Como incentivar seu filho a ler antes dele aprender a ler

Muitas vezes me fizeram essa pergunta.

Conte histórias para ela, desde cedo, coisa de dias mesmo. Adultos gostam de conversar com o bebê fazendo aquela voz irritante de adulto falando como um bebê, acho que se o bebê falasse com certeza reclamaria, como em “olha quem está falando”. Por isso, aproveite seus momentos calmos com o bebê para contar histórias com sua voz normal, a criança agradece e isso melhora sem dúvida sua relação com aquele ser humano para o resto da vida.

Conheço pais que dizem “mas é um bebê, não sabe nada”. Ora, por isso mesmo você deve começar a apresentar-lhe o mundo através das histórias.

Conte qualquer história, importa mais a forma como se conta do que a história em si. Aprenda a adaptar, e muitas vezes adaptar é apenas tirar os excessos de erotismo e violência que as histórias trazem. Criança não é idiota, e aqui fica minha crítica a vários livros e autores infantis e suas histórias imbecis. Criança gosta de aventura, amor, drama, suspense, mistério e terror em tramas bem montadas assim como qualquer adulto. Os contos infantis clássicos trazem tudo isso, “a roupa nova do rei” e “a bela adormecida” são contos infantis, para citar dois dos que mais gosto.

Desconfio que os filhos gostam mesmo é de histórias que ocorreram com os pais, e nessa hora eu aproveito para inventar bastante. As crianças adoram. Também é muito legal contar as histórias que nós escutamos quando crianças, como Comadre Florzinha, Pai do Mangue, Perna Cabeluda, entre outras. Além de garantir uma diversão, mantém a tradição viva por mais uma geração. Uma pesquisa nas lendas urbanas locais também pode ajudar, caso você não conheça.

Essa fase em que a criança não lê ainda, é muito muito importante, pois ela aprende a entrar na história, e ter um livro por perto é bom para ela associar de onde vem a história. Nessa fase pré alfabetização o contato com os livros deve ser frequente, os livros podem fazer parte dos brinquedos das crianças e servir como um brinquedo. Eu sugiro livros de páginas resistentes e que tenham imagens, muitas imagens. Não precisa ter letra nenhuma, apenas imagens para que a criança possa folheá-lo com interesse. Se puder, faça uma estante para os livros ao alcance da criança, para que ela possa buscá-los sozinha. É surpreendente.

Livros de pano, de plástico, de espuma, de madeira, do que for. Livros de 0,50 centavos e de 1 real não podem ser considerados livros caros, e tem vários por aí. São sempre bem-vindos e as crianças gostam muito.

Leia sempre. O exemplo arrasta. Os maiores leitores que eu conheço tinham alguém da família como um grande leitor. Ler é diferente de estudar, a leitura por prazer é diferente da leitura utilitária. Em geral quem lê tem o seu lugar de ler, uma rede, um sofá, e você vai gostar de encontrar seu filho sua filha lendo lá igual a você um dia.

Frequente feiras de livros, livrarias e bibliotecas com as crianças, elas precisam entender que livro é apenas livro e que existem vários, inúmeros deles por aí. Certa vez vi numa livraria uma criança com medo de pegar livros na seção infantil, a mãe do lado marcando em cima para que ela não fizesse bagunça, enquanto minha filha estava sentada com vários livros espalhados. Criança e livro precisam ter uma relação intima.

Fantoches e dedoches fazem sucesso nessa fase, sempre tenha alguns para contar histórias com mais apelo dramático.

Meninos gostam de heróis e meninas gostam de princesas, e não foi a Disney que determinou isso, por mais que as teorias da conspiração digam o contrário.

Você pode aproveitar a história para ensinar algo, é por isso que os contos infantis são um sucesso desde sempre. Se você quer ensinar o valor da lealdade, dos respeito aos mais velhos, da honra, da calma, enfim, do que quiser passar como valor para a criança, conte histórias. Vale muito mais do que horas repetindo isso e aquilo. E a criança aprende bem mais rápido.

Livros podem ser lidos de diversas maneiras, não espere a criança aprender a ler para iniciar seu contato com os livros e o que eles contêm: mágica.

Não é fácil fazer tudo isso e mesmo fazendo pode não garantir que sua criança se torne uma ávida leitora. Mas com certeza terá feito a infância dela mais bacana.

Relato de experiência

Primeiro, agradeço aos leitores do BSF, a Moreno, Tiago e a toda equipe.

Foi uma experiência muito gratificante. Apesar de eu já escrever um blog há um tempo, e o blog ser de biblioteconomia, o Concursos é muito específico. Aqui, como o próprio nome indica, não há fronteiras.

Procurei levar isto ao pé da letra, e postei sobre muita coisa, algumas até “entaladas” na garganta durante um tepo, e que só poderiam ser escritas e lidas aqui. Escrevi menos do que gostaria, mas fico feliz pela receptividade. Essa breve experiência também contribui para o que vem sendo o meu blog pessoal.

Parabenizo o BSF por esse intercâmbio de blogueiros, que enriquece a nossa biblioblogosfera. E fico aqui esperando os próximos convidados.

Como diria Julio Rei, “a luta continua, companheiros”.

A balança, a balança, a balança é profunda

Quem mexer com a biblioteconomia

Vai ganhar …………………………..

Os pioneiros e Edson Nery da Fonseca

Valorizar os homens e mulheres que ajudaram a forjar uma profissão é algo muito digno, especialmente quando é uma profissão que vive da memória.

A Revista World Libraries tem edições especiais em que traz uma biografia dos grandes bibliotecários e bibliotecárias ao redor do mundo. Até o momento não tem ninguém do Brasil. Não me perguntem a razão.

Entre outros, temos o perfil de Ranganathan, escrito por outro pioneiro, Foskett.

Mas quem seriam os pioneiros brasileiros? Vamos nos reportar ao clássico livro História da Biblioteconomia Brasileira, do Prof. César Augusto Castro. Os pioneiros estão todos lá. Rubens Borba de Moraes recebeu uma biografia de qualidade, publicada pela Briquet de Lemos. Ramiz Galvão teve uma biografia escrita por Edson Nery da Fonseca. Edson Nery da Fonseca não tem ainda nenhuma biografia sobre si. Existem, no entanto, rumores de que em breve seja lançada uma autobiografia.

Mas o que diria uma biografia sobre Edson Nery da Fonseca?

Ele foi importante não apenas para a biblioteconomia, mas para a cultura brasileira de modo geral. Nascido em 1921, conviveu com todos os expoentes intelectuais brasileiros. Dos poetas Bandeira e Cabral, ao romancista e ex-presidente José Sarney. De Otto Carpeaux e Antonio Houaiss a José Lins do Rego e Rubens Borba de Moraes. De Gilberto Freyre a Ricardo Brennand. De Álvaro Lins a Mauro Mota. Mauro Mota, que é mais um dos grandes poetas desconhecidos do Brasil, e que chegou a ser até da ABL, escreveu um poema para Edson Nery com o título: O Cão.

O Cão
(A Edson Nery da Fonseca)

É um cão negro. É talvez o próprio Cão
assombrado e fazendo assombração.
Estraçalha o silêncio com seus uivos.
A espada ígnea do olhar na escuridão
separa a noite, abre um canal no escuro.
Cão da Constelação do Grande Cão,
tombado no quintal, espreita o pulo:
duendes, fantasmas de ladrão no muro.

O latido ancestral liberta a fome
de tempo, e o cão, presa do faro, come
o medo e a treva. Agita-se, devora

sua ração de cor. Pois, louco e uivante,
lambe os pontos cardeais, morde o levante
e bebe o sangue matinal da aurora.

Participou da fundação da UnB, onde ensinou durante anos e de onde é Professor Emérito. Foi levado para lá pelo próprio Darcy Ribeiro. Falar de Edson Nery é contar um pouco a história da inteligência brasileira.

Para a Biblioteconomia, no entanto, seu legado é muito mais importante. Edson Nery foi e ainda é combativo. Não aceita absurdos e não aceita a ignorância como regra. É clássica a sua paródia do verso de Vinícius de Moraes “As burras que me desculpem, mas cultura é fundamental” no seu texto Receita para um bibliotecário. Ele fundou cursos de biblioteconomia de graduação e de pós-graduação. Ajudou a fundar o IBBD, hoje IBICT. Escreveu inúmeros livros, entre eles o principal livro de biblioteconomia escrito no Brasil, que é o Introdução à Biblioteconomia. Traduziu livros. É dele a organização do primeiro e quase único livro sobre bibliometria publicado por aqui. Nunca se contentou com as bibliotecas ruins que o Brasil tem, e nunca temeu as consequências das “verdades incômodas” que escreveu. Vários dos imbróglios em que se meteu estão no livro “Ser ou não ser bibliotecário e outros manifestos contra a rotina”.

Infelizmente, muita coisa que o Professor condenava há mais de 40 anos no seu “Ser ou não ser bibliotecário” ainda hoje são realizadas. Precisamos ler mais Edson Nery da Fonseca. Tem uma passagem de uma palestra dele em que, se reportando ao primeiro congresso de biblioteconomia, ele critica o fato dos bibliotecários perderem tempo discutindo “código de ética e outras bobagens semelhantes”. E há pouco tempo, ganhou mais uma vez a ira da classe bibliotecária do seu estado (Pernambuco) por denunciar inflamado o descaso de profissionais na Biblioteca Pública Estadual.

Para mim, todo curso de biblioteconomia deveria ter uma disciplina chamada “Estudos da obra de Edson Nery da Fonseca”.

Ensino de biblioteconomia ou de ciência da informação?

Um ponto em que venho refletindo há um tempo com relação ao ensino de biblioteconomia no Brasil é: até que ponto um doutorado em CI é bom para formar bibliotecários? Cada vez mais temos doutores com graduação em diferentes áreas, e experiências profissionais idem, ensinando biblioteconomia e formando bibliotecários. Até que ponto isso é bom para a profissão?

A lei é clara:

Art. 6o – São atribuições dos Bacharéis em Biblioteconomia, a organização, direção e execução dos serviços técnicos de repartições públicas federais, estaduais, municipais e autárquicas e empresas particulares concernentes às matérias e atividades seguintes:

a) o ensino de Biblioteconomia;
b) a fiscalização de estabelecimentos de ensino de Biblioteconomia reconhecidos, equiparados ou em via de equiparação

E não pode ser diferente disso. Se para ser bibliotecário é preciso ser formado em biblioteconomia e ser regitrado no conselho, como se pode ter pessoas que nunca trabalharam com biblioteconomia formando bibliotecários? Claro, existem disciplinas que podem ser ensinadas por pessoas de áreas diferentes, e outras que só um bibliotecário para ensinar para os futuros. A questão é que é difícil definir quais são essas disciplinas, por um lado, e como a pós em CI já existe há um temmpo por aqui, alguns curriculos de biblioteconomia se tornaram vazios no tocante à biblioteconomia, em prol de uma pretensa formação em CI. Dia desses descobri que minha amiga secreta do BSF, Amanda, não tem no currículo a disciplina História do Livro e das Bibliotecas, tem algo parecido com isso. Pelo amor dos meus filhinhos, como se formam bibliotecários que não estudam história do livro e das bibliotecas?

Por outro lado, temos também professores “biônicos”. Que terminam a graduação, emendam com mestrado, emendam com doutorado e vão ensinar biblioteconomia. Cadê a experiência? Cadê o cotidiano do bibliotecário no ensino? Não tem.

Isso tudo, a meu ver, prejudica sobremaneira a formação dos futuros bibliotecários. Que ao terminar o curso precisam aprender a ser bibliotecários na prática, e muitas vezes não é nada fácil.

A meu ver, uma saída é ter mais profissionais nas salas de aula, independentemente de ter títulos. Vale muito mais 10, 15 anos ou mais à frente de uma biblioteca do que um pós-doutorado em CI. Estamos formando bibliotecários, e não cientistas.

Levanto a discussão nesse momento, pois é de acordo com a lei atribuição do Conselho fiscalizar o ensino de biblioteconomia. E isso definitivamente não vem sendo bem feito.

Graduação em Biblioteconomia à distância: quando?

Sempre vejo neste blog pessoas interessadas em cursar a graduação em biblioteconomia na modalidade à distância. Especialmente nos últimos anos, com a valorização da profissão, por um lado, e a escassez dos cursos, já que quase todos estão nas capitais dos estados, levando em conta que tem estados que não possuem o curso e muitos que contam apenas com um único curso.

Nada mais desejável, portanto, do que uma graduação à distância em biblioteconomia.

A legislação bibliotecária que trata disso é antiga demais.

De acordo com o parágrafo único do artigo 2º da LEI No 4.084, DE 30 DE JUNHO DE 1962:

Parágrafo Único – Não será permitido o exercício da profissão aos diplomados por escolas ou cursos cujos estudos hajam sido feitos através de correspondência, cursos intensivos, cursos de férias, etc.

Mas cursos à distância não podem ser considerados cursos menores como os citados. Já a LEI No 9.674, DE 26 DE JUNHO DE 1998

The Rocketeer film

, diz apenas:

Art. 3o – O exercício da profissão de Bibliotecário é privativo:

I. dos portadores de diploma de Bacharel em Biblioteconomia, expedido por instituições de ensino superior oficialmente reconhecidas, registradas nos órgãos competentes, de acordo com a legislação em vigor;

E então, bastaria que uma universidade ou faculdade oficialmente reconhecida, registrada nos órgãos competentes, oferecesse o curso, independentemente de ser à distância ou não.

De qualquer forma, ainda não vi nenhum curso de graduação em biblioteconomia à distância. Já está na hora de surgir algum.