Perguntas, respostas e suspiros noturnos

Num dia comum na Grande Biblioteca, ou em qualquer outra biblioteca grande ou pequena, muitas perguntas são feitas. Os funcionários nem sempre dão as respostas que gostariam, por educação, prudência ou tédio mas, às vezes, dão.

Dona Teresa está guardando toneladas de livros, usando guarda-pó, máscara para não morrer de tanto espirrar e um enorme crachá onde se lê seu nome e função em letras garrafais. Alguém se aproxima e pergunta:
– Por acaso a senhora trabalha aqui?
– O que você acha? – devolve Dona Teresa, espichando-se toda,  com uma das mãos no quadril e a outra apontando para os sinais de que se trata de uma funcionária trabalhando.

Normalmente a reação é um pedido de desculpas encabulado ou uma cara feia. Ambos divertem igualmente a guardadora de livros, que solta uma gargalhada e oferece seus préstimos com simpatia. A única reação diferente registrada em vários anos de observação foi de uma garota gorduchinha que bateu palmas como se tivesse feito uma grande descoberta e gritou:
– Eu acho que sim! Me ajuda! Me ajuda! Eu não consigo achar o livro!

Lá no balcão de empréstimos um cavalheiro de terno mal cortado folheia distraidamente o livro que alguém devolveu.
– Isso parece coisa de “viado”…

E o bibliotecário, com grande naturalidade, pergunta:
– Eu sou veado, por que você acha isso?

Ninguém entende muito bem a resposta gaguejada, que soa mais ou menos como “nada não, obrigado”.

Mais tarde, dois moleques resolvem matar a curiosidade e perguntam para a moça da portaria:
– Tia, por que você fica desenhando esses quadradinhos aí?
– Tá vendo este pauzinho aqui? – indicando com a ponta da unha pintada de vermelho um dos risquinhos de sua estatística de entrada de usuários – É você. Este outro aqui é o seu amigo. Entendeu?

Depois de mais de vinte minutos tentando decifrar as confusas  anotações de uma jovem universitária, a bibliotecária de referência finalmente descobre que um dos  supostos livros era um artigo  de revista e o outro um filme, nenhum deles disponíveis no acervo.
– Mas o professor disse que eram livros e que eu poderia encontrá-los aqui!

A bibliotecária explica, com a ar de quem revela um grande segredo:
– O professor não sabe nada…

Diante da expressão completamente chocada da moça, Lúcia, que já havia levado umas broncas por causa de sua língua rápida e ferina, volta atrás e conserta um pouco a maldade:
– Quero dizer que seu professor sabe muuuitas coisas, mas disso ele não entende nada – e ajuda a moça a encontrar filme e artigo em fontes alternativas de caráter pirático.

A mesma Lúcia costuma responder, com um bonito sorriso, quando alguém reivindica um privilégio por conta de uma condição que considera única e muito relevante (“eu faço doutorado na UCI -Universidade Chique e Importante”, por exemplo):
– Você e mais uns trezentos – adaptando o número à situação. A vontade mesmo era dizer “ você, a torcida do Corinthians e metade da do Palmeiras”, mas seria um exagero. Lúcia é desbocada, mas não abusa.

A estagiária estudante de Letras detesta quando explica que não pode digitalizar o livro e enviar para o usuário, porque existe uma lei que protege direitos autorais e tal, e a pessoa questiona, como se estivesse explicando um fato da vida no qual ela nunca havia pensado:
– Mas, e se eu pegar o livro emprestado e digitalizar? Quem vai saber?

Para usuários conhecidos, daqueles que estão sempre na biblioteca e com quem os funcionários se permitem certas familiaridades, a estagiária responde, com algumas variantes:
– Tem uns ácaros aí no livro treinados para acionar um alarme telepático que vai soar lá no Departamento Antidigitalização de Livros na Íntegra da Polícia Federal toda vez que alguém faz isso. Aí os fiscais da ABNT vão rastrear o livro até sua casa, confiscar o pdf e aplicar-lhe pesada multa.

Os mesmos ácaros, segundo Lúcia, gritam desesperados quando alguém rabisca o livro: “PARA, PARA, VOCÊ ESTÁ ME MACHUCANDO! ”.

Já os fiscais da ABNT apareceram na biblioteca num belo dia de dezembro para avisar que os festões da decoração natalina estavam fora dos padrões, de acordo com um funcionário gaiato que fez a secretária da chefia, por um breve momento, acreditar na história.

E é quando todos riem com essas outras biblio-fantasias, como a história do movimento migratório dos livros que explicaria obras sobre arte rupestre guardadas na estante de culinária, é que a Fernanda da Aquisição, a melhor contadora de causos da Grande Biblioteca, muito séria, se põe a narrar a história dos suspiros.
– Vocês estão rindo, mas fiquem sabendo que nesta biblioteca, como em quase todas as bibliotecas que têm acervo muito antigo, há diversos livros que suspiram. Durante o dia não se nota, mas quem andar entre as estantes à noite talvez consiga escutá-los. São os livros esquecidos, que ninguém abre há muitos anos e se ressentem disso – nesse momento, Fernanda faz uma pausa e baixa o tom de voz, como se contasse um segredo soturno. Alguns deles, na verdade, jamais deveriam ser abertos mesmo. Nem todos os livros esquecidos são inofensivos. Por isso, se algum dia vocês ouvirem suspiros na Biblioteca, afastem-se imediatamente das estantes.

Alguns ouvintes arregalam os olhos, outros soltam risadas nervosas, mas não há quem não lance um olhar ressabiado em direção às imponentes estantes guardiãs de segredos.

E assim, na Grande Biblioteca e em qualquer outra biblioteca, as perguntas ingênuas, as respostas às vezes tortas, as piadas, as histórias e os suspiram se repetem, dia após dia. E devem continuar, enquanto existirem bibliotecas e pessoas dentro delas.

Agradeço à querida Arlete (em memória),ao José e ao Walber por algumas dessas histórias. Nem todas são inventadas.

fotos: Victoria Pickering, Library; Michael D Beckwith, Chetham´s Library (Flickr)

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