Três anos de referência

Em três anos trabalhando na referência da Biblioteca da Escola de Comunicações e Artes da USP, além de confirmar que atender ao público é um dos trabalhos mais legais que uma bibliotecária velha e desiludida pode fazer, observei algumas outras coisas nem tão alegres.

Bibliotecas atraem quantidades surpreendentes de pessoas malucas, para usar um termo técnico. Isso eu já esperava, porque sou maluca e gosto de bibliotecas, mas eu não sabia que a gente só percebe a maluquice de alguns usuários depois de uns três anos de convivência. É assim, o indivíduo vem todos os dias à biblioteca, não fala com ninguém, não diz nem bom dia. Só fica lá, quietinho, lendo eternamente um livro de culinária que ele mesmo trouxe, até que um belo dia resolve denunciar que o controle eletrônico da saída está falando com ele, dizendo coisas como “reúna um exército e liberte a França”. Essas máquinas são traiçoeiras, vocês sabem.

Mas não é sobre as peculiaridades desse público colateral que eu quero escrever hoje, mas sobre meus usuários principais, os alunos da Universidade. Aquele pessoal que recebeu na infância proteína suficiente, frequentou escolas minimamente adequadas e conseguiu passar em vestibulares e processos seletivos altamente excludentes. É entre eles que eu identifico, com frequência suficiente para chamar minha atenção, as seguintes façanhas:

  • chegar ao final da graduação sem nunca ter entrado na biblioteca;
  • ingressar no doutorado sem saber encontrar um livro no acervo ou usar o catálogo;
  • não conseguir encontrar um documento de seu interesse buscando pelo Google. Sim, é isso mesmo que vocês leram, há jovens universitários que não conseguem fazer isso;
  • ser capaz de localizar o número de classificação na estante, ficar perplexo ao encontrar um monte de livros com o mesmo número e não cogitar que as letras e números que vem depois devem estar dispostos em algum tipo de ordem;
  • terminar a dissertação sem ao menos se dar conta de que há outras fontes disponíveis para localizar informações, além do acervo pessoal de seu orientador e do Google (nem sempre acadêmico);
  • escandalizar-se quando a bibliotecária avisa que não se deve botar na lista de referências da TESE documentos que não foram citados no texto (“mas eu fiz isso no mestrado e ninguém me falou nada”);
  • descobrir, lá pelo meio da graduação, que a biblioteca não se resume à estante da reserva didática dos professores, aquela que tem menos de uma centena de livros e fica perto da porta de entrada;
  • surpreender-se ao ver que o texto deixado pelo professor na copiadora saiu de um livro que está na biblioteca e pode ser emprestado inteirinho e de graça;
  • vagar entre as estantes sem saber que existe um mecanismo chamado “catálogo” que permite descobrir se o livro desejado existe e se está emprestado ou não;
  • usar o catálogo regularmente e não se dar conta da existência de recursos básicos para ajudar na recuperação, como busca em campos específicos, filtros etc;
  • perguntar aflitamente no Facebook por um texto que não apenas está na biblioteca mas também disponível na web, de graça e mais fácil de encontrar do que digitar o vocábulo “migues”.

Essas situações acontecem na escola onde trabalho, mas tenho razões para acreditar que nas demais unidades da USP não é muito diferente. E estamos falando, senhoras e senhores, de uma instituição de ensino tradicionalíssima, onde ninguém jamais ousou dizer em voz alta que as bibliotecas não são importantes no processo de aprendizado e no desenvolvimento da pesquisa. Onde gente que não sabe onde fica a sua biblioteca bate no peito bradando que nada é mais importante do que uma biblioteca. E onde a Pró-Reitoria de Graduação, tentando ser simpática, publica uma relação de 13 motivos para os alunos ficarem felizes com o fim das férias (provocando hilaridade geral no corpo discente) e não menciona a existência de bibliotecas (provocando um educado comentário do Sistema Integrado de Bibliotecas).

E aí esta bibliotecária velha pergunta pra uma mocinha que passou toda a graduação dentro da biblioteca como é possível que tanta gente estude sem nem passar pela porta e obtém essa resposta singela: “não é possível. Eles não estudam”. Certo. Mas se formam e entram na pós-graduação.

E por que isso ocorre? Respostas simplistas do tipo “as bibliotecas são ruins” ou “os alunos são preguiçosos e os professores indiferentes” não me convencem, primeiro porque não são exatamente verdadeiras, segundo são sintomas, não causas. Parece-me que estamos presos num sistema perverso dimensionado para dificultar o desenvolvimento das bibliotecas, por meio de barreiras impostas pela legislação e incompetência gerencial crônica em vários níveis, que acaba por favorecer o comodismo acadêmico. E que existe há anos, bem antes de existir internet, portanto não venham culpar a tecnologia. Como o sistema garante que ninguém tenha muito tempo pra nada, inclusive para tarefas prioritárias como ensinar, estudar e pesquisar, é muito mais fácil pra todo mundo criar atalhos para evitar que o aluno precise ir à biblioteca.

O lado bom é que “minha” biblioteca não está vazia, muito pelo contrário. Às vezes me pergunto como vamos dar conta de atender todas as pessoas que começam a responder aos nossos chamados. Os jovens professores começam a levar seus alunos para aprenderem a usar os recursos da biblioteca ou estimulá-los a participar de visitas monitoradas e treinamentos.

Fico contente, mas ainda não sei muito bem o que pensar disso. Pode ser apenas uma fase boa que vai durar até que esses docentes animados sejam engolidos pelo sistemão. Ou talvez seja o início de uma reação ao processo de queda de frequência às bibliotecas, cujos efeitos se fazem sentir há algum tempo.

De qualquer forma, continuo curtindo demais encontrar aluninhos perdidos na biblioteca e descobrir que,  quando alguém lhes explica como funciona a coisa toda, eles acham tudo “da hora”.

19 pensamentos em “Três anos de referência”

  1. Repensar o papel das bibliotecas nas universidades, compreender as variações e a dinâmica da sociedade, dos indivíduos pela busca do conhecimento e como o sistema de formação de graduação e pós-graduação se apropria dessa dinâmica certamente ajudaria a entender, ou ao menos, começar a discutir essas questões.

  2. Marina Macambyra gosto muito das tuas crónicas. Texto muito bem escrito, com ironia e verdade. Também em Portugal, muitos dos problemas que apontas são o pão nosso de cada dia.

  3. me reconheço em todos os teus pontos, o perfil aqui é bem parecido. uma iniciativa que ajudaria bastante seria ter uma aula de metodologia (um semestre inteiro quem sabe, mas uma única aula ajudaria) para os calouros, como parte integrante do currículo. isso para todos os cursos de graduação e pós. mas essa decisão precisa vir de cima pra baixo, porque se não for obrigado ou não tiver certificado, a mobilização é nula. a gente só penetra em um outro professor parceiro ou um ou outro aluno motivado. o outro problema que enxergo aqui é que existe uma má vontade em “tratar o usuário como babá”, quando na verdade muitos dos equívocos deles são resultantes do próximo sistema (o catálogo, em suma). se a gente responde as mesmas perguntas, consecutivamente, durante anos, ao ponto se encher de tanto respondê-las, então talvez o problema seja nosso. minha biblioteca também continua batendo recordes de visitação, mas o volume de empréstimos se mantêm. ou seja, a disputa é pelo espaço físico, e nisso também, a gente caminhou pouco em termos do que uma biblioteca construída na década de 1960/70 tem a oferecer ao usuário de 2016. de resto, escreve mais uns 3 posts desse e já dá pra organizar o livro de causos e acasos

  4. Na biblioteca onde trabalho conseguimos, há 3 ou 4 anos, o grande avanço de conseguir alguns professores parceiros. Primeiro, o de metodologia que nos cede anualmente 4 a 6 aulas com a turma do primeiro ano em direito para apresentarmos os serviços que a biblioteca oferece, as principais fontes de informação e algumas orientações para normalização de trabalhos e uso de gerenciadores bibliográficos. No terceiro ano do curso, um segundo professor parceiro de Direito Financeiro, abre as portas da sala de aula e nos oferece duas aulas para reforçarmos o uso das fontes de informação que ele mesmo considera essenciais para o desempenho dos seus alunos na disciplina. A luta agora é para conseguir um espaço com o 4º ano, momento em que eles estão desenvolvendo seus projetos. Nessa fase queremos reforçar como realizar um levantamento bibliográfico para a pesquisa, como avaliar as fontes e como fazer um projeto de pesquisa. No dia a dia das atividades na biblioteca, nós percebemos que esse aluno tem um diferencial. Ele sabe qual ajuda procurar e em qual momento, não vem totalmente despreparado. Há muito ainda para ser feito, mas, conseguimos evoluir um pouco.

  5. muito bom….gostei.
    obg.
    eu me revejo em muitas situações identicas, já sou uma tecnica de biblioteca cota…e na minha bib especializada (de hospital)acontece do mesmo…

    abraços e continuação de bom trabalho.

  6. Paula, a parceria com os professores é fundamental e funciona bem. Aos poucos estamos conseguindo isso na ECA, mas temos muitos cursos e é difícil uma disciplina que atinja um grande número de alunos. Mas a luta continua, não? Ou devo dizer “a luta é contínua”?

  7. Acho lastimável alguém concluir um curso de graduação e desconhecer os recursos que atualmente as bibliotecas disponibilizam aos usuários!
    Tenho que concordar com a lista de façanhas elencada. Infelizmente é a pura verdade e revela que, também infelizmente, a pesquisa é feita de forma superficial: TCCs embasados apenas na bibliografia básica do curso, mestrado e doutorado sem uma boa revisão bibliográfica, projetos de pesquisa chinfrin. Mas alto lá, Ignácio! O usuário (graduando, mestrando, doutorando) é o único culpado dessa situação? Não! Quem é que permite que alunos depois de 4 anos em boas instituições de ensino superior sejam ´fuçadores´ de bibliotecas tão medíocres (quando muito)? Seus orientadores e o próprio sistema de ensino.

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