Guerra santa

No mar tanta tormenta, tanto dano
Tantas vezes a morte apercebida
Na terra tanta guerra, tanto engano
Tanta necessidade aborrecida
Onde pode acolher-se um fraco humano?
Onde terá segura a curta vida ?
Que este céu sereno não se arme
Contra um bicho da terra tão pequeno.
                         (Camões. Os Lusíadas)

Nome vagamente recordado de bolorentas aulas de história do passado, para mim apenas um português que serviu para que Camões escrevesse um poema sobre ele, Vasco da Gama é o personagem principal Guerra Santa: como as viagens de Vasco da Gama transformaram o mundo, de Nigel Cliff, lançado no Brasil pela Globo Livros. Da extensa pesquisa do autor surge uma figura surpreendente: um navegador corajoso, um líder militar competente e um assassino desprezível, capaz de massacrar um navio de pacíficos comerciantes muçulmanos pelo único motivo de carregarem mercadorias a serem pilhadas e, claro, serem muçulmanos.

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De fato, como adianta o título, o que estava em questão na viagem de Gama e outros navegadores portugueses não era apenas a imensa vantagem comercial que significava descobrir uma rota marítima para a Índia, mas exterminar os muçulmanos que encontrassem pela frente. Não bastava que os indianos vendessem as cobiçadas especiarias para os portugueses, o rei Manuel esperava que seus novos “amigos” proibissem os muçulmanos de fazer comércio e os expulsassem de suas terras.

Para Cliff, a guerra santa do rei português ainda repercute em nossos turbulentos dias atuais, com termo “cruzada” brotando com frequência das bocas de tanto de líderes islâmicos quanto de presidentes estadunidenses após o ataque ao World Trade Center.

 Não é preciso dizer – e ainda assim é preciso dizer – que as ações dos            terroristas são uma afronta à corrente principal do Islã. O que é dolorosamente claro é que muitas dessas proclamações [de líderes fundamentalistas islâmicos conclamando os fiéis à violência] são, em essência, reflexos da polêmica cristã nas décadas que precederam a Era dos Descobrimentos. Mais impressionante ainda é a forma preferida pela al-Qaeda de contra-atacar o Ocidente: perturbar seu comércio explodindo aviões e causando ‘uma hemorragia na indústria da aviação que é tão vital para o comércio e o transporte entre os Estados Unidos e a Europa’. Substitua navios por aviões e o oceano Índico pelo Atlântico e estamos de volta quinhentos anos atrás (p. 429-430).

Os melhores momentos do livro são as descrições das incrivelmente difíceis viagens marítimas, baseadas em depoimentos de infelizes cronistas da época, em embarcações frágeis nas quais os homens que o mar não comia morriam às pencas de fome, de sede e de escorbuto, um jeito horrível de morrer. E também as descrições dos primeiros contatos dos europeus com povos desconhecidos, que muitas vezes beiram o cômico, como a história dos portugueses pensando que os indianos eram cristãos, porque gritavam algo que soava como “Cristo, Cristo” e achando meio estranhos os santos de muitos braços nas “igrejas” nativas.

A tremenda arrogância eurocêntrica de Gama e sua turma é muito bem documentada. Não vou contar aqui para não chatear quem gosta de surpresas, mas o ilustre pirata quase botou tudo a perder ao cometer uma gafe inacreditável em seu contato com o primeiro governante indiano amistoso que o recebeu de braços abertos.

O texto de Cliff é fluente e isento de pedantismos, mas não chega a ser leve como esses livrinhos de jornalistas que recontam episódios históricos como se fossem uma coluna de fofocas sobre “celebridades”. É um livro para quem gosta de história e tem paciência para ler. Para acompanhar a leitura, sugiro a belíssima canção Tanta tormenta, do grupo Mawaca, que musicou trechos de Os Lusíadas em seu disco de mesmo nome. Bem, o disco todo vale a pena, escutem.

Sou bastante democrática em meu total desinteresse por religiões, ou seja, não me importo com nenhuma delas, mas depois que conheci a Andaluzia comecei a cultivar algum fascínio por essa incrível civilização que acabou destruída pelo fanatismo religioso. Para quem tem interesse pela temática dos choques entre cristãos e muçulmanos e gosta de romances históricos, tenho algumas sugestões que complementam a leitura de Guerra santa. Os livros de Tarik Ali, principalmente O livro de Saladino, sobre o general curdo que conquistou Jerusalém e ficou famoso por NÃO fazer o massacre que todos esperavam e Sombras da romanzeira, que conta uma pungente história dos últimos dias da Granada muçulmana, o último reino de El Andaluz a ser tomado pelos reis católicos. Este último não recomendo para quem não aguenta finais tristes.

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Sobre o mesmo período, li também Boabdil: tragédia del ultimo rey de Granada, de Magdalena Lasala e El manuscrito carmesí, de Antonio Gala, ambos sobre a tristíssima história do último sultão de Granada, um sujeito que não tinha o mínimo perfil para o cargo que foi forçado a assumir. E por último El Mozárabe, de Jesús Sánchez Adalid, que conta uma movimentada história de aventuras baseada em fatos verídicos e ambientada nos últimos tempos do califado de Córdoba, que produziu a bela mesquita cuja foto encabeça este post. Os livros de Ali saíram no Brasil pela Record, mas parece que estão esgotados. Os demais, todos de autores espanhóis, não me consta que tenham sido traduzidos. Mas deve ser possível encontrá-los por aí.

4 pensamentos em “Guerra santa”

  1. Crianças com smartphones e adultos com livros de colorir: este e o cenário social da informação no pais a ser estudado, discutido e planejado.

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