Qual sua experiência inesquecível na biblioteca?

No dia do bibliotecário escrevi a experiência mais emocionante que tive como bibliotecário, quando auxiliei um senhor a encontrar a nomeação do filho no diário oficial. Ele ficou tão feliz que eu senti que o meu fazer diário é a coisa mais importante do mundo.

Lancei a pergunta no facebook: qual a sua experiência mais emocionante na biblioteconomia? Aquela que ainda hoje você lembra com um palpitar diferente no coração?

Bibliotecários e bibliotecárias participaram e responderam sobre suas boas lembranças na profissão.

Interessante notar como 100% das experiências tratam simplesmente de ajudar uma outra pessoa. Será que nascemos ou nos tornamos bibliotecários? Creio que pessoas profundamente egoístas ou possessivas tenham dificuldades na nossa profissão. Fico imaginando que já cheguei a emprestar livros particulares para usuários da biblioteca (com o coração na mão, claro, mas devolveram :D). Uma característica que considero comum em bibliotecários é o altruísmo puro e simples de ajudar sem esperar na em troca. Claro que somos pagos para isso, estamos na biblioteca para ajudar, porém nem todos são vocacionados para isso.

As experiências relatadas aqui, como numa técnica do incidente crítico diferente, mostram que todos precisam de ajuda em maior ou menor grau.

Nelson, empreendedor da biblio, mostrou como um bibliotecário é fundamental para a inovação

A uns 2 anos atrás uma pessoa procurou ajuda na biblioteca publica registrar uma invenção. Expliquei todos os passos, a quem procurar, e como proteger a sua idéia. Um ano e meio depois a pessoa voltou para agradecer e dizer que ja havia encontrado uma indústria para produzir a sua idéia. Esta oportunidade de acreditar nos sonhos das pessoas e velos realizados é incrível.

Aline Costa contou sobre uma atividade que, creio, todos os bibliotecários já passaram que é ajudar na alfabetização e no incentivo à leitura para crianças.

“Sem dúvida nenhuma foi quando eu levava a Biblioteca nas zonas rurais de uma cidade do interior mineiro. As crianças ficavam ansiosas esperando o dia que eu iria lá. Trabalho super gratificante!!!”

Lucélia Mara Serra também vai nesse sentido, mas voltado a educação de adultos.

“Em um curso de pesquisa científica ter em sua maioria agricultores que não sabiam nem pegar no mouse. Ensinei informática básica e pude tranquilamente mostrar o que é ciência depois. Quando lembro que pude mudar a vida deles, me emociono.”

Rai Lima contou um pouco sobre a rotina de bibliotecas jurídicas, e lembrou de trabalhar com pessoas que gostam de ler

“Gustavo Henn, todos os dias, sempre que consigo realizar a pesquisa solicitada pelo usuário. Ontem mesmo um amigo estava há tempos em busca de uma resolução do CNDU, que já tinha perdido as esperanças. Qdo avisei que tinha enviado para que já tinha enviado para o e-mail dele a grata surpresa aliada ao muito obrigada e a certeza de saber que se resolve é td de bom!!!! Mas… a lembrança da biblioteca da AABB sempre cheia em pleno domingo com leitores ávidos por mais literatura de boa qualidade é o que mais me emociona. Por eles a biblioteca funcionária 24h.”

Tiago Marçal Murakami me encheu de orgulho ao compartilhar esse pequeno roteiro de filme, mostrando como profissionais podem ser fundamentais exemplos para os jovens.

“Trabalhava no CEU Butantã e tinha um menino que ia todo dia na Biblioteca, o Marquinhos. Ele ia, algumas vezes com o seu irmão mais velho e ficava a tarde toda na biblioteca. Um dia ele apareceu de manhã, ele falou que não tinha aula. No dia seguinte, apareceu de manhã de novo. Questionei e ele falou que abandonou a escola por causa de uns meninos que queriam pegar ele. Todo dia que ele aparecia lá eu enchia ele para que ele voltasse a estudar, que era importante para ele. Ele ia para jogar no computador, as vezes jogava xadrez comigo e eu comecei a dar alguns livros para ele e ele curtiu. Dai eu fui trabalhar em outra biblioteca, em São Bernardo do Campo. Como São Bernardo é longe, ia todo dia muito cedo para lá. Um dia encontrei o Marquinhos no ônibus bem cedo. Me disse que tinha me ouvido e tinha voltado a estudar, e agora estava indo trabalhar. É um tipo de coisa muito boa de se ouvir.”

Moreno Barros mostra como o espaço biblioteca pode servir às pessoas muito além do que livros, e sim dignidade.

“sempre que chegava um gringo na BU eu era intimado a interagir. um deles queria simplesmente autorização para colar um cartaz no mural da bbteca. o cartaz era sobre cursos de inglês que ele tava tentando dar pra pagar as despesas (não era um gringo play, era um inglês fudido de meia idade que veio pro brasil em um outro trabalho que não deu certo e tava tentando a sorte antes de voltar duro). ele perguntou se podia usar as salas de estudo da bbteca para estudar e lecionar. eu falei que não tinha problema algum. meses depois ele apareceu para agradecer e se despedir. disse que tava indo voltar pra sua família, que não via a filha há muitos meses e que graças as aulas ele conseguiu juntar a grana da passagem e zerar o investimento perdido vindo pra cá. tem outra tb de um cara que apareceu na cartografia da BN querendo um mapa antigo do Rio para provar que ele não precisava pagar o laudêmio da Marinha, se não ele teria que vender a casa para poder pagar as dívidas. conseguimos um mapa e ele ganhou o processo.”

Lucio Dias Cara conta como a nossa profissão além de ganha-pão é muito gratificante por proporcionar o crescimento intelectual das pessoas e oportunidades de filhos ensinarem algo aos pais,

“tinha um estágio na Fundaj para pagar as farras de sexta no bar do Bigode e os lanches do Beloto todo mês (os bibliotecários pernambucanos entenderão) pois bem comecei a fazer pesquisas no estágio pra gente de outros países por e-mail, o cara mandava as páginas que ele queria saber do conteúdo nas obras raras para ver se estava de acordo com outros livros mais novos… O ponto chave disso tudo, quando eu comecei a ver que estava no caminho certo foi quando um menino de 12 anos chegou com seu pai na biblioteca, logo perguntei que livro ele queria pois o acervo era fechado, o menino insistiu para ir nas estantes e eu deixei, ele pegou um livro de história e sentou com seu pai, eles passaram horas lá e depois voltaram algumas vezes. Certo dia fiquei curioso pra saber o que tanto eles faziam e o menino simplesmente me disse que lia para o seu pai que era analfabeto. Nesses tempos aqui na UFPB tive o privilégio de conhecer 2 caras gente boa pacas. Um pai e o seu filho, galera carente que chegou na universidade com suor e lágrimas. O filho cursa direito e o pai vendo seu filho na universidade fez vestibular pra filosofia e os dois estudam juntos na biblioteca. É por essas e outras que nossa profissão é gratificante.”

Amanda Luna nos lembra que na hora H o conhecimento técnico faz toda diferença para uma aprovação

“Ajudar um aluno a concluir uma dissertação, ajudando a normalizar(apenas) e o mesmo voltar na biblioteca, te chamar só pra dizer ” você salvou a minha vida”, não teve preço! ahahahahahha”

Alba Monteiro Coelho Silveira entrega que todo bibliotecário tem um pouco de ator

“Quando trabalhei numa biblioteca infantil e as crianças bem pequenas faziam um grande barulho e eu comecei a contar uma estorinha dos três porquinhos e eles foram se calando e AREGALAVAM OS OLHOS A CADA PARTE DA HISTÓRIA!”

Adriana Quincoses me emocionou mostrando em poucas linhas como a memória registrada é fundamental para a vida de todos.

“Há dois anos orientei uma pessoa a pesquisar no google sobre o próprio nome . Ele não tinha intimidade com a internet então fiz a pesquisa e seus olhinhos brilharam pois na pesquisa apareceram vários títulos que ele escreveu e não lembrava mais. Me senti muito bem em proporcionar minutos de alegria para o professor Lepargneur 87 anos!”

Vanessa Ribeiro conta que a relação de confiança entre o bibliotecário e o leitor nasce de várias formas

“Ao longo da vida presenciamos muitas lembranças. Mas a sensação única de saber que vc incentivou a leitura. Isso não tem preço. Trabalho em uma escola e tem uma menina de 7 anos que não queria pegar livro pq era chato e doia seus olhos. Sentei ela no meu colo e conversamos muito. Liguei para a mãe e falei pra mãe dela o que houve. No outro dia ela me abraçou e disse que iria ler. Pq ela não queria me decepcionar. Até chorei. Tem prazer maior.”

Sheila Alves contagiou seus amigos com tanto amor pela profissão e trouxe novos membros para a biblioteconomia

“Meus olhos brilham ao lembrar do quanto disseminei meu amor a esta linda profissão a ponto de incentivar, agora colegas de profissão, a entrar nesta área..mesmo quando pareciam esmorecer eu lhes mostrava sempre o lado bom…hoje são excelentes profissionais outros ainda estão no preparo, mas já tem um olhar diferente de nossa amada profissão né Paloma Santos, Ingrid Zahlouth e Josiel Queiroz e tantos tantos outros que passaram a valorizar nossa profissão pelo simples fato de eu exerce com amor cada gesto!”

Gracy Martins faz o moinho girar ao ver um aluno seguir o seu próprio caminho

“Quando entrei pela primeira vez na sala de aula, alguns anos mais tarde do que deveria, com dois filhos e em meio aos conflitos pessoais da época, senti uma emoção indescritível. A sala não tinha quase ninguém ainda e ali vi meus sonhos e esperanças se renovando. A biblioteconomia mudou minha vida, abriu novos caminhos e decidi que queria ser professora para participar da mudança de vida de outras pessoas. A vida continuou e eu, muito mais rápido do que eu poderia imaginar, me tornei professora. E a primeira vez que um aluno entrou na minha sala contando que tinha passado no mestrado, me agradeceu e emocionado narrou sua história e o quanto sua vida tinha mudado a partir dali, senti uma emoção imensa e tive certeza que aquele era meu caminho. Eu estava, na lei da gratidão, devolvendo à vida o que ela me proporcionara. E depois muitos outros alunos compartilharam comigo as boas mudanças do curso/carreira em suas vidas. E essa é sempre uma gratificante e grande emoção.”

Irma De Oliveira Souza agradece à biblioteconomia por ter mudado a sua vida.

“Quando estava no mestrado e ouvi uma professora me dizer que retirava tudo o que já havia dito e pensado ao meu respeito, pois eu era especial e deveria seguir carreira docente, pois já havia me revelado mais que bibliotecária. Nesse dia meu coração bateu tão forte que achei que teria um treco. A Biblioteconomia mudou minha vida em muitos aspectos e hoje quando entro em sala de aula e defendo o fazer e ser bibliotecário o faço com o maior amor que alguém pode sentir e nesta relação existe: gratidão, reconhecimento e um desejo enorme de mudança!”

Por fim, Moreno mostra que os bibliotecários também contribuem para a preservação das espécies ao salvar uma Coruja (símbolo da biblioteconomia) que queria ler um pouco.

e teve aquele dia que uma coruja entrou na biblioteca, ficou acuada embaixo de uma estante. arrumamos uma missão de resgate para devôlve-la a seu habitat natural em paz

E sua experiência, leitor bibliotecário, quer compartilhar com a gente?

Quem frequenta biblioteca?

Se eu fosse dono de alguma loja que atendesse diretamente ao público, de roupas, carros, livros, qualquer coisa, eu despediria todos os meus vendedores forçadamente simpáticos e contrataria bibliotecárias(os) de referência. Nunca vi nenhum atendente melhor do que nós. Sério. E mais: fazemos isso sem levar comissão por empréstimo de livro.

É por isso que acho ridícula e criminosa essa substituição do “usuário” por “cliente” na literatura biblioteconomia. Vejo colegas mostrarem todos os dentes para dizer que tem clientes. Clientes? Onde já se viu uma biblioteca pública ou escolar ou universitária ter clientes? Tem usuários, alunos. Lembro que no inglês o termo usado para usuários em bibliotecas públicas (não sei dizer se somente nelas) é patron, que é cidadão e falso cognato de patrão no português. Já pensou se no lugar de cliente utilizássemos patrão? Já fazemos isso com nossos usuários. Tratamos como patrão, independente de cor, credo, time de futebol e conta bancária.

Os usuários não deixam nada na biblioteca além da satisfação de ser bem atendido. Por isso não são clientes.

Outros termos também são usados na literatura para quem usa bibliotecas, como leitor, que é clássico, consulente (na minha opinião má tradução).

Particularmente eu gosto de usuário. Mas gostaria de chamar de amigo. Amigo da biblioteca.

Ilusão de ética

Desde estudante eu coleciono histórias e causos em que a ética ou a falta dela foram determinantes na situação profissional. Desde esconder um livro para que outros não tenham acesso a casos de demissão por denúncia e difamação. Temos o código de ética do bibliotecário, basta denunciar ao conselho e está resolvido? Sabemos, não é assim. E ainda se assim fosse seria um remédio para o que já deu errado e não uma garantia que isso não ocorresse de novo e de novo e de novo. Não podemos contar muito com o código de ética. A ética está em cada um de nós, nas inúmeras pequenas decisões que tomamos ao longo da nossa vida e que acabam repercutindo ao longo do tempo e em varias pessoas.

Recentemente uma bibliotecária morreu e o problema foi que “ela nao tinha crb”. Quando aparecem na novela personagens criando bibliotecas logo nas listas aparecem as broncas. Aliás, ser um bibliotecário é ter o Crb? As listas de bibliogatas foram criticadas por que algumas eleitas eram estudantes, nao tinham Crb.

Um bibliotecário foi condenado pelo Crb por uma charge enquanto uma não bibliotecária passou em concurso e assumiu cargo público de bibliotecária sem nunca ter feito o curso e o Crb não pode fazer nada.

Recentemente vi um blog de biblioteconomia com uma caçamba de livros de biblioteconomia digitalizados (vários da Briquet de Lemos) e compartilhados por bibliotecários. Quando será que os bibliotecários vão considerar isso falha ética? Uma vez uma bibliotecária me enviou um email dizendo que tinha xerocado metade do meu livro e perguntou-me se eu poderia enviar a outra metade para ela imprimir.

Existem bibliotecários que passam em 3, 4 concursos e não tem o cuidado de avisar os que não assumirão, eu mesmo confesso fiz isso, ou assumem passam 1 mês mudam de emprego, sem ter se dedicado como se deve aquele emprego. Também confesso já ter feito isso, passado só uma chuva em um emprego público podendo passar a oportunidade a outra pessoa mais comprometida.

Na época de estudante, conheci vários que tinham 2,3 estágios e só iam na faculdade para renovar a matricula por que estudar que é o que um estudante faz não faziam. Muitos desses sequer se formaram, mas tiraram a oportunidade de estudantes de Biblio de verdade terem uma formação prática melhor.

Existem bibliotecários que não apenas normalizam como também fazem tcc, dissertações e teses. Artigos também, ora pois. Conheço ainda os que dizem fazer mas na verdade copiam da Internet (ladrão que rouba ladrão?).

Os exemplos são vários e precisam acabar. Se somos éticos, precisamos ser mais éticos. Se não somos, precisamos começar a ser.

Ser ético, a meu ver, é refletir, ponderar, antes de agir e optar em fazer o certo por ser o certo. Como diz aquele principio, creio que bíblico, “tudo me é permitido mas nem tudo me convém”.

Ao fim das contas refletimos na profissão o nosso mau caráter diário em outras esferas de nossas vidas. Somos todos brasileiros. Temos agora a facilidade da comunicação para espalharmos nosso azedume a todos, e só pensar nas consequências depois. Todos se sentem com razão de destruir alguém ou alguma instituição. Se por algum motivo não gostamos de algo não mais tentamos resolver, vamos ao facebook.

Vivemos uma ilusão de ética também na nossa profissão. A ética passou a ser uma desculpa e não um esteio.

Quando vamos parar?

Como incentivar seu filho a ler antes dele aprender a ler

Muitas vezes me fizeram essa pergunta.

Conte histórias para ela, desde cedo, coisa de dias mesmo. Adultos gostam de conversar com o bebê fazendo aquela voz irritante de adulto falando como um bebê, acho que se o bebê falasse com certeza reclamaria, como em “olha quem está falando”. Por isso, aproveite seus momentos calmos com o bebê para contar histórias com sua voz normal, a criança agradece e isso melhora sem dúvida sua relação com aquele ser humano para o resto da vida.

Conheço pais que dizem “mas é um bebê, não sabe nada”. Ora, por isso mesmo você deve começar a apresentar-lhe o mundo através das histórias.

Conte qualquer história, importa mais a forma como se conta do que a história em si. Aprenda a adaptar, e muitas vezes adaptar é apenas tirar os excessos de erotismo e violência que as histórias trazem. Criança não é idiota, e aqui fica minha crítica a vários livros e autores infantis e suas histórias imbecis. Criança gosta de aventura, amor, drama, suspense, mistério e terror em tramas bem montadas assim como qualquer adulto. Os contos infantis clássicos trazem tudo isso, “a roupa nova do rei” e “a bela adormecida” são contos infantis, para citar dois dos que mais gosto.

Desconfio que os filhos gostam mesmo é de histórias que ocorreram com os pais, e nessa hora eu aproveito para inventar bastante. As crianças adoram. Também é muito legal contar as histórias que nós escutamos quando crianças, como Comadre Florzinha, Pai do Mangue, Perna Cabeluda, entre outras. Além de garantir uma diversão, mantém a tradição viva por mais uma geração. Uma pesquisa nas lendas urbanas locais também pode ajudar, caso você não conheça.

Essa fase em que a criança não lê ainda, é muito muito importante, pois ela aprende a entrar na história, e ter um livro por perto é bom para ela associar de onde vem a história. Nessa fase pré alfabetização o contato com os livros deve ser frequente, os livros podem fazer parte dos brinquedos das crianças e servir como um brinquedo. Eu sugiro livros de páginas resistentes e que tenham imagens, muitas imagens. Não precisa ter letra nenhuma, apenas imagens para que a criança possa folheá-lo com interesse. Se puder, faça uma estante para os livros ao alcance da criança, para que ela possa buscá-los sozinha. É surpreendente.

Livros de pano, de plástico, de espuma, de madeira, do que for. Livros de 0,50 centavos e de 1 real não podem ser considerados livros caros, e tem vários por aí. São sempre bem-vindos e as crianças gostam muito.

Leia sempre. O exemplo arrasta. Os maiores leitores que eu conheço tinham alguém da família como um grande leitor. Ler é diferente de estudar, a leitura por prazer é diferente da leitura utilitária. Em geral quem lê tem o seu lugar de ler, uma rede, um sofá, e você vai gostar de encontrar seu filho sua filha lendo lá igual a você um dia.

Frequente feiras de livros, livrarias e bibliotecas com as crianças, elas precisam entender que livro é apenas livro e que existem vários, inúmeros deles por aí. Certa vez vi numa livraria uma criança com medo de pegar livros na seção infantil, a mãe do lado marcando em cima para que ela não fizesse bagunça, enquanto minha filha estava sentada com vários livros espalhados. Criança e livro precisam ter uma relação intima.

Fantoches e dedoches fazem sucesso nessa fase, sempre tenha alguns para contar histórias com mais apelo dramático.

Meninos gostam de heróis e meninas gostam de princesas, e não foi a Disney que determinou isso, por mais que as teorias da conspiração digam o contrário.

Você pode aproveitar a história para ensinar algo, é por isso que os contos infantis são um sucesso desde sempre. Se você quer ensinar o valor da lealdade, dos respeito aos mais velhos, da honra, da calma, enfim, do que quiser passar como valor para a criança, conte histórias. Vale muito mais do que horas repetindo isso e aquilo. E a criança aprende bem mais rápido.

Livros podem ser lidos de diversas maneiras, não espere a criança aprender a ler para iniciar seu contato com os livros e o que eles contêm: mágica.

Não é fácil fazer tudo isso e mesmo fazendo pode não garantir que sua criança se torne uma ávida leitora. Mas com certeza terá feito a infância dela mais bacana.

Relato de experiência

Primeiro, agradeço aos leitores do BSF, a Moreno, Tiago e a toda equipe.

Foi uma experiência muito gratificante. Apesar de eu já escrever um blog há um tempo, e o blog ser de biblioteconomia, o Concursos é muito específico. Aqui, como o próprio nome indica, não há fronteiras.

Procurei levar isto ao pé da letra, e postei sobre muita coisa, algumas até “entaladas” na garganta durante um tepo, e que só poderiam ser escritas e lidas aqui. Escrevi menos do que gostaria, mas fico feliz pela receptividade. Essa breve experiência também contribui para o que vem sendo o meu blog pessoal.

Parabenizo o BSF por esse intercâmbio de blogueiros, que enriquece a nossa biblioblogosfera. E fico aqui esperando os próximos convidados.

Como diria Julio Rei, “a luta continua, companheiros”.

A balança, a balança, a balança é profunda

Quem mexer com a biblioteconomia

Vai ganhar …………………………..

Os pioneiros e Edson Nery da Fonseca

Valorizar os homens e mulheres que ajudaram a forjar uma profissão é algo muito digno, especialmente quando é uma profissão que vive da memória.

A Revista World Libraries tem edições especiais em que traz uma biografia dos grandes bibliotecários e bibliotecárias ao redor do mundo. Até o momento não tem ninguém do Brasil. Não me perguntem a razão.

Entre outros, temos o perfil de Ranganathan, escrito por outro pioneiro, Foskett.

Mas quem seriam os pioneiros brasileiros? Vamos nos reportar ao clássico livro História da Biblioteconomia Brasileira, do Prof. César Augusto Castro. Os pioneiros estão todos lá. Rubens Borba de Moraes recebeu uma biografia de qualidade, publicada pela Briquet de Lemos. Ramiz Galvão teve uma biografia escrita por Edson Nery da Fonseca. Edson Nery da Fonseca não tem ainda nenhuma biografia sobre si. Existem, no entanto, rumores de que em breve seja lançada uma autobiografia.

Mas o que diria uma biografia sobre Edson Nery da Fonseca?

Ele foi importante não apenas para a biblioteconomia, mas para a cultura brasileira de modo geral. Nascido em 1921, conviveu com todos os expoentes intelectuais brasileiros. Dos poetas Bandeira e Cabral, ao romancista e ex-presidente José Sarney. De Otto Carpeaux e Antonio Houaiss a José Lins do Rego e Rubens Borba de Moraes. De Gilberto Freyre a Ricardo Brennand. De Álvaro Lins a Mauro Mota. Mauro Mota, que é mais um dos grandes poetas desconhecidos do Brasil, e que chegou a ser até da ABL, escreveu um poema para Edson Nery com o título: O Cão.

O Cão
(A Edson Nery da Fonseca)

É um cão negro. É talvez o próprio Cão
assombrado e fazendo assombração.
Estraçalha o silêncio com seus uivos.
A espada ígnea do olhar na escuridão
separa a noite, abre um canal no escuro.
Cão da Constelação do Grande Cão,
tombado no quintal, espreita o pulo:
duendes, fantasmas de ladrão no muro.

O latido ancestral liberta a fome
de tempo, e o cão, presa do faro, come
o medo e a treva. Agita-se, devora

sua ração de cor. Pois, louco e uivante,
lambe os pontos cardeais, morde o levante
e bebe o sangue matinal da aurora.

Participou da fundação da UnB, onde ensinou durante anos e de onde é Professor Emérito. Foi levado para lá pelo próprio Darcy Ribeiro. Falar de Edson Nery é contar um pouco a história da inteligência brasileira.

Para a Biblioteconomia, no entanto, seu legado é muito mais importante. Edson Nery foi e ainda é combativo. Não aceita absurdos e não aceita a ignorância como regra. É clássica a sua paródia do verso de Vinícius de Moraes “As burras que me desculpem, mas cultura é fundamental” no seu texto Receita para um bibliotecário. Ele fundou cursos de biblioteconomia de graduação e de pós-graduação. Ajudou a fundar o IBBD, hoje IBICT. Escreveu inúmeros livros, entre eles o principal livro de biblioteconomia escrito no Brasil, que é o Introdução à Biblioteconomia. Traduziu livros. É dele a organização do primeiro e quase único livro sobre bibliometria publicado por aqui. Nunca se contentou com as bibliotecas ruins que o Brasil tem, e nunca temeu as consequências das “verdades incômodas” que escreveu. Vários dos imbróglios em que se meteu estão no livro “Ser ou não ser bibliotecário e outros manifestos contra a rotina”.

Infelizmente, muita coisa que o Professor condenava há mais de 40 anos no seu “Ser ou não ser bibliotecário” ainda hoje são realizadas. Precisamos ler mais Edson Nery da Fonseca. Tem uma passagem de uma palestra dele em que, se reportando ao primeiro congresso de biblioteconomia, ele critica o fato dos bibliotecários perderem tempo discutindo “código de ética e outras bobagens semelhantes”. E há pouco tempo, ganhou mais uma vez a ira da classe bibliotecária do seu estado (Pernambuco) por denunciar inflamado o descaso de profissionais na Biblioteca Pública Estadual.

Para mim, todo curso de biblioteconomia deveria ter uma disciplina chamada “Estudos da obra de Edson Nery da Fonseca”.

Ensino de biblioteconomia ou de ciência da informação?

Um ponto em que venho refletindo há um tempo com relação ao ensino de biblioteconomia no Brasil é: até que ponto um doutorado em CI é bom para formar bibliotecários? Cada vez mais temos doutores com graduação em diferentes áreas, e experiências profissionais idem, ensinando biblioteconomia e formando bibliotecários. Até que ponto isso é bom para a profissão?

A lei é clara:

Art. 6o – São atribuições dos Bacharéis em Biblioteconomia, a organização, direção e execução dos serviços técnicos de repartições públicas federais, estaduais, municipais e autárquicas e empresas particulares concernentes às matérias e atividades seguintes:

a) o ensino de Biblioteconomia;
b) a fiscalização de estabelecimentos de ensino de Biblioteconomia reconhecidos, equiparados ou em via de equiparação

E não pode ser diferente disso. Se para ser bibliotecário é preciso ser formado em biblioteconomia e ser regitrado no conselho, como se pode ter pessoas que nunca trabalharam com biblioteconomia formando bibliotecários? Claro, existem disciplinas que podem ser ensinadas por pessoas de áreas diferentes, e outras que só um bibliotecário para ensinar para os futuros. A questão é que é difícil definir quais são essas disciplinas, por um lado, e como a pós em CI já existe há um temmpo por aqui, alguns curriculos de biblioteconomia se tornaram vazios no tocante à biblioteconomia, em prol de uma pretensa formação em CI. Dia desses descobri que minha amiga secreta do BSF, Amanda, não tem no currículo a disciplina História do Livro e das Bibliotecas, tem algo parecido com isso. Pelo amor dos meus filhinhos, como se formam bibliotecários que não estudam história do livro e das bibliotecas?

Por outro lado, temos também professores “biônicos”. Que terminam a graduação, emendam com mestrado, emendam com doutorado e vão ensinar biblioteconomia. Cadê a experiência? Cadê o cotidiano do bibliotecário no ensino? Não tem.

Isso tudo, a meu ver, prejudica sobremaneira a formação dos futuros bibliotecários. Que ao terminar o curso precisam aprender a ser bibliotecários na prática, e muitas vezes não é nada fácil.

A meu ver, uma saída é ter mais profissionais nas salas de aula, independentemente de ter títulos. Vale muito mais 10, 15 anos ou mais à frente de uma biblioteca do que um pós-doutorado em CI. Estamos formando bibliotecários, e não cientistas.

Levanto a discussão nesse momento, pois é de acordo com a lei atribuição do Conselho fiscalizar o ensino de biblioteconomia. E isso definitivamente não vem sendo bem feito.