A caixinha verde de Pandora

Aparecido, o porteiro, bate na mulher.

O assessor do secretário de cultura também rouba livros.

A ex-diretora ganhava viagens para Miami da empresa de software.

Gabriela não lava as mãos depois de ir ao banheiro.

A diretora não responde e-mail porque não consegue escrever uma frase que faça sentido.

Os colegas da Grande Biblioteca só conseguiram descobrir o que Dona Alzirinha realmente guardava naquela caixinha forrada com papel verde depois que ela morreu dentro do táxi, a caminho do trabalho. Oficialmente eram “modelos de fichas“, mas também podia ser “nada que você seja capaz de entender” ou “receitas de pudim” , dependendo de quem perguntasse e do humor do momento. Nos piores dias era “o cadastro de pessoas que eu pretendo matar“.

Na caixinha se aninhavam, em pacífica ordem, fichas catalográficas contendo pequenos segredos de funcionários e usuários da biblioteca, descritos de acordo com as regras do AACR2. Alguns eram bem escabrosos:

fichinha

Eram todas fichas de assunto com cabeçalhos bem escolhidos como Violência doméstica – Brasil – Século 21;  Corrupção; Higiene etc. Para o José Carlos homofóbico e pai desnaturado, o assunto era Infâmia, sem mais.

Dona Alzirinha, idade incerta mas avançada, era quase um mito na Grande Biblioteca, admirada pela grande capacidade de trabalho e temida pela selvageria de sua sinceridade. Frases como “seu conhecimento de regras de catalogação não desculpa sua ignorância em todos os demais campos do conhecimento” eram famosas entre os funcionários mais jovens, que adoravam a velhinha boca-dura. Acredita-se que passara uns tempos presa durante a ditadura, mas ela jamais confirmou. “Arrume umas lutas para você e pare de se preocupar com o passado alheio”, costumava dizer aos curiosos que a incomodavam com perguntas sobre o tema.

Ninguém poderia imaginar que aquela senhora que pouco interagia com a fauna local tivesse tantos podres catalogados em sua caixinha verde. “Ela inventou isso tudo”, defendia-se um dos catalogados, enquanto outros ponderavam que as fichinhas continham informações quentes e fáceis de apurar. Helena, uma das bibliotecárias da seção de catalogação observou, pensativa, que a caixa estava muito vazia. “Gente, eu via a Dona Alzirinha mexendo nesta caixa quase todos os dias, estava lotada de fichas. E agora está pela metade”.

– E alguém sabe o que ela estava fazendo no fichário nesses últimos dias? – perguntou a diretora.
– Acho que acabamos de descobrir – responde a catalogadora, coçando o queixo para disfarçar o sorriso.

O velho fichário da Grande Biblioteca tinha em Dona Alzirinha sua mais feroz inimiga. Desde que “a porcaria nova”, como ela chamava o sistema informatizado, provou que funcionava de forma minimamente aceitável, a velha catalogadora declarou que já era hora de jogar fora “a porcaria velha”. Para Dona Alzirinha, nada prestava.

– Como, Dona Alzirinha?! Nem terminamos ainda de inserir tudo no sistema … – escandalizou-se a diretora.
– E daí? Só faltam aqueles livros que ninguém mais procura. Joga fora logo, senão a velharada não aprende a consultar a porcaria nova.
– Não, não podemos fazer isso! Esse fichário é nossa história, Dona Alzirinha, muito me admira a senhora, tão …
– História, minha filha – interrompeu – é uma coisa que você vai precisar ler muito para começar a entender o que é.

E saiu virando as costas para a indignada diretora.

Um silêncio preocupado instalou-se entre os presentes, que avaliavam as consequência potenciais do biblio-terrorismo da falecida. A diretora, que ruminava intermináveis discussões passadas sobre o vetusto equipamento com uma cada vez mais teimosa Dona Alzirinha e seus seguidores adeptos do crime de lesa-fichário, bateu o martelo.

– Vamos fazer um mutirão e tirar todas essas fofocas indecentes do nosso catálogo.

Protestos se fizeram ouvir. Que absurdo perder tempo com isso, não vamos conseguir encontrar as drogas dessas fichas, deixa pra lá, ninguém consulta mais aquilo. Esconder no porão o “nosso catálogo” ou descartá-lo, como queria a velhota, era a melhor coisa a fazer. Mas não teve mais nem meio-mais, a diretora estava irredutível. Não seria agora, depois da morte da adversária mais implacável, que ela iria perder a parada.

E lá se foram todos caçar fichinhas malditas, em turnos de 45 minutos cada dupla. Os cabeçalhos de assunto eram uma boa pista, mas logo descobriram que a velhinha não era besta. Havia várias fichas cujos assuntos não eram tão óbvios, como “Cultura de cana” para a revelação de que alguém bebia regularmente cachaça em horário de expediente. Depois de algumas horas de busca, uma das estagiárias anunciou, abanando uma fichinha:

– Pessoal, esta aqui não é da Dona Alzirinha. As delas são todas datilografadas em fichas no estoque antigo, aquelas boas, grossinhas … Esta aqui foi impressa e a gramatura é outra.

Todos foram examinar a descoberta e mais dois funcionários disseram também ter encontrado fichas diferentes. Rapidamente constataram que havia, pelo menos, três outros tipos diferentes de fichas. Algumas continham erros gramaticais que Dona Alzirinha jamais cometeria.

Ao receber a notícia, a diretora simplesmente agarrou sua bolsa, arrumou rapidamente o cabelo e foi saindo.

– Amanhã eu vejo isso. Agora tenho que ir, estou atrasada para minha terapia.

A secretária olhou na agenda e tentou avisar que a consulta era no dia seguinte, mas recebeu um olhar fulminante e se calou. No dia seguinte, a diretora não tirou os óculos de sol para trabalhar, sinal inequívoco de insônia seguida de enxaqueca. Foi a secretária que mandou parar o mutirão caça-fichas. À tarde, chegaram os moços da manutenção e carregaram o fichário para o porão, de onde viria a desaparecer discretamente meses depois.

No boteco onde a galera foi comemorar a vitória póstuma da terrível Alzirinha, a catalogadora Helena mostrou uma das fichinhas que resgatou salvou.

– Esta eu vou guardar.

Era uma das autênticas, caprichosamente datilografada na Olivetti 32 usada pela agora saudosa velhinha, com o título:

O pai da diretora é um ex-torturador do DOI-CODI.

foto: Toby Oxborrow, Surprised box face.

A moça, o verme e o tigre: uma história da Grande Biblioteca

O nome verdadeiro da estagiária era Maria Amélia, mas como todos na família desde sempre a chamaram Pris, foi com esse apelido que ela se apresentou aos colegas na Grande Biblioteca. Uma das bibliotecárias perguntou se os pais dela eram fãs de Blade runner mas foram obrigados a lhe dar o nome das avós por pressão familiar. Não, não era isso, mas não era a primeira vez que Pris ouvia que seu apelido tinha a ver com esse filme. Precisava assisti-lo qualquer dia.

Pris, estudante de letras que amava livros e lembrava com carinho da moça da pequena biblioteca da escola onde estudou, ficou feliz em conseguir um estágio num local para ela tão mitológico. Emprestar livros para a população e ajudar as pessoas a escolherem suas leituras parecia-lhe o melhor trabalho do mundo. Até a realidade cair pesadamente sobre ela.

A estagiária não conseguia conviver com a agressividade das pessoas. Quando um leitor grosseiro ou impaciente a tratava mal, ficava completamente sem ação e chegava a chorar. O colegas mais velhos tentavam ensiná-la a lidar com os “ossos”, explicavam que não podia ser tão sensível e “levar para o pessoal”, mas não adiantava. Pris simplesmente não conseguia entender como alguém podia tratar mal uma pessoa que não apenas estava trabalhando, mas tentando sinceramente ajudar. O chefe logo percebeu isso e a afastou um pouco do contato com o público. Pris ficou meio triste com isso, mas entendeu, e como amava mesmo os livros, sentia-se feliz em guardá-los nas estantes, trocar etiquetas e separar os que precisavam de reparos. E ainda havia momentos em que ela ficava no balcão de atendimento, cobrindo horário de jantar dos colegas.

Parecia estar tudo bem assim, até que o Nojento a descobriu. O Nojento era o usuário mais detestado pelos funcionários da Grande Biblioteca. O homem não chegava a ser abertamente grosseiro, mas conseguia ser extremamente desagradável apenas com um olhar ou um comentário irônico, particularmente se era atendido por um funcionário negro, mulher ou nitidamente homossexual, como era o caso do chefe da Pris. Esse era o único que não se deixava afetar pelo Nojento, porque também sabia usar apenas um olhar para colocar as pessoas em seu devido lugar. Diziam que o Nojento era membro de uma organização fascista, mas ninguém, conseguiu descobrir nada sobre a criatura. “É só uma cria do inferno nascida do cu de um demônio de segunda”, dizia uma das moças da faxina, desbocada e muito respeitada por essa qualidade. E o Nojento, com seu cabelo ensebado e seu queixo de Goebbels, começou a frequentar a Grande Biblioteca justamente no horário em que Pris estava atendendo e que seu chefe já havia ido embora. O homem parecia gostar dela, ainda que de forma desprezível. Fazia elogios ao seu cabelo e roupas, olhava para a moça com aquele olhar que os homens parecem praticar em frente ao espelho para provocar repulsa nas mulheres e até chegou a levar um chocolate vagabundo de presente, atirado à lixeira assim que o desinfeliz virou as costas.

Pris estava começando a entrar em desespero. Quanto mais ela demonstrava sua aversão, mais o homem parecia decidido a importuná-la, divertindo-se com a aflição da estagiária. E o pior é que não havia nada de concreto que pudesse motivar uma reclamação. Pris receava que lhe dissessem que precisava aprender a lidar com “galanteios”, como já ouvira uma vez na faculdade, e tinha medo de que a mandassem embora por ser uma pessoa “difícil”, que chorava à toa e criava problemas. Os colegas diziam que não, que ninguém faria isso com ela, mas Pris tinha dúvidas. Até o chefe, que a entendia e protegia, parecia não ter muita certeza da reação da chefe da Grande Biblioteca, que não gostava de lidar com esse tipo de problema.

Naquele dia, ela não estava no balcão de empréstimos no horário habitual, porque dois dos colegas estavam trabalhando até mais tarde, pagando horas devidas, e aproveitou para ir resolver um problema na impressora de etiquetas na sala da catalogação. O Alencar viu, com desgosto, o Nojento entrar pela porta, já com aquele sorriso seboso na cara, sorriso que se apagou assim que não viu sua presa. O desgraçado ficou por ali de bobeira por uns minutos, mexendo no expositor de livros novos, até que Alencar e a colega de balcão se distraíram com uns jovens perdidos no universo dos catálogos e o perderam de vista. Desconfiado, Alencar foi dar uma busca e viu o sujeito entrar na área reservada aos funcionários, furtivo.

Nesse dia, a bibliotecária que dava plantão noturno era a Fernanda, do Departamento de Aquisições. Fernandona, como a chamavam os poucos funcionários que não tinham medo dela, era uma ex-jogadora de basquete e maratonista de exatos um metro e oitenta e quatro, uma negra de braços fortes, sorriso glorioso e fama de não levar desaforo para casa. Alencar avisou, “ô Fernanda, o cara que persegue a menina foi atrás dela lá no fundo, vou chamar o segurança”.

– Espera um pouco aí – avisou Fernanda, que já conhecia o sujeito e a história toda do assédio a Pris, erguendo-se nos saltos até atingir quase um metro e noventa.

Alencar achou melhor não discutir, só ligou discretamente para a portaria enquanto a Fernandona marchava para a porta dos serviços internos. O Nojento estava lá, no largo corredor cheio de portas, provavelmente esperando a estagiária aparecer.

– Procurando o quê, amigo? – a bibliotecária falou alto, sem se preocupar em ser educada. Educação não se aplicava ao caso.
– Calma aí, negona. O banheiro não é mais aqui?

Fernanda percebeu alguma coisa estranha no ar, algo pesado e viscoso. Como se tivesse entrado num ambiente contaminado ou num matadouro. O homem sorria, provocador, e ela avançou, sentindo o tigre subir dentro de si. Como no dia em que impediu o pai de bater na mãe, como na ocasião em que reagiu na rua a uma ofensa racista e quase foi presa. Empurrou o homem de encontro à parede, com toda a força, segurou-o pelo pescoço com as duas mãos e apertou um pouco, cheia de repugnância. O Nojento tentou se debater, mas Fernanda era bem mais forte do que ele e ambos sabiam disso. Falou baixo e pausadamente, deixando o tigre rosnar livremente:

– Você sabe que não. E sabe também que não vai voltar aqui nunca mais e, se voltar, vai ser de cabeça baixa, olhando pro chão. Você NUNCA MAIS vai dizer outra palavra nesta biblioteca que não seja “por favor” e “muito obrigado” e NUNCA MAIS vai olhar para aquela menina. Entendeu? Fui negra e clara?

Assim que o homem conseguiu abanar a cabeça em concordância, Fernanda o deixou ir. Saiu apressado, quase correndo, mas ainda conseguiu ensaiar um vago gesto de despedida para Alencar e os demais, que o olhavam perplexos. Para manter um resto de dignidade, sem dúvida. A bibliotecária veio logo atrás, sentindo o tigre recuar lentamente. O ar do grande salão de entrada também parecia sujo, como se o homem em fuga tivesse deixado pra trás a sua nuvem escura.

Fernanda ficou um pouco por ali, parada, tentando se recompor. Sentia nojo das mãos que haviam tocado no homem e uma vaga sensação de mal-estar parecia correr pelas suas veias. E foi nesse momento que entrou o Francês.

Alain era um professor da universidade que frequentava bastante a seção de obras raras, para alguma pesquisa acadêmica. Muito gentil, embora reservado, era bastante querido por todos os funcionários. As meninas o achavam bonito, embora fosse apenas um intelectual ossudo e meio velhusco, porque havia uma doçura em suas maneiras que encantava de imediato. No exato instante em que ele entrou, Fernanda percebeu que o ar pesado se dissipava, dando lugar a uma luminosidade diferente da luz habitual do ambiente. Ao vê-la ali parada, ainda meio em choque com o que acabara de fazer, o Francês se aproximou e perguntou, com seu sotaque forte:

– Que foi, Fernanda? Tudo bem com você?

– Tudo bem, meu lindo. Foi só uma coisa estranha que eu precisei fazer e que me deixou nervosa.

Alain franziu a testa e alisou levemente a lateral do braço da bibliotecária, num gesto de consolo.  Mais calma, Fernanda agradeceu pela preocupação, fez um sinal de positivo para o segurança que havia chegado com cara de ponto de interrogação e foram todos cuidar de suas vidas. A luz leve e brilhante que entrou com o Francês já havia tomado todo o espaço aéreo da Grande Biblioteca.

O Nojento nunca mais apareceu e Pris nem ficou sabendo da história. Combinaram de não contar nada para não assustá-la mais ainda. Apenas soube, por Alencar, que a Fernandona tinha algo a ver com o desaparecimento do “encosto” e a abraçou muito. Meses depois foi aberto um concurso público, com duas vagas para a Grande Biblioteca e ela se inscreveu. Decidira, afinal, que trabalhar em biblioteca era o que desejava da vida, apesar dos percalços todos. O chefe disse que, à medida que ela fosse ficando mais velha, as pessoas naturalmente a respeitariam mais. E depois, com a maturidade as lágrimas tendem a secar.  Mais tarde, pensava Pris,  poderia pensar em cursar Biblioteconomia. Por que não?

Como largar um livro

Sou uma leitora constante e esfomeada, ou seja, tenho necessidade de estar sempre lendo um livro ou, como nem sempre consigo controlar a impaciência para começar o próximo da fila, às vezes leio dois ao mesmo tempo. E quando digo “livro” pode ser uma coisa impressa em papel ou uma coisa digital, tanto faz, desde que seja ficção ou qualquer texto sobre assuntos que me interessam: arte, cinema, fotografia, história, política, literatura, mitologia grega.  Também leio textos de interesse profissional, mas esses entram no departamento das obrigações. Ler por obrigação é outro tipo de leitura,  não vale.

Mas também sou uma leitora completamente indisciplinada, caótica e sem-vergonha, do tipo que pula páginas, lê o final antecipadamente e desiste da leitura sem piedade se o livro não está agradando.

Um dia desses escrevi no Facebook sobre como larguei o 1Q84, do Haruki Murakami, no meio do segundo volume, porque o besta do livro abusou da minha paciência, e a amiga Ana Carolina Biscalchin sugeriu que eu fizesse um tutorial de como desistir de livros mainstream sem culpa! Como a culpa é algo que não me atinge facilmente quando se trata de coisas que me aborrecem, levei a sério a brincadeira. Por que não?

O tutorial poderia ser resumido a algo extremamente simples, assim:

Se um livro te aborrecer ou irritar, feche-o e abra de novo no dia seguinte. Pode ser que você apenas esteja num dia ruim. Se continuar te aborrecendo ou irritando, feche-o para sempre, jogue fora ou passe pra frente.

Mas resolvi caprichar para não dar margem a dúvidas, então leiam aí:

Como largar um livro

Muito fácil, não? Se alguém ainda estiver vacilando, faça aí um comentário e eu ajudo a destruir seus escrúpulos.

Eu também, na verdade, tenho os meus. Por hábito e gosto, prefiro não largar um livro só porque a leitura está difícil. Nesses casos eu insisto bastante, e costuma valer a pena, mesmo que demore para terminar e que seja necessário intercalar com outras leituras mais leves. Alguns dos livros que eu mais amo são um tanto difíceis de assimilar e precisam ser lidos várias vezes, em momentos distintos da vida. Ler Guimarães Rosa e Machado de Assis na adolescência é uma coisa, ler depois dos 30 ou 40 é outra. Do Ulisses eu só li uns trechos, porque além de difícil o desgraçado é muito chato, mas ainda mora na minha estante, querendo uma segunda chance. Vou pensar no caso.

Confissões de uma bibliotecária errada

Inspirada pelos Conselhos a um jovem bibliotecário, do Moreno Barros, resolvi contar tudo o que fiz de errado nesta minha longa carreira de bibliotecária. Ou quase tudo, porque em 35 anos a gente comete tantos erros que acaba esquecendo a metade.

Sinceramente, não sei se teria feito menos bobagens “se soubesse o que sei agora” ou se tivesse dado dois segundos de atenção a bons conselhos. Provavelmente não, porque boa parte dos erros eu cometi deliberadamente, sabendo muito bem no que iriam dar, outros simplesmente não pude evitar porque são parte da minha natureza. Como o escorpião da fábula, aquele que matou a rã que o levava nas costas enquanto atravessava um lago.

E observem que estou tratando aqui de carreira não de princípios éticos nem de convicções políticas, universos completamente diferentes que poucas vezes se encontram.

Dito isso, vamos às principais burradas, mais ou menos por ordem de lembrança.

1. Permaneci numa profissão da qual não gosto. É erro primordial, claro, que não inviabiliza uma carreira, mas também não ajuda em nada. Escolhi o curso de biblioteconomia porque era menina e não sabia que droga fazer da vida, como tantos outros jovens. Não pulei fora quando descobri onde me havia metido porque pobre não pode ter essas frescuras de trocar de faculdade. E por aqui acabam as desculpas, já que todo ser humano adulto deve ser capaz de mudar de profissão em algum momento de sua vidinha besta. Eu poderia ter ido fazer outra coisa, sei lá o quê. O problema é sempre o tal “sei lá”.

2. Descuidei um pouco da formação. Um erro inicial costuma provocar reações em cadeia difíceis de controlar, por exemplo, o aperfeiçoamento profissional pode ser um fardo chato para quem não morre de amores pela biblioteconomia. Não estou dizendo que fiquei parada e bocejando esses anos todos, eu estudei, fiz cursos, acompanhei a literatura da área e até participei, com enorme esforço, de congressos e seminários chatíssimos. Mas, como só me interesso por documentação audiovisual, área um tanto carente no Brasil, deveria ter procurado algo interessante para fazer em outro país. Mas não fui. Tive preguiça, medo, pensava que “essas coisas não são para mim” e, bem, talvez não fossem mesmo.

3. Fui um desastre no marketing pessoal. Numa profissão tão cheia de moças boazinhas, ser uma ursa antissocial e desbocada e nem se dar ao trabalho de disfarçar não é bom negócio. Entretanto, apesar do meu jeito inóspito de ser, sempre fiz questão de dividir conhecimentos e experiências com colegas e estudantes que procuram minha ajuda. Por ter estudado a vida toda em escolas públicas e trabalhar numa universidade pública, entendo isso praticamente como uma obrigação moral. Mas, como expliquei no início, estou tratando aqui de carreira. Embora essa minha postura tenha me rendido grande satisfação pessoal e muitas amizades, para fins carreirísticos teria sido mais útil vender consultoria, porque pouca gente dá valor ao que é de graça. A bibliotecária passou um dia todo com você explicando o trabalho dela? Deve ser uma coitada. A bibliotecária cobra uma grana para fazer uma palestra? Puxa, deve ser fera.

4. Confundi as coisas e deixei que minha decepção com a universidade e com a profissão me paralisasse por muito tempo. Amuada, enfiei a cara no trabalho e não fiz mais nada além de trabalhar no meu canto. Quem perdeu com isso, a USP e a biblioteconomia? Não, quem perdeu fui eu, claro.

5. Participei de greves, horror dos horrores! O movimento dos trabalhadores da USP ajudou a melhorar o nível salarial dos funcionários e contribuiu para deter algumas medidas nocivas à Universidade, mas esses são ganhos coletivos. Para a carreira do indivíduo, lamento informar, ser visto como “grevista” ou “gente ligada ao sindicato” é algo bastante ruim. Numa sociedade autoritária e escravocrata como a nossa, o trabalhador que ousa defender seus direitos é considerado como um bandido. Minto: até os traficantes e líderes de facções criminosas são mais admirados entre nós.

6. Fui otária. Defendi gente de caráter fraco, respeitei gente incompetente, fiz favores sem pensar em cobrança, aceitei cargos e responsabilidades que não queria e pior, que me afastaram de tudo o que me interessava de verdade.

7. Fui dura e cruel em alguns momentos. E não pensem que vou dizer que deveria ter sido mais legal. Meu erro foi não ter sido MAIS dura e MAIS cruel em muitos momentos.

Sete erros, que bonito. Sinto que poderia continuar nesta brincadeira por muito tempo, mas dá pena estragar esse número.

Uma bruxa chamada Caterina

Quando o homem muito magro entrou pela primeira vez na biblioteca, ninguém prestou muita atenção. A magreza exagerada e o aspecto cinzento do homem foram devidamente criticados em discretos cochichos, logo encerrados por um veredito do funcionário mais velho da equipe, “deve estar doente, coitado”.

O homem muito magro fez as perguntas de praxe que fazem os usuários novatos ou pouco familiarizados com o mundo das bibliotecas e só. Mas depois de 3 dias de consultas febris ao acervo e catálogos, um detalhe saboroso chamou a atenção do pessoal que guardava material: os livros e revistas consultados pelo homem eram quase todos ligados a assuntos sombrios como ocultismo, magia, bruxaria, artes divinatórias e outros babados do mundo sobrenatural. Até o Malleus Maleficarum foi encontrado na mesa usada pelo possível doente, para irritação da Lúcia, militante feminista bem informada e a única na equipe que sabia do que tratava aquele manual.

Capricho 43

Aí o pessoal resolveu comentar com a chefia, a bibliotecária Ilana, mesmo correndo o risco de levar bronca por preconceito com pessoas diferentes, por julgar o outro pelo aspecto físico etc. “Se nós fôssemos avaliados pelos mesmos critérios que vocês usam para reclamar dos usuários estaríamos todos desempregados, porque aqui todo mundo é muito bizarro”, era o discurso habitual nessas situações. Lúcia foi a porta-voz, deixando claro que não estavam pegando no pé do coitado, apenas queriam deixá-la avisada sobre Potenciais Problemas com Malucos. Era o famoso alerta PPcM, uma brincadeira que eles haviam inventado depois que descobriram um doido de pedra comendo um dicionário de sinônimos e antônimos, uma página por dia.

Sim, Ilana já havia reparado no Homem Muito Magro e na aflição expressa nos gestos dele. E no olhar incerto que ele lhe lançava em alguns momentos, um olhar que ela conhecia muito bem, um olhar com vontade de pedir ajuda, mas com medo ou vergonha demais para se arriscar. Ilana sentia culpa por ignorar esses olhares, mas como estava ocupada demais com usuários que conseguiam verbalizar suas questões e angústias, deixava para depois. A preocupação do pessoal a fez decidir tomar uma atitude, antes que começasse o zum-zum-zum e os bicos que normalmente se seguiam aos relatórios para a chefia. Usou seu procedimento não invasivo padrão, lançar um olhar firme-porém-simpático, um sorriso caloroso e um direto “tudo bem aí com o senhor? ”. O Homem Muito Magro assustou-se um pouco, como tantos usuários que não esperam simpatia, respondeu com um vacilante “tudo bem” e voltou a esquadrinhar as estantes esotéricas. Depois de alguns vinte minutos criou coragem e se aproximou da mesa da bibliotecária.

– Moça, estou procurando uma coisa, uma informação importante, mas estou tendo dificuldades. Será que você, a senhora, poderia me ajudar?
– Claro, me chame de você. O que está procurando?

Aparentando alguma dificuldade para emitir a voz, o Homem Muito Magro engoliu em seco, suspirou e soltou:

– Preciso encontrar uma bruxa chamada Caterina.

O sorriso solícito da bibliotecária congelou ligeiramente. O homem sentiu a mudança e começou a se explicar, num discurso angustiado, mas sem qualquer sinal de incoerência ou delírio. Paciente de câncer há alguns meses, recebera dias atrás o desengano final do médico. O tumor ignorou tanto a quimioterapia quanto as preces da família, e estava prestes a derrotar completamente seu portador. O Homem Muito Magro saiu desnorteado do consultório, praticamente decidido a buscar formas de abreviar o próprio sofrimento. Seu fim, avisou o médico, não seria bonito. Naquele momento, sentiu uns dedos ossudos segurarem seu braço com força. “Procure uma bruxa chamada Caterina”, sussurrou a mulher de cabelos compridos e olhos avermelhados.

– Do que a senhora está falando?
– Eu disse uma bruxa chamada Caterina. Só ela pode te curar.

O Homem ficou sem ação enquanto a mulher sumia no meio da multidão que deixava o hospital. Naquele momento, o choque da notícia e a surpresa com a abordagem da desconhecida não o deixou raciocinar direito. Mais tarde, aquelas palavras começaram a martelar em sua cabeça “uma bruxa chamada Caterina pode te curar”. E se fosse sua última chance? Por que não arriscar? Voltou ao hospital, perguntou em vão pela mulher que conseguia descrever apenas vagamente. Uma funcionária simpática mostrou fotos de várias enfermeiras, médicas e outras trabalhadoras do hospital, suas amigas de redes sociais, mas nenhuma se parecia nem de longe com a mulher dos olhos vermelhos. A moça disse que iria assuntar no pronto socorro da oftalmologia, se ela estava com os olhos irritados talvez fosse uma paciente. Anotou seu telefone para avisar se descobrisse alguma coisa. Nada.

Então ele resolveu procurar. Seu filho mais velho frequentava a biblioteca e sempre achava coisas tão interessantes, que pareciam tão impossíveis de encontrar, de repente não custava tentar. O que mais ele poderia fazer, já que nem a internet não ajudou muito? Quem sabe aprendendo um pouco sobre bruxaria, assunto que nunca foi de seu interesse, ele conseguiria encontrar alguma pista. O Homem Muito Magro queria viver, pelo menos mais alguns anos, só para ver os três filhos crescidos.

A bibliotecária nem tentou disfarçar a comoção. Deu uns tapinhas solidários na mão do Homem Muito Magro e disse “eu não acredito em bruxas, mas vamos tentar encontrar essa aí”. E Ilana tentou mesmo, com afinco e sem nenhum constrangimento, de todas as formas que sabia procurar informações e mais algumas que improvisou na hora. Procurando artigos sobre curandeirismo, encontrou uma tese sobre o assunto com transcrições de entrevistas com vários curandeiros, mas ninguém chamado Caterina (ou Catarina, ou Katerina, ou Ekaterina). Achou o blog pessoal de uma delas, uma pilantragem total com várias dicas de receitas milagrosas, mas nenhuma referência que pudesse ser útil. Mandou e-mail para o autor da tese, perguntando onde poderia encontrar mais informações e pessoas decentes que praticassem curas, sem obter resposta. Inscreveu-se em grupos de bruxaria no Facebook, enviou pedidos de amizade para algumas pessoas que se diziam bruxas ou curandeiras. Ligou para uma amiga praticante de candomblé e para uma tia espírita, e levou bronca das duas, porque suas religiões nada têm a ver com bruxaria. “Sim, mas você não conhece uma mãe-de-santo (ou médium), que se chame Caterina ou algo assim? ”. Ficaram de procurar e entrar em contato caso encontrassem uma pista. Ilana passava dicas para o Homem Muito Magro para que ele não perdesse o ânimo, combinavam estratégias, dividiam tarefas. Recebendo ajuda e atenção, o desespero do homem parecia diminuir um pouco. Foram dois dias de buscas, depois ele sumiu. Nunca mais apareceu. Talvez tenha morrido, talvez tenha desistido. Ou, como aventava Lúcia, tentando consolar a chefe que havia ficado meio tristonha com a história toda, pode ter encontrado a bruxa e se curado.

Em sua próxima ida ao dermatologista, uns dois meses depois, os olhos de Ilana se encheram de lágrimas, inconformada por não ter pensado no óbvio. Bem no alto do painel com os nomes dos profissionais que tinham salas no edifício, lia-se: Dra. Caterina Maria Almeida Schmidt, oncologista.

Três anos de referência

Em três anos trabalhando na referência da Biblioteca da Escola de Comunicações e Artes da USP, além de confirmar que atender ao público é um dos trabalhos mais legais que uma bibliotecária velha e desiludida pode fazer, observei algumas outras coisas nem tão alegres.

Bibliotecas atraem quantidades surpreendentes de pessoas malucas, para usar um termo técnico. Isso eu já esperava, porque sou maluca e gosto de bibliotecas, mas eu não sabia que a gente só percebe a maluquice de alguns usuários depois de uns três anos de convivência. É assim, o indivíduo vem todos os dias à biblioteca, não fala com ninguém, não diz nem bom dia. Só fica lá, quietinho, lendo eternamente um livro de culinária que ele mesmo trouxe, até que um belo dia resolve denunciar que o controle eletrônico da saída está falando com ele, dizendo coisas como “reúna um exército e liberte a França”. Essas máquinas são traiçoeiras, vocês sabem.

Mas não é sobre as peculiaridades desse público colateral que eu quero escrever hoje, mas sobre meus usuários principais, os alunos da Universidade. Aquele pessoal que recebeu na infância proteína suficiente, frequentou escolas minimamente adequadas e conseguiu passar em vestibulares e processos seletivos altamente excludentes. É entre eles que eu identifico, com frequência suficiente para chamar minha atenção, as seguintes façanhas:

  • chegar ao final da graduação sem nunca ter entrado na biblioteca;
  • ingressar no doutorado sem saber encontrar um livro no acervo ou usar o catálogo;
  • não conseguir encontrar um documento de seu interesse buscando pelo Google. Sim, é isso mesmo que vocês leram, há jovens universitários que não conseguem fazer isso;
  • ser capaz de localizar o número de classificação na estante, ficar perplexo ao encontrar um monte de livros com o mesmo número e não cogitar que as letras e números que vem depois devem estar dispostos em algum tipo de ordem;
  • terminar a dissertação sem ao menos se dar conta de que há outras fontes disponíveis para localizar informações, além do acervo pessoal de seu orientador e do Google (nem sempre acadêmico);
  • escandalizar-se quando a bibliotecária avisa que não se deve botar na lista de referências da TESE documentos que não foram citados no texto (“mas eu fiz isso no mestrado e ninguém me falou nada”);
  • descobrir, lá pelo meio da graduação, que a biblioteca não se resume à estante da reserva didática dos professores, aquela que tem menos de uma centena de livros e fica perto da porta de entrada;
  • surpreender-se ao ver que o texto deixado pelo professor na copiadora saiu de um livro que está na biblioteca e pode ser emprestado inteirinho e de graça;
  • vagar entre as estantes sem saber que existe um mecanismo chamado “catálogo” que permite descobrir se o livro desejado existe e se está emprestado ou não;
  • usar o catálogo regularmente e não se dar conta da existência de recursos básicos para ajudar na recuperação, como busca em campos específicos, filtros etc;
  • perguntar aflitamente no Facebook por um texto que não apenas está na biblioteca mas também disponível na web, de graça e mais fácil de encontrar do que digitar o vocábulo “migues”.

Essas situações acontecem na escola onde trabalho, mas tenho razões para acreditar que nas demais unidades da USP não é muito diferente. E estamos falando, senhoras e senhores, de uma instituição de ensino tradicionalíssima, onde ninguém jamais ousou dizer em voz alta que as bibliotecas não são importantes no processo de aprendizado e no desenvolvimento da pesquisa. Onde gente que não sabe onde fica a sua biblioteca bate no peito bradando que nada é mais importante do que uma biblioteca. E onde a Pró-Reitoria de Graduação, tentando ser simpática, publica uma relação de 13 motivos para os alunos ficarem felizes com o fim das férias (provocando hilaridade geral no corpo discente) e não menciona a existência de bibliotecas (provocando um educado comentário do Sistema Integrado de Bibliotecas).

E aí esta bibliotecária velha pergunta pra uma mocinha que passou toda a graduação dentro da biblioteca como é possível que tanta gente estude sem nem passar pela porta e obtém essa resposta singela: “não é possível. Eles não estudam”. Certo. Mas se formam e entram na pós-graduação.

E por que isso ocorre? Respostas simplistas do tipo “as bibliotecas são ruins” ou “os alunos são preguiçosos e os professores indiferentes” não me convencem, primeiro porque não são exatamente verdadeiras, segundo são sintomas, não causas. Parece-me que estamos presos num sistema perverso dimensionado para dificultar o desenvolvimento das bibliotecas, por meio de barreiras impostas pela legislação e incompetência gerencial crônica em vários níveis, que acaba por favorecer o comodismo acadêmico. E que existe há anos, bem antes de existir internet, portanto não venham culpar a tecnologia. Como o sistema garante que ninguém tenha muito tempo pra nada, inclusive para tarefas prioritárias como ensinar, estudar e pesquisar, é muito mais fácil pra todo mundo criar atalhos para evitar que o aluno precise ir à biblioteca.

O lado bom é que “minha” biblioteca não está vazia, muito pelo contrário. Às vezes me pergunto como vamos dar conta de atender todas as pessoas que começam a responder aos nossos chamados. Os jovens professores começam a levar seus alunos para aprenderem a usar os recursos da biblioteca ou estimulá-los a participar de visitas monitoradas e treinamentos.

Fico contente, mas ainda não sei muito bem o que pensar disso. Pode ser apenas uma fase boa que vai durar até que esses docentes animados sejam engolidos pelo sistemão. Ou talvez seja o início de uma reação ao processo de queda de frequência às bibliotecas, cujos efeitos se fazem sentir há algum tempo.

De qualquer forma, continuo curtindo demais encontrar aluninhos perdidos na biblioteca e descobrir que,  quando alguém lhes explica como funciona a coisa toda, eles acham tudo “da hora”.

Como eu faço para organizar um acervo de DVDs?

Trabalhando há mais de 30 anos numa biblioteca com acervo de documentos audiovisuais, já respondi alegremente a essa pergunta incontáveis vezes, só que antigamente me perguntavam sobre acervos de vídeos. Antes de começar a longa e maçante resposta ou de convidar o colega para me fazer uma visitinha, costumo perguntar:

DVDs do quê? Filmes?

Sim, porque faz toda a diferença. DVD é apenas o suporte no qual podem ser gravados filmes, fotos, textos, partituras, música, o diabo. E o suporte é o menor dos problemas de quem precisa organizar filmes, fotos ou diabos.

Mas o DVD não está acabando? Sim, mas isso é outra história. Além do mais, em bibliotecas as coisas costumam demorar mais tanto para chegar quanto para acabar.

Enfim, para organizar um acervo de filmes em DVD, vídeo ou mesmo película, primeiro é precisa saber por quem e para que esse acervo vai ser usado. Uma coleção de filmes de ficção montada para entreter público geral numa biblioteca pública provavelmente não será tratada da mesma forma que vídeos de cirurgias num escola de medicina. O mesmo vale para qualquer outro tipo de acervo, mas penso, sem ter como provar, que vale intensamente mais para acervos audiovisuais.

Em segundo lugar, é necessário ter gravado na mente em letras de fogo que um filme não é um livro, portanto não deve ser tratado como se o fosse.

Que dados eu devo colocar na catalogação?

Uma das dúvidas mais frequentes é sobre catalogação, essa eterna praga. Um jeito simples de começar é pensar no que nós mesmos queremos saber quando escolhemos um filme para assistir. Esquecer um pouquinho os manuais de catalogação e examinar boas bases de dados como a Internet Movie Database (IMDB), catálogos de mostras de cinema, dicionários e sites oficiais de filmes e outras fontes de informação especializadas.

Pensem em trabalhar, no mínimo, com as seguintes informações:

Título original
Título no Brasil
País de produção
Empresa ou instituição produtora
Ano de produção
Equipe realizadora
Idioma dos diálogos (explicitando se originais ou dublados) e das legendas
Descrição física: duração, suporte, cromia etc.
Resumo
Assunto
Gênero

A partir daí, melhorem ou simplifiquem a coisa, equilibrando o que o usuário precisa (ideal) e que vocês conseguem efetivamente dar conta de fazer (dura realidade), não esquecendo dessas dicas básicas aí na sequência.

Informação importante pro usuário tem que ser dada, mesmo que não apareça naquela edição de DVD que vocês estão catalogando. Pesquisem. Esqueçam a velha besteira de “catalogar o item em mãos” e lembrem que existe uma obra cinematográfica registrada nesse suporte. Essa dica vale muito especialmente para títulos de filmes, data e país de produção.

A equipe realizadora de um longa comercial pode ser uma verdadeira multidão com funções nem sempre inteligíveis. É preciso selecionar com cuidado quem vai ser mencionado na catalogação. Analisar os nomes em destaque na capa do DVD ou registrar os primeiros que aparecem nos créditos nem sempre funciona, porque a capa foi feita para vender, não para informar, e os créditos nem sempre seguem a ordem de importância do sujeito na produção. Nada de transcrever literalmente parte dos créditos em seu idioma original e sem saber o que significa “casting”, “production design” ou “second unit diretor” e qual é o grau de responsabilidade desses indivíduos no resultado final da coisa. Fazer isso não é informar seu usuário, é se livrar de um problema de catalogação seguindo uma regra furada. Não tem jeito, precisa entender um pouco a linguagem do documento tratado.

Minha sugestão, que geralmente funciona para filmes de cinema, mas não necessariamente para óperas, videoarte ou telenovelas: Direção, Produção; Produção executiva; Direção de produção; Roteiro; Argumento; Fotografia ou Cinematografia; Montagem ou Edição; Som; Desenho de produção; Figurinos; Cenografia; Animação; Música; Câmera; Efeitos especiais.

Quem precisar ser mais detalhista, porque atende usuários exigentes, pode registrar a tropa toda. Caso contrário, o que está em negrito deve bastar.

Quem usa formato MARC pode botar o diretor e mais um ou dois nomes da área de responsabilidade, para não poluir visualmente o registro. Os demais podem ser registrados no campo 700 (se for visível para o usuário e permitir a indicação da função do indivíduo) ou no campo 508 (Notas de créditos). Solução ruinzinha, mas o que dá para esperar do Querido MARC? Bom mesmo seria ter um campo indexado para a equipe realizadora ou poder definir um campo para cada função importante. Exagero? Bem, vejam  o que faz a IMDB, por exemplo. À propósito, quem quiser ter uma boa experiência de catalogação de filmes, experimente inserir um registro lá.

Resumo bom é aquele feito por alguém que assistiu ao filme todo, ou seja, se puder faça você mesmo. Se não for possível, tente ao menos checar minimamente o conteúdo do filme para ver se resumo copiado não contém bobagens ou erros. O resumo de um filme atualmente em cartaz na cidade de São Paulo, publicado na programação de um órgão de imprensa, diz o seguinte:

Enquanto Kate e Geoff organizam a festa de aniversário que deve celebrar os 45 anos do casamento deles, uma carta anuncia que o corpo do primeiro grande amor de Kate foi encontrado congelado nos Alpes suíços.

Só que o corpo encontrado é o do grande amor do marido, não da Kate e o erro besta poderia ser evitado simplesmente assistindo a um trailer de dois minutos.

Filmes, em geral, são sobre alguma coisa, portanto são passíveis de indexação por assunto. Não se pode ter medo de atribuir descritores de assuntos a obras de arte intimidadoras como Terra em transe, por exemplo, por mais que pareça difícil. E não vale usar o velho truque bibliotecário de sair pela tangente indexando obras de ficção pela forma, mais termos geográficos e cronológicos. Maldição eterna aos que ousarem indexar o citado Terra em transe como “Cinema – Brasil – Século 20”. Que o seu exemplar do AACR2 entre em combustão espontânea feito um filme de nitrato!

O gênero é uma das formas de busca mais populares para filmes de ficção, mas os intrépidos indexadores de filmes precisam estar muito conscientes do abacaxi que têm em mãos, pelos seguintes motivos: as listas de gêneros que rodam por aí são bem ruins e contêm termos vagos e difíceis de definir; nem todo filme tem gênero, enquanto outros se encaixam facilmente em mais de um; as distribuidoras de filmes em DVD ou sites de filmes atribuem gêneros por critérios comerciais que nem sempre podem ser levados a sério; embora a ideia de gênero muitas vezes se misture um pouco com a de assunto nas listas de gêneros (Guerra, Crime etc), não podemos esquecer que, para efeitos de indexação, são coisas diferentes.

E como classificar o acervo?

Se você quiser que seu usuário tenha acesso direto ao acervo, ou pelo menos aos estojos, classifique da forma que for mais prática e viável, não esquecendo que nenhum esquema de classificação existente há 200 anos vai funcionar muito bem, e aquele que você inventar também não.

Vejam o exemplo simpático de organização da biblioteca Méjanes, em Aix-en-Provence:

DSCN8564 (800x600)

DSCN8562 - Copia (800x625)

DSCN8561 - Copia (800x600)

Se a coleção, por razões de conservação ou falta de espaço for de acesso fechado, um sistema qualquer de numeração sequencial será a melhor opção.

Acervo de DVDs da Biblioteca da ECA
Acervo de DVDs da Biblioteca da ECA

Empresto os originais, faço uma cópia para circulação ou não empresto?

Depende. O custo – e o o consumo de espaço – de duplicar sistematicamente um acervo só se justifica se forem materiais raros ou muito difíceis de substituir, ou exemplares únicos produzidos na própria instituição. É precisa estabelecer uma política para isso, incluindo quando comprar mais de um exemplar, quais itens copiar, quais manter restritos ao uso local etc. A legislação brasileira de direitos autorais não permite a realização de cópias, portanto, um pouco de cuidado com isso.

Emprestar DVDs é um ótimo serviço para se oferecer aos usuários e, em nome disso, neuroses em relação à conservação do material precisam ser deixadas de lado. DVDs riscam facilmente, e quem administra o acervo precisa saber conviver com inevitáveis perdas por desgaste natural e consequentes despesas com reposição. Campanhas educativas de usuários e um bom monitoramento da circulação do material, incluindo examinar os disquinhos na entrada e na saída, ajudam bastante. Recomendo o uso de estojos com luvas para evitar a quebra do miolo central dos DVDs provocada pelo sistema assassino de encaixe dos estojos comuns, mas não sei se ainda é possível encontrar fornecedores para esse tipo de material.

No meu blog sobre documentação audiovisual e no Manual de catalogação de filmes da Biblioteca da ECA há mais informações sobre “o que fazer” com um acervo de filmes. Também tenho apresentações sobre o tema:

Catalogação de filmes

Indexação e resumo

No mais, estou disponível para trocar ideias, me escrevam ou me liguem na Biblioteca da ECA/USP.

 

imagem destacada: acervo de DVDs da Openbare Bibliotheek Amsterdam.