Qual é o melhor software para organizar uma biblioteca pequena?

Justo agora que eu tava pra liberar a chamada do curso de automação para pequenas bibliotecas, o Murakami veio com a ideia de construir um software simples para bibliotecas com baixo orçamento. Eu e ele, que mantemos este singelo BSF há uns 15 anos, sabemos que um dos posts mais buscados aqui é uma lista de softwares de biblioteca, desde pequeno até grande porte, proprietários e abertos. Nas nossas andanças, muita, muita gente mesmo parou pra perguntar: eu tenho uma pequena biblioteca em casa, tô começando a trabalhar em uma biblioteca comunitária, fui chamada para migrar do papel para o computador, estou trabalhando com acervo infantil… qual é o software que você indica pra minha biblioteca?

Desde tempos imemoriais eu brincava com Roosewelt dizendo que o melhor software de automação de bibliotecas de pequeno porte é o Microsoft Excel. Isso porque é perfeitamente possível gerenciar um acervo e controle de empréstimos utilizando uma planilha xls como base. Você nem precisa de internet, basta um netbook velho. Cada campo da catalogação é uma coluna, cadastros de usuários podem ser feitos em uma aba secundária e para encontrar qualquer registro no momento do empréstimo basta dar um ctrl+F. Excel aguenta muitas linhas sem dar pau, então a principal questão é: quando estamos falando de biblioteca de pequeno porte (seja ela pessoal, comunitária, infantil, tanto faz) qual é o seu real tamanho? A resposta talvez seja justamente a quantidade de linhas que um excel aguenta sem dar pau em um netbook velho. Eu vou chutar 2000 linhas como limite. O que daria 2000 títulos ou 2000 usuários, uma aba aberta por vez.

Então se você tem uma biblioteca com até 2000 títulos e/ou 2000 usuários, chega aqui pertinho que eu vou te contar uma coisa: o melhor software pra gerenciar esse montante aí se chama: LibraryThing. Você poderia usar um xls do excel, claro, mas você não quer passar ridículo com os usuários. Você é millenial e quer um software de verdade. Vem comigo.

Ao longo da vida de bibliotecário que precisava migrar da lógica do catálogo de fichas para o universo digital e sempre trabalhou com pouca ou nenhuma grana, testei tudo quanto é tipo de software, dos mais horríveis aos mais pretensiosos. Pode mandar o nome aí que eu dou um check: winisis, biblivre, gnuteca, phl, openbiblio, emilda, koha, pergamum, sophia, aleph, argonauta, shelfari, goodreads, libib….etc. Para cobrir as necessidades de uma pequena biblioteca todos esses daí perdem pro librarything pelos seguintes motivos:

não precisa de instalação (só precisa de internet)
não precisa catalogar (dá pra importar quase tudo)
não precisa pagar (para fins pessoais)
tem OPAC e website (design minimalista)
registo de usuários e controle de empréstimos (tinycat)

Obviamente que os outros softwares oferecem esses quesitos, mas todos eles combinados só o LibraryThing.

Quanto ao Bibliolight do Murakami, eu vou apoiar qualquer esforço na distribuição de um software que seja genuinamente nacional, aberto, livre, que seja adequado para pequenas bibliotecas sem recursos. É uma demanda real que a gente vem tentando solucionar desde os idos de 2000s e início, batendo cabeça com a falta de infraestrutura, logística, plano de negócios, capital inicial, enfim, mas que agora talvez finalmente surja uma solução alinhada com a oferta de tecnologia a baixo custo e pouca exigência operacional.

Eu fiz uma sequência de vídeos com captura de tela mostrando como gerenciar uma biblioteca pequena usando o LibraryThing. Estão em formato de curso e vocês podem se inscrever na ClassCursos. Assistam o meu convite:

(se você não é bibliotecário ou não se interessa pelos pormenores pode parar de ler aqui. O link para o curso, com apresentação e ementa completa está aqui: classcursos.com)

Tem duas coisas que realmente me incomodam quando se trata de software para pequenas bibliotecas. O primeiro problema, eu mencionei rapidamente acima, é que as pessoas desejam um software para bibliotecas sem recursos, mas não conseguem identificar com clareza quais são as demandas reais dessa biblioteca e o que se entende quando dizemos biblioteca de pequeno porte. O bibliotecário sempre quer um feature a mais no desenvolvimento e customização, que a meu ver não vai ter impacto significativo na gestão de um acervo pequeno. Em outras palavras, seguir os manuais de representação é mais importante para algumas pessoas do que adaptar o mais simples pro usuário e gestão do acervo. E isso causa uma confusão mental na hora de avaliar qual é o software mais adequado.

Exemplos que uso são que os bibliotecários têm receio de seguir a CDD da catalogação na fonte, quando que diferença faz se você precisa de poucas informações para recuperar um registro localmente. Se você tem um acervo de 500 títulos, não vai fazer muita diferença se a classificação é 322 ou 328.12, não é necessário esse nível de especificidade para fins de recuperação, talvez nem mesmo em um acervo com uma única temática. Cutter daria uma ajuda adicional e seria o suficiente. Outra opção é utilizar somente 3 dígitos na etiqueta da lombada. Pra que mais que isso em um acervo de menos de 2 mil itens? Não precisa, convenhamos. Falo isso por experiência, já testei dessas formas, e nunca houve interferência, funcionou pra mim e pros usuários, sem diminuir a qualidade da representação temática. Se algum bibliotecário acha herético, então é só reler o parágrafo anterior.

O outro problema é a questão da instalação e necessidade de uso de outros softwares ou qualquer coisa 3rd party. Normalmente se pensa em software pequeno na ótica do bibliotecário catalogador e não na do bibliotecário dummie. Eu por exemplo mal saberia onde incluir um arquivo dll quanto mais usar mysqld, apache e php. Não faço a menor ideia. Poderia ver uns vídeos no youtube, claro, ou pagar uma empresa especializada pela instalação e hospedagem. Mas isso meio que tá na contramão da minha necessidade: quero algo simples, barato, que me dê autonomia.

Você pode optar por softwares ultra simplificados, que exigem apenas instalação local e pequenas modificações no windows, sim, mas daí você perde em design/interface e em aplicações de rede, como importação e consulta remota ao opac. Não tem pra onde fugir.

Bem, o LibraryThing possui vantagens e desvantagens como qualquer produto. Vou tentar fazer uma argumentação em sua defesa, é a minha primeira indicação para uma pequena biblioteca, passionalmente por motivos óbvios: não tô ganhando nada promovendo o software, é que eu gosto dele mesmo.

VANTAGENS

Instalação: o librarything é totalmente baseado na web. Não precisa de instalação, não precisa de atualização. Funciona como e-mail, você cria uma conta e entra com login e senha no navegador. Basta ter acesso à internet. Claro que é aqui que mora o perigo. Os experts vão dizer, ah mas justamente por isso é necessário rodar uma instalação local monousário, pois não requer rede. Talquei, mas vou chutar que hoje é muito mais provável que o responsável pela biblioteca consiga uma conexão, nem que seja via celular (e para isso o librarything tem um app). Bibliotecas pessoais nem se fala. Se a situação for muito precária, existe a possibilidade de catalogar tudo na internet de alguém, deixar pelo menos o OPAC rodando normalmente pra quem tem celular e fazer o controle de empréstimos offline.

Bibliotequices: bibliotecário é um bicho chato então mesmo sem saber pra que serve ele vai perguntar “mas esse software oferece protocolo z39.50?” E eu digo sim, o LibraryThing tem tudo isso, api, interoperabilidade, importação formato .mrc, dublin core, xml e o escambau. Conheço bibliotecárias capazes de catalogar 2 mil itens em pouco mais de 1 mês, então a não ser que você esteja migrando de outro software ou seu acervo corrente se atualize com uma velocidade absurda, essa coisa de importação também não faz o menor sentido. É muito mais simples fazer tudo na mão, biblioteca pequena irmão. Pensando nessa lógica, de uma pequena biblioteca que não vai exigir uma recuperação minuciosa, você não precisa preencher todos os campos do marc. Basta os campos principais, alguma coerências nos assuntos e só. Coisa que se cataloga em 2 minutos. Mesmo assim, o LibraryThing pega z39.50 de quase 5 mil bibliotecas, e pasmem, quase nenhuma dessas no Brasil. E por que? Porque bem, as bibliotecas brasileiras simplesmente não liberam seus dados. Pra que a gente fica falando de interoperabilidade no curso de biblio, eu me pergunto. O LibraryThing suga a maior parte dos dados do Amazon, quer vocês gostem ou não, a maior base bibliográfica do mundo hoje. É só jogar um título, um ISBN, um clique de mouse e pronto, importação feita.

Cabeçalhos de assunto: não sei como funciona tabela de autoridade nos outros softwares, mas no LibraryThing você pode criar quantos descritores e remissivas quiser. Qualquer assunto que você atribuir vira um link, qualquer livro identificado com aquele assunto estará associado ao link. Tem facetada até dizer chega pra fazer combinação de busca, booleana. Tem tudo isso, e eu nem sei pra que, porque vou ter que dizer de novo: biblioteca pequena. Pra que inventar?

Empréstimos: o LibraryThing propriamente é o módulo de catalogação. Funciona satisfatoriamente para uma biblioteca pessoal. Mas ele possui um módulo paralelo que se chama TinyCat, e é um espelho dos livros catalogados no LT. Tem OPAC, tem painel administrativo pra controle de usuário e gerenciamento dos empréstimos. A melhor coisa é que o TinyCat é um catalogo público de verdade, o acervo fica disponível em um link na web, cada usuário pode ter um login para controle online (o usuário tem que ir fisicamente até a biblioteca pegar o livro, claro. Um ponto fraco é que o usuário online não consegue fazer reserva, só o bibliotecário como administrador. Mas biblioteca pequena gente, não vamos complicar).

Desenvolvimento: o LibraryThing foi concebido como uma rede social de livros. Perdeu o posto pro GoodReads e hoje é focado mais em pequenas bibliotecas mesmo. Mas desde sempre ele contou com bibliotecários na equipe de desenvolvimento. Isso fica evidente nas minúcias e características do softwares, simples porém completo. A equipe é bastante acessível, precisei entrar em contato com eles algumas vezes e sempre foram muito solícitos.

OPAC: o TinyCat é minimalista, oferece as capinhas, tem opções de navegação pelas facetadas e busca avançada. Acho que não perde em design pra nenhum outro software, mesmo entre os grandes.

DESVANTAGENS

Tradução: o software é gringo, a interface é em inglês com opção de tradução automática. A parte do TinyCat não tem tradução. Mas o desenho é intuitivo, as principais operações são em inglês muito básico. Na pior das hipóteses o bibliotecário pode auxiliar o usuário a consultar o catálogo, até que ele identifique as informações principais por conta própria.

Preço: o LibraryThing é gratuito para fins pessoais. Para todas as outras modalidades ele oferece um pacote de pagamento compatível com o tamanho do acervo. Quanto maior o acervo, mais cara a assinatura. Acho o valor irrisório quando colocado custo e benefício na balança. Existe a possibilidade sim de usar o LibraryThing gratuito indefinidamente, mas pra que fazer isso, não façam.

Reservas: ele não tem a opção de fazer a reserva online (tem um botão lá pra isso, mas ele meio que não tem serventia).

LibraryThing: software para pequenas bibliotecas, curso online

3 comentários em “Qual é o melhor software para organizar uma biblioteca pequena?”

  1. Caramba, justamente hoje que me reuni com um grupo para tratar da organização de um acervo pequeno e me veio este texto.
    Obrigada, Moreno. Esse texto me auxiliou sobre critérios para escolher um software adequado e também me apresentou ao LibraryThing.

    Abraço.

  2. Moreno, bom dia.
    Recebo sua newsletter regularmente, há certo tempo.
    Tenho uma pequena biblioteca pessoal com acervo em torno de 3000 livros. Já os tive em maior número mas as facilidades dos livros eletrônicos, ebooks, kobo, kindle etc. mudaram a realidade.

    Há tempos estou para te fazer uma consulta e hoje é o dia de ganhar coragem para tanto.Seguinte:
    1. Os livros vêm com ficha catalográfica que, de certa maneira, ajudam na catalogação mas não respondem à minha necessidade pessoal qual seja a de encontrar os assuntos tratados nestes livros. Algo como um índice analítico que costuma vir nas obras mais robustas.

    2. Contornei este problema criando um catálogo em MS Access, o banco de dados relacional do Mircosoft Office. E como fiz? Criando tal catálogo usando categorias como Autor, Nome do Livro, Assunto e, principalmente, Sumário dos livros catalogados. Assim, quando preciso pesquisar determinado assunto, caso este assundo esteja relacionado nos sumários das obras, o banco de dados retornará a palavra ou termo objeto da pesquisa. Para isso uso caracteres curinga.

    3. Você conhece algum software free, tipo catacra livre, que realize este tipo de catalogação? Em tempo, hoje uso o Linux onde não se paga licença e o desempenho computacional é de certa forma superior a outros sistemas operacionais. Há um soft opensource, Calibre, que pode contornar tais dificuldades mas não é ideal para os propósitos em questão.

    4. Claro que posso desenvolver um BD usando MySql ou PostgreSQL mas isso demanda tempo e estudo e, à esta altura da vida (73 anos) as premências e urgências são de outra natureza.

    Grato por qualquer informação
    Osmario

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