Bibliotecários lato e strictu sensu

Sempre tive probleminhas com denominações e definições das coisas. Acho que esse foi um dos motivos que me levou a fazer biblioteconomia e também faz parte de uma busca pessoal por um certo senso de identidade – que hoje reconheço como ilusório. De uns tempos pra cá aprendi que a minha identidade pode ser fluída e essa questão não tem mais me angustiado tanto. Mas volta e meia me pego pensando no tema. A minha dúvida não é mais “o que é um bibliotecário” ou “o que faz um bibliotecário”, mas mudou para “onde está o bibliotecário?”. Já passei do “quem sou eu?”, hoje questiono “onde estou?” e daqui alguns tempos devo me perguntar de novo “pra onde vou?”.

Me formei em 2011 em Biblioteconomia e eu deveria ter feito mestrado. Contra tudo o que todos diziam, não fiz. Não sei dizer se foi a melhor escolha, só sei dizer que foi uma escolha minha. Da mesma forma que me diziam pra jamais fazer biblioteconomia e eu fui teimosa, insisti e fiz. Não me arrependo de nenhuma das decisões que tomei até hoje pois elas não me inviabilizaram nada, muito pelo contrário: me ensinaram muitas coisas. E depois da graduação fui fazer o que eu fui formada pra fazer: ser bibliotecária. Mas foi tudo muito diferente do que eu esperava. Eu achava que ia conseguir um emprego e ficar nele por um bom tempo até ir para outro e assim por diante. Mas não foi assim que a vida funcionou (pra mim ao menos).

Jamais considerei tentar concursos – mas sempre tentei e sempre falhei. Apesar de ser uma das opções mais interessantes para se ter estabilidade, acredito que me desmotivaria gradualmente por uma série de outros motivos. Pra mim seria morte em vida permanecer em um lugar apenas pelo dinheiro. Sim, eu sei, dinheiro é muito importante sim, mas existem outras coisas que me interessam mais. Ainda entendo que dentro da biblioteconomia o campo é vasto e que há de fato muito a ser feito. E eu nunca soube exatamente que tipo de bibliotecária eu seria. E ainda não sei se hoje tenho certeza – e não acho isso nada ruim, pelo contrário, o leque de possibilidades continua aí para que eu possa explorá-lo até onde for possível.

Ano passado recebi 3 ligações me oferecendo vagas pra trabalhar com a mesma coisa em lugares diferentes de São Paulo. Recusei cada uma delas, mas me interessava em saber sobre os detalhes à título de curiosidade do quanto o mercado está aquecido por aqui (São Paulo, capital). Até que um dia me chamaram pelo LinkedIn e me fizeram uma proposta que mudaria tudo – mas não muito. A vaga era para Analista de Produto, para trabalhar com taxonomia e catalogação em uma multinacional. Me interessei na hora, pois sempre quis trabalhar com isso tudo. Fui nas três entrevistas e então me chamaram.

Complicou um pouco pois eu estava exatamente na metade da pós, moro no centro e a empresa é em outra cidade e aí mudou tudo: horários, lugares, tudo aqui é longe e difícil. Mas coloquei na balança e decidi que eu queria passar por essa experiência acima de qualquer coisa e que queria o cargo. Valia o sacrifício. Mudar de cargo pra mim foi aceitar um desafio e tanto, pois até o momento tinha trabalhado apenas em frentes que podem ser consideradas strictu sensu na área de biblioteconomia e arquivologia: em uma biblioteca corporativa especializada e em um arquivo de uma construtora e incorporadora. Eu precisava e queria dar esse salto.

Sempre tive facilidade e curiosidade em lidar e aprender a mexer com algumas tecnologias, mas não entendia – diferente de vários dos meus colegas – como isso podia se encaixar na profissão que escolhi pra mim: a de bibliotecária. Há algum tempo eu achava que tinha escolhido biblioteconomia apenas para aprender as técnicas. Hoje acredito que minha relação com a área tem mais a ver com o fato de eu ter ‘aprendido’ ou melhor, vivenciado o mindset bibliotecário, que é diferente sim dos outros profissionais. É uma questão de mentalidade mesmo, da forma que enxergamos as coisas como estão ou podem estar no mundo.

Hoje eu entendo que num nível bem pessoal e particular, biblioteconomia para mim se aproxima mais disso mesmo, da estrutura, da forma que pensamos a informação – independente do contexto e de qualquer tipo de apego a normas e regras – sejam elas criadas há muito tempo atrás ou até mesmo as recentes, pois as regras do jogo estão mudando o tempo todo, constantemente. Acredito sinceramente que, pelo menos os bibliotecários do que posso chamar de nova geração (de 2000 pra cá) pensam a organização e representação da informação, suas estruturas e fluxos de modo específico, com foco no usuário. Ao menos quero ter essa fé..

Acredito também que a nossa área nos permite essa flexibilidade de poder trabalhar em diferentes tipos de ambientes de acordo com nossas habilidades. Nessa época em que o e-commerce é uma tendência cada vez mais em evidência, a forma de pensar do bibliotecário – trabalhando com uma equipe multidisciplinar, juntamente com arquitetos de informação e programadores – é primordial para o andamento do negócio. Neste tipo de ambiente em específico onde a experiência do usuário é altamente priorizada e privilegiada, a organização das informações e sua estruturação é o core, uma vez que não estamos mais lidando com objetos físicos e não podemos ver efetivamente o que se está comprando. A partir daí podem surgir N questões, nas quais já estou pensando para o meu TCC.

Trabalhando com taxonomia, indexação e catalogação, basicamente o que eu e minha equipe fazemos hoje consiste em: receber demandas dos departamentos da empresa, planejar e sugerir soluções levando em conta a taxonomia pré-existente do site (suas categorias, subcategorias, facetas e limitações da ferramenta); Analisar criticamente padronização das fichas de produtos disponíveis (seus atributos e valores, algo muito próximo de catalogação), avaliando as mudanças pretendidas e sugerindo implementações; E também estar em contato com o modelo de taxonomia da matriz, pensando numa possível migração e adaptação do modelo de negócio americano para o Brasil.

Como Analista de Produto trabalhando com taxonomia em ambiente de Internet, posso dizer que hoje sou uma bibliotecária lato sensu, que não trabalha com um cargo convencional ou tradicional na área. Mas basta observar as atividades realizadas que fica difícil dizer que “isso não tem nada a ver com biblioteconomia”. Tem sim. E tem muito. O que percebo é que apenas troquei livros e papéis por estruturas em árvores de links, mas a ideia da coisa toda é muito parecida contendo apenas nomes diferentes. Esse mundo de links parece muito distante de livros e papéis, mas a verdade é que pensar em planejamento e estratégia de organização da informação para o digital é bastante similar, com a diferença que as coisas acontecem muito mais rápido.

A tônica é de mudança constante. E isso requer um determinado tipo de perfil muito flexível, resiliente e adaptável – o que tradicionalmente não faz parte de um perfil da nossa área que seja mais conservador e avesso à mudanças (ainda mais constantes!). Geralmente as mudanças não ocorrem do dia pra noite: ocorrem de hora em hora, e das formas mais inesperadas possíveis… Linkagem, relinkagem, categorização, recategorização e migração são palavras de uso diário. Mas é só mais um jeito diferente de permanecer fazendo a mesma coisa. Este mês fazem três meses e nenhum dia tem sido igual ao outro…

Espero aprender tudo o que posso aprender por aqui.   

20 pensamentos em “Bibliotecários lato e strictu sensu”

  1. Gostei bastante do seu depoimento! Eu foco também em fazer uma carreira fora do tradicional, mas usando os conhecimentos da biblioteconomia para isto, pois são fundamentais. Parabéns, e sucesso nessa sua nova carreira!

    1. Oi Mariana! Nunca tive esse “foco” na carreira, sempre gostaria de ter tido. Na verdade, depois que me formei as coisas simplesmente foram acontecendo. Talvez eu ainda não tenha me “encontrado”, mas o que mais me interessa é o caminho, que está sendo diverso e estou podendo aprender muitas coisas, um pouco de cada, eu diria. Obrigada e abraços!

  2. Eu acho realmente interessante como a gente discute a biblioteconomia e sempre volta pra biblioteconomia. A gente começa técnico, abre os olhos pra algo mais amplo, algo mais livre, e no fim das contas se pega nas cinco regras do Ranganathan (aplicadas à nova realidade, mas ainda elas). Eu não quero ser um apologista da biblioteconomia, mas é uma área deliciosa pra se trabalhar para quem é curioso e se diverte em aprender. A gente faz absolutamente um pouco de cada coisa, ou ao menos pode se meter em absolutamente um pouco de cada área.

    1. Oi Fernando! É a tal da coisa né: você tira a menina da biblioteconomia… mas não tira a biblioteconomia da menina. Tá certo que falam que é brega reverenciar os cânones da biblio, mas volta e meia eu me pego pensando em como as cinco regras são mesmo o fundamento do que a gente faz. E em algum post antigo meu eu falei que “bibliotecário é tudo metido à besta”.. E somos mesmo. E ainda bem! Beijos.

  3. Parabéns pelo relato. Sou de Maceió, e estou em vias de desenvolvimento do meu TCC de Biblioteconomia. Gosto bastante da experiências e estou compartilhando com a minha rede de relacionamento. Muitas felicidades.

  4. Dora, parabéns pelo texto e pela coragem de enfrentar esse desafio! Me identifiquei muito com suas palavras: concurso não é minha praia e também fazem 3 meses que escolhi abrir mão do tradicional para ser uma bibliotecária lato sensu na área de transparência organizacional. Acho que a nova geração tem muito desse perfil adaptável e podemos contribuir de forma relevante em áreas que não eram vislumbradas antes.
    Que seja uma fase de muito aprendizado e descobertas pra vc!

    1. Obrigada Fernanda! Sempre fico um pouquinho feliz quando vejo que existe um pessoal que faz biblio sem ser especificamente pra concurso. A nossa área parece tão essencialmente técnica que encontrar pessoas ‘criativas’ – no limite do significado da palavra – é sempre um alívio. A gente pode ser e fazer tanta coisa… É só não esperar cair do céu e fazer acontecer. Beijos e boa sorte.

  5. Bacana! Passei no mestrado agora mas sempre acreditei que a profissao nos da oportunidades mil. Até porque, o que nos falta muitas vezes, é reconhecer a existencia da informacao, fora do ambito tradicional. O mestrado por ser profissional talvez me faça refletir e ampliar o meu olhar para aplicacao. Sempre acreditei nas multiplas colaborações da Biblioteconomia. Parabens!

    1. Oi Lourdes… Acho importante essa questão do mestrado profissional, pois a área é tão ampla que essa divisão se faz necessária mesmo. Quando fiz meu tcc sobre teses e dissertações na CI sobre Organização da Informação isso ficou muito claro pra mim: que há o reduto prático e o teórico. E os dois são essenciais para que a área cresça como um todo. Boa sorte no mestrado!

  6. Excelente seu depoimento. Adorei! Até porque me identifiquei muito em alguns pontos citados, principalmente no que diz respeito a habilidades desenvolvidas além das tradicionais…Mas que também se trabalha a informação (independentemente do suporte), com análise e foco na tomada de decisões dentro de qualquer organização…Neste momento, busco oportunidade de trabalhar e me desenvolver ainda mais nessas práticas …Parabéns e muito sucesso para você. Forte abraço. Nilza

    1. Obrigada Nilza! Acho que o segredo – que não é segredo nenhum – na verdade é começar do começo: trabalhar com o que aparecer primeiro, adquirir experiência e assim ir fazendo seu próprio caminho. Quem se interessa realmente pela área acha sempre um meio de desenvolver a si mesmo ao mesmo passo que consegue criar coisas novas.. E isso é incrível. Abraços!

  7. Também me considero um bibliotecário lato-sensu, não sei se me enquadro no perfil de pesquisador. Estou fazendo um curso à distância de Arquitetura de Informação para Bibliotecários e seu texto tem a ver com o que estamos estudando. Vou até compartilhar lá no grupo.

    1. Obrigada pelo compartilhamento, Beto. Fazer pesquisa é difícil, mas é muito recompensador não quando temos os resultados em mãos, mas quando conseguimos estabelecer uma comunicação de fato. Esse curso que você está fazendo de AI é no ExtraLibris né? Espero que seja! Aproveite ao máximo e tenha um bom curso!

  8. Muito bom, Dora, eu me identifiquei muito com seu texto. Já acompanhava seu blog e gosto muito do que você escreve.
    Eu vivo reescrevendo minha ‘bio’, exatamente por esse caráter fluído que vc menciona.
    Sempre digo que eu sou bibliotecária, é a essência de minha auto-referência.
    Esses dias eu escrevi que sou “Bibliotecária e Consultora de Inovação”, porque sim, é possível! É isso que eu faço da vida hoje em dia.
    🙂

    1. Obrigada Paula! O blog anda meio parado na verdade… Tenho escrito mais por aqui do que lá.. Isso porque aqui escrevo pouco também! Também sempre me identifico como bibliotecária em primeiro lugar.. E dentro da biblio tenho a minha especialidade, o que gosto mais de fazer. Acho que trabalhar com inovação é um mega desafio e admiro muito quem faz isso. Abraços!

  9. Quando eu decidi fazer o vestibular para biblioteconomia, sempre tinha o objetivo de me tornar um arquiteto da informação (isso em 1999/2000). 15 anos depois, eu não me arrependo. E percebo que a geração atual (nossa, me senti um velho agora! 🙂 ) tem essa visão mais clara sobre as possibilidades que a carreira em biblioteconomia pode oferecer dentro do campo da organização e gestão da informação. Como você disse, é necessário ter um perfil flexível e adaptável diante das mudanças e cenários que se transformam cada vez mais rápido.

    1. Oi Alê! Nossa… Quando eu fui fazer biblio eu só sabia uma coisa: que queria ser bibliotecária. O que viesse depois disso seria lucro. Nunca tive objetivo nem de fazer concurso, nem de trabalhar com AI, nem nada disso… Mas sempre me interessei – e muito – por organização da informação e comunicação. Ainda me considero meio lerdinha para lidar com as transformações rápidas, mas flexibilidade e adaptação pra mim são mais simples. Pra mim o desafio agora é pegar as coisas “no ar”.. Ahaha… Difícil! Beijos.

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