Por uma pedagogia da descoberta

A escola mata a descoberta. Ela entrega o conhecimento pronto em um currículo, definido de acordo com aquilo que é considerado por autoridades como conhecimento válido, todo o resto é excluído.

O que há nesse “resto”?  Toda  a experimentação, o conhecimento informal, aprendido nas vivências, os saberes tradicionais, transmitidos pelos mais velhos e a descoberta.

A serendipidade (o princípio da descoberta) só existe quando há liberdade de escolha por caminhos diferentes e aleatórios. A descoberta se dá, principalmente, quando não estamos procurando exatamente aquilo. Esse processo, que não pode ser controlado, é inexistente na grade escolar. Na escola somos todos considerados incompetentes para adquirir nosso próprio conhecimento. E nunca somos estimulados à fazê-lo.

A palavra serendipidade surgiu em referência a um antigo conto persa sobre os três príncipes de Serendip. Em suas aventuras eles viviam se deparando com situações inusitadas e fazendo descobertas ao acaso, encontrando respostas para questões que eles sequer haviam feito. Tinha um pouco de sorte envolvida, mas era a sagacidade dos meninos, um toque genial de mentes abertas para a descoberta, que realmente operava a magia.

Essa qualidade da descoberta não é de forma alguma privilégio de mentes superiores. É uma habilidade e um posicionamento, uma forma de ver o mundo, disponível para qualquer pessoa.

Bibliotecas são um excelente lugar para o exercício de serendipidade e nas escolas elas ficam isoladas das pessoas, que mal as frequentam nos intervalos das aulas. Temos alguma contação de história, mas livros previamente escolhidos. Mesmo quando eles não são previamente escolhidos, raramente é o acervo todo ofertado à escolha e, mesmo que fosse, ainda assim seria apenas uma atividade controlada, algum livro teria de ser “o escolhido”, os outros permanecerão inertes nas estantes.

Em geral é proibido (ou vigiado) andar entre as estantes a procura de livros que não se sabe ainda quais são. Isso é feito em nome da “ordem” que sempre vem de cima, e está sempre acima da vivência, pairando sobre ela, limitando suas possibilidades libertadoras.

Há um tipo de acesso à biblioteca, que é transversal, não linear, baseado quase que puramente na serendipidade. Ao conduzir uma leitura, indo de um texto à outro, colecionando trechos diferentes de cada livro sobre determinado assunto, eu estou praticando a descoberta. Aliás foi essa prática que desenvolveu a ciência como hoje a conhecemos e o acesso não linear a uma coleção de livros foi o embrião do hipertexto.

Essa forma de utilizar acervos surgiu lá na antiguidade e se tornou evidente na Biblioteca de Alexandria. Foi responsável pelo desenvolvimento da filologia, da geografia, da matemática, da astronomia, da medicina, da poesia, da filosofia, da história e de muitas outras ciências e saberes.

A serendipidade foi a maior consequência de se acumular livros em uma sala. Isso desenvolveu toda uma economia e ergonomia do saber: o surgimento da paginação, da referência, da citação, da glosa, do colofão, dos sumários, dos resumos, das bibliografias, dos catálogos, das resenhas… Todas essas formas de diálogo entre livros, escritores e leitores.

Uma biblioteca nunca é a mesma para duas pessoas praticando a descoberta. As escolhas, mais ou menos aleatórias, de livros formam caminhos, percursos diagonais, transversais, paralelos, pela coleção toda. O prazer de percorrê-los é como o prazer do desconhecido, é desbravar os universos não domesticados do saber. E é possível reiniciar muitas vezes o processo, sempre com resultados inusitados.

A autonomia de percorrer estantes, pegar livros, ler um trecho, procurar outro livro, compará-lo com um terceiro, pegar uma enciclopédia e, partindo de um verbete qualquer, buscar outras fontes, é o principio do amor pela pesquisa e do autodidatismo. São qualidades fundamentais para o pensamento livre e crítico.

Não provoca nenhum espanto a pouca valorização das bibliotecas e da leitura nos dias de hoje. É um reflexo do que a educação faz com a descoberta. Em tempos em que a homogeneidade de ideias, comportamentos e atividades e a obediência a regras, controles e currículos é o que está nas bases da educação, é bastante esperado que as capacidades revolucionárias e libertadoras das bibliotecas sejam caladas.

A busca por uma forma de educação livre passa pelo resgate da descoberta como veículo da potência humana. A serendipidade em substituição à rigidez curricular. É aí que está a importância esquecida das bibliotecas!

Em uma pedagogia da serendipidade, a descoberta é o centro do aprendizado e  a biblioteca é o coração da escola.

13 pensamentos em “Por uma pedagogia da descoberta”

  1. Ótimo texto Derbi! Concordo com quase tudo, pois acredito que a compartimentalização, apesar de ser algo que considero neutro, tem mais atrapalhado do que permitido o desenvolvimento das pessoas, em vários contextos.

    No entanto fico um pouco hesitante em concordar com “a serendipidade em substituição à rigidez curricular”. Acredito que substituição seja um pouco drástico demais… Por que não convivência? Um equilíbrio, talvez? Será que esse caminho do meio é possível, sem que existam (muitas) perdas e danos? Hm?

    Lendo o seu texto também me surgiram algumas questões:

    – Quando crianças, ou até mesmo enquanto adultos, nós precisamos de referências. Acredito que em um ambiente totalmente livre e aberto, seja possível sim um aprendizado. Mas não existe um certo risco de limitação do conhecimento? Que essas referências se percam ou fiquem confusas, por exemplo? Acredito que a tentativa de compartimentalização é, também e em algum nível, uma tentativa de universalização do conhecimento e de criação deste repertório de referências consideradas então básicas. Acho que essas tentativas humanas sempre se esforçam em tentar o melhor pra todos, mas isso funciona ironicamente até deixar de funcionar (como é o caso hoje em dia, parece não funcionar mais).

    – Também acredito que precisamos de disciplina, mas não no sentido tão ortodoxo da palavra, mas mais no sentido de criação de hábitos, mesmo. O que eu temo (e talvez esse seja um temor incoerente e um pouco ingênuo) é que alguns conhecimentos simplesmente desapareçam, caso deixem de ser devidamente cultivados. Claro que isso também pode ser uma questão cultural, mas talvez esse assunto fique pra um outro post, acho. Isso também recai naquela discussão meio sociológica e antiga sobre as pessoas serem naturalmente curiosas / esforçadas ou indiferentes / preguiçosas. Fico imaginando como seria possível – ou até mesmo se seria viável – a criação de hábitos (ou de algum hábito em específico) em um ambiente completamente aberto e que potencialize a serendipidade, onde a pessoa tenha escolhas (ou uma escolha) verdadeiramente livre. A possibilidade de ter novas escolhas sempre não nos limita, de algum modo? E em qual medida?

    Outra questão que me surgiu agora, que também tem a ver, um pouco, com a questão sobre as referências:

    – Num mundo com inundação informacional (e principalmente meta-informacional) como temos hoje, como se daria esse ambiente de serendipidade, sem fazer com que a pessoa literalmente enlouqueça completamente? Fico aqui pensando como ficaria a questão da filtragem que, mesmo sendo customizada, é necessário que tenha um mínimo de credibilidade. Mas enfim, talvez este seja o meu mindset de bibliotecária falando mais alto e confesso, é difícil me libertar dele. Valorizo outras coisas, não sou uma educadora então é difícil, pra mim, conceber que o aprendizado quase que obrigatoriamente envolva erros, repetidamente, mas que eventualmente acabam se tornando acertos ao longo de uma linha do tempo. O meu tempo é outro, talvez.

    Mas é curioso pensar nisso, pois parece que a aprendizagem, assim como qualquer tipo de convivência, é um processo lento. E processos lentos são proibitivos hoje em dia. Mas é sempre bom nos perguntarmos os porquês de todas essas coisas, enfim..

  2. Nossa Dora, teu comentário dá bastante pano pra manga (como sempre 😀 )!!

    Vou começar pelo final: “processos lentos são proibitivos hoje em dia” penso que esse seja um dos grandes problemas da civilização (por consequência e espelho, da educação). É o motivo de tomarmos tanta ritalina. É o motivo das escolas serem linhas de produção, é o motivo da compartimentalização dos saberes. Tudo está em função da eficiência. Particularmente eu queria um mundo bem menos eficiente e bem mais divertido.

    Penso na minha forma de aprender. Precisei de muita disciplina sim, pois sem ela eu jamais conseguiria ser forçado a aprender algo que eu não queria. Mas o papel da disciplina na minha “formação” foi ínfimo. Explico: praticamente tudo o que fui forçado a aprender eu esqueci na primeira oportunidade (geralmente dias depois das provas). Mas aquilo que eu quis por paixão, por motivação própria, em geral fui muito além do que era abordado na escola. Disciplina é o que precisa ser usado para obrigar alguém a fazer algo que não quer. É diferente de organização e compromisso. Nunca quero levantar cedo da cama, mas se o que eu quero fazer implica nisso, acordo cedo por compromisso. Detesto matemática. Mas se meu projeto de vida precisa de algum tipo de conhecimento matemático, vou atrás (e consigo me divertir).

    A questão toda é: não precisamos nos preocupar que os conhecimentos que não são tão pop desapareçam. A vida mostra a necessidade deste ou daquele saber. Claro, na lógica individualista egocêntrica na qual vivemos, é importante aprender a respeitar o conhecimento do outro (e até a enxergar o outro).

    Minha filha fez o projeto de tudo aquilo que ela gostaria de aprender na vida. Outras crianças também fizeram, na Comunidade Aprendente (rede que estamos criando aqui em Porto Alegre). Os projetos delas tinham, em média, entre 20 a 25 “matérias”. Analisando esses projetos, eram muito mais abrangentes e profundos do que qualquer currículo escolar. Somos naturalmente curiosos, amamos aprender só por aprender, mas tem que ser do nosso jeito, tem que ter motivação. Por isso somos tão frustrados com a escola.

    Matar o currículo e incentivar a descoberta não significa acabar com as referências, elas estarão sempre presentes e sempre terão um papel importante na educação. Isso apenas implica que a autoridade não é mais necessária. Que posso pedir ajuda a alguém mais experiente sempre que achar que preciso. E que saberei ouvir essa pessoa/fonte, porque respeito essa pessoa/fonte, e porque disso depende o meu projeto.

    Nem tudo que aprenderei será uma escolha. A própria serendipidade apresenta as descobertas de forma inesperada. Muitas coisas no mundo (bem mais do que deveriam) exigem conhecimentos que, à princípio, eu posso apresentar resistência. A socialização é uma delas. Preciso conviver e trabalhar junto com pessoas e muitas vezes não quero aprender a lidar com alguns comportamentos humanos, entretanto, é necessário.

    O próprio ensino e instrução tem seu lugar, para a compreensão de alguns conhecimentos técnicos, para auxiliar no processo de aprendizagem. Mas o que mais importa para aprender é se envolver nos fenômenos que se quer aprender e isso é sistematicamente negligenciado em todos os níveis da ensinagem oficial.

    O problema da filtragem, se resolve com a prática da crítica. É muito rápido perceber que não se pode confiar em algumas fontes de informação, mas precisa de um grande esforço para fazer isso quando não estamos nem aí pro que se está estudando. Quando minha realização pessoal está envolvida é outra coisa entende? Me preocuparei com todas as informações sobre o assunto, não aceitarei as que não são precisas ou confiáveis.

    Óbvio que temos um longo caminho de reformulação da educação. Os mindset ainda precisam se adaptar a uma forma tão livre de aprender, mas a gente aprende, e só temos a ganhar! 😀

  3. Também não podemos ser ingênuos. Muitos conhecimentos estão desaparecendo hoje. Em especial os conhecimentos tradicionais, dizimados por “novas tecnologias”, como se pode ver claramente com a agricultura familiar e o modelo industrial de produção. A história ensinada nas escolas é um exemplo clássico disso. Incontáveis perspectivas históricas são silenciadas nos livros didáticos, em geral por motivos políticos e moralistas.

    Abandonar currículos não se trata de simplesmente deixar fluir a educação sem preocupações. Isso seria abrir o caminho para toda sorte de seleção e censura que operam em nossa sociedade. Há sim a necessidade de problematizar as escolhas e de apresentar elementos externos aos projetos de quem aprende. Mas isso será muito mais consistente se vier na forma de estímulo e desafio.

  4. Lembrei da Wikipédia, e de quanta coisa aprendi navegando aleatoriamente por ela.

    A Web é a maior biblioteca do mundo, onde qualquer um pode escrever “seu livro” e disponibilizar para para qualquer outra pessoa do mundo acessar!

    Isto parece tão obvio hoje, mas é algo que está transformando radicalmente o aprendizado e a relação entre alunos, escola e professores, dado que infelizmente na grande maioria das vezes a escola é uma estrutura anacrônica, autoritária e conservadora (ex: ainda tem escolas onde alunos copiam oque o professor escreve no quadro).

  5. outro dia eu conversava com um amigo sobre variações do nosso idioma, variações que ele apenas definiu como “erradas” e quem as usa como “ignorantes”, entendo porque ele pensa assim, ele aprendeu no colégio que não há meio termos entre a norma padrão, chamada de “culta” e “o resto” sempre considerado errado, o fato maior disso tudo é que segundo este pensamento até nosso idioma é um erro, um latim “mal falado” pelos soldados com forte influencia do galês e de tantos povos que transitaram pela região de porto cale e que aqui chegou e sofreu outras tantas influencias dos idiomas dos nativos desta terra, mas que por lei, os idiomas nativos foram suprimidos o quanto foi possível, pois o idioma é uma importante ferramenta de dominação e esta ferramenta ainda é largamente utilizada nos colégios, nesta violência simbólica que define como errado tudo o que não faz parte do modelo “oficial” definido por um grupo de pessoas que legislam e comandam a “educação” oficial se colocando como padrão repetindo, reproduzindo sua visão de mundo.

    e nesta reprodução de valores, vemos porque o ensino é tão desmotivador, ouso falar que nunca estudei matemática no colégio, apenas decorei fórmulas e como aplica-las, assim como nunca estudei física, biologia, o nosso idioma ou algum idioma estrangeiro, até mesmo agora que estou numa universidade pública, que tem vestibulares tão concorridos, tenho provas de programação cujos códigos são escritos numa folha de papel pautado e a linguagem estudada foi criada nos anos 50 ou 60 do século XX sendo usada hoje somente em micro-controladores. Mas porque os professores a ensinam? unicamente pelo fato deles a terem estudado exatamente da mesma forma que cobram quando estavam cursando a faculdade, e assim o ciclo se perpetua, o ensino que deveria diminuir as desigualdades a acentua e que deveria libertar a pessoa, o prende num modelo que às vezes é puramente tecnicista,

    algumas perguntas que aprendi a fazer sobre quando se fala em sistemas de ensino:
    a quem serve a educação e qual a sua finalidade?

    se a educação pode ajudar a formar tipos de homens, os colégios e pelo que vi até agora na universidade em que estudo, vejo que o tipo de homem que buscaram formar até agora é justamente aquele que aprendeu a copiar e a reproduzir fórmulas prontas, todo questionamento sobre qual o tipo de educação que eu quero ter foi visto como estranhamento e até mesmo como uma ameaça à autoridade do professor (pensemos numa sala de aula, o modelo de professor em pé em posição de destaque e alunos sentados, silenciados e em posição inferior já é impõe uma hierarquia e um poder sobre o professor que quando questionado costuma sentir seu ego ferido e seu poder ameaçado)

    e agora em período eleitoral, quando todos os candidatos falam em educação, em “investir” em educação me pergunto: investir o quê, de qual forma e em que tipo de educação?

  6. Nossa Derbi!!! Esse teu texto vem ao encontro de muitas reflexões que têm surgido aqui na unidade em que trabalho. Nos voltamos um pouco para modelos de educação que trabalham por projetos, com mais liberdade e autonomia, como o modelo da Escola da Ponte (do José Pacheco), de Summerhill…enfim espaços que permitam que a criança se desenvolva, aprenda e busque o conhecimento a partir do seu ritmo de despertar para o mundo. O que acontece é que nós não vivemos esse tempo, crescemos em escolas nos moldes tradicionais e hoje enfrentamos a nossa própria resistência em quebrar paradigmas, romper currículos engessados e nascer para o que pode ser uma reinvenção da escola. Quanto mais eu leio sobre essas novas possibilidades, mais eu quero voar, mais eu quero ver os educandos desenjaularem essa criatividade e essa curiosidade que por anos ficou aprisionada em moldes repressores. Quantos cientistas, quantos escritores, quantos pintores, quantos matemáticos podem surgir quando oportunizamos que o aprendizado seja uma oportunidade e não uma obrigação.

    1. Eu senti bem essa diferença com a minha filha. Eu tive a educação tradicional dos anos 90. Moramos no Canadá e estranhei muito a escola daqui não ser tão baseada em conteúdo como foi a minha. Mas aprendi que pode ser um caminho interessante também, e deixa o ensino mais fluido, menos engessado.

      Sobre as bibliotecas, não entendo como é que não se permite que os usuários busquem livremente os livros pelas estantes! Essa é uma das coisas que eu amo aqui no Canadá, as bibliotecas públicas são totalmente livres para o público. Ninguém se importa se os livros acabam fora do lugar: existem funcionários cujo trabalho é justamente esse, checar as estantes e reordenar o que estiver fora do lugar. Assim como existem funcionários para colocar de volta na estante os livros que forem retirados pelos usuários.

  7. Onde é essa unidade Anelise???
    Estamos iniciando uma comunidade de aprendizagem por aqui, estamos nos inspirando no Pacheco (que já fez uma video conferência com a gente), na Ana Thomaz, no Luiz Fuganti e em muitos outros pensadores e fazedores da educação. Está sendo lindo!!

  8. Derbi é no Centro Educacional Marista Ir. Acácio, da Rede Marista de Solidariedade, em Londrina. No inicio deste ano levamos o Jose Pacheco pro nosso Congresso e agora em setembro teremos o Tiao Rocha. Tambem seguimos estudando, essas mudanças tomam tempo e demandam persistencia. Mas certamente ela chega com muitos ganhos para o desenvolvimento dos educandos!

  9. Olá, gostaria de receber algumas indicações de livros sobre o assunto. Alguém poderia me ajudar? Procuro livros para bibliotecários, professores e alunos do ensino fundamental e infantil sobre o assunto serendipidade. Aguardo contato e referências.
    Isadora (isadorafreire1@gmail.com)

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