Como eu faço para organizar um acervo de DVDs?

Trabalhando há mais de 30 anos numa biblioteca com acervo de documentos audiovisuais, já respondi alegremente a essa pergunta incontáveis vezes, só que antigamente me perguntavam sobre acervos de vídeos. Antes de começar a longa e maçante resposta ou de convidar o colega para me fazer uma visitinha, costumo perguntar:

DVDs do quê? Filmes?

Sim, porque faz toda a diferença. DVD é apenas o suporte no qual podem ser gravados filmes, fotos, textos, partituras, música, o diabo. E o suporte é o menor dos problemas de quem precisa organizar filmes, fotos ou diabos.

Mas o DVD não está acabando? Sim, mas isso é outra história. Além do mais, em bibliotecas as coisas costumam demorar mais tanto para chegar quanto para acabar.

Enfim, para organizar um acervo de filmes em DVD, vídeo ou mesmo película, primeiro é precisa saber por quem e para que esse acervo vai ser usado. Uma coleção de filmes de ficção montada para entreter público geral numa biblioteca pública provavelmente não será tratada da mesma forma que vídeos de cirurgias num escola de medicina. O mesmo vale para qualquer outro tipo de acervo, mas penso, sem ter como provar, que vale intensamente mais para acervos audiovisuais.

Em segundo lugar, é necessário ter gravado na mente em letras de fogo que um filme não é um livro, portanto não deve ser tratado como se o fosse.

Que dados eu devo colocar na catalogação?

Uma das dúvidas mais frequentes é sobre catalogação, essa eterna praga. Um jeito simples de começar é pensar no que nós mesmos queremos saber quando escolhemos um filme para assistir. Esquecer um pouquinho os manuais de catalogação e examinar boas bases de dados como a Internet Movie Database (IMDB), catálogos de mostras de cinema, dicionários e sites oficiais de filmes e outras fontes de informação especializadas.

Pensem em trabalhar, no mínimo, com as seguintes informações:

Título original
Título no Brasil
País de produção
Empresa ou instituição produtora
Ano de produção
Equipe realizadora
Idioma dos diálogos (explicitando se originais ou dublados) e das legendas
Descrição física: duração, suporte, cromia etc.
Resumo
Assunto
Gênero

A partir daí, melhorem ou simplifiquem a coisa, equilibrando o que o usuário precisa (ideal) e que vocês conseguem efetivamente dar conta de fazer (dura realidade), não esquecendo dessas dicas básicas aí na sequência.

Informação importante pro usuário tem que ser dada, mesmo que não apareça naquela edição de DVD que vocês estão catalogando. Pesquisem. Esqueçam a velha besteira de “catalogar o item em mãos” e lembrem que existe uma obra cinematográfica registrada nesse suporte. Essa dica vale muito especialmente para títulos de filmes, data e país de produção.

A equipe realizadora de um longa comercial pode ser uma verdadeira multidão com funções nem sempre inteligíveis. É preciso selecionar com cuidado quem vai ser mencionado na catalogação. Analisar os nomes em destaque na capa do DVD ou registrar os primeiros que aparecem nos créditos nem sempre funciona, porque a capa foi feita para vender, não para informar, e os créditos nem sempre seguem a ordem de importância do sujeito na produção. Nada de transcrever literalmente parte dos créditos em seu idioma original e sem saber o que significa “casting”, “production design” ou “second unit diretor” e qual é o grau de responsabilidade desses indivíduos no resultado final da coisa. Fazer isso não é informar seu usuário, é se livrar de um problema de catalogação seguindo uma regra furada. Não tem jeito, precisa entender um pouco a linguagem do documento tratado.

Minha sugestão, que geralmente funciona para filmes de cinema, mas não necessariamente para óperas, videoarte ou telenovelas: Direção, Produção; Produção executiva; Direção de produção; Roteiro; Argumento; Fotografia ou Cinematografia; Montagem ou Edição; Som; Desenho de produção; Figurinos; Cenografia; Animação; Música; Câmera; Efeitos especiais.

Quem precisar ser mais detalhista, porque atende usuários exigentes, pode registrar a tropa toda. Caso contrário, o que está em negrito deve bastar.

Quem usa formato MARC pode botar o diretor e mais um ou dois nomes da área de responsabilidade, para não poluir visualmente o registro. Os demais podem ser registrados no campo 700 (se for visível para o usuário e permitir a indicação da função do indivíduo) ou no campo 508 (Notas de créditos). Solução ruinzinha, mas o que dá para esperar do Querido MARC? Bom mesmo seria ter um campo indexado para a equipe realizadora ou poder definir um campo para cada função importante. Exagero? Bem, vejam  o que faz a IMDB, por exemplo. À propósito, quem quiser ter uma boa experiência de catalogação de filmes, experimente inserir um registro lá.

Resumo bom é aquele feito por alguém que assistiu ao filme todo, ou seja, se puder faça você mesmo. Se não for possível, tente ao menos checar minimamente o conteúdo do filme para ver se resumo copiado não contém bobagens ou erros. O resumo de um filme atualmente em cartaz na cidade de São Paulo, publicado na programação de um órgão de imprensa, diz o seguinte:

Enquanto Kate e Geoff organizam a festa de aniversário que deve celebrar os 45 anos do casamento deles, uma carta anuncia que o corpo do primeiro grande amor de Kate foi encontrado congelado nos Alpes suíços.

Só que o corpo encontrado é o do grande amor do marido, não da Kate e o erro besta poderia ser evitado simplesmente assistindo a um trailer de dois minutos.

Filmes, em geral, são sobre alguma coisa, portanto são passíveis de indexação por assunto. Não se pode ter medo de atribuir descritores de assuntos a obras de arte intimidadoras como Terra em transe, por exemplo, por mais que pareça difícil. E não vale usar o velho truque bibliotecário de sair pela tangente indexando obras de ficção pela forma, mais termos geográficos e cronológicos. Maldição eterna aos que ousarem indexar o citado Terra em transe como “Cinema – Brasil – Século 20”. Que o seu exemplar do AACR2 entre em combustão espontânea feito um filme de nitrato!

O gênero é uma das formas de busca mais populares para filmes de ficção, mas os intrépidos indexadores de filmes precisam estar muito conscientes do abacaxi que têm em mãos, pelos seguintes motivos: as listas de gêneros que rodam por aí são bem ruins e contêm termos vagos e difíceis de definir; nem todo filme tem gênero, enquanto outros se encaixam facilmente em mais de um; as distribuidoras de filmes em DVD ou sites de filmes atribuem gêneros por critérios comerciais que nem sempre podem ser levados a sério; embora a ideia de gênero muitas vezes se misture um pouco com a de assunto nas listas de gêneros (Guerra, Crime etc), não podemos esquecer que, para efeitos de indexação, são coisas diferentes.

E como classificar o acervo?

Se você quiser que seu usuário tenha acesso direto ao acervo, ou pelo menos aos estojos, classifique da forma que for mais prática e viável, não esquecendo que nenhum esquema de classificação existente há 200 anos vai funcionar muito bem, e aquele que você inventar também não.

Vejam o exemplo simpático de organização da biblioteca Méjanes, em Aix-en-Provence:

DSCN8564 (800x600)

DSCN8562 - Copia (800x625)

DSCN8561 - Copia (800x600)

Se a coleção, por razões de conservação ou falta de espaço for de acesso fechado, um sistema qualquer de numeração sequencial será a melhor opção.

Acervo de DVDs da Biblioteca da ECA
Acervo de DVDs da Biblioteca da ECA

Empresto os originais, faço uma cópia para circulação ou não empresto?

Depende. O custo – e o o consumo de espaço – de duplicar sistematicamente um acervo só se justifica se forem materiais raros ou muito difíceis de substituir, ou exemplares únicos produzidos na própria instituição. É precisa estabelecer uma política para isso, incluindo quando comprar mais de um exemplar, quais itens copiar, quais manter restritos ao uso local etc. A legislação brasileira de direitos autorais não permite a realização de cópias, portanto, um pouco de cuidado com isso.

Emprestar DVDs é um ótimo serviço para se oferecer aos usuários e, em nome disso, neuroses em relação à conservação do material precisam ser deixadas de lado. DVDs riscam facilmente, e quem administra o acervo precisa saber conviver com inevitáveis perdas por desgaste natural e consequentes despesas com reposição. Campanhas educativas de usuários e um bom monitoramento da circulação do material, incluindo examinar os disquinhos na entrada e na saída, ajudam bastante. Recomendo o uso de estojos com luvas para evitar a quebra do miolo central dos DVDs provocada pelo sistema assassino de encaixe dos estojos comuns, mas não sei se ainda é possível encontrar fornecedores para esse tipo de material.

No meu blog sobre documentação audiovisual e no Manual de catalogação de filmes da Biblioteca da ECA há mais informações sobre “o que fazer” com um acervo de filmes. Também tenho apresentações sobre o tema:

Catalogação de filmes

Indexação e resumo

No mais, estou disponível para trocar ideias, me escrevam ou me liguem na Biblioteca da ECA/USP.

 

imagem destacada: acervo de DVDs da Openbare Bibliotheek Amsterdam.

18 pensamentos em “Como eu faço para organizar um acervo de DVDs?”

  1. Parabéns pelo seu trabalho.
    Sou Bibliotecária e amo acervos especiais. Trabalhei por mais de 8 anos com o ator falecido José Wilker; que tinha um acervo maravilhoso; que tive que fazer adaptações ao gosto dele. Obrigada Mirza

  2. Adorei!! Aprendi um monte!! Voce me sugeri algum programa de gerenciamento para biblioteca escolar? Obrigada, Dayse

    1. Oi Marina. Boa tarde. A empresa PRIMA (prima.com.br) tem um software especifico para bibliotecas escolares – o Philos. Dê uma olhadinha. A PRIMA é a empresa que comercializa o software Sophia.

      Abs.
      José Maria

  3. Oi, Marina!
    Tudo bem?
    Coordeno quatro bibliotecas de um colégio particular em Guarulhos e estávamos buscando informações a respeito da organização de acervo de DVDs quando achamos seu texto. Encontramos informações riquíssimas, porém ainda não conseguimos sanar nossa dúvida… O acervo do colégio está organizado com a CDD e precisamos de alguma orientação para saber como essa classificação funciona em casos de DVDs. Pode nos ajudar?
    Obrigada!
    Marina

    1. Seu eu puder, claro! Não usamos CDD para o acervo de DVDs na ECA, onde trabalho. Mas há bibliotecas que usam. Provavelmente será necessário fazer algum tipo de adaptação. Imagino que, no caso dos documentários, não haja grandes problemas, mas para os filmes de ficção talvez você precise trabalhar de outra forma. Ligue para mim na ECA, fone (11)3091.4071 pra gente conversar.

  4. Vc teria algo para catalogacao de musicas digitais?? Estou meio enrolado tentando automatizar esse processo pq fazer na mao vai ser algo meio sem nocao. Eu penso em aproveitar o conteudo disponivel por exemplo na Amazon para cada composicao e fazer atraves desses dados. O que acha? Vc possui algo? ou tem alguma ideia?

    1. Não tenho experiência com tratamento de música digital mas imagino que o mais importante é saber como tratar o documento musical em si, independentemente do suporte. Se vc souber quais são as informações necessárias para o tratamento de músicas, vc já tem mais de meio caminho andado. Escrevi um pequeno texto no meu blog pessoal explicando a metodologia que usamos na Biblioteca da ECA para organização do acervo de discos.
      https://imagemfalada.wordpress.com/2012/06/28/organizacao-de-discos-uma-experiencia/
      Recomendo tb o trabalho de conclusão de curso de um aluno da ECA sobre esse assunto. Já tem alguns anos, mas creio que ainda é válido.
      http://www3.eca.usp.br/sites/default/files/form/biblioteca/acervo/textos/tc2734-rossato.pdf
      Aproveitar a informações da Amazon ou de qualquer outra fonte é ótimo, mas é preciso sempre lançar um olhar crítico sobre a fonte, principalmente se forem sites criados para vender produtos (porque sempre vão obedecer a critérios comerciais). Veja se os títulos estão completos, se não misturam autores e intérpretes, se as informações sobre música brasileira não estão erradas ou malucas… Essas coisas básicas.

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