O menino que tinha medo de tarefa

Publiquei esta semana o meu segundo livro infantil: O menino que tinha medo de tarefa (ilustrações de Paulo Ricardo). 

O livro nasceu numa situação real de conflito. Como ajudar seu filho de 4 anos a fazer uma tarefa escolar? Meu filho estava chorando sem querer fazer aquilo e eu o entendi rapidamente. Afinal, quem gosta de ter que parar de brincar para fazer uma tarefa, mesmo que seja apenas para colorir ou traçar pontos?

Perguntei se ele estava com medo da tarefa e contei como ele não tinha medo de vampiro nem de lobisomem, então poderia vencer uma tarefa também.  Contei a história várias vezes, claro, e melhorei ao ponto de publicar em livro.

Publiquei apenas na Amazon pois queria uma oportunidade para conhecer melhor o mercado de ebooks. A Amazon oferece 70% do preço de capa para livros exclusivos, e 30% para os que não são. Optei pela exclusividade para não ter tanto trabalho em colocar em outras plataformas e acabar perdendo o controle. E também acho o kindle bem fácil de usar e instalar. Ainda está muito no início para tirar alguma conclusão, mas espero escrever mais sobre publicar na Amazon depois.

O livro é para ser contado por mães, pais e professoras para as crianças a qualquer momento, não apenas na hora da temível tarefa. É uma história que pode ser contada de várias formas e quem gosta de fazer caras, bocas e vozes tem um prato cheio. Mas também pode ser lida pela criança. Meus filhos, que hoje estão com 9 e 7, leram e gostaram da leitura. As ilustrações ajudam muito a compreender a história, por isso creio que crianças em fase de alfabetização também vão curtir passar as páginas do tablet/smartphone.

Gostei muito do resultado final. Espero que o livro possa cumprir sua função artística literária de ajudar a humanidade a melhorar. Se ajudar os adultos a lerem para suas crianças já terá cumprido esse papel.

Sinopse

  

O menino que tinha medo de tarefa é uma fábula sobre coragem, superação e perspicácia. O menino não temia nenhum monstro, porém morria de medo de uma simples tarefa. Quando os monstros descobrem isso, começa uma verdadeira batalha no quarto do menino. Ele então terá a oportunidade de mostrar sua força diante do seu maior medo.

É uma leitura para se divertir em família. Indicada para todas as idades, especialmente os primeiros anos escolares em que as tarefas se apresentam como uma obrigação na vida das crianças que, por serem crianças, querem apenas descobrir o mundo com sua curiosidade.

PL 2606/15 e nós bibliotecários 

O PL 2606/2015 não faz parte da pauta bomba do Deputado Cunha mas caiu como uma petardo nas cabeças dos nossos colegas arquivistas. É que o PL trata do exercício da profissão de arquivologia e busca permitir que profissionais não graduados exerçam a profissão.

Diz a ementa:
“Altera a Lei nº 6.546, de 4 de julho de 1978, que Dispõe sobre a regulamentação das profissões de Arquivista e de Técnico de Arquivo, e dá outras providências, para permitir o exercício da atividade aos profissionais graduados em áreas afins com especialização em arquivologia.”

O PL gerou uma petição pública e várias moções de repúdio e campanhas para dissuadir o Congresso de levar a ideia à frente. 

Isso interessa diretamente aos bibliotecários e é bom que acompanhemos o desenrolar dessa história. Para mim, seremos diretamente afetados caso venha a se tornar lei este projeto, por duas razões, uma boa e uma má, ou vice-versa, a depender do ponto de vista: uma é que poderá ocorrer o mesmo com a biblioteconomia em alguns anos, e a outra é que os bibliotecários, que diga-se já ocupam espaço de trabalho em arquivos Brasil afora, terão mais um campo de atuação de modo legal, basta uma especialização em arquivologia.

Somos uma profissão mais antiga no Brasil (nossa lei nasceu em 62), temos reserva de mercado e conselho profissional. Só pode exercer a profissão quem é bacharel em biblioteconomia devidamente em dia com o Conselho. Porém o que vemos é que a profissão não conseguiu ainda o status social almejado, as bibliotecas no Brasil continuam precárias em geral e não damos conta de ocupar todos os espaços reservados para nós, especialmente pela lei da Biblioteca Escolar. E na realidade todo mundo conhece alguém que não é bibliotecário trabalhando em biblioteca como se o fosse, incluindo pessoas aprovadas em concursos públicos para o cargo de bibliotecário sem ter a formação. 

Por isso, corremos risco de mais cedo ou mais tarde surgir um projeto de lei parecido. Já há o PL 6038/2013 que regulamenta a profissão de técnico em biblioteconomia. O que a meu ver fortalece a nossa profissão mas abre espaço para outras medidas inclusive para pessoas com pós-graduação em biblioteconomia atuarem na área. 

Duvida? A justificação do PL 2606/2015 é ótima para entendermos o que está ocorrendo:

JUSTIFICAÇÃO

O ordenamento jurídico em vigor que disciplina a profissão de arquivista é a Lei no 6.546, de 1978, que foi concebida antes da Constituição de 1988, em uma época marcada por medidas inspiradas nos princípios do corporativismo e do autoritarismo que prevaleciam sobre os valores da liberdade e da autonomia dos indivíduos e das categorias profissionais em relação ao Estado. Nessa linha de pensamento, a norma restringiu o exercício da profissão apenas aos portadores de diplomas em cursos de arquivologia devidamente registrados.
Porém as qualificações necessárias ao exercício dessa profissão também podem ser apreendidas por outros profissionais de áreas afins, que poderiam executar as atividades próprias de arquivista sem qualquer
dano ao usuário de seus serviços.
Dessa forma, nossa proposta vem no sentido de reformular e atualizar a Lei no 6.546/78, em consonância com o mandamento constitucional brasileiro atual, que é o de assegurar a plena liberdade de exercício de atividade laborativa, pois qualquer restrição profissional apenas se
justifica se o interesse público a exigir.
Por meio da inclusão da alínea b no inciso IV do art. 1o da Lei no 6.546/78, o Projeto introduz a possibilidade de um profissional não graduado em arquivologia, mas com pós-graduação na área, exercer legalmente a profissão, pois, modernamente, profissionais de outras áreas de conhecimento afins podem, por meio de cursos de especialização, mestrado ou
doutorado, se habilitar ao exercício da profissão de Arquivista de forma eficaz.
Assim, por entendermos que nossa iniciativa possibilitará a abertura deste mercado de trabalho para profissionais também devidamente qualificados para o exercício da profissão, esperamos poder contar com os
caros Colegas para a sua aprovação.

Caso seja aprovado, por outro lado, vários bibliotecários que já atuam em arquivos e/ou já possuem pós na área poderão exercer suas funções tranquilamente. Como são poucas graduações em arquivologia pelo Brasil, vários estados sequer possuem o curso, então não imagino um cenário promissor quanto a graduação, que é bem mais difícil de ser criada que uma especialização. Talvez os profissionais de história e biblioteconomia acabem ocupando ainda mais os arquivos, e para os bibliotecários é um bom campo de atuação. 

De que lado estamos?

O futuro da biblioteconomia 

Alguns bons anos atrás(2003?) numa visita à casa do Professor Edson Nery, guiada pela Professora Gilda Verri, escutei do professor emérito da UNB uma frase mais ou menos assim: os bibliotecários tem que deixar a catalogação e os tecnicismos para as máquinas e se preocupar com o outro. Guardei isso.

De uns tempos pra cá somos bombardeados por notícias de fim de profissões, de automação desenfreada, de futuro ultratecnologico e etc. E reencontrei aquele pensamento vendo o vídeo do Murilo Gun.

Tenho certeza que se perguntarmos a qualquer pessoa se a biblioteconomia tem os dias contados a resposta será sim. Óbvio. Temos tudo pronto: códigos, regras, normas, padrões, rotinas. É só jogar tudo numa máquina e era uma vez uma profissão. 

A primeira pesquisa mais séria que fiz, orientada pelo professor Guilherme Ataide, foi justamente sobre chatbots. Inteligência artificial para atuar no serviço de referência. Tipo, o chatbot responderia aquelas consultas lá colocadas pelo Grogan.

Isso tudo sempre me fascinou mas agora é como se finalmente fosse uma realidade.

O que nos diferencia de uma máquina? Ou melhor, o que diferencia o bibliotecário de uma máquina? Ou melhor ainda, o que faz um bibliotecário que uma máquina não pode fazer melhor?

Uma das nossas missões mais nobres, que é a salvaguarda dos registros do conhecimento, nos foi tirada. Não somos mais fundamentais para isso, pois o conhecimento do nosso mundo estará mais seguro em servidores espalhados ao redor do mundo. O Google guarda, armazena, cataloga, classifica, indexa, busca e encontra qualquer coisa melhor que nós. O que nos resta?

O Murilo Gun cita o paper de Oxford  que é uma ampla pesquisa sobre o futuro das profissões. E de 702 profissões sabe qual a posição do librarian? Bem ali no meio da tabela, na 360ª posição. Nosso copo está enchendo ou está esvaziando?

Basicamente, as atividades que puderem ser substituídas por máquinas serão. E quais são essas atividades? Todas aquelas que essencialmente dependem de inteligência lógica, matemática, espacial, linguística. Os computadores já avançaram bastante nessas inteligências e são melhores do que nós. É engraçado pois na biblioteconomia/ciência da informação/documentação nós desenvolvemos isso desde lá atrás, talvez sejamos a primeira profissão a utilizar inteligência artificial ainda que rudimentar(o que é uma lista de assuntos senão uma inteligência artificial?), pois fomos uma das primeiras profissões a ter padrões bem estabelecidos para esses testes (insight das aulas do Professor Marcos Galindo). Ou seja, estamos cavando nossa própria cova. Toda vez que alguém cria uma ontologia morrem algumas vagas de bibliotecários.

Olhando a grade curricular do curso de biblioteconomia da USP(pode ser de qualquer um),  vemos lá disciplinas que as máquinas fazem melhor do que nós. Tipo, estamos estudando para concorrer uma disputa já perdida. Não apenas não estamos nos preparando para o presente como não estamos nos preparando para o futuro. Deveríamos estudar mais psicologia do que linguagens documentarias.

Dentro disso tudo, vejo a biblioteconomia num encruzilhada. A biblioteca, outrora hospital das almas, passou a ser estoque de informação. Porém o presente mostra que precisamos mesmo é de uma biblioteca que seja mais humana.

Dentro da biblioteca, como já abordei em outro post, algumas seções/departamentos/funções vão sumir do mapa. O setor de desenvolvimento de coleções é um deles. Seleção, descarte, desbaste, etc não serão necessários. Os funcionários do setor de circulação para atender, emprestar livros, repor livros nas estantes e fazer shiiiii também estão com os dias contados. Acho que shiiiiii vai demorar um pouco mais pois as bibliotecas permanecerão como espaço de convivência. Apenas bibliotecas que guardem livros físicos terão necessidade de empregar pessoas que lidem com restauração e preservação. Mas estes também perderão seus empregos na maioria das bibliotecas. Catalogadores, indexadores, resumidores e normalizadores: é o fim da linha. Acabou.

Os bibliotecários de referência natos, os servum servorum scientiae, esses ficarão, cada vez mais necessários diante da torrente de informação. Os que souberem trabalhar as competências informacionais também creio que tem seu espaço. Biblioterapia, então, poderá crescer bastante já que os bibliotecários poderão se preocupar mais em receitar livros. 

Talvez seja por isso que estamos ali no meio das profissões. Parte da biblioteconomia tem tudo pra morrer e a outra parte tem tudo pra crescer. Cabe-nos encontrar a parte onde estamos.

Tudo é uma visão de futuro. Mas já está acontecendo. 

Gibis como serviço

Maurício de Souza lançou aplicativo disponibilizando acesso aos gibis da Turma da Mônica. Não é mais tendência, é sobrevivência. Oferecer a opção digital de produtos impressos é questão estratégica. E isso irá refletir em nossas bibliotecas, mais cedo do que se imagina.

Na biblioteca da escola dos meus filhos ainda é proibido empréstimo de periódicos, incluindo gibis. Nada mais medieval em tempos de abundância. Quem sabe agora comecem a pensar diferente. Afinal, o que importa é o acesso, não o produto. O que nós queremos é o acesso, é o usufruto. Não a propriedade. Cada vez mais queremos menos ter as coisas. Nem espaço físico temos mais. E isso serve para livros, apartamentos, carros, barcos, entre outras coisas.

Aliás, creio que o primeiro serviço de acesso a algo foi oferecido pelas bibliotecas. Agora nos cabe manter o serviço.

Sugiro a palestra do ótimo Murilo Gun sobre o tema “life as service”.

Como publicar seu livro

Treze anos depois da publicação do meu primeiro livro, e alguns anos depois de ter fechado a minha própria editora, a pergunta que mais respondi desde então foi: como consigo publicar um livro? Escutei isso de pessoas de todas as idades, classes sociais e nível de letramento. Fico feliz pois são todos escritores em potencial. Fico triste pois vejo que eles percebem isso de publicar um livro como algo muito distante de sua realidade. Sempre tento contar minha própria história, mas nem sempre se encaixa. Reuni então dois conselhos, que não são diferentes dos que se pode encontrar googleando por aí. Apenas são meus. E apresento alguns caminhos para a publicação. Também é preciso dizer que, curiosamente, o curso de biblioteconomia não ensina ninguém a publicar um livro. Seria interessante se o fizesse, não acham?

1. Tenha um livro. Pode parecer brincadeira, mas a verdade é que a maioria das pessoas que querem publicar um livro na realidade não tem nenhum livro. Senti isso na pele quando tive a editora Baluarte. As pessoas não escrevem livros, até possuem ideias boas, mas escrever, escrever, nada. Assim, você não tem o que publicar e ficará sempre a ver navios quando surgirem as oportunidades. Então, o conselho gratuito é: tenha um livro.

2. Você tem um livro. Acredite no seu livro. Claro que existem livros ruins. Porém, você não vai ficar meses, anos, debruçado em algo que no fim ficará ruim, correto? Então os livros ruins que existem, existem por conta dos seus responsáveis. Não é o caso do seu livro. Ainda assim, os próprios autores nem sempre acreditam no que escreveram. Basta ver que sempre que um grande autor morre saem publicações póstumas que em vida foram rejeitadas pelo próprio autor. Por isso, acredite no seu livro. Ele é fruto do seu esforço, do seu suor. Ele é bom.

Agora que você tem um livro, e acredita nele, sabe que deve publicá-lo. Por que razão guardar só para você? Existem vários caminhos para publicar um livro. Alguns curtos, outros mais curtos ainda, e alguns longos, bem longos. Cabe a você avaliar o que você espera.

1. Auto-publicação. Nunca foi tão fácil e barato se auto-publicar. É o caminho mais rápido para ser publicado. Temos editoras que imprimem por demanda, o que diminui bastante o preço para o autor, embora encareça um pouco o preço do exemplar. Essas editoras também se responsabilizam por vender os livros, o que também ajuda bastante. Outra opção é publicar eletronicamente pela Amazon. Grandes autores já começam a migrar para a Amazon enquanto editora e, quem sabe, em algum tempo ela será também a principal editora de livros do mundo. A facilidade de vender livros é uma vantagem e tanto.

2. Crowdfunding. Financiamento coletivo é algo mais antigo que se pensa. Mas com a possibilidade de se espalhar pela Rede, o negócio ficou sério e temos de atletas a artistas pedindo recursos aos seus fãs e amigos. E isso serve para livros também. É uma boa opção para quem não tem recursos para se autopublicar. É possível através do financiamento coletivo arrecadar uma boa grana e contratar grandes profissionais para trabalhar o livro, desde o design até estratégias de marketing e relacionamento. Essa é a vantagem desse método na minha opinião, porém pode demorar muito para atingir o valor necessario e pode, simplesmente, não atingi-lo. Também, pelo que li, alguns autores que se utilizaram disso comentaram que acabam tendo que complementar os custos com recursos próprios. Então acaba batendo no próprio bolso. Para entrar no crowdfunding de livros, creio que seja interessante apenas com um bom projeto que vá precisar de outros profissionais.

3. Editais Municípios, Estados e a União, por meio de órgãos e fundações, e também empresas públicas e privadas, costumam lançar editais destinados a fornecer recursos para a publicação de obras literárias. É uma forma de se conseguir recursos para fazer um bom projeto. A vantagem é que neste caso é possível arrecadar o suficiente para não precisar tirar muito do próprio bolso. É preciso ficar sempre de olho nos editais e obedecer às regras e burocracia.

4. Concursos literários. É uma forma que considero desgastante. Você submete seu livro para uma comissão que você não sabe se irá ler mesmo ou não. É algo muito subjetivo. Eu como autor nunca participei. Porém vale a pena se você não liga pra isso. Existem vários tipos de concurso para cada tipo de literatura. Até mesmo a FEBAB já realizou um concurso desse tipo. Se quiser ver seu livro publicado, vale a pena participar.

4. Editoras e agentes literários. Não é por acaso que está em último lugar. Para mim, é a forma menos indicada para se publicar um livro, ainda mais nos dias atuais e especialmente se você for um autor iniciante. 99% das editoras sequer olham originais não solicitados. As que olham, é apenas para cumprir tabela. Então para chegar numa editora é preciso ter alguém que faça essa conexão, que são os agentes literários. Que também não são fáceis. A vantagem de se publicar por uma editora é que ela vai fazer de tudo para vender seu livro. E isso para um autor é o máximo. Na nossa área, as editoras praticamente imploram por livros. Basicamente temos dois tipos de livros: coletâneas de artigos e trabalhos acadêmicos. Faltam na nossa área livros mais básicos, introduções, manuais, livros de crítica, livros de reflexão, livros sobre a carreira biblioteconômica. Precisamos escrever mais.

Existem outras formas e meios. Coloquei os que eu considero mais interessantes no momento.

Escrevam. Publiquem.

Ebooks e o desenvolvimento de coleções

Definitivamente, o maior impacto do ebook nas bibliotecas será sentido pelo desenvolvimento de coleções e tudo o que ele envolve: seleção, aquisição, desbaste, descarte, inventários, avaliação, e política de desenvolvimento.

O desenvolvimento de coleções foi moldado para o período de escassez de produtos de informação e de recursos para a aquisição. Porém, para um período de abundância informacional como o nosso e, consequentemente(?), de barateamento dessa informação, muitas de suas atividades ficam sem sentido. Talvez seja cedo para falar disso, mas precisamos começar a imaginar um futuro sem a preocupação com o desenvolvimento de coleções. Ou, talvez, com uma preocupação menor.

Seleção. selecionar livros é tarefa fundamental para qualquer bibliotecários. analisar todos os critérios possíveis e decidir comprar um livro em detrimento de outro, quantos exemplares, é uma das tarefas mais belas de uma biblioteca, pois isso é decidir que livro sua comunidade irá ler. Agora, imagine que no lugar de optar por um livro ou outro você possa ter os dois que você considera interessante para a biblioteca e vários outros menos interessantes(na sua opinião, é claro, nao na do usuário). É isso o que a amazon permite com o seu aluguel de livros e que, mais cedo ou mais tarde, as editoras farão o mesmo. Para que selecionar se se pode ter tudo?

Aquisição. Adquirir significa dizer “é meu””. Nada mais explícito de um período de escassez. no entanto, ja há um tempo que os livros nao são mais vistos como produto e sim como serviço. Serviços são acessados. A tendência é que as bibliotecas adquiram cada vez mais o acesso a bases de dados de livros, algo bem parecido com o que ja ocorre com os periódicos.

Desbaste e descarte. são atividades especificamente para o acervo físico. São atividades que daqui a alguns anos serão peça de museu. no máximo, haverá uma descontinuidade de serviço. Mas ninguém irá entrar no acervo para avaliar se um livro deve ir para o lixo ou para a restauração.

Inventário. Errei acima. nada representa melhor a escassez do que o inventário. que é verificar se os livros adquiridos estão no acervo. Vejo bibliotecas investirem alto em equipamentos de segurança e RFID para inventário. Seria melhor investirem em ebooks. Pois terão que investir de qualquer forma.

Política de desenvolvimento de coleções. uma vez que o livro é um serviço, a política deverá incluir aspectos sobre quais serviços adquirir. Quais aspectos devem ser levados em conta. E também quais critérios norteiam os leitores de ebook.

E para você, como será?

P.s.: Essas ideias foram discutidas com a Professora Geysa Flávia da UFPB. A quem agradeço.

Pequena bibliografia sentimental de Edson Nery da Fonseca

Dormiu Edson Nery da Fonseca. Ficamos tristes, todos os bibliotecários perdemos alguém importante. Não existe um bibliotecário brasileiro que não tenha o conhecido de alguma forma. Se não o conheceu, não pode ser bibliotecário. Escrevi diversos textos em blogs falando do que o Professor significa para mim, e minha homenagem a ele acabou sendo sugerida pelo Moreno Barros: bibliografia sentimental. O sentimento, nesse caso, é o meu em relação à bibliografia escrita pelo Professor. É o que eu tento fazer abaixo: Bibliografia sentimental de Edson Nery da Fonseca.

Os primeiros contatos que tive com Edson Nery da Fonseca foram através dos textos que eu lia no Diário de Pernambuco e no Jornal do Commercio. Sempre gostei de ler a parte de cartas/opinião, e vez ou outra notava que os textos dos quais eu mais gostava estavam os desse autor Edson Nery da Fonseca. Com aquele nome gravado, acabei notando que um livro que meu pai tinha em casa chamado “O Recife de Manuel Bandeira” tinha sido organizado justamente por aquele autor de quem eu gostava de ler as opiniões. O livro é muito belo, grande, os poemas trazem textos de Edson sobre Bandeira e sobre o poema em si. É uma aula tanto de poesia quanto de pernambucanidade. E o livro me aproximou tanto de um quanto de outro.

recife de manuel bandeira

Alguns anos depois, já na universidade, vez ou outra escutava algum professor, especialmente as professoras Gilda Verri e Silvia Cortez, magníficas sempre, citando Edson Nery da Fonseca. E nunca foi en passant. Parece que falar do Professor era uma aula à parte. E foi nesse meio tempo que através de um Grupo de Estudos formado pelos amigos Uiraquitan Coutinho (in memorian) e Karine Villela que tive contato com o texto que posso dizer mudou minha visão da biblioteconomia: “Ser ou não ser bibliotecário”. Sentimentalmente, esse texto me fez decidir que profissional eu buscaria ser dali pra frente. Ainda nesse momento de fervor, em uma palestra organizada pelo Grupo de Estudos, tive o prazer de conversar um pouco com o Professor e receber dele o livro “Acertos e Desacertos da Biblioteconomia”, com dedicatória e tudo.

Também das mãos do Professor, mas sem autógrafo, recebi o livro “Ramiz Galvão”, uma biografia que mostra toda a humildade de quem se sente alegre por escrever sobre uma outra pessoa.

A Professora Gilda Verri, em 2001, por ocasião dos 80 anos do Professor, organizou um livro chamado “Interpretação de Edson Nery da Fonseca”, em que várias personalidades falam sobre o Professor. Um livro belíssimo e importante para entender quem é uma pessoa na visão de quem o conhece. Como o Professor caminhou por várias áreas, religiosa, acadêmica, militar, literária, jornalística, Freireana, então o livro é um apanhado de grandes nomes que escreveram sobre Edson Nery da Fonseca ao longo do tempo, de Álvaro Lins a Eva Grabouer, dando suas opiniões. É um livro que ainda hoje gosto de ler um relato ou outro a fim de entender como alguém sempre polêmico consegue ser tão grande, sem forçar a simpatia.

edson nery

Quando li “Vão-se os dias e eu fico”, que é a sua autobiografia, por assim dizer, fiquei impressionado como o Professor foi tão forte em tantos momentos de sua vida. Sempre altivo e forte. Foi um homem sem medo.

E me preparo para ler “Estão todos dormindo”, seu livro de memórias em homenagem aos amigos que dormiram antes dele. Vou aguardar mais um pouco.