Três anos de referência

Em três anos trabalhando na referência da Biblioteca da Escola de Comunicações e Artes da USP, além de confirmar que atender ao público é um dos trabalhos mais legais que uma bibliotecária velha e desiludida pode fazer, observei algumas outras coisas nem tão alegres.

Bibliotecas atraem quantidades surpreendentes de pessoas malucas, para usar um termo técnico. Isso eu já esperava, porque sou maluca e gosto de bibliotecas, mas eu não sabia que a gente só percebe a maluquice de alguns usuários depois de uns três anos de convivência. É assim, o indivíduo vem todos os dias à biblioteca, não fala com ninguém, não diz nem bom dia. Só fica lá, quietinho, lendo eternamente um livro de culinária que ele mesmo trouxe, até que um belo dia resolve denunciar que o controle eletrônico da saída está falando com ele, dizendo coisas como “reúna um exército e liberte a França”. Essas máquinas são traiçoeiras, vocês sabem.

Mas não é sobre as peculiaridades desse público colateral que eu quero escrever hoje, mas sobre meus usuários principais, os alunos da Universidade. Aquele pessoal que recebeu na infância proteína suficiente, frequentou escolas minimamente adequadas e conseguiu passar em vestibulares e processos seletivos altamente excludentes. É entre eles que eu identifico, com frequência suficiente para chamar minha atenção, as seguintes façanhas:

  • chegar ao final da graduação sem nunca ter entrado na biblioteca;
  • ingressar no doutorado sem saber encontrar um livro no acervo ou usar o catálogo;
  • não conseguir encontrar um documento de seu interesse buscando pelo Google. Sim, é isso mesmo que vocês leram, há jovens universitários que não conseguem fazer isso;
  • ser capaz de localizar o número de classificação na estante, ficar perplexo ao encontrar um monte de livros com o mesmo número e não cogitar que as letras e números que vem depois devem estar dispostos em algum tipo de ordem;
  • terminar a dissertação sem ao menos se dar conta de que há outras fontes disponíveis para localizar informações, além do acervo pessoal de seu orientador e do Google (nem sempre acadêmico);
  • escandalizar-se quando a bibliotecária avisa que não se deve botar na lista de referências da TESE documentos que não foram citados no texto (“mas eu fiz isso no mestrado e ninguém me falou nada”);
  • descobrir, lá pelo meio da graduação, que a biblioteca não se resume à estante da reserva didática dos professores, aquela que tem menos de uma centena de livros e fica perto da porta de entrada;
  • surpreender-se ao ver que o texto deixado pelo professor na copiadora saiu de um livro que está na biblioteca e pode ser emprestado inteirinho e de graça;
  • vagar entre as estantes sem saber que existe um mecanismo chamado “catálogo” que permite descobrir se o livro desejado existe e se está emprestado ou não;
  • usar o catálogo regularmente e não se dar conta da existência de recursos básicos para ajudar na recuperação, como busca em campos específicos, filtros etc;
  • perguntar aflitamente no Facebook por um texto que não apenas está na biblioteca mas também disponível na web, de graça e mais fácil de encontrar do que digitar o vocábulo “migues”.

Essas situações acontecem na escola onde trabalho, mas tenho razões para acreditar que nas demais unidades da USP não é muito diferente. E estamos falando, senhoras e senhores, de uma instituição de ensino tradicionalíssima, onde ninguém jamais ousou dizer em voz alta que as bibliotecas não são importantes no processo de aprendizado e no desenvolvimento da pesquisa. Onde gente que não sabe onde fica a sua biblioteca bate no peito bradando que nada é mais importante do que uma biblioteca. E onde a Pró-Reitoria de Graduação, tentando ser simpática, publica uma relação de 13 motivos para os alunos ficarem felizes com o fim das férias (provocando hilaridade geral no corpo discente) e não menciona a existência de bibliotecas (provocando um educado comentário do Sistema Integrado de Bibliotecas).

E aí esta bibliotecária velha pergunta pra uma mocinha que passou toda a graduação dentro da biblioteca como é possível que tanta gente estude sem nem passar pela porta e obtém essa resposta singela: “não é possível. Eles não estudam”. Certo. Mas se formam e entram na pós-graduação.

E por que isso ocorre? Respostas simplistas do tipo “as bibliotecas são ruins” ou “os alunos são preguiçosos e os professores indiferentes” não me convencem, primeiro porque não são exatamente verdadeiras, segundo são sintomas, não causas. Parece-me que estamos presos num sistema perverso dimensionado para dificultar o desenvolvimento das bibliotecas, por meio de barreiras impostas pela legislação e incompetência gerencial crônica em vários níveis, que acaba por favorecer o comodismo acadêmico. E que existe há anos, bem antes de existir internet, portanto não venham culpar a tecnologia. Como o sistema garante que ninguém tenha muito tempo pra nada, inclusive para tarefas prioritárias como ensinar, estudar e pesquisar, é muito mais fácil pra todo mundo criar atalhos para evitar que o aluno precise ir à biblioteca.

O lado bom é que “minha” biblioteca não está vazia, muito pelo contrário. Às vezes me pergunto como vamos dar conta de atender todas as pessoas que começam a responder aos nossos chamados. Os jovens professores começam a levar seus alunos para aprenderem a usar os recursos da biblioteca ou estimulá-los a participar de visitas monitoradas e treinamentos.

Fico contente, mas ainda não sei muito bem o que pensar disso. Pode ser apenas uma fase boa que vai durar até que esses docentes animados sejam engolidos pelo sistemão. Ou talvez seja o início de uma reação ao processo de queda de frequência às bibliotecas, cujos efeitos se fazem sentir há algum tempo.

De qualquer forma, continuo curtindo demais encontrar aluninhos perdidos na biblioteca e descobrir que,  quando alguém lhes explica como funciona a coisa toda, eles acham tudo “da hora”.

Como eu faço para organizar um acervo de DVDs?

Trabalhando há mais de 30 anos numa biblioteca com acervo de documentos audiovisuais, já respondi alegremente a essa pergunta incontáveis vezes, só que antigamente me perguntavam sobre acervos de vídeos. Antes de começar a longa e maçante resposta ou de convidar o colega para me fazer uma visitinha, costumo perguntar:

DVDs do quê? Filmes?

Sim, porque faz toda a diferença. DVD é apenas o suporte no qual podem ser gravados filmes, fotos, textos, partituras, música, o diabo. E o suporte é o menor dos problemas de quem precisa organizar filmes, fotos ou diabos.

Mas o DVD não está acabando? Sim, mas isso é outra história. Além do mais, em bibliotecas as coisas costumam demorar mais tanto para chegar quanto para acabar.

Enfim, para organizar um acervo de filmes em DVD, vídeo ou mesmo película, primeiro é precisa saber por quem e para que esse acervo vai ser usado. Uma coleção de filmes de ficção montada para entreter público geral numa biblioteca pública provavelmente não será tratada da mesma forma que vídeos de cirurgias num escola de medicina. O mesmo vale para qualquer outro tipo de acervo, mas penso, sem ter como provar, que vale intensamente mais para acervos audiovisuais.

Em segundo lugar, é necessário ter gravado na mente em letras de fogo que um filme não é um livro, portanto não deve ser tratado como se o fosse.

Que dados eu devo colocar na catalogação?

Uma das dúvidas mais frequentes é sobre catalogação, essa eterna praga. Um jeito simples de começar é pensar no que nós mesmos queremos saber quando escolhemos um filme para assistir. Esquecer um pouquinho os manuais de catalogação e examinar boas bases de dados como a Internet Movie Database (IMDB), catálogos de mostras de cinema, dicionários e sites oficiais de filmes e outras fontes de informação especializadas.

Pensem em trabalhar, no mínimo, com as seguintes informações:

Título original
Título no Brasil
País de produção
Empresa ou instituição produtora
Ano de produção
Equipe realizadora
Idioma dos diálogos (explicitando se originais ou dublados) e das legendas
Descrição física: duração, suporte, cromia etc.
Resumo
Assunto
Gênero

A partir daí, melhorem ou simplifiquem a coisa, equilibrando o que o usuário precisa (ideal) e que vocês conseguem efetivamente dar conta de fazer (dura realidade), não esquecendo dessas dicas básicas aí na sequência.

Informação importante pro usuário tem que ser dada, mesmo que não apareça naquela edição de DVD que vocês estão catalogando. Pesquisem. Esqueçam a velha besteira de “catalogar o item em mãos” e lembrem que existe uma obra cinematográfica registrada nesse suporte. Essa dica vale muito especialmente para títulos de filmes, data e país de produção.

A equipe realizadora de um longa comercial pode ser uma verdadeira multidão com funções nem sempre inteligíveis. É preciso selecionar com cuidado quem vai ser mencionado na catalogação. Analisar os nomes em destaque na capa do DVD ou registrar os primeiros que aparecem nos créditos nem sempre funciona, porque a capa foi feita para vender, não para informar, e os créditos nem sempre seguem a ordem de importância do sujeito na produção. Nada de transcrever literalmente parte dos créditos em seu idioma original e sem saber o que significa “casting”, “production design” ou “second unit diretor” e qual é o grau de responsabilidade desses indivíduos no resultado final da coisa. Fazer isso não é informar seu usuário, é se livrar de um problema de catalogação seguindo uma regra furada. Não tem jeito, precisa entender um pouco a linguagem do documento tratado.

Minha sugestão, que geralmente funciona para filmes de cinema, mas não necessariamente para óperas, videoarte ou telenovelas: Direção, Produção; Produção executiva; Direção de produção; Roteiro; Argumento; Fotografia ou Cinematografia; Montagem ou Edição; Som; Desenho de produção; Figurinos; Cenografia; Animação; Música; Câmera; Efeitos especiais.

Quem precisar ser mais detalhista, porque atende usuários exigentes, pode registrar a tropa toda. Caso contrário, o que está em negrito deve bastar.

Quem usa formato MARC pode botar o diretor e mais um ou dois nomes da área de responsabilidade, para não poluir visualmente o registro. Os demais podem ser registrados no campo 700 (se for visível para o usuário e permitir a indicação da função do indivíduo) ou no campo 508 (Notas de créditos). Solução ruinzinha, mas o que dá para esperar do Querido MARC? Bom mesmo seria ter um campo indexado para a equipe realizadora ou poder definir um campo para cada função importante. Exagero? Bem, vejam  o que faz a IMDB, por exemplo. À propósito, quem quiser ter uma boa experiência de catalogação de filmes, experimente inserir um registro lá.

Resumo bom é aquele feito por alguém que assistiu ao filme todo, ou seja, se puder faça você mesmo. Se não for possível, tente ao menos checar minimamente o conteúdo do filme para ver se resumo copiado não contém bobagens ou erros. O resumo de um filme atualmente em cartaz na cidade de São Paulo, publicado na programação de um órgão de imprensa, diz o seguinte:

Enquanto Kate e Geoff organizam a festa de aniversário que deve celebrar os 45 anos do casamento deles, uma carta anuncia que o corpo do primeiro grande amor de Kate foi encontrado congelado nos Alpes suíços.

Só que o corpo encontrado é o do grande amor do marido, não da Kate e o erro besta poderia ser evitado simplesmente assistindo a um trailer de dois minutos.

Filmes, em geral, são sobre alguma coisa, portanto são passíveis de indexação por assunto. Não se pode ter medo de atribuir descritores de assuntos a obras de arte intimidadoras como Terra em transe, por exemplo, por mais que pareça difícil. E não vale usar o velho truque bibliotecário de sair pela tangente indexando obras de ficção pela forma, mais termos geográficos e cronológicos. Maldição eterna aos que ousarem indexar o citado Terra em transe como “Cinema – Brasil – Século 20”. Que o seu exemplar do AACR2 entre em combustão espontânea feito um filme de nitrato!

O gênero é uma das formas de busca mais populares para filmes de ficção, mas os intrépidos indexadores de filmes precisam estar muito conscientes do abacaxi que têm em mãos, pelos seguintes motivos: as listas de gêneros que rodam por aí são bem ruins e contêm termos vagos e difíceis de definir; nem todo filme tem gênero, enquanto outros se encaixam facilmente em mais de um; as distribuidoras de filmes em DVD ou sites de filmes atribuem gêneros por critérios comerciais que nem sempre podem ser levados a sério; embora a ideia de gênero muitas vezes se misture um pouco com a de assunto nas listas de gêneros (Guerra, Crime etc), não podemos esquecer que, para efeitos de indexação, são coisas diferentes.

E como classificar o acervo?

Se você quiser que seu usuário tenha acesso direto ao acervo, ou pelo menos aos estojos, classifique da forma que for mais prática e viável, não esquecendo que nenhum esquema de classificação existente há 200 anos vai funcionar muito bem, e aquele que você inventar também não.

Vejam o exemplo simpático de organização da biblioteca Méjanes, em Aix-en-Provence:

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Se a coleção, por razões de conservação ou falta de espaço for de acesso fechado, um sistema qualquer de numeração sequencial será a melhor opção.

Acervo de DVDs da Biblioteca da ECA
Acervo de DVDs da Biblioteca da ECA

Empresto os originais, faço uma cópia para circulação ou não empresto?

Depende. O custo – e o o consumo de espaço – de duplicar sistematicamente um acervo só se justifica se forem materiais raros ou muito difíceis de substituir, ou exemplares únicos produzidos na própria instituição. É precisa estabelecer uma política para isso, incluindo quando comprar mais de um exemplar, quais itens copiar, quais manter restritos ao uso local etc. A legislação brasileira de direitos autorais não permite a realização de cópias, portanto, um pouco de cuidado com isso.

Emprestar DVDs é um ótimo serviço para se oferecer aos usuários e, em nome disso, neuroses em relação à conservação do material precisam ser deixadas de lado. DVDs riscam facilmente, e quem administra o acervo precisa saber conviver com inevitáveis perdas por desgaste natural e consequentes despesas com reposição. Campanhas educativas de usuários e um bom monitoramento da circulação do material, incluindo examinar os disquinhos na entrada e na saída, ajudam bastante. Recomendo o uso de estojos com luvas para evitar a quebra do miolo central dos DVDs provocada pelo sistema assassino de encaixe dos estojos comuns, mas não sei se ainda é possível encontrar fornecedores para esse tipo de material.

No meu blog sobre documentação audiovisual e no Manual de catalogação de filmes da Biblioteca da ECA há mais informações sobre “o que fazer” com um acervo de filmes. Também tenho apresentações sobre o tema:

Catalogação de filmes

Indexação e resumo

No mais, estou disponível para trocar ideias, me escrevam ou me liguem na Biblioteca da ECA/USP.

 

imagem destacada: acervo de DVDs da Openbare Bibliotheek Amsterdam.

Livros bonitos

Livros bonitos me atraem muito. Quando estou de bobeira na livraria sem nada específico em mente, o livro que tem mais chance de vir morar comigo é aquele que tem um projeto gráfico bacana ou uma capa diferente. E se a capa tiver texturas, então, as chances do livro aumentam de forma quase injusta. Claro que logo depois do encantamento visual vem o senso crítico e dou aquela espiadinha no texto. Não sou louca de comprar conteúdo vagabundo por mais que aprecie a beleza do objeto e, por falar nisso, estou querendo saber quando os e-books também vão ser visualmente atraentes.

Foi assim, a partir de critérios inicialmente sensoriais que comprei dois livros da editora Dark Sides, especializada em terror e fantasia e, noto agora, com péssimo gosto no quesito desenho de site.  Apenas ouçam esse trovão …  Mas os livros Onde cantam os pássaros, de Evie Wild, e O demonologista, de Andrew Pyper, são bem lindinhos.

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E a lombada do Demonologista é especialmente projetada para encantar bibliotecários. Eu testei.

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Onde cantam os pássaros é um bom livro, escrito por uma autora que conhece bem o serviço de contar uma boa história de mistério e terror, mantendo sempre vivo o interesse pela protagonista, a sofrida Jake, que cuida sozinha de uma fazenda de ovelhas no meio do nada. Alguém ou alguma coisa começa a matar os animais, e a explicação pode ou não se esconder no passado de Jake, que aos poucos vai sendo desvendado, numa narrativa que corre de trás para frente. Uma das qualidades especiais da obra é ser um livro escrito por mulher, contando uma história na qual o terror maior é a trajetória marcada por abusos da personagem feminina durona e corajosa. Outra graça do livro é a hesitação entre a explicação natural e sobrenatural, característica essencial do gênero fantástico descrita por Tzvetan Todorov em seu clássico Introdução à literatura fantástica, que se dá de forma sutil, mas eficiente.

Já o livro de Andrew Pyper não é tão bem-sucedido. É apenas uma história não muito original de pessoas x demônios, dessas que já vimos em centenas de filmes de terror, sem nada particularmente marcante na forma ou no conteúdo. Um professor cético é chamado para testemunhar um caso de suposta possessão demoníaca. As coisas dão muito errado e o infeliz tem que sair numa espécie de jornada contra as trevas na tentativa de salvar sua filha.  As referências ao Paraíso perdido de Milton conferem algum charme erudito à obra, mas é só.

De qualquer forma, os dois são leituras fáceis e agradáveis, daquelas que a gente não se arrepende de ter começado nem tem vontade de largar. Para um leitor rápido e que goste de ler no transporte coletivo, duram pouco mais de dois dias cada um. E são livros que um bibliotecário pode tranquilamente recomendar para apreciadores de terror ou fantástico, em busca de leitura leve, mas não idiota. Além disso, devem ficar muito decorativos e atraentes no expositor de livros novos da biblioteca.

O apocalipse zumbitecário

Cansada, mas ainda não inteiramente derrotada, a bibliotecária envelhecente sorri ao terminar a leitura dos posts do Bibliotecários Sem Fronteiras que discutem o futuro da profissão. Parte dela, a que se orgulha dos colegas mais jovens e acha que ainda vale a pena estar numa trincheira com gente assim, luta contra a outra parte, a que se distancia cada vez mais do interesse pela profissão. Ela sabe que, no seu caso, o futuro é algo que deve acabar mais cedo e provavelmente mal.

Naquela noite, a bibliotecária envelhecente tem um sonho vívido e rico em detalhes.

Num mundo praticamente sem bibliotecas como hoje as conhecemos, no qual os livros que simplesmente apareciam em lugares inusitados, como centros cirúrgicos e elevadores, eram considerados krönir *, recolhidos rapidamente e vendidos a preços impossíveis para misteriosos colecionadores, os bibliotecários há muito tido como extintos começaram a voltar.

Não, não eram krönir biológicos. Apesar dos insistentes rumores sobre a existência desses seres quase humanos criados pela imaginação de homens e mulheres, os únicos bio-krönir efetivamente documentados eram tigres e outros grandes felinos extintos, um rinoceronte branco e alguns pássaros dodôs, todos ligeiramente diferentes de seus paralelos já extintos no que poucos lunáticos ainda insistiam em chamar de mundo real.

Não, esses bibliotecários em nada lembravam os tigres vermelhos de olhos de chama nem os dodôs com esporões letalmente venenosos. Pareciam antes zumbis pálidos, alguns exibindo sinais de decomposição e marcas dos ferimentos ou doenças que os haviam matado. Surgiam enfurecidos nas imediações das grandes piscinas de leitura que tomaram o lugar de algumas antigas bibliotecas, piscinas azuis onde o leitor podia sonhar as histórias que gostaria de ler e transmiti-las mentalmente em forma de texto, filme ou música para outros que as completavam, modificavam ou apenas usufruíam. Outros foram vistos rondando as casas onde supostamente viveriam colecionadores de livros krönir.

Não eram realmente muitos, mas começaram a despertar o interesse dos fãs de filmes de terror antigos e a preocupar as autoridades. Mas os zumbitecários – como logo começaram ser chamados – nada faziam de errado ou realmente perigoso. Não atacavam, não mordiam, não tentavam devorar cérebros, apenas gritavam o quanto eram importantes e não reconhecidos, lembravam a todos da importância da padronização. Coisas assim que ninguém mais compreendia. Alguns seguravam, com orgulho, pequenos cartazes afirmando que “O Google te oferece 100 mil opções, o bibliotecário te oferece a certa“. Alguns andavam abraçados às regras de catalogação com as quais supostamente teriam sido sepultados. Outros tentaram carregar tabelas de classificação, mas os braços de zumbi não aguentavam tanto peso e se quebravam.

De fato, os zumbitecários não pareciam saber que atitude tomar. Muito comportados para agirem como zumbis normais e mordedores, dividiram-se. Metade queria mudar o paradigma, metade preferia ir para um congresso que oferecesse um bom coffee-break. Uma discussão acalorada começou, mas alguns indivíduos com pose e voz de autoridade aproximaram-se do grupo e pediram silêncio. Obedientes, os zumbitecários se calaram e se dispersaram. Apenas desapareceram quietamente, ninguém soube como. Os últimos foram vistos sentadinhos em frente às piscinas onde não os deixaram entrar, e lá ficaram até se desintegrarem. Um pterodáctilo com asas de prata passou gritando: extinção é para sempre!

A bibliotecária envelhecente acorda com o despertador berrando incoerências e levanta, sacudindo do peito o peso do sonho estranho. No espelho do fundo do corredor, um velho bibliotecário sorri, cego.

* Objetos formados pela duplicação de objetos perdidos originários das “regiões mais antigas de Tlön”, “filhos fortuitos da distração e do esquecimento”. Do conto Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, de Jorge Luís Borges.

Guerra santa

No mar tanta tormenta, tanto dano
Tantas vezes a morte apercebida
Na terra tanta guerra, tanto engano
Tanta necessidade aborrecida
Onde pode acolher-se um fraco humano?
Onde terá segura a curta vida ?
Que este céu sereno não se arme
Contra um bicho da terra tão pequeno.
                         (Camões. Os Lusíadas)

Nome vagamente recordado de bolorentas aulas de história do passado, para mim apenas um português que serviu para que Camões escrevesse um poema sobre ele, Vasco da Gama é o personagem principal Guerra Santa: como as viagens de Vasco da Gama transformaram o mundo, de Nigel Cliff, lançado no Brasil pela Globo Livros. Da extensa pesquisa do autor surge uma figura surpreendente: um navegador corajoso, um líder militar competente e um assassino desprezível, capaz de massacrar um navio de pacíficos comerciantes muçulmanos pelo único motivo de carregarem mercadorias a serem pilhadas e, claro, serem muçulmanos.

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De fato, como adianta o título, o que estava em questão na viagem de Gama e outros navegadores portugueses não era apenas a imensa vantagem comercial que significava descobrir uma rota marítima para a Índia, mas exterminar os muçulmanos que encontrassem pela frente. Não bastava que os indianos vendessem as cobiçadas especiarias para os portugueses, o rei Manuel esperava que seus novos “amigos” proibissem os muçulmanos de fazer comércio e os expulsassem de suas terras.

Para Cliff, a guerra santa do rei português ainda repercute em nossos turbulentos dias atuais, com termo “cruzada” brotando com frequência das bocas de tanto de líderes islâmicos quanto de presidentes estadunidenses após o ataque ao World Trade Center.

 Não é preciso dizer – e ainda assim é preciso dizer – que as ações dos            terroristas são uma afronta à corrente principal do Islã. O que é dolorosamente claro é que muitas dessas proclamações [de líderes fundamentalistas islâmicos conclamando os fiéis à violência] são, em essência, reflexos da polêmica cristã nas décadas que precederam a Era dos Descobrimentos. Mais impressionante ainda é a forma preferida pela al-Qaeda de contra-atacar o Ocidente: perturbar seu comércio explodindo aviões e causando ‘uma hemorragia na indústria da aviação que é tão vital para o comércio e o transporte entre os Estados Unidos e a Europa’. Substitua navios por aviões e o oceano Índico pelo Atlântico e estamos de volta quinhentos anos atrás (p. 429-430).

Os melhores momentos do livro são as descrições das incrivelmente difíceis viagens marítimas, baseadas em depoimentos de infelizes cronistas da época, em embarcações frágeis nas quais os homens que o mar não comia morriam às pencas de fome, de sede e de escorbuto, um jeito horrível de morrer. E também as descrições dos primeiros contatos dos europeus com povos desconhecidos, que muitas vezes beiram o cômico, como a história dos portugueses pensando que os indianos eram cristãos, porque gritavam algo que soava como “Cristo, Cristo” e achando meio estranhos os santos de muitos braços nas “igrejas” nativas.

A tremenda arrogância eurocêntrica de Gama e sua turma é muito bem documentada. Não vou contar aqui para não chatear quem gosta de surpresas, mas o ilustre pirata quase botou tudo a perder ao cometer uma gafe inacreditável em seu contato com o primeiro governante indiano amistoso que o recebeu de braços abertos.

O texto de Cliff é fluente e isento de pedantismos, mas não chega a ser leve como esses livrinhos de jornalistas que recontam episódios históricos como se fossem uma coluna de fofocas sobre “celebridades”. É um livro para quem gosta de história e tem paciência para ler. Para acompanhar a leitura, sugiro a belíssima canção Tanta tormenta, do grupo Mawaca, que musicou trechos de Os Lusíadas em seu disco de mesmo nome. Bem, o disco todo vale a pena, escutem.

Sou bastante democrática em meu total desinteresse por religiões, ou seja, não me importo com nenhuma delas, mas depois que conheci a Andaluzia comecei a cultivar algum fascínio por essa incrível civilização que acabou destruída pelo fanatismo religioso. Para quem tem interesse pela temática dos choques entre cristãos e muçulmanos e gosta de romances históricos, tenho algumas sugestões que complementam a leitura de Guerra santa. Os livros de Tarik Ali, principalmente O livro de Saladino, sobre o general curdo que conquistou Jerusalém e ficou famoso por NÃO fazer o massacre que todos esperavam e Sombras da romanzeira, que conta uma pungente história dos últimos dias da Granada muçulmana, o último reino de El Andaluz a ser tomado pelos reis católicos. Este último não recomendo para quem não aguenta finais tristes.

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Sobre o mesmo período, li também Boabdil: tragédia del ultimo rey de Granada, de Magdalena Lasala e El manuscrito carmesí, de Antonio Gala, ambos sobre a tristíssima história do último sultão de Granada, um sujeito que não tinha o mínimo perfil para o cargo que foi forçado a assumir. E por último El Mozárabe, de Jesús Sánchez Adalid, que conta uma movimentada história de aventuras baseada em fatos verídicos e ambientada nos últimos tempos do califado de Córdoba, que produziu a bela mesquita cuja foto encabeça este post. Os livros de Ali saíram no Brasil pela Record, mas parece que estão esgotados. Os demais, todos de autores espanhóis, não me consta que tenham sido traduzidos. Mas deve ser possível encontrá-los por aí.

Referência, ontem e hoje: conversas de bibliotecária velha

Meu primeiro emprego foi na Filmoteca da Escola de Comunicações e Artes da USP. Na época era uma seção não oficial da biblioteca que abrigava, além dos filmes realizados pelos alunos do curso de cinema da própria instituição, uns 2500 títulos de outras instituições com as quais a ECA mantinha convênios.

Minhas modestas atribuições envolviam a catalogação e cuidados com a conservação da bagaça toda, todos os perrengues de caráter “administrativo” e, naturalmente, atendimento ao público.

Essa parte do trabalho era insana, porque os usuários olhavam pra mim e perguntavam se eu “tinha um filme” sobre os assuntos mais diversos como fabricação de cerveja, profecias de Nostradamus, criação de coelhos, filosofia, equações de segundo grau, o diabo. E todos os dias eu atendia um adolescente querendo filmes sobre as drogas ou sobre o aborto – para os eternos e inúteis trabalhos escolares, claro.

Imaginem tentar responder a essas questões sem ter um catálogo de verdade, apenas umas listas mais ou menos improvisadas. E vejam que estou falando de filmes de rolo que só podiam ser assistidos quando projetados, nada dessa moleza de vídeos em caixinhas, também conhecidos como videocassetes, que a gente enfiava num aparelho e assistia na televisão, podendo voltar, avançar e até parar a imagem quando quisesse. Essa modernidade só apareceu na Filmoteca uns seis anos depois da minha contratação.

Uma das demandas mais frequentes era o filme para substituir a apresentação do trabalho que o aluno não queria fazer ou a aula que o professor não queria dar. Esse substituto, obviamente, precisava ser a encarnação cinematográfica perfeita e literal do tema da aula ou trabalho a ser sacaneado. O filme deveria ser capaz de substituir até mesmo o conhecimento superficial do assunto. Alguém precisava, por exemplo, de um filme sobre a vida e a carreira dos participantes da Semana de Arte Moderna após a semana, mas não conseguia lembrar de um único nome de artista que tenha participado do dito cujo evento.

– Ah, não sei, não tem um filme sobre o que aconteceu com TODOS ELES depois da Semana?

Depois de um tempo, conhecendo melhor o acervo – e isso quer dizer que projetei para mim mesma e assisti a quilômetros de películas de acetato de celulose – comecei a desenvolver técnicas de convencimento de usuários. O papo era mais ou menos assim:

– Bem, não temos um filme assim prontinho sobre as diferenças entre o expressionismo e o impressionismo. Mas temos um sobre o impressionismo e outro sobre o expressionismo, olha que legal! Você pode mostrar os dois e falar sobre as diferenças!

Às vezes dava certo, às vezes não. Alguns usuários até achavam um absurdo que não existisse um filme exatamente sobre o tema de seu trabalho ou aula e me olhavam acusadoramente:

– Vocês deveriam ter, não? Aqui não é uma escola de artes?

Em dias de alto nível de ironia, eu concordava e dizia que eu poderia tentar fazer um rapidinho, mas em geral me limitava a explicar com alguma paciência como funcionavam a vida, o cinema e as bibliotecas. Outra sacanagem que eu gostava de fazer nos dias de ironia era perguntar ao moleque que pedia um filme sobre as drogas (ou o aborto) se ele queria um filme contra ou a favor.

– Huumm, sei lá … Acho que contra, né?

Nos dias mais felizes, eu conseguia convencer alguém a usar o filme não para substituir sua voz e seu pensamento, mas para dialogar e discutir. Por que não exibir um filme que defenda ponto de vista oposto ao seu e aí contrapor seus próprios argumentos? Num desses dias um professor me pediu um filme “sobre o capitalismo”. Sugeri um filminho de propaganda ideológica dos Estados Unidos produzido na época da guerra fria, que defendia galhardamente os dogmas capitalistas. O professor gostou da ideia e voltou dizendo que a discussão na classe foi excelente, muito melhor do que seria se ele passasse um documentário do tipo “o que é o capitalismo”.

Nos dias mais tristes o usuário se recusava a fazer uma simples busca em dicionário do acervo para conhecer melhor o tema do trabalho e, quem sabe assim, conseguir encontrar um bom filme para discutir suas próprias ideias, mesmo que eu indicasse as fontes mais prováveis. Era como se me dissessem, “olha, eu não quero pensar, não me amole”. Nesses dias melancólicos eu descobria que o trabalho encomendado pelo professor se resumia a passar o filme durante a aula. Eu preciso levar um filme, o professor mandou. Alguns alunos até me pediam para fazer um atestado para provar que estiveram na Filmoteca da ECA, mas não encontraram o filme sobre o aborto ou as drogas.

Eu gostava de explicar o quanto era absurdo obrigar um aluno a atravessar a cidade, muitas vezes perdendo horas de trabalho dele mesmo ou dos pais, para procurar um filme que nem existia. Que ele ganharia mais se aproveitasse o tempo estudando o tema, talvez até numa biblioteca pública perto da casa dele. E que ele poderia contar ao professor o que eu disse. Os estudantes vibravam quando eu dizia “fala pro seu professor ligar pra mim”, mas obviamente nunca recebi nenhuma ligação de professor indignado com minha falta de educação.

Durante os 10 anos em que trabalhei atendendo usuários aprendi muito com eles. Descobri, por exemplo, como e por quê as pessoas procuram filmes num acervo (mais ou menos) organizado e como se deve indexar e catalogar esse acervo para que ele faça algum sentido.

No início da década de 1990 saí do atendimento e fui trabalhar no tratamento da informação, catalogando e indexando filmes, imagens fixas, discos e partituras. Foi bom enquanto durou, mas o mundo foi rodando nas teclas do meu computador e acabei voltando à referência em 2013, não por um motivo meu ou de quem comigo houvesse que qualquer querer tivesse. Voltei feliz, porque o contato com o usuário me fazia muita falta.

Voltei para um mundo que todos me diziam que havia mudado. Um mundo onde o usuário busca informação de forma tão diferente que se os bibliotecários não “mudarem seus paradigmas” vão virar sucata. E como não sei que paradigmas são esses e sucata já sou mesmo, lá fui eu, não sem alguma apreensão, encarar esse usuário desconhecido que já nasceu digital.

Dois anos depois, constatei alguns fatos. Não, não fiz pesquisa nem estudo de usuário, por enquanto falo apenas de percepções. A universidade transborda de gente para fazer estudos, façam isso e me deixem trabalhar.

Sim, muita coisa mudou. Hoje a molecada procura “equações de segundo grau” no Youtube e pronto. Na verdade, pode até digitar “equassões” (acabei de testar) que funciona. Só aparece na biblioteca quem é chato e não ficou satisfeito com o resultado ou recebeu do professor ordens expressas nesse sentido. Um diálogo recente:

– Infelizmente não temos, mas olha só, tem no Youtube …

– É que o professor quer que a gente pegue numa biblioteca (expressão de tédio mortal).

-Tá bom, fala que você veio aqui na ECA e uma bibliotecária de 55 anos falou que esse filme do Youtube é muito bom, é um dos melhores sobre o assunto.

Entre os que me pedem auxílio, ainda é muito comum o desejo de encontrar trabalhos prontinhos com exatamente o mesmo tema da pesquisa do sujeito, seja a relação de A com B ou a influência de X em Y, e estou falando de gente fazendo mestrado, não de crianças. A diferença é que o usuário ingênuo de antigamente que pesquisava sobre a influência da invenção da fotografia no desenvolvimento da arte abstrata, por exemplo, procurava “influência” no fichário, não encontrava nada e pedia ajuda para os bibliotecários – se achasse algum por perto. Já o usuário ingênuo de hoje digita a frase no Google e como alguma coisinha sempre encontra, conclui que não precisa de auxílio nem de bibliotecas, certeza essa que uma rápida análise de seus textos acadêmicos pode facilmente desmentir. Do que eles não precisam mesmo, ninguém precisa, é de bibliotecas vagabundas, bibliotecários incompetentes e professores ruins.

Não atendo mais tantas crianças e adolescentes atrás de material para trabalhos escolares e isso tem um lado bom, porque só gosto de crianças a partir dos 18 anos. O lado ruim é que fico me perguntando se tem alguém conversando com eles sobre seleção e uso de filmes em sala de aula.

Antigamente eram poucos os usuários que realmente entendiam bem as ferramentas disponíveis na época, como os catálogos, as bibliografias ou as obras de referência. Hoje, tanto os usuários quanto as ferramentas são mais tecnológicos (digamos), mas o nível de compreensão não mudou significativamente. A maior diferença que percebo nesse embate entre “o que eu sei e o que preciso perguntar para alguém” é que poucos usuários tinham vergonha de não saber usar um fichário, que era entendido como coisa de bibliotecários, enquanto hoje as pessoas costumam escamotear ao máximo suas eventuais dificuldades com uma base de dados ou catálogo online. Ninguém gosta de ser visto como um excluído digital. Os mais jovens, ao contrário do que nós velhinhos gostamos de acreditar, não nasceram sabendo tudo, mas não têm a mínima vergonha de perguntar e aprender. E, para minha surpresa, também adoram ensinar: “ó, faz assim”.

Trabalhar no atendimento é muito mais divertido agora, porque temos infinitamente mais recursos para encontrar informação pro usuário, mas também é mais angustiante porque praticamente não existem mais limites para o que a gente precisa saber. Na década de 1980 eu tinha o acervo da instituição e mais uma listinha de endereços de outras filmotecas que entregava para o usuário que não conseguia atender com os “meus” filmes. Hoje eu tenho, teoricamente, o mundo. Que um dia será Tlön, não podemos esquecer.

A parte chata é que eu passo boa parte do meu tempo justificando erros do sistema, explicando interfaces ilógicas, traduzindo para o usuário termos que não fazem sentido para ele (nem para mim), torcendo para os links abrirem, mostrando caminhos para chegar a um recurso escondido num site mal feito. Antigamente eu só precisava explicar os meus próprios erros e os dos meus colegas bibliotecários. Agora, são os erros dos bibliotecários, dos analistas, dos vendedores de software, dos desenhistas de sites, dos editores de publicações online… de uma multidão sem rosto. Nem sempre sei de quem é o erro e, quando sei, raramente minhas críticas são ouvidas. Algumas coisas não mudam mesmo.

A foto é minha: um rolo de filme 16mm, uma coladeira.

O veneno e suas lições

No dia 23 de fevereiro, quando teve início o aluno letivo na USP, os novos alunos da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, nossa querida FFLCH, encontraram sua biblioteca fechada pelos próprios funcionários, com apoio dos estudantes.

O protesto foi motivado por um caso bastante grave de contaminação por DDT e outros organoclorados encontrados numa grande doação de livros recebida em 2009 (?!). Os funcionários contestavam o tratamento dado ao caso pela direção da Faculdade e chefia da biblioteca, bem como as medidas recomendadas pelos especialistas consultados. Nesta matéria do UOL há links para os documentos da direção da Faculdade do Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp).

Resumindo a história sem me alongar em detalhes escabrosos, os funcionários que manipularam o material relataram sintomas como dor de cabeça, náuseas, sangramento do nariz, dor de garganta, ardência nos olhos, dificuldades respiratórias e problemas na pele.

Em cinco livros da coleção foi encontrado um pó branco que deixou os funcionários bastante preocupados. Isso depois da coleção ter sido higienizada, e aí fico imaginando a qualidade da “higienização” que deixou escapar essas 5 tartarugas. Um laudo do Instituto de Pesquisas Tecnológicas concluiu que os livros estavam contaminados por DDT, DDE e DDI,  bagulhos reconhecidamente perigosos e possivelmente cancerígenos.

A direção da Faculdade solicitou um parecer  “sobre as condições de trabalho envolvendo o contato e manuseio do acervo” a uma especialista em conservação de acervos. Apenas um único parecer, não posso deixar de notar. As recomendações foram consideradas adequadas pelo coordenador de preservação da Biblioteca Nacional que, entretanto, não achou necessário visitar o local. Curiosamente, embora a especialista recomende estabelecimento de “barreiras de contenção” e quarentena, o material estava cercado por um tapume – dentro da biblioteca – com abertura para circulação de ar “pois segundo orientação técnica a vedação completa poderia produzir danos ainda mais insanáveis à coleção”. Por mais tocante que pareça tanto amor e preocupação pelos livros, os funcionários da biblioteca não estavam se sentindo lá muito seguros. A Coordenação de Vigilância em Saúde (Covisa) do município inspecionou o local no dia 24 de fevereiro e também não achou graça na história, pois o tapume não  funciona como isolamento, determinando a retirada dos livros da biblioteca e  várias outras medidas para proteger a saúde dos seres humanos.

A Biblioteca Florestan Fernandes deve reabrir na segunda-feira, dia 2 de fevereiro, após um acordo firmado entre a direção e os trabalhadores, que inclui, surpreendentemente, um pedido de desculpas da Faculdade aos seus funcionários.

Esse pedido de desculpas é o segundo fato que me parece inédito em todos esses anos de brigas que testemunhei na Universidade de São Paulo. O primeiro é o fechamento de uma biblioteca em protesto contra uma ação da administração local. Foi um confronto direto com a chefia e com a diretoria da Faculdade, algo muito difícil de acontecer numa biblioteca da USP, creiam-me. Na verdade, não me lembro de outra ocasião em que isso tenha acontecido. Mesmo durante as greves de funcionários não são muitas as bibliotecas que fecham.

Temos aí uma bela lição para os administradores, que precisam ser mais prudentes  ao receber doações de livros antigos e mais sensíveis às reclamações dos funcionários, para dizer o mínimo. Poder, ao contrário de DDT, pode ser algo muito transitório. E uma lição mais importante ainda para bibliotecários e demais trabalhadores de bibliotecas que gostam de cultivar uma polida submissão à hierarquia, mesmo quando sua saúde pode estar em jogo. Organização e mobilização funcionam. E um pouco de coragem, ao contrário de DDT, não faz mal a ninguém.

Lamento apenas tenha sido necessário fechar uma biblioteca, acionar o Sindicato e chamar as autoridades sanitárias para resolver um problema que, embora difícil e complexo, é da alçada da nossa profissão. Tudo isso, se não me engano, poderia ter sido evitado no simples nível das ações bibliotecárias consequentes.

Vejam aí mais informações sobre o caso.

Matéria na Globo

Post no meu blog

Outro caso envolvendo contaminação por organoclorados.

foto: Propaganda de DDT. Crossett Library, Flickr.