Por uma pedagogia da descoberta

A escola mata a descoberta. Ela entrega o conhecimento pronto em um currículo, definido de acordo com aquilo que é considerado por autoridades como conhecimento válido, todo o resto é excluído.

O que há nesse “resto”?  Toda  a experimentação, o conhecimento informal, aprendido nas vivências, os saberes tradicionais, transmitidos pelos mais velhos e a descoberta.

A serendipidade (o princípio da descoberta) só existe quando há liberdade de escolha por caminhos diferentes e aleatórios. A descoberta se dá, principalmente, quando não estamos procurando exatamente aquilo. Esse processo, que não pode ser controlado, é inexistente na grade escolar. Na escola somos todos considerados incompetentes para adquirir nosso próprio conhecimento. E nunca somos estimulados à fazê-lo.

A palavra serendipidade surgiu em referência a um antigo conto persa sobre os três príncipes de Serendip. Em suas aventuras eles viviam se deparando com situações inusitadas e fazendo descobertas ao acaso, encontrando respostas para questões que eles sequer haviam feito. Tinha um pouco de sorte envolvida, mas era a sagacidade dos meninos, um toque genial de mentes abertas para a descoberta, que realmente operava a magia.

Essa qualidade da descoberta não é de forma alguma privilégio de mentes superiores. É uma habilidade e um posicionamento, uma forma de ver o mundo, disponível para qualquer pessoa.

Bibliotecas são um excelente lugar para o exercício de serendipidade e nas escolas elas ficam isoladas das pessoas, que mal as frequentam nos intervalos das aulas. Temos alguma contação de história, mas livros previamente escolhidos. Mesmo quando eles não são previamente escolhidos, raramente é o acervo todo ofertado à escolha e, mesmo que fosse, ainda assim seria apenas uma atividade controlada, algum livro teria de ser “o escolhido”, os outros permanecerão inertes nas estantes.

Em geral é proibido (ou vigiado) andar entre as estantes a procura de livros que não se sabe ainda quais são. Isso é feito em nome da “ordem” que sempre vem de cima, e está sempre acima da vivência, pairando sobre ela, limitando suas possibilidades libertadoras.

Há um tipo de acesso à biblioteca, que é transversal, não linear, baseado quase que puramente na serendipidade. Ao conduzir uma leitura, indo de um texto à outro, colecionando trechos diferentes de cada livro sobre determinado assunto, eu estou praticando a descoberta. Aliás foi essa prática que desenvolveu a ciência como hoje a conhecemos e o acesso não linear a uma coleção de livros foi o embrião do hipertexto.

Essa forma de utilizar acervos surgiu lá na antiguidade e se tornou evidente na Biblioteca de Alexandria. Foi responsável pelo desenvolvimento da filologia, da geografia, da matemática, da astronomia, da medicina, da poesia, da filosofia, da história e de muitas outras ciências e saberes.

A serendipidade foi a maior consequência de se acumular livros em uma sala. Isso desenvolveu toda uma economia e ergonomia do saber: o surgimento da paginação, da referência, da citação, da glosa, do colofão, dos sumários, dos resumos, das bibliografias, dos catálogos, das resenhas… Todas essas formas de diálogo entre livros, escritores e leitores.

Uma biblioteca nunca é a mesma para duas pessoas praticando a descoberta. As escolhas, mais ou menos aleatórias, de livros formam caminhos, percursos diagonais, transversais, paralelos, pela coleção toda. O prazer de percorrê-los é como o prazer do desconhecido, é desbravar os universos não domesticados do saber. E é possível reiniciar muitas vezes o processo, sempre com resultados inusitados.

A autonomia de percorrer estantes, pegar livros, ler um trecho, procurar outro livro, compará-lo com um terceiro, pegar uma enciclopédia e, partindo de um verbete qualquer, buscar outras fontes, é o principio do amor pela pesquisa e do autodidatismo. São qualidades fundamentais para o pensamento livre e crítico.

Não provoca nenhum espanto a pouca valorização das bibliotecas e da leitura nos dias de hoje. É um reflexo do que a educação faz com a descoberta. Em tempos em que a homogeneidade de ideias, comportamentos e atividades e a obediência a regras, controles e currículos é o que está nas bases da educação, é bastante esperado que as capacidades revolucionárias e libertadoras das bibliotecas sejam caladas.

A busca por uma forma de educação livre passa pelo resgate da descoberta como veículo da potência humana. A serendipidade em substituição à rigidez curricular. É aí que está a importância esquecida das bibliotecas!

Em uma pedagogia da serendipidade, a descoberta é o centro do aprendizado e  a biblioteca é o coração da escola.

Bibliotecas como comunidades de aprendizagem e espaços de trabalho coletivo

Uma das tendências na educação que tem despertado muito interesse atualmente é a aprendizagem por projetos. Iniciativas como a famosa Escola da Ponte, em Portugal, ou as brasileiras: Projeto Âncora (Cotia/SP) e a escola municipal Amorim Lima (São Paulo), entre tantas outras, vêm revolucionando o conceito de espaço de aprendizado. São escolas sem paredes, sem aulas, sem currículo, onde os alunos aprendem de acordo com projetos propostos por eles mesmos, com professores convidados para facilitar a aprendizagem. A ausência de séries e de diferenciação por idades, possibilita que alunos mais experientes ensinem os novos, numa constante colaboração, onde a figura do mestre e a participação dos alunos são totalmente ressignificadas.

Paralelamente, as tendências mais avançadas da gestão de pessoas no mercado corporativo têm reconhecido o valor da colaboração e da criatividade, no lugar dos conceitos velhos e batidos de competição e produtividade. Espaços de coworking se espalham pelas cidades, geralmente associados ao empreendedorismo.

E nossas bibliotecas, em especial as públicas e comunitárias? O que estão fazendo com essas novas conjunturas?

Na teoria, poucos discordam do fato de que a biblioteca como santuário do silêncio é um conceito ultrapassado. Mas quantas de nossas instituições realmente projetam espaços apropriados para o encontro, para a troca, para a cooperação?

Nesse aspecto, temos muito o que aprender com os modelos acima. Que tal seria uma biblioteca que funcionasse facilitadora das atividades de aprendizado em suas comunidades? Que, para além da curadoria de conteúdos para usuários específicos, servisse como curadoria e ambiente para experimentações diversas? Que, reunindo as pessoas interessadas em um mesmo tema, possibilitasse os espaços e recursos para que, juntas, elas desenvolvessem seus estudos?

A promoção de grupos de estudos livres, na biblioteca, que envolvesse o planejamento, divulgação, suporte para a realização dos encontros e inclusive o registro desses estudos e o encaminhamento desse material em produtos, como publicações, gravações em áudio ou vídeo, com os resultados práticos dessas pesquisas.

Não é difícil imaginar a miríade de interesses que surgem em qualquer aglomerado humano e as possibilidades de desenvolvimento de quaisquer deles. Talvez seja difícil vencer o preconceito com alguns desses interesses, ou a inércia do profissional, mas as possibilidades são inegáveis, em em todos ambientes.

Uma biblioteca comunitária em uma favela tem uma riqueza tão grande de questões e sonhos para trabalhar como qualquer biblioteca universitária, ou escritório de multinacional (provavelmente muito mais!).

Temas para estudo não faltam: a polêmica da novela pode formar um grupo para a discussão de ética, o hip-hop desperta um interesse natural por música e por poesia, o funk facilmente formaria um grupo de dança. Grupos de culinária poderiam trocar receitas e promover jantares. Professores poderiam ser convidados, trazendo uma nova perspectiva para cada assunto.

No grupo de construção civil, convidados poderiam ensinar técnicas de bioconstrução, como aproveitamento da água da chuva e do calor do sol, geração de energia sustentável, etc. O laboratório poderia ser as próprias moradias dos participantes. O grupo de culinária poderia aprender mais sobre alimentação saudável, autonomia alimentar, hortas coletivas. As possibilidades são infinitas.

Por que a biblioteca seria o espaço ideal para incubar essas iniciativas?

Essa pergunta poderia ser feita de outra forma: Que outro espaço poderia ser melhor que uma biblioteca para essas atividades? Bibliotecas precisam conhecer as comunidades que atendem. Precisam saber de suas preferências, desejos e sonhos. Bibliotecas são centros de informação com profissionais capazes de providenciar os recursos necessários para cada atividade de estudo. Bibliotecas se preocupam com o empoderamento das pessoas, têm por missão a promoção da autonomia e da cidadania.

Colaboração e comunidades de aprendizagem não são conceitos novos em bibliotecas. Algumas há tempos vêm inovando nessa direção, como as bibliotecas parque.  Vamos junto(s)?

Os caminhos do mercado editorial

O mercado editorial tem suas peculiaridades, que o transformam num negócio lucrativo para poucos. Poucos editores, poucos escritores. Mas há formas muito criativas de publicar livros fora do sistema fechado das grandes editoras e com pouco, ou até nenhum, recurso.

De saída, uma editora precisa ter capital suficiente para segurar um possível fracasso de vendas. São muitos os gastos do processo editorial, inúmeras revisões, provas, projetos gráficos de editoração, estudos de capa, plano de marketing, reuniões, impressão, distribuição, eventos de lançamento… E, no processo tradicional, todas essas etapas ocorrem antes de qualquer exemplar ser vendido.

Só isso já limita muito as escolhas das editoras: publicar apenas textos que tenham um bom prognóstico de vendas. E o maior indicador desse prospecto é, via de regra, a fama e aceitação do autor. Há outras variáveis, como o assunto do livro, uma boa campanha publicitária, mas o principal medidor do sucesso são os sucessos pregressos do autor. Isso gera um sistema fechado, onde editoras tem suas “carteiras” de autores, mais ou menos respeitados, que seguram as vendas, com pouco ou nenhum espaço para novos talentos.

Quem publica Paulo Coelho, até pode se arriscar a publicar alguns autores menos conhecidos, com as vendas de um best-seller segurando uma possível jogada errada. Mas, em geral, quem já tentou submeter originais para análise de grandes editoras já está bastante acostumado com as respostas pouco pontuais e evasivas: “no momento não estamos aceitando novos projetos”, ou “o texto não se encaixa em nossa política editorial”, e coisas do gênero. Se o assunto abordado no livro for polêmico então, a rejeição é quase certa.

Mesmo com o desenvolvimento das técnicas gráficas, que barateou o custo para pequenas tiragens, possibilitando inclusive a impressão sob demanda, os critérios de seleção de originais das grandes editoras continuam os mesmos.

Essa rigidez do mercado tradicional de livros estimulou a dinâmica das editoras independentes. Pequenas editoras, em geral sem parque gráfico ou com processos artesanais de impressão, encadernação e acabamento, ganharam terreno publicando textos de autores desconhecidos e de assuntos pouco explorados pelo mercado.

A Deriva é uma editora anarquista de Porto Alegre, que publica livros com temática libertária e anarquista.
A Deriva é uma editora anarquista de Porto Alegre, que publica livros com temática libertária e anarquista.

Há uma grande profusão dessas editoras, desde aquelas que publicam o que aparecer, oferecendo serviços e vendendo a possibilidade do autor de primeira viagem ter um livro publicado, para vender ou presentear parentes, amigos e colegas de trabalho, até editoras altamente especializadas em algum nicho, que selecionam publicações com critérios bem definidos.

A Escândalo é de Sampa e publica literatura homoafetiva.
A Escândalo é de Sampa e publica literatura homoafetiva.

Para resolver em parte o problema de financiamento dos projetos (mesmo com tiragens pequenas, os custos pré-impressão do livro são os mesmos), muitas editoras independentes recorrem a leis de incentivo cultural, como a lei rouanet, ou participam de editais diversos de fomento cultural, lançados normalmente pelo governo.

Uma das saídas mais criativas e que tem apresentado os melhores resultados  é o crowdfunding. Nessa estratégia, a editora (ou o próprio autor) lança uma campanha publicitária, principalmente nas redes sociais, para levantamento de fundos para seus projetos editoriais, algo como uma “compra antecipada”. Quem tiver interesse, “ajuda” o projeto e depois de atingida a meta, começa o processo de publicação. Após a publicação são enviados exemplares e outros prêmios (conforme as cotas de contribuição) para aqueles que contribuíram. É um bom método também para sondar o interesse que o livro desperta nos leitores e para vender outros produtos associados (posteres, botons, camisetas, edições de luxo). Há previsões de que, em breve, essa será uma forma determinante de publicar livros.

A Fantagraphics, uma importante editora de HQs, saiu do vermelho através de uma grande campanha de crowdfunding.
A Fantagraphics, uma importante editora de HQs, saiu do vermelho através de uma grande campanha de crowdfunding.

Na ponta extrema do mercado editorial, estão as minúsculas editoras artesanais, cujo grande diferencial está no acabamento quase personalizado dos livros, com encadernações feitas à mão, tiragens bem pequenas (50 exemplares é um número grande) e muitas vezes numeradas. O conteúdo geralmente é produzido por escritores locais, geralmente literatura e poesia, e a distribuição pula as livrarias, normalmente sendo feita em contato direto com o leitor, em eventos ou através da internet, utilizando as redes sociais para divulgação.

Ainda mais ao sul do espectro editorial (quase fora dele), encontramos os fanzines (zines, para os íntimos) e as editoras cartoneras (papeleiras). Essas são as formas mais alternativas de publicação. E também são aquelas que mais se encontram abertas para autores, assuntos e expressões que raramente têm espaço em outros processos editoriais.

Alguns fanzines no Festival Faça Você Mesmx - Zine Festival, em Porto Alegre.
Alguns fanzines no Festival Faça Você Mesmx – Zine Festival, em Porto Alegre.

O custo de produção de um zine é quase nenhum e seu alcance de distribuição é bastante reduzido. Geralmente se limita à região geográfica onde foi produzido. Existem diversas formas de produzir zines, muito facilitadas pelos softwares de editoração, mas a clássica é a colagem de imagens recortadas de revistas ou desenhadas pelos próprios autores, aliadas a textos, geralmente com intenção política, mas também poética, em folhas A4 dobradas ao meio e depois reproduzidas em fotocópias. Em geral têm poucas páginas (de 4, até 20, 30, páginas, quando muito).

Zines foram muito associados ao movimento punk e ao anarquismo, com a ideologia do “faça você mesmo” (do it yourself, ou DIY) e servem para passar um recado rápido, comentar acontecimentos políticos, convocar protestos, indicar bandas de rock, listar cooperativas de consumo solidário, satirizar autoridades e outras questões bem locais. Também são um canal aberto para expressões artísticas pouco convencionais em poesia e artes visuais. Diversos desenhistas e roteiristas de história em quadrinhos, hoje famosos, começaram como zineiros.

A troca de zines sempre foi a principal forma de distribuição e circulação. Muitos zines viajavam entre cidades, estados, países e continentes através dos correios. Atualmente a web e as redes sociais facilitam muito esse intercâmbio, por meio das muitas redes de distribuição de zines. Na cultura dos zines, dinheiro e direitos autorais normalmente não são uma preocupação, então, zines são impressos diretamente por qualquer um, distribuídos de graça ou a preço de custo, tendo como objetivo apenas a disseminação dessa forma de expressão.

Livros da editora Olga Cartonera, de Santiago, Chile.
Livros da editora Olga Cartonera, de Santiago, Chile.

Já as editoras cartoneras são editoras artesanais que trabalham com papel reciclado, capas de papelão, e outros materiais coletados do lixo. Em geral elas tem um projeto social e se envolvem diretamente com as comunidades de catadores de papel, desde a compra do papel, até a participação da comunidade na feitura dos livros, com capas pintadas à mão pelas crianças da comunidade e encadernações artesanais costuradas por senhoras idosas em oficinas abertas. Os livros produzidos assim tem baixíssimo custo e alto valor social agregado. Os conteúdos geralmente são de autores locais de poesia e literatura. São livros muito bonitos, feitos de forma rústica, com tiragens muito pequenas.

As editoras cartoneras, que começaram na Argentina há poucos anos, estão se disseminando rapidamente pelo mundo todo, com o objetivo de produzir livros baratos, com os excedentes da sociedade de consumo e incluindo comunidades vulneráveis nos processos de produção e fruição de bens culturais.

Esse foi um panorama bem simplificado do leque de opções editoriais que temos atualmente. Existem outras opções, como a contratação de agentes editorias e  profissionais específicos para cada etapa do processo.

Voltarei à esse assunto em breve, com o histórico das editoras cartoneras e suas aspirações e com as possibilidades de empregar uma ou mais dessas modalidades editoriais como ação cultural nas bibliotecas públicas e comunitárias.

Como identificar os potenciais de sua comunidade

O que a história do jazz e do blues, Violeta Parra e Páez Vilaró podem ensinar aos bibliotecários…

Seguindo com a série sobre o desenvolvimento de atividades editoriais em bibliotecas públicas e comunitárias.

No primeiro post, abordei algumas razões para bibliotecas desenvolverem alguma atividade editorial. Longe de esgotar esse assunto, apenas ressaltei aqueles motivos que considero cruciais para a missão das bibliotecas públicas e comunitárias:

  • o empoderamento da comunidade;
  • o resgate da cultura popular; e
  • o reconhecimento dos talentos escondidos e esquecidos na comunidade.

Agora vou falar sobre a identificação das pessoas que serão a nova “coleção” dessas bibliotecas.

Não há como resolver esse problema apenas abrindo inscrições e esperando interessados. Em geral as pessoas que têm as melhores histórias, aquelas que guardam os registros culturais mais autênticos, sequer sonham que esse material tenha algum valor.

Em nossa sociedade, infelizmente, a cultura popular só ganha valor quando algum grande nome da música, artes plásticas ou cinema resolve resgatá-la (e diluí-la, na maioria das vezes) em suas obras. E nesse ponto deixa o âmbito onde foi criada e, transformada em produto, ganha valor comercial, vira concerto, álbum, mostra em museus, item de leilão, cartaz em cinema… E quantas manifestações genuínas e ricas de nossa cultura se extinguiram aguardando a “descoberta”!!!

Então, como nós bibliotecários poderíamos descobrir esses verdadeiros tesouros e legitimar sua importância para a sociedade e, principalmente para as próprias pessoas que os produzem e transmitem?

Esse não é um papel novo em bibliotecas! As bibliotecas nacionais costumam organizar o acervo cultural de seus países e algumas dedicaram esforço para documentar a cultura popular, com o principal foco no registro e resgate da identidade histórica da nação.

Dessas eu destaco o exemplo mais emblemático, por dois motivos: primeiro pela iniciativa ter partido da maior biblioteca que já existiu, a Biblioteca do Congresso dos EUA (o que diz bastante sobre a importância desse resgate), o segundo motivo é que o projeto envolveu a documentação e o resgate do blues e do jazz, e eu sou fã de blues e jazz!

John Lomax e seu filho Alan, dois antropólogos, dedicaram suas vidas a explorar e documentar a música folclórica nos Estados Unidos e em diversos outros países.  Das inúmeras expedições pelos confins dos EUA, procurando músicos populares e menestréis errantes (documentando o impressionante acervo de gravações folclóricas que compõe o Archive of American Folk Song), talvez o mais importante trabalho dos Lomax tenha sido o registro das canções dos negros do país, feito entre 1933 e 1942, sob encomenda da Biblioteca do Congresso.

Equipamento de gravação no porta malas do carro de John Lomax
Equipamento de gravação no porta malas do carro de John Lomax

Essa coleção permitiu traçar a história da música negros dos EUA, precursora do blues, do jazz, do rock e da música pop, resgatar canções que hoje são conhecidas mundialmente e projetar artistas que, de outra forma, permaneceriam no ostracismo da pobreza, racismo e exclusão social.

Para conseguir esse feito, os Lomax não lançaram editais convocando músicos negros para gravarem suas canções. Não publicaram anúncios no jornal e esperaram. Foram atrás desses artistas nos lugares onde eles estavam, conversaram com cada um deles, entrevistaram, registraram suas duras trajetórias de vida e gravaram pessoalmente suas canções.

E onde encontrariam músicos negros e pobres naquela época? Geralmente nas prisões dos estados do sul do país! Marginalizados, os negros pobres dessa época e especialmente os músicos, eram presos por muito pouco. Nessas prisões, e também em bares, zonas rurais e guetos urbanos, John e Alan Lomax descobriram músicos como Leadbelly, Muddy Waters, Woody Guthrie, Big Bill Broonzy, Bessie Jones, Kelly Pace e muitos outros. Os que estavam presos ganhavam a liberdade com acordos entre Lomax e os diretores das penitenciárias, alguns seguiram carreiras internacionais a partir de então.

Voltando para nossas bibliotecas, você talvez diria: “Mas Derbi, eles tinham a maior biblioteca do mundo financiando essas expedições! Nós, aqui na biblioteca do bairro, mal conseguimos comprar um computador!”. E você tem razão. Por isso tenho outro exemplo para ilustrar como algo parecido pode ser feito, sem um orçamento gigante, ou mesmo sem qualquer orçamento…

Violeta Parra, compositora e cantora, saiu cedo na vida, violão embaixo do braço, percorrendo as bucólicas paisagens rurais e as difíceis cordilheiras do Chile, em busca daqueles músicos que conheciam as canções folclóricas, transmitidas pela tradição oral. Por ter tomado para si essa missão, é considerada a fundadora da música popular chilena. Começou pobre, estudou até o segundo ano do secundário e largou os estudos para poder ganhar a vida. Também é considerada a mãe das canções de protesto e suas músicas foram gravadas por gente como Milton Nascimento e Mercedez Sosa, Elis Regina , Joan Baez e muitos outros (para saber mais sobre essa heroína latino-americana, recomendo o filme Violeta se fue a los cielos).

Cena do filme "Violeta fue a los cielos" sobre a vida de Violeta Parra
Cena do filme “Violeta fue a los cielos” sobre a vida de Violeta Parra

Mas não vamos restringir os exemplos ao resgate da cultura musical, cito aqui uma passagem da história do grande pintor uruguaio Carlos Páez Vilaró, muito conhecido pela Casa Pueblo, a “escultura habitável”, em Punta Ballena, no Uruguai. No começo de sua carreira, nos anos 40, Páez Vilaró viveu em um cortiço de negros chamado Mediomundo, em Montevidéu. Ali se apaixonou profundamente pelo candombe, uma tradição popular de origem africana. Nesse período produziu inúmeras obras retratando o candombe e o cotidiano dos moradores do Mediomundo.

Cortiço Mediomundo, de Páez Vilaró
Cortiço Mediomundo, de Páez Vilaró

Mais tarde, quando convidado para expor essas obras em uma exposição fechada para os europeus, Páez Vilaró recusou o convite, respondendo que, se quisessem conhecer o cortiço, que viessem ao cortiço. Daí surgiu uma exposição única, que trouxe a Europa para o cortiço!

Com telas penduradas nos varais de roupa e nas entradas das casas, o mundo se encantou com a vida dessa comunidade afro-castelhana. Isso trouxe aos protagonistas da cultura do candombe um reconhecimento que até então nunca tiveram, inclusive evitando o despejo planejado pelas autoridades e garantindo o direito a uma moradia digna (embora o prédio histórico tenha sido demolido posteriormente). Hoje o candombe é um patrimônio imaterial uruguaio comparado ao carnaval brasileiro.

O que pretendo demonstrar com os exemplos acima é que, em todos os casos, a ação intensa de convívio possibilitou o resgate e a valorização de um ativo cultural que estava até então escondido, abafado, fadado a desaparecer na crescente alienação provocada pela massificação da cultura. Os próprios artistas e comunidades ganharam uma nova consciência do valor daquilo que faziam cotidianamente, logo, de seus lugares no mundo.

Assim, o menestrel que cantava notícias por onde passava em forma de proto-blues, o peão da fazenda que marcava o ritmo da pesada rotina nos campos de algodão com canções de trabalho ancestrais, ensinadas por seus pais, a senhora que animava as festas da família com melodias de seus antepassados Mapuches nos Andes Chilenos, o povo do cortiço, que viu suas vidas refletidas nas pinturas, todos e cada um imediatamente se identificou com suas raízes e percebeu o quanto aquilo era importante!!!

Da mesma forma podemos fazer isso em nossas bibliotecas, pelas comunidades que atendemos. Estamos preparados para isso? Provavelmente não! Mas Violeta estava? Hoje não precisamos cruzar desertos e cordilheiras para realizar essa proposta, mas ainda temos penhascos de desigualdade e de preconceito para superar. Também temos toda sorte de recursos educativos e apoio de pessoas especializadas para nos ajudar nesse difícil e longo caminho.

Mas onde procurar? Em todos os lugares! Mas certos locais e eventos são mais propícios a revelar talentos e histórias impressionantes.  Alguns passos para iniciar essa aventura:

  • Fortaleça os laços da biblioteca com associações de moradores, participe de reuniões, saiba dos problemas da comunidade;
  • Proponha atividades da biblioteca em eventos das igrejas e terreiros do local. Construa esses eventos junto com as lideranças desses espaços, aceite as propostas, respeite as preferências e decisões sobre essas ações;
  • Desenvolva alguma atividade da biblioteca nas ruas. Pode ser uma biblioteca itinerante no porta malas de um carro, uma feira de trocas, uma bicicloteca…;
  • Crie uma banquinha da biblioteca nas feiras da comunidade. Faça contação de histórias, ofereça empréstimos… frutas e verduras costumam ser mais populares que livros e a feira é um dos lugares mais democráticos dos bairros;
  • Descubra onde as pessoas se reúnem. As praças são sempre um bom ponto de partida, são o lugar onde velhos jogam dominó, jovens andam de skate nas pistas, homens e mulheres caminham ou passam o tempo.
  • Converse muito, sobre todos os assuntos e escute mais do que fala!

O grande desafio é a abordagem, que precisa ser a mais honesta o possível, sem ser invasiva ou artificial. É preciso ter interesse genuíno no que as pessoas fazem, é preciso querer fazer parte.

Para aproximar a discussão de nossa realidade e para ter uma ideia do que fazer com as histórias descobertas, nos próximos posts dessa série (prometo que serão mais curtos!) vou falar sobre alguns coletivos e movimentos sociais, de várias partes do Brasil, que praticam ações culturais desse tipo nas vilas e favelas e vêm obtendo resultados fantásticos! Se alguém souber de ações desse tipo e quiser contribuir, comente por aqui!

* A imagem do post é a pintura “Favela Vila Broncos”, de Bob Dylan, do livro The Brazil Series.

Por que desenvolver atividade editorial na biblioteca

Por que um projeto editorial seria interessante para bibliotecas públicas e comunitárias?  Como poderia contribuir para a relação da biblioteca com a comunidade e dos indivíduos e grupos da própria comunidade entre si?

Poucos duvidam do valor dos livros e da leitura na transformação das vidas das pessoas. Seja através de um programa formal de educação, seja por interesse pessoal autodidata, livros, revistas, bibliotecas, enfim, a leitura ocupa um espaço de destaque no imaginário de como se aprende alguma coisa.

As bibliotecas públicas e comunitárias (as demais também, até certo ponto) têm por missão principal a disseminação dos livros e o estímulo da leitura.

Fazem isso através de suas coleções, formadas a partir do estudo dos interesses, hábitos e outras características que formam os perfis de seus usuários e também por meio do serviço de referência, marketing, cursos de formação de leitores, eventos e outras atividades desenvolvidas, a partir desses estudos, para aproximar a comunidade dos livros e da leitura.

Fazem isso para oferecer aquilo que o usuário quer e precisa, assim respondendo às 3 primeiras leis de Ranganathan e, por esse trabalho, são as instituições culturais mais lembradas quando se fala em leitura. Entretanto, algumas questões podem ser colocadas ao tipo de contato e serviços oferecidos pelas bibliotecas às suas comunidades:

Quem decide o que o usuário ou a comunidade precisa? Até que ponto nossos estudos de comunidades conseguem identificar desejos e necessidades? Com que frequência superamos o questionário e a análise de dados do censo para determinar esses valores? Quanto de contato real com as pessoas das comunidades para aprofundar as informações quantitativas? E com as pessoas que não frequentam a biblioteca?

Mais importante (e com mais potencial revolucionário): Supondo que realmente sabemos os interesses e desejos de nossos usuários, que os estudamos ao nível do convívio, da conversa, será que os livros que selecionamos correspondem a esses interesses e desejos? Será que são o suficiente?

A verdade é que, por mais que nos esforcemos por compreender o que o usuário pensa e o que ele quer, ainda assim seremos pessoas tentando adivinhar o que os outros precisam e oferecendo acervos e serviços baseados nessa presunção.

Uma biblioteca que planeja seus recursos tendo por base apenas os estudos de usuário, por mais fiéis que sejam, e apenas seleciona um acervo entre as opções oferecidas pelo mercado editorial, está fadada a funcionar como o panóptico de Foucault: um centro que exerce controle a partir da informação que irradia para a periferia* .

A cultura assim difundida não leva em conta a visão de mundo, as criações e potenciais existentes em cada comunidade e em cada indivíduo isoladamente. E isso se torna mais verdadeiro conforme nos aproximamos das periferias das cidades, da pobreza e da exclusão social.

Nesses redutos, onde a presença da cidadania, na forma de serviços públicos, de participação nos processos políticos, e mesmo de condições básicas de existência é precária, produz-se muita cultura, a cultura verdadeiramente popular, riquíssima! Mas essa cultura fica restrita aos becos, vilas e favelas, não é conhecida e nem se demonstra interesse em conhecê-la nos círculos menos precarizados da sociedade. É uma cultura que não tem voz na mídia, que não tem vez nos centros culturais. De tão calada, nem mesmo os atores que a protagonizam valorizam o que fazem. E é justamente nesses locais em que as bibliotecas são mais necessárias. Exatamente para resgatar a identidade, a confiança e a autodeterminação desses sujeitos, através da ação cultural.

Para que uma revolução, que possibilite às pessoas a garantia efetiva de seus direitos e condições de igualdade, aconteça, é necessário que todos e cada um tenham consciência de seu lugar no espaço e no tempo. No espaço, sabendo situar-se em todos os níveis, da comunidade local ao contexto global, de forma política cultural e econômica. E no tempo, reconhecendo a história de sua própria vida, das pessoas de sua família, do seu bairro, cidade, estado, país, continente, mundo… Saber reconhecer o contexto em que se está inserido, os eventos que o levaram a tal situação e as relações entre sua comunidade e as outras forças em jogo é condição sine qua non para o exercício pleno da cidadania. E para adquirir essa consciência e tornar-se então governante de seu próprio destino, o indivíduo precisa reconhecer e valorizar sua própria identidade cultural.

Isso implica reverter o processo elitizante da cultura. Nas periferias, onde a cultura popular é efetivamente produzida, a ideologia dominante distorce a visão dos indivíduos sobre sua própria identidade e vivências, fazendo com que considerem seus próprios feitos como desimportantes ou mesmo repudiem completamente a própria cultura, já que essa não é valorizada, não está nas lojas, nem na televisão, nem nos jornais.

O reconhecimento do valor das experiências de cada um é necessário para a existência de um ambiente criativo e estimulante, apto a resgatar a auto-estima da comunidade e capaz de transformar aquilo que hoje é considerado marginal em um ativo cultural complexo e próspero e, final e idealmente, conduzir à libertação cultural dos sujeitos.

A ação cultural nas bibliotecas, geralmente é vista como a promoção de atividades culturais com o intuito de difundir a “cultura”, tornar as pessoas “cultas”, “levar” até o público-“alvo” os prestigiados valores culturais da sociedade. As atividades são cursos, clubes de leitura, palestras, feiras de troca, peças teatrais, espetáculos de música, entre outras. Todas essas atividades são excelentes para atrair público, divulgar os serviços e ampliar a relação da biblioteca com a comunidade. Elas comprovadamente causam impacto nos hábitos de uso da biblioteca e de leitura dos usuários.

Mas não cruzam a linha da cultura estabelecida. Com raras exceções, essas atividades são planejadas e executadas por pessoas de fora da comunidade. São convidados escritores para falar sobre seus livros, artistas para cantar suas músicas, professores para ensinar suas especialidades, mas, muito raramente, essas pessoas vivem e compartilham os valores e a identidade da própria comunidade. Uma biblioteca popular que realmente queira promover a ação cultural não pode se limitar a divulgação do acervo e a “trazer atividades”.

É preciso enxergar os ativos da própria comunidade, enxergar as pessoas como o acervo. Uma vez li sobre uma ação na qual frequentadores de uma biblioteca sentavam diante de uma pessoa, entre algumas que se podia escolher, e essa pessoa contava a sua história (se alguém lembrar do link, posta nos comentários e eu atualizo depois). Um acervo de pessoas! Mas como seria isso?

Numa proposta de biblioteca popular, os livros poderiam ser as cabeças das pessoas e o acervo a comunidade. O catálogo representaria a ação cultural nessa alegoria. Então catalogamos “cabeças”, tornamos “recuperável” o material que surge espontaneamente no cotidiano das pessoas, buscamos as associações entre essas e outras ideias, registramos, preservamos e promovemos o acesso a essa coleção.

Cada vila, cada favela tem sua história, tem seus velhos griôs, contadores de história**, verdadeiros compêndios de sabedoria popular, cheios de causos e lendas de sua juventude (e das múltiplas juventudes anteriores que, pela oralidade, transmitiram a eles o compromisso de contar). Tem seus moradores antigos, que estavam lá na primeira invasão, que têm fotografias e histórias para contar sobre esse processo.

As coleções também podem ser formadas pelo padre; pelo pai de santo; pela benzedeira e pela parteira; pelo clube de mães; pelo presidente da associação de moradores; pelo time de futebol de várzea, que nunca ganhou um campeonato, mas conta com uma torcida fiel; pelo MC e pelo DJ; pelo grafiteiro; pela costureira; pela cozinheira que carrega seu livro de receitas, passadas a ela por sua avó, que foi escrava; pelo filho do carteiro, que desenha bem…

Assim, catalogamos, indexamos e buscamos (um serviço de referência) material que complemente e reviva essas narrativas. No caso dos griôs: a música da época de suas histórias, fotografias antigas dos lugares, a literatura, as roupas, os relatos de outros menestréis, etc.

Essa é a matéria que deve compor as bibliotecas populares. Os livros nas estantes devem ser o espelho dessas vivências, que são o verdadeiro acervo. Assim valorizamos o que surge espontaneamente (a verdadeira cultura) e não empurramos algo que muitas vezes é até antagônico aos interesses das comunidades.

O resultado esperado é a valorização dos indivíduos pelo que já são e não mais como seres que precisam atingir um modelo de realização que está distante (não raro inalcançável) e é indiferente a eles.

Nenhuma dessas ideias é realmente nova. Diversos pensadores e educadores, como Ferrer y Guardia, João Penteado e Paulo Freire já lançaram propostas semelhantes. O conceito de ação cultural, como defendido por Luís Milanesi, compartilha desses ideais de cultura popular e do papel das bibliotecas nesse contexto.

Muitas iniciativas já obtêm resultados impressionantes partilhando essas ideias. Dentre essas, destaco a que considero mais próxima do modelo ideal de biblioteca popular: as bibliotecas parque. O conceito, maravilhoso em múltiplos aspectos, surgiu na Colômbia e coloca a biblioteca no centro do projeto urbanístico dos bairros e, mais importante, posiciona bibliotecas muito bem equipadas no coração de zonas de risco social. O Brasil já tem suas primeiras experiências do conceito, nas favelas do Rio de Janeiro. Na favela de Manguinhos o espaço foi rapidamente apropriado pela população, que utiliza e conserva o prédio, os equipamentos e os livros.

Mas então, como identificar, incentivar, registar, editar e publicar esse acervo riquíssimo? Primeiramente é necessário que o bibliotecário deixe o conforto de suas atividades tradicionais e inicie o flerte com a antropologia e com as relações públicas, que se empenhe em participar das entidades comunitárias: associações de bairro, de mães, paróquias, congregações, terreiros, clubes, escolas, etc, e nesses ambientes identifique os potenciais novos “livros” para o acervo.

A partir desse mapeamento, pode se projetar atividades, entrevistas, apresentações. Convidar artistas (de preferência da própria comunidade) para ilustrar a história de algum morador, registrar em vídeo, transcrever em texto. Muitos escritores, podem se interessar por registrar as narrativas recolhidas, universidades podem incentivar programas de extensão para auxiliar nos projetos.

As eventuais publicações dos materiais coletados podem ser financiadas por meio de leis de incentivo, ou (melhor ainda!) de maneira autônoma, por crowdfunding ou arrecadação com eventos e doações espontâneas. E publicações não precisam ser necessariamente caras, podem ser feitas de forma artesanal, com material reciclável, inclusive envolvendo a própria comunidade no processo de confecção dos livros.

Nas próximas postagens pretendo explorar o universo dessas práticas. Abordar o fenômeno das editoras cartoneras, os fanzines e outras modalidades editoriais que podem inspirar ações culturais efetivas para nossas bibliotecas. Conto com o apoio dos leitores para sugestões e críticas!

 

* Não estou propondo que essa cultura, ou esses livros, não tem valor. Mas não deveriam ser o único valor considerado.
** Preferi aqui o termo “contadores de história” a “contadores de estórias” por acreditar que as possibilidades semânticas do primeiro destaquem a relevância do resgate histórico presente nas narrativas desses menestréis contemporâneos.

A imagem do post é dos livros da Eloísa Cartonera, de Buenos Aires