Chega dessa babaquice de assediar bibliotecárias

[do original #TimesUp on Harassing Your Public Librarian, de Katie MacBride. Livre tradução de Dora e Branca]

Bibliotecárias lidam diariamente com assédio sexual em seus locais de trabalho.

O homem em frente ao balcão de referência pediu uma senha de acesso aos computadores e depois se inclinou para a frente com segundas intenções: “Você já viu o Jornada nas Estrelas original?

Imprimi a senha e sacudi a cabeça. “Não. Você está procurando os DVDs?”

“Não”, disse ele. “Você é idêntica a uma atriz da série que apareceu na lista das “Mulheres mais bonitas de Jornada nas Estrelas’! Você é a cara dela!”

Ele começou a me olhar com cobiça, com uma intimidade atípica. Tinha um olhar esquisito de tiozão, aparentando ter quase 60 anos.

Lidar com perguntas desconfortáveis dos usuários é muito comum para mim e para a maioria das bibliotecárias que lidam com o público. Decidi que a melhor estratégia seria um breve aceno (reconhecer que você ouviu o comentário para que ele não se repita) e um curto, “OK, existe algo na biblioteca que posso ajudá-lo a encontrar?”

Não havia. Ele caminhou até os terminais de consulta e eu teria esquecido a interação se ele não tivesse reaparecido alguns minutos depois.

“Você pode me ajudar a imprimir uma coisa?”

Assenti com a cabeça e o acompanhei de volta para o computador. Na tela havia uma foto de uma atriz loira e uma descrição feita pelo autor da “Lista das mais gostosas”. Lia-se, em parte, “A melhor parte dela é a fantasia sexual de ‘Eu não conheço as sensações humanas. Por favor, me ensine a beijar, abraçar, [insira aqui o ato sexual depravado]’. Oh, sim, por favor!”

O usuário olha excitadamente da tela para mim.

“Veja! Você parece exatamente com ela!”

Dei de ombros.

“Bem, eu quero imprimir essa foto dela”. Ele insistiu. “Vocês tem uma impressora a cores?”

Nós tínhamos. Mostrei-lhe como ampliar e imprimir a imagem. Ele deixou a biblioteca pouco depois, acenando a foto para mim e piscando antes de sair.

Quando o movimento #TimesUp surgiu (Time’s Up é um movimento contra o assédio sexual fundado por celebridades de Hollywood), fiquei satisfeita ao ver o foco no setor de serviços, onde parte significativa do trabalho é ser simpática e estar disponível para clientes e usuários. Porque a verdade é que toda mulher/feminina/cis/trans/bibliotecária tem dezenas de histórias como esta; incômodas, mas inofensivas interações de assédio. Nós reviramos os olhos na sala de funcionários, reclamamos a nossos amigos e pessoas próximas depois de ofensas particularmente flagrantes, mas tendemos a considerar essas ofensas como uma parte infeliz porém inevitável do trabalho. Uma das minhas ex-colegas descreveu perfeitamente o assédio na biblioteca como: “Eu apenas me lembro do sentimento ruim de ser um público cativo”. Afinal, o assédio sexual é sobre poder e vulnerabilidade e um público cativo – como a bibliotecária que não pode se recusar a mostrar ao homem como usar uma impressora – é um público vulnerável.

Muitas vezes, discussões sobre o assédio sexual no local de trabalho focam nas interações entre funcionários e supervisores. Há uma boa razão para isso; os supervisores têm influência, quando não têm o controle total, sobre quem é contratado e demitido. Quando se trabalha no setor de serviços, no entanto, manter o cliente satisfeito costuma ser tão importante quanto manter o chefe feliz. O funcionário que não ri da piada do cliente ou se ofende quando perguntado sobre sua vida amorosa é vulnerável a queixas à gerência. As pessoas que não trabalham em setores de serviços podem se surpreender com a rapidez com que não rir de uma piada sobre a aparência de seu uniforme, segundo a vontade do cliente, pode se transformar em queixas ao seu gerente sobre seu mau comportamento; ou como rejeitar um convite para sair pode se transformar em falsas alegações sobre seu suposto terrível desempenho no trabalho.

Normalmente, essas interações ocorrem dentro de uma janela de tempo limitada. Você serve um jantar para o seu assediador, ele faz comentários inapropriados, mas depois, inevitavelmente, vai embora. Mas e se o usuário nunca precisasse ir embora? E se alguém pudesse entrar no seu local de trabalho, fazer-lhe quantas perguntas quisesse sobre praticamente qualquer assunto, desde o momento em que as portas se abrem de manhã até fecharem à noite?

Funcionárias de bibliotecas públicas são profundamente comprometidas com o acesso. Acreditamos que a biblioteca deve ser aberta a todos e queremos que os usuários se sintam confortáveis ao pedir informações sobre quase qualquer coisa. Você quer informações sobre doenças sexualmente transmissíveis? Sem problemas. Livros sobre sexo tântrico? Por aqui. Nós permanecemos dispostas, amigáveis e acessíveis porque queremos que vocês saibam que não julgamos suas necessidades de informação.

Mas isso também faz do nosso trabalho um terreno fértil para o assédio sexual. Tecnicamente, não há motivo para que um usuário não possa sentar-se em uma mesa vazia e olhar para a bibliotecária o dia todo, pedir ajuda para configurar um perfil de namoro online ou imprimir material explícito. Em muitos casos, não há nada de errado com o comportamento mencionado acima e é isso o que dificulta as coisas. Os bibliotecários resguardam fanaticamente o direito dos usuários de fazerem de tudo, o que torna o assédio sexual tão recorrente nas bibliotecas públicas – até o ponto em que isso se torna um abuso.

Existe um caráter de gênero para o assédio sexual em bibliotecas que é impossível ignorar. Em 2015, a categoria de bibliotecários era composta de uma maioria desproporcional de mulheres (elas representavam 83% de todos os bibliotecários) e, embora o assédio sexual possa acontecer com qualquer gênero, é frequentemente perpetrado contra mulheres. Como diz Kelly Jensen, uma editora contribuinte para a Book Riot e bibliotecária pública: “Quando você trabalha na posição de atendimento ao público, ser mulher é uma desvantagem.” As mulheres não brancas e as pessoas LGBT+ sofrem assédio em taxas particularmente altas. Junte a isso o entusiasmo de todos os bibliotecários (independentemente do gênero) para ajudar e não é difícil ver como a linha entre ter acesso a informações e ter acesso à bibliotecária fornecendo essas informações para você é tênue na mente de algumas pessoas. Às vezes, parece que os homens veem as bibliotecárias como as secretárias da era “Mad Men” que eles nunca tiveram.

A gestão de bibliotecas varia amplamente quando se trata de implementar políticas para lidar com essas situações. A American Library Association não fornece diretrizes ou recursos para lidar com o assédio sexual, seja de usuários ou colegas. Sem essa orientação, cabe às bibliotecas criar políticas individuais para lidar com o assédio de usuários.

Em qualquer cenário de assédio sexual no local de trabalho, não é suficiente apenas conscientizar os funcionários sobre as políticas que os protegem. A gerência também tem de apoiar essas políticas, tomando medidas quando for necessário. Isso nem sempre acontece. Descobri isso em primeira mão quando fui denunciar para meu chefe os constantes assédios por parte de um usuário. Quando relatei esse recente caso de comportamento inadequado, meu chefe perguntou: “Bem, quantos anos ele tem? É possível que você esteja apenas…” Meu chefe se afastou, parecendo implicar que eu estava simplesmente exagerando sobre um homem mais velho que não tinha consciência que estava sendo inapropriado.

Na minha experiência e na experiência de muitas outras bibliotecárias que conheço, a administração geralmente reluta em abordar o problema do assédio sexual – especialmente se for verbal e não físico – pelo medo de gerar repercussões negativas em relação à biblioteca. As bibliotecas públicas necessitam que o público as valorize; quando uma biblioteca de bairro está à beira de ser fechada, muitas vezes os usuários (talvez até os usuários que se envolveram em assédio) se reúnem para nos manter abertas. São cidadãos que aprovam e pagam impostos que mantêm as bibliotecas em atividade. Eu entendo isso. É por isso que passei tantos anos engolindo sapos em relação a comentários sobre como eu realmente pareceria a “bibliotecária sexy” se eu usasse óculos.

Sem padrões formalizados e uma gestão pró-ativa, os bibliotecários fazem o que as pessoas vulneráveis ao assédio sempre fizeram. Nós sussurramos, nós avisamos. Impedimos o usuário que tem a intenção de perseguir a bibliotecária vá até a sala reservada aos funcionários. Se tivermos a sorte de nos depararmos com isso a tempo. Se outros funcionários da biblioteca estiverem presentes naquele momento. Se ele puder ser impedido.

Os bons bibliotecários são alquimistas que transformam as bibliotecas de um edifício com livros e computadores em um vibrante centro de informações e exploração. As bibliotecas precisam dessas pessoas apaixonadas e dedicadas que querem que ela continue existindo. E chegou a hora da American Library Association reconhecer e abordar a realidade do assédio sexual nas bibliotecas. Chegou a hora da gestão de bibliotecas e dos governos das cidades e dos estados aos quais estão afiliadas defenderem inequivocamente o direito das bibliotecárias de atenderem ao público livres de assédio sexual, físico ou verbal. As bibliotecárias apoiam nossas comunidades e é hora de exigir o apoio a elas em troca. Nosso #TimesUp está atrasado.

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