado) e vários outros tipos de editais não permanentes, como o último edital da Fundação Biblioteca Nacional que na minha opinião, mais serviu para desovar livros encalhados do que para ampliar a diversidade e riqueza dos acervos das bibliotecas. Admito que colegas bibliotecários discordam de mim, e com razão, quando falo do edital da FBN, afinal, para quem não tem recurso para adquirir nada, quando tem a possibilidade de escolher algo, aquilo foi tudo de bom! Mas não posso deixar de me manifestar, mesmo depois de anos do acontecido.

Também não posso esquecer daquelas bibliotecas que possuem recursos, mas não suficientes para grandes compras e para proporcionar uma quantidade mínima de títulos que possibilitem essa liberdade.

E há também a dificuldade, que já enfrentei  de, com poucos recursos, ter de escolher entre clássicos e livros premiados e os best-sellers e livros de autoajuda. Nas duas últimas bibliotecas onde trabalhei as discussões para determinar a quantidade de obras a serem adquiridas de cada uma dessas categorias sempre gerou discussões sem fim, levando até a xingamentos explícitos em trabalhos acadêmicos!
Acredito que tenha aprendido algo relacionado à quinta lei de Ranganathan: para cada leitor o seu livro.

Essa discussão toda deve ser estimulada em nosso meio sempre, e com o tempo, pode ser possível chegar a parâmetros que atendam a todos os gostos.

E novamente, a Virginia Woolf pode ajudar (desculpa, mas não poderia deixar essa citação de fora; é a última mesmo!):

Para gozar de liberdade, se a platitude for desculpável, temos porém, é claro, de nos controlar. Não devemos desperdiçar nossas forças, com incompetência e inépcia, esguichando água por metade da casa a fim de molhar uma roseira apenas; devemos discipliná-las, com rigor e energia, no ponto certo. Essa pode ser uma das primeiras dificuldades com que nos defrontamos numa biblioteca. Qual será “o ponto certo”? Pode bem ser que lá não pareça haver senão acúmulo, senão amontoamento confuso. Poemas e romances, histórias e memórias, dicionários e publicações do governo; livros escritos em todas as línguas por homens e mulheres de todas as raças, idades e temperamentos acotovelam-se nas prateleiras. E do lado de fora o burro zurra, as mulheres tagarelam no poço, os potros galopam pelos campos. Por onde vamos começar? Como vamos pôr ordem nesse caos multitudinário e assim extrair do que lemos o prazer mais amplo e profundo?

 

Para finalizar essa questão, posso me usar como exemplo de leitor.
Gosto de ler os clássicos, quadrinhos, um ou outro best-seller (principalmente os de fantasia) e literatura brasileira e estrangeira contemporânea de autores premiados ou que recebem críticas positivas da famigerada, e em eterna crise, crítica literária brasileira. Também sou leitor de poesia, de literatura periférica paulistana e outras coisas meio estranhas….. Enfim, sou um multi-leitor, nem pior nem melhor que qualquer outro, diga-se, um pouco diferente de muitos leitores que preferem focar em poucos mundos, cada um à sua maneira.

E como leitor, o que sinto nas bibliotecas públicas da cidade onde moro quando a questão é bibliodiversidade e liberdade do leitor?
Infelizmente, não sinto essa liberdade tão citada, seja na Biblioteca de São Paulo, na Mário de Andrade, na Biblioteca do Centro Cultural São Paulou ou na Biblioteca Temática de Poesia Alceu Amoroso Lima.
Na Biblioteca de São Paulo a aquisição de acervo é mais ágil, mas como ela foca bastante em best-sellers, exceção seja feita aos livros ligados ao Prêmio São Paulo de Literatura, ela não agrada minha parte-leitor de livros não populares. Não localizo lá vários autores brasileiros premiados e bem criticados.
Nas outras bibliotecas citadas, em alguns momentos não encontro nem uma coisa ou nem outra, ou a demora é grande devido a toda a imensa burocracia enfrentada pelos colegas para fazer compras e aos constantes cortes e congelamentos de recursos que me canso esperar. Por outro lado, como são bibliotecas com grandes acervos, me divirto pegando clássicos e mais clássicos da literatura.
E mais, senti o mesmo em outras bibliotecas onde entrei: em Barueri-SP, no Rio de Janeiro (apesar de ótimas, o leitor chato aqui sentiu falta de mais variedade em Manguinhos e na Rocinha), em Brasília (na Biblioteca Demonstrativa – e judiada, na Biblioteca “Nacional” de Brasília em uma ramal de cidade satélite), Recife, Fortaleza e Florianópolis entre outras.

Infelizmente, nos últimos tempos tenho sentido essa liberdade nas grandes livrarias. Foi nelas que tive de comprar pelo menos 75% dos livros que tive vontade, desejo ou necessidade de ler!
Tenho alguma condição de fazer isso, apesar de ter prometido à minha conta bancária que não utilizarei recursos dela esse mês para aquisição de livros.
E quem não tem condições, como fica?!
Em tese, quem não tem condições é um leitor sem liberdade, meio que aprisionado em plena era dos e-book/e-readers!
Como muitos ainda não possuem boa internet ou bons smartphones, sequer tem condições de participar das comunidades (piratas) de livros digitalizados e distribuídos a quem contribui com 10 ou 20 reais mensais….

Enfim, é tempo de conquistarmos essa liberdade para nós mesmos e para os nossos leitores, familiares, amigos, cachorros e gatos. Precisamos LUTAR por recursos para bibliotecas, sejam elas públicas, comunitárias ou escolares. Precisamos participar de todos os Planos Municipais ou Estaduais do Livros. Precisamos pressionar governadores, deputados, senadores, prefeitos e vereadores!

Só assim o leitor brasileiro poderá ser livre!

Só assim poderei chegar em uma biblioteca e encontrar o livro “A Primavera da Pontuação” do Vitor Ramil. Obra que peguei na estante de uma livraria depois de ver um monte de pontos, virgulas, travessões, tremas e outros componentes da língua portuguesa na capa, ler a engraçada apresentação da Natércia Pontes, e mesmo como livro plastificado pegar e levá-lo sem nenhuma referência. Sem nenhuma referência anterior tive acesso a um dos livros mais divertidos que já li na vida e que só depois descobri que havia sido patrocinado pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo e publicada pela conceituada Cosac Naify. Liberdade total!

Só assim poderei chegar em uma outra biblioteca e encontrar o livro “A vida do livreiro A. J. Fikry” da Gabrielle Zevin. Best-seller internacional cuja capa com várias janelinhas coloridas me chamou a atenção e que, por acaso, ao pegar vi que se tratava de uma história ligada ao mundo do livro, mas contada de forma suave e divertida, sem a erudição de um Alberto Manguel, lançada pela Paralela, o selo de livros “pop” da Companhia das Letras. [Em tempo, o livro é muito bom]. Liberdade total!

Quero essa liberdade total nas bibliotecas, e quero logo!

Autor: William Okubo

Paulistano, bibliotecário, maltrapilho e inconformado. Metido a escrever poesia, crônicas. Coleciona marca-páginas e burradas.

3 pensamentos em “A liberdade do leitor”

  1. Ótimo texto, William. Com a legislação que temos, é quase impossível que o leitor tenha acesso a acervos atualizados e possa, efetivamente, desfrutar da liberdade de escolha. Não se pode comprar de qualquer fornecedor, nada de compra pela internet, pregões, licitações … Na USP, onde trabalhamos com indicações de usuários, nem sempre conseguimos comprar o que eles pedem, mesmo tendo verba. Vejo também um outro problema: a indexação das obras de ficção raramente ajuda o leitor a encontrar o que ele deseja. A biblioteca até pode ter um livro que o sujeito gostaria de ler, mas a recuperação por temas, gêneros etc costuma ser muito falha.

  2. Vc tem razão, William Okubo. Defendo a diversidade do acervo – em todos os sentidos – em minhas propostas de uma nova concepção de biblioteca (venho tratando disso desde meu doutorado de 1998); entre outros, esse é um dos elementos constitutivos dessa nova concepção.

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