Infanto-juvenil da #zuera e por que ler os clássicos

É assim que começa Odisseia de Homero segundo João Vítor, infanto-juvenil da #zuera lindamente ilustrado com colagens de fotos “stock”. João Vitor fica de recuperação e sua tarefa final é fazer uma resenha da Odisseia. Só que em vez de pegar a versão correta do livro na biblioteca, adaptada para jovens, ele pega a versão original completa. Altas aventuras e muitas confusões.

Legal do livro e moral da história é perceber como que a versão adaptada pelo próprio João se torna tão interessante quanto o original e a forçação de barra que é (na história do livro, não intencional) obrigar crianças a ler os clássicos, quando estes livros estão completamente desconexos da realidade delas.

Em algum momento entre o ensino fundamental e médio, uma das leituras exigidas para a aula de português foi Dom Casmurro. Comecei a ler e não entendia por que aquele livro era tão especial e considerado um clássico, e odiava ter que fazer redações e apresentações sobre demais livros. Este foi praticamente o caso com todos os outros romances intragáveis que li durante a escola (Auto da barca do inferno, O cortiço, A cidade e as serras, Vidas secas, etc), o que me fez, naquele momento, odiar a leitura, e por consequência, bibliotecas. Por muito tempo, então, eu não li um único livro por prazer. Porém, um pouco mais velho e capaz de absorver e entender mais sobre o mundo, finalmente compreendi a importância de ler os clássicos, e particularmente Machado de Assis e sua representação da cidade onde viveu e vivo hoje. Obrigar as crianças a ler na escola é uma tentativa justa de abrir suas mentes para a literatura. No entanto, como eu estava sendo forçado a ler livros que não entendia, há alguns anos, isso me fez não querer realmente lê-los novamente. Imagino que isso tenha acontecido com muitos de vocês.

Claro que vai ter gente argumentando que seu gosto pela leitura e bibliotecas surgiu a partir de uma ou outra dessas obrigações, e pedagogos e acadêmicos vão discutir em favor da introdução de certos referenciais linguísticos e culturais tão cedo quanto possível, obrigatoriamente ou não. O ponto é que me reconheci na versão de João Vitor e admiro o potencial criativo de uma criança de 12 anos adaptar à sua própria realidade um épico milenar e um cânone ocidental.

Bibliotecários também vão se reconhecer em inúmeras situações do livro, a começar pelo usuário que não sabe a diferença entre as versões de um mesmo título. Mas antes a comédia da vida bibliotecária fosse só preenchida por usuários sui generis. Quem não lembra daquela história tragicômica que Edson Nery contava quando queria criticar a formação dos bibliotecários: “Telefonei para a biblioteca do D.A.S.P., em Brasília, e perguntei se havia alguma edição de “Política”, de Aristóteles. “Só o senhor dizendo o sobrenome do autor”, respondeu a bibliotecária, “porque no nosso catálogo os autores aparecem pelos sobrenomes”. Risos.

Todo bibliotecário com experiência em atender público deve ter umas 2 ou 3 boas histórias para contar: o livro da capa amarela, o usuário fedorento, aquele que sempre é o último a sair, o que tem fixação pela bibliotecária, e por aí vai. Estou tentando convencer William e Marina a escrever um livro de causos e contos da rotina de bibliotecas, quem sabe não sai.

E ainda bem que melhorou muito nossa capacidade de rir de nós mesmos e encarar o processo de referência como algo que requer muito além de habilidades técnicas. Reflexo disso é a profusão de páginas de humor bibliotecário que quase sempre giram em torno das vergonhas alheias e nossas próprias. Fiquem com a Bibliotecária Mal Humorada.

A Odisseia de Homero (segundo João Vítor), jovial e engraçado, de Gustavo Piqueira , publicado pela Editora Gaivota, disponível na Livraria Cultura e na Livraria da Travessa

1 pensamento em “Infanto-juvenil da #zuera e por que ler os clássicos”

  1. Acho que é um trauma geral da nossa geração. Assim como todas as odes à leitura e ao livro que, na verdade, sacralizam e afastam os jovens da leitura. Convence a galera a escrever.

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