Ebooks e o desenvolvimento de coleções

Definitivamente, o maior impacto do ebook nas bibliotecas será sentido pelo desenvolvimento de coleções e tudo o que ele envolve: seleção, aquisição, desbaste, descarte, inventários, avaliação, e política de desenvolvimento.

O desenvolvimento de coleções foi moldado para o período de escassez de produtos de informação e de recursos para a aquisição. Porém, para um período de abundância informacional como o nosso e, consequentemente(?), de barateamento dessa informação, muitas de suas atividades ficam sem sentido. Talvez seja cedo para falar disso, mas precisamos começar a imaginar um futuro sem a preocupação com o desenvolvimento de coleções. Ou, talvez, com uma preocupação menor.

Seleção. selecionar livros é tarefa fundamental para qualquer bibliotecários. analisar todos os critérios possíveis e decidir comprar um livro em detrimento de outro, quantos exemplares, é uma das tarefas mais belas de uma biblioteca, pois isso é decidir que livro sua comunidade irá ler. Agora, imagine que no lugar de optar por um livro ou outro você possa ter os dois que você considera interessante para a biblioteca e vários outros menos interessantes(na sua opinião, é claro, nao na do usuário). É isso o que a amazon permite com o seu aluguel de livros e que, mais cedo ou mais tarde, as editoras farão o mesmo. Para que selecionar se se pode ter tudo?

Aquisição. Adquirir significa dizer “é meu””. Nada mais explícito de um período de escassez. no entanto, ja há um tempo que os livros nao são mais vistos como produto e sim como serviço. Serviços são acessados. A tendência é que as bibliotecas adquiram cada vez mais o acesso a bases de dados de livros, algo bem parecido com o que ja ocorre com os periódicos.

Desbaste e descarte. são atividades especificamente para o acervo físico. São atividades que daqui a alguns anos serão peça de museu. no máximo, haverá uma descontinuidade de serviço. Mas ninguém irá entrar no acervo para avaliar se um livro deve ir para o lixo ou para a restauração.

Inventário. Errei acima. nada representa melhor a escassez do que o inventário. que é verificar se os livros adquiridos estão no acervo. Vejo bibliotecas investirem alto em equipamentos de segurança e RFID para inventário. Seria melhor investirem em ebooks. Pois terão que investir de qualquer forma.

Política de desenvolvimento de coleções. uma vez que o livro é um serviço, a política deverá incluir aspectos sobre quais serviços adquirir. Quais aspectos devem ser levados em conta. E também quais critérios norteiam os leitores de ebook.

E para você, como será?

P.s.: Essas ideias foram discutidas com a Professora Geysa Flávia da UFPB. A quem agradeço.

8 pensamentos em “Ebooks e o desenvolvimento de coleções”

  1. Não sei se concordo com a noção de “preocupação menor”/”livre de preocupações” com o desenvolvimento de uma coleção eletrônica — eu sugiro “outra preocupação”, com problemas e desafios próprios e diferentes do “mas e vai ter espaço?”. Hoje, os modelos de negócio pra ebook são desastrosos, e isso aparece já na função de seleção: quem seleciona, o editor/fornecedor ou a biblioteca? O modelo de assinatura de ebooks é um “vai tudo o que o editor quiser”, o luxo e o lixo. Eu quero pagar pelo o que o meu usuário vai usar (ou o que eu acho que ele vá usar)! Ou, melhor: eu não quero pagar pelo o que eu sei/acho que meu usuário não vai usar. Ah… mas daí tem a aquisição. E a aquisição… é outra bela bomba: DRM, plataforma de acesso, prisão do equipamento da marca X ou Y, direitos de reprodução, fora o preço — por que livro eletrônico tem o mesmo preço de livro em papel, se o custo é irrisório (oi, logística pra tratar papel, transportar toneladas de capas-dura, etc)? E bem sabemos que o autor vê uma parcela ínfima do preço de capa. E sobre o descarte: eu vou poder passar meu arquivozinho digital pra um usuário no pegue-e-leve? Ou quando eu comprar “perpetuamente” (risos, vários risos) no contrato vai estar especificado que aquela cópia é para uso exclusivo pela biblioteca? Mas não é meu patrimônio? Eu faço o que eu quero com ele, pombas! Acho que a política de desenvolvimento de coleção de livros eletrônicos será um desafio porque será definitivamente política. E por “política” eu quero dizer que deverá ser discutida com fornecedores, com governo, com usuários, com quem libera a verba… E nesse aspecto bibliotecários (ao menos no Brasil) têm um histórico de perder.

    1. Concordo com o Fernando, e aproveito para registrar um ponto que me chamou atenção no texto “o desenvolvimento de coleções foi moldado para um período de escassez de produtos de informação…”? A literatura da área relata o contrário, foi a abundância de publicações que motivou o interesse no tema e o desenvolvimento de metodologias. Assim como na atualidade, penso que o profissional da informação sempre será importante como um defensor dos interesses de sua comunidade de usuários ou estarão todos entregues ao lobby das editoras. O posicionamento nosso como profissionais, a criticidade diante das propostas de venda ea definição clara de critérios são alguns dos pontos a serem observados. É a minha opinião.

  2. Oi, Rosana. Eu entendi o uso de “escassez” pelo viés da “escassez econômica”: um livro em papel serve à apenas um usuário por vezes (é reproduzível no xerox, mas o custo ainda é relativamente alto), enquanto um fluxo de bits do ebook é multiplicável infinitamente, sendo necessário apenas um computador — tantas pessoas vão usar o recurso e o custo disso é ínfimo. Se eu preciso decidir se vou comprar 1 exemplar a mais ou a menos de cada obra porque tenho problemas com custo/espaço/processamento, então eu estou do lado “escasso” da economia. Mas também não sei se esse foi o sentido que o autor quis dar ¯\_(?)_/¯

  3. Algumas questões abordadas que me assustou:
    Talvez seja cedo para falar disso, mas precisamos começar a imaginar um futuro sem a preocupação com o desenvolvimento de coleções. Ou, talvez, com uma preocupação menor.Isso é um absurdo. temos que repensar as politicas de desenvolvimento de coleçoes fundamentas em modelos de negocios baseadas na qualidade dos objetos para aquisiçao, ou seja, não basta comprar pacotes fechados, onde a grande maioria do itens são de baixa qualidade. Necessitamos, repensar o papel de selecionador de conteudos. Para tanto, devemos analisar questões de acesso e acessibilidade, Precisamos nos preocupar com as questóes de propriedade intelectual e diretos dos autores, intensificar a transmissibilidade de conteudos entre bibliotecas. Afinal, com os e-books o emprestimo entre bibliotecas está sendo descartado. Outra caracteristica importante é uma politica publica de gestão. Pq a mesma fonte (o governo) comprar livros para 50 bibliotecas distintas. Quando poderia realizar compra unica e disponibilizar o conteudo entre todas as bibliotecas públicas, por exemplo.
    Outras questões envolvem as caracteristicas de hardware e software, é fundamental que todos os acervos adquiridos rodem em qualquer tipo de suporte tecnologico, que permita,imprimir conteudos, elaborar rascunhos, realizar pesquisas textuais entre outras caracteriscas. Alem disso, é fundamental a padronizaçao dos metadados e sua transmissao ao sistemas das bibliotecas. Devemos repensar formas de doaçao por parte de autores, pensar na propria biblioteca como editora, nas possibilidade de impressao sob demanda e, por enquanto, na preservaçao dos dados e nas formas de proteção contra a obsolescência digital. Ainda, precisamos avaliar as questoes relacionadas com portabilidade, dos dados e, o que fazer com os livros adquiridos e que estarão desatualizados, como se dará o desbastamento e o descarte dos conteudos comprados (acesso perpetuo). Alguns pensamentos sobre assuto

  4. Legal demais os comentários. Mostra que há muito o que se discutir e debater. Rosana/Fernando, o desenvolvimento de coleções surgiu para solucionar problemas de escassez de recursos em geral. Não temos como comparar o volume de publicações de hoje com o volume de 3, 4 décadas atrás. Ainda mais que o desenvolvimento de coleções é voltado prioritariamente para recursos físicos, tangíveis. Como o Robson colocou, e eu concordo, há uma inquietação forte com o tema. E isso é bom. Precisamos continuar discutindo. Obrigado.

  5. O novo sempre assusta, porém, essa realidade do e-book já está bem avançada no Japão, EUA e Coréia do Sul, pilares da tecnologia e acesso a mesma. São questões profícuas, no que se refere acesso, que estarão nos próximos anos em voga na área biblioteconômica. Não há como retroceder, a forma de acesso mudou de forma vertiginosa nos últimos 5 anos, qualquer criança de 6 ou 7 anos acessa informação, seja por tablet, celular, etc. Simplificar o processo é o que cabe a classe, mais do que isso, criar mecanismos e instrumentos para democratizar o e-book pra que venha o barateamento do seu custo efetivo,não existe outro viés. Acreditar que a biblioteca tradicional vá permanecer intocada é fechar os olhos para realidade. O comodismo de se preocupar com políticas de aquisição e uso da forma linear, a qual está em vigor, deixou de ser a premissa e-book.

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