Uma bruxa chamada Caterina

Quando o homem muito magro entrou pela primeira vez na biblioteca, ninguém prestou muita atenção. A magreza exagerada e o aspecto cinzento do homem foram devidamente criticados em discretos cochichos, logo encerrados por um veredito do funcionário mais velho da equipe, “deve estar doente, coitado”.

O homem muito magro fez as perguntas de praxe que fazem os usuários novatos ou pouco familiarizados com o mundo das bibliotecas e só. Mas depois de 3 dias de consultas febris ao acervo e catálogos, um detalhe saboroso chamou a atenção do pessoal que guardava material: os livros e revistas consultados pelo homem eram quase todos ligados a assuntos sombrios como ocultismo, magia, bruxaria, artes divinatórias e outros babados do mundo sobrenatural. Até o Malleus Maleficarum foi encontrado na mesa usada pelo possível doente, para irritação da Lúcia, militante feminista bem informada e a única na equipe que sabia do que tratava aquele manual.

Capricho 43

Aí o pessoal resolveu comentar com a chefia, a bibliotecária Ilana, mesmo correndo o risco de levar bronca por preconceito com pessoas diferentes, por julgar o outro pelo aspecto físico etc. “Se nós fôssemos avaliados pelos mesmos critérios que vocês usam para reclamar dos usuários estaríamos todos desempregados, porque aqui todo mundo é muito bizarro”, era o discurso habitual nessas situações. Lúcia foi a porta-voz, deixando claro que não estavam pegando no pé do coitado, apenas queriam deixá-la avisada sobre Potenciais Problemas com Malucos. Era o famoso alerta PPcM, uma brincadeira que eles haviam inventado depois que descobriram um doido de pedra comendo um dicionário de sinônimos e antônimos, uma página por dia.

Sim, Ilana já havia reparado no Homem Muito Magro e na aflição expressa nos gestos dele. E no olhar incerto que ele lhe lançava em alguns momentos, um olhar que ela conhecia muito bem, um olhar com vontade de pedir ajuda, mas com medo ou vergonha demais para se arriscar. Ilana sentia culpa por ignorar esses olhares, mas como estava ocupada demais com usuários que conseguiam verbalizar suas questões e angústias, deixava para depois. A preocupação do pessoal a fez decidir tomar uma atitude, antes que começasse o zum-zum-zum e os bicos que normalmente se seguiam aos relatórios para a chefia. Usou seu procedimento não invasivo padrão, lançar um olhar firme-porém-simpático, um sorriso caloroso e um direto “tudo bem aí com o senhor? ”. O Homem Muito Magro assustou-se um pouco, como tantos usuários que não esperam simpatia, respondeu com um vacilante “tudo bem” e voltou a esquadrinhar as estantes esotéricas. Depois de alguns vinte minutos criou coragem e se aproximou da mesa da bibliotecária.

– Moça, estou procurando uma coisa, uma informação importante, mas estou tendo dificuldades. Será que você, a senhora, poderia me ajudar?
– Claro, me chame de você. O que está procurando?

Aparentando alguma dificuldade para emitir a voz, o Homem Muito Magro engoliu em seco, suspirou e soltou:

– Preciso encontrar uma bruxa chamada Caterina.

O sorriso solícito da bibliotecária congelou ligeiramente. O homem sentiu a mudança e começou a se explicar, num discurso angustiado, mas sem qualquer sinal de incoerência ou delírio. Paciente de câncer há alguns meses, recebera dias atrás o desengano final do médico. O tumor ignorou tanto a quimioterapia quanto as preces da família, e estava prestes a derrotar completamente seu portador. O Homem Muito Magro saiu desnorteado do consultório, praticamente decidido a buscar formas de abreviar o próprio sofrimento. Seu fim, avisou o médico, não seria bonito. Naquele momento, sentiu uns dedos ossudos segurarem seu braço com força. “Procure uma bruxa chamada Caterina”, sussurrou a mulher de cabelos compridos e olhos avermelhados.

– Do que a senhora está falando?
– Eu disse uma bruxa chamada Caterina. Só ela pode te curar.

O Homem ficou sem ação enquanto a mulher sumia no meio da multidão que deixava o hospital. Naquele momento, o choque da notícia e a surpresa com a abordagem da desconhecida não o deixou raciocinar direito. Mais tarde, aquelas palavras começaram a martelar em sua cabeça “uma bruxa chamada Caterina pode te curar”. E se fosse sua última chance? Por que não arriscar? Voltou ao hospital, perguntou em vão pela mulher que conseguia descrever apenas vagamente. Uma funcionária simpática mostrou fotos de várias enfermeiras, médicas e outras trabalhadoras do hospital, suas amigas de redes sociais, mas nenhuma se parecia nem de longe com a mulher dos olhos vermelhos. A moça disse que iria assuntar no pronto socorro da oftalmologia, se ela estava com os olhos irritados talvez fosse uma paciente. Anotou seu telefone para avisar se descobrisse alguma coisa. Nada.

Então ele resolveu procurar. Seu filho mais velho frequentava a biblioteca e sempre achava coisas tão interessantes, que pareciam tão impossíveis de encontrar, de repente não custava tentar. O que mais ele poderia fazer, já que nem a internet não ajudou muito? Quem sabe aprendendo um pouco sobre bruxaria, assunto que nunca foi de seu interesse, ele conseguiria encontrar alguma pista. O Homem Muito Magro queria viver, pelo menos mais alguns anos, só para ver os três filhos crescidos.

A bibliotecária nem tentou disfarçar a comoção. Deu uns tapinhas solidários na mão do Homem Muito Magro e disse “eu não acredito em bruxas, mas vamos tentar encontrar essa aí”. E Ilana tentou mesmo, com afinco e sem nenhum constrangimento, de todas as formas que sabia procurar informações e mais algumas que improvisou na hora. Procurando artigos sobre curandeirismo, encontrou uma tese sobre o assunto com transcrições de entrevistas com vários curandeiros, mas ninguém chamado Caterina (ou Catarina, ou Katerina, ou Ekaterina). Achou o blog pessoal de uma delas, uma pilantragem total com várias dicas de receitas milagrosas, mas nenhuma referência que pudesse ser útil. Mandou e-mail para o autor da tese, perguntando onde poderia encontrar mais informações e pessoas decentes que praticassem curas, sem obter resposta. Inscreveu-se em grupos de bruxaria no Facebook, enviou pedidos de amizade para algumas pessoas que se diziam bruxas ou curandeiras. Ligou para uma amiga praticante de candomblé e para uma tia espírita, e levou bronca das duas, porque suas religiões nada têm a ver com bruxaria. “Sim, mas você não conhece uma mãe-de-santo (ou médium), que se chame Caterina ou algo assim? ”. Ficaram de procurar e entrar em contato caso encontrassem uma pista. Ilana passava dicas para o Homem Muito Magro para que ele não perdesse o ânimo, combinavam estratégias, dividiam tarefas. Recebendo ajuda e atenção, o desespero do homem parecia diminuir um pouco. Foram dois dias de buscas, depois ele sumiu. Nunca mais apareceu. Talvez tenha morrido, talvez tenha desistido. Ou, como aventava Lúcia, tentando consolar a chefe que havia ficado meio tristonha com a história toda, pode ter encontrado a bruxa e se curado.

Em sua próxima ida ao dermatologista, uns dois meses depois, os olhos de Ilana se encheram de lágrimas, inconformada por não ter pensado no óbvio. Bem no alto do painel com os nomes dos profissionais que tinham salas no edifício, lia-se: Dra. Caterina Maria Almeida Schmidt, oncologista.

8 pensamentos em “Uma bruxa chamada Caterina”

  1. Olá, Marina

    Gostei da história, trata da capacidade de busca por um tipo de informação que normalmente foge ao cotidiano dos bibliotecários, levando à tona a nossa necessidade de saber buscar tal informação.

    Essa história é verdadeira?

    Obrigada pela partilha.

  2. Pessoal, é ficção, mas muito baseada na realidade da referência. Coisas que eu escrevo quando estou participando de um evento da nossa área (para não morrer de tédio).

  3. Muito bacana seu texto, Marina! A gente vai lendo assim, sem compromisso e se surpreende com o final, pois bem que poderia ser de fato uma história real! Parabéns!

  4. Parabéns Marina, você coloca muito bem os desafios do profissional de referência, o qual deve ter um olhar aberto, com a curiosidade da descoberta. O texto coloca esse olhar, e de forma leve e agradável nos faz pensar.
    Bjo, obrigada.
    Adriana

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