Morada das lembranças: como as bibliotecas podem ajudar imigrantes e refugiados

Morada das lembranças conta a história de uma família de refugiados de guerra, saídos da Europa e chegando ao Rio de Janeiro. A saga é narrada pela filha mais velha, ainda criança, uma daquelas tragédias de gente inocente vítima de guerras, fome ou distúrbios climáticos, que precisa largar tudo pra trás e encarar uma nova terra estranha e geralmente inóspita. O livro trata em paralelo das mulheres que ficaram conhecidas aqui como polacas, que saíam da miséria camponesa na Europa apenas para descobrir que nas Américas a dignidade humana ia muito abaixo daquilo que foi capaz de convencê-las a deixar seus países. É um relato duro de ler, mas talvez necessário, porque é uma das maneiras de nos colocarmos nos pés dessas pessoas e compreendermos o que se passa além dos nossos preconceitos. O livro valoriza também a ideia do resgate da memória oral, porque a maior parte dessas pessoas perdem suas línguas e vozes, deixadas nas cidades de origem, em certos casos optando por esquecê-la por completo, como uma necessidade de ajuste à nova vida, livre das dores do passado. É a neta, a segunda geração já nascida no Brasil que decide recontar a história da avó. Vale a leitura.

Em tempos de crise econômica, guerras e mudanças climáticas, as migrações (não confundir migrantes com refugiados) se intensificam, e considerando o Brasil como um dos países que mais atraem refugiados ou imigrantes, certamente este aspecto deve aparecer na agenda dos bibliotecários daqui, para agora e os próximos anos.

Os refugiados e imigrantes vêm com diversas formações e experiências, e ainda encontram uma miríade de desafios para se adaptarem às suas novas vidas. Existem muitas maneiras que uma biblioteca, de qualquer tipo, pode oferecer apoio aos indivíduos destas diferentes comunidades (étnicas, religiosas, etc.) com recursos e serviços que os ajudam a se adaptar ao novo país.

Algumas recomendações e materiais servem de referência, como o Manifesto da Biblioteca Multicultural da IFLA, e acredito que William Okubo seja a melhor pessoa para documentar e apresentar as experiências brasileiras no relacionamento com Haitianos, Bolivianos, Sírios, entre tantos outros potenciais usuários de bibliotecas públicas e universitárias. Então em vez de montar uma lista de atividades sugeridas que podem ser realizadas dentro de bibliotecas em apoio aos refiguados/migrantes, vou indicar alguns projetos de bibliotecas ou criados por bibliotecas em situações de crise, que servem de inspiração e exemplo para nós:

Ideas Box – Depois de ter construído dezenas de bibliotecas em tendas no Haiti, após o terremoto de 2010, o Bibliotecas Sem Fronteiras (Libraries Without Borders) passou a testar seu projeto Ideas Box no Burundi. Usando apenas duas caixas transportadoras e 20 minutos para montar, o box fornece o equivalente a uma biblioteca de uma pequena cidade. Ela vem com seus próprios livros, e-readers, tablets, laptops e ferramentas digitais, bem como acesso à internet e energia elétrica. A as caixas que contêm todos estes objetos transformam-se em cadeiras e mesas. Em abril deste ano o projeto chegou em campos de refugiados sírios na Jordânia.

Jungle Library – voluntários criaram uma biblioteca improvisada no acampamento de migrantes em Calais, norte da França, que as autoridades estimam abrigar pelo menos 3.000 refugiados, que fugiram da repressão e da guerra em países como a Eritreia, Afeganistão e Síria. Muitos querem chegar ao Reino Unido por causa das conexões familiares ou simplesmente melhores oportunidades. A professora britânica Mary Jones era uma dos voluntários que iniciou a biblioteca, e queria oferecer ajuda real, prática. “Muitas pessoas aqui são bem-educadas – eles querem entrar e querem livros que irão ajudá-los a ler e escrever Inglês, se candidatar a empregos, preencher formulários.” A biblioteca recebe doações e oferece livros, dicionários, textos, zines, etc- em qualquer e todas as línguas, inglês, francês, italiano, árabe, pashto, farsi, tigrinya, amárico e grego. A biblioteca também empresta potes, panelas, utensílios domésticos, coisas práticas como ferramentas para consertar bicicletas, jogos de cartas, jogos de tabuleiro e instrumentos musicais.

Resgate de livros na Síria – Entre tiros e destruição na cidade de Darayya, um grupo de jovens sírios conseguiu criar um lugar de refúgio – uma biblioteca. Depois que os moradores da cidade sitiada fugiram, esses estudantes resgataram livros de suas bibliotecas privadas abandonadas. Em alguns casos, os edifícios ainda estavam pegando fogo, por conta das bombas. Até agora eles já recolheu mais de 11.000 livros. Os jovens criaram um sistema de empréstimos e passam longos dias catalogando os livros, e por isso, se os proprietários voltarem depois da guerra, poderão tê-los de volta.

Enchentes no Myanmar – Localizada nas proximidades de cinco campos de refugiados que acomodam cerca de 1.500 pessoas deslocadas pelas inundações recentes, a biblioteca de Taikkyi tem desempenhado um papel-chave nos esforços de socorro. Equipada com tablets, um roteador móvel com conectividade, revistas, e os mais recentes jornais, a bibliotecária San Khaing monta sua moto e fez rondas para alcançar os membros da comunidade nos campos de refugiados. Lá, ela distribui materiais impressos e atividades organizadas com os tablets para as crianças, que ficaram presas nos campos durante semanas sem o mínimo de acompanhamento educacional.

Outra biblioteca, destruída no dilúvio, continuou a prestar serviços para as comunidades locais, principalmente através do uso de dispositivos móveis da biblioteca. A bibliotecária Ko Aung e seus colegas coorderam esforços de evacuação, ajudando as pessoas deslocadas a chegar a um dos 18 campos de refugiados da região. Ko também identificou aldeias afetadas e coordenou a distribuição de suprimentos para aldeias remotas e inacessíveis nas áreas rurais do país. Os bibliotecários passaram a transmitir informações de socorro para as autoridades, permitindo-lhes cobrir uma área maior e fornecer serviços de emergência para mais pessoas.

Bubisher – esta biblioteca móvel nasceu no acampamento para refugiados do Saara Ocidental, na Argélia, em 2008, e é agora parte de uma rede que trabalha com professores locais e organiza clubes do livro para crianças e adultos. Seu nome, Bubisher, refere-se a um pássaro do deserto cuja chegada traz boa sorte na tradição saariana.

3 pensamentos em “Morada das lembranças: como as bibliotecas podem ajudar imigrantes e refugiados”

  1. Gostei da indicação lembrei do livro “a Distância entre nós”, que também é um livro que mexe muito conosco. Que maravilha, saber que as Bibliotecas e os Bibliotecários fazem essa diferença.

  2. Muito me agrada em saber que, nós bibliotecários na função de cientistas e facilitadores da informação, estamos participando ativamente das questões sociais da atualidade, resgatando memórias para a construção do conhecimento herança para futuras gerações. Parabéns à todos facilitadores da informação.

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