Mensagem da Amazon para leitores e autores, contra a editora Hachette: disputa sobre o preço de ebooks

Pouco antes da Segunda Guerra Mundial houve uma invenção radical que abalou os alicerces da publicação de livros. O livro de bolso. Nesta época ingressos de cinema custavam 10 ou 20 centavos de dólar, e os livros custavam U$ 2,50. O novo livro em formato brochura custava 25 centavos – era dez vezes mais barato. Os leitores adoraram o livro e milhões de cópias foram vendidas apenas no primeiro ano.

Por ser tão barato e com muito mais gente sendo capaz de comprar e ler livros, você deveria pensar que o “establishment” literário daquele período teria celebrado a invenção do livro de bolso, certo? Não. Em vez disso, recuaram. Eles acreditavam que os livros de bolso de baixo custo destruiriam a cultura literária e prejudicariam a indústria (para não mencionar suas próprias contas bancárias). Muitas livrarias se recusaram a armazená-los, e os primeiros editores de bolso tiveram que usar métodos não convencionais de distribuição – locais como bancas de jornal e farmácias. O famoso escritor George Orwell saiu publicamente e comentou sobre o novo formato de bolso, “se os editores tivessem juízo, se juntariam contra os livros de bolso e suprimia-os”. Sim, George Orwell estava sugerindo conspiração.

Bem … a história não se repete, mas ela rima.

Avançando para os dias de hoje, é a vez do e-book ser alvo de oposição da entidade literária. Amazon e Hachette – uma editora americana e grande parte de um conglomerado de mídia de 10 bilhões de dólares – estão no meio de uma disputa comercial sobre e-books. Queremos [Amazon] preços mais baixos pelos e-books. Hachette não. Muitos e-books estão sendo lançados por U$ 14,99 e até U$ 19,99. Isso é injustificadamente elevado para um e-book. Com um e-book, não há nenhuma impressão, não há re-impressão, não há necessidade de prever retornos, nenhuma devolução de produto, nenhuma perda de vendas devido a falta de estoque, sem custos de armazenagem, sem custos de transporte, e não há mercado secundário – e-books não podem ser revendidos como livros usados​​. E-books podem e devem ser menos caros.

Talvez canalizando a sugestão de décadas atrás de Orwell, Hachette já foi pega ilegalmente conspirando com seus concorrentes para aumentar os preços dos e-books. Até agora, as partes pagaram U$ 166 milhões em multas e restituição. Conjurar com os seus concorrentes para aumentar os preços não era apenas ilegal, como também foi muito desrespeitoso para os leitores de Hachette.

O fato é que muitos operadores estabelecidos na indústria tomaram a posição de que os preços mais baixos dos e-books vão “desvalorizar os livros” e ferir as “Artes e Letras”. Eles estão errados. Assim como os livros de bolso não destruíram a cultura do livro, apesar de serem dez vezes mais baratos, tampouco os e-books. Pelo contrário, as brochuras acabaram rejuvenescendo a indústria do livro, tornando-a mais forte. O mesmo vai acontecer com os e-books.

Muitos dentro desta indústria pensaram pequeno. Eles acham que os livros só competem contra os livros. Mas, na realidade, os livros competem com jogos para celular, televisão, filmes, Facebook, blogs, sites de notícias grátis e muito mais. Se queremos uma cultura de leitura saudável, temos que trabalhar duro para ter certeza que os livros sejam competitivos em relação a outros tipos de mídia, e uma grande parte disso é trabalhar duro para tornar os livros mais baratos.

Além disso, os e-books são muito elásticos em relação ao preço. Isso significa que, quando o preço cai, os clientes compram muito mais. Nós quantificamos a elasticidade de preços dos e-books a partir de medições repetidas em muitos títulos. Para cada cópia de um e-book vendido a U$ 14,99, ele venderia 1,74 cópias se o preço fosse U$ 9,99. Assim, por exemplo, se o cliente comprasse 100 mil cópias de um determinado e-book a U$ 14,99, os clientes iriam comprar 174 mil cópias desse mesmo e-book por U$ 9,99. A receita total de U$ 14,99 seria $1.499.000. A receita total a U$ 9,99 é de U$ 1.738.000. O importante a notar aqui é que o preço mais baixo é bom para todas as partes envolvidas: o cliente está pagando 33% a menos e o autor está recebendo um cheque de royalties 16% maior e será lido por um público 74% maior. As fatias do bolo são simplesmente maiores.

Mas quando uma coisa tem sido feito de certa forma por um longo tempo, resistir a mudança pode ser um instinto automático, e os poderosos interesses do status quo são difíceis de mover. Nunca foi do interesse de George Orwell suprimir os livros de bolso – ele estava errado sobre isso.

[o restante da carta é um pedido da Amazon ao público para que entrem em contato com a Hachette reivindicando a diminuição de preços e acabar com práticas nocivas à autores e leitores. Veja a mensagem na íntegra: A Message from the Amazon Books Team]

1 pensamento em “Mensagem da Amazon para leitores e autores, contra a editora Hachette: disputa sobre o preço de ebooks”

  1. Texto muito interessante e revelador. Quisera a discussão acerca do tema fosse frequente entre bibliotecários (inclusive como bibliotecários-leitores). Esse assunto tende a ficar restrito ao mercado editorial, enquanto o profissional da informação tem muito a contribuir acerca da questão da disseminação e acesso aos ebooks.

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