Qual é a finalidade do trabalho bibliotecário?

Durante meus cursos costumo oferecer uma apresentação introdutória contextualizando as mudanças em nossa área traçando uma paralelo com as transformações da economia industrial para a economia da experiência. Um dos objetivos é evidenciar que a miopia de marketing presente em alguns em discursos sobre atuação profissional podem ofuscar reais oportunidades de atuação.

economiadaexperiencia

Quando a formação do bibliotecário era específica para atuação em bibliotecas o marketing da área estava embutido na natureza de cada biblioteca. Ou seja, a finalidade da atuação profissional poderia ser compreendida relacionando o nosso código de ética (preservar o cunho liberal e humanista de sua profissão, fundamentado na liberdade da investigação científica e na dignidade da pessoa humana) que orienta nossas práticas a prestação de serviços para as pessoas, com os tipos de bibliotecas, que as direcionam para comunidades e necessidades pré-definidas. Ou seja, os livros, documentos e as técnicas eram meios utilizados para maximizar o acesso e prover experiências intelectuais positivas em cada tipo de biblioteca.

ofuturodabiblioteconomia

No entanto a partir fase da economia de serviços acompanhamos uma mudança da formação na área orientada para o problema da informação. Bibliotecários passaram também a denominar-se gestores de unidades de informação e/ou mediadores da informação. A miopia de marketing esta na perspectiva de que a informação é a finalidade da atuação profissional. O que não deveria ser pois a informação é um dos meios e não a finalidade da atuação em nossa área. Da mesma forma que os livros e documentos eram nossos meios nas bibliotecas tradicionais na fase pré-digital. Mesmo quando atuamos sobrecarregados de trabalho técnico em bibliotecas sem relação direta com os usuários, poderiamos cumprir nossa função de forma indireta, pois o marketing estava vinculado a experiência dos usuários no acesso aos tipos de serviços  intrínsecos ao tipo de cada biblioteca.

disseminacaodainformacao

Quando divulga-se que a finalidade da atuação profissional é disseminação da informação em qualquer suporte gera-se o grande problema de formação atualmente: a confusão entre meios e fins. Faz sentido enquanto pesquisador  (cientista da informação) tentar compreender como os fluxos da informação (meios) relacionam-se com a realidade. Mas não faz sentido para atuação profissional acreditar que precisamos disseminar a informação indiscriminadamente. Pois a nossa atuação profissional deve ser centrada em como melhor adequar nossos meios (recursos e serviços de informação) para os fins (pessoas). Com esta distinção entre meios e fins que também é possível diferenciar a responsabilidade de técnicos em biblioteconomia e bibliotecários. Os técnicos podem trabalhar exclusivamente com os meios, mas só os bibliotecários podem planejar novos serviços para converter os meios para os fins.

O discurso que vincula as oportunidades de atuação profissional apenas para os meios é o que costumo chamar de ideologia da informação (ideologia é um sistema de pensamento que não corresponde com a realidade). Um discurso muitas vezes proveniente da importação de tendências de outras áreas – como a de gestão  – tentando vislumbrar novas oportunidades de atuação em diferentes suportes. Um dos exemplos esta em práticas como a de Gestão da Informação e na relação entre Dado – Informação – Conhecimento superada em práticas de gestão mais emergentes. Devido a consumerização da tecnologia da informação  muitas práticas de gestão relacionadas a mediação da informação deram lugar a práticas ligadas a Gestão da Inovação e Colaboração. Ou seja, o que pode fazer sentido teórico durante uma pesquisa e revisão de literatura pode não fazer como objetivo da atuação profissional em um cenário de rupturas tecnológicas. 

Qual é a diferença entre um profissional da informação e um bibliotecário? Durante um período de tempo pude atuar com a aplicação de técnicas de organização da informação para o desenvolvimento de portais corporativos e de plataformas de e-commerce. Estava sendo bibliotecário? Não. Pois a atuação estava centrada nos meios para resolver problemas de processos corporativos. Lembram do código de ética com a liberdade de investigação científica? O que otimizar a recuperação de informação em um portal corporativo tem haver com desenvolvimento intelectual? Existe uma relação muito mais direta da aplicação de nossas técnicas para o desenvolvimento organizacional do que o  desenvolvimento humano e em algumas situações eles podem não ser compatíveis.

No entanto acredito na possibilidade de atualizar o sentido da formação profissional em biblioteconomia para o cenário econômico emergente. De que forma? Partindo do princípio de que as bibliotecas sempre foram parte da economia da experiência. Que tipo de experiência? Experiência Intelectual. Logo o objetivo da atuação profissional não tem relação com a disseminação da informação (meios) mas em prover uma experiência intelectual positiva (fins). É possível disseminar a informação com o uso adequado de técnicas da nossa área para organização e recuperação da informação, mas o valor do nosso trabalho só pode ser medido quando conectamos os meios com os fins. 

Planejar e prover serviços de informação orientados a experiência intelectual dos usuários em diferentes contextos.

Qual seria então a finalidade da atuação profissional do bibliotecário que faz mais sentido em qualquer suporte que tem relação direta com a experiência intelectual? Inteligência. A minha defesa é que o nosso objeto de atuação profissional é a inteligência, mesmo que  o de pesquisa continue sendo a informação. Sempre atuamos através das bibliotecas com alguma modalidade de Democratização da Inteligência. Tanto que o campo da Ciência da Informação surgiu com a expectativa de que técnicas oriundas da nossa área poderiam oferecer suporte aos setores de inteligência na área governamental. Um exemplo pode ser a criação de serviços de informação voltados para os distintos níveis de intelecto profissional ou em pesquisa.

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Compreendendo que a Democratização da Inteligência é a norteadora para o desenvolvimento de serviços de informação centrados nas pessoas existem pelo menos três linhas de atuação profissional possíveis: Curadoria Digital, Colaboração e Capacitação.

Curadoria Digital é o tema do meu próximo curso na ExtraLibris. Trata-se de uma forma de atualização da disciplina de Referência.

Estas três linhas são uma proposta para melhor relacionar nossos meios com os fins e são temas abordei profissionalmente na última década. Quem sabe, em uma próxima publicação para o BSF escreva com exemplos de práticas profissionais possíveis com cada uma das linhas.

NOTAS:

(1) Importante assistir a apresentação do Joseph Pine sobre a Economia da Experiência.

(2) O artigo original traduzido para português sobre a Miopia de Marketing do Theodore Levitt para a Harvard Business Review – jul/ago/1960 pode ser baixado neste link.

(3) Também vale a pena ler sobre a importância da criação de serviços de informação centrados nas pessoas em um cenário de abundância de informação  no artigo A “fadiga da carne”: reflexões sobre a vida da mente na Era da Abundância, publicado originalmente na EDUCAUSE Review, vol. 39, no. 2 (March/April 2004). Durante a leitura deste artigo na graduação que foi possível compreender que o foco da atuação em ambientes digitais não deveria ser direcionado para a criação de repositórios e bibliotecas digitais.

(4) O que escrevi no post é um direcionamento de um trabalho de pesquisa maior que envolve o cruzamento de diversas outras referências. Durante os meus cursos realizo uma apresentação com mais exemplos, referências e estudos de caso de práticas orientadas a democratização da inteligência que podemos realizar com nossas técnicas para organização e disseminação da informação.

6 pensamentos em “Qual é a finalidade do trabalho bibliotecário?”

  1. Excelente texto Caruso. Excelente surpresa ler voce aqui. Enfim novos ares, nova cabeca (a sua) novas ideias, novas visões, novo discurso – de fato – aderentes e correspondentes aos tempos que vivemos.

  2. Prezado Fabiano,

    Concordo em gênero, número e grau com sua tese. Sua compreensão a cerca da nossa atuação profissional me refrigera a alma. E mesmo que sejam considerações que passeiam mais pelas propostas comerciais e novos modelos de economia (pois não é meu foco de atuação, mas considero igualmente importante) é perfeitamente transversal para dialogarmos os equívocos conceituais da nossa área. Venho debatendo isso há anos com amigos e colegas. Com professores não, kkkk, geralmente é sacrilégio questionar cânones acadêmicos e confesso ter preguiça desse debate com a academia. Mas é necessário e ressignificações também passam pela universidade.

    Na minha atuação em bibliotecas escolares e públicas, esse aspecto da “experiência” sempre foi muito claro para mim. Como diria a professora Priscila Gonsales do Instituto Educadigital, “apenas o acesso não é suficiente”. E não pode ser. Atuar no universo das bibliotecas públicas e escolares significa criar experiências e cenários de ensino e aprendizagem. Como tu colocaste, “democratizar a inteligência”. E no sentido educacional mais moderno da palavra “mediação”, ela agrega o sentido de oportunizar a experiência intelectual que você defende. Experiências que promovam o desenvolvimento humano. A mediação inerte e burocrática do “meio” pelo “meio”, como tu afirmas (e eu concordo), precisa de proatividade, protagonismo educativo e pedagógico. E não apenas por se tratar de biblioteca escolar e pública, é transversal e imprescindível em qualquer área que lide com pessoas na ponta. O contexto de revolução tecnológica das TICs tem extinto ou quase isso, a necessidade de “intermediários” no acesso a informação. E com isso a pergunta que tu provocaste nunca fez tanto sentido: “O que otimizar a recuperação de informação em um portal corporativo tem haver com desenvolvimento intelectual?”. Qual é meu diferencial então?

    Guardadas as devidas diferenças de áreas de atuação do bibliotecário, entendo que o “descolamento” ou “apartamento” do componente pedagógico da mediação tem formado profissionais bibliotecários que se contentam em mostrar o livro na estante, ou apenas responder burocraticamente uma demanda de levantamento bibliográfico em um formulário. A falta de clareza dessa atuação pedagógica e educativa reforça o sentido da prática do meio pelo meio apenas. Pior que isso, essa prática ainda hoje é legitimada pela academia, por professores e pela literatura “científica” da nossa área. Ainda ontem conversa com um amigo que trabalha no setor de referência de uma grande universidade em Brasília e que, a partir de um questionamento elementar a cerca de uma prática de referência burocrática e impessoal realizada da mesma maneira há quase 30 anos, foi recentemente e praticamente extinta da noite para o dia. O mais incrível disso é que nenhuma reflexão sobre a ineficiência dessa prática tenha sido feita nos últimos 5 anos. É claro, a cultura institucional pode ser uma das explicações, mas estamos falando de cânones e práticas que foram cristalizadas e sacralizadas, debater o que é “santo” geralmente é um vespeiro que poucos querem mexer.

    Indo mais longe na reflexão e nos equívocos causados pelas essas distorções do nosso discurso profissional e acadêmico, gritamos aos quatro cantos da terra que somos os únicos profissionais qualificados para realizar essa mediação e criação de experiências educativas. Fazendo uma crítica fraterna a nossa área e sem entrar muito no mérito, pois o debate é longo, uma pesquisa recente da professora Bernadette Gatto (pesquisadora consagrada do campo da educação), fez um levantamento das ementas de todos os cursos de licenciatura no país. Uma das constatações é a de que apenas 10% de todos os cursos de licenciatura se dedicam ou se devotam ao estudo da didática. Ou seja, fala-se muito em ensino e aprendizagem, mas estuda-se muito pouco como ensinar. E se a situação dos cursos de licenciatura estão assim, o que dirá nossas ementas de biblioteconomia que sequer passam perto de práticas didático-pedagógicas para mediação? E juramos de pé junto que estamos qualificados para criar “experiências intelectuais” com as pessoas.

    Enfim, gosto da sua abordagem, ela dialoga com o que tenho praticado e acredito ser de fato o cerne da nossa atuação. Parabéns pelo texto e acompanharei com curiosidade sua atuação.

  3. Quando escolhi Biblioteconomia como minha segunda graduação já estava sintonizada na ideia de trabalhar com Inteligência. Parecia muito lógico que fosse esse o caminho e a frustração foi grande ao esbarrar no nível técnico e visão estagnada do curso. Feliz de ter encontrado mentes pensantes para trocar positivamente e construir parcerias frutíferas como a nossa na Personates. 😉

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