Onde está Biblioteconomia?

Estava eu na livraria Cultura do centro do Rio de Janeiro procurando livros da área de Biblioteconomia perto da área de História, onde se encontravam desde a inauguração da loja.

Fui, voltei e não consegui localizá-los…

Quando desisti, perguntei ao funcionário da loja sobre a localização dos livros de Biblioteconomia, que disse: “Está ali embaixo, perto da  História.”.

Indo lá conferir, não achamos Biblioteconomia. Daí, ele perguntou ao colega que disse estar lá em cima, perto da Administração.

Será esse um reflexo das mudanças em nosso cenário profissional e no imaginário social ou apenas não havia espaço nas estantes perto da História?

Fundamentalmente, estávamos bem mais próximos da História do que da Administração, como pode ser observado nos quadros abaixo, que trazem as disciplinas das grades curriculares dos primeiros anos dos cursos de Biblioteconomia no Brasil:imagem2

Biblioteca Nacional
1915 (1 ano) 1931 (2 anos)
•Bibliografia;•Paleografia; •Diplomática; •Numismática •História Literária com aplicação à Bibliografia;•Iconografia e Cartografia;• Bibliografia;• Paleografia;• Diplomática.

 

Mackenzie Departamentode Cultura deSão Paulo
1929 – 1931 1936 – 1937
•Catalogação; •Classificação; •Referência. •Catalogação; •Classificação; •Referência.

 

Fonte: O profissional da informação: formação, perfil e atuação profissional, organizado pela Martha Valentim, disponível na Biblioteca Central do Gragoatá da Universidade Federal Fluminense

Com o passar dos anos, refletindo transformações econômicas e conjunturais, a formação do profissional bibliotecário, antes centrada em técnicas de organização de acervos, passou a abranger temas de cunho mais gerencial e, posteriormente, tecnológico, como recuperação da informação em bases de dados, seleção de softwares para bibliotecas, gestão da informação, gestão do conhecimento, inteligência competitiva e empresarial.

Além disso, disciplinas prevendo alguma especialização ainda na graduação, contemplando fontes de informação e temas específicos da área, passaram a serem ofertadas como disciplinas eletivas e optativas, sendo exemplos “Informação em Ciência & Tecnologia”, “Informação Jurídica” e “Informação em Arte”.

O crescimento da atuação bibliotecária também está refletido na Classificação Brasileiras de Ocupações – CBO. Em sua última revisão, de 2002, o profissional bibliotecário saiu da família ocupacional, onde figurava ao lado de arquivistas e museológos para constituir ocupação principal de uma nova família criada para abrigar as mudanças decorrentes do cenário vigente.

Antes, na CBO de 1994, o profissional bibliotecário aparecia da seguinte forma:

Código CBO: 1-91.20

Título: Bibliotecário

Sinônimos: Responsável de biblioteca Bibliotecário-chefe Bibliotecário de divisão técnica Biblioteconomista Bibliotecônomo Chefe de biblioteca Chefe de biblioteca e documentação científica Chefe de documentação e biblioteca Chefe de documentação e registro Chefe de setor de biblioteca Classificador bibliográfico Coordenador de biblioteca Diretor bibliotecário Diretor de biblioteca Encarregado de biblioteca Supervisor de biblioteca.

Descrição Resumida: Organiza, dirige e executa trabalhos técnicos relativos às atividades biblioteconômicas, desenvolvendo um sistema de catalogação, classificação, referência e conservação do acervo bibliográfico, para armazenar e recuperar informações de caráter geral ou específico, e colocá-las à disposição dos usuários, seja em bibliotecas ou em centros de documentação.

Código CBO: 1-91.90

Título: Outros bibliotecários, arquivologistas e museólogos

Sinônimos: Filmotecário Gerente de divisão de obras de arte Restaurador de livros e documentos Ajudante de documentação técnica Auxiliar de documentalista Auxiliar de museus Bibliotecário tradutor Subchefe de setor de cinemateca Supervisor de controle de volumes

Descrição Resumida: Incluem-se aqui os bibliotecários, arquivologistas e museólogos, não-classificados nas anteriores epígrafes deste grupo de base, por exemplo, os que se especializam na aquisição, avaliação, classificação, compilação e catalogação de documentos sobre assuntos de interesse para organizações comerciais e de outro gênero.

Com as modificações realizadas na CBO publicada em 2003, o profissional bibliotecário passou a figurar da seguinte forma:

2612: Profissionais da informação

2612-05 – Bibliotecário Biblioteconomista, Bibliógrafo, Cientista de informação, Consultor de informação, Especialista de informação, Gerente de informação, Gestor de informação

2612-10 – Documentalista Analista de documentação, Especialista de documentação, Gerente de documentação, Supervisor de controle de processos documentais, Supervisor de controle documental, Técnico de documentação, Técnico em suporte de documentação

2612-15 – Analista de informações (pesquisador de informações de rede) Pesquisador de informações de rede

Descrição Sumária: Disponibilizam informação em qualquer suporte; gerenciam unidades como bibliotecas, centros de documentação, centros de informação e correlatos, além de redes e sistemas de informação. Tratam tecnicamente e desenvolvem recursos informacionais; disseminam informação com o objetivo de facilitar o acesso e geração do conhecimento; desenvolvem estudos e pesquisas; realizam difusão cultural; desenvolvem ações educativas. Podem prestar serviços de assessoria e consultoria. (BRASIL. MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO, 2003)

Teoricamente, já ficou clara a nossa posição… E no dia-a-dia, na prática, estamos mais próximos da História ou da Administração?

Como elaborar referências quando não há diretrizes para sua elaboração na NBR 6023:2002?

Como trabalhei com normatização de livros por alguns anos, sempre recebo consulta de amigos, colegas e alunos sobre o assunto.

Apesar do tema parecer não muito apreciado pelos bibliotecários – e até considerado desnecessário por outros – as normas têm o objetivo de facilitar a comunicação e o entendimento entre leitores, cientistas, cidadãos.

E embora não pensemos muito sobre o assunto, a instituição de normas é necessária em vários cenários sociais, como bem coloca Mattelart (2006, p. 24):

“A norma é tudo aquilo que assegura a integração das partes ao todo. Quer elas sejam de caráter técnico ou comportamental, são as normas e os procedimentos que determinam os critérios de eficiência da organização. Sob o ponto de vista da normatização, não há diferença entre o nascimento da gramática na França do século XVII e a instituição do sistema métrico no final do século XVIII. Richelieu, os convencionais e Napoleão Bonaparte são os instrumentos sucessivos de uma mesma exigência coletiva. Começa-se com normas gramaticais, para concluir com as normas morfológicas dos seres humanos e dos cavalos visando à defesa nacional, passando pelas normas industriais e higiênicas.”.

Bem, as normas são, então, importantes!

Mas encontramos boa parte do que precisamos nas normas de documentação?

Uma das normas que parece trazer mais dúvidas é a NBR 6023:2002. Talvez por ser a mais utilizada e cobrada no meio acadêmico e científico, talvez por haver quase 11 anos de sua última atualização.

Nesse interim, as fontes de informação sofreram mudanças e as normas não foram atualizadas para abrigar minimamente essas alterações.

Apesar de contemplar a elaboração de referência de e-mails (sim, a norma traz esse item explicitamente!), não encontramos nada sobre a elaboração de referências de posts, de blogs e de tweets, por exemplo. Fontes que apesar de informais, vem sendo cada vez mais utilizadas em trabalhos acadêmicos e até científicos.

Não havendo nada na NBR 6023:2002, cabe a cada um adaptar os dados que possui para formar o que considera uma referência aceitável.

Bem, se mesmo com diretrizes teoricamente claras em relação à elaboração de referências de alguns documentos as pessoas já usam sua imaginação [muito fértil, acreditem!] para fazer releituras das regras constantes na NBR 6023:2002, com nada sobre o assunto, a imaginação voa alto!

Sendo assim, nos perguntamos: quando as normas de documentação abrigarão essas fontes de informação, cumprindo o papel que possuem em sua essência?

Embora tenhamos profissionais bem preocupados com a questão e que se empenham em tentar elaborar referências fazendo estudos sérios em cima da NBR 6023:2002, como podemos cobrar a alguém [especialmente, aos alunos, em formação] que sigam fielmente as normas, se elas não estão acompanhando as evoluções documentais?

Como responder: “Professora, como faço referência de um tweet?”.

Minha resposta geralmente começa com “Vamos pensar juntos!”. Daí, levo o aluno a catar uma regra aqui, outra ali, para conseguir elaborar uma referência que, a nosso ver, é aceitável. Afinal, como dar a ele uma “regra pronta”, se ela não existe? E se ele irá terá que refletir para elaborar referências de documentos que a norma não contempla, vamos começar a pensar no assunto desde a graduação…

Afinal, como elaborar algumas referências quando não há diretrizes para sua elaboração na NBR 6023:2002?

É, embora muitos acreditem que a elaboração de referências é algo mecânico, é comum termos que pensar [e muito!]!!!

Referências:
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS – ABNT. NBR 6023: informação e documentação: referências: elaboração. Rio de Janeiro, 2002.

MATTELART, Armand. História da sociedade da informação. São Paulo: Ed. Loyola, 2002.

Concurso para Professor Assistente – Universidade Federal Fluminense

A Universidade Federal Fluminense – UFF abre concurso para professor assistente, nível mestrado,  40h DE

Área: Organização e Representação descritiva da informação em Arquivos e Bibliotecas

As inscrições estão abertas no período de 13/01/2014 a 12/02/2014.

Maiores informações consultar o site da CPD:

https://sistemas.uff.br/cpd/concurso

Consideramos os monumentos documentos?

Embora a profissão do bibliotecário tenha sofrido grandes alterações monumentosBRnos últimos anos, algo que ainda está arraigado a esse profissional é o papel social e cultural que possui.

Durante a graduação, quase todos os bibliotecários leram o texto “Documento/ Monumento”, de Le Goff, onde o autor equipara o documento ao monumento como forma de imortalizar a memória coletiva.

Visto que o bibliotecário, fundamentalmente, trabalha de forma direta com os documentos (embora, infelizmente, poucos os fazem com os documentos de caráter mais histórico), não caberia a esse profissional alguma preocupação/ ação sobre os monumentos?

O que você acha?

Referências
LE GOFF, Jacques. Documento/ Monumento. In: ______. História e memória. 4.  ed. Campinas, SP: Ed. da Unicamp, 1992. p. 535-553.