O que faz um bibliotecário “famoso”?

Me foi sugerida a tradução de um post da Jessamyn West, sobre como é ser uma bibliotecária famosa.  Não quero traduzir o post dela na íntegra, mas tentar fazer um post traduzindo e utilizando citações dela, fazendo meus comentários também.

Acho que já teve por aqui um post sobre O melhor bibliotecário que eu conheço, mas a Jessamyn esses dias estava questionando sobre a pessoa mais famosa em cada profissão quando se deu conta de que ela mesma era mais famosa na biblioteconomia nos Estados Unidos. Ela chegou a esta conclusão pois ela aparece nesta lista e também na lista recuperada pelo Google quando procuram pela palavra “librarian”, ou seja bibliotecário/a.

Ela inclusive criticou a definição de “bibliotecários” de acordo com o Google nessa imagem aqui que eu achei bem emblemática pra não traduzir:

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A lista de bibliotecários famosos não é tão longa assim e geralmente é feita de gente que fez coisas com livros em geral e pode ou não pode ter gastado boa parte da vida delas trabalhando em ou para bibliotecas. As pessoas que o Google acha que são bibliotecários em sua maioria tiveram outros trabalhos. Quando a pequena lista de pessoas famosas na sua área inclui Eratóstenes, você percebe que a biblioteconomia não é uma plataforma que apoia o que a maioria das pessoas entende por celebridade. Eu não sou reconhecida quando vou em bibliotecas aleatórias (geralmente) e não usaram meu nome pra batizar nenhuma biblioteca. No entanto eu participei de vários passeios nos bastidores de bibliotecas e vi vários porões incríveis. Você pode gastar sua fama de vários modos diferentes e este é o meu.

A Jessamyn também reconhece que outras coisas fizeram com que ela fosse “famosa” na área como estar na internet desde sempre (não só isso, como também acompanhar de fato as tendências), possuir o domínio librarian.net e também responder e-mails e atender telefonemas. Mas ela apontou uma coisa sobre a qual jamais parei pra pensar: que estamos num mundo onde findability (ou ainda “encontrabilidade”, ou recuperação pelas máquinas de busca) muitas vezes se equivalem à fama. Isso é bastante curioso pois uma pessoa pode ser famosa online e nem tanto na vida real ou o oposto disso. Ou ainda: pode ser famosa apenas em determinados nichos. Em se tratando de Internet, é difícil medir, acho, talvez quem saiba melhor responder isso é o Murakami que é das métricas.

Resumindo, a Jess considera biblioteconomia uma profissão clássica de nerds (e é mesmo, eu também concordo) e não vê nenhum problema em ser considerada “a rainha das nerds”, até acha graça e gosta disso. Mas ela acredita que boa parte de ser bem conhecida é porque ela de fato conhece muita gente, viaja bastante e frequenta muitas conferências de bibliotecários nos EUA. Mas ao mesmo tempo enfrentamos o mesmo problema: a biblioteconomia é uma profissão distribuída (tem no Brasil inteiro), então não existe um lugar específico em que se juntem todos os bibliotecários que não seja “online”. Então se você quiser conhecer colegas pessoalmente, você tem que viajar.

O que é difícil porque a maioria das pessoas que de fato trabalha em período integral em bibliotecas tem poucas oportunidades de viajar por conta de seu trabalho que não sejam as ocasionais conferências estaduais ou nacionais. E ainda assim, elas são as pessoas que estão fazendo o bom trabalho que pessoas como eu apenas falam sobre.

Mas convenhamos: a cultura de bibliotecas por lá é bem mais forte e a classe lá é bem mais unida que a daqui. Os bibliotecários lá não apenas defendem a profissão: eles são militantes. O senso de coletividade deles é muito forte. Ela ainda explica que além das conferências nacionais e estaduais anuais ainda existem encontros consistentes de: bibliotecários jurídicos, bibliotecários de música, bibliotecários públicos, bibliotecários cristãos, bibliotecários progressistas e todo esse pessoal tem seu próprio público e palestrantes. Acho que até hoje nunca vi (ou pelo menos não sei de) encontros de bibliotecários especializados no Brasil.

Eu tive trabalhos de meio período fazendo instrução em tecnologia, respondendo e-mails, escrevendo para publicações sobre biblioteconomia, cuidando de websites e dando palestras em conferências da área, o que significa que eu pude encontrar bibliotecários de todo o país. Eles me encontram mas mais importante que isso: eu os encontro. Saber o que importa para os meus colegas em todo o país me faz sentir que estou fazendo o nosso trabalho quando eu uso a minha mini-fama para ajudar a endereçar as preocupações da nossa profissão para as pessoas que não fazem parte dela.

É uma linda.

E aí ela chegou numa parte que eu vou traduzir na íntegra, simplesmente porque eu achei muito esclarecedor:

O que um bibliotecário famoso faz?

  • Aconselha

Pessoas entrando na profissão acreditando que ela pode ser divertida e criativa é muito mais interessante do que gente achando que é um trabalho limpo de escritório onde você pode ler o dia todo. A nova safra de bibliotecários é tão mais antenada e informada do que quando eu estava no curso de graduação. Vamos manter assim. Trazer gente boa pra área e mantê-las lá.

  • Colabora

Lutar contra o perpétuo problema de imagem por parte dos próprios bibliotecários. Trabalhar a moral e ao mesmo tempo trabalhar a mensagem que passamos. Promover bons trabalhos feitos pelos colegas e dizer “que ótimo trabalho” o quanto for possível. Pessoas te zoam pelo modo que você se veste? Ignore-as e força no coque. Use mesmo. [Traçando um paralelo daqui: As 10 Bibliotecárias Mais Gatas do Brasil | Bibliotecários Tatuados]

  • Traduz

Eu sou boa com tecnologia e em falar com o pessoal da área de tecnologia. Sou boa em entender o que uma biblioteca precisa em seu ambiente tecnológico. Eu geralmente traduzo as necessidades e preocupações de um grupo para o outro e vice-versa e sugiro modos para que esta comunicação seja mais clara no futuro.

  • Inova

Temos uma permissão para compartilhar e é um tempo maravilhosamente fértil para usar a tecnologia para fazer isso. Descobrir qual tecnologia se adapta bem aos propósitos da biblioteca (para uso dentro da biblioteca ou conectar bibliotecários fora da biblioteca) e começar a utilizá-las assim que são lançadas e contar novidades de como outras bibliotecas estão utilizando bem certa tecnologia.

  • Agita

Eu frequentemente relembro as pessoas de que servir todo o público é desafiador de verdade e complexo e que bibliotecas fazem um trabalho muito bom com isso, mesmo a despeito de um mundo cada vez mais privatizado. Reforma de copyright, uso justo, liberdade intelectual e a Library Bill of Rights permanecem como importantes fundações da nossa profissão. Conte aos outros sobre isso.

  • Defende

Pela diversidade e inclusão. Nossa profissão deveria refletir a diversidade de nosso público. Acesso a conteúdo e serviços deveriam ser o quão equitativos pudermos oferecer, para todas as pessoas, especialmente para as mais difíceis de servir. A divisão de empoderamento é real. As bibliotecas e seus apoiantes muitas vezes falam pelas pessoas que não podem ou não falam por si mesmas.

Essas não são bem atividades de alguém que você consideraria famoso. Não tem muito autógrafo não. Raramente apareço em roupas bonitas ou tenho minha foto tirada em público. Em última análise eu sou apenas uma parte de um sistema de pessoas e tecnologia bem amplo e interconectado que administram bibliotecas nesse país. E o nosso pessoal apenas é tão famoso quanto precisa pra fazer seu trabalho.

6 pensamentos em “O que faz um bibliotecário “famoso”?”

  1. Famoso tem a ver com “ser referencia. e inpiracao”. E o 1o passo nesta direcao, em qualquer profissao, passa por conjugar infinitamente menos os verbos na 1a pessoa do singular (eu, eu eu, eu) como tanto ouvimos e lemos nestes egoicos tempos. Como o BSF sempre destaca com muito louvor, uma “categoria” e composta por “nos todos”, os “famosos” e os nao famosos. Lembrando que preocupar-se em ser famoso ou nao, tambem e uma questao de ego mau resolvido, porque o que conta mesmo na vida profissional e a qualidade e o reconhecimento do trabalho que se entrega. Diria que isto traz a verdadeira “fama”, que eu prefiro chamar de “respeito”.

  2. Eu particularmente gosto como ela, meio que por curiosidade, meio que por instigação mesmo, mostra exatamente quais são os tais bibliotecários mais famosos do mundo e como quase nenhum é bibliotecário como única profissão.
    E seu cutuco sobre as conferências no Brasil foi sensacional :D. Fiquei muito afim de pensar em eventos para bibliotecários especializados aqui!
    Artigo lindo como a autora, como sempre =*!

    Ps: Ela comenta bem rápido sobre como o Google vê o bibliotecário e eu lembrei, meio fora do assunto na verdade,de um artigo que dizia que, ao contrário dos nossas maiores esperanças, não existem bibliotecários no Google, e, olha, está tudo bem: https://medium.com/message/googles-slow-fade-with-librarians-fddda838a0b7
    Ps2: artigo da mesma autora do texto aqui, só provando que tenho problemas =*

  3. Dora, durante o CBBD acontecem eventos paralelos de áreas específicas da biblioteconomia, como o Fórum de Bibliotecários Jurídicos.

  4. Dora, os colegas que atuam em empresas como eu, costumam participar de foruns específicos ao setor em que atuam. Os foruns/congressos de biblioteconomia pouco ou nada contemplam para nós.

    Então, o “custo x benefício” em participar dos fórums de biblioteconomia acaba não compensando para nós. Por exemplo, na semana passada aconteceu aqui em São Paulo, um fórum de “tendências de moda” pré SPFW São Paulo Fashion Week. Lá eu encontrei meus pares que atuam no setor de beleza/moda, em todo o país. E assim, acabamos compartilhando muito mais que somente “biblioteconomia”.

  5. Excelente post. Aqui já vi vários eventos de bibliotecários de áreas especializadas sim. Porém, nada que se compare a coletividade e militância americana como você bem ressaltou pois o que vigora ainda é a lei do Eu como disse a Yara.

  6. Na “Lei do Eu”, como bem disse a Dani, a “diversidade e bem vinda e sem fronteiras, desde que todos sejam iguais – a mim”

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