Sobre fantasmas, livros e tigres

Toda biblioteca tem ou teve uma sala 7? A pergunta há anos me intriga, desde que a sala 7 da biblioteca onde trabalho deixou de existir, mas continuou existindo. Era a sala do “processamento técnico” na época em que comecei a trabalhar, o lugar para onde os usuários eram enviados à procura de livros supostamente não catalogados. “Deve estar na sala 7, vai na sala 7”. Reformamos nossas instalações duas vezes, botamos abaixo a sala 7, mas os funcionários antigos continuaram mandando usuários pra lá por muitos anos. Ainda hoje, quase 20 anos depois da extinção da sala com essa numeração, ainda me aparecem usuários perguntando pela sala 7, só que de outras bibliotecas. Curioso.

Bibliotecas guardam pequenos segredos. Como os bilhetinhos oferecendo ou solicitando préstimos sexuais que às vezes são encontrados entre as páginas de um livro. Os autores das mensagens contam que a sorte as leve até um parceiro potencial, como se os livros fossem garrafas jogadas no mar? Ou existiria um método para determinar que tipo de livro tem mais chances de chegar às mãos da mulher tatuada certa ou do homem peludo com as dimensões adequadas? E se um desses bilhete for encontrado daqui a 25 anos pelo filho de quem o colocou lá? As indagações são tantas que dizem haver grupos de pesquisa estudando estratégias de busca para encontrar os livros bilhetados.

Especula-se nos círculos acadêmicos sobre a não comprovada existência do livro sem fim, também conhecido como livro travado. Trata-se uma uma obra que ninguém jamais conseguiu terminar de ler, porque todos param na página 54, segundo algumas fontes, 62 em versões mais modernas, e não conseguem ir adiante. Como ninguém chegou até o fim, ninguém sabe como termina. Dizem que os espertinhos que tentaram começar a leitura pelo final não viveram para contar o que leram.

Os livros que mudam de cor são um tormento na vida dos usuários. Ontem o livro de capa verde estava lá no cantinho dele. Hoje não está mais. Sumiu? Foi emprestado? Não, mudou de cor. Menos travessos, mas igualmente surpreendentes, são os livros que suspiram quando são manuseados, principalmente quando acariciamos suas capas. O fenômeno já foi observado por muitos bibliotecários e encadernadores, mas continua assustando mortalmente leitores desavisados.

Um estudante de música comprou um disco raro num sebo e resolveu, inspirado por velhos filmes de terror, tocá-lo ao contrário. E ouviu, nitidamente, uma voz anunciando: ” o grande Deus Pã morreu“. O disco teria sido doado a uma biblioteca pelo colega de apartamento do rapaz, depois que ele sumiu. Alguns estudantes tentaram localizar o disco, mas era uma gravação obscura e ninguém sabia como procurar. A bibliotecária disse que se quisessem ouvir ao contrário todos os 6784 discos do acervo, seria um prazer ajudá-los, mas que havia uma boa chance do tal disco ter sido descartado. A história se espalhou e despertou curiosidade entre os amantes do bizarro. Encontrar o disco virou uma espécie de jogo, baseado em procurar nomes de músicos que soam bem quando lidos ao contrário, fazer anagramas de títulos de óperas ou encontrar palíndromos. Os adeptos da brincadeira tendem a se tornar obsessivos, o que levou alguns de seus colegas a imaginar que estão a caminho de criar uma seita. Mas há quem se recorde do boato sobre a morte de Paul McCartney nos anos sessenta e defenda que os malucos que afirmaram ter ouvido “Paul is dead” num disco da banda na verdade ouviram “Pan is dead“. Mas que a frase só pode ser ouvida por flautistas que tenham ouvido absoluto.

Professores sisudos criticam essas bobagens, para eles fundadas em velhas superstições pagãs, e conclamam os alunos que não têm o que fazer a se dedicarem a atividades mais produtivas, como resgatar do depósito de livros não catalogados de uma das bibliotecas da universidade um esquecido volume da Enciclopédia Britânica que teria um verbete sobre uma cidade que nunca existiu. Outros docentes avisam, preocupados, que é melhor deixar isso pra lá.

E que dizer dos registros fantasmas, que não remetem a nada no acervo? Criados por bibliotecários entediados, cansados de catalogar sempre as mesmas coisas, segundos os céticos. Materializações dos desejos dos leitores, ou de acadêmicos que morreram antes de concluir a tese, de acordo com espíritos mais poéticos. O contrário também pode acontecer, para aflição dos picaretas acadêmicos que praticam ficção curricular. Já foram encontrados nas bibliotecas digitais trabalhos falsos dando existência real a itens inventados do currículo Lattes. A característica mais temível desses textos são os grosseiros erros conceituais  e as ilustrações ferozmente pornográficas que envergonham até o mais tosco dos picaretas. Ninguém sabe quem é o criador dessas abominações. Os bibliotecários acolhem as reclamações dos autores ofendidos com solidárias exclamações: ” que horror, não? Não há mais respeito na nossa sociedade, o mundo está perdido mesmo“.

Outros mistérios são tão soturnos que nem chegam a se espalhar entre os usuários, como o do vírus maldito, uma página que surge em resposta a uma busca qualquer no banco de dados e mostra a face da morte.

A moça dos óculos quebrados pode ser vista entre as estantes poucos minutos antes do fechamento da biblioteca, trocando angustiadamente os livros de lugar. Suas roupas têm manchas de sangue fresco e as lentes dos óculos estão partidas. Quando alguém a vê e vai alertar os funcionários sobre a estranha perdida entre as estantes, não a encontram mais. E ninguém a vê sair, assim como não a viram entrar.

Em muitas bibliotecas já aconteceu o seguinte fato, com pequenas variantes: um funcionário volta para pegar um objeto esquecido depois que a biblioteca fechou e escuta, arrepiado, os sons familiares do carrinho sendo empurrado e dos livros sendo guardados nas estantes. Os funcionários mais corajosos acendem as luzes para ver se  sobrou alguém andando por lá, mas nunca há ninguém, nem mesmo a moça dos óculos quebrados. Como em toda biblioteca sempre há uma senhora que guardava livros e faleceu há algum tempo, normalmente a culpa recai sobre o fantasma dessa dedicada funcionária. Lenda criada para desestimular os alunos que fazem a gente reabrir a biblioteca porque esqueceram suas bolsas? Talvez.

Tradicionalmente, bibliotecários adoram acolher e criar gatos nas bibliotecas. Eu mesma jå fiz isso, gatos e bibliotecários têm um elo tão forte quanto os cães e os caçadores. Mas pouca gente sabe que, em sua mesa numa sala 7 qualquer, a estagiária tímida e decepcionada em seu primeiro trabalho sonha com um tigre.

Algumas dessas histórias foram completamente inventadas por mim. Outras de fato aconteceram e boa parte delas são referências literárias. A vocês a tarefa de descobrir.

foto: José Estorniolo Filho. Palais Idéal.

 

11 pensamentos em “Sobre fantasmas, livros e tigres”

  1. Confesso que achei o texto um tanto divertido. A biblioteca é um ambiente silencioso, e talvez por isso carregado de mistérios e lendas no imaginário das pessoas.

    Quem nunca ouviu falar de livros que caem das prateleiras quando não tem ninguém por perto?
    Quantas pessoas não me perguntaram se não tenho medo de ficar sozinha na biblioteca (que fica no segundo subsolo do prédio)?

    Agradeço a Marina pela partilha das histórias. Dariam belas crônicas!

    Abraços

  2. Dreamtigers de “O Fazedor” – Jorge Luis Borges (1899-1986)

    Na infância exerci com fervor a adoração do tigre: não a do tigre fulvo dos camalotes do Paraná e da confusão amazónica, mas a do tigre raiado, asiático, real, que só se podem enfrentar os homens de guerra sobre um castelo, em cima de um elefante. Costumava deter-me sem fim diante de uma jaula do Jardim Zoológico; apreciava as vastas enciclopédias e os livros de história natural pelo esplendor dos seus tigres. (Recordo-me ainda dessas figuras: eu, que não posso lembrar-me sem erro da testa ou do sorriso de uma mulher). Passou a infância, caducaram os tigres e a sua paixão, mas ainda estão nos meus sonhos. Nessa napa submersa ou caótica continuam a prevalecer e se não veja-se: adormecido, distrai-me um sonho qualquer e logo sei que se trata de um sonho. Costumo então pensar: isto é um sonho, uma pura diversão da minha vontade, e já que tenho um ilimitado poder, vou causar um tigre.

    Ó incompetência! Nunca os meus sonhos sabem engendrar a apetecida fera. Aparece o tigre, isso sim, mas dissecado e débil, ou com impuras variações de forma, ou de um tamamho inadmissível, ou muito fugaz, ou parecido com um cão ou um pássaro.

  3. Penso num tigre. Esta penumbra exalta
    A vasta biblioteca laboriosa
    E parece afastar as prateleiras;
    Forte, inocente, ensanguentado e novo,
    Irá pela sua selva e pela manhã
    E marcará seu rasto na lodosa
    Margem de um rio cujo nome ignora
    (Não há passado nem porvir, nem nomes
    No seu mundo, só um instante certo)
    E salvará as bárbaras distâncias,
    Farejando no entrelaçado labirinto
    Entre os odores o odor da alba
    E o odor deleitoso do veado.
    Por entre as riscas do bambu decifro
    Suas riscas, pressinto a ossatura
    Debaixo da pele esplêndida que vibra.
    Interpõe-se em vão todos os mares
    Convexos e os desertos do planeta;
    Desta casa de um tão remoto porto
    Da América do Sul, te sigo e sonho,
    Ó tigre que é das margens do rio Ganges.

    Na minha alma escorre a tarde e penso
    Que o tigre vocativo do meu verso
    É um tigre de símbolos e sombras,
    Uma série de tropos literários
    E de memórias da enciclopédia,
    Não o tigre fatal, a aziaga jóia
    Que, sob o sol ou a diversa lua,
    Vai cumprindo em Samatra ou em Bengala
    A rotina do amor, do ócio da morte.
    Ao simbólico tigre eu quis opor
    O verdadeiro, o de cálido sangue,
    O que dizima a multidão dos búfalos
    E hoje, 3 de Agosto de 59,
    Alarga na planície uma pausada
    Sombra, mas já o facto de o dizer
    E de conjecturar-lhe a circunstância
    Fá-lo ficção da arte e não criatura
    Vivente dessas que andam pela terra.

    Procuraremos um terceiro tigre.
    Será, tal como os outros, uma forma
    Do meu sonho, um sistema de palavras
    Humanas, não o tigre vertebrado
    Que, para além das vãs mitologias,
    Pisa a terra. Bem sei, mas qualquer coisa
    Me impõe esta aventura indefinida,
    Insensata e antiga, e persevero
    Em buscar pelo tempo desta tarde
    O outro tigre, o que não está no verso.

    Jorge Luis Borges (1899-1986)
    O Outro Tigre de “O Fazedor”

  4. #Fikadika

    “Num dia em que eu comparava, creio eu, várias edições de Teresa Filósofa, meu vizinho, um velho elegante de terno transpassado, ostentando na lapela a roseta da Legião de Honra, inclinou-se para mim e murmurou, imperturbável, um conselho, que jamais esqueci, e que lhe agradeço. A melhor maneira de ler tais livros era deixá-los se abrir sozinhos, pois se tinha certeza então de encontrar as passagens mais lidas e, portanto, de melhor qualidade erótica”

    Jean Marie Goulemot – O Amor às Bibliotecas.

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