Livros bonitos

Livros bonitos me atraem muito. Quando estou de bobeira na livraria sem nada específico em mente, o livro que tem mais chance de vir morar comigo é aquele que tem um projeto gráfico bacana ou uma capa diferente. E se a capa tiver texturas, então, as chances do livro aumentam de forma quase injusta. Claro que logo depois do encantamento visual vem o senso crítico e dou aquela espiadinha no texto. Não sou louca de comprar conteúdo vagabundo por mais que aprecie a beleza do objeto e, por falar nisso, estou querendo saber quando os e-books também vão ser visualmente atraentes.

Foi assim, a partir de critérios inicialmente sensoriais que comprei dois livros da editora Dark Sides, especializada em terror e fantasia e, noto agora, com péssimo gosto no quesito desenho de site.  Apenas ouçam esse trovão …  Mas os livros Onde cantam os pássaros, de Evie Wild, e O demonologista, de Andrew Pyper, são bem lindinhos.

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E a lombada do Demonologista é especialmente projetada para encantar bibliotecários. Eu testei.

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Onde cantam os pássaros é um bom livro, escrito por uma autora que conhece bem o serviço de contar uma boa história de mistério e terror, mantendo sempre vivo o interesse pela protagonista, a sofrida Jake, que cuida sozinha de uma fazenda de ovelhas no meio do nada. Alguém ou alguma coisa começa a matar os animais, e a explicação pode ou não se esconder no passado de Jake, que aos poucos vai sendo desvendado, numa narrativa que corre de trás para frente. Uma das qualidades especiais da obra é ser um livro escrito por mulher, contando uma história na qual o terror maior é a trajetória marcada por abusos da personagem feminina durona e corajosa. Outra graça do livro é a hesitação entre a explicação natural e sobrenatural, característica essencial do gênero fantástico descrita por Tzvetan Todorov em seu clássico Introdução à literatura fantástica, que se dá de forma sutil, mas eficiente.

Já o livro de Andrew Pyper não é tão bem-sucedido. É apenas uma história não muito original de pessoas x demônios, dessas que já vimos em centenas de filmes de terror, sem nada particularmente marcante na forma ou no conteúdo. Um professor cético é chamado para testemunhar um caso de suposta possessão demoníaca. As coisas dão muito errado e o infeliz tem que sair numa espécie de jornada contra as trevas na tentativa de salvar sua filha.  As referências ao Paraíso perdido de Milton conferem algum charme erudito à obra, mas é só.

De qualquer forma, os dois são leituras fáceis e agradáveis, daquelas que a gente não se arrepende de ter começado nem tem vontade de largar. Para um leitor rápido e que goste de ler no transporte coletivo, duram pouco mais de dois dias cada um. E são livros que um bibliotecário pode tranquilamente recomendar para apreciadores de terror ou fantástico, em busca de leitura leve, mas não idiota. Além disso, devem ficar muito decorativos e atraentes no expositor de livros novos da biblioteca.

O apocalipse zumbitecário

Cansada, mas ainda não inteiramente derrotada, a bibliotecária envelhecente sorri ao terminar a leitura dos posts do Bibliotecários Sem Fronteiras que discutem o futuro da profissão. Parte dela, a que se orgulha dos colegas mais jovens e acha que ainda vale a pena estar numa trincheira com gente assim, luta contra a outra parte, a que se distancia cada vez mais do interesse pela profissão. Ela sabe que, no seu caso, o futuro é algo que deve acabar mais cedo e provavelmente mal.

Naquela noite, a bibliotecária envelhecente tem um sonho vívido e rico em detalhes.

Num mundo praticamente sem bibliotecas como hoje as conhecemos, no qual os livros que simplesmente apareciam em lugares inusitados, como centros cirúrgicos e elevadores, eram considerados krönir *, recolhidos rapidamente e vendidos a preços impossíveis para misteriosos colecionadores, os bibliotecários há muito tido como extintos começaram a voltar.

Não, não eram krönir biológicos. Apesar dos insistentes rumores sobre a existência desses seres quase humanos criados pela imaginação de homens e mulheres, os únicos bio-krönir efetivamente documentados eram tigres e outros grandes felinos extintos, um rinoceronte branco e alguns pássaros dodôs, todos ligeiramente diferentes de seus paralelos já extintos no que poucos lunáticos ainda insistiam em chamar de mundo real.

Não, esses bibliotecários em nada lembravam os tigres vermelhos de olhos de chama nem os dodôs com esporões letalmente venenosos. Pareciam antes zumbis pálidos, alguns exibindo sinais de decomposição e marcas dos ferimentos ou doenças que os haviam matado. Surgiam enfurecidos nas imediações das grandes piscinas de leitura que tomaram o lugar de algumas antigas bibliotecas, piscinas azuis onde o leitor podia sonhar as histórias que gostaria de ler e transmiti-las mentalmente em forma de texto, filme ou música para outros que as completavam, modificavam ou apenas usufruíam. Outros foram vistos rondando as casas onde supostamente viveriam colecionadores de livros krönir.

Não eram realmente muitos, mas começaram a despertar o interesse dos fãs de filmes de terror antigos e a preocupar as autoridades. Mas os zumbitecários – como logo começaram ser chamados – nada faziam de errado ou realmente perigoso. Não atacavam, não mordiam, não tentavam devorar cérebros, apenas gritavam o quanto eram importantes e não reconhecidos, lembravam a todos da importância da padronização. Coisas assim que ninguém mais compreendia. Alguns seguravam, com orgulho, pequenos cartazes afirmando que “O Google te oferece 100 mil opções, o bibliotecário te oferece a certa“. Alguns andavam abraçados às regras de catalogação com as quais supostamente teriam sido sepultados. Outros tentaram carregar tabelas de classificação, mas os braços de zumbi não aguentavam tanto peso e se quebravam.

De fato, os zumbitecários não pareciam saber que atitude tomar. Muito comportados para agirem como zumbis normais e mordedores, dividiram-se. Metade queria mudar o paradigma, metade preferia ir para um congresso que oferecesse um bom coffee-break. Uma discussão acalorada começou, mas alguns indivíduos com pose e voz de autoridade aproximaram-se do grupo e pediram silêncio. Obedientes, os zumbitecários se calaram e se dispersaram. Apenas desapareceram quietamente, ninguém soube como. Os últimos foram vistos sentadinhos em frente às piscinas onde não os deixaram entrar, e lá ficaram até se desintegrarem. Um pterodáctilo com asas de prata passou gritando: extinção é para sempre!

A bibliotecária envelhecente acorda com o despertador berrando incoerências e levanta, sacudindo do peito o peso do sonho estranho. No espelho do fundo do corredor, um velho bibliotecário sorri, cego.

* Objetos formados pela duplicação de objetos perdidos originários das “regiões mais antigas de Tlön”, “filhos fortuitos da distração e do esquecimento”. Do conto Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, de Jorge Luís Borges.

Guerra santa

No mar tanta tormenta, tanto dano
Tantas vezes a morte apercebida
Na terra tanta guerra, tanto engano
Tanta necessidade aborrecida
Onde pode acolher-se um fraco humano?
Onde terá segura a curta vida ?
Que este céu sereno não se arme
Contra um bicho da terra tão pequeno.
                         (Camões. Os Lusíadas)

Nome vagamente recordado de bolorentas aulas de história do passado, para mim apenas um português que serviu para que Camões escrevesse um poema sobre ele, Vasco da Gama é o personagem principal Guerra Santa: como as viagens de Vasco da Gama transformaram o mundo, de Nigel Cliff, lançado no Brasil pela Globo Livros. Da extensa pesquisa do autor surge uma figura surpreendente: um navegador corajoso, um líder militar competente e um assassino desprezível, capaz de massacrar um navio de pacíficos comerciantes muçulmanos pelo único motivo de carregarem mercadorias a serem pilhadas e, claro, serem muçulmanos.

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De fato, como adianta o título, o que estava em questão na viagem de Gama e outros navegadores portugueses não era apenas a imensa vantagem comercial que significava descobrir uma rota marítima para a Índia, mas exterminar os muçulmanos que encontrassem pela frente. Não bastava que os indianos vendessem as cobiçadas especiarias para os portugueses, o rei Manuel esperava que seus novos “amigos” proibissem os muçulmanos de fazer comércio e os expulsassem de suas terras.

Para Cliff, a guerra santa do rei português ainda repercute em nossos turbulentos dias atuais, com termo “cruzada” brotando com frequência das bocas de tanto de líderes islâmicos quanto de presidentes estadunidenses após o ataque ao World Trade Center.

 Não é preciso dizer – e ainda assim é preciso dizer – que as ações dos            terroristas são uma afronta à corrente principal do Islã. O que é dolorosamente claro é que muitas dessas proclamações [de líderes fundamentalistas islâmicos conclamando os fiéis à violência] são, em essência, reflexos da polêmica cristã nas décadas que precederam a Era dos Descobrimentos. Mais impressionante ainda é a forma preferida pela al-Qaeda de contra-atacar o Ocidente: perturbar seu comércio explodindo aviões e causando ‘uma hemorragia na indústria da aviação que é tão vital para o comércio e o transporte entre os Estados Unidos e a Europa’. Substitua navios por aviões e o oceano Índico pelo Atlântico e estamos de volta quinhentos anos atrás (p. 429-430).

Os melhores momentos do livro são as descrições das incrivelmente difíceis viagens marítimas, baseadas em depoimentos de infelizes cronistas da época, em embarcações frágeis nas quais os homens que o mar não comia morriam às pencas de fome, de sede e de escorbuto, um jeito horrível de morrer. E também as descrições dos primeiros contatos dos europeus com povos desconhecidos, que muitas vezes beiram o cômico, como a história dos portugueses pensando que os indianos eram cristãos, porque gritavam algo que soava como “Cristo, Cristo” e achando meio estranhos os santos de muitos braços nas “igrejas” nativas.

A tremenda arrogância eurocêntrica de Gama e sua turma é muito bem documentada. Não vou contar aqui para não chatear quem gosta de surpresas, mas o ilustre pirata quase botou tudo a perder ao cometer uma gafe inacreditável em seu contato com o primeiro governante indiano amistoso que o recebeu de braços abertos.

O texto de Cliff é fluente e isento de pedantismos, mas não chega a ser leve como esses livrinhos de jornalistas que recontam episódios históricos como se fossem uma coluna de fofocas sobre “celebridades”. É um livro para quem gosta de história e tem paciência para ler. Para acompanhar a leitura, sugiro a belíssima canção Tanta tormenta, do grupo Mawaca, que musicou trechos de Os Lusíadas em seu disco de mesmo nome. Bem, o disco todo vale a pena, escutem.

Sou bastante democrática em meu total desinteresse por religiões, ou seja, não me importo com nenhuma delas, mas depois que conheci a Andaluzia comecei a cultivar algum fascínio por essa incrível civilização que acabou destruída pelo fanatismo religioso. Para quem tem interesse pela temática dos choques entre cristãos e muçulmanos e gosta de romances históricos, tenho algumas sugestões que complementam a leitura de Guerra santa. Os livros de Tarik Ali, principalmente O livro de Saladino, sobre o general curdo que conquistou Jerusalém e ficou famoso por NÃO fazer o massacre que todos esperavam e Sombras da romanzeira, que conta uma pungente história dos últimos dias da Granada muçulmana, o último reino de El Andaluz a ser tomado pelos reis católicos. Este último não recomendo para quem não aguenta finais tristes.

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Sobre o mesmo período, li também Boabdil: tragédia del ultimo rey de Granada, de Magdalena Lasala e El manuscrito carmesí, de Antonio Gala, ambos sobre a tristíssima história do último sultão de Granada, um sujeito que não tinha o mínimo perfil para o cargo que foi forçado a assumir. E por último El Mozárabe, de Jesús Sánchez Adalid, que conta uma movimentada história de aventuras baseada em fatos verídicos e ambientada nos últimos tempos do califado de Córdoba, que produziu a bela mesquita cuja foto encabeça este post. Os livros de Ali saíram no Brasil pela Record, mas parece que estão esgotados. Os demais, todos de autores espanhóis, não me consta que tenham sido traduzidos. Mas deve ser possível encontrá-los por aí.

Referência, ontem e hoje: conversas de bibliotecária velha

Meu primeiro emprego foi na Filmoteca da Escola de Comunicações e Artes da USP. Na época era uma seção não oficial da biblioteca que abrigava, além dos filmes realizados pelos alunos do curso de cinema da própria instituição, uns 2500 títulos de outras instituições com as quais a ECA mantinha convênios.

Minhas modestas atribuições envolviam a catalogação e cuidados com a conservação da bagaça toda, todos os perrengues de caráter “administrativo” e, naturalmente, atendimento ao público.

Essa parte do trabalho era insana, porque os usuários olhavam pra mim e perguntavam se eu “tinha um filme” sobre os assuntos mais diversos como fabricação de cerveja, profecias de Nostradamus, criação de coelhos, filosofia, equações de segundo grau, o diabo. E todos os dias eu atendia um adolescente querendo filmes sobre as drogas ou sobre o aborto – para os eternos e inúteis trabalhos escolares, claro.

Imaginem tentar responder a essas questões sem ter um catálogo de verdade, apenas umas listas mais ou menos improvisadas. E vejam que estou falando de filmes de rolo que só podiam ser assistidos quando projetados, nada dessa moleza de vídeos em caixinhas, também conhecidos como videocassetes, que a gente enfiava num aparelho e assistia na televisão, podendo voltar, avançar e até parar a imagem quando quisesse. Essa modernidade só apareceu na Filmoteca uns seis anos depois da minha contratação.

Uma das demandas mais frequentes era o filme para substituir a apresentação do trabalho que o aluno não queria fazer ou a aula que o professor não queria dar. Esse substituto, obviamente, precisava ser a encarnação cinematográfica perfeita e literal do tema da aula ou trabalho a ser sacaneado. O filme deveria ser capaz de substituir até mesmo o conhecimento superficial do assunto. Alguém precisava, por exemplo, de um filme sobre a vida e a carreira dos participantes da Semana de Arte Moderna após a semana, mas não conseguia lembrar de um único nome de artista que tenha participado do dito cujo evento.

– Ah, não sei, não tem um filme sobre o que aconteceu com TODOS ELES depois da Semana?

Depois de um tempo, conhecendo melhor o acervo – e isso quer dizer que projetei para mim mesma e assisti a quilômetros de películas de acetato de celulose – comecei a desenvolver técnicas de convencimento de usuários. O papo era mais ou menos assim:

– Bem, não temos um filme assim prontinho sobre as diferenças entre o expressionismo e o impressionismo. Mas temos um sobre o impressionismo e outro sobre o expressionismo, olha que legal! Você pode mostrar os dois e falar sobre as diferenças!

Às vezes dava certo, às vezes não. Alguns usuários até achavam um absurdo que não existisse um filme exatamente sobre o tema de seu trabalho ou aula e me olhavam acusadoramente:

– Vocês deveriam ter, não? Aqui não é uma escola de artes?

Em dias de alto nível de ironia, eu concordava e dizia que eu poderia tentar fazer um rapidinho, mas em geral me limitava a explicar com alguma paciência como funcionavam a vida, o cinema e as bibliotecas. Outra sacanagem que eu gostava de fazer nos dias de ironia era perguntar ao moleque que pedia um filme sobre as drogas (ou o aborto) se ele queria um filme contra ou a favor.

– Huumm, sei lá … Acho que contra, né?

Nos dias mais felizes, eu conseguia convencer alguém a usar o filme não para substituir sua voz e seu pensamento, mas para dialogar e discutir. Por que não exibir um filme que defenda ponto de vista oposto ao seu e aí contrapor seus próprios argumentos? Num desses dias um professor me pediu um filme “sobre o capitalismo”. Sugeri um filminho de propaganda ideológica dos Estados Unidos produzido na época da guerra fria, que defendia galhardamente os dogmas capitalistas. O professor gostou da ideia e voltou dizendo que a discussão na classe foi excelente, muito melhor do que seria se ele passasse um documentário do tipo “o que é o capitalismo”.

Nos dias mais tristes o usuário se recusava a fazer uma simples busca em dicionário do acervo para conhecer melhor o tema do trabalho e, quem sabe assim, conseguir encontrar um bom filme para discutir suas próprias ideias, mesmo que eu indicasse as fontes mais prováveis. Era como se me dissessem, “olha, eu não quero pensar, não me amole”. Nesses dias melancólicos eu descobria que o trabalho encomendado pelo professor se resumia a passar o filme durante a aula. Eu preciso levar um filme, o professor mandou. Alguns alunos até me pediam para fazer um atestado para provar que estiveram na Filmoteca da ECA, mas não encontraram o filme sobre o aborto ou as drogas.

Eu gostava de explicar o quanto era absurdo obrigar um aluno a atravessar a cidade, muitas vezes perdendo horas de trabalho dele mesmo ou dos pais, para procurar um filme que nem existia. Que ele ganharia mais se aproveitasse o tempo estudando o tema, talvez até numa biblioteca pública perto da casa dele. E que ele poderia contar ao professor o que eu disse. Os estudantes vibravam quando eu dizia “fala pro seu professor ligar pra mim”, mas obviamente nunca recebi nenhuma ligação de professor indignado com minha falta de educação.

Durante os 10 anos em que trabalhei atendendo usuários aprendi muito com eles. Descobri, por exemplo, como e por quê as pessoas procuram filmes num acervo (mais ou menos) organizado e como se deve indexar e catalogar esse acervo para que ele faça algum sentido.

No início da década de 1990 saí do atendimento e fui trabalhar no tratamento da informação, catalogando e indexando filmes, imagens fixas, discos e partituras. Foi bom enquanto durou, mas o mundo foi rodando nas teclas do meu computador e acabei voltando à referência em 2013, não por um motivo meu ou de quem comigo houvesse que qualquer querer tivesse. Voltei feliz, porque o contato com o usuário me fazia muita falta.

Voltei para um mundo que todos me diziam que havia mudado. Um mundo onde o usuário busca informação de forma tão diferente que se os bibliotecários não “mudarem seus paradigmas” vão virar sucata. E como não sei que paradigmas são esses e sucata já sou mesmo, lá fui eu, não sem alguma apreensão, encarar esse usuário desconhecido que já nasceu digital.

Dois anos depois, constatei alguns fatos. Não, não fiz pesquisa nem estudo de usuário, por enquanto falo apenas de percepções. A universidade transborda de gente para fazer estudos, façam isso e me deixem trabalhar.

Sim, muita coisa mudou. Hoje a molecada procura “equações de segundo grau” no Youtube e pronto. Na verdade, pode até digitar “equassões” (acabei de testar) que funciona. Só aparece na biblioteca quem é chato e não ficou satisfeito com o resultado ou recebeu do professor ordens expressas nesse sentido. Um diálogo recente:

– Infelizmente não temos, mas olha só, tem no Youtube …

– É que o professor quer que a gente pegue numa biblioteca (expressão de tédio mortal).

-Tá bom, fala que você veio aqui na ECA e uma bibliotecária de 55 anos falou que esse filme do Youtube é muito bom, é um dos melhores sobre o assunto.

Entre os que me pedem auxílio, ainda é muito comum o desejo de encontrar trabalhos prontinhos com exatamente o mesmo tema da pesquisa do sujeito, seja a relação de A com B ou a influência de X em Y, e estou falando de gente fazendo mestrado, não de crianças. A diferença é que o usuário ingênuo de antigamente que pesquisava sobre a influência da invenção da fotografia no desenvolvimento da arte abstrata, por exemplo, procurava “influência” no fichário, não encontrava nada e pedia ajuda para os bibliotecários – se achasse algum por perto. Já o usuário ingênuo de hoje digita a frase no Google e como alguma coisinha sempre encontra, conclui que não precisa de auxílio nem de bibliotecas, certeza essa que uma rápida análise de seus textos acadêmicos pode facilmente desmentir. Do que eles não precisam mesmo, ninguém precisa, é de bibliotecas vagabundas, bibliotecários incompetentes e professores ruins.

Não atendo mais tantas crianças e adolescentes atrás de material para trabalhos escolares e isso tem um lado bom, porque só gosto de crianças a partir dos 18 anos. O lado ruim é que fico me perguntando se tem alguém conversando com eles sobre seleção e uso de filmes em sala de aula.

Antigamente eram poucos os usuários que realmente entendiam bem as ferramentas disponíveis na época, como os catálogos, as bibliografias ou as obras de referência. Hoje, tanto os usuários quanto as ferramentas são mais tecnológicos (digamos), mas o nível de compreensão não mudou significativamente. A maior diferença que percebo nesse embate entre “o que eu sei e o que preciso perguntar para alguém” é que poucos usuários tinham vergonha de não saber usar um fichário, que era entendido como coisa de bibliotecários, enquanto hoje as pessoas costumam escamotear ao máximo suas eventuais dificuldades com uma base de dados ou catálogo online. Ninguém gosta de ser visto como um excluído digital. Os mais jovens, ao contrário do que nós velhinhos gostamos de acreditar, não nasceram sabendo tudo, mas não têm a mínima vergonha de perguntar e aprender. E, para minha surpresa, também adoram ensinar: “ó, faz assim”.

Trabalhar no atendimento é muito mais divertido agora, porque temos infinitamente mais recursos para encontrar informação pro usuário, mas também é mais angustiante porque praticamente não existem mais limites para o que a gente precisa saber. Na década de 1980 eu tinha o acervo da instituição e mais uma listinha de endereços de outras filmotecas que entregava para o usuário que não conseguia atender com os “meus” filmes. Hoje eu tenho, teoricamente, o mundo. Que um dia será Tlön, não podemos esquecer.

A parte chata é que eu passo boa parte do meu tempo justificando erros do sistema, explicando interfaces ilógicas, traduzindo para o usuário termos que não fazem sentido para ele (nem para mim), torcendo para os links abrirem, mostrando caminhos para chegar a um recurso escondido num site mal feito. Antigamente eu só precisava explicar os meus próprios erros e os dos meus colegas bibliotecários. Agora, são os erros dos bibliotecários, dos analistas, dos vendedores de software, dos desenhistas de sites, dos editores de publicações online… de uma multidão sem rosto. Nem sempre sei de quem é o erro e, quando sei, raramente minhas críticas são ouvidas. Algumas coisas não mudam mesmo.

A foto é minha: um rolo de filme 16mm, uma coladeira.

O veneno e suas lições

No dia 23 de fevereiro, quando teve início o aluno letivo na USP, os novos alunos da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, nossa querida FFLCH, encontraram sua biblioteca fechada pelos próprios funcionários, com apoio dos estudantes.

O protesto foi motivado por um caso bastante grave de contaminação por DDT e outros organoclorados encontrados numa grande doação de livros recebida em 2009 (?!). Os funcionários contestavam o tratamento dado ao caso pela direção da Faculdade e chefia da biblioteca, bem como as medidas recomendadas pelos especialistas consultados. Nesta matéria do UOL há links para os documentos da direção da Faculdade do Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp).

Resumindo a história sem me alongar em detalhes escabrosos, os funcionários que manipularam o material relataram sintomas como dor de cabeça, náuseas, sangramento do nariz, dor de garganta, ardência nos olhos, dificuldades respiratórias e problemas na pele.

Em cinco livros da coleção foi encontrado um pó branco que deixou os funcionários bastante preocupados. Isso depois da coleção ter sido higienizada, e aí fico imaginando a qualidade da “higienização” que deixou escapar essas 5 tartarugas. Um laudo do Instituto de Pesquisas Tecnológicas concluiu que os livros estavam contaminados por DDT, DDE e DDI,  bagulhos reconhecidamente perigosos e possivelmente cancerígenos.

A direção da Faculdade solicitou um parecer  “sobre as condições de trabalho envolvendo o contato e manuseio do acervo” a uma especialista em conservação de acervos. Apenas um único parecer, não posso deixar de notar. As recomendações foram consideradas adequadas pelo coordenador de preservação da Biblioteca Nacional que, entretanto, não achou necessário visitar o local. Curiosamente, embora a especialista recomende estabelecimento de “barreiras de contenção” e quarentena, o material estava cercado por um tapume – dentro da biblioteca – com abertura para circulação de ar “pois segundo orientação técnica a vedação completa poderia produzir danos ainda mais insanáveis à coleção”. Por mais tocante que pareça tanto amor e preocupação pelos livros, os funcionários da biblioteca não estavam se sentindo lá muito seguros. A Coordenação de Vigilância em Saúde (Covisa) do município inspecionou o local no dia 24 de fevereiro e também não achou graça na história, pois o tapume não  funciona como isolamento, determinando a retirada dos livros da biblioteca e  várias outras medidas para proteger a saúde dos seres humanos.

A Biblioteca Florestan Fernandes deve reabrir na segunda-feira, dia 2 de fevereiro, após um acordo firmado entre a direção e os trabalhadores, que inclui, surpreendentemente, um pedido de desculpas da Faculdade aos seus funcionários.

Esse pedido de desculpas é o segundo fato que me parece inédito em todos esses anos de brigas que testemunhei na Universidade de São Paulo. O primeiro é o fechamento de uma biblioteca em protesto contra uma ação da administração local. Foi um confronto direto com a chefia e com a diretoria da Faculdade, algo muito difícil de acontecer numa biblioteca da USP, creiam-me. Na verdade, não me lembro de outra ocasião em que isso tenha acontecido. Mesmo durante as greves de funcionários não são muitas as bibliotecas que fecham.

Temos aí uma bela lição para os administradores, que precisam ser mais prudentes  ao receber doações de livros antigos e mais sensíveis às reclamações dos funcionários, para dizer o mínimo. Poder, ao contrário de DDT, pode ser algo muito transitório. E uma lição mais importante ainda para bibliotecários e demais trabalhadores de bibliotecas que gostam de cultivar uma polida submissão à hierarquia, mesmo quando sua saúde pode estar em jogo. Organização e mobilização funcionam. E um pouco de coragem, ao contrário de DDT, não faz mal a ninguém.

Lamento apenas tenha sido necessário fechar uma biblioteca, acionar o Sindicato e chamar as autoridades sanitárias para resolver um problema que, embora difícil e complexo, é da alçada da nossa profissão. Tudo isso, se não me engano, poderia ter sido evitado no simples nível das ações bibliotecárias consequentes.

Vejam aí mais informações sobre o caso.

Matéria na Globo

Post no meu blog

Outro caso envolvendo contaminação por organoclorados.

foto: Propaganda de DDT. Crossett Library, Flickr.

A Grande Biblioteca

Os bibliotecários até que se animaram mas, que pena, a tal série The Librarians é irremediavelmente ruim. O gênero fantasia infanto-juvenil costuma contar com minha indulgência, sou capaz até de assistir Grimm, outra bela porcaria da televisão, mas tenho meus limites. Não consegui ver nem um episódio completo, porque produções assim tão bobinhas me irritam demais.

Mas fiquei pensando que daria pra fazer uma série interessante ambientada numa biblioteca, com enfoque realista e tudo. Por que não? Existem séries que se passam em escolas, firmas de advocacia, escritórios de sei lá o quê e outros cenários que, na vida real também não são lá muito charmosos. E hospitais, então? A gente encontra umas três séries hospitalares diferentes em cada dia de programação da TV. Ah, mas médicos e advogados são mais interessantes, salvam vidas, tiram inocentes da cadeia, essas coisas. A gente só faz psiu e tira livros da estante, de acordo com a visão corrente.

Será mesmo? Penso que tudo depende de roteiristas, diretores e atores. Vamos ver como isso poderia ser.

Nosso cenário seria uma grande biblioteca pública ou a biblioteca central de uma universidade, porque precisamos de muitos personagens, escadarias imponentes e grande quantidade de estantes. De bibliotequinha acanhada bastam as da vida real. Tenho dúvidas de qual seria a melhor opção: a pública, por seu público mais variado, ou a universitária, por ter alunos e professores. Só o relacionamento professor-bibliotecário já garantiria assunto para pelo menos uma temporada.

O usuário vai ser tema importante na série. Em cada capítulo veremos pelo menos uma história de usuário. Algumas terão continuidade, outras vão começar e terminar no mesmo dia; algumas  serão conhecidas pelos personagens fixos – o pessoal da biblioteca – outras não. Sabem aqueles usuários dos quais a gente não sabe nada e fica apenas imaginando comos e porquês? Então, esses mesmos. No primeiro capítulo veremos um usuário comum, sem nada de excepcional, o tipo que só diz bom dia, obrigado e até logo, que sai da biblioteca e se suicida. Só o espectador fica sabendo, o pessoal da biblioteca nem imagina o que aconteceu.

Os personagens principais serão  dois bibliotecários jovens que acabaram de ser contratados: a moça de temperamento artístico – talvez ela desenhe ou cante, ainda não sei – que fez biblioteconomia por razões de pobreza, como tantos de nós, e o rapaz meio nerd que pensava que biblioteconomia era outra coisa, uma coisa mais tecnológica. Vamos acompanhar os conflitos pessoais e profissionais desses jovens, seu desencanto com a profissão  e, em algum momento,sua a decisão de começar a lutar. Vocês conhecem essa história? Eu conheço.

A chefe da biblioteca acabou de se aposentar, depois de 58 anos de valorosos serviços prestados e virou retrato. A nova chefe é uma daquelas tiazinhas que administra usando sua experiência de dona de casa e mãe, toda senso comum e orações. Boa pessoa, dedicada ao trabalho e responsável, mas com formação deficiente. Aos poucos, a pacata senhora, com medo de perder o cargo, vai cair de boca na paranoia e revelar um lado autoritário que nem todos conheciam. O perigo, como sempre acontece, vai chegar de onde ela menos espera. Seu braço direito, uma bibliotecária simpática e moderninha que não vacila em usar táticas de sedução com propósitos carreirísticos, é quem vai puxar o tapetinho florido da chefia. O objetivo da moça não é apenas o cargo, mas assegurar bons negócios para um fabricante de mobiliário de bibliotecas com quem tem umas tretas. Vocês conhecem histórias parecidas? Eu conheço.

Num dado momento, a equipe da biblioteca vai se dividir entre a tiazinha conservadora, mas honesta, e a arrivista cheia de más intenções, mas com ideias um pouco mais modernas.

Nossos jovens bibliotecários vão arrumar um enorme problema com seu projeto de empréstimo de livros e criação de serviços especialmente dedicados a uma ocupação do movimento dos sem teto próxima à biblioteca. Os funcionários conservadores e os idealistas vão se enfrentar com unhas e dentes.

Teremos histórias de amor, claro, queremos audiência. O jovem bibliotecário terá um rolo com uma funcionária casada com um homem violento, o que pode render alguns momentos de violência e heroísmo entre as estantes e talvez até alguns tiros. A arrivista vai seduzir o introspectivo especialista em conservação, homem de poucas palavras que vai reagir de forma surpreendente ao se perceber enganado. Precisaremos de amores lésbicos, porque num lugar com tantas mulheres seria inverossímil não haver pelo menos uma lésbica. Que poderia ser nossa bibliotecária com pendores artísticos, por que não? E quem seria sua namorada? A dona do restaurante onde a galera almoça ou uma estudante estrangeira que passa tardes inteiras na biblioteca? E vai ter beijo lésbico entre as estantes sim, e se reclamarem vai ter até no balcão de empréstimo.

A estagiária do setor de seleção vai se encantar pelo intelecto refinado que reuniu a linda coleção de livros que a biblioteca recebeu em doação. Nas cartas e velhas fotografias encontradas entre as páginas, nas anotações feitas nas margens e na própria seleção de obras, a estudante de letras vai descobrir aquele que poderia ser o homem da sua vida, se não estivesse morto há uns 10 anos. A magia termina quando ela conversa com a filha do falecido e descobre, por trás da máscara poética, um homem egoísta que, perdido entre seus livros, ignorava o sofrimento da família durante a longa agonia da esposa que morreu de câncer. E os bilhetes e cartas que a filha não quis levar de volta vão parar no lixo reciclável porque, nas palavras da chefe do setor, o defunto “não era nenhum Mário de Andrade pra gente ficar guardando os todos os papeizinhos dele”.
O suspense será garantido por uma suspeita: a chefe da catalogação, ex-militante presa e torturada durante a ditadura, acredita que um de seus carrascos está frequentando a biblioteca.
A primeira temporada deve terminar com a mais temida das tragédias que podem acontecer numa biblioteca: um incêndio. Nossa biblioteca vai sobreviver?

Pronto, agora só falta alguém escrever e produzir isso aí. Vai ser um sucesso, garanto. Quanto ao elenco, já que estou sonhando mesmo, só faço questão de Irhandir Santos e Hermila Guedes, os demais vocês podem escolher.

 

A foto é do palácio de verão da imperatriz Sissi na ilha de Corfu, Grécia. Já que estamos sonhando.

Sobre fantasmas, livros e tigres

Toda biblioteca tem ou teve uma sala 7? A pergunta há anos me intriga, desde que a sala 7 da biblioteca onde trabalho deixou de existir, mas continuou existindo. Era a sala do “processamento técnico” na época em que comecei a trabalhar, o lugar para onde os usuários eram enviados à procura de livros supostamente não catalogados. “Deve estar na sala 7, vai na sala 7”. Reformamos nossas instalações duas vezes, botamos abaixo a sala 7, mas os funcionários antigos continuaram mandando usuários pra lá por muitos anos. Ainda hoje, quase 20 anos depois da extinção da sala com essa numeração, ainda me aparecem usuários perguntando pela sala 7, só que de outras bibliotecas. Curioso.

Bibliotecas guardam pequenos segredos. Como os bilhetinhos oferecendo ou solicitando préstimos sexuais que às vezes são encontrados entre as páginas de um livro. Os autores das mensagens contam que a sorte as leve até um parceiro potencial, como se os livros fossem garrafas jogadas no mar? Ou existiria um método para determinar que tipo de livro tem mais chances de chegar às mãos da mulher tatuada certa ou do homem peludo com as dimensões adequadas? E se um desses bilhete for encontrado daqui a 25 anos pelo filho de quem o colocou lá? As indagações são tantas que dizem haver grupos de pesquisa estudando estratégias de busca para encontrar os livros bilhetados.

Especula-se nos círculos acadêmicos sobre a não comprovada existência do livro sem fim, também conhecido como livro travado. Trata-se uma uma obra que ninguém jamais conseguiu terminar de ler, porque todos param na página 54, segundo algumas fontes, 62 em versões mais modernas, e não conseguem ir adiante. Como ninguém chegou até o fim, ninguém sabe como termina. Dizem que os espertinhos que tentaram começar a leitura pelo final não viveram para contar o que leram.

Os livros que mudam de cor são um tormento na vida dos usuários. Ontem o livro de capa verde estava lá no cantinho dele. Hoje não está mais. Sumiu? Foi emprestado? Não, mudou de cor. Menos travessos, mas igualmente surpreendentes, são os livros que suspiram quando são manuseados, principalmente quando acariciamos suas capas. O fenômeno já foi observado por muitos bibliotecários e encadernadores, mas continua assustando mortalmente leitores desavisados.

Um estudante de música comprou um disco raro num sebo e resolveu, inspirado por velhos filmes de terror, tocá-lo ao contrário. E ouviu, nitidamente, uma voz anunciando: ” o grande Deus Pã morreu“. O disco teria sido doado a uma biblioteca pelo colega de apartamento do rapaz, depois que ele sumiu. Alguns estudantes tentaram localizar o disco, mas era uma gravação obscura e ninguém sabia como procurar. A bibliotecária disse que se quisessem ouvir ao contrário todos os 6784 discos do acervo, seria um prazer ajudá-los, mas que havia uma boa chance do tal disco ter sido descartado. A história se espalhou e despertou curiosidade entre os amantes do bizarro. Encontrar o disco virou uma espécie de jogo, baseado em procurar nomes de músicos que soam bem quando lidos ao contrário, fazer anagramas de títulos de óperas ou encontrar palíndromos. Os adeptos da brincadeira tendem a se tornar obsessivos, o que levou alguns de seus colegas a imaginar que estão a caminho de criar uma seita. Mas há quem se recorde do boato sobre a morte de Paul McCartney nos anos sessenta e defenda que os malucos que afirmaram ter ouvido “Paul is dead” num disco da banda na verdade ouviram “Pan is dead“. Mas que a frase só pode ser ouvida por flautistas que tenham ouvido absoluto.

Professores sisudos criticam essas bobagens, para eles fundadas em velhas superstições pagãs, e conclamam os alunos que não têm o que fazer a se dedicarem a atividades mais produtivas, como resgatar do depósito de livros não catalogados de uma das bibliotecas da universidade um esquecido volume da Enciclopédia Britânica que teria um verbete sobre uma cidade que nunca existiu. Outros docentes avisam, preocupados, que é melhor deixar isso pra lá.

E que dizer dos registros fantasmas, que não remetem a nada no acervo? Criados por bibliotecários entediados, cansados de catalogar sempre as mesmas coisas, segundos os céticos. Materializações dos desejos dos leitores, ou de acadêmicos que morreram antes de concluir a tese, de acordo com espíritos mais poéticos. O contrário também pode acontecer, para aflição dos picaretas acadêmicos que praticam ficção curricular. Já foram encontrados nas bibliotecas digitais trabalhos falsos dando existência real a itens inventados do currículo Lattes. A característica mais temível desses textos são os grosseiros erros conceituais  e as ilustrações ferozmente pornográficas que envergonham até o mais tosco dos picaretas. Ninguém sabe quem é o criador dessas abominações. Os bibliotecários acolhem as reclamações dos autores ofendidos com solidárias exclamações: ” que horror, não? Não há mais respeito na nossa sociedade, o mundo está perdido mesmo“.

Outros mistérios são tão soturnos que nem chegam a se espalhar entre os usuários, como o do vírus maldito, uma página que surge em resposta a uma busca qualquer no banco de dados e mostra a face da morte.

A moça dos óculos quebrados pode ser vista entre as estantes poucos minutos antes do fechamento da biblioteca, trocando angustiadamente os livros de lugar. Suas roupas têm manchas de sangue fresco e as lentes dos óculos estão partidas. Quando alguém a vê e vai alertar os funcionários sobre a estranha perdida entre as estantes, não a encontram mais. E ninguém a vê sair, assim como não a viram entrar.

Em muitas bibliotecas já aconteceu o seguinte fato, com pequenas variantes: um funcionário volta para pegar um objeto esquecido depois que a biblioteca fechou e escuta, arrepiado, os sons familiares do carrinho sendo empurrado e dos livros sendo guardados nas estantes. Os funcionários mais corajosos acendem as luzes para ver se  sobrou alguém andando por lá, mas nunca há ninguém, nem mesmo a moça dos óculos quebrados. Como em toda biblioteca sempre há uma senhora que guardava livros e faleceu há algum tempo, normalmente a culpa recai sobre o fantasma dessa dedicada funcionária. Lenda criada para desestimular os alunos que fazem a gente reabrir a biblioteca porque esqueceram suas bolsas? Talvez.

Tradicionalmente, bibliotecários adoram acolher e criar gatos nas bibliotecas. Eu mesma jå fiz isso, gatos e bibliotecários têm um elo tão forte quanto os cães e os caçadores. Mas pouca gente sabe que, em sua mesa numa sala 7 qualquer, a estagiária tímida e decepcionada em seu primeiro trabalho sonha com um tigre.

Algumas dessas histórias foram completamente inventadas por mim. Outras de fato aconteceram e boa parte delas são referências literárias. A vocês a tarefa de descobrir.

foto: José Estorniolo Filho. Palais Idéal.

 

USP, greve e bibliotecários

Neste momento preciso de minha vida profissional, sou uma bibliotecária em greve. Não é a primeira vez – na verdade deve ser a trigésima primeira greve da minha carreira – e duvido muito que seja a última.

Quem nunca fez greve na vida e morre de curiosidade para saber como é a coisa, ou simplesmente tem interesse acadêmico específico nos mecanismos que regem as greves na Universidade de São Paulo, pode encontrar informações acuradas dignas da bibliotecária que sou no meu blog,  Dia de Greve, Dia de Trabalho. Comecei esse blog na greve de 2010 da USP e não parei mais.  Mas não escrevo apenas sobre greve, até porque nossas greves, afortunadamente, não duram tanto assim.

Neste momento as três universidades estaduais paulistas estão em greve, basicamente por reajuste salarial,  mas não só por isso. Nunca é só por isso, mas geralmente é assim que começa: funcionários e professores reivindicam X de reajuste, recebem metade de X ou não recebem nada, como aconteceu conosco desta vez. Reajuste zero. Tudo sobe, o plano de saúde, a escola das crianças, o aluguel, a prestação da casa etc. Mas o salário permanece igual.

De acordo com o Conselho dos Reitores das Universidades Paulistas, que chamamos pela simpática sigla CRUESP, o reajuste não é possível porque não há dinheiro. A principal culpada pela dureza acadêmica é a assim chamada crise financeira da USP, cuja folha de pagamento estaria consumindo 105 por cento de sua receita. Portanto, a USP estaria  vivendo de suas reservas que, obviamente, teriam data certa para acabar: depois que acabar a água da represa da Cantareira, destruída pela sinistra incompetência do governo paulista, o mesmo que escolhe os reitores das universidades. A água dizem que vai acabar em agosto, as reservas da USP ainda duram mais um pouco.

A Folha de São Paulo, mais do que depressa, já vem com a eterna solução: cobrar mensalidades dos alunos, acabando de vez com qualquer chance de um jovem de família pobre entrar na preciosa Universidade de São Paulo, para todo sempre destinada a ser propriedade da elite.

A Folha, assim como uma assombrosa quantidade de seres humanos e veículos de comunicação, apresenta como verdade inquestionável a sangria de 105 por cento que ocorre segundo quem? Ora, segundo a Reitoria da mesma instituição na qual se dizia, até o ano passado, que “a USP tem dinheiro sobrando”, “dinheiro não é problema” e até mesmo “vocês precisam gastar mais dinheiro”, uma instituição cujo discurso dominante fazia o funcionário que não “gastava dinheiro” sentir-se incompetente, porque se as coisas não iam bem, certamente não era por falta de verba. O atual reitor culpa a gestão anterior que, de fato, não primava pela sobriedade, mas não podemos esquecer que é a mesma universidade. As pessoas que a dirigiam antes não morreram todas de repente e foram substituídas por alienígenas criados em vagens gigantes, certo?

Então, como saber se realmente a folha de pagamento está consumindo 105 por cento da verba e se a USP está à beira da catástrofe? Simplesmente não dá para saber, porque não temos acesso às contas da Universidade. E se não temos como contestar, também não vejo motivos para acreditarmos piamente.

Neste vídeo de um debate com representantes da Associação dos Docentes da USP sobre os números divulgados pela Reitoria, os professores Otaviano Helene e Ciro Teixeira Correia questionam as vozes oriundas do Olimpo com informações que jamais aparecem na grande imprensa. O vídeo é longo e não está editado, por isso vou destacar alguns trechos. De acordo com esses docentes rebeldes:

  •  tivemos perdas reais de poder aquisitivo de 7 por cento, contando apenas os efeitos da inflação (03:05);
  • os números do crescimento do ICMS não indicam a catástrofe financeira que está sendo anunciada (05:36);
  • O gráfico distribuído pela Reitoria que mostra a diminuição das reservas da USP contém um erro que faz a situação parecer pior do que é de fato (11:28).
  • se os gastos excessivos da gestão anterior forem contidos, a situação financeira da USP estará equilibrada em um ou dois anos, sem necessidade de arrochar salários (12:55).
  • o impacto do reajuste salarial sobre as contas da USP não é tão grande quanto dizem (13:50).
  • na proposta orçamentária para 2014 aprovada pelo Conselho Universitário da USP já estava previsto o reajuste dos professores e funcionários (23:17).
  • dados da reitoria sobre a “queima orçamentária” não consideram rendimentos de aplicação das reservas e nem as receitas próprias da Universidade (28:50).
  • despesas com obras em andamento – que ninguém sabe o que são e porque foram feitas – e “restos a pagar de 2013” presentes na previsão orçamentária para 2014 equivalem a quase duas folhas de pagamento (30:54).
  • O comprometimento da verba com a folha de pagamento não é o que está sendo dito (36:00).
  • Contribuição previdenciária é o que pode estar aumentando o comprometimento da verba, e não os reajustes salariais, mas os dados sobre isso não estão abertos para a comunidade (38:15).
  • O governo não repassa todos os recursos que são arrecadados com fonte ICMS: os juros de refinanciamento de pagamentos atrasados, por exemplo, não entram na conta; para as prefeituras o repasse é feito, mas não para as universidades (45:30).

Muito do que se diz nos meios de comunicação sobre a USP é engolido com facilidade pela população, graças à fama de elitista e arrogante que a instituição carrega, fama até certo ponto justificada. Em todas as nossas greves, quando somos invariavelmente atacados pelo discurso contrário à universidade pública que domina a imprensa, discutimos a necessidade de ações que mostrem para a população a real importância da Universidade e do conhecimento que ela produz. Mas isso nunca acontece. Parece que a questão só interessa à parcela da população uspiana que faz greve, e essa turma não manda nada. E os poucos que passam eventualmente a mandar, mudam rapidamente suas prioridades.

Bibliotecários poderiam ter um papel importante nessa briga, considerando nossa habilidade para buscar, analisar e transmitir informações, além do fato de ocuparmos posição privilegiada entre o universo do trabalhador “peão” e o mundo dos pesquisadores. Somos funcionários, vivemos com os pés no mundo real, sabemos o que é uma licitação e porque demora tanto para comprar um livro ou consertar uma janela, mas também circulamos com tranquilidade no espaço onde se produz o conhecimento acadêmico, sabemos de onde sai uma tese e temos um papel claro bem claro nesse processo. Além disso, somos muitos: cerca de 400, se não estou enganada.

Mas também não mandamos nada. Vivemos condicionados pela “mecânica de obediência vertical ao poder central”, expressão usada pelo professor Andrian Pablo Funjul na Folha de São Paulo que explica maravilhosamente as relações de poder na USP. Temos nossas chefias de biblioteca, que só não decidem tudo sozinhas se não quiserem, porque nada as impede, e o Departamento Técnico do Sistema de Bibliotecas, cujas prioridades podem ser decididas pela vontade de quem o chefia, sem que exista nenhum mecanismo institucional eficiente para evitar isso.

Bibliotecários não costumam atuar politicamente enquanto categoria dentro da USP, a não ser em questões bastante pontuais, como o movimento que fizemos há alguns anos para barrar a imposição de um software para o Banco de Dados Bibliográficos da USP.

Muitas bibliotecas da USP estão fechadas por causa da greve. Não dá para saber quantos bibliotecários estão em greve, porque algumas bibliotecas fecham porque os técnicos entram em greve. Tenho visto muitos bibliotecários participando das atividades de greve, mas ainda são poucos em relação à quantidade de bibliotecas que está fechada. Dizem alguns colegas que muitos estão trabalhando atrás das portas fechadas de suas bibliotecas e outros, provavelmente, foram para suas casas. É uma pena, porque um momento de greve seria uma excelente oportunidade para nos encontrarmos, discutirmos nossos problemas específicos e encontrar uma forma de atuarmos politicamente na Universidade. E fazer nossa voz ser ouvida, para variar um pouco. Mas, lamentavelmente, nem temos uma liderança capaz de articular o pessoal.

Mas esta greve ainda não terminou. Nem a USP. Nem as bibliotecas. Ainda temos algum tempo.

A grande ilusão

Trabalhei com documentação audiovisual durante toda a minha vida profissional. Comecei organizando uma filmoteca, no tempo em que o suporte para o cinema amador ou para filmes destinados ao uso didático era a película em 16 milímetros. Depois veio um caótico acervo de fotografias e slides, mais tarde aprendi a catalogar discos e partituras e quando surgiu o videocassete, criei uma videoteca. Trabalhei com conservação, migração de suportes, digitalização, tratamento da informação, seleção e aquisição, atendimento ao público. Desenvolvi metodologias de tratamento para esses documentos e preparei dois manuais para compartilhar a experiência.

Tive o privilégio de ter sido aluna da Johanna Smit, convivido e trocado ideias com ela ao longo desses anos todos de trabalho na ECA/USP. Lá no início dos anos 80 os professores do curso de biblioteconomia já diziam,  com aquela carinha de professor  que descobriu algo muito importante e está alertando as crianças para o fato , que “bibliotecários não trabalham só com livros, hoje as bibliotecas tem vários tipos de documentos” e que “nós trabalhamos com informação, não com livros”. E provavelmente já diziam coisas assim antes, mas eu não ainda estava lá para ouvir.

O problema é que essas afirmações, que gosto de chamar de “a grande ilusão” por motivos essencialmente cinematográficos, só se tornavam realidade palpável na aula da Johanna, enquanto as demais tratavam mesmo de livros. E lá se foram mais de 30 anos. Suportes que na época ainda não existiam hoje já estão praticamente extintos, e os alunos de hoje continuam reclamando da mesma coisa: por mais que se apregoe o contrário, nos cursos de biblioteconomia só se aprende a trabalhar com livros.

Para suprir as deficiências de sua formação, bibliotecários que trabalham com documentos audiovisuais sempre recorreram à experiência de instituições com tradição na área. Eu fiz isso no início, e quando já estava mais à vontade nesse universo comecei a receber visitas de colegas para conhecer o trabalho da Biblioteca da ECA. Conheci dessa forma muitos bibliotecários preocupados por não saber como tratar o acervo sob sua responsabilidade que, provavelmente, acabaram aprendendo. Também conheci administradores que nem imaginavam que um bibliotecário poderia resolver seu problema, até porque nem sabiam o que era um bibliotecário, e outros que não conseguiam contratar um profissional com experiência ou algum conhecimento na área de audiovisual. Mas o pior foi topar com gente que contratou bibliotecário e se arrependeu, porque o profissional só enxergava uma forma de trabalhar, seguindo aquelas normas que aprendeu na faculdade como se fossem leis de um livro sagrado e teimando em ignorar a opinião do usuário de seus serviços.

Sempre tive a sensação de que estávamos perdendo uma fatia do mercado de trabalho que poderia ser muito promissora para bibliotecários, por culpa, sobretudo, da formação deficiente que recebemos. Já reclamei disso no meu blog Dia de Greve, Dia de Trabalho, onde reclamo o tempo todo.

Fora do discurso vazio, na dura realidade, o status quo da biblioteconomia só se preocupa com documentos textuais e não entende muito outras linguagens e formas de expressão. Reparem que não estou me referindo a simples diferenças de suportes, a coisa não é tão simples como pretendem os que dizem que “é tudo a mesma coisa, só muda o suporte”. Para atender às necessidades de  usuários de acervos de imagens ou de música, por exemplo, é preciso saber um pouco mais do que preencher corretamente os 007 e 300 do MARC. Já escrevi um pouco sobre essa questão em alguns textos de um blog sobre documentação audiovisual, onde também reclamo bastante (porque sou uma bibliotecária muito rabugenta):

http://imagemfalada.wordpress.com/2012/05/14/antes-que-o-diabo-saiba/

http://imagemfalada.wordpress.com/2012/04/07/calma-uma-coisa-de-cada-vez/

http://imagemfalada.wordpress.com/2012/01/11/a-regra-do-jogo/

Um artigo recente da revista El Profesional de la Información, Rasgos y trayetorias de la documentación audiovisual,  coloca em termos bastante concretos os meus receios. O autor observa que ao crescimento da produção e circulação da informação audiovisual não estaria correspondendo um crescimento proporcional da gestão documental desses conteúdos. Muito se produz e se usa, mas pouco se organiza. Uma das razões apontadas no artigo é o fato de que os novos sistemas digitais de produção audiovisual transferem ao próprio produtor-usuário funções antigamente próprias dos arquivos, como a inserção de metadados e a busca. E bota o dedo numa ferida antiga e difícil de curar:

Observa-se que existe uma distância entre os programas acadêmicos das graduações em biblioteconomia e documentação, orientados monograficamente à gestão da informação, e os perfis profissionais demandados em determinados setores, como o multimídia, onde a gestão de informação não ocupa um lugar independente, mas integrado em outras atividades da organização (p. 11).

Resumindo, não conseguimos dar conta do recado, apesar de existir a demanda por um serviço que, em tese, poderíamos oferecer. E a tecnologia veio ajudar os próprios usuários potenciais e negligenciados a se virarem sem nossa preciosa mediação.

Outro ponto interessante do artigo é a constatação de que grandes arquivos audiovisuais analógicos permanecem, na Espanha, à espera de projetos de conservação e digitalização. O risco de perda de documentos é expressivo: gravações em vídeo da década de oitenta, por exemplo, já mostram sinais de deterioração. Uma das dificuldades a enfrentar é a falta de um inventário nacional desses arquivos. Sabe-se que existem talvez milhares, mas não se sabe ao certo o que contêm. Suponho que a situação no Brasil não seja lá muito diferente, embora o autor mencione nosso país como um dos que inseriram “a preservação do patrimônio audiovisual dentro de um conceito mais amplo de identidade cultural” (p. 8), dado sem dúvida positivo.

Minha conclusão pessoal é que  ainda somos necessários, embora a perda de espaço já seja um fato. Ainda existem acervos importantes precisando de tratamento, mercado potencial para profissionais da informação que saibam o que fazer ou aprendam muito rápido.  Mas quanto tempo ainda resta, isso eu não sei.

 

O paraíso de Borges

Uma das citações mais queridas dos bibliotecários, bastante divulgada pelas redes sociais sem a fonte, é uma frase de Jorge Luis Borges sobre bibliotecas:

“Sempre imaginei o paraíso como um tipo de biblioteca”.

Quando leio isso costumo dizer que eu também imaginava, até começar a trabalhar em uma. Sim, porque a ideia romântica que as pessoas que gostam de ler têm de bibliotecas raramente coincide com a realidade da instituição biblioteca, que não é feita apenas de leitura e saber, mas de funcionários nem sempre simpáticos, estantes nem sempre bonitas, regras e regulamentos nem sempre razoáveis, administradores nem sempre competentes e verbas geralmente curtas. Por isso sempre imaginei que Borges não estivesse pensando na instituição, mas apenas na ideia de uma bela coleção de livros à espera de leitores vorazes.

Aí resolvi ir atrás da fonte, buscazinha básica que as pessoas que compartilham a frase no Facebook bem que poderiam ter feito, já que não dói nada.

A frase é um dos versos do “Poema de los dones”, que Borges escreveu em 1955 quando, já cego, foi nomeado diretor da Biblioteca Nacional da Argentina.

Nadie rebaje a lágrima o reproche
Esta declaración de la maestría
De Dios que con magnífica ironía
Me dio a la vez los libros y la noche.
[…]
Lento en mi sombra, la penumbra hueca
exploro con el báculo indeciso,
yo, que me figuraba el Paraíso
bajo la especie de una biblioteca.

Borges repetiu frase em 1977 durante uma conferência no teatro Coliseo de Buenos Aires sobre o tema da cegueira, recordando a ironia de sua situação: viver cercado por milhares de livros que não podia mais ler.

Poco a poco fui comprendiendo la extraña ironía de los hechos. Yo siempre me había imaginado el Paraíso bajo la especie de una biblioteca. Otras personas piensan en un jardín, otras pueden pensar en un palacio. Ahí estaba yo. Era, de algún modo, el centro de novecientos mil volúmenes en diversos idiomas. Comprobé que apenas podía descifrar las carátulas y los lomos. (BORGES, p. 53).

Mas será mesmo que o gênio cego sempre associou as bibliotecas ao paraíso?

Na biografia de Borges escrita por Marcos-Ricardo Barnatán, encontrei o seguinte relato. Em 1937 o escritor, premido por problemas financeiros, teve que arrumar emprego na Biblioteca Municipal Miguel Cané, uma biblioteca de bairro em Buenos Aires. De acordo com o autor, “os nove anos em que permaneceu no cargo, que além subalterno era muito frustrante porque consistia em catalogar livros, foram uma autêntica humilhação para Borges.” (BARNATÁN, p. 296).

A biblioteca tinha excesso de pessoal, com 50 funcionários fazendo o trabalho que 15 dariam conta. Borges catalogava e classificava, mas pensava que a coleção era tão pequena que o catálogo quase não era necessário. Era só uma coisa complicada inventada pelos funcionários para justificar seu salário.  Mas trabalhou “honestamente” em seu primeiro dia, classificando 400 livros, enquanto os colegas classificaram apenas 100.

Pera aí … como assim, Borges? Quatrocentos ou mesmo cem livros num dia é uma produção impossível. O que será que o escritor entendia por classificação? Tirar os livros de uma caixa e botar na estante? E se ele e os coleguinhas vagabundos “classificavam” 500 livros por dia, como é que a biblioteca não precisava de catálogo? Enfim, os indolentes o pressionaram a ficar na marca segura de 103 títulos após o terceiro dia de trampo, para evitar desemprego em massa na Miguel Cané.

Talvez Borges estivesse brincando ou exagerando de forma retórica, mas sem o contexto da história não dá para saber.  Gostaria de tirar a dúvida na fonte original das declarações de Borges, mas o infeliz do Barnatán não sabe fazer citação.  Simplesmente bota o texto entre aspas e pronto, temos que adivinhar de qual das dezenas de livros da bibliografia tirou o relato sobre a feroz atividade de processamento executada na Miguel Cané.

De qualquer forma, foram “nove anos de profunda infelicidade” para o escritor, levando uma “existência servil e miserável”. O sofrimento era agravado pelo fato de que, para Borges,  sua vida cotidiana “anônima e deprimente” parecia  estar em desacordo com a reputação literária bastante sólida  que já possuía na época.  (BARNATÁN, p.  296 – 297).

Nada mais longe da ideia de paraíso, me parece.

A vingança de Borges teria sido usar o tempo roubado ao trabalho humilhante de “bibliotecário” para escrever. Um dos contos escritos nessa época foi A biblioteca de Babel, para Barnatán ( p. 305)  uma “metáfora pesadelesca” da Miguel Cané. Talvez.

Eu, particularmente, acho que esse conto não tem absolutamente nada a ver com bibliotecas. O que vocês acham?

BARNATÁN, Marcos-Ricardo. Borges: biografia total. Madrid: Temas de Hoy, 1995.

BORGES, Jorge Luís.  Siete noches. Mexico, DF:  Editorial Meló, 1980.

A foto é minha, feita na Oficina Brennand, em Recife, que me fez pensar em Borges.