Censura à pesquisa, censura em bibliotecas: cena de Chernobyl episódio 4

Censura em bibliotecas no Brasil normalmente aparece em quatro versões: censura religiosa, censura ética/social, censura política e censura militar. Censura religiosa é a que historicamente mais aparece nos noticiários e grande mídia (incluir obrigatoriedade de ou excluir bíblias, disputas no sincretismo, etc); censura ética/social acontece normalmente quando querem expurgar de escolas algum livro do tipo que você costuma ler com uma mão só (se é que me entendem meninos e meninas); censura militar mesmo quem não viveu entre 64 e 85 conhece bem, tem a ver com interesses estratégicos e propriedade industrial. Se confunde com a censura política/ideológica, que em governos supostamente democráticos é mais sutil, mas é a que tem aparecido com mais impulso nos últimos anos, desde a redemocratização.

Isso não é um argumento acadêmico, os dados aqui são difusos, mas mesmo considerando os principais casos de censura não lembro de situações extremas recentes que tenham causado a necessidade de algum tipo de reparação na práxis bibliotecária. Muitas das nossas normativas e código de ética em relação à censura são baseadas em preceitos universais do humanismo e democracia, vagos o bastante para se adequar à nossa realidade local. Isto é, para os bibliotecários, seja em uma biblioteca pública, infantil ou lidando com uma coleção especializada, nenhum instrumento de censura pode ser tolerado. Um ponto essencial é que, como trabalhamos com desenvolvimento de acervos, da compra ao descarte, estamos em posição ambivalente de censurar e sermos censurados. Não vou problematizar. Quem quiser saber mais basta procurar nas fontes da área que existem excelentes trabalhos sobre o tema.

Me peguei pensando nesse tema depois que vi o trecho abaixo, da série Chernobyl:

Também não vou problematizar Chernobyl enquanto série, acho que tá claro ali a narrativa ocidental enviesada ainda que o foco seja na tensão entre os pesquisadores/especialistas e os burocratas. A série é muito baseada no livro da Svetlana Aleksiévitch, Vozes de Tchernóbil, que é um trabalho excelente. São dois pontos que me chamaram a atenção nessa cena: fazer pesquisa na era pré-internet e fazer pesquisa sob regime de censura, ou as duas coisas juntas, tudo isso ambientado na biblioteca tradicional.

Eu sinto muita pena de quem tinha que fazer pesquisa na era pré-internet. Se hoje com a velocidade de troca que a gente tem, às vezes as informações ainda são lentas, imaginem naquela época. Pensem na chatice que era vasculhar catálogos de fichas, ter que fazer solicitações para uma bibliotecária gatekeeper e ainda ter que esperar semanas ou meses para obter um determinado artigo, sem saber de fato se ele é relevante para a pesquisa. Deixo aqui meus parabéns a todos os pesquisadores e bibliotecários guerreirinhos pré 1990s.

Sinto mais pena ainda de quem tem que fazer pesquisa sob censura. No trecho da série acima, a pesquisadora solicitou algo em torno de 4 artigos, mas o censor disse que ela poderia ter acesso a somente um deles. E este artigo ainda vinha com páginas a menos, por conta da censura. Era informação crucial para a prevenção de um acidente nuclear, mas que foi mantido em sigilo por um estratégia de Estado. Deu ruim.

Bem, as observações que eu pontuei na cena da biblioteca enquadram o tema que a série explora de maneira geral: o perigo de um poder tão centralizado que a verdade e a falsidade se invertem. Quando as sociedades depreciam não apenas o conhecimento especializado, mas também a natureza da própria verdade, a catástrofe inevitavelmente se segue. Se a gente aplicar essa maior mensagem da série de TV à mudança climática, a disseminação de fake news, terra planismo, campanhas anti-vacinas, memes bizarros no whatsapp e facebook, ela é uma fábula perfeita para os nossos tempos. E eu me pergunto: como nós bibliotecários vamos nos posicionar e lidar com isso? (quando for o momento, se ele não for agora)

Nós não estamos vivendo no Brasil um estado totalitário, mas estamos numa realidade onde um estudo da Fiocruz sobre uso de drogas no Brasil acabou de ser censurado. Um projeto de lei do governo prevê eliminar multa para quem levar criança sem o equipamento apropriado no carro, sendo que estudos mostram que o uso da cadeirinha reduz acidentes fatais. Um lugar onde a verdade não é fixa e as referências estão mudando, na medida em que a verdade é de quem a controla. Vira uma espécie de commodity, a gente pode comprar na esquina ou num ad farm chinês.

Eu trabalho na universidade, então eu sei que os pesquisadores tendem a ser ambíguos quanto aos controles sobre a aplicação e comunicação científica, porque ao mesmo tempo que se opõem a qualquer tipo de censura que possa prejudicar sua autonomia, aceitam algumas restrições justamente a fim de proteger a comunidade acadêmica de intervenção externa. Já os políticos simplesmente evitam qualquer repercussão baseada em dados científicos que mostra o impacto das merdas que estão fazendo. Escolha a cor da sua bandeirinha, não faz diferença. A novidade é que, além de tentar impedir pesquisas em áreas ditas sensíveis ou de “menor retorno”, o governo brasileiro atual está tentando forçar os cidadãos a ignorar que o conhecimento existe.

O paradoxo dos desenvolvimentos atuais desses mecanismos de censura é que eles tendem a destruir a base dos direitos civis ao restringir a liberdade intelectual e científica, quando o uso apropriado dessa censura seria para coibir a presença do anti-intelectualismo, convenhamos. Bibliotecários devem ter isso muito claro em mente.

A censura na maioria dos casos práticos é reduzida em um agente censor que acredita que um determinado banimento pode melhorar a sociedade, proteger criancinhas e restaurar aquilo que vê como valores morais perdidos. Os censores tentam usar o poder do Estado para impor sua opinião sobre o que é verdadeiro e apropriado, ou ofensivo e censurável, acima de tudo, acima de todos. Os censores pressionam as instituições públicas, como as bibliotecas, a suprimir e remover informações de acesso público que julgam inadequadas ou perigosas, de modo que ninguém mais tenha a chance de ler ou visualizar o material e decidir por ele. Isso tudo tá bonitinho lá nas diretrizes da IFLA, devemos combater com todas as forças. Mas quando bate aqui, na nossa porta, é duro de assimilar. Eu me sinto em 1986. Parabéns aos envolvidos.

3 comentários em “Censura à pesquisa, censura em bibliotecas: cena de Chernobyl episódio 4”

  1. Parabéns pelo texto, Moreno.
    E parabéns aos envolvidos nesse caos presente e aos que os escolheram para fingir representar os nossos interesses e direitos.

  2. Seu texto é tão bem escrito! Meus parabéns!
    A série está na minha lista. Assistirei assim que possivel.
    Adorei o trecho: “Quando as sociedades depreciam não apenas o conhecimento especializado, mas também a natureza da própria verdade, a catástrofe inevitavelmente se segue.”
    Posso compartilhar?

  3. Parabéns pelo texto, sou sua fã!!!! Mas ainda gostava mais das fichinhas nos catálogos, era muito mais romântico… e sempre achava algum outro livro e/ou informação interessante. O mesmo acontece quando procuramos uma palavra no dicionário físico, sempre lemos outra palavra e aprendemos sobre ela.

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