A entrevista

Lúcia observa as estudantes brigando com o gravador que teima em não  ligar. Meninas trabalhadoras, pensa Lúcia, provavelmente filhas e netas de trabalhadores, como ela mesma, na luta para melhorar de vida pelo estudo e apostando suas fichas no curso de Biblioteconomia. A menina que parece exercer funções de liderança usa camiseta da faculdade, chapinha no cabelo e brinquinhos de imitação de pérola. A mais novinha delas, que olha para Lúcia com o rabo de uns olhos meigos, veste blusa de estampa de florzinhas e babados. A terceira, um tanto mais velha que as outras, tem os braços totalmente tatuados e o cabelo que parece cortado à faca. Sem saber como ajudar, Lúcia limita-se a sorrir tranquilizando suas entrevistadoras, que começam a dar sinais de constrangimento. “Calma, não estou com pressa. Reservei a tarde toda para vocês”.

Desde que Dona Alzirinha morreu, a função de receber estudantes interessados na história da Grande Biblioteca passou para ela, por ser agora “uma das mais antigas aqui depois de mim”, nas palavras da diretora. Na verdade, embora fosse apenas medianamente antiga, Lúcia era a única bibliotecária capaz de se comunicar com os jovens de forma razoável e assumia como trabalho da referência dar entrevistas para trabalhos escolares. A diretora reservava seu tempo precioso para atender as “personalidades” que considerava importantes: jornalistas da grande imprensa e gente indicada pela prefeitura.

Finalmente as garotas assumem o controle do equipamento e Brinquinho dá início às perguntas. O tema do trabalho era Dona Olívia Valadares Gouveia Campos, aquela que emprestou seu vetusto nome à Grande Biblioteca em vão, porque o nome não pegou. O material disponível sobre a importante personagem já estava nas mãos das meninas: uma curta biografia, algumas reproduções de fotos e um folhetinho com uma coletânea de poemas de autoria dela, em edição quase caseira da Secretaria de Cultura, feita por ocasião do batismo da Biblioteca.

Depois das perguntas iniciais de praxe, quanto tempo trabalha na Grande Biblioteca, se considera seu trabalho importante etc, Brinquinho ataca:

– Qual é a importância de Dona Olívia Valadares Gouveia Campos para a Grande Biblioteca? Cite algumas de suas principais realizações.

Tipico, pensou Lúcia. A meninada reproduz nas entrevistas os enunciados da questões que caem nas provas. Compondo no rosto a expressão mais tranquila e séria de que era capaz, Lúcia responde escolhendo as palavras:

– Dona Olívia integrou a comissão que organizou a cerimônia de inauguração da Biblioteca. Era uma mulher elegante, uma quatrocentona com muita experiência em organização de eventos beneficentes.

Ela sempre se sentia meio idiota dizendo essa frase, mas não tinha opção. Apenas torcia para que as meninas se contentassem com isso e partissem para outro tipo de pergunta. Mas, não. Dessa vez não seria tão fácil. Senho franzido, Brinquinho esclarece:

– Desculpa, o que a gente precisa saber é o que ela fez por esta Biblioteca, os trabalhos que realizou …

– As marcas que ela deixou, né? – Florzinha tenta ajudar.

– Sim, meninas, eu entendi. Mas é isso. Ela organizou a festa de inauguração e doou alguns livros.

– Mas, como? Peraí, quantos anos Dona Olívia trabalhou aqui?

– Ela nunca trabalhou aqui. Trabalhou alguns anos na biblioteca da Faculdade de Letras, logo depois de se formar, mas parou de trabalhar quando se casou. Foi assessora da Prefeitura por algum tempo, mas essa atividade não estava relacionada à Grande Biblioteca.

Brinquinho, um tanto desnorteada, consulta freneticamente suas anotações.

– Não é possível, eu tenho certeza, li isso em alguma parte das …

Tatuagem vem em seu socorro com uma boa saída:

– E esses livros que ela doou, eram raros? Foi uma doação importante?

– Tem a listinha aí no material que vocês receberam. São bons livros, mas nada de excepcional.

– Ah, tô vendo aqui. Doze livros.

Lúcia entrelaça os dedos e faz um gesto vago com a cabeça, seu equivalente gestual para a expressão “bem…”. Tatuagem esboça um ligeiro sorriso, como se já estivesse adivinhando o que estava por vir, enquanto Florzinha examina as condições de cada uma de suas unhas. Brinquinho, entretanto, mostra que não pretende se entregar tão cedo.

– Deve haver algum engano – o tom de voz é peremptório e o olhar lançado em direção à bibliotecária tem algo de acusador – Se esta biblioteca tem o nome dela, a mulher dever ter alguma importância para a instituição, não?

Lúcia pressente que a menina está prestes a chamá-la de “querida” e suspira ligeiramente. Boas alunas que vestem a camiseta da faculdade e que um dia, provavelmente, terão orgulho de serem bibliotecárias, não gostam de entrevistas que fogem ao roteiro que prepararam, tão caprichado. E agora, como ficaria o trabalho? A bibliotecária, tenta disfarçar a ponta de prazer perverso que sente  ao contar a história famosa entre os funcionários.

– Então, é o seguinte. Esta biblioteca ficou conhecida como “Grande Biblioteca” por oposição à mais antiga, pequena, que ficava logo ali na rua de cima. Aí surgiu um prefeito que gostava de dar nome a tudo, desde que o batismo lhe rendesse lucro político. A esposa dele era bibliotecária e manifestou desejos de dar um nome de bibliotecária à nossa Grande Biblioteca. O marido, que lhe devia alguns favores, se empenhou em satisfazer esse capricho de madame. Mas não poderia ser o nome dela, naturalmente, porque além de primeira dama estava viva.  Para tanto, ele precisava de uma bibliotecária morta. Procura que procura, topou com Dona Olívia, que era bibliotecária e já estava morta. Pronto! Foi assim que a Grande Biblioteca ganhou seu nome oficial – aquele que ninguém usa – e continua sendo a Grande Biblioteca.

– Como?! O quê?! – se espantam, em coro, Brinquinho e Florzinha. Tatuagem ri e abana a cabeça.

Brinquinho achava um absurdo. Não podia ser.

– Não mesmo. O melhor candidato a dar nome à Grande Biblioteca seria, na verdade,  Pyotr Oklopkov, um professor que lutou muitíssimo pela criação desta biblioteca. Organizou campanhas, movimentou a cidade, fez pressão sobre a Prefeitura… Mas, lamentavelmente, o velho, além de ter esse nome impronunciável, era comunista de carteira assinada e um dos adversários mais famosos do partido do prefeito marido de bibliotecária. Já Dona Olívia, senhora da classe dominante nativa com nome elegante, era candidata imbatível.

– Gente… – mia Florzinha, chocada.

– Vocês não vão me perguntar por que o nome não pegou? – provoca Lúcia.

– Tenho até medo de perguntar – Florzinha confessa.

– Porque a biblioteca já tinha um nome conhecido pela comunidade. Todo mundo dizia “Grande Biblioteca” com certo orgulho. Se a gente tentava usar o nome oficial, ninguém entendia. E os próprios funcionários, que também não gostaram do novo nome, não se empenharam muito em vencer a resistência da população. É isso que acontece quando se fazem ações artificiais, sem envolver as pessoas…

A diretora da Biblioteca odiava que ele contasse a história desse jeito, sem ao menos romancear um pouco, Lúcia sabia disso. Mas ela já havia avisado que jamais mentiria para os jovens estudantes. Era seu preço para ser “uma das bibliotecárias mais antigas que pode contar as histórias da Biblioteca”.

– Futuras coleguinhas, até parece que vocês nunca ouviram falar de uma coisa chamada política. Bibliotecas também estão sujeitas às regras da política, vocês deviam saber disso.

Tatuagem sacudia a cabeça em concordância, mas Brinquinho, impávida, voltava às suas anotações e retomava as perguntas:

– Então, para você qual é a importância da Dona Olívia para a biblioteconomia nacional?

Lúcia sentia a paciência chegar ao fim.

– Menina, você não ouviu o que eu falei? Você não leu a biografia dela? Leia novamente, escute a gravação e tire suas próprias conclusões. Pode ser um exercício interessante.

– Mas a gente precisa saber o que VOCÊ acha.

Ah, o roteiro. Não dava pra fugir do roteiro combinado com o professor. Se a pergunta bobinha estava lá, tinha que ser feita, mesmo que a realidade pulasse e gritasse em frente ao gravador.

– Nenhuma, se vocês querem mesmo saber – Lúcia se acomodou na cadeira com as pontinhas dos dedos unidas em posição professoral – Dona Olívia era apenas uma senhora rica que até tentou ser bibliotecária, mas as obrigações de um casamento burguês provavelmente não permitiram que ela continuasse trabalhando. Quem a conheceu dizia que era uma mulher inteligente e generosa, que gostava de livros e escrevia poemas até que bonzinhos, mas nada além disso. Virou nome de biblioteca apenas por uma questão de conveniência política e nome de família. E porque, no momento certo, já estava morta.

Pequeno silêncio. Mais duas ou três perguntas protocolares e a entrevista está encerrada. Despedem-se com beijinhos amistosos, Brinquinho um tanto amuada.

– Espero não ter decepcionado muito vocês… – Lúcia tenta se desculpar.

– De jeito nenhum – Tatuagem abre um sorriso largo – aprendemos muito nessa entrevista.

– Não o que a gente esperava, mas aprendemos – concorda Florzinha.

Brinquinho não faz nenhum comentário, mas ao cruzar a porta de saída, volta-se para Lúcia  e declara, com grande convicção:

– Sabe, o que eu mais quero na vida é ser bibliotecária. Nunca deixaria meu trabalho, por nada neste mundo.

fotos: Microphone, de Adam Fredle; Xylograph librarian, de Monika Bargmann (Flickr).

4 pensamentos em “A entrevista”

  1. É… O que teria mudado de lá pra cá no contexto geral?
    Há alguma pesquisa ou critério pré definido ao escolher o “nome da biblioteca” hoje?
    É feito por quem e como?
    Outra coisa interessante é que geralmente têm nome conforme a área de estudo e seus principais atores… Que podem ou não serem importantes para a biblioteca, para a disseminação da informação como um direito a todos, indistintamente!

    1. Não faço a mínima ideia se existe alguma pesquisa sobre esse assunto… Tomara que ninguém tenha se aventurado numa pesquisa tão chata, não? O óbvio é que os nomes das coisas são sempre atribuídos por critérios políticos, e isso não vai mudar. A situação real que inspirou meu conto não é antiga, é dos anos 1990.

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