A Grande Biblioteca

Os bibliotecários até que se animaram mas, que pena, a tal série The Librarians é irremediavelmente ruim. O gênero fantasia infanto-juvenil costuma contar com minha indulgência, sou capaz até de assistir Grimm, outra bela porcaria da televisão, mas tenho meus limites. Não consegui ver nem um episódio completo, porque produções assim tão bobinhas me irritam demais.

Mas fiquei pensando que daria pra fazer uma série interessante ambientada numa biblioteca, com enfoque realista e tudo. Por que não? Existem séries que se passam em escolas, firmas de advocacia, escritórios de sei lá o quê e outros cenários que, na vida real também não são lá muito charmosos. E hospitais, então? A gente encontra umas três séries hospitalares diferentes em cada dia de programação da TV. Ah, mas médicos e advogados são mais interessantes, salvam vidas, tiram inocentes da cadeia, essas coisas. A gente só faz psiu e tira livros da estante, de acordo com a visão corrente.

Será mesmo? Penso que tudo depende de roteiristas, diretores e atores. Vamos ver como isso poderia ser.

Nosso cenário seria uma grande biblioteca pública ou a biblioteca central de uma universidade, porque precisamos de muitos personagens, escadarias imponentes e grande quantidade de estantes. De bibliotequinha acanhada bastam as da vida real. Tenho dúvidas de qual seria a melhor opção: a pública, por seu público mais variado, ou a universitária, por ter alunos e professores. Só o relacionamento professor-bibliotecário já garantiria assunto para pelo menos uma temporada.

O usuário vai ser tema importante na série. Em cada capítulo veremos pelo menos uma história de usuário. Algumas terão continuidade, outras vão começar e terminar no mesmo dia; algumas  serão conhecidas pelos personagens fixos – o pessoal da biblioteca – outras não. Sabem aqueles usuários dos quais a gente não sabe nada e fica apenas imaginando comos e porquês? Então, esses mesmos. No primeiro capítulo veremos um usuário comum, sem nada de excepcional, o tipo que só diz bom dia, obrigado e até logo, que sai da biblioteca e se suicida. Só o espectador fica sabendo, o pessoal da biblioteca nem imagina o que aconteceu.

Os personagens principais serão  dois bibliotecários jovens que acabaram de ser contratados: a moça de temperamento artístico – talvez ela desenhe ou cante, ainda não sei – que fez biblioteconomia por razões de pobreza, como tantos de nós, e o rapaz meio nerd que pensava que biblioteconomia era outra coisa, uma coisa mais tecnológica. Vamos acompanhar os conflitos pessoais e profissionais desses jovens, seu desencanto com a profissão  e, em algum momento,sua a decisão de começar a lutar. Vocês conhecem essa história? Eu conheço.

A chefe da biblioteca acabou de se aposentar, depois de 58 anos de valorosos serviços prestados e virou retrato. A nova chefe é uma daquelas tiazinhas que administra usando sua experiência de dona de casa e mãe, toda senso comum e orações. Boa pessoa, dedicada ao trabalho e responsável, mas com formação deficiente. Aos poucos, a pacata senhora, com medo de perder o cargo, vai cair de boca na paranoia e revelar um lado autoritário que nem todos conheciam. O perigo, como sempre acontece, vai chegar de onde ela menos espera. Seu braço direito, uma bibliotecária simpática e moderninha que não vacila em usar táticas de sedução com propósitos carreirísticos, é quem vai puxar o tapetinho florido da chefia. O objetivo da moça não é apenas o cargo, mas assegurar bons negócios para um fabricante de mobiliário de bibliotecas com quem tem umas tretas. Vocês conhecem histórias parecidas? Eu conheço.

Num dado momento, a equipe da biblioteca vai se dividir entre a tiazinha conservadora, mas honesta, e a arrivista cheia de más intenções, mas com ideias um pouco mais modernas.

Nossos jovens bibliotecários vão arrumar um enorme problema com seu projeto de empréstimo de livros e criação de serviços especialmente dedicados a uma ocupação do movimento dos sem teto próxima à biblioteca. Os funcionários conservadores e os idealistas vão se enfrentar com unhas e dentes.

Teremos histórias de amor, claro, queremos audiência. O jovem bibliotecário terá um rolo com uma funcionária casada com um homem violento, o que pode render alguns momentos de violência e heroísmo entre as estantes e talvez até alguns tiros. A arrivista vai seduzir o introspectivo especialista em conservação, homem de poucas palavras que vai reagir de forma surpreendente ao se perceber enganado. Precisaremos de amores lésbicos, porque num lugar com tantas mulheres seria inverossímil não haver pelo menos uma lésbica. Que poderia ser nossa bibliotecária com pendores artísticos, por que não? E quem seria sua namorada? A dona do restaurante onde a galera almoça ou uma estudante estrangeira que passa tardes inteiras na biblioteca? E vai ter beijo lésbico entre as estantes sim, e se reclamarem vai ter até no balcão de empréstimo.

A estagiária do setor de seleção vai se encantar pelo intelecto refinado que reuniu a linda coleção de livros que a biblioteca recebeu em doação. Nas cartas e velhas fotografias encontradas entre as páginas, nas anotações feitas nas margens e na própria seleção de obras, a estudante de letras vai descobrir aquele que poderia ser o homem da sua vida, se não estivesse morto há uns 10 anos. A magia termina quando ela conversa com a filha do falecido e descobre, por trás da máscara poética, um homem egoísta que, perdido entre seus livros, ignorava o sofrimento da família durante a longa agonia da esposa que morreu de câncer. E os bilhetes e cartas que a filha não quis levar de volta vão parar no lixo reciclável porque, nas palavras da chefe do setor, o defunto “não era nenhum Mário de Andrade pra gente ficar guardando os todos os papeizinhos dele”.
O suspense será garantido por uma suspeita: a chefe da catalogação, ex-militante presa e torturada durante a ditadura, acredita que um de seus carrascos está frequentando a biblioteca.
A primeira temporada deve terminar com a mais temida das tragédias que podem acontecer numa biblioteca: um incêndio. Nossa biblioteca vai sobreviver?

Pronto, agora só falta alguém escrever e produzir isso aí. Vai ser um sucesso, garanto. Quanto ao elenco, já que estou sonhando mesmo, só faço questão de Irhandir Santos e Hermila Guedes, os demais vocês podem escolher.

 

A foto é do palácio de verão da imperatriz Sissi na ilha de Corfu, Grécia. Já que estamos sonhando.

Sobre fantasmas, livros e tigres

Toda biblioteca tem ou teve uma sala 7? A pergunta há anos me intriga, desde que a sala 7 da biblioteca onde trabalho deixou de existir, mas continuou existindo. Era a sala do “processamento técnico” na época em que comecei a trabalhar, o lugar para onde os usuários eram enviados à procura de livros supostamente não catalogados. “Deve estar na sala 7, vai na sala 7”. Reformamos nossas instalações duas vezes, botamos abaixo a sala 7, mas os funcionários antigos continuaram mandando usuários pra lá por muitos anos. Ainda hoje, quase 20 anos depois da extinção da sala com essa numeração, ainda me aparecem usuários perguntando pela sala 7, só que de outras bibliotecas. Curioso.

Bibliotecas guardam pequenos segredos. Como os bilhetinhos oferecendo ou solicitando préstimos sexuais que às vezes são encontrados entre as páginas de um livro. Os autores das mensagens contam que a sorte as leve até um parceiro potencial, como se os livros fossem garrafas jogadas no mar? Ou existiria um método para determinar que tipo de livro tem mais chances de chegar às mãos da mulher tatuada certa ou do homem peludo com as dimensões adequadas? E se um desses bilhete for encontrado daqui a 25 anos pelo filho de quem o colocou lá? As indagações são tantas que dizem haver grupos de pesquisa estudando estratégias de busca para encontrar os livros bilhetados.

Especula-se nos círculos acadêmicos sobre a não comprovada existência do livro sem fim, também conhecido como livro travado. Trata-se uma uma obra que ninguém jamais conseguiu terminar de ler, porque todos param na página 54, segundo algumas fontes, 62 em versões mais modernas, e não conseguem ir adiante. Como ninguém chegou até o fim, ninguém sabe como termina. Dizem que os espertinhos que tentaram começar a leitura pelo final não viveram para contar o que leram.

Os livros que mudam de cor são um tormento na vida dos usuários. Ontem o livro de capa verde estava lá no cantinho dele. Hoje não está mais. Sumiu? Foi emprestado? Não, mudou de cor. Menos travessos, mas igualmente surpreendentes, são os livros que suspiram quando são manuseados, principalmente quando acariciamos suas capas. O fenômeno já foi observado por muitos bibliotecários e encadernadores, mas continua assustando mortalmente leitores desavisados.

Um estudante de música comprou um disco raro num sebo e resolveu, inspirado por velhos filmes de terror, tocá-lo ao contrário. E ouviu, nitidamente, uma voz anunciando: ” o grande Deus Pã morreu“. O disco teria sido doado a uma biblioteca pelo colega de apartamento do rapaz, depois que ele sumiu. Alguns estudantes tentaram localizar o disco, mas era uma gravação obscura e ninguém sabia como procurar. A bibliotecária disse que se quisessem ouvir ao contrário todos os 6784 discos do acervo, seria um prazer ajudá-los, mas que havia uma boa chance do tal disco ter sido descartado. A história se espalhou e despertou curiosidade entre os amantes do bizarro. Encontrar o disco virou uma espécie de jogo, baseado em procurar nomes de músicos que soam bem quando lidos ao contrário, fazer anagramas de títulos de óperas ou encontrar palíndromos. Os adeptos da brincadeira tendem a se tornar obsessivos, o que levou alguns de seus colegas a imaginar que estão a caminho de criar uma seita. Mas há quem se recorde do boato sobre a morte de Paul McCartney nos anos sessenta e defenda que os malucos que afirmaram ter ouvido “Paul is dead” num disco da banda na verdade ouviram “Pan is dead“. Mas que a frase só pode ser ouvida por flautistas que tenham ouvido absoluto.

Professores sisudos criticam essas bobagens, para eles fundadas em velhas superstições pagãs, e conclamam os alunos que não têm o que fazer a se dedicarem a atividades mais produtivas, como resgatar do depósito de livros não catalogados de uma das bibliotecas da universidade um esquecido volume da Enciclopédia Britânica que teria um verbete sobre uma cidade que nunca existiu. Outros docentes avisam, preocupados, que é melhor deixar isso pra lá.

E que dizer dos registros fantasmas, que não remetem a nada no acervo? Criados por bibliotecários entediados, cansados de catalogar sempre as mesmas coisas, segundos os céticos. Materializações dos desejos dos leitores, ou de acadêmicos que morreram antes de concluir a tese, de acordo com espíritos mais poéticos. O contrário também pode acontecer, para aflição dos picaretas acadêmicos que praticam ficção curricular. Já foram encontrados nas bibliotecas digitais trabalhos falsos dando existência real a itens inventados do currículo Lattes. A característica mais temível desses textos são os grosseiros erros conceituais  e as ilustrações ferozmente pornográficas que envergonham até o mais tosco dos picaretas. Ninguém sabe quem é o criador dessas abominações. Os bibliotecários acolhem as reclamações dos autores ofendidos com solidárias exclamações: ” que horror, não? Não há mais respeito na nossa sociedade, o mundo está perdido mesmo“.

Outros mistérios são tão soturnos que nem chegam a se espalhar entre os usuários, como o do vírus maldito, uma página que surge em resposta a uma busca qualquer no banco de dados e mostra a face da morte.

A moça dos óculos quebrados pode ser vista entre as estantes poucos minutos antes do fechamento da biblioteca, trocando angustiadamente os livros de lugar. Suas roupas têm manchas de sangue fresco e as lentes dos óculos estão partidas. Quando alguém a vê e vai alertar os funcionários sobre a estranha perdida entre as estantes, não a encontram mais. E ninguém a vê sair, assim como não a viram entrar.

Em muitas bibliotecas já aconteceu o seguinte fato, com pequenas variantes: um funcionário volta para pegar um objeto esquecido depois que a biblioteca fechou e escuta, arrepiado, os sons familiares do carrinho sendo empurrado e dos livros sendo guardados nas estantes. Os funcionários mais corajosos acendem as luzes para ver se  sobrou alguém andando por lá, mas nunca há ninguém, nem mesmo a moça dos óculos quebrados. Como em toda biblioteca sempre há uma senhora que guardava livros e faleceu há algum tempo, normalmente a culpa recai sobre o fantasma dessa dedicada funcionária. Lenda criada para desestimular os alunos que fazem a gente reabrir a biblioteca porque esqueceram suas bolsas? Talvez.

Tradicionalmente, bibliotecários adoram acolher e criar gatos nas bibliotecas. Eu mesma jå fiz isso, gatos e bibliotecários têm um elo tão forte quanto os cães e os caçadores. Mas pouca gente sabe que, em sua mesa numa sala 7 qualquer, a estagiária tímida e decepcionada em seu primeiro trabalho sonha com um tigre.

Algumas dessas histórias foram completamente inventadas por mim. Outras de fato aconteceram e boa parte delas são referências literárias. A vocês a tarefa de descobrir.

foto: José Estorniolo Filho. Palais Idéal.

 

USP, greve e bibliotecários

Neste momento preciso de minha vida profissional, sou uma bibliotecária em greve. Não é a primeira vez – na verdade deve ser a trigésima primeira greve da minha carreira – e duvido muito que seja a última.

Quem nunca fez greve na vida e morre de curiosidade para saber como é a coisa, ou simplesmente tem interesse acadêmico específico nos mecanismos que regem as greves na Universidade de São Paulo, pode encontrar informações acuradas dignas da bibliotecária que sou no meu blog,  Dia de Greve, Dia de Trabalho. Comecei esse blog na greve de 2010 da USP e não parei mais.  Mas não escrevo apenas sobre greve, até porque nossas greves, afortunadamente, não duram tanto assim.

Neste momento as três universidades estaduais paulistas estão em greve, basicamente por reajuste salarial,  mas não só por isso. Nunca é só por isso, mas geralmente é assim que começa: funcionários e professores reivindicam X de reajuste, recebem metade de X ou não recebem nada, como aconteceu conosco desta vez. Reajuste zero. Tudo sobe, o plano de saúde, a escola das crianças, o aluguel, a prestação da casa etc. Mas o salário permanece igual.

De acordo com o Conselho dos Reitores das Universidades Paulistas, que chamamos pela simpática sigla CRUESP, o reajuste não é possível porque não há dinheiro. A principal culpada pela dureza acadêmica é a assim chamada crise financeira da USP, cuja folha de pagamento estaria consumindo 105 por cento de sua receita. Portanto, a USP estaria  vivendo de suas reservas que, obviamente, teriam data certa para acabar: depois que acabar a água da represa da Cantareira, destruída pela sinistra incompetência do governo paulista, o mesmo que escolhe os reitores das universidades. A água dizem que vai acabar em agosto, as reservas da USP ainda duram mais um pouco.

A Folha de São Paulo, mais do que depressa, já vem com a eterna solução: cobrar mensalidades dos alunos, acabando de vez com qualquer chance de um jovem de família pobre entrar na preciosa Universidade de São Paulo, para todo sempre destinada a ser propriedade da elite.

A Folha, assim como uma assombrosa quantidade de seres humanos e veículos de comunicação, apresenta como verdade inquestionável a sangria de 105 por cento que ocorre segundo quem? Ora, segundo a Reitoria da mesma instituição na qual se dizia, até o ano passado, que “a USP tem dinheiro sobrando”, “dinheiro não é problema” e até mesmo “vocês precisam gastar mais dinheiro”, uma instituição cujo discurso dominante fazia o funcionário que não “gastava dinheiro” sentir-se incompetente, porque se as coisas não iam bem, certamente não era por falta de verba. O atual reitor culpa a gestão anterior que, de fato, não primava pela sobriedade, mas não podemos esquecer que é a mesma universidade. As pessoas que a dirigiam antes não morreram todas de repente e foram substituídas por alienígenas criados em vagens gigantes, certo?

Então, como saber se realmente a folha de pagamento está consumindo 105 por cento da verba e se a USP está à beira da catástrofe? Simplesmente não dá para saber, porque não temos acesso às contas da Universidade. E se não temos como contestar, também não vejo motivos para acreditarmos piamente.

Neste vídeo de um debate com representantes da Associação dos Docentes da USP sobre os números divulgados pela Reitoria, os professores Otaviano Helene e Ciro Teixeira Correia questionam as vozes oriundas do Olimpo com informações que jamais aparecem na grande imprensa. O vídeo é longo e não está editado, por isso vou destacar alguns trechos. De acordo com esses docentes rebeldes:

  •  tivemos perdas reais de poder aquisitivo de 7 por cento, contando apenas os efeitos da inflação (03:05);
  • os números do crescimento do ICMS não indicam a catástrofe financeira que está sendo anunciada (05:36);
  • O gráfico distribuído pela Reitoria que mostra a diminuição das reservas da USP contém um erro que faz a situação parecer pior do que é de fato (11:28).
  • se os gastos excessivos da gestão anterior forem contidos, a situação financeira da USP estará equilibrada em um ou dois anos, sem necessidade de arrochar salários (12:55).
  • o impacto do reajuste salarial sobre as contas da USP não é tão grande quanto dizem (13:50).
  • na proposta orçamentária para 2014 aprovada pelo Conselho Universitário da USP já estava previsto o reajuste dos professores e funcionários (23:17).
  • dados da reitoria sobre a “queima orçamentária” não consideram rendimentos de aplicação das reservas e nem as receitas próprias da Universidade (28:50).
  • despesas com obras em andamento – que ninguém sabe o que são e porque foram feitas – e “restos a pagar de 2013” presentes na previsão orçamentária para 2014 equivalem a quase duas folhas de pagamento (30:54).
  • O comprometimento da verba com a folha de pagamento não é o que está sendo dito (36:00).
  • Contribuição previdenciária é o que pode estar aumentando o comprometimento da verba, e não os reajustes salariais, mas os dados sobre isso não estão abertos para a comunidade (38:15).
  • O governo não repassa todos os recursos que são arrecadados com fonte ICMS: os juros de refinanciamento de pagamentos atrasados, por exemplo, não entram na conta; para as prefeituras o repasse é feito, mas não para as universidades (45:30).

Muito do que se diz nos meios de comunicação sobre a USP é engolido com facilidade pela população, graças à fama de elitista e arrogante que a instituição carrega, fama até certo ponto justificada. Em todas as nossas greves, quando somos invariavelmente atacados pelo discurso contrário à universidade pública que domina a imprensa, discutimos a necessidade de ações que mostrem para a população a real importância da Universidade e do conhecimento que ela produz. Mas isso nunca acontece. Parece que a questão só interessa à parcela da população uspiana que faz greve, e essa turma não manda nada. E os poucos que passam eventualmente a mandar, mudam rapidamente suas prioridades.

Bibliotecários poderiam ter um papel importante nessa briga, considerando nossa habilidade para buscar, analisar e transmitir informações, além do fato de ocuparmos posição privilegiada entre o universo do trabalhador “peão” e o mundo dos pesquisadores. Somos funcionários, vivemos com os pés no mundo real, sabemos o que é uma licitação e porque demora tanto para comprar um livro ou consertar uma janela, mas também circulamos com tranquilidade no espaço onde se produz o conhecimento acadêmico, sabemos de onde sai uma tese e temos um papel claro bem claro nesse processo. Além disso, somos muitos: cerca de 400, se não estou enganada.

Mas também não mandamos nada. Vivemos condicionados pela “mecânica de obediência vertical ao poder central”, expressão usada pelo professor Andrian Pablo Funjul na Folha de São Paulo que explica maravilhosamente as relações de poder na USP. Temos nossas chefias de biblioteca, que só não decidem tudo sozinhas se não quiserem, porque nada as impede, e o Departamento Técnico do Sistema de Bibliotecas, cujas prioridades podem ser decididas pela vontade de quem o chefia, sem que exista nenhum mecanismo institucional eficiente para evitar isso.

Bibliotecários não costumam atuar politicamente enquanto categoria dentro da USP, a não ser em questões bastante pontuais, como o movimento que fizemos há alguns anos para barrar a imposição de um software para o Banco de Dados Bibliográficos da USP.

Muitas bibliotecas da USP estão fechadas por causa da greve. Não dá para saber quantos bibliotecários estão em greve, porque algumas bibliotecas fecham porque os técnicos entram em greve. Tenho visto muitos bibliotecários participando das atividades de greve, mas ainda são poucos em relação à quantidade de bibliotecas que está fechada. Dizem alguns colegas que muitos estão trabalhando atrás das portas fechadas de suas bibliotecas e outros, provavelmente, foram para suas casas. É uma pena, porque um momento de greve seria uma excelente oportunidade para nos encontrarmos, discutirmos nossos problemas específicos e encontrar uma forma de atuarmos politicamente na Universidade. E fazer nossa voz ser ouvida, para variar um pouco. Mas, lamentavelmente, nem temos uma liderança capaz de articular o pessoal.

Mas esta greve ainda não terminou. Nem a USP. Nem as bibliotecas. Ainda temos algum tempo.

A grande ilusão

Trabalhei com documentação audiovisual durante toda a minha vida profissional. Comecei organizando uma filmoteca, no tempo em que o suporte para o cinema amador ou para filmes destinados ao uso didático era a película em 16 milímetros. Depois veio um caótico acervo de fotografias e slides, mais tarde aprendi a catalogar discos e partituras e quando surgiu o videocassete, criei uma videoteca. Trabalhei com conservação, migração de suportes, digitalização, tratamento da informação, seleção e aquisição, atendimento ao público. Desenvolvi metodologias de tratamento para esses documentos e preparei dois manuais para compartilhar a experiência.

Tive o privilégio de ter sido aluna da Johanna Smit, convivido e trocado ideias com ela ao longo desses anos todos de trabalho na ECA/USP. Lá no início dos anos 80 os professores do curso de biblioteconomia já diziam,  com aquela carinha de professor  que descobriu algo muito importante e está alertando as crianças para o fato , que “bibliotecários não trabalham só com livros, hoje as bibliotecas tem vários tipos de documentos” e que “nós trabalhamos com informação, não com livros”. E provavelmente já diziam coisas assim antes, mas eu não ainda estava lá para ouvir.

O problema é que essas afirmações, que gosto de chamar de “a grande ilusão” por motivos essencialmente cinematográficos, só se tornavam realidade palpável na aula da Johanna, enquanto as demais tratavam mesmo de livros. E lá se foram mais de 30 anos. Suportes que na época ainda não existiam hoje já estão praticamente extintos, e os alunos de hoje continuam reclamando da mesma coisa: por mais que se apregoe o contrário, nos cursos de biblioteconomia só se aprende a trabalhar com livros.

Para suprir as deficiências de sua formação, bibliotecários que trabalham com documentos audiovisuais sempre recorreram à experiência de instituições com tradição na área. Eu fiz isso no início, e quando já estava mais à vontade nesse universo comecei a receber visitas de colegas para conhecer o trabalho da Biblioteca da ECA. Conheci dessa forma muitos bibliotecários preocupados por não saber como tratar o acervo sob sua responsabilidade que, provavelmente, acabaram aprendendo. Também conheci administradores que nem imaginavam que um bibliotecário poderia resolver seu problema, até porque nem sabiam o que era um bibliotecário, e outros que não conseguiam contratar um profissional com experiência ou algum conhecimento na área de audiovisual. Mas o pior foi topar com gente que contratou bibliotecário e se arrependeu, porque o profissional só enxergava uma forma de trabalhar, seguindo aquelas normas que aprendeu na faculdade como se fossem leis de um livro sagrado e teimando em ignorar a opinião do usuário de seus serviços.

Sempre tive a sensação de que estávamos perdendo uma fatia do mercado de trabalho que poderia ser muito promissora para bibliotecários, por culpa, sobretudo, da formação deficiente que recebemos. Já reclamei disso no meu blog Dia de Greve, Dia de Trabalho, onde reclamo o tempo todo.

Fora do discurso vazio, na dura realidade, o status quo da biblioteconomia só se preocupa com documentos textuais e não entende muito outras linguagens e formas de expressão. Reparem que não estou me referindo a simples diferenças de suportes, a coisa não é tão simples como pretendem os que dizem que “é tudo a mesma coisa, só muda o suporte”. Para atender às necessidades de  usuários de acervos de imagens ou de música, por exemplo, é preciso saber um pouco mais do que preencher corretamente os 007 e 300 do MARC. Já escrevi um pouco sobre essa questão em alguns textos de um blog sobre documentação audiovisual, onde também reclamo bastante (porque sou uma bibliotecária muito rabugenta):

http://imagemfalada.wordpress.com/2012/05/14/antes-que-o-diabo-saiba/

http://imagemfalada.wordpress.com/2012/04/07/calma-uma-coisa-de-cada-vez/

http://imagemfalada.wordpress.com/2012/01/11/a-regra-do-jogo/

Um artigo recente da revista El Profesional de la Información, Rasgos y trayetorias de la documentación audiovisual,  coloca em termos bastante concretos os meus receios. O autor observa que ao crescimento da produção e circulação da informação audiovisual não estaria correspondendo um crescimento proporcional da gestão documental desses conteúdos. Muito se produz e se usa, mas pouco se organiza. Uma das razões apontadas no artigo é o fato de que os novos sistemas digitais de produção audiovisual transferem ao próprio produtor-usuário funções antigamente próprias dos arquivos, como a inserção de metadados e a busca. E bota o dedo numa ferida antiga e difícil de curar:

Observa-se que existe uma distância entre os programas acadêmicos das graduações em biblioteconomia e documentação, orientados monograficamente à gestão da informação, e os perfis profissionais demandados em determinados setores, como o multimídia, onde a gestão de informação não ocupa um lugar independente, mas integrado em outras atividades da organização (p. 11).

Resumindo, não conseguimos dar conta do recado, apesar de existir a demanda por um serviço que, em tese, poderíamos oferecer. E a tecnologia veio ajudar os próprios usuários potenciais e negligenciados a se virarem sem nossa preciosa mediação.

Outro ponto interessante do artigo é a constatação de que grandes arquivos audiovisuais analógicos permanecem, na Espanha, à espera de projetos de conservação e digitalização. O risco de perda de documentos é expressivo: gravações em vídeo da década de oitenta, por exemplo, já mostram sinais de deterioração. Uma das dificuldades a enfrentar é a falta de um inventário nacional desses arquivos. Sabe-se que existem talvez milhares, mas não se sabe ao certo o que contêm. Suponho que a situação no Brasil não seja lá muito diferente, embora o autor mencione nosso país como um dos que inseriram “a preservação do patrimônio audiovisual dentro de um conceito mais amplo de identidade cultural” (p. 8), dado sem dúvida positivo.

Minha conclusão pessoal é que  ainda somos necessários, embora a perda de espaço já seja um fato. Ainda existem acervos importantes precisando de tratamento, mercado potencial para profissionais da informação que saibam o que fazer ou aprendam muito rápido.  Mas quanto tempo ainda resta, isso eu não sei.

 

O paraíso de Borges

Uma das citações mais queridas dos bibliotecários, bastante divulgada pelas redes sociais sem a fonte, é uma frase de Jorge Luis Borges sobre bibliotecas:

“Sempre imaginei o paraíso como um tipo de biblioteca”.

Quando leio isso costumo dizer que eu também imaginava, até começar a trabalhar em uma. Sim, porque a ideia romântica que as pessoas que gostam de ler têm de bibliotecas raramente coincide com a realidade da instituição biblioteca, que não é feita apenas de leitura e saber, mas de funcionários nem sempre simpáticos, estantes nem sempre bonitas, regras e regulamentos nem sempre razoáveis, administradores nem sempre competentes e verbas geralmente curtas. Por isso sempre imaginei que Borges não estivesse pensando na instituição, mas apenas na ideia de uma bela coleção de livros à espera de leitores vorazes.

Aí resolvi ir atrás da fonte, buscazinha básica que as pessoas que compartilham a frase no Facebook bem que poderiam ter feito, já que não dói nada.

A frase é um dos versos do “Poema de los dones”, que Borges escreveu em 1955 quando, já cego, foi nomeado diretor da Biblioteca Nacional da Argentina.

Nadie rebaje a lágrima o reproche
Esta declaración de la maestría
De Dios que con magnífica ironía
Me dio a la vez los libros y la noche.
[…]
Lento en mi sombra, la penumbra hueca
exploro con el báculo indeciso,
yo, que me figuraba el Paraíso
bajo la especie de una biblioteca.

Borges repetiu frase em 1977 durante uma conferência no teatro Coliseo de Buenos Aires sobre o tema da cegueira, recordando a ironia de sua situação: viver cercado por milhares de livros que não podia mais ler.

Poco a poco fui comprendiendo la extraña ironía de los hechos. Yo siempre me había imaginado el Paraíso bajo la especie de una biblioteca. Otras personas piensan en un jardín, otras pueden pensar en un palacio. Ahí estaba yo. Era, de algún modo, el centro de novecientos mil volúmenes en diversos idiomas. Comprobé que apenas podía descifrar las carátulas y los lomos. (BORGES, p. 53).

Mas será mesmo que o gênio cego sempre associou as bibliotecas ao paraíso?

Na biografia de Borges escrita por Marcos-Ricardo Barnatán, encontrei o seguinte relato. Em 1937 o escritor, premido por problemas financeiros, teve que arrumar emprego na Biblioteca Municipal Miguel Cané, uma biblioteca de bairro em Buenos Aires. De acordo com o autor, “os nove anos em que permaneceu no cargo, que além subalterno era muito frustrante porque consistia em catalogar livros, foram uma autêntica humilhação para Borges.” (BARNATÁN, p. 296).

A biblioteca tinha excesso de pessoal, com 50 funcionários fazendo o trabalho que 15 dariam conta. Borges catalogava e classificava, mas pensava que a coleção era tão pequena que o catálogo quase não era necessário. Era só uma coisa complicada inventada pelos funcionários para justificar seu salário.  Mas trabalhou “honestamente” em seu primeiro dia, classificando 400 livros, enquanto os colegas classificaram apenas 100.

Pera aí … como assim, Borges? Quatrocentos ou mesmo cem livros num dia é uma produção impossível. O que será que o escritor entendia por classificação? Tirar os livros de uma caixa e botar na estante? E se ele e os coleguinhas vagabundos “classificavam” 500 livros por dia, como é que a biblioteca não precisava de catálogo? Enfim, os indolentes o pressionaram a ficar na marca segura de 103 títulos após o terceiro dia de trampo, para evitar desemprego em massa na Miguel Cané.

Talvez Borges estivesse brincando ou exagerando de forma retórica, mas sem o contexto da história não dá para saber.  Gostaria de tirar a dúvida na fonte original das declarações de Borges, mas o infeliz do Barnatán não sabe fazer citação.  Simplesmente bota o texto entre aspas e pronto, temos que adivinhar de qual das dezenas de livros da bibliografia tirou o relato sobre a feroz atividade de processamento executada na Miguel Cané.

De qualquer forma, foram “nove anos de profunda infelicidade” para o escritor, levando uma “existência servil e miserável”. O sofrimento era agravado pelo fato de que, para Borges,  sua vida cotidiana “anônima e deprimente” parecia  estar em desacordo com a reputação literária bastante sólida  que já possuía na época.  (BARNATÁN, p.  296 – 297).

Nada mais longe da ideia de paraíso, me parece.

A vingança de Borges teria sido usar o tempo roubado ao trabalho humilhante de “bibliotecário” para escrever. Um dos contos escritos nessa época foi A biblioteca de Babel, para Barnatán ( p. 305)  uma “metáfora pesadelesca” da Miguel Cané. Talvez.

Eu, particularmente, acho que esse conto não tem absolutamente nada a ver com bibliotecas. O que vocês acham?

BARNATÁN, Marcos-Ricardo. Borges: biografia total. Madrid: Temas de Hoy, 1995.

BORGES, Jorge Luís.  Siete noches. Mexico, DF:  Editorial Meló, 1980.

A foto é minha, feita na Oficina Brennand, em Recife, que me fez pensar em Borges.

 

 

Um epitáfio para bibliotecários

Digam aos espartanos, estranhos que passam, que obedientes às suas leis, aqui jazemos.

Os versos do poeta Simônides, inscritos numa lápide no desfiladeiro das Termópilas, são uma homenagem aos espartanos e seus aliados que lá morreram tentando deter a invasão persa. Um heroico epitáfio, sem dúvida, para soldados que sabiam que iriam morrer e que, no final, com as armas destruídas em combate, continuaram lutando com as mãos nuas (PRESSFIELD).

O que me incomoda é que  a frase também poderia servir, se o pior dos futuros possíveis acabar se confirmando, como epitáfio para bibliotecários e bibliotecas. Tirando os espartanos, claro, que não têm nada com isso. E por que diabos cismei de relacionar uma história de 480 a. C com o presente e o futuro da minha profissão? Não sei, mas as palavras “obedientes às suas leis” gravadas numa lápide sempre me vêm à cabeça quando o assunto é a sobrevivência dos bibliotecários, porque penso que, se alguma característica nossa pode nos destruir é a precisamente a obediência, em suas variantes mais populares entre nós: o apego excessivo a regras e o respeito exagerado à autoridade.

Não, nunca fiz uma pesquisa. Não, não passei questionário. Sim, eu sei que não podemos generalizar e que existem bibliotecários para todos os gostos. Aprendi a ser bibliotecária com mulheres que eram exatamente o oposto da boa menina comportada que não desrespeita regra nenhuma, sobretudo as da catalogação. Profissionais cultas, que gostavam da profissão, mas também se interessavam pelo mundo além da biblioteconomia, politizadas, aguerridas e dispostas a lutar com mãos nuas pelo que acreditavam. Algumas delas, ainda na ditadura, participaram ativamente de greves e de atividades sindicais. Para quem não sabe, era necessária alguma coragem para fazer isso naquela época. Talvez por causa desse bom começo, jamais consegui digerir certos diálogos que ao longo dos meus 30 anos atividade. Como esses:

– Mas por que não podemos mudar isso?
– Porque é a regra!

– E se a gente fizesse de outra forma?
– Mas sempre foi feito assim!

– Essa regra serve exatamente para quê?
– Para ficar padronizado!
– E por que tem que ser padronizado dessa forma?
– Porque existe uma regra, oras!

– Mas por que você faz isso?
– Porque o chefe mandou fazer.

– Por que você aceita esse tipo de coisa?
– Porque ele (ela) é o chefe. Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Eu cumpro ordens.

E as “respostas-padrão” nem são o pior. O mais triste é participar de reuniões numa sala cheia de profissionais sérios e competentes que deveriam questionar, ou pelo menos tentar discutir o que está sendo dito pela autoridade de plantão, mas se calam, por indiferença, medo ou por um estranho conceito de “educação” que parte do princípio de que discordar é feio.

Lília Schwarcz, em seu livro sobre D. Pedro II, menciona ensinamentos dos manuais de bons costumes do século 19: “Nunca diga do que gosta e do que não gosta, e evite fazer questões”; “abra mão de suas posições, sempre, e nunca sustente nenhuma discussão, mesmo que tenha certeza de suas convicções.” (SCHWARCZ , p. 201). Talvez esses manuais ainda estejam em vigor e ninguém me avisou.

Tantas demonstrações de conformismo e autoritarismo explícito no meu ambiente profissional me transformaram numa velha senhora pessimista. Teremos massa crítica e criativa suficiente para dar conta das mudanças que precisamos promover para continuar fazendo sentido enquanto profissionais ou vamos mandar recado pros espartanos?

Em meus tempos de estudante de biblioteconomia dividida entre a enormidade do tédio que o curso me provocava e a vontade de ser e fazer algo melhor na profissão que escolhi, meus colegas e eu pensávamos, provavelmente estimulados por alguns professores modernos, que os bibliotecários eram pessoas muito limitadas. E por isso as bibliotecas eram tão ruins. Nós éramos legais, inteligentes, jovens, bonitos e ousados, criativos e radicais. Chamávamos a nós mesmos de “ala punk da biblioteconomia” e estávamos prontos a mudar tudo. As bibliotecas não seriam as mesmas depois que a gente as tomasse de assalto. Posso estar  exagerando um pouco, mas era mais ou menos isso.

E a turma seguinte também pensava assim, as outras turmas também, e isso se repete há uns 30 anos, pelo menos, conclusão à qual cheguei pela observação de várias gerações de estudantes na instituição na qual trabalho desde 1981, a mesma onde me formei no ano seguinte.
Hoje, muitos dos meus colegas daquela época que ainda estão vivos e atuando na área são chefes de bibliotecas, professores de biblioteconomia ou, no mínimo, profissionais experientes. O mundo já virou do avesso várias vezes, muita coisa mudou e nós, de certa forma, tivemos participação nessa mudança, mas também nos tornamos, aos olhos das novas gerações, os velhinhos conservadores e apegados às mesmas regras que tanto criticávamos. Para a molecada que hoje talvez se veja como a “ala funk pancadão da biblioteconomia” ou algo assim, nós somos os bibliotecários obsoletos que só pensam em criar barreiras para impedir a circulação do conhecimento e que serão os únicos responsáveis pela eventual extinção das bibliotecas. E a roda vai continuar girando dessa forma enquanto existirem bibliotecas, bibliotecários, estudantes e professores de biblioteconomia. Digam aos espartanos etc etc …

Mas, de fato, o conformismo dos profissionais é apenas um aspecto do problema. Há mais perigos fora das bibliotecas do que dentro. Nas instituições públicas, entraves de todo tipo criados pela legislação, pela burocracia e por estruturas de poder quase feudais dificultam em níveis deprimentes os processos de mudança e inovação nas bibliotecas. Precisamos melhorar a qualidade dos serviços prestados, mas não podemos escolher pessoal com a qualificação necessária. As instalações físicas precisam ser renovadas, mas não conseguimos comprar mobiliário decente sem os intermináveis pregões ou licitações, cujos resultados muitas vezes são frustrantes. Usuários precisam de acervo atualizado, mas os livros podem levar meses para chegar e não podemos comprar de livrarias virtuais. “Mas esse livro tem na Amazon, é baratinho” quem nunca ouviu essa frase? As bibliotecas precisam de serviços de outros departamentos em suas instituições que desconhecem o conceito de “necessidade do usuário”. E como o conceito de democracia também não é muito popular nas instituições, muitas chefias, bibliotecárias ou não, costumam administrar de acordo com sua conveniência ou gosto pessoal, ou da forma que mais segura sua carreira, contando com a tranquila obediência de seus subordinados. Temos que divulgar nossos serviços e melhorar nossa imagem, mas não podemos contar com um departamento de marketing para nos auxiliar. E aí os usuários concluem que a biblioteca é ruim porque as bibliotecárias- que para eles são aquelas senhoras que guardam os livros na estante ou fazem o empréstimo – são todas umas incompetentes. Olá, espartanos, vocês ainda estão por aí?

Bibliotecas nunca são prioridade real em nenhuma instituição, por mais que se diga o contrário o tempo todo. Bibliotecas não têm presença forte nas comunidades, não fazem parte do cotidiano da maioria das pessoas, não têm a importância que deveriam ter na sociedade. Se todas as bibliotecas fechassem amanhã, é óbvio que haveria reação, porque existem boas bibliotecas e pessoas que as frequentam. Mas se forem minguando e acabando aos poucos, sem alarde, muita gente nem vai se dar conta, porque nem sabe o que é uma biblioteca.

O artigo do The Guardian traduzido e publicado aqui pelo Moreno Barros sobre bibliotecas ressurgindo das cinzas trata de culturas nas quais as bibliotecas sempre foram importantes. Onde se “entremearam no tecido da vida cotidiana”, nas palavras do autor. Aqui não me parece que seja assim. Nossa história é diferente da desses países educados e cultos que nos colonizaram, exploraram e ajudaram a implantar por aqui ditaduras assassinas para nos manter colonizados e explorados.

Sim, sou pessimista, mas não acho que seja impossível virar o jogo. Existem boas ideias em circulação, como demonstram os textos publicados neste bravo Bibliotecários sem Fronteiras.

Então, estranhos que aqui passam, termino com a palavra de ordem que sempre me manteve em pé, mesmo não acreditando que a vitória seja certa: a luta continua.

PRESSFIELD, Steven. Portões de fogo: um romance épico da batalha das Termópilas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000.

SCHWARCZ, L. M. As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo : Companhia das Letras, 1998.

A foto do Monumento a Leônidas é de Carlos Blanco, publicada no Flickr. http://www.flickr.com/photos/crlsblnc/5650417261/