Arquitetura de bibliotecas – edição internacional 2019

Preparem o pacote de dados. Não fiz categorias específicas ou tendências, vou colocar abaixo alguns projetos que gostei, recentes ou nem tanto, critério estritamente pessoal.

Royal College of Surgeons, Dublin

se vc tem dinheiro sobrando, é assim que se faz

Grünerløkka, Oslo – Noruega

Curto demais projetos dessa agência Aatvos, pegada steampunk.

DataLab, Universidade de Stavange – Noruega

Haus der Geschichte, Bonn – Alemanha

Lochal, Tilburg – Holanda

antigo pátio de trens convertido em biblioteca

Fondazione Giangiacomo Feltrinelli, Sala di lettura – Itália

Caulfield Library, Monash University – Australia

Lichfield Library, St Mary’s Church – Inglaterra

JK Murray Library, Universidade de Queensland – Australia

nada de mais mas tem tudo que os alunos precisam. eu gosto da pegada industrial, funciona bem para biblioteca universitária

​University of Roehampton Library, Londres

nada de diferente tb mas parece aconchegante demais

Shellharbour City Library – Australia

meio over talvez, mas curti

O futuro da profissão de bibliotecário

Não tem como não assistir a reportagem da Andreza no globo reporter e não se identificar. Afinal, qual não foi o bibliotecário que acordava às 6 pra ir pra facul e voltava meia noite do estágio mal remunerado, comia aquela marmita vez ou outra estragada, mas fazia tudo isso esperançoso e hoje é um profissional com orgulho dessa saga? Não entendi bem se o programa era sobre o futuro do trabalho ou sobre pessoas que precisaram mudar suas rotinas para garantir um salário. Pagando bem, que mal tem? Ou ainda se era sobre o futuro da educação, porque gostar de aprender como requisito para o mercado de trabalho até ontem pra mim era somente sinônimo de diploma universitário.

De tempo em tempos sai na mídia estudos que indicam que ora a biblioteconomia é uma das profissões mais promissoras para o futuro, ora uma das condenadas a deixar de existir. Eu já fiz minha análise sobre o futuro do nosso trabalho e gosto sempre de acompanhar as taxas de ocupação da profissão. Não sei se o CFB possui esses dados compilados, mas vou chutar que nos últimos 20 anos o número de bibliotecários dobrou, refletindo o aumento no número de escolas de biblioteconomia também nesse recorte de tempo. A nossa população é pequena comparada a outras profissões, mas eu nunca consigo saber ao certo se estamos formando o número adequado de profissionais para a suprir a demanda real de vagas de trabalho, pra mais ou pra menos.

Me recordo quando da data de lançamento da lei da universalização das bibliotecas escolares haveria uma demanda reprimida de cerca de 175 mil vagas de bibliotecários referente aos postos em todas as instituições de ensino no país, e uma média de 20 mil profissionais registrados nos CRBs (considerando a relação dos que se aposentam e registram ao longo dos anos). Comparativamente, parece uma relação muito saudável, mas certamente há agora muitas preocupações sobre o excesso de bibliotecários se formando em um mercado de trabalho saturado, especialmente nas grandes capitais, e a mítica onda de aposentadorias que abriria muitas novas vagas, não parece estar acontecendo na escala prometida (aqui mesmo na firma tem um número grande de gente que já tem idade e tempo de serviço mas que prefere ou precisa continuar trabalhando pra manter a renda). Deve ter até um punhado de graduados que encontram um mercado de trabalho tão hostil que eles voltam para a escola e escrevem dissertações e teses sobre a crise do mercado de trabalho na área de informação. Ou seja, ainda que seja promissora conceitualmente, no mundo real o bibliotecário e outros profissionais estão disputando vaga pra ser entregador do rappi.

A outra equação do futuro do trabalho está no futuro da educação. Desafios de outras épocas como a crescente divergência de objetivos entre o curso de biblioteconomia e o mercado de trabalho, tanto para as habilidades administrativas quanto de administração, continuam os mesmos. Ninguém discorda que não tem como a universidade adequar seus currículos na mesma velocidade que as indústrias alteram suas formas de querer ganhar mais dinheiro. Mas individualmente, se um aluno só vai conseguir obter um pequena fatia de habilidades para o mercado e depois terá que ter contínua “disposição para aprender” então afinal pra que serve a faculdade?

Dizer que o profissional do futuro precisa gostar de aprender é tão óbvio quanto o desafio de aplicar um pacote de teorias e conceitos fundamentais, adaptando os conhecimentos adquiridos não só na faculdade, mas durante toda a vida, aos problemas elementares do trabalho remunerado. É uma estratégia bem simples. Mas não vai ter nenhum requisito de vagas de bibliotecários descrito dessa maneira.

Então bem, que tal fazer um apanhado das descrições de trabalho oferecidos a bibliotecários e traçar um paralelo com os tópicos oferecidos na formação tradicional nas escolas e em cursos de especialização? No linkedin mesmo tem uma variedade de vagas que ou exigem competências demais para o bibliotecário clássico ou trabalhos que exigem competências adicionais que não estão no currículo tradicional mas que poderiam ser realizados por bibliotecários. Isto é, tem as vagas muito tradicionais, as vagas muito especializadas e as propensas vagas. A maior parte dos egressos só consegue competir na primeira linha, que é natural em qualquer profissão, o que causa uma sensação de que o mercado está competitivo demais. Mas acho que existe uma margem grande hoje pra ter currículos flexíveis e professores/instrutores oferecendo disciplinas a distância, compondo um mega currículo agregado entre todas as escolas de biblioteconomia do país. E com isso ampliar a chance de competir naqueles outros dois segmentos de vagas. Mas isso é difícil demais de colocar em prática por conta da burocracia e dos feudos.

Eu fico feliz pela Andreza, que teve a sagacidade de ocupar nichos novos, mudar de cidade em busca de melhores oportunidades, que se manteve fiel ao ethos da profissão atualizando a práxis. Ela muito bem representa a classe. Como fazer agora pra replicar esse espírito, sem que ele seja mero fruto do destino individual?

Tote bag, eco bag, sacola ecológica, bolsa de pano: tem pra vender na loja da biblioteca?

Estava procurando uma bolsa de pano pra dar de presente a mim mesmo mas não encontrei nenhuma loja de biblioteca que tivesse pra vender. Bolsas de pano (tote bad, eco bag, sacola ecológica, como queiram indexar) são bastante comuns em congressos, brindes baratos e úteis de fato, que as pessoas continuam usando mesmo depois dos eventos. Algumas tem desenhos e logos bem feitos, então pow, é um presente legal, tô precisando pra fazer a feira. Essas bolsas são até um item de status, reparem, tem gente que vai em bibliotecas e museus do exterior, compram as bolsas nas lojinhas e depois desfilam aqui.

Bem, então tem algumas questões: por que no Brasil não é comum as bibliotecas terem lojinhas? Tem algumas, claro. Mas essas normalmente não contam com uma venda virtual, caso da Loja do Livro da BN. Tem mais lojinhas em museus, mas por que não também em bibliotecas? Comercializar/lojinhas são tabu em bibliotecas públicas? porque ninguém se espanta com livrarias em shoppings né, mas e se alguma prefeitura decide instalar e bancar uma biblioteca dentro de um shopping por exemplo, daria certo? As pessoas apoiariam a ideia? Ou que uma biblioteca pública grande, como a BMA-SP, lançasse uma pop-up store em algum local na cidade, não só para emprestar livros, mas para vendar produtos da marca? Dá pra conciliar legislação e prática, a biblioteca pública como tal e sua lojinha? Como seria utilizada a grana das vendas? A BP tem que virar uma fundação ou associação de amigos pra poder ter essa lojinha? Você compraria itens de uma loja da biblioteca? Quais tipos de itens, livros, papelaria, camisetas, bolsas?

São perguntas para um TCC quem sabe, acho que não temos muitas experiências desse tipo (já teve biblioteca que substituiu sacolas de plástico por bolsas ecológicas, ótima iniciativa), então mesmo em, ou em função de, um cenário de crise, seria legal a população fazendo uma propaganda das bibliotecas públicas locais, carregando as sacolas como uma consequência da estratégia promovida pelas bibliotecas e um símbolo de status (intelectual, hipster, consumo consciente, sei lá) para quem carrega.

Ainda não encontrei uma bolsa legal aqui no Brasil para presentear, mas fiz algumas buscas e vou deixar abaixo os links de lojas de bibliotecas (e bibliotecas somente, não vale livrarias ou lojas de confecção sob demanda) e as bolsas que gostei mais.

NYPL



Calgary Public Library Foundation


Library of Congress


British Library

Neilson Heys Library

Toronto Public Library Foundation

Brooklyn Public Library

Chicago Public Library

Los Angeles Public Library

State Library New South Wales

Morgan Library

Bodleian Libraries

* foto da Loja do Livro da BN: Alexandre Macieira | Riotur

Censura à pesquisa, censura em bibliotecas: cena de Chernobyl episódio 4

Censura em bibliotecas no Brasil normalmente aparece em quatro versões: censura religiosa, censura ética/social, censura política e censura militar. Censura religiosa é a que historicamente mais aparece nos noticiários e grande mídia (incluir obrigatoriedade de ou excluir bíblias, disputas no sincretismo, etc); censura ética/social acontece normalmente quando querem expurgar de escolas algum livro do tipo que você costuma ler com uma mão só (se é que me entendem meninos e meninas); censura militar mesmo quem não viveu entre 64 e 85 conhece bem, tem a ver com interesses estratégicos e propriedade industrial. Se confunde com a censura política/ideológica, que em governos supostamente democráticos é mais sutil, mas é a que tem aparecido com mais impulso nos últimos anos, desde a redemocratização.

Isso não é um argumento acadêmico, os dados aqui são difusos, mas mesmo considerando os principais casos de censura não lembro de situações extremas recentes que tenham causado a necessidade de algum tipo de reparação na práxis bibliotecária. Muitas das nossas normativas e código de ética em relação à censura são baseadas em preceitos universais do humanismo e democracia, vagos o bastante para se adequar à nossa realidade local. Isto é, para os bibliotecários, seja em uma biblioteca pública, infantil ou lidando com uma coleção especializada, nenhum instrumento de censura pode ser tolerado. Um ponto essencial é que, como trabalhamos com desenvolvimento de acervos, da compra ao descarte, estamos em posição ambivalente de censurar e sermos censurados. Não vou problematizar. Quem quiser saber mais basta procurar nas fontes da área que existem excelentes trabalhos sobre o tema.

Me peguei pensando nesse tema depois que vi o trecho abaixo, da série Chernobyl:

Também não vou problematizar Chernobyl enquanto série, acho que tá claro ali a narrativa ocidental enviesada ainda que o foco seja na tensão entre os pesquisadores/especialistas e os burocratas. A série é muito baseada no livro da Svetlana Aleksiévitch, Vozes de Tchernóbil, que é um trabalho excelente. São dois pontos que me chamaram a atenção nessa cena: fazer pesquisa na era pré-internet e fazer pesquisa sob regime de censura, ou as duas coisas juntas, tudo isso ambientado na biblioteca tradicional.

Eu sinto muita pena de quem tinha que fazer pesquisa na era pré-internet. Se hoje com a velocidade de troca que a gente tem, às vezes as informações ainda são lentas, imaginem naquela época. Pensem na chatice que era vasculhar catálogos de fichas, ter que fazer solicitações para uma bibliotecária gatekeeper e ainda ter que esperar semanas ou meses para obter um determinado artigo, sem saber de fato se ele é relevante para a pesquisa. Deixo aqui meus parabéns a todos os pesquisadores e bibliotecários guerreirinhos pré 1990s.

Sinto mais pena ainda de quem tem que fazer pesquisa sob censura. No trecho da série acima, a pesquisadora solicitou algo em torno de 4 artigos, mas o censor disse que ela poderia ter acesso a somente um deles. E este artigo ainda vinha com páginas a menos, por conta da censura. Era informação crucial para a prevenção de um acidente nuclear, mas que foi mantido em sigilo por um estratégia de Estado. Deu ruim.

Bem, as observações que eu pontuei na cena da biblioteca enquadram o tema que a série explora de maneira geral: o perigo de um poder tão centralizado que a verdade e a falsidade se invertem. Quando as sociedades depreciam não apenas o conhecimento especializado, mas também a natureza da própria verdade, a catástrofe inevitavelmente se segue. Se a gente aplicar essa maior mensagem da série de TV à mudança climática, a disseminação de fake news, terra planismo, campanhas anti-vacinas, memes bizarros no whatsapp e facebook, ela é uma fábula perfeita para os nossos tempos. E eu me pergunto: como nós bibliotecários vamos nos posicionar e lidar com isso? (quando for o momento, se ele não for agora)

Nós não estamos vivendo no Brasil um estado totalitário, mas estamos numa realidade onde um estudo da Fiocruz sobre uso de drogas no Brasil acabou de ser censurado. Um projeto de lei do governo prevê eliminar multa para quem levar criança sem o equipamento apropriado no carro, sendo que estudos mostram que o uso da cadeirinha reduz acidentes fatais. Um lugar onde a verdade não é fixa e as referências estão mudando, na medida em que a verdade é de quem a controla. Vira uma espécie de commodity, a gente pode comprar na esquina ou num ad farm chinês.

Eu trabalho na universidade, então eu sei que os pesquisadores tendem a ser ambíguos quanto aos controles sobre a aplicação e comunicação científica, porque ao mesmo tempo que se opõem a qualquer tipo de censura que possa prejudicar sua autonomia, aceitam algumas restrições justamente a fim de proteger a comunidade acadêmica de intervenção externa. Já os políticos simplesmente evitam qualquer repercussão baseada em dados científicos que mostra o impacto das merdas que estão fazendo. Escolha a cor da sua bandeirinha, não faz diferença. A novidade é que, além de tentar impedir pesquisas em áreas ditas sensíveis ou de “menor retorno”, o governo brasileiro atual está tentando forçar os cidadãos a ignorar que o conhecimento existe.

O paradoxo dos desenvolvimentos atuais desses mecanismos de censura é que eles tendem a destruir a base dos direitos civis ao restringir a liberdade intelectual e científica, quando o uso apropriado dessa censura seria para coibir a presença do anti-intelectualismo, convenhamos. Bibliotecários devem ter isso muito claro em mente.

A censura na maioria dos casos práticos é reduzida em um agente censor que acredita que um determinado banimento pode melhorar a sociedade, proteger criancinhas e restaurar aquilo que vê como valores morais perdidos. Os censores tentam usar o poder do Estado para impor sua opinião sobre o que é verdadeiro e apropriado, ou ofensivo e censurável, acima de tudo, acima de todos. Os censores pressionam as instituições públicas, como as bibliotecas, a suprimir e remover informações de acesso público que julgam inadequadas ou perigosas, de modo que ninguém mais tenha a chance de ler ou visualizar o material e decidir por ele. Isso tudo tá bonitinho lá nas diretrizes da IFLA, devemos combater com todas as forças. Mas quando bate aqui, na nossa porta, é duro de assimilar. Eu me sinto em 1986. Parabéns aos envolvidos.

Arquitetura de bibliotecas – edição nacional 2019

O dinheiro acabou pra todo mundo, exceto pras escolas Lemann e do high society paulistano. Mas continuo sonhando com obras e reformas de bibliotecas públicas no pinterest. Não fiz categorias específicas ou tendências, vou colocar abaixo alguns projetos que gostei, recentes ou nem tanto, critério estritamente pessoal.

Centro Educacional Pioneiro, SP

Bernoulli Go, BH

Beacon School, SP

Anglo 21, SP

Escola Eleva, RJ

Insper, SP

Educandario Imaculada Conceição, Florianópolis

Maison de France, RJ

Instituto Quindim, Caxias do Sul

Livro Livre, SP

Casa Plana, SP

Material BA-Z, SP

[créditos]

Centro Educacional Pioneiro e Bernoulli Go: projeto do StudioLux

Beacon School: projeto da Base Urbana

Anglo 21: projeto Novidário

Quindim: projeto de Jessica de Carli, foge bem da pegada das escolas bilingue, excelente. Manteve as características originais do moinho construído no final do século 19.

Eleva: projeto MPGAA

Maison: projeto Peckson

Insper: Athié Wohnrath

Educandario Imaculada Conceição: Studio 8

Casa Plana é livraria, não fazem empréstimo domiciliar, mas eles se auto-intitulam biblioteca, então está aqui pra gente cobrar depois.

Material BA-Z: primeira biblioteca com foco em materiais da América Latina. Aberta para todos os alunos, professores e funcionários da Belas Artes. Público externo, é necessário agendar visita.

Como realizar uma aula pública sobre a biblioteca universitária

Se você tivesse que montar uma banquinha na praça da cidade e explicar como é o trabalho em uma biblioteca universitária, como você faria? Me peguei pensando nisso, já que novamente existe uma pressão para justificar a existência da universidade e seus funcionários (aqui no caso, universidades públicas). Ideologias políticas e biblioteconômicas a parte, concluí que é um pouco difícil fazer essa explicação.

Pessoalmente eu entendo a biblioteca universitária como um conjunto de técnicas aplicadas ao implemento de outras áreas, ou seja, a BU seria uma espécie de meta-ciência, não uma “ciência” propriamente, mas um tipo de atividade no contexto especializado que está ao serviço de outras ciências. Mas como traduzir isso em termos de um entendimento comum, ao público que está fora da universidade?

Talvez essa aula pública pudesse ser um apanhando de experiências diárias, nos moldes do um dia na vida, ou uma espécie de agradecimento ou reconhecimento por parte dos pesquisadores tal qual em uma banca. Claro que em uma aula pública devemos ofertar antes de esperar aplausos e ampla defesa, mas é impressionante que seja tão raro que os acadêmicos de qualquer nível, as pessoas que de fato utilizam as bibliotecas das universidades, falem sobre como bibliotecários moldam seu trabalho quando articulam os métodos da pesquisa.

Pode ter um sido falta de treinamento de pesquisa propriamente ao decorrer de suas carreiras, mas os pesquisadores deveriam pelo menos intimamente reconhecer que as decisões que os bibliotecários tomam impactam o trabalho que eles, pesquisadores, conseguem realizar. No passado e hoje o acesso a coleções (ou falta desse acesso) determina quase toda a pesquisa acadêmica. Bibliotecas são moldadas pelo desenvolvimento dessas coleções, pelas políticas de acesso, gerenciamento de registros e decisões de avaliação feitas por bibliotecários ao longo dos anos, e são essas decisões que impactam as informações que os alunos e pesquisadores conseguem obter, para dar prosseguimento à suas pesquisas.

Quando um pesquisador vai até a biblioteca solicitando determinados materiais, a gente acaba trazendo outros documentos, deixando-o mergulhar a fundo nas coleções. As vezes só podemos oferecer respostas superficiais e acesso limitado aos registros (seja em razão de orçamento e quadro de pessoal insuficientes ou estar sujeitos à políticas restritivas da instituição). As decisões tomadas pelos bibliotecários podem influenciar também nas descobertas eventuais, e nesse caso é necessário o pesquisador confirmar esse processo para articular o desenvolvimento de seus métodos. Este é principal lembrete para bibliotecários de universidades de que todas as nossas decisões moldam o ambiente da pesquisa acadêmica mais profundamente do que nós mesmos tendemos a acreditar.

Ou seja, uma aula pública sobre a BU é bem vinda no momento atual, mas acredito que sempre haverá a oportunidade para desafiar os acadêmicos, mesmo aqueles que agradecem bibliotecários na seção de agradecimentos, a colocar o processo de pesquisa na biblioteca no corpo de seu trabalho e falar sobre como as bibliotecas determinaram e como os bibliotecários auxiliaram suas pesquisas. Se a pesquisa bibliotecária, física ou digital, fizer parte do método, que digam. Se vc faz pesquisa, pense naqueles momentos em que o acesso a coleções de bibliotecas, ou a falta dele, na verdade moldou as escolhas que você tomou. É necessário fazer essa defesa especialmente se a sua experiência de pesquisa na biblioteca tenha sido tão perfeita que você nem pensou em agradece-la.

Nem todo o público, gestores ou políticos entendem a importância e impacto das bibliotecas. Então uma boa maneira de ajudar a defender as bibliotecas na universidade é essa: demonstrar como você as usa.

Cultura e infraestrutura da publicação acadêmica

Apesar do scihub ter ampliado bastante o acesso por meio de leakings o panorama permanece o mesmo: a publicação científica ainda é dominada pelas grandes editoras (com crescentes margens de lucro financiadas pelo erário); a maior parte dos resultados de pesquisa permanece legalmente sob paywalls; pesquisadores dificilmente passam em concursos ou avançam na carreira se não publicarem em top journals; o número de periódicos continua a crescer exponencialmente (apertando ainda mais o gargalo no processo de submissão); problemas de replicação permanecem especialmente por conta desse gargalo (nem os top journals são mais confiáveis); as bibliotecas ainda estão sujeitas ao corpo docente que é intransigente em relação à manutenção das assinaturas de determinados journals; a tecnologia aplicada à literatura ainda é arcaica moldes anos 90 (muitos periódicos não tem hiperlinks, não tem gráficos 3d, não tem seção de comentários, não tem participação aberta, não oferecem plataformas de colaboração, etc); não existem soluções institucionais para armazenar os produtos dos pesquisadores além da produção textual (caso dos repositórios nas principais universidades). Esses pontos estão evidenciados em trabalhos de gente que pesquisa profundamente a publicação científica.

Uma mudança de percepção em relação a minha posição no passado foi a noção que o comportamento dos pesquisadores era determinado pelos incentivos. Mas agora entendo que, para além do benefício pecuniário e obtenção de recursos, uma vez inseridos na cultura da publicação científica, eles não se importam. Isto é, pesquisadores/docentes não se importam em pagar pra ter artigo publicado em gold access. Se eles pesquisam um artigo e o encontram via scihub, não conseguem avaliar em que grau isso é ou não prejudicial às suas carreiras. Não fazem a menor ideia de como as bibliotecas funcionam, rúbricas de pagamento, como o portal capes adquire as assinaturas, qual o real papel das bibliotecas nas avaliações da Capes e Inep, por que o sci-hub existe, por que ainda exigem a impressão de teses nascidas digitais, qual é o argumento central do open access, etc etc. Se importam somente com suas pesquisas e departamentos. Lidar com assinaturas de periódicos, aquisições de livros, implantação de uma cultura de acesso igualitário, não é com eles, essa deveria ser uma responsabilidade da burocracia e infraestrutura. Na verdade eles veem com bastante descrédito o sistema de aquisições, seja de periódicos ou livros. Estão errados? Talvez não. Entendo que eles tem suas razões para se ater ao sistema e ir contra o movimento de ciência aberta: falta de tempo para compreender o cenário amplo, medo de competição, preocupação com privacidade, plágio, etc. Alguns professores criticam minha abordagem defendendo que são conscientes de todo esse cenário, estão fazendo sua parte e que a Capes caminha positivamente. Preferem achar distorcida a realidade em que vivo, tratando minha experiência de bibliotecário em uma BU federal como uma narrativa fora da curva, eu generalizando a publicação a tal ponto que fica difícil para eles convencer seus orientandos a importância de escrever artigos.

Quando eu me dispunha a discutir e falar sobre o tema, em qualquer instância da universidade, minha defesa era simples: periódicos não são mais relevantes para a academia (em função das possibilidades de publicação e disseminação em base web, distinta dos moldes originais da royal society); o valor das assinaturas dos periódicos é tão alto que nos limita a investir na criação de uma infraestrutura própria (coisa que o Ibict capitania no Brasil, mas passaram muitos anos desde Budapeste e o parágrafo inicial permanece. O portal Capes é ótimo, não é o problema, mas ofusca o entendimento do panorama maior. Quanto custa anualmente o portal capes inteiro? E se esse dinheiro fosse revertido em outras frentes que não assinaturas?)

Atualmente o custo estimado da publicação mundial é 10 bi dólares anuais; o valor de assinatura de um top journal é da ordem de 5k por artigo. APC (article processing charges) varia entre 100 e 5k dólares. Os movimentos recentes estão na direção em que os recursos/verba devem ser usados para a publicação em vez da leitura (e ainda idealmente os casos de rompimento da alemanha, suécia, california com elsevier, plano S e Fapesp indo green access). O desafio é participar de discussões e atuar na prática em estratégias de acesso aberto total, convencer Capes (na figura do portal) e bibliotecas (como fornecedoras das avaliações e solicitações de assinatura) que é do melhor dos interesses cancelar assinaturas; reverter essa grana para desenvolvimento de infra; desenvolver padrões e definir as funcionalidades necessárias para uma infraestrutura de publicação moderna; estratégia para estabelecer um núcleo de funcionalidades para as instituições cooperadoras/conveniadas/capes. Não é uma tarefa simples, mas imaginem de início um scihub inteiramente legal, fazendo harvesting dos repositórios das maiores universidades daqui, que seriam alimentados localmente a contento (a partir de normativas institucionais ou não). As etapas posteriores são da mudança da cultura de avaliação/punição em relação aos locais de publicação dos produtos de pesquisa (difícil demais isso aqui, como fazer os pesquisadores se desvencilhar do fator de impacto, sou pessimista).

Enfim, a proposta é, deixar de pagar assinaturas e pegar esse dinheiro e investir na implementação de uma infra. Mas por quê? Porque os editores com fins lucrativos estão cada vez se movendo da publicação somente (dentro do ciclo de vida da pesquisa) para a aquisição da infraestrutura de pesquisa. A nossa atenção somente ao paywall nos distraiu das estratégias que essas empresas estão adotando. Não existem mecanismos com força suficiente para mitigar o poder e influência dessas editoras a partir do momento que possuírem controle sobre todo o ciclo da pesquisa (pesquisa, publicação e avaliação). Não existe margem para competição e tendem a adquirir qualquer novo serviço emergente independente (como aconteceu com Mendeley e algumas ferramentas de altmetria). Trata-se da mesma linha de atuação das grandes empresas que controlam os mercados digitais: mão de obra barata ou grátis, serviço em troca da liberação de dados e privacidade, lucros altos e centralização total, não interoperáveis. Uma vez dominado o mercado é impossível não participar do modelo.

Talvez a única maneira de fazer com que os docentes/pesquisadores abandonem as editoras tradicionais (que não seja pela força de normativas) é oferecer uma infra com todas as ferramentas que vc deseja que eles usem, com tudo mastigadinho (por exemplo, o default da publicação sendo aberta e não o contrário). Justamente aqueles que não se importam ou não fazem a menor ideia, vão adotar o que for mais conveniente, rápido e grátis, para enfim poderem focar na pesquisa. Os que tem receios e tem motivos pra manter o trabalho fechado, vão pelo menos ter a chance de avaliar os benefícios. Uma vez criada a infraestrutura para os produtos de pesquisa, pensar depois em mecanismos para avaliar a qualidade da pesquisa em um cenário em que os periódicos não mais existem.

Como ter acesso a artigos científicos pagos

Uma das minhas atividades de trabalho como bibliotecário é ir até as salas dos alunos de graduação, mestrado e doutorado e ensina-los a localizar os documentos que veem nas referências das suas pesquisas. As referências são aquelas listas de artigos/livros que aparecem ao final dos artigos/livros, que contêm todas as citações e menções a outros documentos. Mesmo quem nunca fez pesquisa acadêmica é capaz de reconhecer isso na literatura tradicional e a importância desse modelo para o avanço da ciência.

Normalmente os orientadores começam o processo de pesquisa indicando uma lista de referências e o aluno tem que correr atrás desse material inicial, até começar a se aprofundar no tema e então descobrir e percorrer suas próprias referências de maneira autônoma. O meu papel é fazê-los entender a diferença entre acesso e acessibilidade, nos termos da publicação acadêmica, que é a diferença entre confirmar que um documento existe e saber onde ele se encontra, para a etapa onde é possível de fato ter acesso e consultar esse material, pegar emprestado, imprimir, baixar e ler. Independente de referências individualmente serem bastante citadas, o desafio é garantir que o aluno consiga obter a maior quantidade possível de materiais que ele precisar, na íntegra.

Mas bem, eles não conseguem sozinhos encontrar tudo que precisam, seja por falta de familiaridade com as ferramentas de busca e catálogos de bibliotecas e bases de dados ou simplesmente porque em algum momento empacam em sites de editoras científicas que cobram algumas dezenas de dólares para ter acesso ao texto completo. Quais são então as estratégias que eu uso e indico a eles para conseguir esses artigos na íntegra? Como é o meu esquema de trabalho toda vez que um professor ou aluno me manda um email dizendo “tô precisando dessa publicação, não tem no portal capes, nem no scihub, pode ajudar?”

Eu venho fazendo muito disso nos últimos 10 anos trabalhando em uma das bibliotecas da UFRJ e embora quase todos os dias seja a mesma coisa, eu nunca soube ao certo como explicar o que faço de maneira clara e coerente. Nos treinamentos que a gente oferece normalmente eu explico os passos superficiais (catálogos de biblioteca, portal capes, comut, ccn) mas sempre esquivo na parte mais complexa dizendo para os alunos não perderem tempo e mandarem pra mim a referência quando encontrarem alguma dificuldade.

Enfim, eu decidi destrinchar algumas das táticas e macetes que utilizo com mais frequência, e oferecer isso em formato de vídeo-tutoriais, onde as pessoas pudessem ver o processo de busca exatamente como eu estou fazendo no meu computador. É um curso basicão sobre como encontrar artigos científicos usando métodos não tradicionais. Serve para bibliotecários claro, mas também para qualquer pessoa interessada ou que esteja fazendo pesquisa científica. O curso é pago, tem um custo operacional da plataforma, mas combinei com o Cauê de deixar bem acessível. A primeira aula é grátis pra quem quiser ver e saber como funciona.

Lista com os 88 livros censurados na ditadura militar (1964-1985)

Na internet existem muitas reportagens sobre a lista de livros censurados no período da ditadura, mas é difícil encontrar a lista propriamente. O livro Repressão e resistência — Censura a livros na ditadura militar (Sandra Reimão, Edusp/FAPESP, 2011) reconhecidamente apresenta a mais completa lista de obras submetidas à censura. Paralelo ao livro é possível consultar uma lista de obras de ficção e não-ficção, peças teatrais e livros pornográficos disponível nos anexos da tese de livre-docência da mesma autora.

O Levantamento bibliográfico sobre censura nos meios de comunicação da Biblioteca de Pós-Graduação da Escola de Comunicação da UFRJ foi compilado em 1985 e apresenta 428 títulos, referentes ao material cedido pelos sindicatos de editores e escritores àquela biblioteca. Na Listagem da Seção: Censura Prévia — Série: Publicações da Divisão de Censura de Diversões Públicas — DCDP organizada pelos funcionários do Arquivo Nacional de Brasília constam 561 títulos, sendo 470 livros e 91 revistas. A Lista de livros proibidos pelo Ministério da Justiça (1964–1979) elaborada por Maria Mercedes Otero (tese de 2003 da UFPE), apresenta 520 títulos.

Estes levantamentos serviram de base para a pesquisa de Kelly Lima, “Onde estão os livros censurados?: ainda os efeitos de 64 nas coleções de biblioteca”, dissertação de mestrado defendida na UFF em 2016. Lima selecionou 88 livros de não-ficção censurados entre 1964 e 1985, a partir das listas mais abrangentes (ficção e não ficção, livros e revistas). As três listas podem ser consultadas como apêndice da dissertação (link acima). Abaixo os 88:

1 Actas tupamaras: uma experiência de guerrilha urbana no Uruguai
2 ALBUQUERQUE, J. A. Guilhon Movimento estudantil e consciência
3 ALBUQUERQUE, J. A. Guilhon Classes médias e política
4 ALMEIDA, Mauro U.S.A : civilização empacotada
5 ALTHUSSER, Louis La filosofia como arma de la revolucion
6 ALTHUSSER, Louis Marxismo
7 ALVES, Marcio Moreira O despertar da revolução brasileira
8 ALVES, Marcio Moreira Tortura e torturados
9 CABRAL, Alexandre Um português em Cuba
10 CARDOSO, Fernando Henrique Autoritarismo e democratização
11 CASTRO, Fidel et al. A aventura boliviana : Che Guevara
12 CHE GUEVARA, Ernesto Nossa luta em Sierra Maestra
13 CHE GUEVARA, Ernesto Socialismo y el hombre em Cuba
14 CONCEGHI, Manilo; BORIS Ivan. Solano Lopez,o Napoleão do Prata
15 CUBA. Ministério de Educação A educação em Cuba
16 CUNHAL, Álvaro Rumo à vitória
17 DAVID, Moisés MO : nova vida revolucionária
18 DEBRAY,Regis Revolução na revolução
19 FANON, Frantz Os condenados da terra
20 FANON, Frantz Sociologia de una revolucion
21 FONSECA, Rubem Feliz Ano Novo
22 GIAP, Nguyen Guerra del pueblo : exercito del pueblo
23 GIAP, Nguyen Lucha armada : fuerza armada
24 HERZOG, Philipe A união popular e o domínio da economia
25 HITE, Shere O relatório Hite
26 HUBERMAN, Leo; SWEEZY, Paul H. Socialismo em Cuba
27 HUSTON, Oliver Os degenerados da terra
28 KUCINSKI, Bernardo; TRONCA, Ítalo La violence militaire au Bresil
29 LAURENT, Faure Barran Os comunistas e o desporto
30 LAZARENTO Os sindicatos e a gestão de empresas
31 LENINE A doença infantil do esquerdismo no comunismo
32 LENIN, Vladimir Ilitch A catástrofe iminente e os meios a conjurar
33 LENINE Citações de Lenine sobre a revolução proletária e a ditadura
34 LENIN, Vladimir Ilitch O imperialismo e a cisão do socialismo
35 LENIN, V.I. Sobre a caricatura do marxismo e o economismo imperialista
36 LEVY STRAUSS Estruturalismo
37 LÖWY, Michael Método dialético e teoria política
38 MAES, Pierre A concepção de superpotência
39 MAO, TSÉ-TUNG Citações do presidente Mao Tsé-Tung
40 MAO, TSÉ-TUNG Obras escogidas
41 MIROW, Kurt Rudolf A ditadura dos carteis
42 MOÍSES, J. Alvaro et al. Contradições urbanas e movimentos sociais
43 MOURÃO FILHO, Olympio. A verdade de um revolucionário
44 MOVIMENTO Comunista InternacionalLa guerre popular em la Brasil
45 MURARO, Rose Marie A automação do homem
46 MURARO, Rose Marie A mulher na construção do mundo futuro
47 MYRDAL, Jan Uma aldeia da China Popular
48 O’CONNOR, James U.S.A : a crise do estado capitalista
49 POLARI, Alex Meu companheiro querido
50 PORFÍRIO, Pedro Canteiro de obras
51 PORFÍRIO, Pedro O belo burguês
52 POULANTZAS, Nicos. A crise das ditaduras : Portugal, Grécia e Espanha
53 PRADO JR., Caio A revolução brasileira
54 PRADO JR., Caio O mundo do socialismo
55 PREOBRAJANSKY; DEUKSARINE ABC do comunismo
56 ROJO, Ricardo Meu amigo Che
57 Revolucion política del partido comunista en Colombia
58 RIBEIRO, Darcy A universidade necessária
59 ROVETTA, Vicente El direcho a rebelar-se
60 SERRA, José et. al. América Latina : ensaios de interpretação econômica
61 SISSON, Roberto O gênio nacional da história do Brasil
62 SODRÉ, Nelson Werneck História militar do Brasil
63 SOFRI, Gianni O modo de produção asiático
64 SOLLERS, Philippe La teoria revolucionária
65 STRADA, Ezequiel M Mi experiência cubana
66 TERESHOVA, Unikelajeva O papel da mulher na sociedade: do problema
67 Textos de Che Guevara
68 TOURINHO, Nazareno Lei é lei e está acabado
69 TROSTKI, Leon La internacional comunista desde la morte de Lenine
70 URBANO, Miguel Opções da revolução na América Latina
71 VAN THAL, Hoang Guera de guerrilhas em Vietnam
72 ALMEIDA, Hélio de. Basta bastardos
73 BADIA, Joan Sariol Petita historia de la guerra civil
74 BRANDEN, Nathanie. Quem é Ayn Ran?
75 CARMELLO, Amadeu Trinta e quatro anos de desgoverno no Brasil
76 CHATELET, François Logos e práxis
77 EDWARDS, Jorge Desde la cola del dragón
78 GARROCHO, Walter de O. A revolução ganha a rua
79 GUILLEN, Abraham Estrategia de guerrilla urbana
80 KISHERMAN, Natalio Servicio social pueblo
81 LAUPINAITIS, Meldutis Eu acuso: genocídio soviético
82 POERNER Arthur José O poder jovem
83 QUADROS, Jânio Os dois mundos das três Américas.
84 RAMIREZ, Ricardo Autobiografia di uma Guerrilla
85 RAND, Ayn A nova esquerda: a revolução antindustrial
86 WILCZYNSKI, J. The economics of socialism.
87 Cinco anos : julgamento político na União Soviética
88 RAMIREZ, Ricardo Autobiografia di uma Guerrilla

Chega dessa babaquice de assediar bibliotecárias

[do original #TimesUp on Harassing Your Public Librarian, de Katie MacBride. Livre tradução de Dora e Branca]

Bibliotecárias lidam diariamente com assédio sexual em seus locais de trabalho.

O homem em frente ao balcão de referência pediu uma senha de acesso aos computadores e depois se inclinou para a frente com segundas intenções: “Você já viu o Jornada nas Estrelas original?

Imprimi a senha e sacudi a cabeça. “Não. Você está procurando os DVDs?”

“Não”, disse ele. “Você é idêntica a uma atriz da série que apareceu na lista das “Mulheres mais bonitas de Jornada nas Estrelas’! Você é a cara dela!”

Ele começou a me olhar com cobiça, com uma intimidade atípica. Tinha um olhar esquisito de tiozão, aparentando ter quase 60 anos.

Lidar com perguntas desconfortáveis dos usuários é muito comum para mim e para a maioria das bibliotecárias que lidam com o público. Decidi que a melhor estratégia seria um breve aceno (reconhecer que você ouviu o comentário para que ele não se repita) e um curto, “OK, existe algo na biblioteca que posso ajudá-lo a encontrar?”

Não havia. Ele caminhou até os terminais de consulta e eu teria esquecido a interação se ele não tivesse reaparecido alguns minutos depois.

“Você pode me ajudar a imprimir uma coisa?”

Assenti com a cabeça e o acompanhei de volta para o computador. Na tela havia uma foto de uma atriz loira e uma descrição feita pelo autor da “Lista das mais gostosas”. Lia-se, em parte, “A melhor parte dela é a fantasia sexual de ‘Eu não conheço as sensações humanas. Por favor, me ensine a beijar, abraçar, [insira aqui o ato sexual depravado]’. Oh, sim, por favor!”

O usuário olha excitadamente da tela para mim.

“Veja! Você parece exatamente com ela!”

Dei de ombros.

“Bem, eu quero imprimir essa foto dela”. Ele insistiu. “Vocês tem uma impressora a cores?”

Nós tínhamos. Mostrei-lhe como ampliar e imprimir a imagem. Ele deixou a biblioteca pouco depois, acenando a foto para mim e piscando antes de sair.

Quando o movimento #TimesUp surgiu (Time’s Up é um movimento contra o assédio sexual fundado por celebridades de Hollywood), fiquei satisfeita ao ver o foco no setor de serviços, onde parte significativa do trabalho é ser simpática e estar disponível para clientes e usuários. Porque a verdade é que toda mulher/feminina/cis/trans/bibliotecária tem dezenas de histórias como esta; incômodas, mas inofensivas interações de assédio. Nós reviramos os olhos na sala de funcionários, reclamamos a nossos amigos e pessoas próximas depois de ofensas particularmente flagrantes, mas tendemos a considerar essas ofensas como uma parte infeliz porém inevitável do trabalho. Uma das minhas ex-colegas descreveu perfeitamente o assédio na biblioteca como: “Eu apenas me lembro do sentimento ruim de ser um público cativo”. Afinal, o assédio sexual é sobre poder e vulnerabilidade e um público cativo – como a bibliotecária que não pode se recusar a mostrar ao homem como usar uma impressora – é um público vulnerável.

Muitas vezes, discussões sobre o assédio sexual no local de trabalho focam nas interações entre funcionários e supervisores. Há uma boa razão para isso; os supervisores têm influência, quando não têm o controle total, sobre quem é contratado e demitido. Quando se trabalha no setor de serviços, no entanto, manter o cliente satisfeito costuma ser tão importante quanto manter o chefe feliz. O funcionário que não ri da piada do cliente ou se ofende quando perguntado sobre sua vida amorosa é vulnerável a queixas à gerência. As pessoas que não trabalham em setores de serviços podem se surpreender com a rapidez com que não rir de uma piada sobre a aparência de seu uniforme, segundo a vontade do cliente, pode se transformar em queixas ao seu gerente sobre seu mau comportamento; ou como rejeitar um convite para sair pode se transformar em falsas alegações sobre seu suposto terrível desempenho no trabalho.

Normalmente, essas interações ocorrem dentro de uma janela de tempo limitada. Você serve um jantar para o seu assediador, ele faz comentários inapropriados, mas depois, inevitavelmente, vai embora. Mas e se o usuário nunca precisasse ir embora? E se alguém pudesse entrar no seu local de trabalho, fazer-lhe quantas perguntas quisesse sobre praticamente qualquer assunto, desde o momento em que as portas se abrem de manhã até fecharem à noite?

Funcionárias de bibliotecas públicas são profundamente comprometidas com o acesso. Acreditamos que a biblioteca deve ser aberta a todos e queremos que os usuários se sintam confortáveis ao pedir informações sobre quase qualquer coisa. Você quer informações sobre doenças sexualmente transmissíveis? Sem problemas. Livros sobre sexo tântrico? Por aqui. Nós permanecemos dispostas, amigáveis e acessíveis porque queremos que vocês saibam que não julgamos suas necessidades de informação.

Mas isso também faz do nosso trabalho um terreno fértil para o assédio sexual. Tecnicamente, não há motivo para que um usuário não possa sentar-se em uma mesa vazia e olhar para a bibliotecária o dia todo, pedir ajuda para configurar um perfil de namoro online ou imprimir material explícito. Em muitos casos, não há nada de errado com o comportamento mencionado acima e é isso o que dificulta as coisas. Os bibliotecários resguardam fanaticamente o direito dos usuários de fazerem de tudo, o que torna o assédio sexual tão recorrente nas bibliotecas públicas – até o ponto em que isso se torna um abuso.

Existe um caráter de gênero para o assédio sexual em bibliotecas que é impossível ignorar. Em 2015, a categoria de bibliotecários era composta de uma maioria desproporcional de mulheres (elas representavam 83% de todos os bibliotecários) e, embora o assédio sexual possa acontecer com qualquer gênero, é frequentemente perpetrado contra mulheres. Como diz Kelly Jensen, uma editora contribuinte para a Book Riot e bibliotecária pública: “Quando você trabalha na posição de atendimento ao público, ser mulher é uma desvantagem.” As mulheres não brancas e as pessoas LGBT+ sofrem assédio em taxas particularmente altas. Junte a isso o entusiasmo de todos os bibliotecários (independentemente do gênero) para ajudar e não é difícil ver como a linha entre ter acesso a informações e ter acesso à bibliotecária fornecendo essas informações para você é tênue na mente de algumas pessoas. Às vezes, parece que os homens veem as bibliotecárias como as secretárias da era “Mad Men” que eles nunca tiveram.

A gestão de bibliotecas varia amplamente quando se trata de implementar políticas para lidar com essas situações. A American Library Association não fornece diretrizes ou recursos para lidar com o assédio sexual, seja de usuários ou colegas. Sem essa orientação, cabe às bibliotecas criar políticas individuais para lidar com o assédio de usuários.

Em qualquer cenário de assédio sexual no local de trabalho, não é suficiente apenas conscientizar os funcionários sobre as políticas que os protegem. A gerência também tem de apoiar essas políticas, tomando medidas quando for necessário. Isso nem sempre acontece. Descobri isso em primeira mão quando fui denunciar para meu chefe os constantes assédios por parte de um usuário. Quando relatei esse recente caso de comportamento inadequado, meu chefe perguntou: “Bem, quantos anos ele tem? É possível que você esteja apenas…” Meu chefe se afastou, parecendo implicar que eu estava simplesmente exagerando sobre um homem mais velho que não tinha consciência que estava sendo inapropriado.

Na minha experiência e na experiência de muitas outras bibliotecárias que conheço, a administração geralmente reluta em abordar o problema do assédio sexual – especialmente se for verbal e não físico – pelo medo de gerar repercussões negativas em relação à biblioteca. As bibliotecas públicas necessitam que o público as valorize; quando uma biblioteca de bairro está à beira de ser fechada, muitas vezes os usuários (talvez até os usuários que se envolveram em assédio) se reúnem para nos manter abertas. São cidadãos que aprovam e pagam impostos que mantêm as bibliotecas em atividade. Eu entendo isso. É por isso que passei tantos anos engolindo sapos em relação a comentários sobre como eu realmente pareceria a “bibliotecária sexy” se eu usasse óculos.

Sem padrões formalizados e uma gestão pró-ativa, os bibliotecários fazem o que as pessoas vulneráveis ao assédio sempre fizeram. Nós sussurramos, nós avisamos. Impedimos o usuário que tem a intenção de perseguir a bibliotecária vá até a sala reservada aos funcionários. Se tivermos a sorte de nos depararmos com isso a tempo. Se outros funcionários da biblioteca estiverem presentes naquele momento. Se ele puder ser impedido.

Os bons bibliotecários são alquimistas que transformam as bibliotecas de um edifício com livros e computadores em um vibrante centro de informações e exploração. As bibliotecas precisam dessas pessoas apaixonadas e dedicadas que querem que ela continue existindo. E chegou a hora da American Library Association reconhecer e abordar a realidade do assédio sexual nas bibliotecas. Chegou a hora da gestão de bibliotecas e dos governos das cidades e dos estados aos quais estão afiliadas defenderem inequivocamente o direito das bibliotecárias de atenderem ao público livres de assédio sexual, físico ou verbal. As bibliotecárias apoiam nossas comunidades e é hora de exigir o apoio a elas em troca. Nosso #TimesUp está atrasado.