As time goes by

Fui convidada a participar de uma mesa de debates sobre o tema Desafios do Bibliotecário do Século XX vs Desafios do Bibliotecário do Século XXI: As Mudanças e Encontros Geracionais da Biblioteconomia, dentro do evento REPense: O Papel das Bibliotecas no Auxílio da Sociedade, organizado pelo InFoco, grupo de ex-alunos de Biblioteconomia da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).

Como minha companheira de mesa era a jovem Mari Galvani, assumi que a tarefa de falar sobre o século passado seria minha. Vou reproduzir aqui mais ou menos o que foi minha apresentação, incluindo o que acabei não dizendo por falta de tempo ou esquecimento mesmo.

Comecei explicando o que sou: mulher de 58 anos e meio (como dizem as crianças), feminista, de esquerda, trabalhadora assalariada, filha e neta de trabalhadores, bisneta de trabalhadores rurais, parte deles imigrante. Embora tenha, por enquanto, emprego, salário razoável, casa própria e possa comprar livros e passar férias na Europa – uma privilegiada, portanto – continuo sendo uma mulher da classe trabalhadora e a única coisa que tenho na vida é a força de trabalho que vendo para o Estado. Meu futuro, como o de qualquer trabalhador brasileiro, é incerto. Muita gente por aí se esquece disso.

Esperança

Entrei na faculdade em 1979 e concluí o curso de Biblioteconomia em 1982, já trabalhando na biblioteca onde estou até hoje. Vivi como adulta, estudante e profissional, os últimos anos da ditadura civil-militar instaurada pelo golpe de 1964. Ainda havia perigo, general na presidência, censura, gente no exílio etc, mas também havia esperança. Sabíamos que aquele período nefasto estava chegando ao fim e acho que sabíamos o que deveríamos fazer.

Vi a luta pela anistia, o fim da censura, a campanha das diretas, a redemocratização, a criação do Partido dos Trabalhadores, as primeiras eleições diretas para presidência da república. Vi o país mudar para melhor, aos trancos e barrancos, mas para melhor.  E hoje, vejo todo o horror do passado voltar, inacreditavelmente por meio do voto popular. E vejo bibliotecários que juraram “tudo fazer para preservar o cunho liberal e humanista da profissão de bibliotecário, fundamentado na liberdade de investigação científica e na dignidade da pessoa humana” apoiarem um projeto político racista, machista e homofóbico, que defende a ditadura, a tortura e o extermínio dos adversários políticos, ataca a cultura, a liberdade de expressão, a pesquisa científica, a educação, o meio-ambiente, os índios … e deixa queimar a floresta amazônica.

Hoje, ter esperança está mais difícil, tanto no país quanto na profissão de bibliotecário. Ter esperança é um desafio bem contemporâneo.

Formação política

Em minha época de estudante, formação política não existia. Na graduação, a política deu as caras apenas nas disciplinas básicas da área de comunicações. Já naquela época, ouvi dos professores o quanto era importante aprendermos a ler os meios de comunicação de forma crítica. “Precisamos ensinar a população a entender o discurso da televisão”, diziam eles. Nas disciplinas específicas de biblioteconomia, entretanto, o assunto morreu.  Mesmo aqueles professores que falavam na função da biblioteca da sociedade tinham, no fundo, uma visão idealizada de biblioteca, desconectada do seu entorno político e social. Era como se a biblioteca flutuasse numa nuvem cor-de-rosa acima do mundo, dependendo, para seu sucesso ou fracasso, apenas da atuação dos bibliotecários.

E vejam que não estou pensando numa formação política muito profunda, não mesmo. Se conceitos como direitos humanos, liberdade de expressão, tolerância, manipulação, estado laico, ditadura, democracia, comunismo, fascismo, nazismo, esquerda, direita, revolução e golpe de estado estivessem presentes no cotidiano de estudantes e profissionais, já seria um bom começo. Talvez assim a gente encontrasse menos colegas apoiando projetos de poder que, no limite, colocam em risco as bases da profissão e ameaçam nosso mercado de trabalho. Talvez a gente não tivesse que engolir bibliotecários propagando alegremente “fake news”.

A formação política do bibliotecário não precisa se limitar às salas de aula das faculdades. A participação em sindicatos, associações de classe e movimentos de trabalhadores costuma ser um excelente aprendizado. Foi participando dos movimentos dos funcionários da USP que aprendi que pertenço à classe trabalhadora e sempre pertencerei, que “mexeu com um, mexeu com todos” e, sobretudo, que a luta continua.

Esse é um desafio de ontem, de hoje e  será de amanhã, se houver amanhã.

Diversidade

Uma das melhores novidades deste século é a discussão sobre diversidade nas bibliotecas. Em meus primeiros anos de profissão não se falava  disso – ou se falava tão pouco que a velha aqui não se lembra mais. Hoje já temos pós-graduandos negros questionando a bibliografia predominantemente branca e europeia dos cursos e procurando por autores africanos nas bibliotecas;  mulheres em busca de textos escritos por mulheres;  pessoas transgênero exigindo o direito de serem tratadas por seu nome social; bibliotecárias negras escrevendo livros sobre bibliotecár@s negr@as;  todo mundo questionando os preconceitos presentes nas tabelas de classificação e vocabulários controlados.

Algumas dessas demandas, como o acesso à informação por caminhos que um exército de metadados furiosos e uma muralha de regras consagradas teima em barrar, chegaram com muita força. Essa chegada é uma prova de que muitos caminhos já foram desbravados e, por maior que seja o retrocesso, não vamos voltar passivamente para a cozinha, para a senzala ou para o armário.

A diversidade é o desafio do momento.

Tecnologia

Quando comecei a trabalhar em biblioteca, na Idade da Ficha de Cartolina Branca, meu maior anseio em termos de tecnologia era uma máquina de escrever elétrica com corretivo. E olhem só, eu era uma bibliotecária tão privilegiada que dispunha de um projetor 16 mm e podia projetar eu mesma os filmes que catalogava.

A informática ainda era algo muito distante, mas que não assustava ninguém. Só os bibliotecários mais bobinhos pensavam que seriam “substituídos por um computador”. O futuro era nosso.

Mas o futuro foi chegando e arrastando, aos poucos, todas as nossas ilusões. Informatização significava, em inúmeros casos, não uma decisão técnica e administrativa, precedida de estudos das necessidades dos usuários (risos, risos), mas apenas uma conveniência política originária do andar de cima. Era o diretor que achava bonito “ter tudo no computador porque é mais muderno”, era alguém escolhendo o software X ou Y por interesses particulares, era o departamento de informática querendo criar tudo do zero por vaidade, para tudo acabar nas pobres das bibliotecárias usando o Micro-Isis mesmo, porque foi o que deu. E, por fim, quando chegou  o sistema proprietário estrangeiro que fazia de tudo e resolveria todos os problemas, aprendemos que software não faz porcaria nenhuma sozinho, o que faz tudo  ou nada acontecer  é vontade política ou falta dela.

Durante tudo o processo, que começou com a gente percebendo que a máquina elétrica corretiva não viria e que era melhor aprender um bagulho chamado word e outro chamado dbase num computador velho, vi muitos colegas se tornando obsoletos. Gente que foi bom profissional na juventude, mas que não deu conta de incorporar o avanço rápido da tecnologia e reaprender a trabalhar. Nós, os não tão velhos, tentamos dar as mãos aos que submergiam e puxá-los para cima, mas muitos não conseguiram.

Também vi serviços que um dia foram inovadores perderem completamente o sentido em poucos anos, com a chegada da internet. A coleção de slides que ajudei a criar, por muitos anos menina dos olhos dos professores de arte, morreu de obsolescência tecnológica sob nossos narizes. Não que eu não soubesse mais ou menos o que deveria ser feito para remodelar o serviço, mas simplesmente não havia recursos tecnológicos, financeiros ou humanos ao meu alcance.

Antigamente, no tempo dos catálogos de fichas, diziam que as dificuldades intransponíveis na busca em acervos de documentos eram culpa dos fichários, coisas velhas, poeirentas e complicadas. O computador resolveria tudo. Hoje, as dificuldades intransponíveis são atribuídas às bases de dados ruins, interfaces horrorosas, softwares ultrapassados etc. Então, não é exatamente assim. As ferramentas ruins realmente atrapalham, mas a maior culpa é da falta de hábito em acessar acervos organizados, tanto físicos quanto digitais, falta de leitura, problemas com raciocínio lógico, preguiça de ler e entender o que está diante dos olhos, desconhecimento do que seja pesquisa até entre doutorandos. Observem que me refiro a dificuldades intransponíveis, porque dificuldade todo mundo tem mesmo.

Alguns desafios parecem mesmo eternos. Já escrevi um pouco sobre isso aqui mesmo no BSF.

Comunicação

Comunicar-se com seu público já foi um dos maiores problemas dos bibliotecários. Em tempos pré-internet, divulgar acervo e serviços ou estabelecer um diálogo mínimo com os usuários era dureza. As bibliotecas sem dinheiro faziam trabalhosíssimos boletins datilografados e xerocados que ninguém lia, de tão feios que eram. Um dos nossos diretores, crítico e historiador de arte, pegou uma publicaçãozinha nossa, folheou-a meio sem jeito e soltou essa: “meninas, eu até gosto de arte povera, mas isto aqui já é demais”.

A situação atual é incomparavelmente melhor. Quem viveu nos tempos dos boletinzinhos arte povera mal acredita nos recursos que temos agora: Canva para produzir facilmente cartazes e folhetos bastante decentes, blogs, chats, ferramentas de marketing para fazer newsletter, mídias sociais para postar avisos com fotos de gatinhos… Enfim, um verdadeiro parque de diversões. Hoje a comunicação com o público pode ser rápida, interativa, direta e informal. Podemos finalmente desamarrar a cara sisuda que sempre tivemos e brincar com os usuários, basta saber usar a tecnologia que temos ao nosso alcance. É aí que mora o problema. Embora existam cada vez mais bibliotecas fazendo um trabalho excelente nas redes sociais, e até bibliotecários dando dicas simples de marketing pros coleguinhas, ainda há muitas bibliotecas que conseguem burocratizar até o Facebook e Twitter. Vocês já ouviram falar que, em algumas bibliotecas, todas as postagens nos perfis institucionais precisam ser previamente aprovadas pela chefia? Bem, isso existe, não é lenda urbana de bibliotecário.

Algumas coisas não mudam jamais.

Os audiovisuais

Minha primeira tarefa profissional foi organizar um acervo de filmes. Depois vieram as fotografias, slides, partituras e gravações de música. Os documentos audiovisuais já foram uma promessa de mercado de trabalho que se abriria para os bibliotecários. Passei os últimos quase 40 anos ouvindo professores dizerem que “biblioteconomia não se ocupa SÓ de livros” e bibliotecários chamarem filmes e fotografias de “materiais especiais”, tanto uns como outros tratando essas coleções com ferramentas criadas para tratar textos.

Não vi, de lá para cá, muitos avanços nessa área, pelo menos não no Brasil. Já apresentei aqui minhas preocupações com a perda desse mercado.
Se eu fosse otimista, diria que o desafio de hoje é recuperar os espaços perdidos ou, pelo menos, tentar não perder mais nada. Mas eu não sou.

Epílogo: o fim do SIBiUSP

Em 1981, quando foi criado o Sistema Integrado de Bibliotecas da USP  (SIBi) foi criado em 1981, eu já trabalhava na Universidade. Esse órgão, cuja criação tornou possível que as bibliotecas da USP, cada uma delas subordinada à sua faculdade, instituto, escola ou museu, conseguissem trabalhar em conjunto nas atividades comuns a todas, acaba de ser extinto.

A Agência USP de Gestão da Informação Acadêmica, que substitui o SIBi, é presidida por um docente sem formação em biblioteconomia. O projeto da Agência foi –  ou está sendo – definido sem a participação dos bibliotecários da Universidade. O que será essa Agência? Ninguém sabe. O que vai acontecer com as bibliotecas? Ninguém sabe. Vejam aqui um pouco dessa triste história, contada por uma bibliotecária velha que nunca imaginou que viveria para ver o fim do Sistema Integrado de Bibliotecas da USP.

The fundamental things apply
As time goes by

No escuro da biblioteca, brilha uma luz

Se o mundo ficar pesado
Eu  pedir emprestado
A palavra poesia
Se o mundo emburrecer
Eu vou rezar pra chover
Palavra sabedoria

Jonathan Silva. Samba da utopia

Naquela noite, Mauro estava incumbido de fechar a biblioteca. Um funcionário ainda estava em férias quando o outro quebrou o pé no futebol de domingo, isso tudo ocorrendo durante a licença maternidade da bibliotecária do noturno. A chefe fez o que pode, colegas trocaram de horário para ajudar, mas sobraram três dias em não houve jeito, e o estagiário foi incumbido de fechar toda a área de acervo, enquanto o guardinha fechava a sala de leitura maior, enxotando suavemente os últimos leitores, e a porta de saída. O rapaz estava um pouco preocupado, mas bastante orgulhoso com a responsabilidade. Era uma tarefa importante, afinal, e o fizeram decorar uma listinha: examinar as janelas, esvaziar o reservatório do desumidificador da sala de obras raras, fazer a revista dos corredores em busca de algum distraído que ainda estivesse enfiado por lá, ver se o gato não estava dormindo em algum canto, apagar as luzes, acionar o alarme.

Mauro, estudante de letras e filho de professores, amava bibliotecas desde pequeno. Quase não acreditou em sua sorte quando lhe falaram da vaga de estagiário na biblioteca central da universidade. Dizia para os amigos que, além de trabalhar o dia todinho no meio dos livros, ainda iam lhe dar dinheiro por isso! Era muita felicidade. Diante de seu entusiasmo, a chefe explicou, tentando parecer muito séria mas sem conseguir disfarçar a ternura do olhar, que não esperasse muito do estágio. Seria, basicamente, guardar livros, procurar livros perdidos, fazer empréstimo e outros serviços menores. Talvez um pouco chato para um rapaz inteligente como ele, sorriu apreensiva a bibliotecária-chefe. Chato? Não, jamais. Como poderia ser chato pegar esse monte de livros, sentir o peso deles e a textura de suas capas, dar uma olhadinha rápida no títulos e arrumar tudo na estante de acordo com essas etiquetinhas? Não, Mauro achou maravilhoso e gostou mais ainda quando entendeu todos os detalhes da formação dos códigos de localização, cujo nome, número de chamada, achou poético. Trabalhava contente, fotografando com seu celular as capas que achava mais bonitas, os livros que um dia, quando terminasse a faculdade, iria ler. Os funcionários achavam meio bobo o entusiasmo do rapaz, mas para a bibliotecária-chefe, era “muito fofo”.

Em dias de pouco movimento, Mauro gostava de ouvir as histórias dos funcionários mais antigos e crivá-los de perguntas. Como era antes do computador, quando a gente precisava procurar os livros naquelas fichinhas? Quem era o professor Onofre Arantes, que doou, no entendimento do estagiário, “metade dos livros desta biblioteca”? Por que não encadernavam os livros de acordo com a classificação, cada assunto uma cor? As perguntas divertiam o pessoal, mas nada era melhor do que contar histórias de fantasmas, algumas já tradicionais, outras incrementadas pela fantasia de uma das bibliotecárias mais jovens.

Sim, bibliotecas são lugares notoriamente mal-assombrados. Funcionários muito apegados que morrem mas não querem ir embora, gente que morreu enquanto lia um dos livros, ou mesmo uma dessas almas perdidas que descobre um bom refúgio em lugares tão calmos, onde sempre há livros antigos. Fantasmas adoram coisas antigas, garantia Marlene, a bibliotecária mocinha. Mas são espíritos inofensivos, como o da senhora que guardou livros a vida toda, e até hoje aparece de vez quando para dar uma ajeitadinha nas estantes. Espíritos inofensivos, quase todos, frisou Marlene. Mauro adorava as histórias e, embora não acreditasse no sobrenatural, sentia alguma coisa parecida com inquietude quando ouvia ruídos de procedência incerta à noite, na biblioteca.

Mas, naquela noite, ele não estava pensando nessas coisas. Quando chegou a hora de fechar, pegou sua listinha (para não esquecer de nada) e foi fazer seu trabalho, calmo e confiante, até que viu as luzes. Depois de apagadas todas as lâmpadas que ele sabia existirem, Mauro vislumbrou, levemente piscantes, alguns focos de luz entre as estantes da classificação 300. Que diabo, será que algum retardatário maluco ainda está com a cara enfiada nesses livros e ligou o celular quando ficou escuro? Não seria tão surpreendente, em biblioteca o que não falta é gente doida no meio das estantes.

– Tem alguém aí? A gente está fechando… – avisou.

A única resposta foi um inequívoco aumento na intensidade das luzes. Assustado, Mauro correu até os interruptores, acendeu as luzes novamente e chamou pelo guardinha, que aguardava no saguão. Os dois examinaram corredor por corredor, começando pelas estantes onde as luzes haviam brilhado. Nada, não havia ninguém em meio às estantes, apenas livros em sua habitual impassibilidade. O guardinha nem pareceu muito surpreso com a bizarrice da história, fato que o estagiário achou estranho.

– Deve ter sido algum reflexo de alguma luz lá fora, Mauro. Não esquenta, não tem ninguém aqui dentro, vambora que eu não quero perder o busão.

Mauro considerou a explicação estapafúrdia, mas, como não conseguiu produzir outra, decidiu aceitá-la. Acompanhou o Rafa até o ponto do ônibus e foi para casa à pé, para relaxar e pensar um pouco. A noite, passou quase em claro, dividido entre sentimentos como medo, vergonha de ter medo e mais alguns que não conseguia nomear. Nos próximos dois dias, ele teria que fechar novamente a biblioteca. E apagar a luz.

No dia seguinte, perto da hora de fechar, Rafa veio avisar, num tom cúmplice, que iria adiantar o seu serviço na parte externa para ficar com ele na hora de fechar. Mas o guardinha só apareceu depois que Mauro já havia feito a ronda, botado o gato para fora e apagado todas as luzes, menos aquela que deixou atrás de si ao sair quase correndo do local. Quase tropeçou no Rafa, que se desculpou todo atrapalhado, explicando que tivera que atender a uma ligação da namorada que estava puta com ele por motivos que não vinham ao caso, e ficou dando bronca por uns 5 minutos.

– E hoje – perguntou – teve luz fantasma de novo?

Mauro só respondeu com um olhar aflito, que encheu o guardinha de remorsos por não ter cumprido o prometido. Achou que seria o caso de levar o estagiário até o boteco para tomar um troço, proposta que foi bem recebida. Depois da primeira dose da melhor cachacinha do estabelecimento, Rafa esfregou as mãos, criou coragem e aconselhou:

– Cara, se eu fosse você, ia falar com a Lídia. Aquela chefe lá do segundo andar, a de cabelo cinza.

Sim, Mauro sabia quem era Lídia. A chefe da catalogação era uma mulher de olhar penetrante e pisada dura, de idade indefinida e cabelos cinzentos  encaracolados, ainda bem bonita. Todos a respeitavam muito e calavam a boca quando ela passava. Mauro a atendia quando ia retirar livros à noite, depois da aula. A bibliotecária também era professora de grego, e dava aulas uma vez por semana numa faculdade próxima dali. Era educada, mas muito reservada e de pouca fala. Mas o que ela poderia fazer? Mauro confessou que teria vergonha de falar com ela sobre o assunto.

– Lídia é uma mulher dos mistérios, mano. Sabe de muitas coisas e já resolveu umas paradas estranhas lá na biblioteca – fez uma pausa, virou o último gole da cachaça e ficou olhando o copo antes de se decidir a continuar. E foi ela que tirou da casa da mãe do meu chefe uma coisa que não queria sair de lá. Fala com ela, amanhã, sem falta.

Mauro pediu mais uma rodada para espantar o arrepio que sentiu a ouvir “paradas estranhas” e não ousou perguntar o que era a coisa que não queria sair da casa da mãe do chefe. Beberam, mudaram de assunto e foram embora, Mauro ao encontro de mais uma noite ruim.

No final da tarde do dia seguinte, quando caminhava pelo corredor empurrando o carrinho de livros para guardar, sentiu uma sensação diferente na nuca que o obrigou a olhar para trás. Lídia olhava para ele, com uma expressão marota.

– Desculpa, não quis te assustar. Vamos ver quem está brilhando no escuro hoje?

A bibliotecária soltou uma risada suave diante da surpresa confusa do rapaz e fez sinal para caminharem até o jardim. Mauro seguiu-a vexado, procurando o guardinha linguarudo para fazer um gesto de ameaça, mas não o viu. Que vergonha da porra iria passar agora.

Sentaram-se num banco de madeira. Por alguns instantes, a bibliotecária ficou quieta, olhando as copas das árvores, como se estivesse pensando no que dizer. Por fim, soltou um pequeno suspiro e começou.

– Eles fazem isso, Mauro, ao menos alguns deles. Não é todo mundo que vê, mas os livros de alguns autores emitem luzes no escuro. Às vezes é só um leve brilho, mas também pode ser um verdadeiro holofote. Foi isso o que você viu, não?

Mauro não tinha certeza do que havia visto, mas a hipótese de livros emitindo luz era ainda mais absurda do que qualquer história de fantasmas em bibliotecas. Sem dar sinais de se importar com a incredulidade do rapaz, a bibliotecária continuou.

– Os livros de poesia são os maiores responsáveis por esses eventos luminosos. Drummond, Fernando Pessoa, Garcia Lorca… esses caras adoram iluminar estantes. Mas há livros que se manifestam em momentos específicos ou lugares específicos, de acordo com circunstâncias que os fazem necessários.  Nem sempre a luz que brilha na Síria é a mesma que brilha aqui ou em Londres, mas às vezes é. Gosto de pensar que temos os mesmos livros brilhando em várias bibliotecas do mundo. Que tal a ideia?

Mauro não respondeu. Não tinha certeza de que a mulher estivesse falando sério, e ela percebeu. Avisou que ficaria até o horário de fechar, para testemunharem juntos o fenômeno – se é que aconteceria novamente naquela noite.

Lídia ficou por lá, lendo e fazendo anotações em seu caderninho de capa preta. O estagiário terminou de guardar os poucos livros que ainda restavam no carrinho e foi para o balcão de atendimento. Pouco depois da nove e trinta, seu colega de balcão foi embora e a bibliotecária começou a ajudá-lo a fechar o local. Lá fora, Rafa dava umas espiadas, ressabiado, mas não entrou. O último usuário saiu, dando boa noite abraçado a uma pilha de livros “para o final de semana”. Quando Mauro desligou todos os interruptores, como nos dois dias anteriores, nem todas as luzes de apagaram. Lá nas estantes da classe 300, brilhavam levemente alguns focos de luz. Lídia sorriu.

– Ah, eu já desconfiava! –  e foi puxando o estagiário pela mão para dentro do corredor.

E de repente, Mauro viu e entendeu. Lá na classificação 370, sob o olhar de uma bibliotecária madura e de um jovem estudante que segurava com força a mão dela, com os títulos em suas lombadas perfeitamente visíveis sob a luz suave que agora se erguia quase até o teto, luziam os livros de Paulo Freire.

foto do cabeçalho: Micke Jakobsson (Flickr); foto do gato: Watchcaddy (Flickr) foto da biblioteca à noite: Marina

Imagens de arte e a arte de trabalhar com imagens

Comecei a trabalhar com organização de imagens de obras de arte na Biblioteca da Escola de Comunicações e Artes da USP ainda no tempo em que o melhor suporte para esse tipo de acervo eram os slides, no início dos anos 1980. E não me refiro ao power point, mas a fotografias em suporte transparente, montadas em molduras de plástico ou papelão, próprias para serem projetadas. Para quem não lembra, ou só nasceu muito depois:

Antes da internet e dos sites de museus, os professores usavam slides para mostrar e discutir obras de arte em sala de aula, e as bibliotecas de instituições que ofereciam cursos de artes precisavam se virar para formar coleções.

Como praticamente não existiam, no Brasil, esse tipo de material disponível para compra, a solução era obter doações com os próprios artistas e produzir artesanalmente nossos próprios slides. Inicialmente atendíamos às demandas específicas dos professores, que solicitavam imagens de obras de um determinado artista, por exemplo. Com o tempo e a experiência adquirida, chegamos a estabelecer uma política de desenvolvimento de acervo: já sabíamos que material fotografar, quais  slides deveríamos descartar etc.

Não era fácil. Precisamos aprender a  localizar e escolher as ilustrações, fotografar da melhor forma possível, iluminar,  analisar a qualidade das imagens depois de prontas, montar os slides etc. Isso tudo se passou em eras pré-internet e câmeras digitais –  quem nasceu depois disso tudo não tem ideia da pauleira que era montar uma coleção de imagens naquela época. Mas era bem divertido, devo admitir.

Nossa pequena coleção de slides, que não chegou a ultrapassar 25.000 itens, era bastante usada pelos professores da Escola e pelos alunos que davam aula em outras instituições, até ser engolida pela evolução tecnológica.

Quando projetores de slides entraram para a lista de espécies em extinção e os professores se convenceram de que outros brinquedos eram necessários,  começamos a digitalizar os itens da coleção que ainda tinham relevância: slides de obras que não estavam disponíveis na internet, geralmente doados pelos próprios artistas ou reproduzidos de catálogos de exposições brasileiros. Infelizmente, as imagens digitalizadas não chegavam aos usuários, porque o único catálogo disponível era uma base de dados em rede local – praticamente o mesmo que não ter catálogo.

Enquanto a coleção de slides perdia a relevância e o público, outro acervo de imagens crescia e adquiria cada vez mais importância na instituição: os trabalhos acadêmicos dos cursos de graduação e pós-graduação em Artes Visuais que se expressam fundamentalmente em imagens, ou que são trabalhos artísticos originais. Nos cursos da ECA, principalmente na área de concentração em Poéticas Visuais da Pós-Graduação, é possível apresentar  gravuras, desenhos, esculturas, objetos, livros de artista etc como trabalho final do curso.

A escultura monumental Lugar com Arco, por exemplo, que enfeita o jardim da Escola, é resultado da tese de doutorado da escultora Norma Grinberg, docente aposentada da instituição.

Regina Silveira, Ana Tavares, Evandro Carlos Jardim, Carmela Grosz, Dora Longo Bahia, Carlos Fajardo, Geraldo de Souza Dias Filho, Henrique de Souza Oliveira e Leda Catunda são alguns dos artistas brasileiros que deixaram trabalhos acadêmicos no acervo da Biblioteca da ECA. Em alguns casos são obras originais, como o álbum de gravuras Anamorfas, de Regina Silveira, em outros são trabalhos de reflexão  – com muitos registros fotográficos- do artista sobre a própria obra, ou ensaios fotográficos resultantes do processo de pesquisa. Um acervo belíssimo catalogado em sistemas que, por serem concebidos para registrar documentos textuais, não dão a necessária visibilidade à sua dimensão  mais importante: a imagem.

Fotos de alguns trabalhos do acervo

DTEEP: dinâmicas e trocas entre estados de performance, de Yiftha Peled

A pesquisa de mestrado da minha colega Sarah Lorenzon Ferreira constatou que nossos professores e alunos das artes visuais precisam de um catálogo de imagens acessível pela internet, com imagens de alta qualidade técnica, boa resolução e diferentes opções de visualização, e que contenha, prioritariamente: criações artísticas dos professores; obras resultantes de pesquisas de mestrado e doutorado; trabalhos de conclusão de curso de graduação; registros do processo criativo dos artistas da ECA. Ou seja, o mínimo que uma biblioteca de uma escola que forma artistas e pesquisadores da área de artes deveria poder oferecer aos seus usuários.

O projeto começou a se tornar viável quando o Tiago Murakami veio para o Departamento Técnico do nosso Sistema Integrado de Bibliotecas e nos apresentou ao Omeka, software open source desenvolvido para exibir coleções digitais em bibliotecas e museus. O Omeka tem instalado um plugin para os metadados VRA Core, desenvolvidos pela Visual Resources Association para descrição conjunta de obras de artes e suas imagens.

O VRA Core, usado com o Cataloging Cultural Objects – CCO é uma solução muito boa para bases de dados de imagens. Resolve bem a questão de catalogar os dados da obra e de suas imagens em registros diferentes, relacionando os dois tipos de registros, sem misturar e confundir as informações como faz o insuportável formato MARC, por exemplo. Tentei explicar essas  todas paradas neste texto aqui.

Além disso, o Omeka tem plugins para aplicações do International Image Interoperability Framework (IIIF), um conjunto de protocolos para visualização de imagens criado em 2001 por um consórcio internacional de bibliotecas. Eis aí uma ferramenta muito legal que precisa ser urgentemente pesquisada no Brasil, porque permite visualização de imagens em alta resolução com carregamento rápido e possibilidade de fazer anotações, além de ter recursos de edição básica, zoom profundo etc. Tudo isso sem precisar carregar várias imagens de tamanhos diferentes na base de dados, basta uma única em alta resolução. Melhor ainda: o freguês consegue compartilhar, editar  e comparar imagens de bases de dados diferentes numa mesma interface online, sem precisar baixá-las. Vejam 0 que dá pra fazer nesse demo do Projeto Mirador

O IIIF tem um canal no Youtube com apresentações muito interessantes de instituições que fazem parte da comunidade de usuários da coisa. Em breve a Biblioteca da ECA  estará lá, aguardem. Já colocamos o Brasil na comunidade e a Sarah está na equipe do código de conduta .

Falta mais gente no Brasil usando e interessada na discussão. Também falta um jeito brasileiro de pronunciar a sigla IIIF, que os falantes do inglês pronunciam “triple I F“. Em português não temos o hábito de dizer “i triplo”, mas repetir a letra “i” na fala vai ficar estranho por excesso de iiis. Sem contar que pode virar  piada…

O protótipo da nossa Biblioteca Digital da Produção Artística da ECA/USP já existe e está sendo testado. Funciona, mas ainda temos muito o que resolver. Precisamos customizar o Omeka para melhorar a navegação entre registros da obra e suas imagens, criar um tema mais agradável e outras coisinhas.  Com relação ao conteúdo, temos que encontrar um curador entre os docentes de artes visuais, escolher as imagens, digitalizar ou fotografar os trabalhos, entrar em contato com os artistas para obter sua autorização para divulgação das images, catalogar etc. Os “etcs” são muitos, na verdade. Nossa professora Vânia Lima, que voltou de suas andanças por instituições de arte dos Estados Unidos com as primeiras notícias que ouvimos sobre o IIIF (ó, tá todo mundo usando isso aqui, estudem), já está pensando em projetos e tentando contratar bolsistas.  Nossa Biblioteca Digital da Produção Artística da ECA/USP promete ser um laboratório interessante para os alunos de biblioteconomia.

Já apresentamos alguns trabalhos em eventos da área. Vejam aí:

V Seminário de Informação em Arte da Redarte -RJ

https://doity.com.br/anais/seminario-de-informacao-em-arte

Colóquio de Dados, Metadados e Web Semântica

https://cdmws.isci.com.br/ocs/index.php/cdmws/home/paper/view/13

I Seminário de Humanidades Digitais – IV Congresso Internacional em Tecnologia e Organização da Informação

https://prezi.com/h2smfyo-5zl7/biblioteca-digital-da-producao-artistica-da-ecausp/?utm_campaign=share&utm_medium=copy

Assim que os testes estiverem concluídos e a Biblioteca Digital da Produção Artística da ECA/USP tiver seu endereço definitivo, divulgaremos o link.

Perguntas, respostas e suspiros noturnos

Num dia comum na Grande Biblioteca, ou em qualquer outra biblioteca grande ou pequena, muitas perguntas são feitas. Os funcionários nem sempre dão as respostas que gostariam, por educação, prudência ou tédio mas, às vezes, dão.

Dona Teresa está guardando toneladas de livros, usando guarda-pó, máscara para não morrer de tanto espirrar e um enorme crachá onde se lê seu nome e função em letras garrafais. Alguém se aproxima e pergunta:
– Por acaso a senhora trabalha aqui?
– O que você acha? – devolve Dona Teresa, espichando-se toda,  com uma das mãos no quadril e a outra apontando para os sinais de que se trata de uma funcionária trabalhando.

Normalmente a reação é um pedido de desculpas encabulado ou uma cara feia. Ambos divertem igualmente a guardadora de livros, que solta uma gargalhada e oferece seus préstimos com simpatia. A única reação diferente registrada em vários anos de observação foi de uma garota gorduchinha que bateu palmas como se tivesse feito uma grande descoberta e gritou:
– Eu acho que sim! Me ajuda! Me ajuda! Eu não consigo achar o livro!

Lá no balcão de empréstimos um cavalheiro de terno mal cortado folheia distraidamente o livro que alguém devolveu.
– Isso parece coisa de “viado”…

E o bibliotecário, com grande naturalidade, pergunta:
– Eu sou veado, por que você acha isso?

Ninguém entende muito bem a resposta gaguejada, que soa mais ou menos como “nada não, obrigado”.

Mais tarde, dois moleques resolvem matar a curiosidade e perguntam para a moça da portaria:
– Tia, por que você fica desenhando esses quadradinhos aí?
– Tá vendo este pauzinho aqui? – indicando com a ponta da unha pintada de vermelho um dos risquinhos de sua estatística de entrada de usuários – É você. Este outro aqui é o seu amigo. Entendeu?

Depois de mais de vinte minutos tentando decifrar as confusas  anotações de uma jovem universitária, a bibliotecária de referência finalmente descobre que um dos  supostos livros era um artigo  de revista e o outro um filme, nenhum deles disponíveis no acervo.
– Mas o professor disse que eram livros e que eu poderia encontrá-los aqui!

A bibliotecária explica, com a ar de quem revela um grande segredo:
– O professor não sabe nada…

Diante da expressão completamente chocada da moça, Lúcia, que já havia levado umas broncas por causa de sua língua rápida e ferina, volta atrás e conserta um pouco a maldade:
– Quero dizer que seu professor sabe muuuitas coisas, mas disso ele não entende nada – e ajuda a moça a encontrar filme e artigo em fontes alternativas de caráter pirático.

A mesma Lúcia costuma responder, com um bonito sorriso, quando alguém reivindica um privilégio por conta de uma condição que considera única e muito relevante (“eu faço doutorado na UCI -Universidade Chique e Importante”, por exemplo):
– Você e mais uns trezentos – adaptando o número à situação. A vontade mesmo era dizer “ você, a torcida do Corinthians e metade da do Palmeiras”, mas seria um exagero. Lúcia é desbocada, mas não abusa.

A estagiária estudante de Letras detesta quando explica que não pode digitalizar o livro e enviar para o usuário, porque existe uma lei que protege direitos autorais e tal, e a pessoa questiona, como se estivesse explicando um fato da vida no qual ela nunca havia pensado:
– Mas, e se eu pegar o livro emprestado e digitalizar? Quem vai saber?

Para usuários conhecidos, daqueles que estão sempre na biblioteca e com quem os funcionários se permitem certas familiaridades, a estagiária responde, com algumas variantes:
– Tem uns ácaros aí no livro treinados para acionar um alarme telepático que vai soar lá no Departamento Antidigitalização de Livros na Íntegra da Polícia Federal toda vez que alguém faz isso. Aí os fiscais da ABNT vão rastrear o livro até sua casa, confiscar o pdf e aplicar-lhe pesada multa.

Os mesmos ácaros, segundo Lúcia, gritam desesperados quando alguém rabisca o livro: “PARA, PARA, VOCÊ ESTÁ ME MACHUCANDO! ”.

Já os fiscais da ABNT apareceram na biblioteca num belo dia de dezembro para avisar que os festões da decoração natalina estavam fora dos padrões, de acordo com um funcionário gaiato que fez a secretária da chefia, por um breve momento, acreditar na história.

E é quando todos riem com essas outras biblio-fantasias, como a história do movimento migratório dos livros que explicaria obras sobre arte rupestre guardadas na estante de culinária, é que a Fernanda da Aquisição, a melhor contadora de causos da Grande Biblioteca, muito séria, se põe a narrar a história dos suspiros.
– Vocês estão rindo, mas fiquem sabendo que nesta biblioteca, como em quase todas as bibliotecas que têm acervo muito antigo, há diversos livros que suspiram. Durante o dia não se nota, mas quem andar entre as estantes à noite talvez consiga escutá-los. São os livros esquecidos, que ninguém abre há muitos anos e se ressentem disso – nesse momento, Fernanda faz uma pausa e baixa o tom de voz, como se contasse um segredo soturno. Alguns deles, na verdade, jamais deveriam ser abertos mesmo. Nem todos os livros esquecidos são inofensivos. Por isso, se algum dia vocês ouvirem suspiros na Biblioteca, afastem-se imediatamente das estantes.

Alguns ouvintes arregalam os olhos, outros soltam risadas nervosas, mas não há quem não lance um olhar ressabiado em direção às imponentes estantes guardiãs de segredos.

E assim, na Grande Biblioteca e em qualquer outra biblioteca, as perguntas ingênuas, as respostas às vezes tortas, as piadas, as histórias e os suspiram se repetem, dia após dia. E devem continuar, enquanto existirem bibliotecas e pessoas dentro delas.

Agradeço à querida Arlete (em memória),ao José e ao Walber por algumas dessas histórias. Nem todas são inventadas.

fotos: Victoria Pickering, Library; Michael D Beckwith, Chetham´s Library (Flickr)

A entrevista

Lúcia observa as estudantes brigando com o gravador que teima em não  ligar. Meninas trabalhadoras, pensa Lúcia, provavelmente filhas e netas de trabalhadores, como ela mesma, na luta para melhorar de vida pelo estudo e apostando suas fichas no curso de Biblioteconomia. A menina que parece exercer funções de liderança usa camiseta da faculdade, chapinha no cabelo e brinquinhos de imitação de pérola. A mais novinha delas, que olha para Lúcia com o rabo de uns olhos meigos, veste blusa de estampa de florzinhas e babados. A terceira, um tanto mais velha que as outras, tem os braços totalmente tatuados e o cabelo que parece cortado à faca. Sem saber como ajudar, Lúcia limita-se a sorrir tranquilizando suas entrevistadoras, que começam a dar sinais de constrangimento. “Calma, não estou com pressa. Reservei a tarde toda para vocês”.

Desde que Dona Alzirinha morreu, a função de receber estudantes interessados na história da Grande Biblioteca passou para ela, por ser agora “uma das mais antigas aqui depois de mim”, nas palavras da diretora. Na verdade, embora fosse apenas medianamente antiga, Lúcia era a única bibliotecária capaz de se comunicar com os jovens de forma razoável e assumia como trabalho da referência dar entrevistas para trabalhos escolares. A diretora reservava seu tempo precioso para atender as “personalidades” que considerava importantes: jornalistas da grande imprensa e gente indicada pela prefeitura.

Finalmente as garotas assumem o controle do equipamento e Brinquinho dá início às perguntas. O tema do trabalho era Dona Olívia Valadares Gouveia Campos, aquela que emprestou seu vetusto nome à Grande Biblioteca em vão, porque o nome não pegou. O material disponível sobre a importante personagem já estava nas mãos das meninas: uma curta biografia, algumas reproduções de fotos e um folhetinho com uma coletânea de poemas de autoria dela, em edição quase caseira da Secretaria de Cultura, feita por ocasião do batismo da Biblioteca.

Depois das perguntas iniciais de praxe, quanto tempo trabalha na Grande Biblioteca, se considera seu trabalho importante etc, Brinquinho ataca:

– Qual é a importância de Dona Olívia Valadares Gouveia Campos para a Grande Biblioteca? Cite algumas de suas principais realizações.

Tipico, pensou Lúcia. A meninada reproduz nas entrevistas os enunciados da questões que caem nas provas. Compondo no rosto a expressão mais tranquila e séria de que era capaz, Lúcia responde escolhendo as palavras:

– Dona Olívia integrou a comissão que organizou a cerimônia de inauguração da Biblioteca. Era uma mulher elegante, uma quatrocentona com muita experiência em organização de eventos beneficentes.

Ela sempre se sentia meio idiota dizendo essa frase, mas não tinha opção. Apenas torcia para que as meninas se contentassem com isso e partissem para outro tipo de pergunta. Mas, não. Dessa vez não seria tão fácil. Senho franzido, Brinquinho esclarece:

– Desculpa, o que a gente precisa saber é o que ela fez por esta Biblioteca, os trabalhos que realizou …

– As marcas que ela deixou, né? – Florzinha tenta ajudar.

– Sim, meninas, eu entendi. Mas é isso. Ela organizou a festa de inauguração e doou alguns livros.

– Mas, como? Peraí, quantos anos Dona Olívia trabalhou aqui?

– Ela nunca trabalhou aqui. Trabalhou alguns anos na biblioteca da Faculdade de Letras, logo depois de se formar, mas parou de trabalhar quando se casou. Foi assessora da Prefeitura por algum tempo, mas essa atividade não estava relacionada à Grande Biblioteca.

Brinquinho, um tanto desnorteada, consulta freneticamente suas anotações.

– Não é possível, eu tenho certeza, li isso em alguma parte das …

Tatuagem vem em seu socorro com uma boa saída:

– E esses livros que ela doou, eram raros? Foi uma doação importante?

– Tem a listinha aí no material que vocês receberam. São bons livros, mas nada de excepcional.

– Ah, tô vendo aqui. Doze livros.

Lúcia entrelaça os dedos e faz um gesto vago com a cabeça, seu equivalente gestual para a expressão “bem…”. Tatuagem esboça um ligeiro sorriso, como se já estivesse adivinhando o que estava por vir, enquanto Florzinha examina as condições de cada uma de suas unhas. Brinquinho, entretanto, mostra que não pretende se entregar tão cedo.

– Deve haver algum engano – o tom de voz é peremptório e o olhar lançado em direção à bibliotecária tem algo de acusador – Se esta biblioteca tem o nome dela, a mulher dever ter alguma importância para a instituição, não?

Lúcia pressente que a menina está prestes a chamá-la de “querida” e suspira ligeiramente. Boas alunas que vestem a camiseta da faculdade e que um dia, provavelmente, terão orgulho de serem bibliotecárias, não gostam de entrevistas que fogem ao roteiro que prepararam, tão caprichado. E agora, como ficaria o trabalho? A bibliotecária, tenta disfarçar a ponta de prazer perverso que sente  ao contar a história famosa entre os funcionários.

– Então, é o seguinte. Esta biblioteca ficou conhecida como “Grande Biblioteca” por oposição à mais antiga, pequena, que ficava logo ali na rua de cima. Aí surgiu um prefeito que gostava de dar nome a tudo, desde que o batismo lhe rendesse lucro político. A esposa dele era bibliotecária e manifestou desejos de dar um nome de bibliotecária à nossa Grande Biblioteca. O marido, que lhe devia alguns favores, se empenhou em satisfazer esse capricho de madame. Mas não poderia ser o nome dela, naturalmente, porque além de primeira dama estava viva.  Para tanto, ele precisava de uma bibliotecária morta. Procura que procura, topou com Dona Olívia, que era bibliotecária e já estava morta. Pronto! Foi assim que a Grande Biblioteca ganhou seu nome oficial – aquele que ninguém usa – e continua sendo a Grande Biblioteca.

– Como?! O quê?! – se espantam, em coro, Brinquinho e Florzinha. Tatuagem ri e abana a cabeça.

Brinquinho achava um absurdo. Não podia ser.

– Não mesmo. O melhor candidato a dar nome à Grande Biblioteca seria, na verdade,  Pyotr Oklopkov, um professor que lutou muitíssimo pela criação desta biblioteca. Organizou campanhas, movimentou a cidade, fez pressão sobre a Prefeitura… Mas, lamentavelmente, o velho, além de ter esse nome impronunciável, era comunista de carteira assinada e um dos adversários mais famosos do partido do prefeito marido de bibliotecária. Já Dona Olívia, senhora da classe dominante nativa com nome elegante, era candidata imbatível.

– Gente… – mia Florzinha, chocada.

– Vocês não vão me perguntar por que o nome não pegou? – provoca Lúcia.

– Tenho até medo de perguntar – Florzinha confessa.

– Porque a biblioteca já tinha um nome conhecido pela comunidade. Todo mundo dizia “Grande Biblioteca” com certo orgulho. Se a gente tentava usar o nome oficial, ninguém entendia. E os próprios funcionários, que também não gostaram do novo nome, não se empenharam muito em vencer a resistência da população. É isso que acontece quando se fazem ações artificiais, sem envolver as pessoas…

A diretora da Biblioteca odiava que ele contasse a história desse jeito, sem ao menos romancear um pouco, Lúcia sabia disso. Mas ela já havia avisado que jamais mentiria para os jovens estudantes. Era seu preço para ser “uma das bibliotecárias mais antigas que pode contar as histórias da Biblioteca”.

– Futuras coleguinhas, até parece que vocês nunca ouviram falar de uma coisa chamada política. Bibliotecas também estão sujeitas às regras da política, vocês deviam saber disso.

Tatuagem sacudia a cabeça em concordância, mas Brinquinho, impávida, voltava às suas anotações e retomava as perguntas:

– Então, para você qual é a importância da Dona Olívia para a biblioteconomia nacional?

Lúcia sentia a paciência chegar ao fim.

– Menina, você não ouviu o que eu falei? Você não leu a biografia dela? Leia novamente, escute a gravação e tire suas próprias conclusões. Pode ser um exercício interessante.

– Mas a gente precisa saber o que VOCÊ acha.

Ah, o roteiro. Não dava pra fugir do roteiro combinado com o professor. Se a pergunta bobinha estava lá, tinha que ser feita, mesmo que a realidade pulasse e gritasse em frente ao gravador.

– Nenhuma, se vocês querem mesmo saber – Lúcia se acomodou na cadeira com as pontinhas dos dedos unidas em posição professoral – Dona Olívia era apenas uma senhora rica que até tentou ser bibliotecária, mas as obrigações de um casamento burguês provavelmente não permitiram que ela continuasse trabalhando. Quem a conheceu dizia que era uma mulher inteligente e generosa, que gostava de livros e escrevia poemas até que bonzinhos, mas nada além disso. Virou nome de biblioteca apenas por uma questão de conveniência política e nome de família. E porque, no momento certo, já estava morta.

Pequeno silêncio. Mais duas ou três perguntas protocolares e a entrevista está encerrada. Despedem-se com beijinhos amistosos, Brinquinho um tanto amuada.

– Espero não ter decepcionado muito vocês… – Lúcia tenta se desculpar.

– De jeito nenhum – Tatuagem abre um sorriso largo – aprendemos muito nessa entrevista.

– Não o que a gente esperava, mas aprendemos – concorda Florzinha.

Brinquinho não faz nenhum comentário, mas ao cruzar a porta de saída, volta-se para Lúcia  e declara, com grande convicção:

– Sabe, o que eu mais quero na vida é ser bibliotecária. Nunca deixaria meu trabalho, por nada neste mundo.

fotos: Microphone, de Adam Fredle; Xylograph librarian, de Monika Bargmann (Flickr).

Um filme legal

A questão é recorrente em qualquer acervo de filmes.

Eu queria ver um filme legal , o que você me recomenda?

Admito que essa demanda tão inocente me arrancava suspiros de tédio quando mais jovem e menos tolerante. Como diabos, pensava eu, uma pessoa suficientemente instruída e alimentada para chegar à Universidade não consegue escolher um simples filme sem pedir sugestões a estranhos?

Na Biblioteca da Escola de Comunicações e Artes da USP, onde trabalho, temos um bom acervo de filmes, inicialmente formado para atender a necessidades acadêmicas do curso de cinema da Escola e selecionado de acordo com orientação dos nossos professores. O núcleo mais importante do acervo é formado por filmes de Glauber Rocha, Bergman, Fellini, Antonioni, Hitchcock, Buñuel, Kurosawa, Eisenstein, Renoir e outros nomes que fizeram a história do cinema, mas também temos de gente menos conhecida e como menos prestígio acadêmico.

Nossa base de dados é um velho produto criado no velho MicroIsis por esta velha bibliotecária, mas ainda funciona. A catalogação foi caprichadamente desenvolvida para filmes, com ficha técnica bem completa, resumos, indexação por gênero e assuntos e quase tudo o que nossos usuários especialistas em cinema nos pediram. Dá para localizar, por exemplo, todos os filmes brasileiros do acervo produzidos na década de 60 que tenham “políticos” como personagens, ou filmes ambientados na cidade de Paris.

Aí chega o usuário e pede para o atarefado funcionário um “filme legal”. Depois de anos repetindo variações do velho discurso de que “o meu legal pode ser diferente do seu”, em algum momento as velhas desculpas deixaram de fazer sentido. Nem todos cresceram solitários e ressabiados com a humanidade como eu, as pessoas simplesmente enxergam no indivíduo que trabalha com um acervo alguém que tem um repertório maior que o delas e querem sim, por que não, a opinião pessoal dele ou dela. Se não quisessem opinão pessoal não perguntariam para uma pessoa. Ora, se os meninos das antigas videolocadoras buliçosamente ofereciam suas indicações estereotipadas, se o YouTube e a Netflix hoje fazem isso com automática desfaçatez, por que essas bibliotecárias metidas não podem sugerir a porcaria de um filme legal?

segredo

Então, quando uma de nossas atendentes, uma elegante estudante de música, esgotou seu estoque de sugestões e não aguentava mais indicar O segredo dos seus olhos – aquele filme argentino milimetricamente planejado para agradar a todo mundo – para usuários desejosos de ver um bom filme para matar o tempo, resolvi que já era hora não apenas de sugerir um filme legal, mas de criar uma lista de filmes legais. Já era nosso hábito fazer recortes no acervo por assunto, gênero ou propósito e imprimir uma listinha para o pessoal, atendendo a duas demandas históricas dos nossos usuários:  algo impresso para “pegar com a mão” e sugestões de filmes para quem não tem nenhuma necessidade cinematográfica específica. Filmes dirigidos por mulheres, filmes para o Mês da Consciência Negra, obras de grandes diretores de fotografia, adaptações de peças teatrais e Revoluções são alguns dos temas das listas, que também publicamos no nosso blog.

A lista foi elaborada com critérios e método, claro, porque posso ser maluca mas ainda sou bibliotecária. Três pessoas de formações, interesse e idades diversas fizeram as indicações, para assegurar um mínimo de pluralidade ao “levantamento”: os dois técnicos que atendem os usuários de filmes e eu. Combinados o seguinte:

escolher filmes dos quais gostamos bastante;

evitar obviedades excessivas –  indicar aquele filme que todo mundo já viu é chover no molhado;

deixar de lado extremos de violência, medo, sexo ou qualquer outro exagero – quem pede sugestão de filme legal provavelmente não está querendo nada disso;

nada de linguagens muito complexas ou filmes muito difíceis – esse usuário não deve estar em busca de algo como Stalker, de Tarkovskiy  ou Blue, de Derek Jarman.

nada de filmes muito bobinhos – afinal, a biblioteca de uma escola que tem curso de audiovisual não pode partir para a esculhambação.

tentar escolher filmes de gêneros e épocas variados.

Na condição de pessoa mais velha e mais cinemeira do trio, procurei lembrar de filmes que eram MUITO LEGAIS na minha juventude e que hoje pouca gente conhece. Alguém com menos de 50 anos se lembra, por exemplo, de Malpertuis, um filme que arrastou multidões às salas da Mostra de Cinema de São Paulo na década de 1990?

Lizard

A lista ficou interessante e, ao meu ver, bastante diversa. Os usuários gostaram, os funcionários também mas, para minha surpresa, já ouvi mais de um estudante de biblioteconomia afirmar que esse tipo de trabalho jamais seria feito na biblioteca onde estagiam. Chefes caretas não deixariam… É sério isso, pessoal? E eu que pensava ser uma bibliotecária velha e empoeirada. Bibliotecários não podem acrescentar um pouco de imaginação às suas rotinas?

Um coleção de filmes merece ser corretamente indexada por gênero, forma e assunto em suas várias facetas: ações, eventos, personagens, local e época de ambientação etc. Cada filme deve ser analisado como um todo ou em partes, para que cenas ou sequências específicas possam ser recuperadas. Nosso olhar de indexador deve identificar não apenas o que é mostrado, mas também significados mais profundos e conteúdos menos evidentes, se possível. Mas além da abordagem técnica, a criatividade e um pouco de ousadia não fazem mal a ninguém.

Espectadores de filmes, séries e vídeos de gatinhos, entre os quais se incluem nossos usuários e nós mesmos, enxergam conceitos e delimitam categorias que fogem bastante ao que sonha a vã filosofia dos nossos vocabulários controlados. Sim, todos nós buscamos filmes sobre a Revolução Francesa, sobre relações familiares ou violência contra a mulher, com cenas de batalhas navais ou corridas de cavalos, conceitos relativamente fáceis de serem transformados em civilizados descritores. Mas existem demandas mais difíceis de serem atendidas pelos pouco imaginativos sistemas bibliotecários.

Fiz, há alguns anos, uma pesquisa com usuários da coleção de filmes da ECA/USP, para tentar descobrir o que eles entendem por assunto de um filme. O resultado mostra um pouco do que nos falta. Em nossos vocabulários, bases de dados, conjuntos de metadados ou, pelo menos, nas nossas cabeças, precisamos encontrar espaço para categorias como linguagem, técnica ou narrativa cinematográfica, ou para aqueles temas clássicos do cinema que parecem nunca se encaixar na concepção bibliotecária de assunto, ou  mesmo para conceitos não relacionados ao conteúdo do filme, mas ao contexto de produção, exibição etc.

Se alguém quiser conhecer os detalhes dessa pesquisa, o relato está lá no meu blog, no post Sobre o que é esse filme. Ainda vou voltar mais vezes ao tema (aguardem os próximos capítulos).

 

 

 

A caixinha verde de Pandora

Aparecido, o porteiro, bate na mulher.

O assessor do secretário de cultura também rouba livros.

A ex-diretora ganhava viagens para Miami da empresa de software.

Gabriela não lava as mãos depois de ir ao banheiro.

A diretora não responde e-mail porque não consegue escrever uma frase que faça sentido.

Os colegas da Grande Biblioteca só conseguiram descobrir o que Dona Alzirinha realmente guardava naquela caixinha forrada com papel verde depois que ela morreu dentro do táxi, a caminho do trabalho. Oficialmente eram “modelos de fichas“, mas também podia ser “nada que você seja capaz de entender” ou “receitas de pudim” , dependendo de quem perguntasse e do humor do momento. Nos piores dias era “o cadastro de pessoas que eu pretendo matar“.

Na caixinha se aninhavam, em pacífica ordem, fichas catalográficas contendo pequenos segredos de funcionários e usuários da biblioteca, descritos de acordo com as regras do AACR2. Alguns eram bem escabrosos:

fichinha

Eram todas fichas de assunto com cabeçalhos bem escolhidos como Violência doméstica – Brasil – Século 21;  Corrupção; Higiene etc. Para o José Carlos homofóbico e pai desnaturado, o assunto era Infâmia, sem mais.

Dona Alzirinha, idade incerta mas avançada, era quase um mito na Grande Biblioteca, admirada pela grande capacidade de trabalho e temida pela selvageria de sua sinceridade. Frases como “seu conhecimento de regras de catalogação não desculpa sua ignorância em todos os demais campos do conhecimento” eram famosas entre os funcionários mais jovens, que adoravam a velhinha boca-dura. Acredita-se que passara uns tempos presa durante a ditadura, mas ela jamais confirmou. “Arrume umas lutas para você e pare de se preocupar com o passado alheio”, costumava dizer aos curiosos que a incomodavam com perguntas sobre o tema.

Ninguém poderia imaginar que aquela senhora que pouco interagia com a fauna local tivesse tantos podres catalogados em sua caixinha verde. “Ela inventou isso tudo”, defendia-se um dos catalogados, enquanto outros ponderavam que as fichinhas continham informações quentes e fáceis de apurar. Helena, uma das bibliotecárias da seção de catalogação observou, pensativa, que a caixa estava muito vazia. “Gente, eu via a Dona Alzirinha mexendo nesta caixa quase todos os dias, estava lotada de fichas. E agora está pela metade”.

– E alguém sabe o que ela estava fazendo no fichário nesses últimos dias? – perguntou a diretora.
– Acho que acabamos de descobrir – responde a catalogadora, coçando o queixo para disfarçar o sorriso.

O velho fichário da Grande Biblioteca tinha em Dona Alzirinha sua mais feroz inimiga. Desde que “a porcaria nova”, como ela chamava o sistema informatizado, provou que funcionava de forma minimamente aceitável, a velha catalogadora declarou que já era hora de jogar fora “a porcaria velha”. Para Dona Alzirinha, nada prestava.

– Como, Dona Alzirinha?! Nem terminamos ainda de inserir tudo no sistema … – escandalizou-se a diretora.
– E daí? Só faltam aqueles livros que ninguém mais procura. Joga fora logo, senão a velharada não aprende a consultar a porcaria nova.
– Não, não podemos fazer isso! Esse fichário é nossa história, Dona Alzirinha, muito me admira a senhora, tão …
– História, minha filha – interrompeu – é uma coisa que você vai precisar ler muito para começar a entender o que é.

E saiu virando as costas para a indignada diretora.

Um silêncio preocupado instalou-se entre os presentes, que avaliavam as consequência potenciais do biblio-terrorismo da falecida. A diretora, que ruminava intermináveis discussões passadas sobre o vetusto equipamento com uma cada vez mais teimosa Dona Alzirinha e seus seguidores adeptos do crime de lesa-fichário, bateu o martelo.

– Vamos fazer um mutirão e tirar todas essas fofocas indecentes do nosso catálogo.

Protestos se fizeram ouvir. Que absurdo perder tempo com isso, não vamos conseguir encontrar as drogas dessas fichas, deixa pra lá, ninguém consulta mais aquilo. Esconder no porão o “nosso catálogo” ou descartá-lo, como queria a velhota, era a melhor coisa a fazer. Mas não teve mais nem meio-mais, a diretora estava irredutível. Não seria agora, depois da morte da adversária mais implacável, que ela iria perder a parada.

E lá se foram todos caçar fichinhas malditas, em turnos de 45 minutos cada dupla. Os cabeçalhos de assunto eram uma boa pista, mas logo descobriram que a velhinha não era besta. Havia várias fichas cujos assuntos não eram tão óbvios, como “Cultura de cana” para a revelação de que alguém bebia regularmente cachaça em horário de expediente. Depois de algumas horas de busca, uma das estagiárias anunciou, abanando uma fichinha:

– Pessoal, esta aqui não é da Dona Alzirinha. As delas são todas datilografadas em fichas no estoque antigo, aquelas boas, grossinhas … Esta aqui foi impressa e a gramatura é outra.

Todos foram examinar a descoberta e mais dois funcionários disseram também ter encontrado fichas diferentes. Rapidamente constataram que havia, pelo menos, três outros tipos diferentes de fichas. Algumas continham erros gramaticais que Dona Alzirinha jamais cometeria.

Ao receber a notícia, a diretora simplesmente agarrou sua bolsa, arrumou rapidamente o cabelo e foi saindo.

– Amanhã eu vejo isso. Agora tenho que ir, estou atrasada para minha terapia.

A secretária olhou na agenda e tentou avisar que a consulta era no dia seguinte, mas recebeu um olhar fulminante e se calou. No dia seguinte, a diretora não tirou os óculos de sol para trabalhar, sinal inequívoco de insônia seguida de enxaqueca. Foi a secretária que mandou parar o mutirão caça-fichas. À tarde, chegaram os moços da manutenção e carregaram o fichário para o porão, de onde viria a desaparecer discretamente meses depois.

No boteco onde a galera foi comemorar a vitória póstuma da terrível Alzirinha, a catalogadora Helena mostrou uma das fichinhas que resgatou salvou.

– Esta eu vou guardar.

Era uma das autênticas, caprichosamente datilografada na Olivetti 32 usada pela agora saudosa velhinha, com o título:

O pai da diretora é um ex-torturador do DOI-CODI.

foto: Toby Oxborrow, Surprised box face.

A moça, o verme e o tigre: uma história da Grande Biblioteca

O nome verdadeiro da estagiária era Maria Amélia, mas como todos na família desde sempre a chamaram Pris, foi com esse apelido que ela se apresentou aos colegas na Grande Biblioteca. Uma das bibliotecárias perguntou se os pais dela eram fãs de Blade runner mas foram obrigados a lhe dar o nome das avós por pressão familiar. Não, não era isso, mas não era a primeira vez que Pris ouvia que seu apelido tinha a ver com esse filme. Precisava assisti-lo qualquer dia.

Pris, estudante de letras que amava livros e lembrava com carinho da moça da pequena biblioteca da escola onde estudou, ficou feliz em conseguir um estágio num local para ela tão mitológico. Emprestar livros para a população e ajudar as pessoas a escolherem suas leituras parecia-lhe o melhor trabalho do mundo. Até a realidade cair pesadamente sobre ela.

A estagiária não conseguia conviver com a agressividade das pessoas. Quando um leitor grosseiro ou impaciente a tratava mal, ficava completamente sem ação e chegava a chorar. O colegas mais velhos tentavam ensiná-la a lidar com os “ossos”, explicavam que não podia ser tão sensível e “levar para o pessoal”, mas não adiantava. Pris simplesmente não conseguia entender como alguém podia tratar mal uma pessoa que não apenas estava trabalhando, mas tentando sinceramente ajudar. O chefe logo percebeu isso e a afastou um pouco do contato com o público. Pris ficou meio triste com isso, mas entendeu, e como amava mesmo os livros, sentia-se feliz em guardá-los nas estantes, trocar etiquetas e separar os que precisavam de reparos. E ainda havia momentos em que ela ficava no balcão de atendimento, cobrindo horário de jantar dos colegas.

Parecia estar tudo bem assim, até que o Nojento a descobriu. O Nojento era o usuário mais detestado pelos funcionários da Grande Biblioteca. O homem não chegava a ser abertamente grosseiro, mas conseguia ser extremamente desagradável apenas com um olhar ou um comentário irônico, particularmente se era atendido por um funcionário negro, mulher ou nitidamente homossexual, como era o caso do chefe da Pris. Esse era o único que não se deixava afetar pelo Nojento, porque também sabia usar apenas um olhar para colocar as pessoas em seu devido lugar. Diziam que o Nojento era membro de uma organização fascista, mas ninguém, conseguiu descobrir nada sobre a criatura. “É só uma cria do inferno nascida do cu de um demônio de segunda”, dizia uma das moças da faxina, desbocada e muito respeitada por essa qualidade. E o Nojento, com seu cabelo ensebado e seu queixo de Goebbels, começou a frequentar a Grande Biblioteca justamente no horário em que Pris estava atendendo e que seu chefe já havia ido embora. O homem parecia gostar dela, ainda que de forma desprezível. Fazia elogios ao seu cabelo e roupas, olhava para a moça com aquele olhar que os homens parecem praticar em frente ao espelho para provocar repulsa nas mulheres e até chegou a levar um chocolate vagabundo de presente, atirado à lixeira assim que o desinfeliz virou as costas.

Pris estava começando a entrar em desespero. Quanto mais ela demonstrava sua aversão, mais o homem parecia decidido a importuná-la, divertindo-se com a aflição da estagiária. E o pior é que não havia nada de concreto que pudesse motivar uma reclamação. Pris receava que lhe dissessem que precisava aprender a lidar com “galanteios”, como já ouvira uma vez na faculdade, e tinha medo de que a mandassem embora por ser uma pessoa “difícil”, que chorava à toa e criava problemas. Os colegas diziam que não, que ninguém faria isso com ela, mas Pris tinha dúvidas. Até o chefe, que a entendia e protegia, parecia não ter muita certeza da reação da chefe da Grande Biblioteca, que não gostava de lidar com esse tipo de problema.

Naquele dia, ela não estava no balcão de empréstimos no horário habitual, porque dois dos colegas estavam trabalhando até mais tarde, pagando horas devidas, e aproveitou para ir resolver um problema na impressora de etiquetas na sala da catalogação. O Alencar viu, com desgosto, o Nojento entrar pela porta, já com aquele sorriso seboso na cara, sorriso que se apagou assim que não viu sua presa. O desgraçado ficou por ali de bobeira por uns minutos, mexendo no expositor de livros novos, até que Alencar e a colega de balcão se distraíram com uns jovens perdidos no universo dos catálogos e o perderam de vista. Desconfiado, Alencar foi dar uma busca e viu o sujeito entrar na área reservada aos funcionários, furtivo.

Nesse dia, a bibliotecária que dava plantão noturno era a Fernanda, do Departamento de Aquisições. Fernandona, como a chamavam os poucos funcionários que não tinham medo dela, era uma ex-jogadora de basquete e maratonista de exatos um metro e oitenta e quatro, uma negra de braços fortes, sorriso glorioso e fama de não levar desaforo para casa. Alencar avisou, “ô Fernanda, o cara que persegue a menina foi atrás dela lá no fundo, vou chamar o segurança”.

– Espera um pouco aí – avisou Fernanda, que já conhecia o sujeito e a história toda do assédio a Pris, erguendo-se nos saltos até atingir quase um metro e noventa.

Alencar achou melhor não discutir, só ligou discretamente para a portaria enquanto a Fernandona marchava para a porta dos serviços internos. O Nojento estava lá, no largo corredor cheio de portas, provavelmente esperando a estagiária aparecer.

– Procurando o quê, amigo? – a bibliotecária falou alto, sem se preocupar em ser educada. Educação não se aplicava ao caso.
– Calma aí, negona. O banheiro não é mais aqui?

Fernanda percebeu alguma coisa estranha no ar, algo pesado e viscoso. Como se tivesse entrado num ambiente contaminado ou num matadouro. O homem sorria, provocador, e ela avançou, sentindo o tigre subir dentro de si. Como no dia em que impediu o pai de bater na mãe, como na ocasião em que reagiu na rua a uma ofensa racista e quase foi presa. Empurrou o homem de encontro à parede, com toda a força, segurou-o pelo pescoço com as duas mãos e apertou um pouco, cheia de repugnância. O Nojento tentou se debater, mas Fernanda era bem mais forte do que ele e ambos sabiam disso. Falou baixo e pausadamente, deixando o tigre rosnar livremente:

– Você sabe que não. E sabe também que não vai voltar aqui nunca mais e, se voltar, vai ser de cabeça baixa, olhando pro chão. Você NUNCA MAIS vai dizer outra palavra nesta biblioteca que não seja “por favor” e “muito obrigado” e NUNCA MAIS vai olhar para aquela menina. Entendeu? Fui negra e clara?

Assim que o homem conseguiu abanar a cabeça em concordância, Fernanda o deixou ir. Saiu apressado, quase correndo, mas ainda conseguiu ensaiar um vago gesto de despedida para Alencar e os demais, que o olhavam perplexos. Para manter um resto de dignidade, sem dúvida. A bibliotecária veio logo atrás, sentindo o tigre recuar lentamente. O ar do grande salão de entrada também parecia sujo, como se o homem em fuga tivesse deixado pra trás a sua nuvem escura.

Fernanda ficou um pouco por ali, parada, tentando se recompor. Sentia nojo das mãos que haviam tocado no homem e uma vaga sensação de mal-estar parecia correr pelas suas veias. E foi nesse momento que entrou o Francês.

Alain era um professor da universidade que frequentava bastante a seção de obras raras, para alguma pesquisa acadêmica. Muito gentil, embora reservado, era bastante querido por todos os funcionários. As meninas o achavam bonito, embora fosse apenas um intelectual ossudo e meio velhusco, porque havia uma doçura em suas maneiras que encantava de imediato. No exato instante em que ele entrou, Fernanda percebeu que o ar pesado se dissipava, dando lugar a uma luminosidade diferente da luz habitual do ambiente. Ao vê-la ali parada, ainda meio em choque com o que acabara de fazer, o Francês se aproximou e perguntou, com seu sotaque forte:

– Que foi, Fernanda? Tudo bem com você?

– Tudo bem, meu lindo. Foi só uma coisa estranha que eu precisei fazer e que me deixou nervosa.

Alain franziu a testa e alisou levemente a lateral do braço da bibliotecária, num gesto de consolo.  Mais calma, Fernanda agradeceu pela preocupação, fez um sinal de positivo para o segurança que havia chegado com cara de ponto de interrogação e foram todos cuidar de suas vidas. A luz leve e brilhante que entrou com o Francês já havia tomado todo o espaço aéreo da Grande Biblioteca.

O Nojento nunca mais apareceu e Pris nem ficou sabendo da história. Combinaram de não contar nada para não assustá-la mais ainda. Apenas soube, por Alencar, que a Fernandona tinha algo a ver com o desaparecimento do “encosto” e a abraçou muito. Meses depois foi aberto um concurso público, com duas vagas para a Grande Biblioteca e ela se inscreveu. Decidira, afinal, que trabalhar em biblioteca era o que desejava da vida, apesar dos percalços todos. O chefe disse que, à medida que ela fosse ficando mais velha, as pessoas naturalmente a respeitariam mais. E depois, com a maturidade as lágrimas tendem a secar.  Mais tarde, pensava Pris,  poderia pensar em cursar Biblioteconomia. Por que não?

Como largar um livro

Sou uma leitora constante e esfomeada, ou seja, tenho necessidade de estar sempre lendo um livro ou, como nem sempre consigo controlar a impaciência para começar o próximo da fila, às vezes leio dois ao mesmo tempo. E quando digo “livro” pode ser uma coisa impressa em papel ou uma coisa digital, tanto faz, desde que seja ficção ou qualquer texto sobre assuntos que me interessam: arte, cinema, fotografia, história, política, literatura, mitologia grega.  Também leio textos de interesse profissional, mas esses entram no departamento das obrigações. Ler por obrigação é outro tipo de leitura,  não vale.

Mas também sou uma leitora completamente indisciplinada, caótica e sem-vergonha, do tipo que pula páginas, lê o final antecipadamente e desiste da leitura sem piedade se o livro não está agradando.

Um dia desses escrevi no Facebook sobre como larguei o 1Q84, do Haruki Murakami, no meio do segundo volume, porque o besta do livro abusou da minha paciência, e a amiga Ana Carolina Biscalchin sugeriu que eu fizesse um tutorial de como desistir de livros mainstream sem culpa! Como a culpa é algo que não me atinge facilmente quando se trata de coisas que me aborrecem, levei a sério a brincadeira. Por que não?

O tutorial poderia ser resumido a algo extremamente simples, assim:

Se um livro te aborrecer ou irritar, feche-o e abra de novo no dia seguinte. Pode ser que você apenas esteja num dia ruim. Se continuar te aborrecendo ou irritando, feche-o para sempre, jogue fora ou passe pra frente.

Mas resolvi caprichar para não dar margem a dúvidas, então leiam aí:

Como largar um livro

Muito fácil, não? Se alguém ainda estiver vacilando, faça aí um comentário e eu ajudo a destruir seus escrúpulos.

Eu também, na verdade, tenho os meus. Por hábito e gosto, prefiro não largar um livro só porque a leitura está difícil. Nesses casos eu insisto bastante, e costuma valer a pena, mesmo que demore para terminar e que seja necessário intercalar com outras leituras mais leves. Alguns dos livros que eu mais amo são um tanto difíceis de assimilar e precisam ser lidos várias vezes, em momentos distintos da vida. Ler Guimarães Rosa e Machado de Assis na adolescência é uma coisa, ler depois dos 30 ou 40 é outra. Do Ulisses eu só li uns trechos, porque além de difícil o desgraçado é muito chato, mas ainda mora na minha estante, querendo uma segunda chance. Vou pensar no caso.

Confissões de uma bibliotecária errada

Inspirada pelos Conselhos a um jovem bibliotecário, do Moreno Barros, resolvi contar tudo o que fiz de errado nesta minha longa carreira de bibliotecária. Ou quase tudo, porque em 35 anos a gente comete tantos erros que acaba esquecendo a metade.

Sinceramente, não sei se teria feito menos bobagens “se soubesse o que sei agora” ou se tivesse dado dois segundos de atenção a bons conselhos. Provavelmente não, porque boa parte dos erros eu cometi deliberadamente, sabendo muito bem no que iriam dar, outros simplesmente não pude evitar porque são parte da minha natureza. Como o escorpião da fábula, aquele que matou a rã que o levava nas costas enquanto atravessava um lago.

E observem que estou tratando aqui de carreira não de princípios éticos nem de convicções políticas, universos completamente diferentes que poucas vezes se encontram.

Dito isso, vamos às principais burradas, mais ou menos por ordem de lembrança.

1. Permaneci numa profissão da qual não gosto. É erro primordial, claro, que não inviabiliza uma carreira, mas também não ajuda em nada. Escolhi o curso de biblioteconomia porque era menina e não sabia que droga fazer da vida, como tantos outros jovens. Não pulei fora quando descobri onde me havia metido porque pobre não pode ter essas frescuras de trocar de faculdade. E por aqui acabam as desculpas, já que todo ser humano adulto deve ser capaz de mudar de profissão em algum momento de sua vidinha besta. Eu poderia ter ido fazer outra coisa, sei lá o quê. O problema é sempre o tal “sei lá”.

2. Descuidei um pouco da formação. Um erro inicial costuma provocar reações em cadeia difíceis de controlar, por exemplo, o aperfeiçoamento profissional pode ser um fardo chato para quem não morre de amores pela biblioteconomia. Não estou dizendo que fiquei parada e bocejando esses anos todos, eu estudei, fiz cursos, acompanhei a literatura da área e até participei, com enorme esforço, de congressos e seminários chatíssimos. Mas, como só me interesso por documentação audiovisual, área um tanto carente no Brasil, deveria ter procurado algo interessante para fazer em outro país. Mas não fui. Tive preguiça, medo, pensava que “essas coisas não são para mim” e, bem, talvez não fossem mesmo.

3. Fui um desastre no marketing pessoal. Numa profissão tão cheia de moças boazinhas, ser uma ursa antissocial e desbocada e nem se dar ao trabalho de disfarçar não é bom negócio. Entretanto, apesar do meu jeito inóspito de ser, sempre fiz questão de dividir conhecimentos e experiências com colegas e estudantes que procuram minha ajuda. Por ter estudado a vida toda em escolas públicas e trabalhar numa universidade pública, entendo isso praticamente como uma obrigação moral. Mas, como expliquei no início, estou tratando aqui de carreira. Embora essa minha postura tenha me rendido grande satisfação pessoal e muitas amizades, para fins carreirísticos teria sido mais útil vender consultoria, porque pouca gente dá valor ao que é de graça. A bibliotecária passou um dia todo com você explicando o trabalho dela? Deve ser uma coitada. A bibliotecária cobra uma grana para fazer uma palestra? Puxa, deve ser fera.

4. Confundi as coisas e deixei que minha decepção com a universidade e com a profissão me paralisasse por muito tempo. Amuada, enfiei a cara no trabalho e não fiz mais nada além de trabalhar no meu canto. Quem perdeu com isso, a USP e a biblioteconomia? Não, quem perdeu fui eu, claro.

5. Participei de greves, horror dos horrores! O movimento dos trabalhadores da USP ajudou a melhorar o nível salarial dos funcionários e contribuiu para deter algumas medidas nocivas à Universidade, mas esses são ganhos coletivos. Para a carreira do indivíduo, lamento informar, ser visto como “grevista” ou “gente ligada ao sindicato” é algo bastante ruim. Numa sociedade autoritária e escravocrata como a nossa, o trabalhador que ousa defender seus direitos é considerado como um bandido. Minto: até os traficantes e líderes de facções criminosas são mais admirados entre nós.

6. Fui otária. Defendi gente de caráter fraco, respeitei gente incompetente, fiz favores sem pensar em cobrança, aceitei cargos e responsabilidades que não queria e pior, que me afastaram de tudo o que me interessava de verdade.

7. Fui dura e cruel em alguns momentos. E não pensem que vou dizer que deveria ter sido mais legal. Meu erro foi não ter sido MAIS dura e MAIS cruel em muitos momentos.

Sete erros, que bonito. Sinto que poderia continuar nesta brincadeira por muito tempo, mas dá pena estragar esse número.