Eleições 2014 e o desenvolvimento de competências em informação

midia[1]Nunca se falou tanto em informação como nas eleições de 2014. O que isso tem a ver com a Biblioteconomia? Tudo! Principalmente pelas fontes de informação usadas pelas pessoas para a escolha do seu candidato. Mas isso por si só já daria um bom estudo sociológico e político.  Entretanto, o mais triste é ver que as pessoas não sabem de onde vem a informação e vão atrás “apenas” do que a mídia divulga. E sabemos que muitas vezes os meios de comunicação mascaram a informação  de acordo com seus interesses e rios de informações falsas são transmitidos e replicados pela televisão, mídias sociais e bate-papos (ou seriam bate-bocas) nos barzinhos, cafés e esquinas das terras tupiniquins. Não basta mais só desenvolver a competência em debater, discutir, dirigir… É preciso também ser competente em informação.

O termo Competência em informação (information literacy) é algo que surgiu na década de 70 nos Estados Unidos e vem ganhando novos significados, finalidades e está ampliando sua abrangência frente às diferentes habilidades e necessidades no uso de informação, conhecimentos em fontes, recursos, suportes de informação para aplicação na compreensão e disseminação da informação visando à construção e compartilhamento do conhecimento.

A ALA (2000), Caregnato (2000), Dudziak (2003), Campello (2003), IFLA (2008), UNESCO (2008), Vitorino e Piantola (2009), Belluzzo (2010), Gasque (2013) são algumas referências nacionais e internacionais que apresentam reflexões, discussões e diretrizes sobre competência em informação.

Mas o que isso tem a ver com as eleições e atual movimento político do nosso país? É premente observar que a IFLA responsabiliza os bibliotecários ao propor que devemos planejar e implementar ações que desenvolvam a competência nas pessoas. “O desenvolvimento da competência em informação deve ter um lugar durante toda a vida dos cidadãos e, especialmente, em seu período de educação, momento em que os bibliotecários, como parte da comunidade de aprendizagem e como especialistas na gestão da informação, devem ou deveriam assumir o papel principal no ensino das habilidades em informação” (IFLA, 2008, p. 4).

Porém, eu vou além, defendo que pensar e planejar ações que visam desenvolver a competência (CONHECIMENTO + HABILIDADE + ATITUDE) em informação deve ser de responsabilidade dos bibliotecários em conjunto com seus pares, entidades de classe, educadores e outros profissionais afins. Desta forma, a população estaria preparada para saber buscar/usar/avaliar/selecionar uma informação em tantas fontes e recursos disponíveis para poder interpretar, sintetizar, resumir, construir novos conhecimentos e mudar o contexto em que vivem e as mudanças que desejam para sua vida, sua família, seu bairro e seu país.

Neste bojo, se apresenta a necessidade da aprendizagem contínua que Dudziak (2003), Gasque (2013) e outros pesquisadores defendem baseados nos quatro pilares da Educação para o século XXI “aprender a conhecer, aprender a conviver, aprender a fazer, aprender a ser” publicadas no relatório “Educação: Um tesouro a descobrir” organizado por Jacques Delors (1996) a pedido da UNESCO.

Mas por que as pessoas precisam saber buscar/usar/ avaliar/selecionar uma informação?  Para ter o PODER. Simples assim. O poder de conhecer para fazer escolhas. O poder de avaliar para discernir o que é verdade e o que é falso. O poder de saber para ter argumentos. Desde antes do tempo do “guaraná de rolha” se ouve por aí que “informação é poder”. Vários autores da Ciência da Informação tratam disso no livro “Informação, conhecimento e poder: mudança tecnológica e inovação social” organizado por Maria Lucia Maciel e Sarita Albagli (2011) demarcados pela “Sociedade da Informação e do Conhecimento”.

Escritores, médicos, pensadores, filósofos, sociólogos, administradores, professores, jornalistas também retratam a importância do PODER e da INFORMAÇÃO. Gilberto Diemstein uma vez falou em uma palestra “Só existe opção quando se tem informação… Ninguém pode dizer que é livre para tomar o sorvete que quiser se conhecer apenas o sabor limão”. Na mesma linha John Naisbitt  defende que “A nova fonte de poder não é o dinheiro nas mãos de poucos, mas informação nas mãos de muitos”. Conan Doyle dizia “É um erro terrível teorizar antes de termos informação”. E pra finalizar Peter Drucker afirma que “O conhecimento e a informação são os recursos estratégicos para o desenvolvimento de qualquer país. Os portadores desses recursos são as pessoas”.

É nesta conjectura estratégica que enquanto cidadãos precisamos estar atentos. É necessário conhecer e buscar a informação em FONTES FIDEDIGNAS E CONFIÁVEIS baseadas nos FATOS e na HISTÓRIA para votar e eleger nossos representantes políticos. Afinal de contas, somos responsáveis não somente por quem votamos, mas em acompanhar e cobrar as ações propostas depois da eleição também. Daí a importância do PODER e de buscar informações confiáveis antes, durante e depois das eleições.

Por isso, nós bibliotecários temos uma responsabilidade grande em desenvolver ações em nossas escolas, universidades, comunidades, instituições, etc. para que as pessoas desenvolvam as competências em informação necessárias para refletir, decidir, escolher seus representantes nestas eleições, mas baseados em fontes de informação e fatos verídicos que permeiam a história política do país e devem sedimentar nossas escolhas. Afinal de contas, o PODER está em nossas mãos (ou dedos nas urnas).

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O que mudou um ano depois do marco zero?

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Dia 31 de março de 2013 foi anunciado pela Library of Congress como marco zero (ou dia zero) em que todos os registros criados por seus catalogadores serão inteiramente baseados na RDA. Entretanto, essa mudança implica abandonar alguns princípios para que seja adotado um novo modelo conceitual baseado em entidades, relacionamentos e atributos alterando aspectos que interferem no nosso fazer profissional.

Um ano se passou e já conseguimos perceber algumas poucas, mas significativas mudanças. Contudo, é preciso estar atento, pois surgiram empresas querendo tirar proveito da falta de conhecimento dos bibliotecários e gestores de bibliotecas para vender soluções e porções mágicas para converter os registros antes catalogados de acordo com o AACR para o RDA. Vejam esse anúncio, por exemplo, da empresa RDA Express.

É importante saber que apesar do RDA ser lançado em 2010, vem passando por atualizações e testes em várias instituições, sendo que a próxima grande atualização está marcada para 22 abril desse ano conforme site oficial do RDA.

No site do RDA aparecem as instituições que já implementaram RDA para a catalogação entre elas Biblioteca Nacional da Austrália, Biblioteca Nacional de Conselho de Cingapura, Biblioteca Britânica, Cambridge University Library, Universidade de Warwick, Biblioteca do Congresso, National Agricultural Library, National Library of Medicine, Brigham Young University, Universidade de Stanford, Universidade de Chicago espalhadas por Austrália, Cingapura, Reino Unido, Inglaterra, Estados Unidos.  Tem várias outras implementações acontecendo como na Biblioteca Nacional do Canadá, na Holanda, Nova Zelândia, Filipinas, Escócia, entre outras. Para facilitar isso, em 2011, foi criado o RDAToolkit como plataforma para implementação do novo código, onde o interessado deve fazer uma assinatura para ter direito a licença de uso.

Isso tudo mostra que os bibliotecários precisam acompanhar as novidades em relação ao RDA para não perderem oportunidades ou terem prejuízos, seja em eventos, leitura de publicações ou mesmo nas mídias sociais como o grupo chamado Catalogação e Metadados do facebook. Além disso,, o bibliotecário e doutorando Fabrício Assumpção e o bibliotecário da UCS Marcelo Votto são exemplos de jovens profissionais que estão estudando/atuando em pesquisas e aplicações sobre RDA hoje no Brasil e disseminando as novidades e tendências sobre o novo código e seus modelos conceituais. Ana Carolina Siomionato, faz doutorado na UNESP e atualmente professora colaboradora na UEL também é outro exemplo de uma jovem pesquisadora da área. Quem quiser conhecer mais sobre RDA, procure pelo nome desses bibliotecários no slideshare que aparecerão várias palestras e apresentações deles por todo país.

Fabrício além de estudar aspectos que envolvem essa temática no mestrado, ministra um curso sobre as tendências da catalogação pela empresa Content Mind e em seu blog atualiza informações sobre o assunto sugerindo bibliografias para quem quiser se aprofundar.

Antes deles, a professora Plácida L. V. A. da Costa Santos, da UNESP, já vinha pesquisando a temática, inclusive orientou Rosa Maria Rodrigues Corrêa na dissertação do mestrado finalizada em 2008. O professor Fernando Modesto, da USP, também pesquisa há alguns anos o surgimento e evolução do novo código de catalogação. Existem vários outros pesquisadores no país, mas fiz um pequeno recorte de alguns que venho acompanhando para me atualizar sobre esse assunto.

O importante é saber que, assim como ocorreu com o AACR que evoluiu desde 1967 até o surgimento das discussões em torno do RDA em meados de 2003 durante a II Conferência de Paris, ocorrerá o mesmo com o novo código visto que trata-se de um trabalho coletivo envolvendo várias instituições de diferentes países que estão adaptando, testando, ajustando, etc.

Sobre o idioma,  o RDA está sendo traduzido para francês e alemão, sendo que o chinês e espanhol estão em andamento, mas não há previsão para o lançamento. No Brasil, além da UCS que está em fase de testes com o FRAD no Pergamum, não há mais nenhuma instituição (a não ser que estejam fazendo sem divulgar). O RDA ainda não foi traduzido para o português e há dúvidas entre os analistas e proprietários de empresas de softwares para automação de bibliotecas no Brasil, principalmente em relação ao formato, pois o mesmo é compatível com Dublin Core e com o MARC. Imagina-se que por isso não exista oficialmente nenhuma instituição no Brasil implementando o RDA, pelo menos foi essa informação discutida no II ENACAT junto ao Encontro Internacional de Catalogadores, ocorrido no Rio de Janeiro em novembro passado.

Paralelo às publicações sobre o assunto, o bibliotecário deve buscar capacitação para o entendimento dos novos instrumentos de descrição, padrões de metadados como Dublin Core, MODS, modelos conceituais (FRBR, FRAD, FRSAD), linguagem XML adotada para o intercâmbio de dados na Web, pois serão eles que nortearão os trabalhos dos bibliotecários com a implementação do novo código no século XXI.

Contudo, é importante esclarecer que como estamos em fase de testes e mudanças, tem outras tecnologias sendo estudadas para atender a demanda de descrição, representação e recuperação de objetos digitais visando promover o relacionamento entre esses itens, independente de sua manifestação, como os projetos de Linked Data que permitem a interoperabilidade e interligação entre dados em bibliotecas, museus e arquivos conforme Professor Marcondes, da UFF, explica. Além disso, tem as iniciativas relacionadas ao BIBFRAME, iniciativa da Library of Congress, que fornece uma base para descrição bibliográfica na web.

Por isso e tudo mais que percebo as áreas de descritiva (catalogação) e temática (indexação) estão cada vez mais próximas, principalmente no que tange à web semântica  e tudo que ela pode contribuir para a organização e representação de conhecimento.  Daí a necessidade do bibliotecário estar atualizado sobre essas tendências para se apropriar desses conceitos e se inserir nessa discussão.

OBS: Imagem tirada do blog do Fabrício Assumpção.

O poder do biblio bloc

No ensejo do movimento Black Bloc, fenômeno tão falado no Brasil recentemente, mas que eclodiu em meio a rebeliões populares que ganharam visibilidade na Alemanha dos anos de 1980, fiquei pensando no surgimento do Biblio Bloc, um agrupamento de sujeitos ligados à Biblioteconomia que agissem contínua e conjuntamente em prol da valorização de nosso campo profissional. Entre as intervenções possíveis, a promoção de manifestações públicas engajadas em requerer das instâncias políticas e de mercado melhores condições de trabalho, bem como uma maior inserção social dos bibliotecários nos diversos segmentos ligados à informação e ao conhecimento.

Está na hora pessoal! Vamos aproveitar as comemorações alusivas ao nosso dia e acordar o gigante que existe em nós. Vamos nos unir e, a exemplo dos Black Blocs, instaurar um movimento contra a acomodação que paira sobre nossa classe profissional. Questionar a ordem estabelecida é mais produtivo que ficar reclamando do chefe, do salário, da empresa, do sindicato, do conselho, da associação, dos professores e dos cursos de formação universitária. Sem desconsiderar a carga de responsabilidade que perpassa cada um desses núcleos, faz-se necessário ter clareza que a mudança desejada cabe aos bibliotecários, exclusivamente a eles. Isso porque, a mudança que se reivindica nasce no comportamento, na atitude que ampara nossa identidade profissional. Identidade que se reforça e se dá a ver em momentos de socialização e compartilhamento de ideias, seja em uma caminhada em prol do dia do bibliotecário, seja na mesa do BiblioChopp ou mesmo em uma tarde de contação de histórias no parque visando incentivar o gosto pela leitura das crianças. Ações simples, mas que reforçam a velha máxima segundo a qual o que vale é a atitude, a paixão pelo que fazemos e aquilo que faz o coração bater mais forte e que nos leva a sair da zona de conforto instituída por nós e para nós.

Nesse sentido, ao contrário de promovermos danos materiais e a depredação de órgãos públicos e privados como os Black Blocs, vamos usar nossa principal arma: a INFORMAÇÃO. O Black Bloc tem por vocação ideológica questionar a ordem vigente, então vamos nos apropriar dessa concepção para requerer que nossos espaços de atuação sejam respeitados e ampliados, mas de uma forma pacífica e legal. Devemos, pois, lutar pela validação da Lei 12.244, da 12.527 e de tantas outras ainda estão em tramitação no legislativo. Agindo assim, o Biblio Bloc não precisará manter-se no anonimato e nem realizar ataques diretos aos símbolos capitalistas para chamar atenção e protestar como fazem os Black Blocs, basta que MOSTREMOS NOSSA CARA, que deixemos claro o que somos capazes de fazer para melhorar o acesso, a recuperação e a disseminação da informação. Mas lembrem-se bibliotecários: a mudança tem que ser de dentro para fora e não pode ser afetada por instituições ou discursos que não preconizam ações efetivas. Juntos somos mais fortes e precisamos acreditar nisso!
Áh! E Feliz Dia do Bibliotecário para nós!